Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXX e série “Hotéis do Brasil” VII – O Grande Hotel Internacional em Santa Teresa

Destacando quatro imagens produzidas pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX , o Grande Hotel Internacional é o assunto do 30º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido e o sétimo da série Hotéis o Brasil. Considerado o mais cosmopolita dos hotéis do Rio de Janeiro na virada do século XX, situava-se em um grande casarão no lugar denominado Lagoinha, no morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Foi inaugurado, em 1º de dezembro de 1891, na Rua do Aqueduto. Pertencia à Companhia Melhoramentos de Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 2 de dezembro de 1891, primeira coluna).

 

 

Em 1893, foi adquirido pelo francês Ferdinand Mentges. Antes de se tornar um hotel, no casarão funcionava um sanatório para doenças do pulmão.

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Acessando o link para as imagens do Grande Hotel Internacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Na sua inauguração, compareceram várias senhoras e cavalheiros, a quem foi oferecido um delicado lunch. Ficava a 45 minutos da cidade, a 184 metros do nível do mar e em meio a uma vegetação soberba, o que contribuía poderosamente para a pureza do ar que ali se respira. Devido à sua localização recebia ventilação da Baía de Guanabara, para a qual tinha uma belíssima vista, mas era protegido de eventuais correntes de ar pelos morros Castor e Pólux. Em 1895, o então presidente da República, Prudente de Morais (1841-1902), passou uma temporada no hotel recuperando-se de uma de suas constantes febres (Jornal do Commercio, 29 de julho de 1934, segunda coluna).

Notabilizou-se por oferecer requintados serviços e também por reunir em seus salões intelectuais do Rio de Janeiro dentre eles o dramaturgo Artur de Azevedo (1855-1908), o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) e o escritor Raul Pompéia (1863-1895).

 

 

Quando foi inaugurado, possuía um prédio principal e dez chalés. No pavimento térreo, abrigava grandes salões com piano, bilhar e outros jogos, além de um restaurante, da copa e da cozinha. No segundo andar, ficavam a sala do gerente, o salão de honra e inúmeros quartos com todas as condições de conforto. A construção do Grande Hotel Internacional foi dirigida pelo comendador Bittencourt da Silva sob os conselhos do sr. Rocha Faria. Foram atendido rigorosos preceitos da higiene moderna.

 

 

Em 1911, foi ampliado: possuía 150 leitos e, além do prédio principal e dos chalés, três vilas.

“O hotel está rodeado de matas e os passeios são muitos e variados, tais como Lagoinha, Sumaré, Silvestre, Paineiras, Corcovado. O hotel é principalmente para famílias e estrangeiros que desejem residir em lugar sossegado durante a noite. O seu parque e as suas matas, da extensão de 40.000 metros quadrados, são de grande atrativo para os estrangeiros”.

Inovou, oferecendo aos hóspedes quadra de tênis e um campo de críquete, esportes ingleses que chegavam ao Rio de Janeiro. Bondes ligavam o hotel ao Largo da Carioca. Partiam de 15 em 15 minutos, o percurso era de cerca de 20 minutos e era feito por um caminho muito pitoresco e interessante.

GRAND HOTEL INTERNACIONAL - Santa Tereza

Foram seus hóspedes estrangeiros ilustres como o bailarino ucraniano Vaslav Nijinski (1889-1950) e A bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927), a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) e o arqueólogo e explorador britânico Percy Harrison Fawcett (1867-1925).

 

 

Na crônica Chegada de um estrangeiro ao Rio, de 1912, João do Rio (1881-1921), usou um tom elogioso para descrever o Rio de Janeiro aos olhos de um europeu. O Grande Hotel Internacional foi citado.

…Outros nédios, bem dispostos e tão nus como o primeiro insistiam para que eu tomasse um bote. Olhei, na semipenumbra, o desdobramento dos squares,  a linha dos carros de praça e os meus olhos viram, ao lado de automóveis, uma espécie de condução que até aquele momento só tinham visto em gravuras cantando os feitos do dândi d’Orsay, em Londres ou as elegâncias de Paris, em 1854. Os meus olhos viram os tílburis. Acerquei-me de um. O cocheiro tinha uma bota descalça. Agitou-se entre a bota, as rédeas e o chicote alguns segundos.

– Para onde vamos, V. senhoria?

Internacional, Santa Thereza, disse eu com a adresse que recebera a bordo.

– Ah! isso é lá em cima. O burro não sobe. Vou levá-lo à estação dos bondes.

– É muito longe? fiz com o vago receio do viajante solitário.

– Uma hora de viagem. É bonito…

 

 

Uma fotografia do Grande Hotel Internacional ilustrou um capítulo do livro Memórias de um rato de hotel publicado na Gazeta de Notícias, de 6 de janeiro de 1912, escrito por João do Rio. Era sobre um célebre ladrão da Belle Époque, Arthur Antunes Maciel, vulgo, Dr. Antonio, que ficou famoso por seus roubos inteligentes em hotéis, onde se hospedava com identidades diferentes.

 

 

Segundo uma observação publicada no livro Os dias passam, de João do Rio, editado pela Coordenadoria de Editoração da Fundação Biblioteca Nacional, de 2015, o Grande Hotel Internacional existiu até meados da década de 30. Em seu lugar foi construído, em 1959, o Condomínio Equitativa.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Agenda Bafafá

GONTIJO. Juliana Santiago. JOÃO DO RIO E AS REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO: O ARTISTA, O REPÓRTER E O ARTIFÍCIO – MODERNIDADE PERIFÉRICA E REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO Impressões do Brasil: Crônicas do Século XX

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

João, do Rio, 1881-1921. Os dias passam / João do Rio. – 2. ed. – Rio de Janeiro : FBN, Coordenadoria de Editoração, 2015. 408 p. : il. ; 12×19 cm. – (Coleção Cadernos da Biblioteca Nacional ; 13)

LEME, Deborah Lavorato. Matula do sertão: a trajetória do coronel Percy Harrison Fawcett no Brasil (1906-1951). Dissertação de mestrado apresentada na USP, 2023.

O GLOBO, 28 de fevereiro de 2015

Site Dantes

Site História do Esporte

Site Novo Milênio

 

Série “Hotéis do Brasil” V e Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro artigo da série Os arquitetos do Rio de Janeiro e a quinta da série Hotéis do Brasil que celebra o centenário do Copacabana Palace e também sobre seu arquiteto, o francês Joseph Gire (1872 – 1933).

 

 

O Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca e um ícone da arquitetura do Rio de Janeiro, completa hoje 100 anos e volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Era, na época de sua inauguração, o maior hotel da América Latina e representava a modernidade da cidade, ocupando um lugar importante em sua memória. O Copa, apelido pelo qual ficou conhecido, foi criado pelo arquiteto francês Joseph Gire (1872 – 1933) e teve seu batismo oficial realizado, em 13 de agosto de 1923, com a visita do então presidente da República, Artur Bernardes (1875 – 1955), em companhia de outras autoridades, dentre elas o prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964). Foram recebidos por Octávio Guinle (1886 – 1968). No dia seguinte, o hotel começou a receber hóspedes, distintos turistas e brasileiros da melhor sociedade (Gazeta de Notícias, 8 de agosto de 1923O Paiz, 14 de agosto de 1923, segunda coluna; e Beira-Mar, 19 de agosto de 1923).

 

Destacamos registros do hotel produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957) que, entre 1903 e 1936, foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do então Distrito Federal, por Thiele (? – 19?) e imagens realizadas por um fotógrafo ainda não identificado.

 

Acessando o link para as fotografias do Hotel Copacabana Palace disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Um pouco da história do Copacabana Palace

 

“Contar a história do hotel é contar a história da cidade e do país”

O jornalista Ricardo Boechat (1952 – 2019)

sobre o Copacabana Palace

Inspirado nos hotéis Negresco, em Nice, e no Carlton, em Cannes – ambos na França – e situado na Avenida Atlântica 1.702, o Copacabana Palace é um marco na ocupação e na paisagem de Copacabana e contribuiu para a projeção internacional do Rio de Janeiro. Seu arquiteto foi, como já mencionado, o francês Joseph Gire (1872 – 1933). O engenheiro responsável pela obra do Copa foi Cesar de Mello e Cunha (1898 – 1991). O hotel  foi construído com cimento alemão, mármore de Carrara, e adornado com vidros e lustres da Tchecoslováquia, móveis franceses, tapetes ingleses e cristais da Boêmia. Suas porcelanas eram Limoges. Surgia então um monumento à elegância.

 

Edifício Gire, no Rio

COPACABANA PALACE – FACHADA PRINCIPAL No HOTEL sobre a AVENIDA ATLÂNTICA / Joseph Gire architeto – Escala 100

 

A construção de um hotel de luxo na avenida Atlântica, recém duplicada e iluminada pelo prefeito Paulo de Frontin (1860 – 1933), em Copacabana, bairro que concentrava a aristocracia moderna do Rio de Janeiro, fazia parte dos preparativos  para a celebração do centenário da independência do Brasil, em 1922. Determinado a propagar as belezas do Brasil no exterior, o presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942) submeteu o projeto ao empresário Octávio Guinle (1886 – 1968), membro de uma das mais ricas e tradicionais famílias do Brasil e dono do Palace Hotel, no Rio de Janeiro, e do Hotel Esplanada, em São Paulo. Ele aceitou o desafio. Porém o Copacabana Palace só ficou pronto, em 1923, quando a Exposição Internacional do Centenário da Independência, aberta em 7 de setembro de 1922, já havia sido encerrada, em 24 de julho de 1923.

 

 

Sobre a localização do novo hotel, Epitácio fazia questão que fosse construído na Praia de Copacabana, uma descoberta recente dos cariocas. Segundo o jornalista Maneco Müller (1923 – 2005), cujo pseudônimo era Jacinto de Thormes, A cidade dava as costas para o mar, a paisagem. A maneira de ser do carioca só nasceu quando fizeram o túnel em direção ao areal. 

Ao longo de sua existência o hotel foi visitado ou hospedou artistas, atletas, cientistas, intelectuais, nobres e políticos como Albert Einstein(1879 – 1955), Ava Gardner (1922 – 1990), Emerson Fittipaldi (1946 -), Janis Joplin (1943 – 1970), Hebe Camargo (1929 – 2012), Lady Di (1961 – 1997) e Príncipe Charles (1948 – )Mick Jagger (1943 – ), Nelson Mandela (1918 – 2013), Orson Welles (1915 – 1985), Paul McCartney (1942 – ), Pelé (1940 – 2022),  Roberto Carlos (1941 -), Santos Dumont (1873 – 1932), Tom Jobim (1927 – 1994), Walt Disney (1901 – 1966), Washington Luís (1869 – 1957) e os futuros reis Edward VIII (1894 – 1972) e George VI (1895 – 1952). Uma curiosidade: na ocasião de sua visita ao Brasil, Edward, então Príncipe de Gales, teve um tórrido romance com a uruguaia Negra Bernardez, cujo um dos filhos era o já mencionado Maneco Muller. Segundo Ricardo Boechat, autor do livro Copacabana Palace – Um Hotel e Sua História, foi a história mais bonita do Copa. Tem renúncia, tristeza, amor e glamour.

 

 

 

 

O Copa, apelido pelo qual ficou conhecido, teve seu batismo oficial realizado em 13 de agosto de 1923 com a visita do presidente da República, Artur Bernardes (1875 – 1955), em companhia de outras autoridades, dentre elas o prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964). Foram recebidos por Octávio Guinle. No dia seguinte o hotel começou a receber hóspedes, distintos turistas e brasileiros da melhor sociedade (Gazeta de Notícias, 8 de agosto de 1923O Paiz, 14 de agosto de 1923, segunda coluna; e Beira-Mar, 19 de agosto de 1923).

Em sua abertura, só seis apartamentos estavam ocupados, mas sua equipe já contava com cerca de mil funcionários. As diárias custavam menos de 10 dólares e davam direito a pensão completa e transporte para o Centro da cidade. Desde o início sua marca era o requinte, a sofisticação e em um artigo publicado no mês seguinte a sua inauguração, a iniciativa foi muito elogiada (O Paiz, 9 de agosto de 1923).

 

 

Para o comando gastronômico do Copacabana Palace, foi contratado por Octávio o chef Auguste Escoffier, trazido do Hotel Savoy, de Londres. Em 1930, com a contratação do chef tcheco Fery Wunsch como maitre sênior a cozinha do hotel se consagrou.

Rigoroso em relação a protocolos e etiquetas, Octávio criou o Código de Empregados da Companhia Copacabana Palace onde detalhava, em 18 itens, a conduta de seus funcionários. Para supervisionar o hotel, possuía, em seu quarto, a suíte B, um sistema de escuta que possibilitava que ele soubesse de tudo o que se passava no Copa.

 

 

A principal atração de seu baile de inauguração, que contou com figuras importantes da República, era a dançarina francesa Mistinguett (1875 – 1956), mas o show foi cancelado na véspera por seus empresários. Mesmo assim o evento foi um sucesso (Gazeta de Notícias, 1º de setembro de 1923, quarta coluna; e O Paiz, 31 de agosto de 1923, primeira coluna; O Paiz, 1º de setembro de 1923, primeira coluna).

 

 

 

Foi ambientado no Copa o filme Voando para o Rio (1933), estrelado por Fred Astaire (1899 – 1987) e Ginger Rogers (1911 – 1995) – no qual pela primeira vez apareceram dançando juntos -, Dolores del Rio (1904 – 1983) e Gene Raymond (1908 – 1998).

 

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Cartaz do filme Voando para o Rio

 

De 1924 a 1946, o Copa abrigou o Cassino Copacabana – nesse período ficou um tempo fechado e foi reaberto em maio de 1933 (Fon-Fon, 26 de janeiro de 1924Beira-Mar, 13 de maio de 1933, primeira coluna).

 

 

Abaixo, uma imagem aérea de autoria do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland (1883 – 1936) da chegada das misses ao Copacabana Palace para a eleição de Miss Universo feita exclusivamente para a revista O Cruzeiro. O concurso foi conquistado pela gaúcha Yolanda Maria Sabage Pereira (1910 – 2001).

 

 

Diversos artistas nacionais e internacionais apresentaram-se em seu lendário Golden Room, inaugurado em 26 de dezembro de 1940 (Diário Carioca, 28 de dezembro de 1940), dentre eles Carmen Miranda (1909 – 1955), Charles Aznavour (1924 – 2018), Edith Piaf(1915 – 1963), Ella Fitzgerald (1917 – 1996), Josephine Baker (1906 – 1975), Marlene Dietrich (1901 – 1992), Maurice Chevalier (1888 – 1972), Nat King Cole (1919 – 1965), Ray Charles (1930 – 2004) e Yves Montand (1921 – 1991). No Golden Room também eram realizados bailes (Careta21 de julho de 1951).

 

 

O antigo restaurante do hotel, o Bife de Ouro, e sua piscina eram muito frequentados pelos granfinos e foram pontos de encontro da sociedade carioca e de políticos de todo o Brasil (Beira-Mar, 20 de fevereiro de 1943O Cruzeiro, 10 de dezembro de 1949Careta, 26 de maio de 1951) ). Foi no Bife de Ouro  que, em março de 1954, ocorreu uma briga entre o jornalista Carlos Lacerda (1914 – 1977) e Euclides Aranha, filho do então ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha (1894 – 1960), noticiada no jornal O Globo, de 24 de março de 1954:

Lacerda e filho de Aranha trocam socos

Principiando por uma altercação seguida de luta corporal entre o Sr. Euclides Aranha e o jornalista Carlos Lacerda, um incidente que se prolongaria até a meia-noite, resultando, inclusive, em congestionamento do tráfego da Avenida Atlântica e interdição do local por autoridades policiais, perturbou na noite de ontem o jantar no Bife de Ouro, o restaurante do Copacabana palace Hotel. Achavam-se reunidos na mesma mesa o ministro João Cleophas, o deputado Edilberto Ribeiro, o Sr. Manuel Ferreira e Carlos Lacerda, diretor da “Tribuna da Imprensa”, num jantar promovido pelo deputado. De outra mesa, o Sr. Euclides Aranha, filho do ministro Oswaldo Aranha, jantava com a esposa, levantou-se, fisionomia transtornada, dirigiu-se à mesa onde se encontrava o referido grupo, deteve-se junto à cadeira do jornalista e interpelou-o sobre ataques dirigidos a seu pai na “Tribuna da Imprensa”. À interpelação seguiu-se áspera troca de palavras, tendo o jornalista se levantado, entrando em luta com o filho do ministro da Fazenda. Segundo as testemunhas, os dois trocaram socos por algum tempo, até que amigos comuns se interpuseram e os separaram. Às 23h, o próprio ministro Oswaldo Aranha compareceu ao restaurante para ver o que ocorrera. Pouco depois, simultâneamente, por portas diferentes, os Srs. Euclides Aranha e Carlos Lacerda abandonaram o Bife de Ouro.

Existe no Copacabana Palace o Teatro Copacabana, remodelado e reinaugurado em 9 de setembro de 1949, com a peça A Mulher do Próximo, de Abilio Pereira de Almeida, apresentada pelo Grupo de Teatro Experimental de São Paulo. Foi fechado em 1994 e reaberto em 2021, com a encenação de Copacabana Palace – O Musical, com texto de Ana Velloso e Vera Novello e direção de Gustavo Wabner e Sergio Módena (O Jornal, 9 de setembro de 1949; A Scena Muda, 20 de setembro de 1949A Cigarra (SP), novembro de 1949Diário do Rio, 21 de dezembro de 2021). Foi lá que a atriz Fernanda Montenegro fez sua estreia profissional nos palcos, na peça Alegres Canções na Montanha, em 1950.

 

 

Os salões do hotel eram palcos de chás elegantes e de desfiles, bailes, concursos de beleza, exposições de arte e homenagens (Careta5 de agosto de 1950, 9 de junho de 195128 de julho de 1951;27 de outubro de 195118 de outubro de 19521º de agosto de 195329 de maio de 1954). Também eram muito concorridos seus bailes de carnaval (O Cruzeiro, 11 de março de 195016 de março de 1957).

Houve um incêndio no hotel, em 10 de agosto de 1953, que atingiu o teatro, o Golden Room e parte da Boate Meia Noite (Correio da Manhã, 11 de agosto de 1953).

Em 1989, a família Guinle vendeu o Copacabana Palace para o grupo Orient-Express, posteriormente, Belmond, que foi vendido para o grupo francês LVMH, em dezembro de 2018. O hotel, patrimônio histórico, é tombado em nível federal, estadual e municipal.

 

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Devido à pandemia do coronavírus, pela primeira vez desde sua inauguração o hotel foi fechado, em 10 de abril de 2020. Andrea Natal, na época diretora geral do Grupo Belmond do Brasil, que administra o estabelecimento, e o cantor e compositor Jorge Ben Jor (1945 -), que vive lá desde 2018, foram os únicos que continuaram no hotel. Foi reaberto em 20 de agosto de 2020.

 

 

Pequeno perfil do arquiteto francês Joseph Gire

 

Joseph Gire no lobby do Palace Hotel, 1922 / Acervo familiar

Joseph Gire no lobby do Palace Hotel, 1922 / Acervo da família, publicada no livro Joseph Gire: a construção do Rio de Janeiro moderno

 

Gire nasceu, em 12 de janeiro de 1872, em Yssingeaux, na região do Velay, na França.  Estudou no liceu de Puy e acompanhava as aulas de desenho ministradas por seu pai, Jules Gire (1850 -?) na escola municipal chamada de “Belas-Artes e da Indústria”. Em 1896, ganhou um concurso para um monumento em homenagem à Charles Crozatier, escultor da cidade de Puy-en-Velay. Estudou na École des Beaux Arts de Paris, à qual teve sua candidatura de admissão apresentada pelo arquiteto Georges Debrie (1856 – 1910).

Em 1900, casou-se com Pauline Duparchy (18? -19?), com quem teve as filhas Renée e Antoinette; foi nomeado arquiteto-inspetor da Exposição Universal de Paris e passou a trabalhar no prestigioso escritório dos arquitetos Lucien e Henri Grandpierre, quando projetou o palácio Singer-Polignac. Quando os Grandpierre se aposentaram, em 1906, Gire e seu colega, Jamin, assumiram a direção da firma. Entre 1908 e 1909, estabeleceu-se em Buenos Aires, capital da Argentina, na rua Paraná, 1261.

 

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Na ocasião, associou-se ao engenheiro Juan Molina Civit. Também possuiu um escritorio em Montevidéu, no Uruguai, na rua Zabala, 1441.

 

Joseph Gire e sua mulher, a produtora cultural Pauline Deparchy, no Palace Hotel, em 1924

Joseph Gire e sua mulher, Pauline Deparchy, no Palace Hotel, em 1924 / Acervo da família publicada em O Globo de 25 de abril de 2010

 

Em 1916, desembarcou no Rio de Janeiro, no auge da Belle Époque carioca, a convite da abastada e influente família Guinle, cuja origem da riqueza foi a sociedade que o patriarca Eduardo Eduardo Palassin Guinle (1846 – 1912) manteve por toda a vida com Cândido Gaffrée (1856 – 1919), com quem fundou a Companhia Docas de Santos e a Companhia Brasileira de Energia Elétrica. Em 1918, Gire voltou à cidade, desta vez a convite da companhia dos hotéis Carlton Ritz (O Paiz, 1º de outubro de 1918, primeira coluna).

Já havia, entre 1909 e 1914, realizado com Armando Silva Telles a residência de Eduardo Guinle (1878 – 1941) que, em 1946, foi comprada pelo governo federal durante a presidência do General Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) – o Palácio das Laranjeiras, desde 1975 o endereço oficial dos governadores do estado do Rio de Janeiro; e o Palacete Guinle (1913), que foi residência de Carlos Guinle (1883 – 1969) e, posteriormente, sediou a Embaixada da Argentina. Eduardo e Carlos eram filhos do casal Eduardo Palassin Guinle e Guilhermina Coutinho Guinle (1854-1925).

Gire fundou um escritório na cidade e teve forte influência na transformação de sua paisagem arquitetônica e urbana, na verticalização da Praia de Copacabana, da Praia do Flamengo e da Glória. Morou com sua família, no Palace Hotel, localizado na avenida Rio Branco, 185; na Rua Voluntários da Pátria, 104; e na Rua das Laranjeiras, 452 (Correio da Manhã, 17 de abril de 1920, quarta coluna; O Paiz, 2 de abril de 1924, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de janeiro de 1925, quarta coluna).

Também realizou, durante a década de 1920, dentre vários outros projetos, o do Hotel Glória, inaugurado em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922). Foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

 

 

Também projetou o Esplanada Hotel, em São Paulo (O Paiz, 28 de junho de 1921, penúltima coluna), que ficava próximo ao Teatro Municipal de São Paulo e foi inaugurado em março de 1923. Um de seus frequentadores foi o escritor Oswald de Andrade (1890 – 1954), um dos maiores representantes do Modernismo no Brasil que, em seu poema, Balada do Esplanada, publicado, em 1927, no Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, homenageou o hotel. Em 1987, musicada pelo cantor Cazuza (1958 – 1990), o poema foi uma das faixas do LP Só se for a dois.

 

Balada do Esplanada

Ontem de noite eu resolvi
Ver se aprendia como é que se fazia
Uma balada, antes de ir pro meu hotel
É que esse coração
Já se cansou de viver só
E quer então
Morar contigo no Esplanada
Contigo no Esplanada
Pra respirar
Abro a janela
Como um jornal
Eu vou fazer a balada
Fazer a balada
Do Esplanada e ficar sendo o menestral
E fico sendo
O menestrel do meu hotel
Do meu hotel
Mas não há poesia num hotel
Nem mesmo sendo
O Esplanada um grande hotel
Há poesia na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor, no elevador
No elevador

 

Outros projetos de sua autoria foram o do Edifício Praia do Flamengo (1925) (Diário do  Rio, 22 de agosto de 2021), conhecido como Palacete de Areia, primeiro prédio de apartamentos no Flamengo; a da antiga sede da Sul América, no Centro, em parceria com o arquiteto escocês Robert Russell Prentice (1883 – 1960); o Edifício Touring, na Praça Mauá; e a do Edifício Joseph Gire (1929), em estilo art déco, primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro, que ficou conhecido como Edifício A Noite, na época o mais alto da América do Sul (Jornal das Moças, 12 de setembro de 1929). Gire era um entusiasta dos arranha-céus (O Paiz, 24 de junho de 1928). É do início da década de 1930, seu projeto do palácio da Ilha de Brocoió, para outro filho de Eduardo Guinle, Octávio (1886 – 1968). É atualmente o palácio de férias do governador do Estado do Rio de Janeiro. Ainda na mesma década, projetou os edifícios Paraopeba e São João Marcos.

 

 

Foi o responsável pela reforma do prédio do Automóvel Club (Automóvel Club – RJ, dezembro de 1925) e do Palácio do Itamaraty (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1929), além de ter contribuido como consultor em inúmeras obras como a da construção do Hipódromo da Gávea. Foi também membro do conselho de embelezamento da cidade de São Paulo e da Comissão Executiva do Centenário da Independência, em 1922.

Ficou fora do Brasil entre 1930 e 1932 (Correio da Manhã, 21 de agosto de 1932, sétima coluna). Faleceu em 5 de outubro de 1933, em Arberáts, no País Basco francês (Correio da Manhã, 7 de novembro de 1933, sexta coluna; 10 de novembro de 1933, última coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Em 29 de outubro de 2023, o título deste artigo foi alterado para Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire.

 

Fontes:

A Casa Senhorial

BOECHAT, Ricardo. Copacabana Palace: um hotel e sua história. São Paulo: DBA, 1998.

CABOT, Roberto. Joseph Gire: a construção do Rio de Janeiro moderno/RobertoCabot, – 1. ed – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014.

CABRAL, Maria Cristina. Arquitetos franceses no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. III Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo arquitetura, cidade e projeto: uma construção coletiva São Paulo, 2014

Casa Cor

G1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 17 de dezembro de 2018

O’DONNELL, Julia. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

O Globo, 13 de agosto de 2008

O Globo, 25 de abril de 2010

Portal Iphan

Revista Época, 13 de dezembro de 2010

Site Arquivo Arq

Site  Bafafá

Site I-Patrimônio – Edifício Praia do Flamengo 

Site I-Patrimônio – Tombamento

Site Rio Memórias

UOL Notícias, 30 de outubro de 2008

Uol Notícias, 2 de julho de 2020

 

Outros artigos da série Os arquitetos do Rio de Janeiro

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” I – Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, de autoria de Cristiane d´Avila – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, publicado em 14 de janeiro de 2021.

Série “Os arquitetos do Rio” II – No Dia Nacional da Saúde, o Desinfetório de Botafogo e um breve perfil do arquiteto português Luiz de Moraes Junior, responsável pelo projeto, de autoria de Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, publicado em 5 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IV – Archimedes Memória (1893 – 1960), o último dos ecléticos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 1º de dezembro de 2023

Série “O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e “Os arquitetos do Rio” V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de janeiro de 2024

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VI – O Clube Naval e os arquitetos Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) e Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de maio de 2024

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre hotéis

Hotéis do século XIX e do início do século XX no Brasil, publicado em 5 de novembro de 2015 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Glória – antes e depois, publicado em 21 de dezembro de 2017, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca, publicado em 13 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Pharoux por Revert Henrique Klumb, publicado em 15 de junho de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023.

Série “Hotéis do Brasil” I – Hotéis do século XIX e do início do século XX no Brasil

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Carlos Bippus. Hotel Central, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

A Brasiliana Fotográfica oferece a seus leitores uma seleção de hotéis no Brasil do século XIX e das primeiras décadas do século XX. publicando o primeiro artigo da série Hotéis do Brasil. O fotógrafo Revert Henrique Klumb (c.1826 – c.1886) registrou o Hotel Pharoux e o Hotel Waltz, no centro do Rio de Janeiro, o Etablissement de Mr. Bennett, na Tijuca, além dos hotéis Anglais, Beresford e Bragança, em Petrópolis. Há também três fotografias de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957) de hotéis cariocas: do Rio Palácio Hotel, do Hotel Glória e do Copacabana Palace. Ainda no Rio de Janeiro, há uma imagem do Hotel Central, produzida por Carlos Bippus (18? – 19?). Em São Paulo, Guilherme Gaensly (1843 – 1928)  fotografou o Largo São Bento, onde havia o Hotel Rebechino e o Grande Hotel Paulista. Em Nova Friburgo, Henschel & Benque fotografaram o Hotel Leuenroth e, em Blumenau, o Hotel Holetz foi registrado por um fotógrafo até aqui não identificado.

 

Acessando o link para as fotografias de hotéis disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre hotéis

 

O Hotel Glória – antes e depois, publicado em 21 de dezembro de 2017, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca, publicado em 13 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Pharoux por Revert Henrique Klumb, publicado em 15 de junho de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023.

O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire, publicado em 13 de agosto de 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.