A Brasiliana Fotográfica inicia 2026 anunciando com alegria e entusiasmo a adesão do Museu Paraense Emílio Goeldi como sua 15ª instituição parceira. Fundado em 1866, localiza-se em Belém, capital do Pará, e é o mais antigo instituto de pesquisa da Amazônia. Vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação do Brasil, como museu e instituto de pesquisa é essencial tanto para a produção como para a difusão de conhecimento sobre a maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica. Nosso novo parceiro estreia no portal com o artigo Belém na coleção fotográfica do Museu Goeldi, de autoria de Nelson Sanjad, Lilian Bayma de Amorim e Pablo Borges, servidores da instituição, no dia em que Belém do Pará completa 410 anos de fundação, ocorrida em 12 de janeiro de 1616. A maior parte das imagens do artigo é publicada aqui pela primeira vez. Ao ingressarem na Brasiliana Fotográfica, esses registros ficarão disponíveis para a consulta e para futuras pesquisas nos campos da história, das artes e em outros possíveis caminhos. Boas-vindas, Museu Paraense Emílio Goeldi!

No final do artigo, está disponibilizada a matéria da edição do Diário do Pará dos dias 10 e 11 de janeiro de 2026, Belém em imagens raras: acervo histórico ganha primeira exposição digital, com chamada na capa do jornal, sobre a entrada do Museu Paraense Emílio Goeldi na Brasiliana Fotográfica. Sobre o mesmo assunto, o jornal O Liberal, de 19 de janeiro de 2026, publicou a reportagem Belém antiga no portal Brasiliana, também disponibilizada no final deste artigo.
Belém na coleção fotográfica do Museu Goeldi
Nelson Sanjad, Lilian Bayma de Amorim e Pablo Borges*
A fundação de Belém é celebrada no dia 12 de janeiro. Em 2026, contam-se 410 anos desde que o capitão português Francisco Caldeira Castelo Branco deu início à construção do Forte do Presépio e do povoado Feliz Lusitânia. Não foi o primeiro entreposto militar nem a primeira vila fundada pelos europeus no norte do Brasil, pois Gurupá e Vigia de Nazaré antecedem Belém. Essa cidade, contudo, ganharia, nos séculos seguintes, uma importância estratégica para a colonização de toda a bacia amazônica e também para a conexão da região com os principais portos europeus. Em Belém se concentram os marcos arquitetônicos e históricos do processo de conquista do território amazônico, incentivado, sobretudo, pela exploração de recursos vegetais pelas metrópoles imperiais, primeiro Lisboa, com as drogas do sertão; e depois Londres, com a borracha.
O final do século XIX é um momento particularmente importante na história da cidade, quando a população e a economia cresceram de maneira exponencial em razão do comércio da borracha. No extraordinário livro de Rosário Lima Silva e Paulo Chaves Fernandes (1996) é possível apreciar a produção de imagens da cidade no período através de cartões postais. Eles documentam a rápida expansão da malha urbana, a instalação de infraestrutura, os meios de transporte, a ampliação do comércio, a construção de praças e parques, a introdução de edificações de padrão eclético, a eliminação das florestas próximas e o desenvolvimento de um modo de vida burguês e cosmopolita – pelo menos entre as classes privilegiadas.
Na coleção fotográfica do Museu Goeldi também existem vários registros de Belém, feitos a partir de 1890. Esses registros incluem negativos de vidro, reproduções em papel, cópias digitais de coleções privadas (cuja reprodução e divulgação foram autorizadas) e impressões em fototipia. Todos os registros são de autoria de pesquisadores e técnicos que trabalharam no Museu Goeldi e que fizeram da fotografia uma tecnologia auxiliar para a documentação de cidades, artefatos, pessoas, paisagens, plantas e animais. Isso significa que as imagens aqui divulgadas têm origem nas atividades de pesquisa da própria instituição, em eventos familiares e em interesses pessoais dos funcionários.
Organizamos cinco conjuntos de imagens, acompanhados de comentários para a devida contextualização. Todas as fotografias estão preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi. A maior parte delas é publicada aqui pela primeira vez. Ao ingressarem na Brasiliana Fotográfica, ficarão disponíveis para a consulta e para futuras pesquisas nos campos da história, das artes e em outros possíveis caminhos.
Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi mostradas neste artigo, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.
A modernização da cidade
A arquitetura em ferro e as ferrovias são os grandes símbolos da modernização de cidades ocidentais no final do século XIX (Derenji, 1993; Borges, 2011; Palácios, Sanjad, Oliveira, 2024). Esses são os elementos destacados em uma fotografia do alemão Ernst Lohse (1873-1930), datada de 15 de agosto de 1901. Em primeiro plano, uma locomotiva a vapor puxa vários vagões do bonde urbano, em direção à estação ferroviária, no atual bairro de São Brás. Por trás, ergue-se a imensa caixa d’água em ferro fundido, importada da Europa e inaugurada em 1885 (Ramos, 2019). Essa caixa d’água, ainda existente, mas não funcional, é um ícone da arquitetura em ferro de Belém, não apenas pela impressionante estrutura capaz de sustentar 1,5 milhão de litros de água, mas também porque representa a instalação do sistema de tratamento e distribuição de água na cidade. Das nascentes existentes próximas ao Igarapé do Utinga (ver fotos adiante), a água era transferida para esta caixa d’água, sendo de lá redistribuída.
São Brás é um bom exemplo do que aconteceu com muitos bairros de Belém. Localizado na periferia da cidade e habitado por pequenos agricultores, transformou-se rapidamente com a inauguração da Estação Ferroviária, em 1884, e da caixa d’água, no ano seguinte. Na fotografia de Lohse, vê-se, à esquerda, postes da fiação elétrica e pequenas casas já alinhadas na antiga Estrada da Independência, incluindo a Pharmácia S. Braz, no canto; mas também ainda existia, do outro lado da rua, uma chácara, à direita, como era comum na periferia da cidade. O movimento das pessoas denuncia que era um local de grande circulação: um rapaz olha para o fotógrafo diante dos trilhos do trem, um homem mais velho avança pelo outro lado, dois carregadores levam imensos cestos às costas e pessoas caminham no comércio que já se estrutura nas imediações. Pequenos detalhes, quase imperceptíveis, revelam o contraste que o bairro já vivia: estacas de madeira, possivelmente sendo transportadas em uma carroça, à esquerda, sugerem que obras estavam sendo executadas por perto, enquanto uma galinha aparece sobre o chão, bem junto da locomotiva que avança intrepidamente.
O bonde puxado por locomotiva aparece em uma outra foto, não assinada nem datada, mas certamente feita por Lohse na mesma época. A foto também foi feita no bairro de São Brás, na Estrada da Independência, ao lado do Museu Goeldi. Em primeiro plano, um homem bem vestido atravessa a rua, em direção a uma padaria. Na sequência, aparecem os trilhos do bonde, os postes de ferro da iluminação pública, algumas mangueiras ainda bem jovens (e que depois se tornariam um dos símbolos de Belém), a rede elétrica, o trem, algumas casas e um sobrado. Sobre a rua, montes de paralelepípedos revelam que obras de calçamento estavam sendo executadas.
Em uma terceira fotografia, datada de 26 de junho de 1901, Lohse continua a registrar o processo de modernização do bairro de São Brás: ali estão os trilhos do bonde, os paralelepípedos que estavam sendo assentados na rua e a fiação elétrica que cruzava os céus. Essa foto, em particular, feita na esquina da Estrada da Independência com a Travessa Vinte e Dois de Junho (atual Av. Alcindo Cacela), do outro lado do Museu Goeldi, é notável pelo enquadramento e pela composição. Uma enorme árvore plantada no passeio público domina o centro da fotografia (seria remanescente da antiga floresta?), enquanto um homem portando maleta e guarda-sol atravessa os trilhos, carroceiros passam com seus veículos e um garoto sentado no meio da rua sorri para o fotógrafo. Ao fundo, mais mudas de mangueiras aparecem plantadas na calçada e uma grande cerca de madeira sugere a existência de uma chácara.
Duas outras fotografias merecem destaque por registrarem outro ícone da modernização de Belém, o Ver-o-Peso. Esse mercado existe desde o século XVII, quando foi criado um entreposto fiscal para aferir as mercadorias que chegavam do interior, vendidas ali mesmo, ao lado da “Casa do Haver o Peso” (Cruz, 1962). No final do século XIX, uma grande reforma transformou completamente a feira que se espalhava do Forte do Presépio até o porto da cidade, com a construção de armazéns, de um mercado de carne e outro mercado de peixe. Este último também é conhecido como “mercado de ferro”, pois foi importado da Europa e montado na antiga feira para a comercialização do pescado ali desembarcado. A fotografia de Ernst Lohse, tirada no ano da inauguração desse mercado (1902), mostra uma das laterais do edifício, com suas pequenas lojas voltadas para a rua. Ao fundo, vê-se os mastros dos barcos fundeados na doca, o necrotério e galpões do porto. Os transeuntes, incluindo o cachorro e a mulher que leva um paneiro à cabeça, à esquerda, dão movimento à cena.
A outra foto, reproduzida em papel e em estado de conservação delicado, é um registro bem mais raro. Foi feito pelo botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), antes de 1910. Huber apontou a lente da câmera não para o mercado de ferro, mas para a feira que se estendia entre ele e o porto – escolha pouco usual entre os fotógrafos da época. Em primeiro plano, à esquerda, vários carros de mão estão posicionados lado a lado. Não é possível depreender se os homens presentes vendem algum produto ou se aguardam pedidos para transportar algo. À direita, trabalhadores preparam caixas de madeira para serem embarcadas em um navio. Muitas pessoas aparecem ao fundo, assim como um galpão do porto, um pequeno quiosque, mastros, postes de ferro, um cavalo e uma pilha de paneiros, embalagem bastante comum ainda hoje para o transporte de gêneros alimentícios. A mureta que separava a feira da praia, à direita, comprova a data da imagem. Essa mureta existiu até o início das obras de ampliação do porto, a partir de 1907 (Penteado, 1973; Teixeira, 2003).
Os quintais de Belém
Os quintais de Belém foram mencionados por muitos viajantes desde o século XVIII. Por exemplo, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), que chegou à cidade em 1783, notou a grande diversidade de vegetais cultivados em quintais e chácaras. Ele concluiu, em suas próprias palavras, que eram “espaços de experimentação”, isto é, locais onde as plantas trazidas do interior eram introduzidas e domesticadas pelos colonos (Sanjad, Pataca, Santos, 2021). Podemos considerá-los verdadeiros laboratórios, que cumpriram uma função essencial no processo de globalização de espécies vegetais amazônicas. Ainda hoje são estudados como repositórios de conhecimentos etnobotânicos, como bancos de diversidade genética e local de sociabilidade familiar e feminina (WinklerPrins e Oliveira, 2010; Tourinho e Silva, 2016).
Em Belém restam muito poucos quintais e nenhuma chácara ou “rocinha” – o nome que se dava até meados do século XX para pequenas unidades de produção agrícola, localizadas na periferia da cidade e associadas a uma casa de família (Soares, 1996). Temos, contudo, registros fotográficos desses quintais, feitos no início do XX por Jacques Huber. Na foto abaixo, tirada em 17 de setembro de 1902, vê-se uma esquina da Estrada Boaventura da Silva (atual Rua Boaventura da Silva), onde uma enorme Cassia fastuosa se ergue em flor por trás de uma cerca de estacas. Essa cerca e a rua perpendicular à estrada, sem calçamento e bem arborizada, com alguns poucos transeuntes, dão um ar bucólico à cena, apesar de este quintal estar localizado bem próximo ao centro da cidade.
As três fotografias abaixo também são registros de quintais, mas das casas ocupadas pelo próprio Museu Goeldi ou pelos seus pesquisadores (Suescun, Sanjad, Okada, 2018). A primeira delas apresenta uma bela composição, com uma cerca de tábuas (tomada por formigueiros), troncos, folhagens, com destaque para os tajás, e, à direita, o canto de uma gaiola. Na foto seguinte, uma cerca também bloqueia a visão do espectador, dando proeminência a um uxizeiro que se ergue à frente, árvore muito comum nos quintais da época, mas, por incrível que pareça, ainda não descrita pelos botânicos. Foi exatamente esse pé de uxi – plantado no pomar da rocinha de Bento José da Silva Santos, que Huber utilizou para descrever a espécie Sacoglottis uchi (atual Endopleura uchi (Huber) Cuatrec.) (Huber, 1898). Finalmente, um pé de urucum (Bixa orellana) tomado por flores e frutos foi registrado em outro quintal. O fruto era (e ainda é) utilizado como condimento e na produção de tintura, matéria-prima do vermelho vibrante utilizado pelos indígenas em pinturas corporais e para colorir artefatos. O homem que aparece bem junto ao arbusto, envolto na folhagem, não foi identificado e muito provavelmente foi ali colocado pelo fotógrafo como escala para a apreensão do real tamanho da planta.
A Ilha do Mosqueiro
Mosqueiro é uma das 42 ilhas que compõem o município de Belém. É a maior delas, eleita, desde o final do século XIX, como balneário da elite econômica da cidade. Curiosamente, foram os estrangeiros os primeiros a construir casas para o veraneio nas principais praias da ilha. Atribui-se aos ingleses a urbanização dessas praias, a partir da antiga vila localizada na ponta oeste da ilha (Meira Filho, 1978).
Mosqueiro foi visitada por um grupo de funcionários do Museu Goeldi e suas famílias entre o final de julho e o início de agosto de 1901. Essa é a época do verão amazônico. O objetivo da viagem foi declarado no verso de uma das fotografias tiradas por Ernst Lohse, em expressão anotada por Jacques Huber: “Verlobungsausflug nach Mosqueiro”. O termo Verlobungsausflug é utilizado em países de língua alemã para caracterizar uma “viagem de noivado”, isto é, uma viagem a um local considerado especial, com a intenção de oficializar um pedido de casamento. Os locais prediletos dos nubentes eram praias ao pôr-do-sol e montanhas. O compromisso matrimonial era sacramentado durante caminhadas e piqueniques.
O noivado celebrado em Mosqueiro ocorreu entre o próprio Huber e Sophie Müller (1875-1959), filha de uma família suíça residente em Belém, proprietária de uma escola para imigrantes denominada Colégio Suíço-Brasileiro. De sua viagem de noivado existem quatro registros na coleção fotográfica do Museu Goeldi. As duas primeiras imagens documentam a paisagem da ilha, tanto a costa mais elevada que caracteriza a antiga vila (28/07/1901) quanto uma das praias próximas, em maré baixa, ainda margeada por densa vegetação (04/08/1901).
As outras duas imagens foram, certamente, feitas para a memória familiar. Na primeira, de 4 de agosto de 1901, Emílio Goeldi aparece na praia, com um guarda-sol, acompanhado de seu filho mais velho, Walther Eugen (1890-1960) e de um homem não identificado. A segunda registra parte do grupo que celebrava o noivado, posando sobre rochas próximas à água. Goeldi aparece mais elevado, em pose majestática, olhando para o horizonte. Logo abaixo estão suas três filhas, Mathilde (1894-1983), Cornélia (1891-1975) e Leonie (1892-1965). Ao lado, o casal Sophie e Jacques, em trajes muito formais para uma caminhada na praia, um homem e uma menina não identificados e mais dois filhos de Goeldi, Oswaldo (1895-1961) e Walther Eugen. Foi no verso dessa fotografia que Huber anotou a razão da viagem, confirmando o lugar que Mosqueiro já havia assumido para o sociedade belenense. O casamento de Sophie e Jacques foi celebrado em Belém no dia 7 de dezembro de 1901 (Aerni, 1991).
Cidade-Floresta
No final do século XIX, ainda havia muitas áreas florestadas no entorno de Belém. Emílio Goeldi (1897, p. 23), em um de seus relatórios ao governador do Pará, afirmou não ser “preciso ir muito longe [de Belém] para aprender, investigar e até descobrir”, pois havia, nas proximidades da cidade, florestas repletas de animais e vegetais à espera de pesquisadores. De fato, nas coleções e na documentação preservada no Museu Goeldi são frequentes as menções a coletas feitas nos bairros de São Brás, Pedreira, Sacramenta, Marco da Légua, Val de Cans, Utinga e mesmo Nazaré, hoje completamente urbanizados. Os animais e as plantas coletados nesses locais, assim como as fotografias preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, são testemunhos de ambientes, de uma fauna e de uma flora que não existem mais.
Um dos registros mais importantes dos ecossistemas originais de Belém foi publicado por Jacques Huber em 1900. A foto foi feita na “mata de Jupatituba”, onde hoje se estende o bairro superpovoado da Terra Firme. Huber quis registrar o ambiente onde a palmeira mumbaca (Astrocaryum gynacanthum) ocorre e o fez com extrema habilidade fotográfica. O local era densamente vegetado, com pouca luz e nenhuma distância entre as plantas. Para fotografar a pequena palmeira de sub-bosque, Huber limpou o terreno à frente da planta e posicionou um homem para fazer as vezes de escala. O resultado é uma imagem com belo jogo de sombras e texturas, com a palmeira ocupando o centro da foto.
Outro local usualmente frequentado pelos pesquisadores do Museu Goeldi era o entorno do Igarapé do Utinga. Nessa região havia muitas nascentes e o local foi escolhido para a instalação da primeira usina de bombeamento de água de Belém, na década de 1880 (Ramos, 2019). Na primeira foto, feita em 1900 por Gottfried Hagmann (1874-1946), vê-se a casa das máquinas a vapor, alguns trabalhadores vestidos apenas com largas calças e um funcionário do museu, possivelmente Andreas Goeldi. A floresta domina a paisagem. A segunda foto, do mesmo autor e feita na mesma data, mostra algo completamente diferente: uma criança negra posa para o fotógrafo, com uma cabana de madeira e palha ao fundo, além da floresta. Podemos crer que a cabana era a residência da família dessa criança – o que corrobora ser as matas do Utinga local de refúgio de afrodescendentes libertos ou escravizados, desde o século XIX. Atualmente, há pelo menos uma comunidade quilombola reconhecida naquela região, o Quilombo de Abacatal (Sousa, Ribeiro e Sanches, 2020).
No outro lado da cidade, às margens da Baía de Guajará, o Igarapé do Una também era visitado pelos pesquisadores do Museu Goeldi para coletas botânicas e zoológicas. Hoje em dia, a região do entorno desse igarapé é ocupada pelos bairros do Telégrafo, da Sacramenta e do Barreiro, com cursos d’água completamente degradados e nenhuma cobertura vegetal. Há 120 anos, a paisagem era outra: três fotografias de Jacques Huber, tiradas entre junho de 1901 e dezembro de 1902, mostram uma floresta pujante, observada a partir de uma embarcação que margeava a baía e adentrava a Bacia do Una.
Um pouco mais ao norte da Foz do Una, também às margens da Baía de Guajará, localizava-se a Fazenda Val-de-Cans, antiga propriedade dos Padres Mercedários, construída no século XVII (Meira Filho, 1976). No final do século XIX, a fazenda pertencia a Joaquim Francisco de Araújo Danin. A partir de 1907, foi sendo desmembrada pelos herdeiros e pelas desapropriações feitas pelo governo em benefício da Estrada de Ferro Belém-Bragança e da companhia inglesa responsável pela construção do porto. Na década de 1930, a área foi escolhida para receber o aeroporto de Belém e, depois, a base aérea norte-americana, durante a Segunda Guerra Mundial. Na década seguinte, ali também foram instalados a Base Naval de Val-de-Cans e o Terminal Petroquímico de Miramar. Todo esse complexo deu origem aos atuais bairros que margeiam o aeroporto e a base naval, como a Maracangalha, o Marex, a Pratinha, o Bengui, a Cabanagem e o Tapanã (Ventura Neto e Moura, 2021; Lopes et al., 2023; Costa, Chagas e Netto, 2025).
Existem alguns poucos registros fotográficos da antiga fazenda que deu origem à toda a região norte de Belém, até o distrito de Icoaraci. O levantamento fotográfico feito por Gottfried Hagmann em julho de 1901 talvez seja o menos conhecido. Aqui apresentamos uma sequência de fotografias feitas durante uma excursão do Museu Goeldi, que documenta a sede da fazenda, as margens da baía e o interior da floresta. Na última delas, Hagmann aparece de pé, com roupas brancas, portando uma espingarda. O outro homem carrega um puçá aos ombros e o menino sentado pesca com uma vara no igarapé.
Assim como as áreas continentais, as ilhas no entorno de Belém também mereceram a atenção dos pesquisadores do Museu Goeldi. A maior delas é a Ilha do Mosqueiro, já aqui mencionada. A mais populosa é a Ilha de Caratateua, onde fica o distrito de Outeiro. Em todas elas existem ecossistemas complexos, alternando-se entre várzeas, igapós, praias e manguezais (Moreira, 1966; Sales, 2005). As duas fotos abaixo documentam a várzea da Ilha das Onças, que não pertence a Belém, e sim ao município vizinho de Barcarena, embora essa ilha esteja mais próxima e seja mais integrada à economia da capital. Ambas as fotos são de Hagmann, feitas em 1901.
A primeira é um belo registro de um dos igarapés que cortam a ilha, enquadrado a partir do tronco de uma samaumeira, à esquerda. Em primeiro plano, destacam-se a lama característica da várzea amazônica e restos de uma canoa e de uma jangada. Um aningal aparece à margem do outro lado do igarapé. A segunda foto parece ser um igapó ou uma várzea inundada durante uma maré muito alta, com a vegetação parcialmente submersa. Ambas são preciosos documentos de uma paisagem característica de Belém, na qual a água é o elemento preponderante. Hoje essa paisagem desapareceu por completo da cidade, mas as ilhas do entorno, felizmente, pouco mudaram desde que Hagmann lá esteve, há mais de 120 anos.
Floresta-Ruína
De todos os pesquisadores do Museu Goeldi que manejaram a máquina fotográfica no final do século XIX e início do XX, Jacques Huber foi o único que criou um conjunto significativo de imagens, não apenas em razão do número de fotos assinadas ou atribuídas a ele, mas por ter desenvolvido uma técnica e uma estética particulares. Esse mérito já foi reconhecido por historiadores da fotografia e da ciência (Fieschi, 2008; Sanjad, 2016, 2023a, 2023b), não cabendo aqui retomar o assunto. O que importa ressaltar é que a linguagem fotográfica de Huber contrasta com a produção imagética de outro grande fotógrafo da instituição, Ernst Lohse. Isso decorre da posição que ambos ocupavam no museu e dos usos atribuídos por eles à tecnologia fotográfica. Enquanto Lohse aparece como o fotógrafo “oficial” do Museu Goeldi, produzindo imagens que documentam as atividades institucionais e a serviço de demandas da direção do museu ou do próprio governo do estado, Huber, enquanto vice-diretor e depois diretor, tinha muito mais liberdade para experimentar a aplicação da fotografia em suas atividades científicas e até mesmo para forçar os limites dessa tecnologia enquanto meio de expressão e documentação. A série de fotografias do Círio de Nazaré, produzida entre 1902 e 1905, e o álbum iconográfico “Arboretum Amazonicum”, publicado entre 1900 e 1906, têm sido estudados como indícios do poder criativo de Huber e de sua capacidade em expandir a técnica fotográfica e as tecnologias de reprodução de imagens.
Um bom exemplo do contraste entre Lohse e Huber pode ser observado nas fotografias que ambos fizeram de Belém. Lohse, como já vimos, produziu imagens extraordinárias da cidade que se modernizava, com todos os ícones característicos da época: a locomotiva, a arquitetura de ferro, a rede de iluminação pública, o calçamento de ruas, os trabalhadores braçais etc. Huber, por sua vez, ao olhar para Belém, não via uma cidade em expansão ou o processo acelerado de urbanização, mas uma floresta que estava desaparecendo, sendo substituída, se arruinando. Trata-se de uma inversão epistêmica, que repõe, no lugar do humano, o vegetal como o principal protagonista das imagens que ele criou.
Observemos a sequência de fotografias que Huber fez ao redor do próprio museu, à época, localizado na periferia da cidade, o bairro de São Brás, que, como já mencionamos, transformava-se rapidamente. A primeira delas é o registro da Travessa Vinte e Dois de Junho (atual Av. Alcindo Cacela), que passa ao lado do Museu Goeldi. Na foto, produzida em abril de 1896, observamos a larga avenida, ainda ocupada por chácaras de ambos os lados. Alguns poucos transeuntes e uma única carruagem, talvez a do próprio Huber, foram enquadrados, dando a impressão de grande quietude ou pouco movimento urbano. Mas veja o leitor que o destaque não foi dado para a grande rua vazia, uma das muitas abertas em Belém no final do século XIX e que atraíram a atenção de tantos viajantes. Huber utiliza as margens da avenida como ponto de fuga, para dar profundidade à sua foto e para ressaltar o lindo pé de angelim (Andira retusa) “esquecido” no meio fio. Sim, trata-se de um remanescente da floresta que havia naquele local – e que não foi removido por razões imponderáveis. Ele permaneceu ali, no meio do caminho, como árvore-ruína.
Na Estrada da Constituição (atual Av. Gentil Bittencourt), que passa nos fundos do museu, Huber registrou em junho de 1896 outro habitante da antiga floresta que dominava a cidade: um enorme exemplar de cumaru (Dipteryx odorata), também mantido no meio do caminho da estrada que estava sendo ampliada e rapidamente ocupada por novos habitantes – os humanos. Um pouco mais adiante, já no Largo de São Brás, um visgueiro (Parkia pendula) resiste em meio à construção de várias casas. A foto foi feita em 18 de setembro de 1895. O mesmo acontecia com um segundo visgueiro, também fotografado no Largo de São Brás, mas em data incerta. Nessa terceira imagem, a copa da árvore aparece junto aos postes da fiação elétrica e da iluminação pública, como se já fosse um incômodo ou um obstáculo à expansão da cidade. Esse antigo habitante da floresta parece deslocado de seu próprio chão.
Huber seguiu registrando as árvores-ruína pela Estrada de Ferro Belém-Bragança (atual Av. Almirante Barroso), que saia dali mesmo, do Largo de São Brás. No bairro vizinho do Marco, fotografou um bacurizeiro (Platonia insignis) por trás do edifício da Escola de Agronomia do Pará, do qual só se veem as torres e os prédios anexos. Mais adiante, uma outra árvore permaneceu de pé junto a uma casa, à margem da estrada de ferro. Parece ser o único remanescente da floresta original em toda a redondeza.
Além da solidão de grandes árvores mantidas vivas em meio à cidade, quando todo o seu entorno já havia sido devastado, Huber documentou ecossistemas naturais que ainda existiam na zona urbana. Um deles foi o igapó ao sul do Museu Goeldi, onde hoje está o canal da Travessa Três de Maio. Em junho de 1896, a área ainda não havia sido ocupada pelos humanos: não havia rua, a mata dominava o cenário e o curso d’água corria livremente até o rio Guamá. Ao longo do século XX, o igapó foi drenado e canalizado. Suas águas transformaram-se em esgoto a céu aberto, percorrendo os bairros da Condor e do Guamá. É considerado uma sub-bacia hidrográfica em uma área densamente ocupada (Araújo Júnior, 2014). Nenhuma parcela da vegetação registrada por Huber foi mantida.
Outro igapó preservado até o final do século XIX ficava ao sul da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, onde atualmente corre a Travessa Quatorze de Março. Na fotografia de Huber, datada de junho de 1896, um grupo de homens, mulheres e crianças, todos aparentemente negros, aparece em meio à vegetação, em uma área que parece estar em declive até um curso d’água. Ao fundo, vê-se uma igreja com torre única, em área mais elevada. Na legenda da foto, anotada no verso por Huber, lê-se: “Kirche von Nazareth, in vordergrund Igapó” (Igreja de Nazaré; em primeiro plano, igapó). Assim como na Travessa Três de Maio, o igarapé original foi drenado, canalizado e transformado em esgoto a céu aberto. Ele compõe uma outra sub-bacia hidrográfica, indo unir-se aos canais que descem da Avenida Generalíssimo Deodoro e da Travessa Dr. Moraes, para depois desaguar no Rio Guamá pelo canal da Travessa Quintino Bocaiúva (Araújo Júnior, 2014).
O registro das transformações nos ambientes naturais de Belém também foi feito por Ernst Lohse. Por exemplo, em fotografia de 15 de agosto de 1901, feita em local não identificado, um igarapé repleto de ninfeias aparece em primeiro plano, enquanto, ao fundo, à esquerda, um conjunto de edificações começa a substituir a vegetação. O contraste com o ambiente natural é evidente – e anuncia que, em breve, toda aquela mata que aparece à direita desaparecerá, assim como o curso d’água à frente.
Nessa imagem, assim como no conjunto fotográfico de Huber, a presença humana, seja explícita ou sugerida, como no caso das casas em construção ou de um simples trilho de trem, já caracteriza o entorno como ruína ou resto. A solidão de imensas árvores em ambiente já urbanizado as transforma em destroços, em fantasmas que sobrevivem à destruição. A cidade que se modernizava era, também, a que degradava um mundo de águas e vegetais, um mundo que deixou de existir ou que estava prestes a sucumbir. Através dessas fotografias pode-se contar a história de Belém de uma outra maneira, caso nos permitamos estranhar as narrativas que exaltam a modernidade e se ufanam do progresso.
O que as imagens antigas podem nos contar
A leitura que fizemos das 34 fotografias aqui apresentadas é muito particular. Ela tem origem nas investigações que desenvolvemos no Arquivo Guilherme de La Penha, voltadas, simultaneamente, para as técnicas fotográficas utilizadas no Museu Goeldi desde o final do século XIX, para os usos das imagens pelos pesquisadores e administradores da instituição, para a circulação e para o contexto de produção dessas imagens. Nosso universo de pesquisa inclui fotografias produzidas por Emilio Goeldi, Jacques Huber, Ernst Lohse, Gottfried Hagmann, Emilia Snethlage, Andreas Goeldi, Friedrich Katzer, Adolf Ducke, Rodolpho de Siqueira Rodrigues e outros funcionários que sabiam manejar a máquina e a carregavam toda vez que se deslocavam pela cidade de Belém e pelas excursões que faziam no território amazônico.
Os registros produzidos por esses homens e por essas mulheres podem nos contar muito sobre os habitantes da região, humanos e não humanos; sobre as paisagens do passado, a cultura material, a arquitetura de cidades; sobre nosso legado colonial e também sobre nossa perspectiva de futuro. Esperamos que, ao estudar e interpretar esse acervo, possamos valorizá-lo no que ele tem de melhor: a diversidade de olhares e de percepções do mundo que nos rodeia.
* Lilian Bayma de Amorim, é jornalista e museóloga; Nelson Sanjad é historiador e Pablo Borges é administrador especialista em gestão pública. São todos servidores do Museu Paraense Emilio Goeldi.
Referências:
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ARAÚJO JÚNIOR, Antônio Carlos Ribeiro. Áreas de Proteção Permanente ou Áreas de Ocupação Permanente: sub-bacias hidrográficas Quintino e Três de Maio, Belém (PA). Seminário Nacional sobre o Tratamento de Áreas de Preservação Permanente em Meio Urbano e Restrições Ambientais ao Parcelamento do Solo – APPUrbana, Anais. Belém, Universidade Federal do Pará, 2014, s.p.
BORGES, Barsanufo Gomides. Ferrovia e modernidade. Revista UFG, v. 13, n. 11, p. 27-36, 2011.
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Repercussão na imprensa do Pará
Na edição do Diário do Pará dos dias 10 e 11 de janeiro de 2026 foi publicado o artigo Belém em imagens raras: acervo histórico ganha primeira exposição digital, com chamada na capa do jornal, sobre a entrada do Museu Paraense Emílio Goeldi na Brasiliana Fotográfica.
Link do artigo: https://dol.com.br/digital/Page?editionId=3342#book/13



Na edição de O Liberal, de 19 de janeiro de 2026, foi publicado o artigo Belém do passado no portal Brasiliana:


