O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor e um breve histórico do uso da expressão “Cidade Maravilhosa” como referência ao Rio de Janeiro

Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, passa a Rabat, capital de Marrocos, o posto de Capital Mundial do Livro, que assumiu há exatamente um ano. O Rio foi a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Em homenagem à cidade, cuja beleza e vocação exibicionista são inequívocas, a Brasiliana Fotográfica publica uma seleção de fotos da paisagem carioca, de alguns de seus símbolos mais icônicos e conta uma pouco da história do uso da expressão Cidade Maravilhosa, que tornou-se seu epíteto.

 

 

Segundo o poeta e editor Alexei Bueno (1963 – ), a poetisa francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955) foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro. Para o jornalista Rafael Sento Sé, autor do livro que inspirou esse artigo, foi ela que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque. 

 

 

 

 

Mas a expressão se popularizou, de fato, a partir da canção homônima de André Filho (1906 – 1974), gravada, em 1934, por ele e por Aurora Miranda (1915 – 2005) e sucesso no carnaval de 1936. O epíteto tornou-se eterno!

Viva a leitura! Viva a fotografia! Viva a Cultura! Viva a Cidade Maravilhosa!

 

 

Foram selecionados para essa publicação registros produzidos por fotógrafos ainda não identificados, e por Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?)Augusto Malta (1864 – 1957), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923). São belas imagens produzidas desde fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Do primeiro, Costa Ribeiro, ainda não temos informações consistentes sobre sua vida e trajetória profissional.

 

 

Acessando o link para fotos selecionadas da Cidade Maravilhosa de autoria de Antônio Caetano da Costa Ribeiro, Augusto Malta, Juan Gutierrez e Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

Foi na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito do Rio de Janeiro que, pela primeira vez, a prefeitura contratou um fotógrafo, o alagoano Augusto Malta, para documentar as obras da cidade. Ele ocupou o cargo até 1936, quando se aposentou. Incansável, elegante e bem-humorado, foi com seus olhos irrequietamente falantes o principal cronista visual do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia.

 

 

Juan Gutierrez (c.1860 – 1897)

Provavelmente nascido nas Antilhas, em torno de 1860, Juan Gutierrez foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro, tendo registrado a transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens cariocas, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Partiu para Canudos, em 1897, onde, em 28 de junho, foi mortalmente ferido.

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

O carioca Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 

Breve histórico do uso da expressão Cidade Maravilhosa como referência ao Rio de Janeiro

 

 

A Cidade Maravilhosa e Alfredo Maia (1850 -1887)

 

O escritor e oficial da Marinha Portuguesa Alfredo Maia usou a expressão cidade maravilhosa ao referir-se ao Rio de Janeiro no capítulo XIII de seu folhetim Viagens de um marinheiro, publicado no jornal português Jornal da Noite (Jornal da Noite (Portugal), 05 e 06 de agosto de 1879, terceira coluna).

A capital do império brasileiro goza créditos de uma cidade maravilhosa e a sua baía rivaliza, diz-se, com o porto de Constantinopla e de Lisboa. Vamos lá ver tudo isso e sejamos justos em nossa admiração pelo que virmos…Com efeito, é esplêndido o magnífico porto do Rio de Janeiro, onde cabem à larga todas as esquadras do mundo!”.

 

 

 

Alfredo de Lacerda Maia, nascido em Alijó, cidade localizada na região do Douro, em 1850, foi redator dos jornais portugueses Atlantico, folha destinada ao Brasil e repúblicas do Rio da Prata, do Jornal do Noite e do Mercantil . Foi também colaborador da revista Chronicas Modernas. Em 1883, era segundo-tenente, comandante da lancha Rio Minho e por sua atuação recebeu uma nota de louvor do Ministério da Marinha de Portugal. Em 1886, já como capitão-tenente, era o governador do Timor e, pelos serviços que prestou ao comércio, recebeu dos negociantes da mencionada colônia portuguesa uma espada de honra. No mesmo ano, foi agraciado pelo governo português com a Comenda de Aviz. De Surabaia, foi enviado um telegrama para governo português informando que Maia havia sido assassinado pelos indígenas. Foram pedidos socorros para Macau. O assassinato ocorreu, em 3 de março de 1887, em Díli. Ele era casado e deixou um filho de 10 anos. Foi publicado, no Correio da Manhã, em 14 de março, poucos dias após seu assassinato, um artigo de sua autoria sobre uma visita que havia realizado ao sultão de Zanzibar (Jornal da Noite (Portugal), 26 e 27 de janeiro de 1880, última coluna27 e 28 de dezembro de 1880, quinta coluna; 7 e 8 de abril de 1881, segunda coluna; 23 e 24 de julho de 1883, terceira coluna11 e 12 de março de 1886, terceira coluna25 e 26 de agosto de 1886, quarta coluna11 e 12 de março de 1887, segunda colunaCorreio da Manhã (Portugal), 1º de outubro de 1886, terceira coluna; 8 de novembro de 1886, primeira coluna11 de março, de 1887, quarta coluna14 de março de 188727 de abril de 1887, quarta coluna).

 

 

A Cidade Maravilhosa e o escritor italiano Edmondo de Amicis (1846 – 1908)

 

 

Segundo o escritor e filósofo Ivo Karytowski (1951 -), em seu artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, foi feita uma referência ao Rio de Janeiro como uma cidade maravilhosa, em 1902, em um artigo escrito pelo italiano Edmondo de Amicis e publicado no suplemento La Lettura do jornal milanês Corriere della Sera. Amicis, em 1884, retornando de uma viagem à Argentina, fez uma rápida escala no porto do Rio. Segue o trecho do artigo em que a expressão foi usada:

“– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores:

– Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa (E non la tenta la descrizione d’uma città maravigliosa, no original italiano), onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?”

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

[…]

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. – Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!”

Transcrito do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade,

de Ivo Karytowski,  2022.

 

 

O escritor e militar italiano Edmundo De Amicis nasceu em Oneglia, em 21 de outubro de 1846, e faleceu em Bordighera, em 11 de março de 1908. Sua maior obra foi o livro Coração (1886). A viagem durante a qual passou rapidamente no Rio de Janeiro, entre Gênova e Montevidéu, na primavera de 1884, a bordo do vapor Nord America, inspirou o livro de sua autoria, Sull’oceano (No oceano), publicado em 1889, misto de romance e diário de bordo. Seu tema é a emigração italiana para a América do Sul no final do século XIX. Foi traduzido para o português por Adriana Marcolini e publicado em 2017, no Brasil, com o título Em Alto-mar.

 

A Cidade Maravilhosa e o carnaval de 1904

 

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Numa notícia sobre o préstito carnavalesco do Clube de São Cristóvão, foi publicada, no jornal O Paiz, de 16 de fevereiro de 1904, versos que protestavam contra as carrocinhas que pegavam cachorros nas ruas. Na última estrofe, foi usada a expressão cidade maravilhosa, referind0-se ao Rio de Janeiro. Foi, muito provavelmente, a primeira vez que a expressão, referindo-se ao Rio de Janeiro, foi publicada na imprensa brasileira.

 

 

 

Daí por diante, na imprensa, volta e meia a expressão aparecia em referência à cidade (O Paiz, 4 de maio de 1904, quinta colunaO Malho, 24 de novembro de 1906A Notícia, 22 e 23 de maio de 1907, primeira coluna; 6 e 7 de julho de 1909, terceira coluna; 26 e 27 de julho de 1909, penúltima coluna; 15 e 16 de agosto de 1910, terceira coluna; 21 e 22 de setembro de 1909, penúltima colunaRevista da Semana, de 3 de novembro de 1907, terceira colunaA Imprensa, 8 de agosto de 1909, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 4 de agosto de 1909, quinta coluna.

 

 

Em 1908, a expressão cidade maravilhosa foi usada diversas vezes não se referindo à cidade do Rio de Janeiro, mas ao espaço onde se realizou a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, na Urca (O Paiz, 24 de agosto de 1908, primeira coluna; 17 de novembro de 1908, primeira e segunda colunas; 16 de dezembro de 1908, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de outubro de 1908, quarta coluna; Jornal do Commercio, 27 de setembro de 1908, penúltima coluna).

Uma curiosidade: ainda nos anos 1900, Paris, São Paulo, o vale de Sorgues, Buenos Aires, Sevilha e Veneza foram referidas na imprensa brasileira como cidades maravilhosas (O Paiz, 9 de fevereiro de 1900, primeira coluna3 de abril de 1905, segunda coluna; 24 de março de 1907, segunda coluna; A Notícia, 13 de 14 de junho de 1904, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 9 de dezembro de 1906, segunda coluna; 12 de janeiro de 1908, última coluna; Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1907, quarta coluna; Revista da Semana, 2 de novembro de 1902, primeira coluna).

 

A Cidade Maravilhosa e Coelho Neto (1864 – 1934)

 

 

Coelho Neto foi um importante escritor e teatrólogo brasileiro, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Nasceu em 21 de fevereiro de 1864, em Caxias, no Maranhão, e faleceu, em 28 de novembro de 1934, no Rio de Janeiro.

A polêmica em torno de ele ser ou não o autor da expressão cidade maravilhosa em referência ao Rio de Janeiro é antiga: o uso da expressão pela poetisa francesa Jane Catulle Mendés, de quem falaremos mais adiante, foi lembrada na biografia do compositor Mário Penaforte (1876 – 1928), lançada no livro intitulado O rei da valsa, em 1958, escrito pelo poeta e tradutor Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987) (Correio da Manhã, de 1958, 19 de agosto de 1958, quarta coluna). O filho de Coelho Neto, Paulo (1893 – 1985), publicou um pequeno livro de 16 páginas, Restabelecendo a verdade, defendendo o pai como autor da expressão (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1958, primeira coluna). Onestaldo e Paulo comentaram a polêmica no jornal Correio da Manhã nos artigos Controvérsia em torno da “Cidade Maravilhosa” e Cidade Maravilhosa, respectivamente (Correio da Manhã, 15 de novembro de 1958  e 22 de novembro de 1958, terceira coluna). A polêmica voltou à baila, em 1965, quando se comemoravam os 400 anos do Rio de Janeiro, quando foi sugerido por leitores do jornal O GLOBO que Jane Catulle Mendès nomeasse um logradouro carioca já que teria sido a criadora da expressão. No dia seguinte, Paulo Coelho Neto, em uma matéria publicada no jornal voltou a afirmar que seu pai era o autor do epíteto. Não adiantou: uma praça em Campo Grande foi batizada com o nome Catulle Mendès (O GLOBO, 18 e 19 de maio de 1965).

 

O GLOBO, 18 de maio de 1965

O GLOBO, 18 de maio de 1965

 

O GLOBO, 19 de maio de 1965

O GLOBO, 19 de maio de 1965

 

Vamos aqui listar o uso da expressão por Coelho Neto:

No capítulo VII do folhetim Mistério de Natal, Coelho Neto usou a expressão cidade maravilhosa, mas ela não se referia ao Rio de Janeiro (O Paiz, 14 de dezembro de 1904, penúltima coluna).

Segundo uma carta do general Paulo de Bittencourt Amarante enviada para a coluna “Encontro Matinal”, da Eneida (1904-1971), grande cronista do carnaval carioca, Coelho Neto teria se referido ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa na palestra Antiga Cidade, proferida em 10 de outubro de 1908, na Academia Nacional de Música (Diário de Notícias, 19 de fevereiro de 1965, primeira coluna). Porém, na leitura da palestra, não se encontra a expressão (Palestras da Tarde (1911), página 33).

 

 

Na crônica Os Sertanejos, também de autoria de Coelho Neto, publicada no jornal A Notícia, de 29 e 30 de outubro de 1908, ele voltou a usar a expressão cidade maravilhosa, desta vez para referir-se à área onde foi realizada a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, e não à cidade do Rio de Janeiro. A crônica conta a história de um grupo de matutos que se apresentaria no evento, mas, impressionados com a modernidade do Rio de Janeiro, não conseguem se apresentar bem, decepcionando o público (A Notícia, 28 e 29 de outubro de 1908, primeira coluna). Na crônica (1), quando adentraram a exposição:

“Era ao cair da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palácios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa Estacaram deslumbrados. A Cidade Maravilhosa resplandecia como nas lendas. No fundo, na concha do palácio das Indústrias, a água escachoava colorindo-se à refração das luzes. Surgiram monstros flamineos acaçapados, no relvedo, esguicharam repuchos policromicos e a mísera gente tremia e encomendavam-se aos santos, fazendo promessas árduas, arrependida de haver seguido o diabo sedutor que a fora buscar no repouso feliz da sua terra para arrojá-la naquele inferno”.

 

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A Notícia, 29 e 30 de outubro de 1908. As edições de 1908 de A Notícia não constam da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, só estando disponíveis em microfichas na instituição

 

Parece que Cidade Maravilhosa não se referia ao Rio de Janeiro, mas ao recinto onde se realizava a Exposição de 1908.

Em 10 de novembro de 1927, Coelho Neto publicou no Jornal do Brasil uma versão modificada de Os Sertanejos, agora com o título Sertanejos, e nela a expressão Cidade Maravilhosa se referia certamente ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1927, penúltima coluna).

“- Ocê uviu, Clódina ? A modi qu’é boi berrando. Não vá sê genti incantada! Era a hora angelical e o bando poz-se a rezar baixinho, á medida que a noite começa a desengranzar o seu rosario de estrellas. Subito, uma deflagração. Collares de lampadas de fogo e a linha dos edificios debruada a luzes. Foi um medo panico indizivel: “Misericordia! Credo! Abrenuntio! P’ras areias gordas!”
– Sê tá vendo, Clódina ? Eu não dixe qu ́é u inferno ? Oia cumu tudo s’accendeu d’uma vez ! sem phosque. Estacaram deslumbrados.
A Cidade maravilhosa resplandecia como nas lendas. E a misera gente tremia e encommendava-se a Deus, a Nossa Senhora e aos santos, fazendo promessa, arrependida de haver seguido o demonio tentador que a fôra buscar no repouso feliz da sua terra. E quando appareceu um automovel urrando, com os dois immensos olhos accesos em clarões, a debandada foi tumultuosa e gritos e esconjuros atroaram. Foi em tal estado d’alma que os sertanejos ensaiaram no cinema os cantos e as danças em que são exímios”.

 

 

Posteriormente, em 1928, ele lançou o livro Cidade Maravilhosa, mas no conto que dá nome à obra o Rio de Janeiro não é descrito. O termo se referia a uma cidade dos sonhos, uma cidade imaginária.

 

 

 

“Aqui a tem a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla…Ilusões…Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, da sedução do homem sinistro a mostra-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor”.

 

A Cidade Maravilhosa e Vicente Blasco Ibáñez (1867 – 1928)

 

 

Em uma entrevista para o correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, o escritor, jornalista e político espanhol Vicente Blasco Ibáñez referiu-se ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa. Tinha estado por poucos dias na cidade (Diário do Maranhão, 27 de agosto de 1909, segunda coluna).

 

 

Blasco Ibáñez nasceu em Valencia, na Espanha, em 29 de janeiro de 1867, e faleceu, em Menton, na França, em 28 de janeiro de 1928. Tornou-se um dos mais famosos romancistas espanhóis de seu tempo. Era contra a monarquia e fundou, em 1894, o jornal El Pueblo. Foi deputado, representante do Partido Republicano, entre 1898 e 1907. Em 1914, quando teve início a I Grande Guerra Mundial,  tornou-se correspondente. Seu livro de maior sucesso foi Os quatro ginetes do Apocalipse (1916).

 

 

A Cidade Maravilhosa e Jane Catulle Mendès (1867 – 1955)

 

 

Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, é o nome do livro onde os poemas enaltecendo o Rio de Janeiro, de autoria da escritora e feminista francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados, em 1913. Pela primeira vez, a expressão dava título a um livro.

 

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Ilustração de Jane Catulle Mendès no frontispício do livro

 

Ainda em 1913, foi publicada no Jornal do Brasil, de 11 de maio, uma crítica extremamente favorável ao livro. Nela, está a poesia Promenade, que Jane escreveu dedicada a Fernando Mendes de Almeida (1845 – 1921), redator-chefe do jornal.

 

 

Ela havia passado uma temporada no Rio de Janeiro que, a princípio, seria de três semanas, mas que se estendeu de 20 de setembro a 6 de dezembro de 1911, quando Jane se encantou pela cidade, cuja elite era profundamente influenciada pela cultura francesa. Chegou no Rio a bordo do paquete Amazon, vindo de Buenos Aires, acompanhada por sua secretária, Mathilde Grimaud (18? -19?), desembarcando no Cais Pharoux, onde foi recebida por uma comissão da Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

Já no dia de sua chegada declarou: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis eblouie” – O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa pela qual estou deslumbrada -, conforme publicado na primeira página do jornal A Imprensa, de 21 de setembro de 1911 (O Paiz20 de setembro, quarta coluna21 de setembro, segunda coluna6 de dezembro, primeira coluna de 1911; A Imprensa, 21 de setembro de 1911).

 

 

Havia sido colaboradora do jornal La Fronde, fundado pela atriz e jornalista Marguerite Durand (1864–1936), em 1897, e produzido exclusivamente por mulheres até 1905, quando foi fechado. Jane era viúva do escritor francês Catulle Abraham Mendès (1841 – 1909), expoente do parnasianismo, com quem foi casada entre 1897 e 1909.

Ela partiu de volta à Europa no paquete Danube (O Paiz6 de dezembro, primeira coluna de 1911; Gazeta de Notícias, 7 de dezembro de 1911, terceira coluna).

 

 

A passagem de Jane Catulle Mendès pelo Rio de Janeiro foi um grande sucesso. A cidade acabara de passar por uma grande reforma urbanística durante a gestão de Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito. Jane encantou-se pela beleza das paisagens cariocas, tanto pelas naturais como pelas construídas. Ficou hospedada no Hotel dos Estrangeiros, aonde recebeu jornalistas no dia em que chegou no Brasil, segundo o jornalista Rafael Sento Sé, foi uma coletiva de imprensa, subterfúgio até hoje comum no mundo do showbiz e que Jane organiza de forma pioneira no Rio de Janeiro.

 

 

Conheceu diversas personalidades da época, como os escritores João do Rio (1881 – 1921) e Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934), que escreveu uma crônica a respeito dela publicada no jornal O Paiz, de 3 de outubro de 1911; a socialite, promotora cultural e feminista Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), o maestro Arthur Napoleão (1843 – 1925), o chargista Emílio Cardoso Ayres (1890 -1916), por quem foi retratada; o casal Stella (1879 – 1971) e Fernando Guerra Duval (18? – 1959), ela, feminista e uma das criadoras da Pró-Matre, e ele, fotógrafo amador, barítono e poeta; e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923). Frequentou salões cariocas, o Club dos Diários e visitou diversos lugares da cidade como os morros do Corcovado e do Silvestre, os bairros à beira-mar da Zona Sul, a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico. E passeou muito pela Avenida Central (Careta, 28 de outubro; 4 de novembro, primeira coluna; O Paiz, 24 de setembro, primeira coluna30 de setembro, primeira coluna3 de outubro20 de outubro, quinta coluna; 29 de outubro, primeira coluna, 1º de novembro, primeira coluna9 de novembro , primeira colunaGazeta de Notícias, 21 de setembro, penúlltima coluna2 de novembro, segunda coluna, de 1911).

Seu poema, Rio de Janeiro, dividido em quatro partes – Matin, Crepuscule, Nocturne e Adieu – foi publicado em O Paiz, de 22 de outubro de 1911.

 

 

Fez durante sua temporada carioca três conferências: a primeira, O heroísmo da mulher francesa, em 29 de setembro, no salão da Associação dos Empregados do Comércio (Gazeta de Notícias, 29 de setembro30 de setembro, quarta colunaO Paiz, 2 de outubro de 1911, segunda coluna).

 

 

A segunda, intitulada A Parisiense, realizou-se no salão nobre do Jornal do Commercio, em 12 de outubro (Jornal do Commercio, 12 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

A última foi proferida, em 24 de outubro, no Teatro Municipal sobre As escritoras francesas (O Paiz, 25 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

No ano seguinte a sua partida, o jornal A Notícia, de São Paulo, promoveu um sorteio entre seus assinantes cujo terceiro prêmio seria um belo passeio ao Rio de Janeiro, à cidade maravilhosa, conforme a qualificou a notável poetiza francesa Jane Catulle Mendès (A Notícia (SP), 3 de dezembro de 1912, quarta coluna).

Segundo Alexei Bueno (1963 – ), no livro Rio Belle Époque: Álbum de imagens: Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendès foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1965, última coluna). Conforme o título do livro de Rafael Sento Sé, fruto de 13 anos de pesquisa, foi Jane Catulle Mendès que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque.

 

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A Cidade Maravilhosa e Eugênio de Lemos (18? – 19?)

 

No mesmo ano da publicação do livro de Jane Catulle Mendés, 1913, no jornal A Notícia, na coluna “Contos de Hoje”, de Eugenio de Lemos, foi publicada a crônica A Cidade Maravilhosa. Acredita-se que esta foi a primeira vez que a expressão deu título a um artigo artigo jornalístico sobre o Rio de Janeiro. Nela, o autor comentava as belezas da cidade (A Notícia, 20 e 21 de março de 1913).

 

 

 

A Cidade Maravilhosa e Olegário Mariano (1889 – 1958)

 

 

O poeta e político recifense Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em 24 de março de 1899.  Publicou, em 1922, pela editora Pimenta de Mello, o livro de poesias Cidade Maravilhosa. Uma segunda edição, ampliada, foi editada pela Companhia Editora Nacional, em 1930. O livro traz 14 poemas, sendo quatro alusivos aos Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa, O aspecto mais lindo da cidade, Na feira livre de Copacabana e O crepúsculo na Quinta da Boa Vista. O príncipe dos poetas faleceu em 28 de novembro de 1958, no Rio de Janeiro (O Jornal, 21 de novembro de 1968).

 

 

 

Cidade Maravilhosa

Olegário Mariano

Cidade maravilhosa!
Na luz do luar, fluídica e fina,
Lembra excêntrica bailarina,
Corpo de náiade ou sereia,
Desfolhando-se em pétalas de rosa,
Com os pés nus sobre a areia.
Cidade do gozo e do vício!
Flor de vinte anos, rosa do desejo!
Corpo vibrando para o sacrifício,
Seios à espera do primeiro beijo.
Cidade do Amor e da Loucura,
Das estrelas errantes…Para vê-las,
Vibra no olhar de cada criatura
Uma ânsia indefinida
Pelo brilho longínquo das estrelas
Que é, como tudo, efêmero na vida.
Cidade do Êxtase e da Melancolia,
De dias tristes e de noites quietas;
Sombra desencantada da alegria
Dos que vivem de lágrimas, os poetas.
Cidade de árvores e sinos.
De crianças e jardins. Flor das Cidades;
Berço de ouro de todos os Destinos,
Fonte eterna de todas as Saudades.

Olegário Mariano foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu livro de estreia foi Angelus, em 1911. Sua obra poética foi publicada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olímpio. Também publicou, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, que foram reunidas nos livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1933).

 

Manuel Faria (1895 – 1980) e a Cidade Maravilhosa 

 

 

O pintor Manuel Faria (1895 – 1980), um poeta do pincel que se vem revelando invulgarmente, aplicando-se em mostrar os panoramas deslumbrantes da cidade, inaugurou, no Palace Hotel, sob os auspícios do Centro Carioca, uma exposição em que a Cidade Maravilhosa encontra o seu pintor entusiasta e escrupuloso. Os quadros eram de paisagens do Rio de Janeiro e o pintor pretendia a partir da mostra organizar um álbum ilustrado que seria intitulado Cidade Maravilhosa (O Cruzeiro, 27 de dezembro de 1930, Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1930, segunda coluna).

 

 

 

Manuel Faria Guimarães estudou na Escola Nacional de Belas Artes, tendo sido discípulo de João Baptista da Costa (1865 – 1926), Lucílio de Albuquerque (1877 – 1939) e Rodolfo Chambelland (1879 – 1967). Ocupou a cadeira 9 da Academia Brasileira de Belas Artes.

 

 

A Light e a Cidade Maravilhosa

Foi publicado, em 1932, o livro Crônicas da Cidade Maravilhosa, editado pelo Departamento de Publicidade da Light. Na edição de Vida Literária, de dezembro de 1931, foi publicado seu prefácio que informava que tratava-se de uma obra de pura publicidade, mas que seria também uma obra literária (Vida Literária, dezembro de 1931).

 

 

O  livro, que seria um reflexo de nossa invejáveis belezas naturais e de nosso adiantamento industrial e de nossa civilização urbana, reunia artigos de escritores e artistas publicados em jornais e revistas sobre alguns dos melhores serviços da Light à população do Rio de Janeiro. Um exemplar do livro foi enviado para a revista Brasil Feminino (Brasil Feminino, julho de 1932).

 

 

César Ladeira (1910 – 1969) e a Cidade Maravilhosa

 

 

César Ladeira, um dos mais famosos locutores do Brasil e um dos ícones da Era de Ouro da rádio brasileira, foi contratado, em 1933, pela Rádio Mayrink Veiga como locutor e diretor artístico e mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1º de setembro de 1933, estreou no programa Crônicas da Cidade Gozada, onde lia crônicas de Genolino Amado (1902 – 1989). De acordo com Henrique Foréis Domingues, pseudônimo Almirante (1908 – 1980), em seu livro No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música (2013), devido a críticas dos ouvintes, o programa teve seu nome mudado para Crônicas da Cidade Maravilhosa. Ladeira também publicava na revista O Malho a coluna “A Crônica da Cidade Maravilhosa” (O Malho, 30 de novembro de 1933Gazeta de Notícias, 6 de setembro de 1935, quinta coluna; Fon-Fon, 3 de setembro de 1938, segunda coluna).

 

 

A revista Cidade Maravilhosa, de César Ladeira, estreou no Teatro Recreio, em 4 de janeiro de 1935, e foi um sucesso. No elenco, estrelavam Aracy Cortes (1904 – 1985), Eva Todor (1919 – 2017), Ítala Ferreira (1901 – 1967), Zaira Cavalcanti (1913 – 1981), Henrique Chaves (19? – ?) e João Martins (19? – ?), dentre outros. Depois de um breve intervalo, voltou ao cartaz, em 12 de março de 1935. Sua última apresentação aconteceu em 17 de março (Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1935, quarta coluna; O Jornal2 de janeiro de 1935, última coluna, 4 de janeiro de 1935, última coluna; 6 de janeiro de 1935, quinta coluna11 de janeiro de 1935, sétima coluna; 12 de março de 1935, última coluna; 16 de março de 1935, penúltima coluna).

 

 

Ainda em 1935, o enredo do bloco carnavalesco Caçadores de Veados foi Cidade Maravilhosa (O Jornal, 21 de fevereiro de 1935, quarta coluna).

 

A Cidade Maravilhosa, hino oficial do Rio de Janeiro, e André Filho (1906 – 1974), seu autor

 

 

Foi a marchinha Cidade Maravilhosa que consagrou definitivamente a expressão como epíteto do Rio de Janeiro! Antônio André de Sá Filho (1906 – 1974), que ficou conhecido como André Filho, nascido na Rua da Carioca, em 21 de março de 1906, compôs a música, que foi gravada por ele e por Aurora Miranda, em 4 de setembro de 1934 (Diário de Notícias, 24 de janeiro de 1965, primeira colunaCorreio da Manhã, 17 de fevereiro de 1965, terceira coluna).

 

 

O disco, cuja outra canção era Toda gente cantando, foi lançado no mês seguinte pela Odeon.

 

 

Cidade Maravilhosa

André Filho

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil

Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil!

Aurora entoa então, em tom menor, a primeira estrofe da segunda parte:

Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente

Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz

 

A marchinha Cidade Maravilhosa foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação de André Filho e da plateia, a segunda colocação na categoria Marcha. A final aconteceu, em 10 de fevereiro de 1935, no Teatro João Caetano, e a canção vencedora foi Coração Ingrato, interpretada por Silvio Caldas (1908 – 1998), de autoria de Antônio Nássara (1910 – 1996) e Eratóstenes Alves Frazão (1901 – 1977). O terceiro lugar ficou para Joia falsa, de Osvaldo Santiago (1902 – 1976). Silvio Caldas foi muito vaiado e a André Filho foi feita grande manifestação, com toda a plateia de pé (A Noite, 11 de fevereiro de 1935O Jornal, 12 de fevereiro de 1935, quinta coluna).

Na visita que fez à redação do jornal A Noite, no mesmo dia do concurso, André Filho declarou:

“O julgamento eu coloco em plano secundário. O povo, o verdadeiro juiz, deu ao meu modesto trabalho o valor que eu, realmente, não imaginava ter “.

 

 

No mesmo concurso, na categoria Samba, a classificação foi a seguinte: em primeiro lugar, Implorar, do italiano Kid Pepe (1909 – 1961) e do português Germano Augusto (1901 – 1950), curiosamente, dois estrangeiros. Este samba causou uma polêmica pública quanto a sua real autoria, pois segundo alguns, seria do falecido sambista Cedá, que o vendera a Kid Pepe por 30 mil réis. Segundo depoimento de Kid Pepe reproduzido no livro “A canção no tempo”: “João Gaspar me mostrou um estribilho que gostei. Consegui então autorização dele, por escrito, para consertar o estribilho (que estava quebrado) e compor uma segunda parte e a introdução. Desse jeito fizemos “Implorar”. Agora, se provarem que o coro apresentado pelo Gaspar não lhe pertence, darei minha á família do falecido a parte dele” (Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira). Em segundo lugar, classificou-se o samba Foi ela, de Ary Barroso (1903 – 1964); e, em terceiro, Agradeça a mim, de Ismael Silva (1905 – 1978).

No mesmo ano, Cidade Maravilhosa foi incluída na trilha sonora do filme Alô, Alô, Brasil! (1935), dirigido por Alberto Ribeiro (1902 – 1971), João de Barro (1907 – 2006) e Wallace Downey (1902 – 1967), estrelado por Almirante, Ary Barroso, Aurora e Carmen Miranda (1909 – 1955), dentre outros.

Em 1936, estourou no carnaval! E o epíteto Cidade Maravilhosa se eternizou!

Sobre a inspiração de André Filho para escrever a música, que tradicionalmente encerra os bailes carnavalescos, há uma polêmica, destacada no site Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles:

“Na coleção de jornais do seu acervo – que se encontra desde 2006, ano do seu centenário, sob a guarda do Instituto Moreira Salles –, há um recorte sem data de A Notícia com matéria que explica como o compositor teria se inspirado para fazer a música. Diz o texto que ele “Estava na Praia de Botafogo, pelos idos de 1933, eterno enamorado da beleza natural do Rio de Janeiro (…). Numa tarde assim, sentiu pulsar com intensidade toda a sua alegria de cidadão carioca (…). Ocorreu-lhe então a expressão: Cidade Maravilhosa”.

Versão que sua ex-mulher, Joana, contestaria: ao jornal O Globo de 12/01/1965, ela – já separada de André Filho – diria que o clássico surgiu em 1934, durante uma das madrugadas insones do então companheiro, e que, após escutar a melodia e a letra cantada por André, que batucava numa caixa de fósforos, teria sido interrogada por ele: “Ciganinha, você acha que deve ser marcha ou samba?”. Resposta dela: “Marcha!”. Difícil saber qual das duas narrativas é a verdadeira.

Ou se nenhuma delas, a julgar pelo que contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume de “A canção no tempo” (Editora 34, 1997): “No início da década de 1930, o Rio era embelezado com a estátua do Cristo Redentor e a modernização de vários trechos da cidade, criando maiores condições para deixar o turista maravilhado. Foi nesta ocasião que, motivado por uma promoção chamada Festa da Mocidade, em que se elegia a Rainha da Primavera, André Filho compôs ‘Cidade maravilhosa’”. 

Cidade maravilhosa tornou-se a marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro, através da Lei nº 5, de maio de 1960, proposta pelo vereador Salles Neto (1910 – 1961) e promulgada pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda (1914 – 1977) (Correio da Manhã, 20 de abril de 1960, quarta coluna; 29 de maio de 1960, quarta coluna; Diário de Notícias, 1º de maio de 1960, sexta coluna).

 

 

Mas em duas ocasiões tentaram destituir a canção como marcha oficial da cidade. A primeira vez, em 1962, quando a deputada Lygia Lessa Bastos (1919 – 2020) liderou um movimento para que o hino da cidade fosse uma música que possuísse “as características técnico-musicais peculiares e inconfundíveis do gênero“. Na opinião da deputada, a composição de André Filho não refletiria “na tradição, o sentimento patriótico da gente carioca” (Diário de Notícias, 14 de maio de 1961, quinta coluna; Jornal do Brasil, 13 de março de 1962, quarta coluna22 de março de 1962).

Em sua coluna no Jornal do Brasil, “Música Naquela Base”, o jornalista Sérgio Cabral publicou o resultado de uma enquete acerca do assunto que realizou consultando personalidades de várias áreas e apenas o historiador Ariosto Berna (18? – 1988), do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro; e o jornalista Prudente de Morais Neto (1904 – 1977) eram a favor da mudança. Os  seguintes foram contra: o crítico musical Lúcio Rangel, Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara; o maestro e compositor César Guerra-Peixe, Cristóvão de Alencar, presidente da União Brasileira de Compositores; o compositor Miguel Gustavo e Stanislaw Ponte Preta, o jornalista Sérgio Porto (Jornal do Brasil, 22 de março de 1962). Cidade Maravilhosa seguiu como o hino da cidade!

 

 

O poeta Carlos Drummond (1902 – 1987) defendeu a manutenção da marchinha como hino na crônica Hino carioca (Correio da Manhã, 27 de abril de 1962, penúltima coluna).

 

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Em 1968, pela segunda vez, seu status de hino foi ameaçado: o deputado Frederico Trotta (1899 – 1980) foi o autor do projeto de lei sugerindo à Assembleia Legislativa a criação de um concurso para a escolha de um novo hino para a cidade promulgado, em 27 de  julho de 1968.  A marchinha Cidade Maravilhosa tinha, segundo ele, uma “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Houve protestos e, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei do deputado Everardo Magalhães Castro (1933 – 2010) que restituía Cidade maravilhosa à condição de hino oficial da cidade (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1968, penúltima coluna; 6 de agosto, segunda coluna; O Jornal, 10 de agosto de 1968, segunda coluna; Correio da Manhã27 de julho de 1968, última coluna28 de julho de 1968, quinta coluna;).

André Filho faleceu, no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1974, no Hospital Souza Aguiar, vítima de uma úlcera. Foi velado no Museu da Imagem e do Som e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1974, quarta coluna).

 

 

Ouça aqui várias gravações da marchinha Cidade Maravilhosa.

 

Abaixo, reprodução de um artigo publicado em O GLOBO, de 5 de agosto de 1968.

 

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(1)  A transcrição da crônica Os Sertanejos, de Coelho Neto, pode ser lida na página 282 do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowsky.

Leia aqui o artigo André Filho além dos ‘encantos mil’: os 120 anos do compositor ‘beijoqueiro’ que era um dos preferidos de Carmen Miranda, de autoria de Pedro Paulo Malta (1976-), publicada no site Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles .

Nota da editora: A inspiração para a publicação deste artigo surgiu quando assisti ao espetacular evento Cidade-Musa, no dia 6 de março de 2026, promovido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em sua sede, quando o jornalista Rafael Sento Sé proferiu uma maravilhosa palestra sobre seu livro A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque, seguida pela sensacional aula musicada Cidade-musa: a história do Rio em marcha, samba e bossa, com Pedro Paulo Malta e Luís Filipe de Lima. Ao longo de minhas leituras para esse artigo, conheci o excelente artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowski, que se tornou uma espécie de bússola para minha pesquisa. Como sempre, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem um papel decisivo em meus escritos. Obrigada pelo talento de vocês!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blog Literatura, Rio de Janeiro & São Paulo

BUENO, Alexei. Rio Belle Époque: Álbum de imagens. Rio de Janeiro : Bem-Te-Vi Editora, 2016.

Cidade Maravilhosa por Olegário Mariano

COELHO NETO. Palestras da Tarde. Rio de Janeiro : Livraria Garnier Irmãos, 1911.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

DOMINGUES, Henrique Foréis. No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música. Rio de Janeiro : Editora Indigo Brasil, 2013

EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da Música Popular Brasileira vol1 e 2. Rio de Janeiro : Funarte, 1978.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

KARYTOWSKI, Ivo. Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade. IHGB, Rio de Janeiro, a. 183(488): 265-294, jan./abr. 2022.

SÉ, Rafael Sento. A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque. Belo Horizonte (MG) : Autêntica Editora, 2025.

Site Discografia Brasileira – IMS

Site Literatura é bom para a vista

VALENÇA, Suetônio Soares. Tra-la-lá : vida e obra de Lamartine Babo – 3. ed., rev. e ampl. – Rio de Janeiro : FUNARTE, 2014.

XAVIER, Priscila. Cidade Maravilhosa: discursos entre o imaginário e o mito.

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