“Sertões distantes” por Ricardo Augusto dos Santos

Sertões Distantes

                                                                                                 Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

 

“Se raros escapam à doença, muitos têm duas ou mais infestações. Veem-se, muitas vezes, confrangido e alarmado, nas nossas escolas públicas, crianças a bater os dentes com o calafrio das sezôes… E isso não nos confins do Brasil, aqui no Distrito Federal, em Guaratiba, Jacarepaguá, Tijuca… Porque não nos iludamos, o nosso sertão começa para os lados da Avenida Central.

Discurso Pronunciado por Afrânio Peixoto em 19/05/1918

 

Esta frase de Afrânio Peixoto (1876-1947) marcou o campo intelectual nas primeiras décadas do século XX. Estava em pauta qual era a verdadeira identidade do país. Alguns afirmavam que existia uma divisão entre o Brasil real e o ideal. Este último representado pelas cidades do litoral e instituições republicanas. Enquanto o verdadeiro habitava os sertões distantes. Eram constantes as referências críticas realizadas por um determinado grupo de intelectuais. Eles apresentavam o desconhecimento do Brasil profundo por amplas parcelas da sociedade.

No entanto, para os autores ufanistas, o Brasil era um paraíso terrestre. O sanitarista Belisário Penna (1868-1939) lamentava que esses agentes sociais, iludidos por uma visão edênica, pensassem o país através das reformas urbanas que transformaram uma parte do centro do Rio de Janeiro numa Paris Tropical. Penna criticava a ausência de uma consciência da nacionalidade. Confirmando a frase de Afrânio Peixoto – os sertões começam no fim da Avenida Central!!-, Penna advertia os idealistas da nação imaginada: Voces estão enxergando o país como um paraíso, pois vivem nas avenidas recém-construídas à beira-mar. Para o sanitarista, os intelectuais ufanistas, deslumbrados com a reforma que derrubou cortiços e importou pardais, eram detentores de um “monopólio do saber”, mas não conheciam a “realidade dos fatos”, pois “na sua quase totalidade não conhecem do Brasil senão o trecho que vai da praia de Ipanema à cidade de Petrópolis.” Para Penna, eram um “grupinho, sem documentação e sem base”.

Mas, como Belisário Penna e Afrânio Peixoto chegaram a essas conclusões? Lembrando que, segundo os críticos mais realistas e rígidos, nunca alcançaríamos o progresso das demais nações.

Percorrendo o interior do país entre 1911 e 1913, as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz desempenharam um papel fundamental no debate sobre os problemas nacionais, influenciando as propostas do movimento sanitarista em relação ao progresso do país. Essas viagens forneceram as representações sociais que ainda hoje inspiram o imaginário social. Penna integrou uma das viagens científicas que rasgaram o país, visitando as mais distantes localidades. O diagnóstico da realidade fez com Belisário Penna qualificasse de forma especial sua pregação pelo saneamento. Não se via como mais um intelectual a falar, mas como alguém que conhecera de perto o Brasil real.

 

 

O tema do combate às doenças não serviu apenas de justificativa para expedições científicas e campanhas de saneamento, mas como ideologias de construção nacional. Falar dos sertões abandonados, habitados por um povo doente, mas capaz de produzir, depois de curado, tornava-se necessário para convencer os políticos, fazendeiros e industriais de que, acima das diferenças que marcavam o país, havia os interesses nacionais.

As expedições científicas exerceram, portanto, um ato político extremamente relevante: um projeto de nacionalidade. A ciência orientaria os peregrinos da modernização. Em nome desse projeto justificavam-se as iniciativas higienizadoras dos corpos, cidades e instituições. Esse era o projeto da nacionalidade brasileira. Um ideal a ser perseguido. A construção da nação brasileira nascia sob o signo da doença, miséria e ignorância.

 

 

Ao atribuir uma condição inferior do país em relação às nações devido à ausência de saúde e educação, Penna e os sanitaristas apresentavam uma solução original para a tragédia nacional, recusando os determinismos biológico, climático e geográfico, ainda predominante no pensamento social brasileiro. Por que somos miseráveis se o país é tão rico? Porque conhecemos tantos problemas, se nossas florestas são plenas de riquezas? Por que somos um povo doente e pobre?

 

 

Um dos projetos sanitários executados pelo estado foi o aterro de pântanos e saneamento de rios nos arrabaldes do Rio de Janeiro. Portanto, nosso sertão estava muito perto. Como sugerem centenas de fotografias dos fundos documentais de Belisário Penna e da Fundação Rockffeler, ambos sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, o Brasil abandonado estava a poucos quilômetros das novas avenidas, do porto recém-construído e dos prédios monumentais, como a Biblioteca Nacional e Teatro Municipal.

No Fundo Pessoal Belisário Penna, estão depositadas mais de 1.500 fotografias, reunindo imagens de familiares e amigos, bem como de sua atuação política e profissional. No entanto, desejamos resgatar as imagens das obras de saneamento no Rio de Janeiro e demais estados. Documentando as obras do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural encontramos 529 imagens.

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz.

 

Fontes: 

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil in Brasiliana Fotográfica, 28 de setembro de 2018.

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. A Fundação Rockefeller no Brasil in Brasiliana Fotográfica, in Brasiliana Fotográfica, 15 de julho de 2024.

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. BELISÁRIO PENNA (1868-1939). In: DANTAS, Carolina Vianna & ENGEL, Magali. (Org.). Trajetórias e sociabilidades intelectuais no Rio de Janeiro (séculos XIX e XX).1º ed. Rio de Janeiro: Editora Contracapa, 2017, p. 158-168.

 

 

 

 

 

A Fundação Rockefeller no Brasil

A Fundação Rockfeller no Brasil

 Ricardo Augusto dos Santos*

Em 2022, a Casa de Oswaldo Cruz (COC) recebeu o certificado da incorporação do Fundo Fundação Rockefeller ao Programa Memória do Mundo da Unesco. O organismo internacional reconheceu o acervo como patrimônio documental inestimável. Sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da COC, este conjunto retrata as ações do Serviço Nacional de Febre Amarela e do Serviço Nacional de Malária e contém 4.209 fotografias e 633 negativos. Algumas são imagens raras de cidades e pequenas comunidades.

 

Acessando o link para as imagens do Fundo Fundação Rockfeller da Casa de Oswaldo Cruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O arquivo abrange as ações realizadas pela Fundação Rockefeller no Brasil. Com milhares de fotos dos estados brasileiros Rio de Janeiro, Bahia e Ceará, mostra os serviços executados pela instituição em conjunto com o governo brasileiro na eliminação do mosquito Aedes aegypti, vetor da febre amarela, e do mosquito Anopheles gambiae, vetor da malária.

 

 

O arquivo das Séries do Fundo Fundação Rockefeller está dividido em séries documentais: a Série Serviço de Febre Amarela, a Série Serviço de Malária do Nordeste, a Série Exposições do Serviço de Febre Amarela e do Serviço de Malária do Nordeste; além da Série Fotografias Aéreas.

Neste artigo, apresentamos imagens da Série Serviço de Febre Amarela. Com fotos sobre a campanha de erradicação do mosquito Aedes aegypti nos estados brasileiros, além de imagens das pesquisas sobre a forma silvestre da febre amarela e o processo de produção da vacina contra a doença. Uma outra série, Serviço de Malária do Nordeste, contém os registros da eliminação do mosquito Anopheles gambiae, vetor da malária, durante a epidemia da doença ocorrida no Nordeste do país, em 1939. As fotografias também documentam o processo de produção da vacina contra a febre amarela, produzida em Manguinhos.

 

 

Inúmeras expedições percorreram o Brasil em busca de informações que pudessem explicar a diversidade natural e social do imenso país. Cientistas e aventureiros viajaram por várias regiões realizando pesquisas e colhendo amostras. Durante o século XIX e nas décadas iniciais do século passado, várias missões científicas ocorreram no país. Entusiasmados pelas conquistas técnicas, especialistas em ciências naturais excursionaram pela imensidão do território brasileiro. Muitas viagens foram documentadas através de pinturas, desenhos e fotografias.

No início do século XX, a Fundação Rockefeller iniciou uma série de projetos médicos e científicos no Brasil. Nesta época, várias iniciativas semelhantes estavam sendo criadas nas áreas da saúde pública internacional. Na origem, esse projeto assistencial da Fundação Rockefeller se restringia ao sul dos Estados Unidos. No entanto, suas atividades foram ampliadas para países que possuíam graves problemas sanitários, necessitando derrotar doenças como a ancilostomíase, a febre amarela e a malária.

Através de convênios com o governo brasileiro, o grupo industrial e financeiro norte-americano, liderado pelo bilionário John Davison Rockefeller (1839-1937), entrou em contato com cientistas e médicos nacionais. Assim, a Rockefeller chegou ao país. Após a criação de um acordo de cooperação com o estado brasileiro, começou um planejamento para controle das doenças endêmicas. Essas moléstias eram devastadoras, sobretudo nas regiões mais afastadas das capitais. As tarefas se concentravam na erradicação da febre amarela e da malária.

 

 

 

A partir de 1930, ocorreu um progresso da conduta da empresa norte-americana. Atuando ao lado de organismos estatais, especialmente criados para dominar a febre amarela e a malária, doenças que causavam muitas mortes, a Rockfeller auxiliou na elaboração do Serviço Nacional de Febre Amarela e do Serviço de Malária do Nordeste. Desta maneira, ampliando o alcance dos trabalhos, também proporcionava uma troca de conhecimentos e experiências entre o governo brasileiro e a instituição estrangeira.

Nesta campanha de Saneamento do Brasil, as equipes de trabalhos procuravam combater o mosquito vetor da febre amarela, mas também desenvolviam pesquisas em laboratórios, aprofundando análises sobre a doença, além da produção da vacina antiamarílica. A partir de 1940, a Fundação Rockefeller foi transferindo a direção do projeto para o Serviço Nacional de Febre Amarela. Na década de 1950, o laboratório de pesquisas e de produção da vacina passou para o comando do Instituto Oswaldo Cruz.

Apresentamos, neste artigo, algumas fotografias do Fundo Fundação Rockefeller. O arquivo fotográfico é resultado das atividades da Fundação Rockefeller no Brasil. Há uma concentração de imagens a partir de 1930, quando ocorre a institucionalização de suas atividades em nível federal.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz