Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, passa a Rabat, capital de Marrocos, o posto de Capital Mundial do Livro, que assumiu há exatamente um ano. O Rio foi a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Em homenagem à cidade, cuja beleza e vocação exibicionista são inequívocas, a Brasiliana Fotográfica publica uma seleção de fotos da paisagem carioca, de alguns de seus símbolos mais icônicos e conta uma pouco da história do uso da expressão Cidade Maravilhosa, que tornou-se seu epíteto.
Segundo o poeta e editor Alexei Bueno (1963 – ), a poetisa francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955) foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro. Para o jornalista Rafael Sento Sé, autor do livro que inspirou esse artigo, foi ela que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque.
Mas a expressão se popularizou, de fato, a partir da canção homônima de André Filho (1906 – 1974), gravada, em 1934, por ele e por Aurora Miranda (1915 – 2005) e sucesso no carnaval de 1936. O epíteto tornou-se eterno!
Viva a leitura! Viva a fotografia! Viva a Cultura! Viva a Cidade Maravilhosa!
Foram selecionados para essa publicação registros produzidos por fotógrafos ainda não identificados, e por Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?), Augusto Malta (1864 – 1957), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923). São belas imagens produzidas desde fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Do primeiro, Costa Ribeiro, ainda não temos informações consistentes sobre sua vida e trajetória profissional.
Augusto Malta (1864 – 1957)
Foi na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito do Rio de Janeiro que, pela primeira vez, a prefeitura contratou um fotógrafo, o alagoano Augusto Malta, para documentar as obras da cidade. Ele ocupou o cargo até 1936, quando se aposentou. Incansável, elegante e bem-humorado, foi com seus olhos irrequietamente falantes o principal cronista visual do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia.
Juan Gutierrez (c.1860 – 1897)
Provavelmente nascido nas Antilhas, em torno de 1860, Juan Gutierrez foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro, tendo registrado a transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens cariocas, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Partiu para Canudos, em 1897, onde, em 28 de junho, foi mortalmente ferido.
Marc Ferrez (1843 – 1923)
O carioca Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.
Breve histórico do uso da expressão Cidade Maravilhosa como referência ao Rio de Janeiro
A Cidade Maravilhosa e Alfredo Maia (1850 -1887)
O escritor e oficial da Marinha Portuguesa Alfredo Maia usou a expressão cidade maravilhosa ao referir-se ao Rio de Janeiro no capítulo XIII de seu folhetim Viagens de um marinheiro, publicado no jornal português Jornal da Noite (Jornal da Noite (Portugal), 05 e 06 de agosto de 1879, terceira coluna).
“A capital do império brasileiro goza créditos de uma cidade maravilhosa e a sua baía rivaliza, diz-se, com o porto de Constantinopla e de Lisboa. Vamos lá ver tudo isso e sejamos justos em nossa admiração pelo que virmos…Com efeito, é esplêndido o magnífico porto do Rio de Janeiro, onde cabem à larga todas as esquadras do mundo!”.
Alfredo de Lacerda Maia, nascido em Alijó, cidade localizada na região do Douro, em 1850, foi redator dos jornais portugueses Atlantico, folha destinada ao Brasil e repúblicas do Rio da Prata, do Jornal do Noite e do Mercantil . Foi também colaborador da revista Chronicas Modernas. Em 1883, era segundo-tenente, comandante da lancha Rio Minho e por sua atuação recebeu uma nota de louvor do Ministério da Marinha de Portugal. Em 1886, já como capitão-tenente, era o governador do Timor e, pelos serviços que prestou ao comércio, recebeu dos negociantes da mencionada colônia portuguesa uma espada de honra. No mesmo ano, foi agraciado pelo governo português com a Comenda de Aviz. De Surabaia, foi enviado um telegrama para governo português informando que Maia havia sido assassinado pelos indígenas. Foram pedidos socorros para Macau. O assassinato ocorreu, em 3 de março de 1887, em Díli. Ele era casado e deixou um filho de 10 anos. Foi publicado, no Correio da Manhã, em 14 de março, poucos dias após seu assassinato, um artigo de sua autoria sobre uma visita que havia realizado ao sultão de Zanzibar (Jornal da Noite (Portugal), 26 e 27 de janeiro de 1880, última coluna; 27 e 28 de dezembro de 1880, quinta coluna; 7 e 8 de abril de 1881, segunda coluna; 23 e 24 de julho de 1883, terceira coluna; 11 e 12 de março de 1886, terceira coluna; 25 e 26 de agosto de 1886, quarta coluna; 11 e 12 de março de 1887, segunda coluna; Correio da Manhã (Portugal), 1º de outubro de 1886, terceira coluna; 8 de novembro de 1886, primeira coluna; 11 de março, de 1887, quarta coluna; 14 de março de 1887; 27 de abril de 1887, quarta coluna).
A Cidade Maravilhosa e o escritor italiano Edmondo de Amicis (1846 – 1908)
Segundo o escritor e filósofo Ivo Karytowski (1951 -), em seu artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, foi feita uma referência ao Rio de Janeiro como uma cidade maravilhosa, em 1902, em um artigo escrito pelo italiano Edmondo de Amicis e publicado no suplemento La Lettura do jornal milanês Corriere della Sera. Amicis, em 1884, retornando de uma viagem à Argentina, fez uma rápida escala no porto do Rio. Segue o trecho do artigo em que a expressão foi usada:
“– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?
Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores:
– Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.
A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa (E non la tenta la descrizione d’uma città maravigliosa, no original italiano), onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?”
– Eis aí uma ideia – pensei.
E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.
[…]
Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. – Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!”
Transcrito do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade,
de Ivo Karytowski, 2022.
O escritor e militar italiano Edmundo De Amicis nasceu em Oneglia, em 21 de outubro de 1846, e faleceu em Bordighera, em 11 de março de 1908. Sua maior obra foi o livro Coração (1886). A viagem durante a qual passou rapidamente no Rio de Janeiro, entre Gênova e Montevidéu, na primavera de 1884, a bordo do vapor Nord America, inspirou o livro de sua autoria, Sull’oceano (No oceano), publicado em 1889, misto de romance e diário de bordo. Seu tema é a emigração italiana para a América do Sul no final do século XIX. Foi traduzido para o português por Adriana Marcolini e publicado em 2017, no Brasil, com o título Em Alto-mar.
A Cidade Maravilhosa e o carnaval de 1904
Numa notícia sobre o préstito carnavalesco do Clube de São Cristóvão, foi publicada, no jornal O Paiz, de 16 de fevereiro de 1904, versos que protestavam contra as carrocinhas que pegavam cachorros nas ruas. Na última estrofe, foi usada a expressão cidade maravilhosa, referind0-se ao Rio de Janeiro. Foi, muito provavelmente, a primeira vez que a expressão, referindo-se ao Rio de Janeiro, foi publicada na imprensa brasileira.
Daí por diante, na imprensa, volta e meia a expressão aparecia em referência à cidade (O Paiz, 4 de maio de 1904, quinta coluna; O Malho, 24 de novembro de 1906, A Notícia, 22 e 23 de maio de 1907, primeira coluna; 6 e 7 de julho de 1909, terceira coluna; 26 e 27 de julho de 1909, penúltima coluna; 15 e 16 de agosto de 1910, terceira coluna; 21 e 22 de setembro de 1909, penúltima coluna; Revista da Semana, de 3 de novembro de 1907, terceira coluna; A Imprensa, 8 de agosto de 1909, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 4 de agosto de 1909, quinta coluna.
Em 1908, a expressão cidade maravilhosa foi usada diversas vezes não se referindo à cidade do Rio de Janeiro, mas ao espaço onde se realizou a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, na Urca (O Paiz, 24 de agosto de 1908, primeira coluna; 17 de novembro de 1908, primeira e segunda colunas; 16 de dezembro de 1908, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 16 de outubro de 1908, quarta coluna; Jornal do Commercio, 27 de setembro de 1908, penúltima coluna).
Uma curiosidade: ainda nos anos 1900, Paris, São Paulo, o vale de Sorgues, Buenos Aires, Sevilha e Veneza foram referidas na imprensa brasileira como cidades maravilhosas (O Paiz, 9 de fevereiro de 1900, primeira coluna; 3 de abril de 1905, segunda coluna; 24 de março de 1907, segunda coluna; A Notícia, 13 de 14 de junho de 1904, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 9 de dezembro de 1906, segunda coluna; 12 de janeiro de 1908, última coluna; Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1907, quarta coluna; Revista da Semana, 2 de novembro de 1902, primeira coluna).
A Cidade Maravilhosa e Coelho Neto (1864 – 1934)
Coelho Neto foi um importante escritor e teatrólogo brasileiro, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Nasceu em 21 de fevereiro de 1864, em Caxias, no Maranhão, e faleceu, em 28 de novembro de 1934, no Rio de Janeiro.
A polêmica em torno de ele ser ou não o autor da expressão cidade maravilhosa em referência ao Rio de Janeiro é antiga: o uso da expressão pela poetisa francesa Jane Catulle Mendés, de quem falaremos mais adiante, foi lembrada na biografia do compositor Mário Penaforte (1876 – 1928), lançada no livro intitulado O rei da valsa, em 1958, escrito pelo poeta e tradutor Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987) (Correio da Manhã, de 1958, 19 de agosto de 1958, quarta coluna). O filho de Coelho Neto, Paulo (1893 – 1985), publicou um pequeno livro de 16 páginas, Restabelecendo a verdade, defendendo o pai como autor da expressão (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1958, primeira coluna). Onestaldo e Paulo comentaram a polêmica no jornal Correio da Manhã nos artigos Controvérsia em torno da “Cidade Maravilhosa” e Cidade Maravilhosa, respectivamente (Correio da Manhã, 15 de novembro de 1958 e 22 de novembro de 1958, terceira coluna). A polêmica voltou à baila, em 1965, quando se comemoravam os 400 anos do Rio de Janeiro, quando foi sugerido por leitores do jornal O GLOBO que Jane Catulle Mendès nomeasse um logradouro carioca já que teria sido a criadora da expressão. No dia seguinte, Paulo Coelho Neto, em uma matéria publicada no jornal voltou a afirmar que seu pai era o autor do epíteto. Não adiantou: uma praça em Campo Grande foi batizada com o nome Catulle Mendès (O GLOBO, 18 e 19 de maio de 1965).
Vamos aqui listar o uso da expressão por Coelho Neto:
No capítulo VII do folhetim Mistério de Natal, Coelho Neto usou a expressão cidade maravilhosa, mas ela não se referia ao Rio de Janeiro (O Paiz, 14 de dezembro de 1904, penúltima coluna).
Segundo uma carta do general Paulo de Bittencourt Amarante enviada para a coluna “Encontro Matinal”, da Eneida (1904-1971), grande cronista do carnaval carioca, Coelho Neto teria se referido ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa na palestra Antiga Cidade, proferida em 10 de outubro de 1908, na Academia Nacional de Música (Diário de Notícias, 19 de fevereiro de 1965, primeira coluna). Porém, na leitura da palestra, não se encontra a expressão (Palestras da Tarde (1911), página 33).
Na crônica Os Sertanejos, também de autoria de Coelho Neto, publicada no jornal A Notícia, de 29 e 30 de outubro de 1908, ele voltou a usar a expressão cidade maravilhosa, desta vez para referir-se à área onde foi realizada a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, e não à cidade do Rio de Janeiro. A crônica conta a história de um grupo de matutos que se apresentaria no evento, mas, impressionados com a modernidade do Rio de Janeiro, não conseguem se apresentar bem, decepcionando o público (A Notícia, 28 e 29 de outubro de 1908, primeira coluna). Na crônica (1), quando adentraram a exposição:
“Era ao cair da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palácios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa… Estacaram deslumbrados. A Cidade Maravilhosa resplandecia como nas lendas. No fundo, na concha do palácio das Indústrias, a água escachoava colorindo-se à refração das luzes. Surgiram monstros flamineos acaçapados, no relvedo, esguicharam repuchos policromicos e a mísera gente tremia e encomendavam-se aos santos, fazendo promessas árduas, arrependida de haver seguido o diabo sedutor que a fora buscar no repouso feliz da sua terra para arrojá-la naquele inferno”.

A Notícia, 29 e 30 de outubro de 1908. As edições de 1908 de A Notícia não constam da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, só estando disponíveis em microfichas na instituição
Parece que Cidade Maravilhosa não se referia ao Rio de Janeiro, mas ao recinto onde se realizava a Exposição de 1908.
Em 10 de novembro de 1927, Coelho Neto publicou no Jornal do Brasil uma versão modificada de Os Sertanejos, agora com o título Sertanejos, e nela a expressão Cidade Maravilhosa se referia certamente ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1927, penúltima coluna).
Posteriormente, em 1928, ele lançou o livro A Cidade Maravilhosa, mas no conto que dá nome à obra o Rio de Janeiro não é descrito. O termo se referia a uma cidade dos sonhos, uma cidade imaginária.
“Aqui a tem a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla…Ilusões…Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, da sedução do homem sinistro a mostra-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor”.
A Cidade Maravilhosa e Vicente Blasco Ibáñez (1867 – 1928)
Em uma entrevista para o correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, o escritor, jornalista e político espanhol Vicente Blasco Ibáñez referiu-se ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa. Tinha estado por poucos dias na cidade (Diário do Maranhão, 27 de agosto de 1909, segunda coluna).
Blasco Ibáñez nasceu em Valencia, na Espanha, em 29 de janeiro de 1867, e faleceu, em Menton, na França, em 28 de janeiro de 1928. Tornou-se um dos mais famosos romancistas espanhóis de seu tempo. Era contra a monarquia e fundou, em 1894, o jornal El Pueblo. Foi deputado, representante do Partido Republicano, entre 1898 e 1907. Em 1914, quando teve início a I Grande Guerra Mundial, tornou-se correspondente. Seu livro de maior sucesso foi Os quatro ginetes do Apocalipse (1916).
A Cidade Maravilhosa e Jane Catulle Mendès (1867 – 1955)
Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, é o nome do livro onde os poemas enaltecendo o Rio de Janeiro, de autoria da escritora e feminista francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados, em 1913. Pela primeira vez, a expressão dava título a um livro.
Ainda em 1913, foi publicada no Jornal do Brasil, de 11 de maio, uma crítica extremamente favorável ao livro. Nela, está a poesia Promenade, que Jane escreveu dedicada a Fernando Mendes de Almeida (1845 – 1921), redator-chefe do jornal.
Ela havia passado uma temporada no Rio de Janeiro que, a princípio, seria de três semanas, mas que se estendeu de 20 de setembro a 6 de dezembro de 1911, quando Jane se encantou pela cidade, cuja elite era profundamente influenciada pela cultura francesa. Chegou no Rio a bordo do paquete Amazon, vindo de Buenos Aires, acompanhada por sua secretária, Mathilde Grimaud (18? -19?), desembarcando no Cais Pharoux, onde foi recebida por uma comissão da Associação Brasileira de Imprensa.
Já no dia de sua chegada declarou: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis eblouie” – O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa pela qual estou deslumbrada -, conforme publicado na primeira página do jornal A Imprensa, de 21 de setembro de 1911 (O Paiz, 20 de setembro, quarta coluna; 21 de setembro, segunda coluna, 6 de dezembro, primeira coluna de 1911; A Imprensa, 21 de setembro de 1911).
Havia sido colaboradora do jornal La Fronde, fundado pela atriz e jornalista Marguerite Durand (1864–1936), em 1897, e produzido exclusivamente por mulheres até 1905, quando foi fechado. Jane era viúva do escritor francês Catulle Abraham Mendès (1841 – 1909), expoente do parnasianismo, com quem foi casada entre 1897 e 1909.
Ela partiu de volta à Europa no paquete Danube (O Paiz, 6 de dezembro, primeira coluna de 1911; Gazeta de Notícias, 7 de dezembro de 1911, terceira coluna).
A passagem de Jane Catulle Mendès pelo Rio de Janeiro foi um grande sucesso. A cidade acabara de passar por uma grande reforma urbanística durante a gestão de Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito. Jane encantou-se pela beleza das paisagens cariocas, tanto pelas naturais como pelas construídas. Ficou hospedada no Hotel dos Estrangeiros, aonde recebeu jornalistas no dia em que chegou no Brasil, segundo o jornalista Rafael Sento Sé, foi uma coletiva de imprensa, subterfúgio até hoje comum no mundo do showbiz e que Jane organiza de forma pioneira no Rio de Janeiro.
Conheceu diversas personalidades da época, como os escritores João do Rio (1881 – 1921) e Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934), que escreveu uma crônica a respeito dela publicada no jornal O Paiz, de 3 de outubro de 1911; a socialite, promotora cultural e feminista Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), o maestro Arthur Napoleão (1843 – 1925), o chargista Emílio Cardoso Ayres (1890 -1916), por quem foi retratada; o casal Stella (1879 – 1971) e Fernando Guerra Duval (18? – 1959), ela, feminista e uma das criadoras da Pró-Matre, e ele, fotógrafo amador, barítono e poeta; e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923). Frequentou salões cariocas, o Club dos Diários e visitou diversos lugares da cidade como os morros do Corcovado e do Silvestre, os bairros à beira-mar da Zona Sul, a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico. E passeou muito pela Avenida Central (Careta, 28 de outubro; 4 de novembro, primeira coluna; O Paiz, 24 de setembro, primeira coluna; 30 de setembro, primeira coluna; 3 de outubro; 20 de outubro, quinta coluna; 29 de outubro, primeira coluna, 1º de novembro, primeira coluna; 9 de novembro , primeira coluna; Gazeta de Notícias, 21 de setembro, penúlltima coluna; 2 de novembro, segunda coluna, de 1911).
Seu poema, Rio de Janeiro, dividido em quatro partes – Matin, Crepuscule, Nocturne e Adieu – foi publicado em O Paiz, de 22 de outubro de 1911.
Fez durante sua temporada carioca três conferências: a primeira, O heroísmo da mulher francesa, em 29 de setembro, no salão da Associação dos Empregados do Comércio (Gazeta de Notícias, 29 de setembro, 30 de setembro, quarta coluna; O Paiz, 2 de outubro de 1911, segunda coluna).
A segunda, intitulada A Parisiense, realizou-se no salão nobre do Jornal do Commercio, em 12 de outubro (Jornal do Commercio, 12 de outubro de 1911, primeira coluna).
A última foi proferida, em 24 de outubro, no Teatro Municipal sobre As escritoras francesas (O Paiz, 25 de outubro de 1911, primeira coluna).
No ano seguinte a sua partida, o jornal A Notícia, de São Paulo, promoveu um sorteio entre seus assinantes cujo terceiro prêmio seria um belo passeio ao Rio de Janeiro, à cidade maravilhosa, conforme a qualificou a notável poetiza francesa Jane Catulle Mendès (A Notícia (SP), 3 de dezembro de 1912, quarta coluna).
Segundo Alexei Bueno (1963 – ), no livro Rio Belle Époque: Álbum de imagens: Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendès foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1965, última coluna). Conforme o título do livro de Rafael Sento Sé, fruto de 13 anos de pesquisa, foi Jane Catulle Mendès que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque.

A Cidade Maravilhosa e Eugênio de Lemos (18? – 19?)
No mesmo ano da publicação do livro de Jane Catulle Mendés, 1913, no jornal A Notícia, na coluna “Contos de Hoje”, de Eugenio de Lemos, foi publicada a crônica A Cidade Maravilhosa. Acredita-se que esta foi a primeira vez que a expressão deu título a um artigo artigo jornalístico sobre o Rio de Janeiro. Nela, o autor comentava as belezas da cidade (A Notícia, 20 e 21 de março de 1913).
A Cidade Maravilhosa e Olegário Mariano (1889 – 1958)
O poeta e político recifense Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em 24 de março de 1899. Publicou, em 1922, pela editora Pimenta de Mello, o livro de poesias Cidade Maravilhosa. Uma segunda edição, ampliada, foi editada pela Companhia Editora Nacional, em 1930. O livro traz 14 poemas, sendo quatro alusivos aos Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa, O aspecto mais lindo da cidade, Na feira livre de Copacabana e O crepúsculo na Quinta da Boa Vista. O príncipe dos poetas faleceu em 28 de novembro de 1958, no Rio de Janeiro (O Jornal, 21 de novembro de 1968).
Cidade Maravilhosa
Olegário Mariano
Olegário Mariano foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu livro de estreia foi Angelus, em 1911. Sua obra poética foi publicada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olímpio. Também publicou, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, que foram reunidas nos livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1933).
Manuel Faria (1895 – 1980) e a Cidade Maravilhosa
O pintor Manuel Faria (1895 – 1980), um poeta do pincel que se vem revelando invulgarmente, aplicando-se em mostrar os panoramas deslumbrantes da cidade, inaugurou, no Palace Hotel, sob os auspícios do Centro Carioca, uma exposição em que a Cidade Maravilhosa encontra o seu pintor entusiasta e escrupuloso. Os quadros eram de paisagens do Rio de Janeiro e o pintor pretendia a partir da mostra organizar um álbum ilustrado que seria intitulado Cidade Maravilhosa (O Cruzeiro, 27 de dezembro de 1930, Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1930, segunda coluna).
Manuel Faria Guimarães estudou na Escola Nacional de Belas Artes, tendo sido discípulo de João Baptista da Costa (1865 – 1926), Lucílio de Albuquerque (1877 – 1939) e Rodolfo Chambelland (1879 – 1967). Ocupou a cadeira 9 da Academia Brasileira de Belas Artes.
A Light e a Cidade Maravilhosa
Foi publicado, em 1932, o livro Crônicas da Cidade Maravilhosa, editado pelo Departamento de Publicidade da Light. Na edição de Vida Literária, de dezembro de 1931, foi publicado seu prefácio que informava que tratava-se de uma obra de pura publicidade, mas que seria também uma obra literária (Vida Literária, dezembro de 1931).
O livro, que seria um reflexo de nossa invejáveis belezas naturais e de nosso adiantamento industrial e de nossa civilização urbana, reunia artigos de escritores e artistas publicados em jornais e revistas sobre alguns dos melhores serviços da Light à população do Rio de Janeiro. Um exemplar do livro foi enviado para a revista Brasil Feminino (Brasil Feminino, julho de 1932).
César Ladeira (1910 – 1969) e a Cidade Maravilhosa
César Ladeira, um dos mais famosos locutores do Brasil e um dos ícones da Era de Ouro da rádio brasileira, foi contratado, em 1933, pela Rádio Mayrink Veiga como locutor e diretor artístico e mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1º de setembro de 1933, estreou no programa Crônicas da Cidade Gozada, onde lia crônicas de Genolino Amado (1902 – 1989). De acordo com Henrique Foréis Domingues, pseudônimo Almirante (1908 – 1980), em seu livro No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música (2013), devido a críticas dos ouvintes, o programa teve seu nome mudado para Crônicas da Cidade Maravilhosa. Ladeira também publicava na revista O Malho a coluna “A Crônica da Cidade Maravilhosa” (O Malho, 30 de novembro de 1933; Gazeta de Notícias, 6 de setembro de 1935, quinta coluna; Fon-Fon, 3 de setembro de 1938, segunda coluna).
A revista Cidade Maravilhosa, de César Ladeira, estreou no Teatro Recreio, em 4 de janeiro de 1935, e foi um sucesso. No elenco, estrelavam Aracy Cortes (1904 – 1985), Eva Todor (1919 – 2017), Ítala Ferreira (1901 – 1967), Zaira Cavalcanti (1913 – 1981), Henrique Chaves (19? – ?) e João Martins (19? – ?), dentre outros. Depois de um breve intervalo, voltou ao cartaz, em 12 de março de 1935. Sua última apresentação aconteceu em 17 de março (Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1935, quarta coluna; O Jornal, 2 de janeiro de 1935, última coluna, 4 de janeiro de 1935, última coluna; 6 de janeiro de 1935, quinta coluna, 11 de janeiro de 1935, sétima coluna; 12 de março de 1935, última coluna; 16 de março de 1935, penúltima coluna).
Ainda em 1935, o enredo do bloco carnavalesco Caçadores de Veados foi Cidade Maravilhosa (O Jornal, 21 de fevereiro de 1935, quarta coluna).
A Cidade Maravilhosa, hino oficial do Rio de Janeiro, e André Filho (1906 – 1974), seu autor
Foi a marchinha Cidade Maravilhosa que consagrou definitivamente a expressão como epíteto do Rio de Janeiro! Antônio André de Sá Filho (1906 – 1974), que ficou conhecido como André Filho, nascido na Rua da Carioca, em 21 de março de 1906, compôs a música, que foi gravada por ele e por Aurora Miranda, em 4 de setembro de 1934 (Diário de Notícias, 24 de janeiro de 1965, primeira coluna; Correio da Manhã, 17 de fevereiro de 1965, terceira coluna).
O disco, cuja outra canção era Toda gente cantando, foi lançado no mês seguinte pela Odeon.
Cidade Maravilhosa
André Filho
Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil!
Aurora entoa então, em tom menor, a primeira estrofe da segunda parte:
Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente
Jardim florido de amor e saudade
Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz
A marchinha Cidade Maravilhosa foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação de André Filho e da plateia, a segunda colocação na categoria Marcha. A final aconteceu, em 10 de fevereiro de 1935, no Teatro João Caetano, e a canção vencedora foi Coração Ingrato, interpretada por Silvio Caldas (1908 – 1998), de autoria de Antônio Nássara (1910 – 1996) e Eratóstenes Alves Frazão (1901 – 1977). O terceiro lugar ficou para Joia falsa, de Osvaldo Santiago (1902 – 1976). Silvio Caldas foi muito vaiado e a André Filho foi feita grande manifestação, com toda a plateia de pé (A Noite, 11 de fevereiro de 1935; O Jornal, 12 de fevereiro de 1935, quinta coluna).
Na visita que fez à redação do jornal A Noite, no mesmo dia do concurso, André Filho declarou:
“O julgamento eu coloco em plano secundário. O povo, o verdadeiro juiz, deu ao meu modesto trabalho o valor que eu, realmente, não imaginava ter “.
No mesmo concurso, na categoria Samba, a classificação foi a seguinte: em primeiro lugar, Implorar, do italiano Kid Pepe (1909 – 1961) e do português Germano Augusto (1901 – 1950), curiosamente, dois estrangeiros. Este samba causou uma polêmica pública quanto a sua real autoria, pois segundo alguns, seria do falecido sambista Cedá, que o vendera a Kid Pepe por 30 mil réis. Segundo depoimento de Kid Pepe reproduzido no livro “A canção no tempo”: “João Gaspar me mostrou um estribilho que gostei. Consegui então autorização dele, por escrito, para consertar o estribilho (que estava quebrado) e compor uma segunda parte e a introdução. Desse jeito fizemos “Implorar”. Agora, se provarem que o coro apresentado pelo Gaspar não lhe pertence, darei minha á família do falecido a parte dele” (Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira). Em segundo lugar, classificou-se o samba Foi ela, de Ary Barroso (1903 – 1964); e, em terceiro, Agradeça a mim, de Ismael Silva (1905 – 1978).
No mesmo ano, Cidade Maravilhosa foi incluída na trilha sonora do filme Alô, Alô, Brasil! (1935), dirigido por Alberto Ribeiro (1902 – 1971), João de Barro (1907 – 2006) e Wallace Downey (1902 – 1967), estrelado por Almirante, Ary Barroso, Aurora e Carmen Miranda (1909 – 1955), dentre outros.
Em 1936, estourou no carnaval! E o epíteto Cidade Maravilhosa se eternizou!
Sobre a inspiração de André Filho para escrever a música, que tradicionalmente encerra os bailes carnavalescos, há uma polêmica, destacada no site Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles:
“Na coleção de jornais do seu acervo – que se encontra desde 2006, ano do seu centenário, sob a guarda do Instituto Moreira Salles –, há um recorte sem data de A Notícia com matéria que explica como o compositor teria se inspirado para fazer a música. Diz o texto que ele “Estava na Praia de Botafogo, pelos idos de 1933, eterno enamorado da beleza natural do Rio de Janeiro (…). Numa tarde assim, sentiu pulsar com intensidade toda a sua alegria de cidadão carioca (…). Ocorreu-lhe então a expressão: Cidade Maravilhosa”.
Versão que sua ex-mulher, Joana, contestaria: ao jornal O Globo de 12/01/1965, ela – já separada de André Filho – diria que o clássico surgiu em 1934, durante uma das madrugadas insones do então companheiro, e que, após escutar a melodia e a letra cantada por André, que batucava numa caixa de fósforos, teria sido interrogada por ele: “Ciganinha, você acha que deve ser marcha ou samba?”. Resposta dela: “Marcha!”. Difícil saber qual das duas narrativas é a verdadeira.
Ou se nenhuma delas, a julgar pelo que contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume de “A canção no tempo” (Editora 34, 1997): “No início da década de 1930, o Rio era embelezado com a estátua do Cristo Redentor e a modernização de vários trechos da cidade, criando maiores condições para deixar o turista maravilhado. Foi nesta ocasião que, motivado por uma promoção chamada Festa da Mocidade, em que se elegia a Rainha da Primavera, André Filho compôs ‘Cidade maravilhosa’”.
Cidade maravilhosa tornou-se a marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro, através da Lei nº 5, de maio de 1960, proposta pelo vereador Salles Neto (1910 – 1961) e promulgada pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda (1914 – 1977) (Correio da Manhã, 20 de abril de 1960, quarta coluna; 29 de maio de 1960, quarta coluna; Diário de Notícias, 1º de maio de 1960, sexta coluna).
Mas em duas ocasiões tentaram destituir a canção como marcha oficial da cidade. A primeira vez, em 1962, quando a deputada Lygia Lessa Bastos (1919 – 2020) liderou um movimento para que o hino da cidade fosse uma música que possuísse “as características técnico-musicais peculiares e inconfundíveis do gênero“. Na opinião da deputada, a composição de André Filho não refletiria “na tradição, o sentimento patriótico da gente carioca” (Diário de Notícias, 14 de maio de 1961, quinta coluna; Jornal do Brasil, 13 de março de 1962, quarta coluna; 22 de março de 1962).
Em sua coluna no Jornal do Brasil, “Música Naquela Base”, o jornalista Sérgio Cabral publicou o resultado de uma enquete acerca do assunto que realizou consultando personalidades de várias áreas e apenas o historiador Ariosto Berna (18? – 1988), do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro; e o jornalista Prudente de Morais Neto (1904 – 1977) eram a favor da mudança. Os seguintes foram contra: o crítico musical Lúcio Rangel, Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara; o maestro e compositor César Guerra-Peixe, Cristóvão de Alencar, presidente da União Brasileira de Compositores; o compositor Miguel Gustavo e Stanislaw Ponte Preta, o jornalista Sérgio Porto (Jornal do Brasil, 22 de março de 1962). Cidade Maravilhosa seguiu como o hino da cidade!
O poeta Carlos Drummond (1902 – 1987) defendeu a manutenção da marchinha como hino na crônica Hino carioca (Correio da Manhã, 27 de abril de 1962, penúltima coluna).
Em 1968, pela segunda vez, seu status de hino foi ameaçado: o deputado Frederico Trotta (1899 – 1980) foi o autor do projeto de lei sugerindo à Assembleia Legislativa a criação de um concurso para a escolha de um novo hino para a cidade promulgado, em 27 de julho de 1968. A marchinha Cidade Maravilhosa tinha, segundo ele, uma “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Houve protestos e, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei do deputado Everardo Magalhães Castro (1933 – 2010) que restituía Cidade maravilhosa à condição de hino oficial da cidade (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1968, penúltima coluna; 6 de agosto, segunda coluna; O Jornal, 10 de agosto de 1968, segunda coluna; Correio da Manhã, 27 de julho de 1968, última coluna, 28 de julho de 1968, quinta coluna;).
André Filho faleceu, no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1974, no Hospital Souza Aguiar, vítima de uma úlcera. Foi velado no Museu da Imagem e do Som e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1974, quarta coluna).
Ouça aqui várias gravações da marchinha Cidade Maravilhosa.
Abaixo, reprodução de um artigo publicado em O GLOBO, de 5 de agosto de 1968.
(1) A transcrição da crônica Os Sertanejos, de Coelho Neto, pode ser lida na página 282 do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowsky.
Leia aqui o artigo André Filho além dos ‘encantos mil’: os 120 anos do compositor ‘beijoqueiro’ que era um dos preferidos de Carmen Miranda, de autoria de Pedro Paulo Malta (1976-), publicada no site Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles .
Nota da editora: A inspiração para a publicação deste artigo surgiu quando assisti ao espetacular evento Cidade-Musa, no dia 6 de março de 2026, promovido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em sua sede, quando o jornalista Rafael Sento Sé proferiu uma maravilhosa palestra sobre seu livro A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque, seguida pela sensacional aula musicada Cidade-musa: a história do Rio em marcha, samba e bossa, com Pedro Paulo Malta e Luís Filipe de Lima. Ao longo de minhas leituras para esse artigo, conheci o excelente artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowski, que se tornou uma espécie de bússola para minha pesquisa. Como sempre, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem um papel decisivo em meus escritos. Obrigada pelo talento de vocês!
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
Blog Literatura, Rio de Janeiro & São Paulo
BUENO, Alexei. Rio Belle Époque: Álbum de imagens. Rio de Janeiro : Bem-Te-Vi Editora, 2016.
Cidade Maravilhosa por Olegário Mariano
COELHO NETO. Palestras da Tarde. Rio de Janeiro : Livraria Garnier Irmãos, 1911.
Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira
DOMINGUES, Henrique Foréis. No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música. Rio de Janeiro : Editora Indigo Brasil, 2013
EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da Música Popular Brasileira vol1 e 2. Rio de Janeiro : Funarte, 1978.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
SÉ, Rafael Sento. A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque. Belo Horizonte (MG) : Autêntica Editora, 2025.
VALENÇA, Suetônio Soares. Tra-la-lá : vida e obra de Lamartine Babo – 3. ed., rev. e ampl. – Rio de Janeiro : FUNARTE, 2014.
XAVIER, Priscila. Cidade Maravilhosa: discursos entre o imaginário e o mito.
A estátua do Pequeno Jornaleiro por Alfredo Krausz
A Brasiliana Fotográfica, no Dia do Jornaleiro, destaca a imagem Estátua do Pequeno Jornaleiro de autoria de Alfredo Krausz (? – 19?). Pouco se sabe, até o momento, sobre este fotógrafo. Imagens produzidas por ele integraram a exposição São Paulo 450 Anos: a imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Salles, realizada no Centro Cultural Fiesp, entre 23 de janeiro e 27 de junho de 2004. No acervo fotográfico do portal, há 52 imagens, todas do Instituto Moreira Salles, produzidas por Krausz no Rio de Janeiro – registros da Baía de Guanabara, de avenidas e ruas, de cinemas, edifícios e monumentos, do Cristo Redentor, dos Arcos da Lapa, dentre outras – , e, em São Paulo, a de um Zepellin sobrevoando a cidade com destaque para o Edifício Martinelli.
A Estátua do Pequeno Jornaleiro foi inaugurada na confluência das ruas Ouvidor e Miguel Couto junto à avenida Rio Branco, durante as festas do Mês da Cidade, em 1º de junho de 1933, por iniciativa do jornal A Noite. O discurso da inauguração foi feito pelo escritor Coelho Neto (1864 – 1934) (A Noite, 2 de junho de 1933). Um dos maiores incentivadores das festas foi Anísio Teixeira (1900 – 1971), então Diretor da Instrução Municipal do Rio de Janeiro e um dos mais importantes educadores do Brasil (A Noite, 22 de maio de 1933).
A obra, do caricaturista Fritz, pseudônimo do carioca Anísio Oscar Mota (1895-1969), foi fundida em bronze na Zani Fundição Artística e Metalúrgica Ltda e foi o ponto de partida para a criação da Casa do Pequeno Jornaleiro, concretizada, em 1940, pela então primeira-dama Darcy Vargas (1895 – 1968). A estátua reproduz uma cena que era muito comum no Rio de Janeiro do início do século XX: um menino que vestindo roupas velhas e com jornais debaixo do braço gritava as últimas manchetes do dia para vender os exemplares de jornal que carregava.
A inspiração de Fritz para a criação da estátua foi um dos meninos que vendia, durante a década de 20, jornais nas ruas do Rio de Janeiro. Chamava-se José Bento de Carvalho e era conhecido por sua agilidade em vender jornais saltando e apeando do estribo dos bondes em velocidade. Vivia na redação de O Malho, onde Fritz trabalhava como repórter, não tinha parentes e suas roupas eram quase o dobro de seu tamanho. Já havia sido, anteriormente, o inspirador do personagem Pirulito (Jornal do Brasil, 19 de setembro de 1963).
Segundo o historiador da música popular brasileira Carlos Didier (1954-) que com João Máximo (1935 – ) escreveu o livro Noel Rosa – Uma biografia (1990), no dia da inauguração da estátua, no Programa Casé, o poeta e compositor Orestes Barbosa (1893 – 1966) fez, tendo como fundo musical solos de violão de Noel Rosa (1910 – 1937), a seguinte saudação ao monumento: “Esse garoto, que está aí na avenida, é a rua. A rua é o aplauso sincero e a vaia justa“(O GLOBO, 11 de janeiro de 2016).
Entre 1996, durante o Projeto Rio Cidade, a estátua foi transferida para a calçada da Rua Sete de Setembro. Em janeiro de 2016, o Pequeno Jornaleiro foi para o Parque Noronha Santos, devido às obras do VLT (O GLOBO, 11 de janeiro de 2016). Foi reinaugurado próxima a seu local original, na esquina das ruas do Ouvidor e Miguel Couto com a avenida Rio Branco, em 3 de outubro de 2019 (O GLOBO, 3 de outubro de 2019). E assim o grito do Pequeno Jornaleiro voltou a ecoar no Centro do Rio de Janeiro.

O Pequeno Jornaleiro por Cássio Loredano, publicado na quinta edição da revista eletrônica Pasmado, 8 de abril de 2026
A ilustração acima foi inserida no artigo em 16 de abril de 2026.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Fontes:
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
Inventário dos Monumentos do Rio de Janeiro
O GLOBO
Série “1922 – Hoje, há 100 anos” I – Os Batutas embarcam para Paris, em 29 de janeiro – Uma história de música e de racismo
A Brasiliana Fotográfica inaugura a Série 1922 – Hoje, há 100 anos com o artigo Os Batutas embarcam para Paris, em 29 de janeiro – Uma história de música e de racismo, contando um pouco da história da turnê parisiense dos Batutas, considerado o primeiro grupo de música popular brasileira a alcançar projeção internacional. Tinha, entre seus integrantes, dois expoentes: o virtuoso Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (1897 – 1973), o maior chorão de todos os tempos; e Joaquim Maria dos Santos, o Donga (1891 – 1974), um dos autores daquele que é um dos primeiros sambas gravados no Brasil, Pelo Telefone, registrado em 27 de novembro de 1916.
“A verdade é que o choro me agrada mais por ser mais trabalhado, com três partes, cada uma delas com dezesseis compassos, e não apenas oito, como no samba. Depois, o choro, que me parece originado da polca (uma das músicas de salão da época), era para mim a forma metódica através da qual eu podia expressar meus sentimentos”
Pixinguinha (1966)
“O ritmo caracteriza um povo. Quando o homem primitivo quis se acompanhar, bateu palmas. As mãos foram, portanto, um dos primeiros instrumentos musicais. Mas como a humanidade é folgada e não quer se machucar, começou a sacrificar os animais, para tirar o couro. Surgiu o pandeiro. E veio o samba. E surgiu o brasileiro, povo que lê música com mais velocidade do que qualquer outro no mundo, porque já nasce se mexendo muito, com ritmo, agitadinho, e depois vira capoeira até no enxergar”.
Donga (1966)
Ao longo do ano, serão publicados no portal artigos com imagens de fatos importantes ocorridos em 1922 como a Semana de Arte Moderna e a Exposição do Centenário da Independência do Brasil. A temporada dos Batutas que, em 29 de janeiro de 1922, embarcaram para a França, foi um sucesso e causou polêmica e ataques racistas, veiculados na imprensa brasileira. Uma curiosidade: os Batutas e o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) retornaram da França no mesmo navio, o Lutetia, e chegaram ao Brasil em 14 de agosto de 1922.
O dançarino Duque, o empresário Arnaldo Guinle e os Oito Batutas
“Pixinguinha nem sequer era músico. Era música – e essa seria a melhor palavra para defini-lo, explicá-lo e amá-lo”.
Carlos Heitor Cony
O dentista, dançarino, compositor e jornalista baiano Antônio Lopes de Amorim Diniz (1884-1953), conhecido como Duque, conheceu no Assyrio, cabaré no subsolo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, os Oito Batutas, que tocavam enquanto ele dançava com sua parceira, a dançarina e manequim francesa Gaby, entre fins de 1921 e início de 1922.
Foi noticiado que Pixinguinha tinha reassumido a função de diretor de harmonia do bloco carnavalesco de Reinado de Siva.
Mas então:
“Menos de três semanas depois, Pixinguinha estava trocando o palácio do Reinado de Siva, na rua Senador Pompeu pelo Shérérazade, 16, Faubourg Montmartre, em Paris. Isto porque, nessas três semanas abençoadas, Ogum resolveu usar sua espada para abrir as portas do mundo para seu filho de fé e seus sete companheiros. Para transportá-los, usou como veículo o Assyrio, cabaré instalado no subsolo do Teatro Municipal. Ali são ouvidos todas as noites pela fina flor da sociedade boemia carioca. Ali, no mesmo espetáculo, um casal de bailarinos de fama internacional empolga o público dançando o ritmo que, durante anos e anos, fora uma dança excomungada, anatematizada, proibida às moças e aos rapazes de família. Duque e Gaby dançam o maxixe, ou la matchiche, como preferiam os almofadinhas da época”.
Filho de Ogum Bexiguento, página 49.
Segundo Pixinguinha, na Série Depoimentos:
“Bem, o Duque era um bailarino aristocrático. Ele dançava um maxixe aristocrático. Era um malabarista. Duque empolgou todo mundo. Não era um maxixe como a gente via em certos lugares. Era um sujeito muito delicado. Dançava um maxixe clássico. Quando chegamos em Paris conhecemos a academia dele. Era uma academia que ensinava a dança do maxixe brasileiro. Quando Duque chegava no salão, todo mundo disputava o privilégio de dançar com ele. Eram princesas, reis, etc, Sim, senhores, até rei apareceu para dançar com ele. Foi ele que pediu ao Arnaldo Guinle para nos levar para Paris. Ele gostava muito do que a gente fazia e interpretava a nossa música nos pés. Depois de quatro compassos ele já estava criando coisas novas nos pés. E tinha a Gaby, uma francesa que compreendia perfeitamente o Duque”.
O Duque havia se mudado de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1906. Três anos depois, começou a viajar pelo mundo. Chegou em Paris, conforme artigo que escreveu para a revista O Cruzeiro, em 1912, quando passou a dançar em restaurantes e bares com a dançarina ítalo-brasileira Maria del Nigri, conhecida como Maria Lino, a Rainha do Maxixe (c. 1880 – 1940). Ganharam, em 1913, o primeiro prêmio em uma competição em Berlim. Também foram suas parceiras Arlette Dorgère (1880 -1965) e Gaby. Tornou-se dono de academias de dança em Paris e no Rio de Janeiro, tendo sido responsável pela difusão do maxixe em capitais como Berlim, Buenos Aires, Montevidéu, Londres, Nova York e Paris, numa época em que o ritmo era considerado imoral por boa parte da sociedade brasileira. Em 1921, havia, após uma temporada no Brasil com sua parceira Gaby, retornado à França, onde estrelou um espetáculo na Ópera de Paris com o compositor e violinista paulista Nicolino Milano (1876 – 1962) e apresentou o samba na peça La Proie (A Presa), de Regina Regis de Oliveira (18? – 1956), no Teatro Albert I, também em Paris. Foi provavelmente a primeira exibição de samba em um palco europeu (L´Esprit Nouveau, página 106; A Gazeta (SP), 8 de março de 1921, sexta coluna; Jornal do Brasil, 2 de abril de 1921, terceira coluna; D. Quixote, 18 de maio de 1921, primeira coluna).
Foi, como mencionado por Pixinguinha, o Duque que pediu ao empresário Arnaldo Guinle (1884 – 1963) que patrocinasse a excursão dos Batutas à França, em janeiro de 1922, para a divulgação da música popular brasileira no cenário internacional. Mecenas das artes e dos esportes, Arnaldo Guinle foi um dos homens mais ricos do Brasil, cuja fortuna era oriunda da exploração do Porto de Santos. Além do suporte financeiro de Guinle, Duque conseguiu apoio político-diplomático de Lauro Müller (1863 – 1926), o que, segundo o antropólogo Rafael José de Menezes Bastos, imprimiu na jornada uma idéia, diríamos, de missão quase diplomática. Duque e Guinle haviam se conhecido na França, já que Guinle vivia entre o Rio de Janeiro e Paris. O general e engenheiro militar Lauro Müller, ministro das Relações Exteriores entre 1912 e 1917, havia conhecido os Batutas por ter sido um assíduo frequentador da noite carioca. Mas o governo não contribuiu financeiramente para a viagem. Segundo Donga, em depoimento para o Museu da Imagem e do Som:
“Absolutamente. O grande brasileiro Arnaldo Guinle nos levou para lá sem it, com essa pelezinha escura e tudo, sem medo de levar vaia. Viajamos às custas dele”.
Guinle contratava, desde 1919, os Batutas, que conheceu tocando na sala de espera do Cine Palais, para saraus em sua mansão no bairro das Laranjeiras. Patrocinou, com o apoio de Irineu Marinho (1876 – 1925), fundador do jornal O GLOBO, uma turnê do grupo pelo Brasil, iniciada em outubro de 1919 por São Paulo e Minas Gerais e encerrada, no ano seguinte, pela Bahia e por Pernambuco. O objetivo da turnê, além da realização de apresentações artísticas, era recolher e catalogar ritmos para integrar uma antologia de música folclórica sob a supervisão do escritor Coelho Neto (1864 – 1934) que, por seu estilo literário, considerado ultrapassado, sofreu fortes críticas na Semana de Arte Moderna de 1922, tema do próximo artigo da Série 1922: Hoje, há 100 anos.
Segundo o depoimento de Donga para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro:
“O dr. Arnaldo, como bom brasileiro que era, simpatizou com a gente. Pensou e combinou com o Coelho Neto uma antologia, recolhendo material através de pessoas idôneas. Ele, junto com o Floresta de Miranda, nos procurou e disse: “amanhã você vai à minha casa em Copacabana”. Eu fui junto com o Pixinguinha. Nós estávamos há 20 dias sem função e o dinheiro tinha acabado. Ele explicou o que queria e perguntou o que achávamos. Nós dissemos que íamos fazer uma excursão ao Norte e o dr. Arnaldo pediu que incluíssemos o João Pernambuco, porque assim ele faria algumas coisas para ele. Assim foi feito, nós fomos a Pernambuco, Bahia, etc, e o João Pernambuco recolheu uma porção de coisas e trouxe. Mas não era o bastante. O dr. Arnaldo disse para o João Pernambuco que ia prosseguir na colheita, mas só que dessa vez levaria um músico para escrever, porque ele só havia trazido letras e músicas de memória. Disse ainda que pagaria tudo. Eu não sei o que eles arranjaram, ele e Pixinguinha, porque o dr. Arnaldo ficou zangado e não quis saber de mais nada. O João Pernambuco era meio egoísta e parece que pediu demais. Eu não sabia de nada. Depois de alguns dias o Patricio Teixeira me deu um recado que o dr. Arnaldo queria falar comigo. Eu fui e ele disse: “Não quero mais saber de histórias com o João Pernambuco e com o Pixinguinha”. Eu então combinei tudo com ele, que exigiu a presença de um músico na viagem. Eu comecei a enrolar um pouco e toda vez que o Floresta de Miranda me procurava para informar ao dr. Arnaldo eu dava sempre uma desculpa: “Olha, eu queria o Zezé, mas ele para escrever música de folclore é difícil e como tem o Pixinguinha, este seria melhor”. Parece que o Floresta de Miranda disse isso ao dr. Arnaldo e ele amoloceu um pouco com respeito ao Pixinguinha. Com o João Pernambuco ele nunca mais falou até morrer. Nas proximidades da viagem eu disse ao dr. Arnaldo: “eu acho que vou levar o Pixinguinha”. Ele respondeu: “você leva quem quiser, apanhe o dinheiro lá na rua Sete de Setembro”. Era tudo pago. Estivemos então em Morro Velho, Minas, Bahia, etc. Pixinguinha trouxe tudo escrito, tudo bem feito, e o dr. Arnaldo ficou satisfeito”.
Segundo o historiador Clóvis Bulcão, essas pesquisas foram responsáveis pelo encontro dos Guinles com Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959), pois foi o compositor o encarregado pela organização do material. Em 1923, Arnaldo Guinle deu a Villa-Lobos duzentos contos de réis para que ele fosse aprimorar sua arte na França.
A temporada dos Batutas em Paris (1922)
Chegamos ao dia do embarque. No dia 29 de janeiro de 1922, o grupo formado então pelos músicos Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha (1897 – 1973); seu irmão, Octávio (1888 – 1926), conhecido como China; Joaquim Maria dos Santos, o Donga (1891 – 1974); Nelson Alves (1895 – 1960), Sizenando Santos (o Feniano), José Monteiro e José Alves de Lima embarcou no navio transatlântico Massília rumo à França (O Jornal, 24 de janeiro, segunda coluna e 28 de janeiro, última coluna de 1922; O Paiz, 29 de janeiro de 1922, quarta coluna). Os últimos dois substituíram os irmãos Jacob e Raul Palmieri (1887 – 1968), que desistiram da viagem. O baterista Joaquim Silveira Tomás (1898 – 1948), o J. Tomás, adoeceu e não pode viajar com o grupo. Ao longo de sua existência, entre 1919 e 1931, a formação dos Batutas variou.
Para Paris foram mesmo sete batutas. Foi o primeiro conjunto brasileiro a apresentar na Europa a música urbana produzida no Rio de Janeiro na época. Tocaram durante os seis meses que ficaram em Paris, na época a capital cultural do mundo, choros, maxixes, polcas, tangos brasileiros, sambas, lundus, batuques, valsas, cateretês, emboladas, cocos e toadas sertanejas.
Chegaram em 11 de fevereiro, no porto de Bordeaux, na França e foram recepcionados na Gare d´Orsay, em Paris, no dia seguinte, pelo Duque e pelo jornalista Floresta de Miranda, secretário particular de Guinle. Nos meses seguintes, como Les Batutas, seriam atração fixa numa badalada casa noturna de Paris, o dancing Shéhérazade, na Faubourg Montmartre, 16, cujo diretor artístico era o Duque, responsável pelo convite ao conjunto. O proprietário era G. Calmet.
A chegada do grupo em Paris foi noticiada por alguns jornais franceses:

“Fala-se bastante dos “Batutas” no mundo artístico. É com curiosidade que esperamos por sua muito próxima estreia” / Le Gaulois, 11 de fevereiro de 1922

“Os Batutas, que chegaram do Brasil, farão esta semana sensacional estreia em Paris” / Le Gaulois, 12 de fevereiro de 1922
“Les Batutas, cet extraordinaire orchestre brésilien, unique au monde, d’une gaieté endiablée, composé de virtuoses surnommés les rois du rythme et de la samba, joue tous les jours aux thés et aux soupers de Shéhérazade, 16, Faubourg Montmartre. Direction: Duque” (Tradução: Os Batutas, esta extraordinária orquestra brasileira, única no mundo, com alegria frenética, composta por virtuosos apelidados de reis do ritmo e do samba, toca todos os dias nos chás e jantares do Shéhérazade, 16, Faubourg Montmartre. Direção: Duque).
Le Journal, 14 de fevereiro de 1922
A Primeira Guerra Mundial havia acabado há pouco tempo e Paris fervilhava na euforia do pós-guerra, ocupada por músicos do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos e das Antilhas, e por artistas de vanguarda, o que tornava trepidantes a atmosfera cultural da cidade, seu ritmo e sua noite. Eram os Anos Loucos. Como definiu o escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899 – 1961): Paris é uma festa. Os intelectuais estavam interessados em antropologia e por estudos sobre a África, o que propiciava um ambiente receptivo para movimentos artísticos relacionados com a cultura negra, caso dos Batutas, recebidos com simpatia por simbolizar um certo exotismo, em voga na ocasião. Muitas bandas de jazz apresentavam-se no Shéhérazade, identificado pela imprensa parisiense como um palácio das mil e uma noites. O dancing, onde os Batutas se apresentaram, era frequentado por intelectuais, pela aristocracia, por políticos e artistas de renome – era o ponto de encontro da elite que circulava na capital francesa. Pixinguinha entrou em contato com o charleston, o foxtrote, o shimmie e o ragtime. Foi, posteriormente, acusado de ter sido influenciado pelo jazz norte-americano.
Foi durante a temporada em Paris que Pixinguinha passou a tocar saxofone. Gostou tanto do instrumento que acabou sendo presenteado com um por Arnaldo Guinle, que também enviou para o Brasil uma bateria para J. Tomás, o batuta que na última hora ficou doente e não pode seguir para Paris com o grupo.
“Foi em Paris. Quando viajei para lá não tocava saxofone. Tocava flauta. No conjunto que se apresentava na casa em frente aos Shéhérazade, havia um violoncelista que, durante a apresentação, mudava do violoncelo para o saxofone, principalmente na hora de tocar o shimmy. Um dia, Arnaldo Guinle me perguntou: “Você toca aquele instrumento?”. Respondi: “Eu toco”. Na verdade, eu já conhecia a escala do instrumento e sabia que era quase igual à flauta”. Então vou mandar fazer um saxofone pra você”, me disse Arnaldo Guinle. Um mês depois o saxofone estava pronto. Levei o instrumento para o hotel e ensaiei. No outro dia já estava tocando uns chorinhos no saxofone. Mas só toquei naquele dia, porque não queria magoar o músico da casa em frente. Toquei só para o Arnaldo Guinle ver. Ele viu e ficou satisfeito. Depois, fiquei só na flauta. Quando voltei para o Brasil é que passei a tocar mais saxofone. Mas nós trouxemos outras novidades. Na volta, o nosso pessoal estava tocando violão-banjo, cavaquinho-banjo, estas coisas”.
Pixinguinha, na Série Depoimentos
As apresentações fizeram sucesso com o público e com a imprensa parisiense. E os Batutas, que haviam sido contratados para uma temporada de um mês no Shéhérazade, com um salário de 3.500 réis, ficaram na cidade por cerca de 6 meses. O grupo executava músicas como Dádiva de Amor, composta por Donga, em Paris; Fala Baixo, de Sinhô (1888 – 1930); Gargalhada, de Pixinguinha; Les Batutas, também de Pixinguinha e com letra de Duque; e Vem vovó, de Álvaro Sandim (1862 – 1919).

No Shéhérazade: Os Batutas, a célebre orquestra brasileira única no mundo, estreou com gande sucesso no Shéhérazade, o feérico estabelecimento do faubourg Montmartre. Vá ouvir os Batutas, você não vai se arrepender de sua viagem / Le Galois, 25 de fevereiro de 1922
A partir de maio, apresentaram-se no Chez Duque, na rue Caumartin, 17, cujo proprietário era o Duque; e, em 1º de junho, eles e a prestigiada Bernard Kay’s American Jazz Band estavam presentes na inauguração dos Chás Dançantes, na Reserve de Saint-Cloud, na boulevard Senard. Fizeram também um show em homenagem ao norte-americano Jack Dempsey (1895 – 1993), campeão mundial dos pesos pesados de 1919 a 1926 (O Imparcial, 15 de agosto de 1922).
Segundo Donga, fizeram uma apresentação para a família real brasileira que residia em Paris. Sebastião Braga, em seu livro O Lendário Pixinguinha, menciona uma apresentação do músico no Conservatório de Paris, quando Pixinguinha teria tocado a polca Gargalhada e os diretores do Instituto de Música da França, em respeito, teriam lhe dado uma flauta de prata. De acordo com o jornalista e musicólogo Lúcio Rangel (1914 – 1979), o primeiro prêmio de flauta do Conservatório de Paris, Harold de Bozzi, teria ficado embasbacado com Pixinguinha.
Por intermédio de Olivia Penteado (1872 – 1934), grande incentivadora do modernismo no Brasil e ligada ao movimento intelectual que desencadeou a Semana de Arte Moderna, os Batutas foram convidados pelo embaixador Luiz Martins de Souza Dantas (1876 – 1954) para participar de uma festa organizada pelo Comitê França-América, no Palais des Affaires Publiques. Souza Dantas (1876 – 1954), que servia como chefe da representação brasileira em Roma e que, em novembro de 1922, assumiu a embaixada brasileira na França, era um dos anfitriões do evento. Vale lembrar que Souza Dantas foi proclamado, no Museu do Holocausto, em Israel, em 2003, Justo entre as nações, por ter arriscado sua vida para ajudar os judeus perseguidos pelo nazimo e pelo fascismo.
A polêmica em torno da ida dos Batutas a Paris – O Racismo
Mas aqui no Brasil, a excursão do grupo à Europa suscitou polêmica e debates nos jornais, ora defendendo os Batutas ora os atacando com declarações abertamente racistas. A música popular como representante da cultura nacional também fez parte da discussão. Porém ataques racistas não eram novidades para os Batutas, que foram alvos deles desde seu início, em 1919 (Fon-Fon, 19 de abril de 1919).
“Desde sua fundação Os Oito Batutas geraram polêmica. O fato de serem em sua maioria negros e o tipo de música que faziam eram motivos para controvérsia. Identificá-los à genuína musicalidade nacional, significava para muitos uma desqualificação em termos de uma pretensa universalidade – equacionada com o cânone da música clássico-romântica ocidental – e um veredicto de provincianismo. Além disso, a negritude era vista como sinal de inferioridade sociocultural”.
Rafael José de Menezes Bastos
Segundo Sérgio Cabral, no livro Pixinguinha – Vida e Obra (1997), na ocasião da estreia do grupo no Cine Palais, que reabria suas portas, em 1919, o pianista e maestro paulista Júlio Cesar do Lago Reis (1863 – 1933), em sua coluna de música no jornal A Rua, se disse envergonhado com o que considerava um escândalo. Afinal, como poderia um grupo musical composto de afrodescendentes se apresentar em um endereço chique e elegante, um cinema na antiga avenida Central?
Na Revista da Semana, do início de abril de 1919, em nota atribuida ao jornalista Xavier Pinheiro, veio a resposta à crítica de Júlio Reis que, segundo ele:
“(não aceita) pela sua fina educação artística, que o violão, o cavaquinho, o reco-reco, o chocalho e a flauta interpretem as modinhas, as chulas, os sambas, os tangos e outras composições que tenham cunho nacional, na sala de espera de qualquer cinema da avenida porque isso é ofensivo aos ouvidos educados da grande maioria da nossa sociedade composta de uma boa parte de nossa aristocracia. O defensor de nossa sociedade aristocrática está enganado na apreciação da orquestra dos Oito Batutas. Aqueles rapazes morenos, que levam horas a cantar as encantadoras modinhas da nossa terra e as executam na flauta, no violão, no reco-reco, no cavaquinho e no chocalho, têm sido apreciados pela nossa finíssima sociedade, não têm escandalizado, têm obtido ruidoso sucesso…A Orquestra dos Oito Batutas foi mal apreciada pelo aplaudidíssimo e popular maestro Julio Reis porque aqueles rapazes tocam e cantam com clima, com sentimento, interpretam a música muito melhor do que certos e conceituados artistas que andam por aí…O maestro Júlio Reis foi severo. Foi injustíssimo com os morenos que ganham sua vida com brilho e aplauso no Cine Palais. Eles tocam bem, são da nossa terra, têm compostura, agradam a todos e o povo que ali vai gosta da flauta de Pixinguinha, do violão de Donga, do cavaquinho do Nelson e dos outros caboclos seus companheiros”.
Os ataques racistas, segundo os quais os Batutas desmoralizariam o Brasil levando para Paris o que o país tinha de pior para o seio da civilização da Europa, recrudesceram, em 1922. O cronista A. Fernandes escreveu no Diário de Pernambuco: “Não sei se a coisa é para rir ou para chorar. Seja como for, o boulevard vai se ocupar de nós. Não do Brasil de Arthur Napoleão, de Osvaldo Cruz, de Rui Barbosa, de Oliveira Lima, não do Brasil expoente, do Brasil elite, mas do Brasil pernóstico, negróide e ridículo e de que la chanson oportunamente tomará conta” (Diário de Pernambuco, 1º de fevereiro de 1922, segunda coluna). Uma observação: o destacado político baiano Ruy Barbosa (1849 – 1923) era grande fã dos Batutas e presença frequente nas apresentações do grupo no Cine Palais.
O cronista que se assinava como S, no Jornal do Commercio, em 1º de fevereiro de 1922, descreveu os Batutas como “oito, aliás, nove pardavascos que tocam violas, pandeiros e outros instrumentos rudimentares” e lamentava“não haver uma política inexorável que, legalmente, os fisgasse pelo cós e os retirasse de bordo com a manopla rija, impedindo-lhes a partida no liner da Mala Real!”.
Segundo o artigo do jornalista e escritor Benjamin Costallat (1897 – 1961), publicado na Gazeta de Notícias de 22 de janeiro de 1922, foi um verdadeiro escândalo a presença dos Batutas no Cine Palais, em 1919, assim como o anúncio da ida do grupo para Paris. Foram atacados com um desabrido e repugnante racismo:
“Eram músicos brasileiros que vinha cantar cousas brasileiras. Isso em plena Avenida, em pleno almofadismo, no meio de todos esses meninos anêmicos, frequentadores de “cabarets” que só falam francês e só dançam tango argentino! No meio do internacionalismo das costureiras francesas, das livrarias italianas, das sorveterias espanholas, dos automóveis americanos, das mulheres polacas, do esnobismo cosmopolita e imbecil!
Não faltaram censuras aos modestos “oito batutas”. Aos heróicos “oito batutas” que pretendiam, num cinema da Avenida, cantar a verdadeira terra brasileira, atráves de sua música popular, sinceramente, sem artifícios nem cabotinismos, ao som espontâneo de seus violões e cavaquinhos.
A guerra que lhes fizeram foi atroz. Como os músicos eram bons, “batutas de verdade”, violeiros e cantadores magníficos, como a flauta de Pixinguinha fosse melhor do que qualquer flauta por aí saída com dez diplomas de dez Institutos, começaram os despeitados a alegar a cor dos “oito batutas”, na maioria pretos”. Segundo os descontentes, era uma desmoralização para o Brasil ter na principal artéria de sua capital uma orquestra de negros! O que iria pensar de nós o estrangeiro?”
O jornal A Noite também antecipou a possibilidade de que haveria quem num melindre idiota reprovasse a ida dos rapazes porque eram de cor (A Noite, 28 de janeiro de 1922).
O Imparcial saudou com entusiasmo a viagem dos Batutas, exímios tocadores de instrumentos nacionais que só executam músicas nacionais, o que só podem considerar como uma das mais altas expressões da arte musical genuinamente brasileira (O Imparcial, 28 de janeiro de 1922, segunda coluna).
Uma carta enviada pelo jornalista Floresta de Miranda, de Paris, defendeu e deu notícias das apresentações dos Batutas na França (Jornal do Recife, 11 de abril de 1922, primeira coluna).
“Paris, inverno de 1922. Frio de rachar, vários graus abaixo de zero. Duque e eu estávamos na Estação de Quai d´Orsay, esperando o trem de Bordéus. Nesse trem iriam chegar os Oito Batutas. Às 23 horas apareceram os músicos brasileiros, cada qual carregando o seu instrumento. Trajavam roupas leves e tiritavam. Na manhã seguinte Duque os levou a comprar roupas apropriadas para aquele clima. Vem a estreia no Shéhérazade. Sucesso completo. Paris acode àquele dancing. Pixinguinha com a sua flauta infernal faz o diabo. China abafa com o seu violão e a sua bela voz e Donga abafa no pinho e desperta paixões…”
Parte de uma crônica do jornalista Floresta de Miranda
publicada no livro Samba jazz & outras notas
Já em fins da década de 1970, o jornalista carioca João Ferreira Gomes, cujo pseudônimo era Jota Efegê (1902 – 1987) e que se destacou como um grande cronista das histórias cariocas, de seus personagens e manifestações culturais, comentou esse tipo de declaração abertamente racista em relação aos Batutas no artigo Para os racistas, os Oito Batutas eram “negróides” e “pardavascos”, publicad0 em O GLOBO.

Até por políticos a ida dos Batutas à Europa foi questionada. Em 24 de julho de 1922, votava-se na Câmara um auxílio de 40 contos de réis para uma viagem do compositor Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) à Europa. Pedro da Costa Rego (1889 – 1954), representante de Alagoas, deu parecer contrário e Gilberto Amado (1887 – 1969), deputado por Sergipe, ao encaminhar a votação, discordou de seus colegas que combateram a emenda e apelou:
“Negar a Heitor Vila Lobos 40:000$ para que possa tomar passagem e ir à Europa, que nos manda, todos os anos, maestros e pseudomaestros, às vezes abaixo de nossa cultura negar a Vila Lobos o direito de ir à Europa, mostrar que não somos apenas os “Oito Batutas”, que lá sambeiam, é negar que pensamos musicalmente, é uma atitude não digna da Câmara dos Senhores Deputados brasileiros!”
O Retorno
“Chiii! Se fosse agora, nós seríamos o Roberto Carlos”
Pixinguinha em depoimento dado, em 1966,
sobre a popularidade dos Batutas quando retornaram de Paris
“Fiquei tão apaixonado pela França que compus uma valsa de seis partes, ganhando um prêmio da Sociedade Francesa de Compositores. Mas era grande a saudade que sentíamos do Rio de Janeiro. Um dia, quando passeávamos por uma rua parisiense, um de nós começou a assobiar uma valsa de Manuel da Harmonia. Não nos contivemos: choramos como crianças”.
Donga(1966)
Em 31 de julho de 1922, os Batutas embarcaram no Lutetia, em Bordeaux, na França. O navio fez escalas em Boulogne-sur-mer, Vigo e Lisboa e, após cerca de 6 meses, em 14 de agosto de 1922, os músicos chegaram no Rio de Janeiro. Durante a viagem de volta, fizeram algumas apresentações em festas a bordo. Saudades do Brasil, os negócios de Duque que não rendiam muito e a vontade de participar dos festejos do centenário da independência do Brasil foram razões alegadas para o retorno. Além deles, desembarcaram também do navio o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), o inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), o presidente do Jockey Clube, Lineu de Paula Machado (1880 – 1942); o empresário Arnaldo Guinle (1884 – 1963); o coronel Buchalet, da missão militar francesa no Brasil, e o médico Paulo de Figueiredo Parreiras Horta (1884 – 1961) (A Noite, 1º de agosto, primeira coluna, e 14 de agosto de 1922; O Paiz, 15 de agosto de 1922, página 3 e página 4). No artigo do Imparcial, de 15 de agosto, Pixinguinha (1897 – 1973), declarou que não havia animosidade contra os homens de cor na França. Mencionou a presença de músicos de jazz em Paris e disse que os Batutas voltaram para o Brasil para tomar parte nas comemorações pelo centenário da Independência do Brasil.

Em pé, da esquerda para a direita: Pixinguinha, José Alves de Lima; José Monteiro; Sizenando Santos “Feniano” e o Duque. Sentados: China, Nelson dos Santos Alves e Donga /
A Noite, 14 de agosto de 1922.
“Modéstia à parte, fique sabendo que triunfamos. É bom que se saiba de que quando daqui saímos, animados por uns, ridicularizados por outros, não tinha a estulta pretensão de representar no estrangeiro a arte musical brasileira. O que iríamos apresentar em Paris, e o fizemos com decência, graças a Deus, era apenas uma das feições de nossa música, mas daquela essencialmente popular, característica. Para os que amavam, ficam em nossos corações o reconhecimento e a saudade. Dos outros, preferimos amargar os apodos a discutir. Tocamos para frente!”
Pixinguinha, em entrevista dada ao jornal A Notícia, após a chegada no Rio de Janeiro (Pixinguinha: Vida e Obra)
Durante o mês de setembro, os Batutas fizeram apresentações na Exposição do Centenário da Independência como atração fixa do pavilhão da montadora de automóveis norte-americana General Motors, contando com os reforços da cantora Zaíra de Oliveira (1900 – 1951), mulher de Donga (1890 – 1974)); e do trompetista Bonfiglio de Oliveira (1894 – 1940). Pixinguinha, em entrevista, disse que havia tocado também durante a primeira transmissão radiofônica oficial brasileira, ocorrida em 7 de setembro de 1922. O evento integrou as comemorações do centenário da Independência. Toquei num estudiozinho que havia lá e a Zaíra de Oliveira cantou. O estúdio foi montado no pavilhão dos Estados Unidos.
Uma estação de 500 watts, montada no alto do Corcovado pela Westinghouse Eletric International em combinação com a Companhia Telefônica Brasileira, irradiou músicas e um discurso do presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), surpreendendo os visitantes da Exposição Internacional do Rio de Janeiro, através de 80 receptores vindos dos Estados Unidos, que haviam sido distribuídos às autoridades e instalados em pontos centrais da cidade.
Após diversas apresentações, entre agosto e dezembro de 1922, dentre elas shows promovidos pela famíla Guinle em dois dos mais exclusivos clubes do país, o Fluminense, presidido por Arnaldo Guinle; e o Jockey Club do Rio de Janeiro, cujo presidente era Lineo de Paula Machado, marido de Celina Guinle; os Oito Batutas embarcaram no navio Duque d´Osta para uma temporada no Teatro Empire, em Buenos Aires, sob o comando do empresário José Segreto (O Paiz, 2 de dezembro de 1922, quarta coluna).
Os Batutas na imprensa brasileira em 1922
Decadência do maxixe… (O Paiz, 4 de janeiro de 1922, última coluna) – Na coluna “Artes e Artistas”, comentário sobre o fato dos Oito Batutas ser o único conjunto musical a privilegiar o maxixe.
Os Oito Batutas estrearam no Cine Theatro Abigail Maia, em Madureira (Correio da Manhã, 7 de janeiro de 1922, terceira coluna; A Noite, 9 de janeiro de 1922, segunda coluna)
Os Oito Batutas apresentavam-se no Cine-Theatro Abigail Maia, em Madureira. Mané Pequeno, imitador de caipiras também participava do espetáculo (O Imparcial, 11 de janeiro de 1922, primeira coluna; O Jornal, 12 de janeiro de 1922, última coluna).
No Cine Theatro Fluminense, em São Cristóvão, com a participação dos Oito Batutas e a apresentação de duas peças, realização de um espetáculo em homenagem ao Clube de São Cristóvão (Correio da Manhã, 13 de janeiro de 1922, quinta coluna; O Jornal, 17 de janeiro, sexta coluna).
Os Oito Batutas tocaram durante uma excursão marítima em comemoração aos 35 anos de formatura de uma turma de médicos (O Paiz, 14 de janeiro de 1922, terceira coluna).
No Trianon, participaram de uma festa em benefício de Christóvão Vasques (O Paiz, 17 de janeiro de 1922, sexta coluna).
Artigo do jornalista e escritor Benjamin Costallat (1897 – 1961) fazendo uma pequena trajetória dos Batutas e criticando o esnobismo imbecil em relação à música popular brasileira e o racismo e defendendo a ida do conjunto para Paris (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1922, penúltima coluna).
Lançamento da música A Carta, de autoria de Pixinguinha (1897 – 1973) e M. Almeida (A Noite, 24 de janeiro de 1922, terceira coluna).
Sátira aos novos auxiliares do Ministério da Fazenda, chamando-o de Oito Batutas (D. Quixote, 25 de janeiro de 1922).
Os Oito Batutas vão dar concertos em Paris (O Imparcial, 28 de janeiro de 1922, segunda coluna).
Pelo que é nosso (A Noite, 28 de janeiro de 1922).
A Pátria saudou a viagem como uma das expressões mais legítimas do que é nosso (A Pátria, 28 de janeiro de 1922).
No dia 29 de janeiro de 1922, o grupo musical Oito Batutas embarcou no navio transatlântico Massília rumo à França (O Paiz, 29 de janeiro de 1922, terceira coluna).
Na coluna Aventuras de Motta e Chefe, publicação de uma charge satirizando a ida dos Oito Batutas à Europa (Jornal do Brasil, 29 de janeiro de 1922).
Crítica à ida dos Batutas a Paris. “Não sei se a coisa é para rir ou para chorar. Seja como for, o boulevard vai se ocupar de nós. Não do Brasil de Arthur Napoleão, de Osvaldo Cruz, de Rui Barbosa, de Oliveira Lima, não do Brasil expoente, do Brasil elite, mas do Brasil pernóstico, negróide e ridículo e de que la chanson oportunamente tomará conta” (Diário de Pernambuco, 1º de fevereiro de 1922, segunda coluna).
Meu diário
O sr. Benjamin Costallat, que é um dos nossos mais finos observadores, estava o ano passado em Paris, quando a sua confreira patrícia, a sra. Regina Regis, lá residente, fez representar num teatro qualquer uma peça “genuinamente brasileira” por ela assim inculcada ao público e, como tal, por esse vivamente aplaudida. Nessa assistência, contava-se a flor de nossa colônia na Cidade Luz. E o cronista não pode deixar de manifestar a sua indignação em correspondência para um jornal do Rio diante de um negroide obsceno das bananeiras e dos sambas que a sra. Regis se lembrara de impingir como as únicas coisas típicas de sua pátria à frivolidade boulevardière.
Eu recordei-me imediatamente do protesto de Costallat ao ler um dias desses do telegrama (informando) que o dançarino Duque embarcara com destino à capital francesa levando em sua companhia a troupe dos Oito Batutas. Esses “artistas” já estiveram aqui se exibindo no Teatro Moderno. São oito, aliás, nove desempenados pardavascos, que tocam viola, pandeiro e outros instrumentos rudimentares, acompanhando uns aos outros em cantigas do horrível gênero Catulo Cearense e dançando com exagero as cores da nossa Tersícopere bárbara.
Pois bem! É essa gente que Luiz Duque, o famoso bailarino do Luna Park, um dos ilustres reveladores de “La Mattchiqhe” ao velho mundo, vai fazer exibir no seu cassino, onde passa cotidianamente a gama de blasbenismos e do rastacuerismo internacional. Os Oito Batutas vão ser, dentro de pouco, o número “suco” do Luna e, diante deles, o parisiense blasé se espantará, excitando a sua perdida sensualidade diante das sortes daqueles mulatos audazes que pretendem representar o Brasil”.
E não haver uma política inexorável que legalmente os fisgasse pelo cós e os retirasse de bordo com manopla rija, impedindo-lhes a partida no liner da Mala Real! Impunemente, porém, os Oito Batutas lá vão rumo a Paris mais o Duque, que tem olho fino, mais fino mesmo que os pés e sabem como treinar para que eles se mostrem de verdade uns cotubas no remelexo, nas cantilenas estropeadas de Catulo, na música lúbrica dos choros. Para consagrá-los e desmoralizarem cada vez mais o seu país, lá estão a espera com os seus lugares reservados, os mesmíssimos brasileiros que aplaudiram a peça “nacionalista” da sra. Regis. E depois ainda nos queixamos quando chega por aqui um maroto estrangeiro que, de volta a penates, se dá a divertida tarefa de contar das serpentes e da pretalhada que viu no Brasil (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1922 – de um cronista que se identificava como S).
Foi noticiado que tanto o Jornal do Commercio como o Diário de Pernambuco, do Recife, criticaram a ida dos Oito Batutas à Europa com comentários racistas (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1922, segunda coluna).
Crítica à ida dos Oito Batutas para a Europa. Menção à música Ai, seu Mé, uma sátira em torno da alegada passividade de Artur Bernardes (1875 – 1955), eleito presidente da República, em março de 1922 (Correio da Manhã, 3 de fevereiro de 1922, sexta coluna).
De Barbacena, Leon Feranda enviou uma carta em francês criticando a ida dos Oito Batutas a Paris como representantes do Brasil como havia sido noticiado pelo jornal A Noite. O jornal O Paiz responde às críticas (O Paiz, 4 de fevereiro de 1922, terceira coluna).
Na coluna “Ecos e Novidades”, comentário sobre a ida dos Batutas a Paris e crítica ao esnobismo ignorante dos que nunca atentaram para as belezas da música popular (A Noite, 4 de fevereiro de 1922, primeira coluna).
Crítica ao esnobismo em torno da ida dos Oito Batutas a Paris (A Província, 15 de fevereiro de 1922, terceira coluna).
Notícia sobre a estreia, com sucesso, dos Batutas, em Paris (Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1922, sexta coluna; Gazeta de Notícias, 17 de fevereiro de 1922, sétima coluna).
Publicação do artigo Os “Batutas” em Paris, de José Fortunato, em torno da polêmica da ida dos Batutas a Paris (A Maçã, 18 de fevereiro de 1922).
O préstito do Club dos Democráticos durante o carnaval contou com um carro alegórico de crítica chamado Oito Batutas, onde eram tocados os tangos que mais agradaram ao público dos teatros cariocas (Correio da Manhã, 28 de fevereiro de 1922, quarta coluna; Jornal do Brasil, 4 de março de 1922, última coluna; O Jornal, 28 de fevereiro de 1922, quinta coluna).
Notícia sobre o sucesso dos Oito Batutas no pequeno teatro de Montmartre, Shéhérazade, sob a direção de Duque, em Paris (O Paiz, 9 de março de 1922, quarta coluna; O Jornal, 10 de março de 1922, última coluna).
Publicação do artigo A Música Brasileira, de Chrysantheme, Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos (1870 – 1948), elogiando a turnê dos Oito Batutas, em Paris (Correio Paulistano, 29 de março de 1922, primeira coluna).
Matéria celebrando o sucesso dos Batutas em Paris (Careta, 1º de abril de 1922).
Quando o samba fala francês… Publicação da letra do samba Les Batutas, composto por Pixinguinha (Gazeta de Notícias, 14 de abril de 1922, quarta coluna).
Uma carta enviada pelo jornalista A. Floresta de Miranda de Paris defendeu e deu notícias das apresentações dos Batutas em Paris (Jornal do Recife, 11 de abril de 1922, primeira coluna).
Carta do jornalista A. Floresta de Miranda em defesa dos Batutas (Jornal do Recife, 11 de abril de 1922, primeira coluna).
Os “Oito Batutas” representam a música vulgar carioca’(A Noite, 19 de abril de 1922, quinta coluna).
Crítica sobre a temporada dos Batutas em Paris. Estariam fazendo sucesso. …está dando em resultado o cruzamento harmônico e melódico do nosso do samba com o cancan parisiense (Jornal do Brasil, 22 de abril de 1922, sexta coluna).
Em um artigo sobre a universalidade da linguagem universal, o autor, Augusto de Lima (1859 – 1934), membro da Academia Brasileira de Letras, cita os Oito Batutas (O Imparcial, 16 de junho de 1922, quarta coluna).
Após cerca de 6 meses, em 14 de agosto de 1922, os Batutas voltaram ao Rio de Janeiro, a bordo do Lutetia. O paquete partiu de Bordeux, em 1º de agosto, e fez escalas em Boulogne-sur-mer, Vigo e Lisboa (A Noite, 1º de agosto, primeira coluna, e 14 de agosto de 1922; Diário de Pernambuco, 2 de agosto de 1922, quarta coluna; O Paiz, 15 de agosto de 1922, página 3 e página 4; Jornal do Brasil, 15 de agosto, quinta coluna; Gazeta de Notícias, 15 de agosto de 1922, última coluna).
Pixinguinha declarou que não havia animosidade contra os homens de cor na França. Mencionou a presença de músicos de jazz em Paris e disse que os Batutas voltaram para o Brasil para tomar parte nas comemorações pelo centenário da Independência do Brasil (O Imparcial, 15 de agosto de 1922).
O dançarino Duque, Antônio Lopes de Amorim Diniz (1884-1953), que também havia retornado de Paris, fez uma visita à redação da Gazeta de Notícias e revelou que pretendia abrir um curso de dança no Rio de Janeiro. Estava acompanhado de Donga (1891 – 1974) e de China (1888 – 1926). Foi noticiado que, em 17 de agosto, os Batutas apresentariam um repertório de músicas brasileiras, no Jockey Club em uma festa oferecida ao presidente do clube, Lineu de Paula Machado. No dia 6 de setembro, se apresentariam no Fluminense Futebol Clube no gênero jazz band (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1922, segunda coluna).
Na coluna “Artes e Artistas” foi noticiado que, a convite da sra. Rasimi (1874 – 1954), diretora da Companhia do Ba-ta-clan, os Oitos Batutas haviam apresentado no Theatro Lyrico o repertório dos shows que haviam realizado em Paris. “Não há dúvida nenhuma: mais uma vez os versos do trovador popular se justificam… ”A Europa continua a curvar-se ante o Brasil” (O Paiz, 23 de agosto de 1922, quinta coluna; e 27 de agosto, penúltima coluna, de 1922; Correio da Manhã, 24 de agosto de 1922, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 27 de agosto de 1922,segunda coluna).
A senhora Rasimi ofereceu um almoço, na Ilha d´Água, a vários escritores, artistas e jornalistas brasileiros com uma apresentação dos Oito Batutas (O Paiz, 24 de agosto de 1922, primeira coluna).
Propaganda e notícia da apresentação dos Batutas no Theatro Lyrico, no espetáculo de revista V´la Paris (O Paiz, 26 de agosto de 1922 e Correio da Manhã, 26 de agosto de 1922; O Jornal, 26 de agosto de 1922, terceira coluna).
No Palace Hotel, a esposa do adido naval dos Estados Unidos, a sra. Herbert Sparrow, ofereceu uma recepção com a apresentação dos Oito Batutas (O Paiz, 2 de setembro de 1922, terceira coluna).
Foi noticiado que os Oito Batutas trouxeram de Paris novas músicas: Dádiva d´ Amor, de Donga (1891 – 1974), e Batutas, samba de Pixinguinha (A Noite, 5 de setembro de 1922, última coluna).
Segundo artigo do poeta e compositor Hermes Fontes (1888 – 1930): “Já cá estão os Oito Batutas, de volta de Paris, onde estragaram o sentimento brasileiro e a verdadeira poesia dos sertões” (A Illustração Brasileira (FRA), 7 de setembro de 1922).
Apresentação dos Oito Batutas na inauguração do Hotel Balneário Sete de Setembro, construído na Praia de Botafogo para as comemorações do centenário da independência do Brasil (O Paiz, 7 de setembro de 1922, quarta coluna; O Imparcial, 7 de setembro, penúltima coluna).
Propaganda da estreia dos Oito Batutas no Cine-Theatro Rialto (O Paiz, 10 de setembro e 12 de setembro de 1922; Correio da Manhã, 10 de setembro de 1922; O Imparcial, 12 de setembro de 1922, quarta coluna).
Os Oito Batutas foram contratados pelo prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio (1861 – 1930), para tocarem na festa, no alto do Corcovado, oferecida às delegações de Buenos Aires e de Montevidéu, presentes na cidade devido à comemoração do centenário da Independência do Brasil. “Os Oito Batutas empurraram um maxixe eletrizante” (Correio da Manhã, 16 de setembro, última coluna; O Combate, 18 de setembro de 1922, primeira coluna).
Participaram, no Teatro Municipal, de uma homenagem ao presidente de Portugal, Antônio José de Almeida. O ator Leopoldo Froes (1882 – 1932) e os músicos Catulo da Paixão Cearense (1863 – 1946) e Mario Pinheiro (1883 – 1923) também participaram do evento (Jornal do Commercio, 18 de setembro de 1922, última coluna).
No Country Club, apresentação dos Oito Batutas e da jazz band Harry Kosarin´s (ou Kosarini) em um chá dançante em homenagem a estudantes sul-americanos (O Paiz, 21 de setembro de 1922, primeira coluna; O Imparcial, 21 de setembro de 1922, penúltima coluna).
A Sociedade Brasileira de Autores Teatrais havia aberto um inquérito contra os Oito Batutas devido a acusações feitas a eles por J. B. da Silva, o Sinhô (1888- 1930), e Francisco José Freire Junior (1881 – 1956). Segundo os compositores, os Oito Batutas haviam, sem autorização, editado, em Paris, trabalhos musicais da autoria deles. O relator foi Cardoso de Menezes, que pediu que o professor Duque fosse ouvido (O Imparcial, 21 de setembro de 1922, segunda coluna; Jornal do Commercio, 6 de outubro de 1922, quinta coluna; Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1922, segunda coluna).
Os Oito Batutas tocaram na festa oferecida pelo Círculo da Imprensa para os jornalistas estrangeiros, presentes na cidade devido à comemoração do centenário da Independência do Brasil (Correio da Manhã, 2 de outubro de 1922, quarta coluna).
A Companhia Abigail Maia estava sendo esperada, com os Oito Batutas, em São Paulo, onde fariam apresentações no Teatro da República (O Combate, 2 de outubro de 1922, segunda coluna; 3 de outubro, primeira coluna).
No Clara Hotel, apresentação dos Oito Batutas com o delicioso exotismo de seus fox-trots parisienses (O Imparcial, 7 de outubro de 1922, terceira coluna).
A valsa Diza, de autoria de China (1888 – 1926), irmão de Pixinguinha (1897 – 1973), e executada pelos Oito Batutas e pelas orquestras Cícero, Romeu Silva e Andreosi, foi editada pela Casa Viúva Guerreiro (O Jornal, 1º de novembro de 1922, terceira coluna).
No Palácio das Festas, na Exposição do Centenário da Independência do Brasil, os Oito Batutas e uma banda militar foram as atrações musicais do baile promovido pela União dos Empregados no Comércio. O serviço de buffet foi do restaurante Falconi (A Noite, 8 de novembro de 1922, quarta coluna; O Paiz, 9 de novembro de 1922, segunda coluna).
Tocaram na sala de espetáculos do Teatro Carlos Gomes, onde se apresentava o vaudeville Surpresas da exposição, do dramaturgo Gastão Tojeiro (1880 – 1965) (Jornal do Brasil, 28 de novembro de 1922, quinta coluna); O Imparcial, 28 de novembro de 1922, segunda coluna).
Os Oito Batutas embarcaram no navio Duque d´Osta para uma temporada no Empire, em Buenos Aires, sob o comando do empresário José Segreto (O Paiz, 2 de dezembro de 1922, quarta coluna; O Jornal, 3 de dezembro de 1922, quinta coluna; Correio Paulistano, 2 de dezembro de 1922, quinta coluna 1922, quinta coluna; Correio Paulistano, 2 de dezembro de 1922, quinta coluna).
Uma brevíssima história dos Oito Batutas e Pixinguinha
“Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas, se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha”
Ary Vasconcellos, crítico e historiador
“É o melhor ser humano que conheço. E olha que o que eu conheço de gente não é fácil!”
Vinícius de Moraes sobre Pixinguinha
O elegante Cine Palais foi inaugurado, na avenida Rio Branco, antiga avenida Central, no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1914. Ficava no edifício onde anteriormente localizava-se o Cine Pathé (Correio da Manhã, 12 de julho e 15 de julho de 1914). Seu proprietário era o coronel Gustavo de Mattos (Revista da Semana, 17 de julho e 24 de julho de 1915).
Apresentaram-se pela primeira vez, em abril de 1919, na sala de espera do Cine Palais, os Oito Batutas, formado por Pixinguinha (flauta), Donga (violão), China (voz e violão), Nelson Alves (cavaquinho), os irmãos Raul (violão) e Jacob Palmieri (pandeiro); José Alves de Lima, o Zezé (bandolim e ganzá) e Luís de Oliveira (bandola e reco-reco). Todos os livros consultados pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica apontam o dia 7 de abril de 1919 como o da estreia do grupo no Cine Palais, mas há registros nos jornais da época de apresentações anteriores a essa data (O Paiz, 2 de abril, penúltima coluna; e 4 de abril, terceira coluna, de 1919; Manchete, 24 de setembro de 1966).
Pixiguinha já havia tocado flauta, em meados da década de 1910, na sala de projeção do Cine Palais, acompanhando os filmes mudos.
A ideia da criação do conjunto musical, que se tornaria lendário na história da música popular brasileira, foi de Isaac Frankel, gerente do cinema, como uma estratégia para resgatar o público que havia se afastado dos cinemas devido à violenta epidemia de gripe espanhola, em 1918. Frankel havia ouvido, no carnaval de 1919, o Grupo Caxangá, do qual faziam parte, dentre mais de 15 músicos, Pixinguinha (1897 – 1973), Donga (1891 – 1974) e João Pernambuco (1883 – 1947), no coreto do Largo da Carioca, ao lado da sede da Sociedade Tenentes do Diabo. O Caxangá era, na década de 1910, uma das principais atrações do carnaval do Rio de Janeiro.
Em julho de 1919, os Oito Batutas também tocaram nas salas de espera dos teatros Carlos Gomes e São José, ambos do empresário e um dos pioneiros do cinema no Brasil, Paschoal Segreto (1868 – 1920) (O Paiz, 23 de julho de 1919). Em outubro, João Pernambuco integrava o conjunto, do qual o bandolinista José Alves de Lima havia se desligado.
As apresentações do grupo na sala de espera do Cine Palais, frequentado pela elite carioca, onde já haviam tocado os pianistas Oswaldo Cardoso de Menezes (1893 – 1935) e Luciano Gallet (1893 – 1931), fizeram muito sucesso e logo o conjunto ganhou admiradores como o músico Ernesto Nazareth (1863 – 1934), que tocava na sala de espera do concorrente Cine Odeon; o político Ruy Barbosa (1849 – 1923) e o empresário Arnaldo Guinle (1884 – 1963) que, como já mencionado, patrocinou uma turnê do grupo por estados do sudeste e do nordeste do Brasil, entre 1919 e 1920; e, em 1922, para Paris.
Estava programada uma apresentação dos 8 Batutas para os reis da Bélgica, que visitaram o Brasil entre 19 de setembro e 16 de outubro de 1920. Aconteceria durante o almoço que seria oferecido a eles pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio, na Mesa do Imperador. Porém uma chuva fez com que o evento fosse cancelado (O Paiz, 24 de setembro de 1920, segunda coluna; O Paiz, 25 de setembro de 1920).
Em 1º de dezembro de 1922, após a turnê de Paris, o conjunto seguiu em nova viagem internacional, desta vez para a Argentina e foram mesmo Oito Batutas: Pixinguinha (flauta e saxofone), Donga (violão e banjo), J. Tomás (bateria), China (violão e voz), Nelson Alves (cavaquinho e banjo), J. Ribas (piano), Josué de Barros (violão) e José Alves (bandolim e ganzá). Apresentaram-se em Buenos Aires, no Teatro Empire; em Rosário, La Plata e Chivilcoy (O Paiz, 2 de dezembro de 1922, quarta coluna). A temporada foi um sucesso e terminou em abril de 1923 (Correio da Manhã, 6 de abril de 1923, sexta coluna).
Em 1927, os Batutas começaram a tocar no Cinema Odeon e fizeram uma turnê por Santa Catarina (Correio da Manhã, 25 de agosto, segunda coluna). Também se apresentaram em teatros e no espetáculo Noites de Montmartre, no Assyrio (Correio da Manhã, 14 de julho de 1927), onde, de maio de 1928 a 1931, foram atração fixa.
Pixinguinha, Donga (1891 – 1974) e João da Baiana (1887 – 1974) criaram o Grupo da Guarda Velha, que substituiu os Batutas e foram um grande sucesso no carnaval de 1932. Os três músicos foram frequentadores da Casa de Tia Ciata (1854 – 1924), que ficava na Pequena África no Brasil, expressão baseada numa afirmação do cantor e pintor Heitor dos Prazeres (1898 – 1966) se referindo à área que começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho, que foi totalmente remodelada nos anos 1940 para a abertura da avenida Presidente Vargas. Foi lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira.
João da Baiana era filho de Prisciliana Maria Constança, e Donga, filho de Amélia Silvana de Araújo, tias baianas da Pequena África. Eras irmãs-de-santo da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, no terreiro de João Alabá, um dos principais babalorixás do candomblé no Rio de Janeiro. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana e, principalmente, a de Tia Ciata foram espaços fundamentais da música popular carioca.
Entre a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a comunidade afrodescendente se reunia nessa região para praticar religiões de matriz africana e cantar sambas. Foi na casa de Tia Ciata, onde havia um terreiro de candomblé clandestino e onde os bambas do samba se encontravam, que o primeiro samba, registrado e gravado como tal, Pelo telefone, foi composto por Donga e Mauro de Almeida (1882 – 1956), em 1916. Foi lançado pela Odeon, em 1917. Existiu uma polêmica em torno de sua autoria: foi registrado por Donga, em 27 de novembro de 1916, mas teria sido uma criação coletiva. Houve uma troca de petardos musicais entre Sinhô (1888 – 1930), que estaria presente na casa de Tia Ciata quando o samba foi composto e a turma de Donga, dentre eles João da Baiana e Pixinguinha. Outra polêmica envolve o fato de ter sido mesmo o primeiro samba ou se foi o primeiro samba a fazer sucesso, já que alguns autores alegam que antes foram compostos os sambas Em casa da baiana, de 1911; e A viola está magoada, de 1914.
Foi também na Pequena África que a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba, foi fundada, em 12 de agosto de 1928, pelos sambistas Bide, Mano Edgar, Brancura, Baiaco, dentre outros, além de Ismael Silva, que reinvidicava a expressão escola de samba. Eles se reuniam no Bar Apolo ou no Café Compadre, em frente à Escola Normal, no Largo do Estácio. Existiu até 1932, quando se apresentou como rancho carnavalesco.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
A Brasiliana Fotográfica agradece a colaboração de Bia Paes Leme, coordenadora de Música do Instituto Moreira Salles, e a de Fernando Krieger e Isadora Cirne, assistentes da Coordenadoria de Música do Instituto Moreira Salles, para a publicação desse artigo.
Para mais informações sobre Pixinguinha e os Batutas, inclusive para acessar gravações e mais fotografias do conjunto, acesse o site Pixinguinha, do Instituto Moreira Salles.

Abotoaduras que pertenceram a Pixinguinha/ Arquivo Pixinguinha / Acervo IMS
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Links para os artigos já publicados da Série 1922 – Hoje, há 100 anos





































































































