Rio de encantos mil, por Cristiane d´Avila

Rio de encantos mil

Cristiane d´Avila*

 

Este artigo é uma homenagem à natureza do Rio de Janeiro imortalizada nas belas fotografias e nos negativos de vidro sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz. São imagens da paisagem natural, do início do século XX, registros de um tempo em que a cidade ainda mantinha sua vegetação quase intocada, distante das intervenções urbanísticas que a transformariam. Nelas, é possível viajar no tempo em busca da cidade imaginada, “esfinge amorosa”, como bem definiu o carioca Carlos Lessa. Rio dos cronistas e escritores, músicos e pintores; Rio do encantamento e das ruas que têm alma; Rio cartão-postal, Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do Brasil.

 

 

Acessando o link para as fotografias das belezas naturais do Rio de Janeiro do  acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A beleza natural do Rio de Janeiro inspira, há séculos, viajantes e artistas das mais variadas nacionalidades e tendências. Narrada em prosa, cantada em versos, retratada em óleo e aquarela ou revelada pela fotografia, a natureza do Rio jamais deixou de despertar encantamento. Ainda hoje, impressiona pela harmoniosa combinação entre montanhas, mar e vegetação, singularidade reconhecida e admirada no mundo inteiro.

 

 

No século XIX, a paisagem carioca fascinava a Europa por meio das fotografias de Marc Ferrez (1843-1922) e dos panoramas imortalizados por George Leuzinger (1813-1892). Nesse mesmo período, artistas como Émile Taunay (1795-1881), Victor Meirelles (1832-1903) e William Smith (1769-1839) produziram imagens idílicas da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Baía de Guanabara, da Floresta da Tijuca, da Gávea, da Praia de Botafogo e de Santa Teresa. Para esses artistas, a natureza estava longe de ocupar um papel estático no imaginário nacional: ela adquiria protagonismo próprio, convertendo-se em expressão viva de uma nação concebida sob os signos da riqueza e exuberância natural.

 

 

O mesmo ardor que exaltava, e ainda hoje celebra, a beleza do Rio de Janeiro, também alimentava movimentos de resistência à degradação de suas riquezas naturais. Moradores e visitantes, movidos por afeição declarada pela paisagem carioca, produziram discursos ora entusiasmados, ora melancólicos, em defesa de sua preservação. Manifestações suscitadas pelo avanço do crescimento urbano sobre sua natureza pujante, porém vulnerável, símbolo da identidade nacional, permanecem até hoje inscritas no imaginário coletivo.

 

 

Segundo o historiador e crítico de arte Giulio Carlo Argan (1909 – 1992), a natureza nunca perdeu o lugar do mito e do sagrado na construção da cidade. Ela compõe o espaço do não construído, não protegido, não organizado, que tremula ao redor do recinto sagrado erguido pela civilização. Representa, para o autor, “o limite, a fronteira entre o habitado e o inabitável, entre a cidade e a selva, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada, incomensurável do ser”. Daí o símbolo da beleza, a “cidade maravilha”, o emblemático cartão-postal não ter sua imagem suplantada pela do Rio “partido”, na expressão cunhada pelo jornalista Zuenir Ventura (1931 -), o Rio da violência, da degradação ambiental – purgatório do caos.

 

 

Em Cronistas do Rio, a ensaísta Beatriz Resende (1948-) apresenta a cidade como parte integrante e inseparável da vida de seus moradores e motivo de inspiração, de juras apaixonadas e também de indignação diante de sua descaracterização. Resende recupera, nesse contexto, o olhar de Machado de Assis (1839 – 1908) e seu apego “quase provinciano” às marcas autênticas da cidade, perceptível na melancolia com que lamentava, em suas crônicas, a derrubada de uma árvore ou o aterramento de uma praia, ocasionadas pela remodelação urbana do centro do Rio conduzida pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX.

 

 

Em seu Lima Barreto e o Rio de Janeiro em Fragmentos, Beatriz Resende ressalta a paixão do escritor pela cidade. Segundo a autora, a contemplação da paisagem carioca, suas formas, cores e atmosferas naturais, fez com que Lima considerasse a perda de uma casa, uma árvore, o pior dos castigos. Na obra, ela observa ainda que, em seu Diário Íntimo, Lima Barreto (1881 – 1922) descreve sua “amada”, a cidade, em passagens marcadas por uma sensualidade quase erótica, nos quais a natureza é expressada com delicadeza e lirismo: “As ondas verde-claro rebentam antes da praia em franjas de espuma. Pelo ar havia meiguice, e blandícias tinha o vento a sussurrar”.

 

 

No livro de contos Marcovaldo ou As Estações na Cidade, do escritor e jornalista Italo Calvino (1923 – 1985), a natureza está além das fronteiras da cidade, ela está afastada, quase inacessível, destacada do frenesi urbano. No universo fantástico do escritor, acolhe aqueles que escapam à lógica rígida da vida moderna — figuras deslocadas, capazes de perceber o sublime, o ilimitado e tudo aquilo que a cidade tenta conter ou silenciar. Nos contos, o protagonista Marcovaldo transita no espaço urbano sem jamais pertencer inteiramente a ele, como observador suspenso entre dois mundos. Nesta obra de Calvino, a natureza assumirá a função de refúgio e deslocamento, de instrumento capaz de proporcionar instantes de plenitude e efêmera esperança, quase sempre atravessados pela aridez da experiência urbana e a fugacidade da vida moderna.

 

 

A natureza do Rio de Janeiro surge ainda como cenário de acontecimentos singulares e memoráveis vividos pelo jornalista e cronista carioca João do Rio (1881-1921). Durante a passagem da bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927) pela cidade, em 1916, ele e o escritor Gilberto Amado (1887-1969) conduziram a artista em um passeio noturno à praia de Ipanema e à Cascatinha da Tijuca. Raimundo Magalhães Júnior (1907 – 1981), primeiro biógrafo do jornalista, rememorou o episódio relatado a ele por Gilberto Amado na obra A vida vertiginosa de João do Rio:

“Foram à Cascatinha, que [Duncan] já vira e queria rever ao clarão da lua. Isadora atordoou-se com o vozeio assombrador da mata”. Segundo Gilberto, a cena culmina na cascata da Floresta da Tijuca, onde a artista se banhou ao luar, nua, em um gesto de entrega e fascínio diante da exuberância natural: “foi acometida de uma espécie de delírio no meio dos sibilos, uivos e gemidos da mata, interrompidos apenas pelo som das ondas quebrando na praia. Oh God!, largou Isadora como que acordando”. Em carta ao amigo português João de Barros, João do Rio declara paixão avassaladora pela bailarina: “passei os 15 dias mais felizes da minha vida no êxtase amoroso, no verdadeiro amor, com uma criatura que é gênio, Bondade divina – tudo. Essa criatura que me olhou que me desejou, que quase me faz secretário humilde foi Isadora. Nunca amei assim! A minha vida está dentro do sol. Meu Deus! Mas é assim o amor? Eu só o senti assim agora aos 35 anos! Foi transfiguração”.

É o Rio de Janeiro que apaixona e arrebata!

 

 

 

*Cristiane d´Avila é é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 213.

CALVINO, Italo. Marcovaldo ou as estações na cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo de. A vida vertiginosa de João do Rio. Brasília: Civilização Brasileira, 1997, p. 267.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Rio de Janeiro: ed. UFRJ: Ed. UNICAMP, 1993, p. 99.

RESENDE, Beatriz (Org.). Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

RIO, João do. Cartas de João do Rio: a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Introdução, organização e notas: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2012, p. 252.

O centenário da morte de João do Rio (1881 – 1921), o cronista da “belle époque” carioca

Em sua época, Paulo Barreto (1881 – 1921), o João do Rio, era considerado o príncipe dos cronistas brasileiros: “Era um espírito de escol, educado, viajado, e enobreceu, quanto pode, as letras do país conquistando um nome imortal pela glória constante do trabalho (Bahia Illustrada, junho de 1921). Foi o primeiro grande repórter da imprensa brasileira do século XX e sua produção oscilava entre a reportagem e o conto.

Morou, a partir de fins da década de 1910, em uma casa na praia de Ipanema, na rua Vieira Souto, nº 476, registrada por Chapelin (18? – 19?), fotógrafo sobre o qual se sabe muito pouco. Anteriormente, João do Rio morava na rua Gomes Freire, na Lapa. Segundo o jornalista e historiador Raimundo Magalhães Junior (1907 – 1981), a casa deve ter sido adquirida, a preço de propaganda, desse espírito empreendedor o esquecido Raul Kennedy de Lemos (1880 – 1951), fundador da Companhia Construtora Ipanema. João do Rio comprou outra casa para sua mãe, também em Ipanema, na rua Prudente de Moraes, 391.

 

 

Pouco antes, ele havia escrito a crônica Praia Maravilhosa em homenagem ao bairro (O Paiz, 23 de maio de 1917). O título faz uma referência à expressão Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, nome do livro onde os poemas Amor ao Rio, de autoria da francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados em 1913. Ela havia passado uma temporada, de setembro a dezembro de 1911, no Rio de Janeiro, quando se encantou pela cidade (O Paiz, 20 de setembro, quarta coluna; e 6 de dezembro, primeira coluna de 1911).

 

 

Voltando à crônica de João do Rio sobre Ipanema. Nela, ele evidencia seu entusiasmo pela beleza assim como traça o perfil do bairro, ainda recente e pouco habitado. Sobre a crônica, Magalhães Junior comentou que dava a “impressão de um prospecto predial. É claro que não poderia ter sido coisa desinteressada, pois João do Rio não era ingênuo ao ponto de se deixar arrastar por alguém cujo interesse estava perfeitamente caracterizado: criar ambiente favorável à venda de lotes de terreo e de casa a prestações”. Mas tudo indica que os elogios do cronista eram sinceros tanto que pouco tempo depois mudou-se para o bairro.

 

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Um pouco da história de Ipanema

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? – 1885), um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então, um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi água ruim e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A Villa Ipanema foi inaugurada, em 15 de abril de 1894, pelo barão e por seu sócio José Silva com a presença do prefeito Henrique Valladares, que no mesmo dia inaugurou a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da Igrejinha, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano (Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1894, terceira coluna). Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro Villa Ipanema, com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de vila até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro. Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

 

Um pouco da vida de Paulo Barreto, o João do Rio (1881 – 1921)

 

 

“Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?”

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Carioca, filho do matemático positivista Alfredo Coelho Barreto e da dona de casa Florência Cristóvão dos Santos Barreto, João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 5 de agosto de 1881. Em 1899, iniciou sua carreira no jornalismo, tendo colaborado, ao longo de sua vida, em diversas publicações, dentre elas O Paiz, A Noite, A Pátria, Revista Ilustrada, Rio-Jornal e a Gazeta de Notícias, onde ficou de 1903 a 1915, e onde assinou pela primeira vez como João do Rio, pseudônimo pelo qual tornou-se mais conhecido, no artigo O Brasil lê, publicado em 26 de novembro de 1903, uma enquete dos autores preferidos dos cariocas. Teve outros pseudônimos, dentre eles Claude, Caran d’Ache, Joe e José Antônio José. Assinou colunas importantes como “A cidade” (1903 a 1904), “O instante”(1912 a 1916), À margem do dia”(1913 a 1915), “Cinematógrafo” (1907 a 1910), todas na Gazeta de Notícias; “Pall-Mall Rio” (1915 a 1917), em O Paiz; “A Semana Elegante” (1916), na Revista Ilustrada; e “Notas de Teatro” (1918), no Rio-Jornal. Seus mais importantes personagens foram a cidade do Rio de Janeiro e ele mesmo, um dândi nos trópicos.

 

 

Entre 1902 e 1906, o Rio de Janeiro teve como prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) que realizou na cidade uma significativa reforma urbana. Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Em sua obra, que fundia a crônica com a reportagem, João do Rio escrevia sobre essas transformações, contribuindo para a formação da imagem desse novo Rio de Janeiro.

 

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem…É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. “

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Em 1902, tentou ingressar no Itamaraty mas foi recusado pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912)  que justificou a decisão dizendo que as nomeações para a vaga pleiteada por João do Rio na comissão que estava organizando para tratar das questões da fronteira entre Brasil e Colômbia já haviam sido preenchidas por Enéias Martins, que chefiaria a missão. Segundo o professor Renato Cordeiro Gomes em seu livro João do Rio: vielas do vício, ruas da graça, na verdade teria sido recusado por ser “gordo, amulatado e homossexual“. O Brasil perdeu um diplomata e ganhou um notável jornalista/escritor. Sobre o trabalho na imprensa, em sua coluna “Cinematógrafo”, o definiu como “o voluntário cativeiro para o qual não há abolição possível” (Gazeta de Notícias, 10 de maio de 1908, sexta coluna). Produziu para a Gazeta de Notícias, as séries de reportagem  Religiões do Rio , em 1904, e O Momento Literário, em 1905, que foram posteriomente compiladas e publicadas pela Garnier.

Em 12 de agosto de 1910, tomou posse na Academia Brasileira de Letras – havia sido eleito em 7 de maio. Foi recebido por Coelho Neto (1864 – 1934)(Site da ABL). Foi o primeiro a acadêmico a ser empossado com o “fardão dos imortais”, ideia do também acadêmico Medeiros e Albuquerque (1867 – 1934).

 

 

Foi o responsável pelo texto do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 1913, com fotografias produzidas pelo ateliê Photographia Musso, também editor do livro. O teatro, inaugurado em 14 de julho de 1909, é uma das mais importantes salas de espetáculo da América do Sul, seu prédio é um dos mais bonitos e imponentes da cidade e sua história mistura-se à trajetória cultural do Brasil.

 

 

Link para o pdf do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro (1913) com texto de Paulo Barreto, o João do Rio, e imagens produzidas pela Photo Musso, também editora do livro.

A Photographia Musso, dirigida por Alfredo Musso, ficava na rua Uruguaiana, nº 12 (Almanak Laemmert, 1913, primeira coluna). Alfredo era irmão de Luis Musso (18? – 1908), que havia sido sócio do estabelecimento fotográfico do português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), onde Alfredo havia trabalhado (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima colunaO Paiz, 19 de outubro de 1900, sexta coluna). Luis Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1904, tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luis Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira. Quando o álbum do Theatro Municipal foi publicado Luis Musso já havia falecido (O Paiz, 1º de agosto de 1908, sexta coluna).

Voltando a João do Rio. Em 8 de agosto de 1916, sob o pseudônimo José Antônio José, publicou na coluna “Pall-Mall-Rio” a crônica Clic! Clac! O fotógrafo!, em que discorreu sobre a “loucura da fotografia” (O Paiz, 8 de agosto de 1916, sexta coluna).

 

 

Em 1917, foi um dos fundadores e passou a dirigir a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – Sbat. Em 1920, fundou o jornal A Pátria, onde defendia os interesses da colônia portuguesa, que seria prejudicada pela nacionalização da pesca. Por seu posicionamento, foi muitas vezes ofendido, tendo sido surrado por nacionalistas – o capitão de fragata Frederico Vilar e cinco jovens oficiais – quando almoçava sozinho em um de seus restaurantes preferidos, o da Brahma (O Paiz, 3 de outubro de 1920, terceira coluna).

Faleceu em 23 de junho de 1921, quando teve um enfarte dentro de um táxi na rua Bento Lisboa (O Paiz, 24 de junho e 25 de junho de 1921). Foi velado na redação do jornal A Pátria. Seu enterro, um dos mais concorridos realizados no Brasil, só comparável aos do presidente Getulio Vargas (1882 – 1954), da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) e do estudante Edson Luis (1950 – 1968), foi acompanhado por cerca de 100 mil pessoas. Seus restos mortais estão sepultados em uma tumba de mármore italiano e bronze, no Cemitério de São João Batista e é considerado um dos mais belos trabalhos de arte funerária no Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de junho de 1921, terceira colunaGazeta de Notícias, 27 de junho de 1921; O Paiz, 28 de junhvido de 1921, primeira coluna). Sua biblioteca foi doada por sua mãe ao Real Gabinete Português de Leitura.

 

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João do Rio deixou uma vasta obra e entre seus livros mais importantes, destacam-se  A alma encantadora das ruas (1908),  Vida vertiginosa (1911) e Rosário da Ilusão (1919). Como teatrólogo, seu maior sucesso foi A bela madame Vargas, que estreou em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal (Correio da Manhã, 22 de outubro de 1922Revista da Semana, 26 de outubro de 1912). Outras de suas peças foram Chic-chic (1906) e Clotilde (1907). Traduziu obras do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900).

 

 

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Ao longo de sua vida viajou quatro vezes à Europa e conviveu com importantes personalidades do mundo cultural e artístico, dentre elas a bailarina Isadora Duncan (1877 – 1927), que esteve no Rio de Janeiro, em 1916 (Revista da Semana, 9 de setembro de 1916). ”…relatos de Gilberto Amado revelam a cumplicidade dos dois (Isadora e João do Rio): conversavam em várias línguas e não se desgrudavam. Isadora fez até uma apresentação exclusiva para o amigo e seu protegido na Cascatinha da Tijuca: tirou não só o sapato mas a roupa inteira, bailando envolta em filó”Em suas memórias, Isadora diz: ”Aí conheci o poeta João do Rio, muito querido pela mocidade do Rio, onde aliás todos parecem poetas. Quando passeávamos, éramos seguidos pela rapaziada que gritava: ‘Viva Isadora!’, ‘Viva João do Rio!”’ (O Globo, 13 de abril de 1996).

 

 

Apesar de sua grande popularidade, segundo seu biógrafo, João Carlos Rodrigues,  João do Rio “teve muitos desafetos que o atacavam por sua afrodescendência e homossexualidade“. Logo no primeiro número de O Gato, Álbum de Caricaturas, em julho de 1911, revista desenhada por Seth (1891 – 1949) – pseudônimo de Álvaro Martins – e Hugo Leal – pseudônimo do português Vasco Lima (1883 – 1973) – foi caricaturado ao lado do poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) apreciando uma escultura do imperador Heliogábalo nu. Na legenda, um suposto diálogo entre os dois escritores, que haviam estado recentemente na Itália: “- Soberbo, hein? – Que delicioso seria se todos os homens fossem assim!”.

 

 

O Globo, 13 de abril de 1996

O Globo, 13 de abril de 1996

 

A professora e feminista portuguesa Mariana Coelho, personagem do artigo Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicou uma homenagem a João do Rio, na ocasião da morte do escritor:

 

 

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Link para a crônica João do Rio na vitrina, de autoria de Carlos Drummond de Andrade (1987 – 1902), publicada no Jornal do Brasil de 13 de agosto de 1981, na ocasião do centenário de nascimento de João do Rio, quando a Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal Brasiliana Fotográfica, realizou uma exposição em homenagem ao aniversariante.

 

 

A Rua

João do Rio

 

 

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:

         Je suis la rue, femme éternellement verte,

         Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte

         Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis

         Que ce pénible monde est monde, je la suis…

(Eu sou a rua, mulher eternamente verde, jamais encontrei outra carreira aberta senão a de ser a rua e, por todo o tempo; desde que este penoso mundo é mundo, eu a sou…)

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” E Domingos Vieira, citando as Ordenações: “Estradas e rua pruvicas antigamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas.” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias, manuseei in-fólios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações…

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdã, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues e todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam e lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’oiro que se faz lama e torna a ser poeira – a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível; é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar: É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti, de casaca, aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja…

                                                  A alma encantadora das ruas (1908)

 

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

 

Link para o filme sobre a vida de João do Rio, De lá prá cá, parte 1 e parte 2.

Link  para cartas enviadas por João do Rio para o político e pensador português João de Barros (1881 – 1960), publicadas no Correio IMS.

A jornalista Cristiane d´Avila, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, organizou um site com textos inéditos de João do Rio onde estão disponibilizadas s 52 colunas “Bilhete” do jornal A Pátria, fundado pelo escritor. Acesse aqui.

Leia aqui as crônicas João do Rio (mas não só), de Humberto Werneck; e Flanar com João do Rio, de Guilherme Tauil, ambas publicadas no Portal Crônica Brasileira.

Acesse aqui o site bilhetesdejoaodorio.com.br, que reúne as últimas colunas de João do Rio para o jornal A Pátria. É de autoria de Cristiane d´Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e uma das mais constantes colaboradoras do portal. Ela é também autora de livros sobre o escritor que estão na relação de fontes utilizadas para a elaboração deste artigo.

Entre 9 e 13 de outubro de 2024, João do Rio foi o homenageado da 22ª edição da Flip- Festa Literária Internacional de Paraty.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Nota da editora: os últimos dois parágrafos do artigo foram acrescentados em outubro de 2024.

 

Fontes:

ANTELO, Raul. João do Rio – O dândi e a especulação. Rio de Janeiro : Livraria Taurus-Timbre Editores, 1989.

COSTA, Luis Ricardo Araújo. O Cinematographo de João do Rio; fotogramas de uma cidade em movimento, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

D’AVILA, Cristiane. João do Rio a caminho da Atlântida: por uma aproximação luso-brasileira. Rio de Janeiro: Faperj/Contra Capa, 2015.

Enciclopédia Itaú Cultural 

GAWRYSZEWSKI, Alfredo (organizador). Imagem: Artefato cultural. Londrina : Eduel, 2017.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio: vielas do vício, ruas da graças. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996. Série Perfis do Rio, n. 13.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio. Rio de Janeiro : Agir, 2005.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978.

O Globo, 19 de junho de 2021

O Globo, 23 de junho de 2021 – Coluna de Joaquim Ferreira dos Santos.

RIO, João do. Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Introdução, organização e notas: Cristiane d’Avila; prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: Funarte, 2012.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro : Topbooks, 1996.

RODRIGUES, João Gabriel. João do Rio e as representações do Rio de Janeiro: o artista, o repórter e o artifício, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

SCHAPOCHNIK, Nelson. João do Rio, um dândi na cafelândia. São Paulo : Boitempo Editorial, 2004.

Site da Academia Brasileira de Letras