O Túnel da Rua Alice ou do Rio Comprido – Laranjeiras por Marc Ferrez

Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX, fotografou o Túnel da Rua Alice ou do Rio Comprido -Laranjeiras, aberto em 1887, que liga os dois bairros através do Morro dos Prazeres. Até as inaugurações do túneis Santa Bárbara, em 1962, e Rebouças, em 1967, era a única via disponível para as pessoas que quisessem transitar entre as zonas Norte e Sul da cidade sem passar pelo Centro. É o túnel mais antigo do Rio de Janeiro*.

 

O primeiro trecho da Rua Alice foi aberta pelo empresário Eduardo Klingelhoefer da Fonseca que o batizou com o nome de sua filha, Alice (1882 – 1960). Ele queria construir uma linha de bondes que ligasse a Zona Sul a Zona Norte, o que não ocorreu (Gazeta de Notícias, 22 de julho de 1887, primeira colunaGazeta de Notícias, 26 de agosto de 1887, sexta colunaO Paiz, 27 de novembro de 1887, primeira colunaRevista de Engenharia, 14 de dezembro de 1887, primeira coluna).

O contrato para a construção do Túnel da Rua Alice foi celebrado entre a Câmara Municipal da cidade e a Companhia do Túnel e Ferro-Carril Rio Comprido e Laranjeiras, em 27 de outubro de 1886. Em 10 de fevereiro de 1887, foram abertas as propostas recebidas pela referida empresa para sua perfuração e construção. Seus fundadores – o Barão de Canindé, Malvino da Silva Reis, o já citado Eduardo Klingelhoefer e Manoel Ferreira Fernandes Bravo – foram eleitos presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro da companhia, respectivamente. A proposta escolhida, por ser a mais barata, foi a dos senhores Samuel Thompson e Charles Smith.

 

 

Durante as obras houve uma explosão com três vítimas e uma delas morreu no local (O Paiz26 de novembro 1886, primeira coluna29 de  dezembro de 1886, quinta coluna; 30 de janeiro de 1887, quinta coluna10 de fevereiro de 1887, quarta coluna11 de fevereiro de 1887, quarta coluna11 de fevereiro de 1887, primeira coluna26 de fevereiro de 1887, última coluna; Gazeta de Notícias, 7 de outubro de 1887, penúltima coluna).

Às vésperas do Natal de 1888, a convite da diretoria Companhia do Túnel e Ferro-Carril Rio Comprido e Laranjeiras, autoridades visitaram o túnel (Gazeta de Notícias, 24 de dezembro de 1888, quinta coluna).

 

 

No início da década de 50, ainda sob a administração do prefeito Ângelo Mendes de Moraes (1894-1990), foram iniciadas as obras de ampliação e remodelamento do túnel. A galeria passou a ter 220 metros de comprimento por 10 de largura, foram realizadas a impermeabilização e revestimento da abóboda, construção dos pórticos, pavimentação das pistas e colocação de tubulações especiais d´água. Os melhoramentos fora entregues à população, em 7 de setembro de 1952, já na gestão do prefeito João Carlos Vital (1900-1984) (Revista Municipal de Engenharia, julho/setembro de 1950, primeira colunaDiário de Notícias, 1º de novembro de 1951, primeira coluna6 de setembro de 1952, primeira coluna).

 

 

As já mencionadas inaugurações dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, na década de 1960, diminuíram consideravelmente o movimento do Túnel da Rua Alice.

 

 

 

 

*Já existia o Túnel da Marítima ou Túnel da Gamboa, inaugurado, em 1879, perfurado sob o Morro da Providência, que ligava a Central do Brasil à área portuária da Gamboa. Tinha 315 metros de extensão, mas era utilizado apenas para embarque e desembarque de carga. Foi desativado em 1995. Sua galeria foi reformada e, em 2017, passou a ser usado pela linha 2 do VLT sentido Praça XV-Região Portuária.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Bairro das Laranjeiras

Diário do Rio de Janeiro

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume III. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1960

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Série “Carnavais de antigamente” X – O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

Com uma imagem de autoria do alagoano Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936, a Brasiliana Fotográfica relembra o carnaval carioca de 1919, o primeiro grande evento realizado na cidade após a pandemia de Gripe Espanhola. Após o luto pela doença, o povo foi à forra! Foi o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

 

 

 

Vamos para a Festa da Penha de 1918, uma festa religiosa realizada no alto do morro. Neste ano aconteceu nos dois primeiros domingos de outubro, foi suspensa devido à Gripe Espanhola, e voltou a realizar-se em 8 e 15 de dezembro (O Paiz, 6 de outubro de 1918, terceira colunaO Paiz, 8 de dezembro de 1918, penúltima coluna). Mas era no sopé da pedra onde está construída a Igreja da Penha que a festa atraía, segundo o jornalista Jota Efegê (1902-1987): “Os boêmios, o povo da lira, a gente do samba, e com eles os malandros, os valentes, os capoeiras sempre acorriam aos festejos da Penha. Misturavam-se às famílias (principalmente portuguesas) que lá iam para seus piqueniques regados ao farto verdasco”.

E durante a Festa da Penha, que normalmente era frequentada por cerca de 60 mil pessoas, e que abria o período carnavalesco, Oscar José Luiz de Morais (1883-1961), conhecido como Caninha, frequentador, no início do século XX, das casas das tias baianas da Pequena África, e amigo dos sambistas Donga (1889-1974), João da Baiana (1887-1974) e Pixinguinha (1897-1973), lançou uma música que fez muito sucesso, o maxixe Gripe Espanhola cuja letra era:

 

 

A Espanhola está aí

A Espanhola está aí

A coisa não está brincadeira

Quem tiver medo de morrer não venha

Mais à Penha

 

E estava mesmo! A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas. Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil. Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

 

 

Depois da tragédia, veio a esbórnia! O que aconteceu no Rio de Janeiro, entre o sábado de carnaval e a quarta-feira de cinzas de 1919 – 1º e 5 de março – foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade.

 

 

Texto de Pierrot, pseudônimo do jornalista Manuel Bastos Tigre (1882-1957), publicado no Correio da Manhã, 20 de janeiro de 1919:

“CARNAVAL

Quem não morreu da Espanhola, quem dela pôde escapar não dê mais tratos à bola, toca a rir, toca a brincar…A quadra não é de prantos! Tragam nos lábios sorrisos pois já por todos os cantos se ouve a música dos guisos. O Carnaval está na porta e da tristeza e da dor Momo a sequência nos corta com seu rabumba atreador.

A Folia está na rua e aos requebros do “Can Can” vai-se ao império da Lua numa alegria louçã. Vai o prazer aos confins , remexe-se a Terra inteira, ao som vivaz dos clarins, ao roncar do Zé Pereira.

Pinta-se a manta e o sete, ao jogar com as meninas tempestades de confete, de “Redó” e de serpentinas. Só há momentos simpáticos pros cavalheiros que ufanos vão brincar nos Democráticos ou nos bravos Fenianos. Por isso, pois, minha gente, bolas aos planos sinistros sobre o novo presidente, sobre os futuros ministros, sobre o caso complicado, cheio de negras mazelas, do tal Comissariado, com as suas muitas tabelas.

Deus Momo toca a rebate!…Ei-lo ! A Folia cá está!… Um viva à Flor do Abacate a ao Ameno Resedá!…”

                                                                                    Pierrot

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos, espectrais. As pessoas usavam a mesma cara, o mesmo feitio de nariz, o mesmo chapéu, a mesma bengala (naquele tempo, ainda se lavava a honra a bengaladas). Mas algo mudara. Sim, toda a nossa íntima estrutura fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída… Éramos outros seres que nem bem conheciam as próprias potencialidades. Cabe então a pergunta: e por quê? Eu diria que era a morte, sim a morte que desfigurava a cidade e a tornava irreconhecível. A Espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas e, mesmo, demoníacas… Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat ou, ainda, do Theo Filho… Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da Espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: “Na minha casa não racha lenha. Na minha racha, na minha racha/ Na minha casa não há falta de água/ Na minha abunda”, etc. etc. As pessoas se esganiçavam nos quatro dias…”

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo, de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“Carnaval vem, Carnaval vai, e eu não consigo esquecer o Carnaval que não vivi, nem nascido era, o Carnaval de 1919.
Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que deu nome ao estádio do Maracanã, sempre me falava nesse Carnaval paradisíaco, os olhos dele estufavam dentro das órbitas, rememorando bacanais terríveis, terríveis esbórnias, um Carnaval apocalíptico -e seus cabelos cor-de-fogo ficavam eriçados como as cerdas bravas do javali-, imagem do Eça de Queiroz que Nelson divulgou à saciedade.
Havia um motivo para o eriçamento dos cabelos cor-de-fogo do Mário: ele vira e ouvira coisas naquele remoto ano, logo depois da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola que matou milhares de pessoas em todo o mundo.
No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro.
Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.
E Mário Filho arregalava os olhos, os cabelos cor-de-rosa vibravam, Nelson apreciava a exaltação do irmão, nunca entrou nesse tema, deixou-o para Mário, que tentou, tentou, tocou no assunto num outro romance, mas não foi fundo, como o tema pedia e o irmão mais jovem esperava.
E assim é que o Carnaval de 1919 permanece inédito, à espera que algum desocupado encare a época, o Rio da gripe e do depois da gripe, o Rio cuja violência explodiu no sexo de um Carnaval como nunca houve nem haveria igual.
A idéia de Mário era pegar como narrador um personagem nascido nove meses depois, um filho dessa esbórnia, desse pânico pela morte que estourou donzelas e famílias. Os brasileiros nascidos na feliz data de novembro de 1919 que se habilitem”.

A folia de Momo foi festejada no Rio de Janeiro por cerca de 400 mil pessoas em um clima de euforia de fim de mundo, afinal não se sabia se a gripe voltaria. Poderia ser o último carnaval de muitos foliões! Traumas e medos foram transformados em euforia. Além disso, a crônica carnavalesca estava em seu auge e os jornalistas ligados ao carnaval, importantes tanto nas redações como na sociedade carioca, noticiavam o dia da dia dos festejos tornando a imprensa uma grande e crucial promotora do sucesso do carnaval triunfante!

Felizmente, a Espanhola não voltou ao Brasil!

Acesse aqui todos os artigos da Série Carnavais de antigamente.

 

Andrea C. T. Wanderley

Pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Casa do Choro

BUTTER, David. De sonho e de desgraça: o Carnaval carioca de 1919. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2022.

EFEGÊ, Jota. Meninos, eu vi. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Dicionário Ricardo Cravo Albim da Música Popular Brasileira

SANTOS, Daniel Santana; VAISBIH, Renato. A Cobertura do Carnaval de 1919 nas Páginas do Correio da Manhã e da Gazeta de Notícias. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 4 a 9/10/2021

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a ‘espanhola’. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13, n. 1, p. 129-58, Jan.-Mar. 2006.

SIMAS, Luiz Antonio. A origem da Festa da Penha.

WANDERLEY, Andrea C. T. E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918 in Brasiliana Fotográfica, 23 de março de 2020.

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXX e série “Hotéis do Brasil” VII – O Grande Hotel Internacional em Santa Teresa

Destacando quatro imagens produzidas pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX , o Grande Hotel Internacional é o assunto do 30º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido e o sétimo da série Hotéis o Brasil. Considerado o mais cosmopolita dos hotéis do Rio de Janeiro na virada do século XX, situava-se em um grande casarão no lugar denominado Lagoinha, no morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Foi inaugurado, em 1º de dezembro de 1891, na Rua do Aqueduto. Pertencia à Companhia Melhoramentos de Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 2 de dezembro de 1891, primeira coluna).

 

 

Em 1893, foi adquirido pelo francês Ferdinand Mentges. Antes de se tornar um hotel, no casarão funcionava um sanatório para doenças do pulmão.

hotel2

 

Acessando o link para as imagens do Grande Hotel Internacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Na sua inauguração, compareceram várias senhoras e cavalheiros, a quem foi oferecido um delicado lunch. Ficava a 45 minutos da cidade, a 184 metros do nível do mar e em meio a uma vegetação soberba, o que contribuía poderosamente para a pureza do ar que ali se respira. Devido à sua localização recebia ventilação da Baía de Guanabara, para a qual tinha uma belíssima vista, mas era protegido de eventuais correntes de ar pelos morros Castor e Pólux. Em 1895, o então presidente da República, Prudente de Morais (1841-1902), passou uma temporada no hotel recuperando-se de uma de suas constantes febres (Jornal do Commercio, 29 de julho de 1934, segunda coluna).

Notabilizou-se por oferecer requintados serviços e também por reunir em seus salões intelectuais do Rio de Janeiro dentre eles o dramaturgo Artur de Azevedo (1855-1908), o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) e o escritor Raul Pompéia (1863-1895).

 

 

Quando foi inaugurado, possuía um prédio principal e dez chalés. No pavimento térreo, abrigava grandes salões com piano, bilhar e outros jogos, além de um restaurante, da copa e da cozinha. No segundo andar, ficavam a sala do gerente, o salão de honra e inúmeros quartos com todas as condições de conforto. A construção do Grande Hotel Internacional foi dirigida pelo comendador Bittencourt da Silva sob os conselhos do sr. Rocha Faria. Foram atendido rigorosos preceitos da higiene moderna.

 

 

Em 1911, foi ampliado: possuía 150 leitos e, além do prédio principal e dos chalés, três vilas.

“O hotel está rodeado de matas e os passeios são muitos e variados, tais como Lagoinha, Sumaré, Silvestre, Paineiras, Corcovado. O hotel é principalmente para famílias e estrangeiros que desejem residir em lugar sossegado durante a noite. O seu parque e as suas matas, da extensão de 40.000 metros quadrados, são de grande atrativo para os estrangeiros”.

Inovou, oferecendo aos hóspedes quadra de tênis e um campo de críquete, esportes ingleses que chegavam ao Rio de Janeiro. Bondes ligavam o hotel ao Largo da Carioca. Partiam de 15 em 15 minutos, o percurso era de cerca de 20 minutos e era feito por um caminho muito pitoresco e interessante.

GRAND HOTEL INTERNACIONAL - Santa Tereza

Foram seus hóspedes estrangeiros ilustres como o bailarino ucraniano Vaslav Nijinski (1889-1950) e A bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927), a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) e o arqueólogo e explorador britânico Percy Harrison Fawcett (1867-1925).

 

 

Na crônica Chegada de um estrangeiro ao Rio, de 1912, João do Rio (1881-1921), usou um tom elogioso para descrever o Rio de Janeiro aos olhos de um europeu. O Grande Hotel Internacional foi citado.

…Outros nédios, bem dispostos e tão nus como o primeiro insistiam para que eu tomasse um bote. Olhei, na semipenumbra, o desdobramento dos squares,  a linha dos carros de praça e os meus olhos viram, ao lado de automóveis, uma espécie de condução que até aquele momento só tinham visto em gravuras cantando os feitos do dândi d’Orsay, em Londres ou as elegâncias de Paris, em 1854. Os meus olhos viram os tílburis. Acerquei-me de um. O cocheiro tinha uma bota descalça. Agitou-se entre a bota, as rédeas e o chicote alguns segundos.

– Para onde vamos, V. senhoria?

Internacional, Santa Thereza, disse eu com a adresse que recebera a bordo.

– Ah! isso é lá em cima. O burro não sobe. Vou levá-lo à estação dos bondes.

– É muito longe? fiz com o vago receio do viajante solitário.

– Uma hora de viagem. É bonito…

 

 

Uma fotografia do Grande Hotel Internacional ilustrou um capítulo do livro Memórias de um rato de hotel publicado na Gazeta de Notícias, de 6 de janeiro de 1912, escrito por João do Rio. Era sobre um célebre ladrão da Belle Époque, Arthur Antunes Maciel, vulgo, Dr. Antonio, que ficou famoso por seus roubos inteligentes em hotéis, onde se hospedava com identidades diferentes.

 

 

Segundo uma observação publicada no livro Os dias passam, de João do Rio, editado pela Coordenadoria de Editoração da Fundação Biblioteca Nacional, de 2015, o Grande Hotel Internacional existiu até meados da década de 30. Em seu lugar foi construído, em 1959, o Condomínio Equitativa.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Agenda Bafafá

GONTIJO. Juliana Santiago. JOÃO DO RIO E AS REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO: O ARTISTA, O REPÓRTER E O ARTIFÍCIO – MODERNIDADE PERIFÉRICA E REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO Impressões do Brasil: Crônicas do Século XX

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

João, do Rio, 1881-1921. Os dias passam / João do Rio. – 2. ed. – Rio de Janeiro : FBN, Coordenadoria de Editoração, 2015. 408 p. : il. ; 12×19 cm. – (Coleção Cadernos da Biblioteca Nacional ; 13)

LEME, Deborah Lavorato. Matula do sertão: a trajetória do coronel Percy Harrison Fawcett no Brasil (1906-1951). Dissertação de mestrado apresentada na USP, 2023.

O GLOBO, 28 de fevereiro de 2015

Site Dantes

Site História do Esporte

Site Novo Milênio

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIX – A Rua dos Ourives, atual Miguel Couto, no centro do Rio de Janeiro

 

 

No 19° artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, o destaque são as fotos da Rua dos Ourives realizadas pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864-1957) que, em 1903, tornou-se o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Foi o principal fotógrafo da evolução urbana do Rio nas primeiras décadas do século XX.

 

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Acessando o link para as fotografias da Rua dos Ourives produzidas por Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A origem da Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto

 

Em meados do século XVIII, a Rua dos Ourives fazia parte do Caminho do Parto para Conceição, que ia da Igreja de Nossa Senhora do Parto até o Morro da Conceição. Nela começaram a se instalar todos os ourives da cidade, impedidos, a partir de 1742, de realizar sua atividade em qualquer outro lugar. A medida foi tomada pelo governador português Gomes Freire de Andrada (1757-1817), o Conde de Bobadela, com o objetivo de facilitar a arrecadação e a fiscalização, impedindo desvios do ouro, cujo quinto deveria ser pago a Portugal. A Carta Régia de 30 de julho de 1766 proibiu no Brasil as indústrias de ourives, fiadores de ouro, de sedas e algodões tecidos. O vice-rei Conde da Cunha (1700-1791), em 1767, se referia à Rua dos Ourives como a maior e mais populosa da cidade. “O ouro que ali se lavra é muito mais do que se sabe e se imagina. E quase todo extraviado das Casas de Fundição.(…) A rua é um coito de ladrões e vagabundos; todos interessados no contrabando do ouro.”

O episódio da proibição foi lembrado no romance As Mulheres de Mantilha (1870), de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882):

“É provável que também uma sinistra medida tomada pelo governo de Lisboa e executada pelo conde da Cunha concorresse muito para o desgosto profundo que causou a sua administração.

Ou porque se quisesse prevenir o muito descaminho do ouro em pó e em folhetas, ou porque, como parece mais verdadeiro, se resolvesse sob aquele pretexto sacrificar os interesses legítimos dos colonos aos interesses egoístas dos ourives da metrópole, a Carta Régia de 30 de julho de 1766 mandou extinguir o ofício de ourives nas capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, e foi o conde da Cunha o infeliz executor desse assassinato da ourivesaria que principalmente no Rio de Janeiro tinha chegado a um grau de perfeição que excluía o concurso dos produtos
respectivos da metrópole.

A Carta Régia de 30 de julho de 1766 era a pobreza para muitos, e a iniqüidade para todos. Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma jóia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal.

O governo de Lisboa sentenciara à morte a ourivesaria do Brasil e o conde da Cunha era o algoz que enforcava a vítima no patíbulo levantado pelo despotismo”.

 

 

 

No século XIX, com a chegada de dom João VI ao Rio de Janeiro, em 1808, foram revogadas as medidas do alvará de 5 de janeiro de 1785 – assinado pela rainha dona Maria I (1734-1816) -, que proibia o estabelecimento das manufaturas e indústrias no Brasil e em todos os seus domínios ultramarinos.

 

undefined

Trecho do alvará de 5 de janeiro de 1785

 

 

Alvará do príncipe regente João VI, de 1º de abril de 1808:

“Eu o príncipe regente faço saber aos que o presente alvará virem: que desejando promover, e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas, e melhoram, e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricultura, e das artes, e aumentam a população dando que fazer a muitos braços, e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade: e convindo remover todos os obstáculos, que podem inutilizar, e prestar tão vantajosos proveitos: sou servido abolir, e revogar toda e qualquer proibição, que haja a este respeito no Estado do Brasil, e nos meus domínios ultramarinos, e ordenar, que daqui em diante seja o país em que habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que. Hei por bem revogar o alvará de cinco de janeiro de mil setecentos oitenta e cinco e quaisquer leis, ou ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa, e individual menção, sem embargo da lei em contrário”.

 

Um alvará de 11 de agosto de 1815 declarou livres os ourives para trabalharem e negociarem com obras e ouro e prata. Ele passaram a viver um de seus melhores períodos e a Rua dos Ourives se transformou em uma das mais importantes ruas cariocas, passando a ter maior número de estabelecimentos comerciais da cidade.

“Declaro livre aos Ourives o trabalharem e negociarem com obras de ouro e prata.

     Eu o Principe Regente faço saber aos que o presente Alvará com força de lei virem, que havendo determinado no do 1º de abril de 1808, que fosse livre a qualquer dos meus fieis vassallos habitadores deste Estado do brazil e Dominios Ultramerinos, estabelecer manufacturas de todo o genero, e sem exccepção de alguma, revogando qualquer prohibição, que houvesse a este respeito, com o fim de augmentar e promover a industria nacional, e de não tolher a qualquer a livre faculdade de applicar-se aos trabalhos decentes e lucrosos; deve entender-se comprehendida nesta disposição a prohibição , que tinham de usar do seu officio os Ourives de ouro e prata desta Cidade, e mais partes do Brazil estabelecida na Carta Régia de 30 de Julho de 1766, para que se julgue abolida e levantada; e muito mais porque os motivos que precederem e determinaram a referida prohibição não se verificaram de todo, como mostrou a experiencia ; nem já existem depois das disposições dos Alvarás de 1 de Setembro e 12 de Outubro de 1808, que puzeram em effectiva observancia as providencias antes estabelecidas nos Capitulos 2º e 3º do de 13 de Maio de 1803, para acautelare preveniros extravios do ouro em pó, facilitando-se-lhe a fundição e promovendo-se-lhe o troco e permutas nas casas determinadas a este fim: tendo consideração a todo o referido e ao mais que me foi presente em consulta da Mesa do desembargo do Paço, com que fui servido conformar-me : hei por bemrevogar a abolir a sobredita Carta Régia de 30 de Julho de 1766; ficando livre aos Ourives de ouro e prata trabalhar nestes metaes e negociar nas obras que delles fizerem , como lhes convier.
     Pelo que : mando á Mesa do Desembargo do Paço e da Consciencia e Ordens; Presidente do meu Real Erario; Regedor da Casa da Supplicação do Brazil; Conselho da minha Real Fazenda ; Governadores e Capitães Generaes ; ea todos os tribunaes, ministros de Justiça e mais pessoas, a quem o conhecimento deste Alvará pertencer, o cumpram  e guardem, não obstante quaesquer disposições, que o contrario determinem: que todas hei por derogadas como se de cada um fizesse expressa e individual menção. E valerá como Carta passada pela Chancellaria, posto que por ella não ha de passar , e que o seu effeito haja de durar mais de um anno, sem embargo da ordenação em contrario. Dado no Rio de Janeiro a 11 de Agosto de 1815.

PRINCIPE com guarda.

     Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real ha por bem revogar e abolir a Carta Regia de 20 de Julho de 1766 pelos motivos acima expostos.

Para Vossa Alteza real ver.

Joaquim José da Silveira o fez. Bernardo José de Souza Lobato o fez escrever.”

Em 1821, os primeiros alemães vindos para o Brasil fundaram na Rua dos Ourives o Clube Germânia. A rua também foi a moradia dos primeiros imigrantes judeus. Em 1846, a região atingiu o ápice, concentrando 66 das 78 joalherias cariocas. Segundo o romancista francês Gustavo Aimard (1818-1883), no livro Le Brésil nouveau (1886), nas casas da rua as “… janelas brilham com ouro e prata: candelabros, lampadários, custódias, relicários, toda a ourivesaria das igrejas está lá exposta, e  também faz-se as pulseiras, seus fechos, os diademas, todo o mundum muliebrem de que falam os poetas latinos… Gustavo Aimard era o pseudônimo de Olivier Gloux. Ele esteve no Brasil durante o Segundo Reinado e conheceu pessoalmente o imperador dom Pedro II (1825-1891), que o impressionou por sua simplicidade.

 

 

Em 1888, a Rua dos Ourives foi dividida em duas frações: entre as ruas São José e a Sete de Setembro passou a se chamar Rodrigo Silva e, entre a Rua do Ouvidor e o Largo de Santa Rita, manteve a denominação de Rua dos Ourives. Em 1936, a Rua dos Ourives teve seu nome alterado para Rua Miguel Couto, importante nome da medicina brasileira, que teve consultório na rua que hoje historiamos.

 

 

A Rua dos Ourives foi mencionada no conto Pobre Finoca! (1891), de Machado de Assis (1839-1908):

“Saíram todos e subiram a rua. Finoca não se enganara; Macedo estava à esquina da rua dos Ourives. Disfarçou mas fitou logo os olhos nela. Ela não tirou os seus do chão, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa. Macedo agradeceu o favor”.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AIMARD, Gustave: Le Brésil Nouveau. Paris, E. Dentú editeur, 1886, páginas 124 e 125.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Arquivo Nacional e a história luso-brasileira

OZANAM, Luiz Henrique. A jóia mais preciosa do Brasil – joalheria em Minas Gerais 1735-1815. Tese de doutorado – Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.

Portal Rio um olhar no tempo 1565 a 2011

Site Rede Artesanato Brasil

 

 

Série “Conflitos” IX – Os 120 anos da Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina, cujo início aconteceu há 120 anos, volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Foram dias, em 1904, de 10 a 16 de novembro, muito marcantes na história da saúde pública no Brasil. Foi, na época, a maior revolta urbana ocorrida no Rio de Janeiro, onde, só em 1904, cerca de 3.500 pessoas haviam morrido vitimadas pela varíola. O estopim do protesto popular foi a promulgação, em 31 de outubro de 1904, e a regulamentação, em 9 de novembro do mesmo ano, da Lei nº 1261, que tornava obrigatória a vacinação em massa contra a varíola. A lei foi colocada em prática pelo então Diretor Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz (1872 – 1917).

 

 

Ele foi contratado para o cargo para combater tanto a varíola como a peste bubônica e a febre amarela, que grassavam na capital da República e que fizeram com que o Rio de Janeiro recebesse o apelido de túmulo dos estrangeiros. O prefeito do Rio de Janeiro era Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) e, o presidente do Brasil, Rodrigues Alves (1848 – 1919), que faleceu, no final da década seguinte, durante a pandemia da gripe espanhola. O Rio de Janeiro era a maior cidade do Brasil, com cerca de 800 mil habitantes, e a questão sanitária era um grande problema: as redes de esgoto e água eram precárias e não havia coleta de lixo. A campanha pelo saneamento e de combate às doenças fazia parte de um plano de governo para mudar a imagem do Brasil no exterior, que passava pela mudança da imagem da capital federal.

 

 

Oswaldo Cruz foi chamado de Napoleão da seringa e lanceta (O Malho, 29 de outubro de 1904).

 

 

Paralelamente à revolta popular, aconteceu um movimento militar orquestrado pelos generais Silvestre Travassos (1848 – 1904) e Olímpio da Silveira (1887 – 1935), Lauro Sodré (1858-1944), Barbosa Lima (1862-1931), o major Gomes de Castro (1836-1909) e o capitão Augusto Mendes de Moraes (18?-19?), que se reuniram no dia 14 de novembro de 1904, no Clube Militar. Tinham por objetivo derrubar o governo de Rodrigues Alves, que foi aconselhado a ir para um navio de guerra, onde teria mais segurança. Ele recusou. Silvestre Travassos foi atingido por um tiro durante os confrontos e faleceu em 22 de novembro.

 

 

No dia 16 de novembro, foi decretado o estado de sítio e revogada a obrigatoriedade da vacinação. Com isso, o movimento popular arrefeceu, os serviços voltaram a funcionar e a cidade se apaziguou. Saldo do movimento: 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos (Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1904 e 18 de novembro de 1904).

 

 

“A vacina antivariólica já havia sido desenvolvida em 1796, pelo médico Edward Jenner, na Inglaterra. No Rio de Janeiro, a vacinação da doença era obrigatória para crianças desde 1837 e para adultos desde 1846, conforme o Código de Posturas do Município. No entanto, a regra não era cumprida porque a produção de vacinas era pequena, tendo alcançado escala comercial apenas em 1884. O imunizante também não era bem aceito pelo povo, ainda desacostumado com a própria ideia da vacinação, e diferentes boatos corriam na época, como o de quem se vacinava ganhava feições bovinas”(Portal Fiocruz).

A rejeição à vacina ocasionou uma nova epidemia de varíola no Rio de Janeiro, em 1908, com, de acordo com a Casa de Oswaldo Cruz, mais de 6.500 casos da doença. Só nesta época a população começou a procurar voluntariamente a vacina nos postos de saúde.

O Brasil só erradicou a varíola na década de 1970. O último caso de varíola humana do país foi registrado no Rio de Janeiro em 1971. E, em 1973,o Brasil recebeu o certificado da OMS de erradicação da doença (Site Invivo).

 

Leia aqui As doenças do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 5 de abril de 2020.

 

 

Veja aqui um documentário produzido pela Casa de Oswaldo Cruz sobre a história da varíola, de sua vacina e da Revolta da Vacina.

A vacinação é até hoje reconhecida como uma estratégia eficaz no fortalecimento de uma sociedade saudável e na preservação da saúde da população.

“A política de vacinação é responsabilidade do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. Estabelecido em 1973, o PNI desempenha um papel fundamental na promoção da saúde da população brasileira. Por meio do programa, o governo federal disponibiliza gratuitamente no Sistema Único de Saúde – SUS 48 imunobiológicos: 31 vacinas, 13 soros e 4 imunoglobulinas. Essas vacinas incluem tanto as presentes no calendário nacional de vacinação quanto as indicadas para grupos em condições clínicas especiais, como pessoas com HIV ou indivíduos em tratamento de algumas doenças (câncer, insuficiência renal, entre outras), aplicadas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), e inclui também as vacinas COVID-19 e outras administradas em situações específicas”.

 Portal do Ministério da Saúde

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. A renovação urbana na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Reforma urbana e Revolta da Vacina na cidade do Rio de Janeiro. In: Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (org.) O Brasil Republicano. O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

BENTO, Claudio Moreira. A revolta da vacina obrigatória na Escola a Praia Vermelha e na Escola Preparatória e Tática de Realengo.

BIBEL, David J.; CHEN, T.H. Diagnosis of Plague: an Analysis of the Yersin-Kitasato Controversy. American Society for Microbiology, 1976.

Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

BRASIL. Ministério da Justiça. Relatório 1904 – 1905. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1905.

CARVALHO, José Murilo de: Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

COSTA, Zouraide; ELKHOURY, Ana; FLANNERY, Brendan; ROMANO, Alessandro. Evolução histórica da vigilância epidemiológica e do controle da febre amarela no Brasil, 2011.

CURY, Bruno da Silva Mussa. Combatendo ratos, mosquitos e pessoas: Oswaldo Cruz e a saúde pública na reforma da capital do Brasil (1902-1904). / Bruno da Silva Mussa Curry. – 2012. 160 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História, Rio de Janeiro, 2012.

Dicionário Cravo Alvim

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ministério da Saúde

MOURELLE, Thiago. A revolta da vacina. Arquivo Nacional: Que República é essa?, 21 de janeiro de 2020.

Nosso Século. São Paulo : Abril Cultural, 1980.

Portal Fiocruz – A trajetória do médico dedicado à ciência

Portal Fiocruz  – A Revolta da Vacina

Projeto Memória – Fundação Banco do Brasil

Revista da Vacina – Ministério da Saúde – Centro Cultural da Saúde

ROCHA, Oswaldo; CARVALHO, Lia de Aquino. A era das demolições Habitações Populares. Rio de Janeiro : Biblioteca Carioca, 1986

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Site BBC

Site Butantã

Site CPDOC

Site Multirio

 

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIX – O cabaré e restaurante “Mère Louise” e o Casino Balneario Atlantico

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864-1957), por Torres (18?-19?) e pela Escola de Aeronáutica Militar, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do restaurante e cabaré Mère Louise, que existiu entre os primeiros anos do século XX e 1934, quando foi demolido para dar lugar ao Casino Balneario Atlantico, inaugurado, em 1935, e demolido na década de 1970. Ficavam na Avenida Atlântica, na altura do Posto 6 e são o assunto do 29º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido. As duas construções marcaram a história do Rio de Janeiro de antigamente.

 

Acessando o link para as fotografias deste artigo produzidas por Augusto Malta, pela Escola de Aeronáutica Militar e por Torres disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Na esquina da rua da Igrejinha de Copacabana, atual Rua Francisco Otaviano, com a Avenida Atlântica, no Posto 6, em Copacabana, conhecido como o cantinho da alegria, onde os pescadores se misturavam aos romeiros que iam a já mencionada igrejinha, havia uma casa cujo dono era, pelo menos desde 1902, Edmundo Bittencourt (1886 – 1943), proprietário do jornal Correio da Manhã. Ele a alugou para a francesa Mme. Louise Chabas, (1843 – 1918), que abriu o restaurante Mère Louise, em torno de 1903, conforme noticiado pelo semanário Rua do Ouvidor, de 10 de janeiro de 1903. Foi muito elogiado por sua gastronomia. Na referida edição era sugerido: um passeio a Copacabana e comer no restaurante de Mme . Louise Chabas, perto da igrejinha, dirigido pelo sr. August Castella onde encontrarão boas iguarias e preços cômodos. Era também um hotel.

 

 

O restaurante de Mme. Chabas passou a ser, em 1907,  também o cabaré Mère Louise, que se tornou um dos cabarés mais famosos do Brasil, à maneira do de Montmartre, em Paris, onde quem saiba fazer algo sobe ao palco e… faz o que sabe!”.  Segundo o escritor Ruy Castro (1948-), no livro A Noite do Meu Bem, o estabelecimento funcionava ao estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de ‘amigas’ ou admiradoras. Ainda segundo Castro: Louise conhecia a todos pelo nome e ia de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural que, em emergências, ela cedesse – pela escorchante diária de 6 mil-réis – discretos aposentos nos fundos para quem precisasse ‘repousar‘.

 

 

 

Mme. Chabas vendeu o estabelecimento, em torno de 1911, para a Companhia Cervejaria Brahma e continuou funcionando como Mère Louise, onde era oferecido não somente roleta a dez tostões, mas colos e pernas nuas como atrativo estonteante e embriagador de muita alma nova que se corrompe, de muito talento em flor que se esteriliza, de muita promissora atividade que se estiola (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1911, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 22 de novembro de 1911, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 15 de junho de 2014, penúltima coluna). Ela teria então pago suas dívidas com o dinheiro da venda e anunciado que se recolheria ao Asilo da Velhice Desamparada (Fon-Fon, 26 de abril de 1913, segunda coluna; e 3 de maio de 1913). Em 1913, trabalhava no Beco das Carmelitas (O Paiz, 2 de outubro de 1913, penúltima coluna)Em 1914, foi anunciado que ela dirigiria o Recreio Ipanema, uma casa no estilo da antiga Igrejinha no fim da linha de Ipanema (Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1914, última coluna). Foi noticiado que ela estava doente, agonizando. Na mesma reportagem, foi revelado seu verdadeiro nome: Benoit Dubieff. Na época, além do restaurante de Ipanema, possuía duas propriedades na rua Santa Clara (Correio da Manhã, 12 de novembro de 1914, quarta coluna). Neste mesmo ano, foi acionada por Joseph Espoleli, com quem havia sido casada por cerca de três meses, entre 4 de dezembro de 1905 e 7 de março de 1906, que alegava que Mme. Chabas havia vendido o Mère Louise, que não pertenceria a ela, mas aos dois (Correio da Manhã, 26 de junho de 1914, primeira coluna).

 

 

Em 1917, dirigia o Café Belevue e um hotel no Leme (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1917, última coluna; A Noite, 2 de maio de 1917, terceira coluna). Faleceu, pobre, em 19 de maio de 1918 e foi sepultada no dia seguinte, no Cemitério São Joao Batista (A Noite, 19 de maio de 1918, última colunaGazeta de Notícias, 20 de maio de 1918, quarta coluna; Correio da Manhã, 20 de maio de 1918, terceira coluna).

Voltando ao Mère Louise. No Carnaval de 1914, gentis senhoritas promoveram batalhas noturnas de confete e lança-perfume em frente ao restaurante. Nos fins de tarde, um aviador francês, Lucien Deneau, iniciava as batalhas de seu Bleriot. O hangar do aviador ficava em frente ao Mère Louise (O Paiz, 17 de julho de 1913, última colunaA Noite, 7 de fevereiro de 1914, primeira coluna).

Na tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte contra as forças do governo de Epitácio Pessoa — os “18 do Forte” —, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás, tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro e chapéu-chile — o único civil da foto —, na primeira fila. Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha agora um mártir (CASTRO, Ruy, 2015).

Em 1930, o Mère Louise ou Restaurante Igrejinha estava decadente, tendo sido cenário de assassinato, morte suspeita, tentativa de suicídio e outros episódios de violência. Uma curiosidade: era com a comida do Mère Louise que o então ex-presidente Washington Luís (1869 – 1957), deposto e preso no Forte de Copacabana devido à Revolução de 30, se alimentava. Em 1931, o Mère Louise quase foi fechado por autoridades do 30° distrito. No mesmo ano, em setembro, o juiz da Primeira Vara Cível deferiu o requerimento de leilão dos bens da massa falida de José Caulino, o restaurante e bar Igrejinha (Mère Louise). Foi demolido em 1934 (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1904, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de abril de 1907, segunda colunaJornal do Brasil, 15 de julho de 1907, oitava coluna; O Jornal, 6 de fevereiro de 1930, sexta coluna; O Jornal, 11 de março de 1930, sexta coluna; O Jornal, 30 de outubro de 1930, penúltima colunaO Jornal, 16 de novembro de 1930, segunda coluna; O Jornal, 3 de dezembro de 1930, penúltima colunaA Batalha, 27 de janeiro de 1931, primeira coluna; A Batalha, 28 de maio de 1931 penúltima coluna; O Jornal, 17 de junho de 1931, primeira colunaA Batalha, 26 de setembro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 1° de fevereiro de 1934, sexta coluna).

 

Em seu lugar, foi inaugurado, em 20 de março de 1935, o Casino Balneario Atlantico, belo prédio em estilo art decó. Anunciado como o Palácio encantado do Posto VI. Sonho maravilhoso dos contos de Sherehazade, viria a preencher uma lacuna existente na mais bela praia do mundo: Copacabana. Foi construído pela Comp. Melhoramentos e Construcções e seu proprietário era Alberto Quatrini Bianchi  (1892 – 19?).

 

 

Antes da inauguração oficial, foi realizado no cassino um baile de carnaval, em 23 de fevereiro de 1935 (Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1935; Correio da Manhã, 19 de março de 1935, sétima colunaA Noite, 21 de março de 1935, quarta colunaBeira-Mar, 30 de março de 1935; Fon-Fon, 9 de abril e 13 de abril de 1935).

O baile inaugural do Casino Balneario Atlantico foi a nota carnavalesca de sabbado passado. Todo o Rio elegante compareceu, por assim dizer, á festa sumptuosa que mobilizou os círculos sociaes da metrópole para o primeiro grande baile do Carnaval de 1935. Luxo. Alegria. Deslumbramento. Delírio. Nos salões do novo centro da elegância, em Copacabana, decorados pelos 96 artistas Gilberto Trompowisky e Luiz de Barros, movimentaram-se as figuras mais expressivas do nosso mundanismo. Focaliza esta pagina alguns detalhes photographicos da grande festa do Casino Balneario Atlantico, que annuncia para os quatro dias de Carnaval outros bailes igualmente sumptuosos (Fon-Fon, 9 de março de 1935).

 

 

 

Com o Cassino Copacabana Palace, oficialmente denominado Copacabana Casino-Theatro, inaugurado em 1932; e o Cassino da Urca – Casino Balneário da Urca -, inaugurado em 1933, formava o Trio de Luxo das casa de jogos do Rio de Janeiro  Neles circulavam jogadores, artistas brasileiros e estrangeiros, políticos e personalidades ilustres da sociedade.

 

 

 

 

No mesmo ano de sua inauguração, 1935, o Cine-Varieté, no Casino Balneário Atlântico, passou a receber o público, tornando-se um dos mais chiques e elegantes locais da Avenida Atlântica. Apresentava produções internacionais e nacionais e realizava matinés infantis. Aos domingos eram distribuídos brinquedos para as crianças (Beira-Mar, 9 de novembro de 1935).

 

Beira-Mar, de 1935

 

O presidente Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) através do Decreto-Lei 9.215 proibiu o  jogo no Brasil, em 30 de abril de 1946, e os cassinos fecharam suas portas.  O Botafogo Futebol e Regatas inaugurou onde havia funcionado o Casino Balneario Atlantico, seu Departamento do Posto 6, em 25 de janeiro de 1947. Funcionava também no antigo cassino uma boate e salões do Dinner Club (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1947, segunda colunaCorreio da Manhã, 12 de fevereiro de 1947, sexta coluna; Correio da Manhã, 9 de maio de 1947, quarta coluna).

Em 1955, a TV Rio foi inaugurada onde antes funcionava o Casino Atlântico (Tribuna da Imprensa, 1° de fevereiro de 1955, sétima coluna; Tribuna da Imprensa, 13 de julho de 1955, quarta colunaCorreio da Manhã, 4 de maio de 1956, primeira coluna). Por ter criado na população o hábito de ver televisão, a emissora foi carinhosamente apelidada de A Carioquinha.

 

 

No início da década de 1970 foi despejada e o Casino Atlantico voltou à posse de seus antigos proprietários, a família Bittencourt (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1970, quinta coluna).

Em setembro de 1971, na maior transação imobiliária realizada no Rio, o quarteirão onde ficava o antigo Cassino foi vendido à firma H. C. Cordeiro Guerra (Jornal do Brasil, 4 de setembro de 1971, sexta coluna).

 

 

Em 1972, o prédio foi demolido e, em 1974, foi lançado o Shopping Cassino Atlântico e um hotel (Jornal do Brasil, 17 de março de 1972Jornal do Brasil, 21 de abril de 1974Jornal do Brasil, 2 de maio de 1974).

 

 

O Shopping Cassino Atlântico segue em funcionamento. O Hotel Rio Palace foi inaugurado, em 1979, e, no dia 22 de janeiro de 1980, o célebre cantor norte-americano Frank Sinatra (1915-1998) realizou no hotel seu primeiro show no Rio de Janeiro para o lançamento oficial do prédio. Foi uma apresentação para 600 pessoas.

Entre 1996 e 2017, foi arrendado pelo Grupo Accor, dono da marca Sofitel. Um retrofit, iniciado em 2017, mudou totalmente seu interior e o Hotel Fairmont Copacabana substituiu o Sofitel, tendo sido aberto em 5 de agosto de 2019.

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Associação de Moradores de Copacabana

CABRAL, Sérgio. No tempo de Ary Barroso. São Paulo : Lazuli Editora, 2016.

CASTRO, Ruy. A noite do meu bem. São Paulo : Companhia das Letras, 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro ; Mauad X, 2019.

Site Museu da TV

Site Os Divergentes

Site Posto Seis

VIEIRA, Antônio Tostes Baetas. Os cassinos trio de luxo do Rio de Janeiro: Atlântico, Copacabana e UrcaDissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Memória Social, novembro de 2013.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 23 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

A inauguração da Estrada de Ferro do Corcovado

Em 9 de outubro de 1884, foi concluída a linha férrea ligando o Cosme Velho às Paineiras, a primeira linha férrea turística das Américas. Ainda hoje a Estrada de Ferro do Corcovado é o principal meio de acesso ao Cristo Redentor, inaugurado em 12 de outubro de 1931, e um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil. Com 3.829 metros de trilhos, a ferrovia atravessa a maior floresta urbana do mundo, o Parque Nacional da Tijuca, proporcionando uma das vistas mais deslumbrantes do Rio de Janeiro. A Brasiliana Fotográfica celebra os 140 anos da Estrada de Ferro do Corcovado publicando fotografias da ferrovia produzidas por Augusto Malta (1864-1957), Juan Gutierrez (c.1860-1897) e Marc Ferrez (1843-1923).

 

 

Antes da construção do Cristo Redentor, havia no Corcovado um mirante que, devido a seu formato, ficou conhecido como Chapéu de Sol. Foi encomendado a uma fundição belga e construído, em 1885, por decisão de dom Pedro II (1825 – 1891), substituindo um precário pagode de madeira.  O passeio de trem era, inicialmente, realizado por tração a vapor. O mirante Chapéu de Sol foi totalmente removido, na década de 40, pelo então prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975), dentro de um programa de melhoramentos no alto do Corcovado (O Jornal, 28 de maio de 1941, sexta colunaGazeta de Notícias, 24 de junho de 1942, quarta colunaCorreio da Manhã, 2 de abril de 1944, quarta colunaRevista da Semana, 17 de junho de 1944).

 

Acessando o link para as fotografias da Estrada de Ferro do Corcovado disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

Voltando à ferrovia. A concessão para a construção da Estrada de Ferro do Corcovado foi dada aos engenheiros Francisco Pereira Passos (1836-1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, e a João Teixeira Soares (1848-1927), um dos realizadores da Estrada de Ferro do Paraná, de Curitiba a Paranaguá, inaugurada também em 1884 (Revista de Engenharia, 1882, primeira colunaGazeta de Notícias, 8 de janeiro de 1882, segunda coluna).

Pereira Passos havia sido responsável, em 1874, pela elaboração de um plano urbano para o Rio de Janeiro inspirado nas obras realizadas em Paris pelo Barão de Haussmann (1809-1891). A Estrada de Ferro do Corcovado já estava prevista em relatórios de 1875 e 1876 entregues à Coroa pela comissão chefiada por ele.

 

 

O renomado engenheiro Marcelino Ramos da Silva (1844 – 1910), um dos fundadores do Club de Engenharia, que havia estudado nas escolas de Hannover e Hamburgo, na Alemanha, dirigiu as obras. Estavam presentes à inauguração deste primeiro trecho dom Pedro II (1825 – 1891)dona Teresa Cristina (1822 – 1889)a princesa Isabel (1846-1921)o conde D ´Eu (1842-1922), os ministros da Agricultura, Antônio Carneiro da Rocha (1842-1925), e da Guerra, João José de Oliveira Junqueira Júnior (1832-1887), além de outras autoridades e dos diretores da estrada (Gazeta de Notícias, 10 de outubro de 1884, primeira coluna).

 

 

Em 1º de julho de 1885, o tráfego foi aberto até o alto do Corcovado (Jornal do Commercio, 2 de julho de 1885, quinta colunaRevista de Engenharia, 1885, primeira coluna). O ramal ferroviário entre o Cosme Velho e o Corcovado foi construído sob o sistema Riggenbach, com cremalheira denteada sobre um trilho central para dar maior segurança à composição (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1884, primeira coluna).

 

 

Em fevereiro de 1910, os trens foram substituídos por máquinas elétricas (O Paiz, 26 de fevereiro de 1910, quinta colunaO Jornal, 5 de abril de 1945, última coluna). Na década de 1970, a ferrovia foi reformada e, em 1979, foram trazidos da Suíça trens mais modernos e seguros. Em 9 de outubro de 2019, na comemoração dos 135 anos da Estrada de Ferro do Corcovado, foi inaugurada a quarta geração de trens (O Paiz, 14 de novembro de 1910, última colunaSite Ferreomodelismo, Trens e Ferrovias do Brasil).

 

 

O Trem do Corcovado já recebeu várias personalidades ilustres como os papas Pio XII (1876-1958) e João Paulo II (1920-2005), o líder espiritual Dalai Lama (1935-), o ator John Travolta (1954-), a cantora Beyoncé (1981-), o inventor Alberto Santos Dumont (1873-1932), os presidentes do Brasil Epitácio Pessoa (1865-1942) e Getúlio Vargas (1882-1954); o cientista Albert Einstein (1879-1955), a princesa Diana de Gales (1961-1997) e o príncipe Charles (1948-), e por Barack (1961-) e Michele Obama (1964-), presidente e primeira-dama dos Estados Unidos, e sua família. Pela centenária estrada de ferro cerca de 600 mil pessoas são levadas anualmente ao Cristo Redentor, considerado a mais antiga atração turística do Brasil.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

O Túnel Velho por Gutierrez e Malta

Com duas imagens produzidas por Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1897), na década de 1890, quando ainda estava em construção; e com outra de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957), de 1927, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do Túnel Real Grandeza. Há ainda uma fotografia de autoria de Rodrigues & C°. Editores e Proprietários mostrando a abertura do Túnel do Leme, ou Túnel Novo.

O Túnel Real Grandeza foi rebatizado de Túnel Alaor Prata, em 1927, em homenagem a Alaor Prata Leme Soares (1882 – 1964), que foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1922 e 1926. Foi inaugurado em 6 de julho de 1892 e ligou a Rua Real Grandeza, em Botafogo, à Rua do Matoso, atual Rua Siqueira Campos, em Copacabana. Sua construção foi realizada pelo engenheiro José de Cupertino Coelho Cintra (1843 – 1939), gerente da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico. Com essa ligação, o bairro de Copacabana começou a se integrar ao resto da cidade. Com a presença do presidente da República, marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895), quando foi inaugurado, foi lavrada uma ata que marcou, oficialmente, o nascimento de Copacabana (O Paiz, 7 de julho de 1892, na sexta coluna). Antes disso, Copacabana não era um local de fácil acesso, viviam ali alguns pescadores, havia algumas chácaras e sítios, além da Igrejinha de Copacabana e do Forte Reduto do Leme.

 

 

 

 

 

 

Abaixo, uma imagem realizada por Gutierrez na década de 1890:  em primeiro plano, no centro, a estação de bondes instalada na Praça Malvino Reis (atual Serzedelo Corrêa). Essa estação foi colocada em uso no ano de 1893, quando os trilhos chegaram até o bairro, e depois de demolida, deu lugar ao Centro Comercial de Copacabana. No fundo, à direita, o Morro do Cantagalo; à esquerda, a ponta do Arpoador.

 

 

Da data de sua inauguração até 1901, quando foi entregue ao livre trânsito público, só podiam passar pelo Túnel Velho bondes da Companhia Jardim Botânico.

Ficou mais conhecido como Túnel Velho porque, em 4 de março de 1906, foi inaugurado pela companhia Jardim Botânico sua nova linha elétrica pelo Túnel do Leme, indo o ramal até o ponto terminal da praça do Vigia, onde foi construída a estação de bonds (O Paiz, 4 de março de 1906, quarta colunaA Notícia, 6 e 7 de março de 1906, quinta coluna). O Túnel do Leme, inaugurado com a denominação de Túnel Carioca, teve seu nome mudado para Túnel Coelho Cintra, em 1937. Mas ficou conhecido como Túnel Novo.

 

 

 

Brevíssimos perfis de Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1897) e de Augusto Malta (1864 – 1957),

fotógrafos das imagens do Túnel Velho publicadas neste artigo

 

Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1957)

 

 

Juan Gutierrez de Padilla foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas dos oitocentos, no Brasil. Foi, ao lado de Marc Ferrez (1843 – 1923) e George Leuzinger (1813 – 1892), ambos do século XIX, e de Augusto Malta (1864 – 1957), já no século XX, um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro. Foi um dos fotógrafos principais da transição da cidade imperial para a cidade republicana. Gutierrez registrou a Revolta da Armada ( 1893 – 1894), tornando-se um dos pioneiros da fotografia dos conflitos armados no Brasil. Em 1896, eclodiu o conflito de Canudos e foi por seu entusiamo republicano que, após a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César (1850 – 1897), decidiu incorporar-se como ajudante de ordens do general João da Silva Barbosa. Foi ferido mortalmente, em 28 de junho de 1897. Sua trágica morte o tornou, talvez, o primeiro repórter fotográfico morto durante um trabalho de campo, no Brasil, apesar de, até hoje, não se conhecer nenhum registro fotográfico que ele tenha feito do conflito. Nasceu, provavelmente, nas Antilhas, na época, uma colônia espanhola. Porém, outras fontes afirmam que ele teria nascido em Cuba ou na África.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

Foto do Arquivo recortada

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

O alagoano Augusto Malta foi o mais  importante cronista fotográfico do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX. Em 1903, foi contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como fotógrafo oficial, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia. Faleceu em Em 30 de junho de 1957,  no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, devido a uma insuficiência cardíaca. Foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério do Caju (Correio da Manhã, 2 de julho de 1957, na seção “Prefeitura”).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Biblioteca Nacional

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, vol 1. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo Ltda, 1958.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Diário do Rio

Site Prefeitura do Rio de Janeiro

Site Trilhos do Rio

WANDERLEY, Andrea C. T. A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.

WANDERLEY, Andrea C. T. O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 in Brasiliana Fotográfica, 10 de julho de 2015.

WANDERLEY, Andrea C. T. O fotógrafo Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 28/6/1897) in Brasiliana Fotográfica, 28 de junho de 2016.

Youtube – Memória Carioca

 

 

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta

O Morro do Castelo já foi tema de um artigo da Brasiliana Fotográfica, publicado em 30 de abril de 2019, Série “O Rio de Janeiro desaparecido” VIII – A demolição do Morro do Castelo. Hoje o portal volta ao assunto com a publicação de 18 fotografias, recentemente inseridas no nosso acervo fotográfico, da conclusão do arrasamento do Morro do Castelo produzidas pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, de 1903 a 1936, e o principal fotógrafo da transformação urbana carioca nas primeiras décadas do século XX, período de grandes mudanças na cidade, dentre elas uma importante intervenção na paisagem natural carioca: justamente a demolição do Morro do Castelo.

 

 

O Morro do Castelo representava o passado colonial do Rio de Janeiro e era parte da história de sua própria fundação, ocorrida em 1565, no Morro Cara de Cão. A cidade foi reinstalada, dois anos depois, no Morro do Castelo, então denominado Morro do Descanso. A escolha do ponto, da onde se via a Baía de Guanabara, sua porta de entrada, foi estratégico para a defesa da cidade em caso de possíveis futuros ataques. Murado e fortificado, o Rio de Janeiro no Morro do Castelo passou a abrigar a Casa do Governador, a Casa da Câmara, a Cadeia, o Colégio dos Jesuítas, o Convento dos Capuchinhos, armazéns e igrejas, dentre elas a Igreja de São Sebastião, inaugurada, em 1583, mesmo ano em que os restos mortais de Estácio de Sá (1520 – 1567), fundador do Rio de Janeiro, foram trasladados para lá. A última missa na Igreja de São Sebastião foi celebrada em 1º de novembro de 1921. Esses prédios formavam um importante conjunto arquitetônico, destruído, entre 1921 e 1922, com o arrasamento do Morro do Castelo. O acesso ao morro era feito a partir da Ladeira da Misericórdia.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias da conclusão do arrasamento do Morro do Castelo produzidas por Augusto Malta e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O Morro do Castelo tinha 63 metros de altura, ocupava uma área de cento e oitenta e quatro mil metros quadrados e seus limites eram as atuais avenida Rio Branco (antiga avenida Central), as ruas Santa Luzia, Misericórdia e São José.

Já em 1838, os engenheiros militares Conrado Niemeyer (1831 – 1905) e Pedro Bellegarde (1807 – 1864) defendiam em um projeto o desmonte do Morro: “Edifícios nobres deverão um dia substituir aquele morro; e o navegante que demandar o importante porto capital do Brasil receberá na sua entrada a agradável impressão da vista de toda a cidade, até hoje encoberta a seus olhos pela massa informe do mesmo morro”.

Mas foi em 1904 que parte do Morro do Castelo foi demolida para a construção da Avenida Central, cuja abertura foi uma das principais marcas da reforma urbana realizada por Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o bota-abaixo, entre 1902 e 1906, período em que foi prefeito do Rio de Janeiro. Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. O morro passou a ter como limites os fundos da Biblioteca Nacional e a Escola de Belas Artes. Quando estavam se realizando as obras para a abertura da avenida, uma galeria foi descoberta e por ela se chegaria a túneis subterrâneos, onde os jesuítas, quando expulsos, em 1759, pelo Marques de Pombal (1699 – 1782), teriam escondido suas riquezas. Essa crença passou a existir no imaginário urbano do Rio de Janeiro, e seus habitantes passaram a temer que a demolição do morro dificultasse a descoberta desses supostos tesouros.

A segunda etapa de sua demolição foi determinada pelo prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), em 17 de agosto de 1920, quando assinou um decreto que autorizava seu desmonte (Jornal do Brasil, 18 de agosto, quinta coluna). A decisão foi baseada, segundo o governo, na necessidade de higienização e modernização da cidade. O morro foi literalmente por água abaixo, demolido por incessantes jatos d´água. A terra do morro foi usada no aterro da Avenida Beira-Mar, levado até a Ilha de Villegaignon, onde depois foi construído o Aeroporto Santos Dumont; da Lagoa Rodrigo de Freitas e no aterro dos charcos e pântanos do Jardim Botânico.

 

 

A derrubada causou muita polêmica, tendo sido criticada por vários intelectuais como Monteiro Lobato (1882 – 1948) e Lima Barreto (1881 – 1922), porém saudada por personalidades importantes como o sanitarista Belisário Pena (1868 – 1939). Na área deixada por seu desmonte foram construídos pavilhões da Exposição Internacional do Centenário da Independência, aberta em 7 de setembro de 1922. Em setembro de 1921, havia no morro 4200 moradores distribuídos em 408 prédios. Eram trabalhadores e pobres e seriam instalados, inicialmente, em barracos na Praça da Bandeira.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Paulo Cezar de. Onde nasceu a cidade do Rio de Janeiro? ( um pouco da história do Morro do Castelo)Revista geo-paisagem (online ) Vol. 1, número 2, julho/dezembro de 2002

Blog do Jornal do Brasil, 9 de março de 2011

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LOBATO, Monteiro. Onda Verde. São Paulo: Monteiro Lobato e C., 1921.

MENEZ, Alexssandro. Civilização versus barbárie: a destruição do Morro do Castelo no Rio de Janeiro (1905-1922). Revista Historiador Número 06. Ano 06. Janeiro de 2014.

MOTTA, Marly Silva da. A nação faz cem anos: a questão nacional no centenário da independência. Rio de Janeiro: Editora FGV: CPDOC, 1992.

NONATO, José Antônio Era uma vez o Morro do Castelo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2000.

PAIXÃO, Cláudia Míriam Quelhas. O Rio de Janeiro e o morro do Castelo: populares, estratégias de vida e hierarquias sociais (1904-1922). Dissertação de mestrado. Niterói: UFF, 2008.

Site do Diário do Rio

Site do CPDOC

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IX – Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhosde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de novembro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIII – O Convento da Ajuda, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de outubro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXII – A Cadeia Velha que deu lugar ao Palácio Tiradentes, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 11 de abril de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea c. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, em 15 de janeiro de 2024

 

 

Série “Hotéis do Brasil” V e Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire

A Brasiliana Fotográfica publica o terceiro artigo da série Os arquitetos do Rio de Janeiro e a quinta da série Hotéis do Brasil que celebra o centenário do Copacabana Palace e também sobre seu arquiteto, o francês Joseph Gire (1872 – 1933).

 

 

O Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca e um ícone da arquitetura do Rio de Janeiro, completa hoje 100 anos e volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Era, na época de sua inauguração, o maior hotel da América Latina e representava a modernidade da cidade, ocupando um lugar importante em sua memória. O Copa, apelido pelo qual ficou conhecido, foi criado pelo arquiteto francês Joseph Gire (1872 – 1933) e teve seu batismo oficial realizado, em 13 de agosto de 1923, com a visita do então presidente da República, Artur Bernardes (1875 – 1955), em companhia de outras autoridades, dentre elas o prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964). Foram recebidos por Octávio Guinle (1886 – 1968). No dia seguinte, o hotel começou a receber hóspedes, distintos turistas e brasileiros da melhor sociedade (Gazeta de Notícias, 8 de agosto de 1923O Paiz, 14 de agosto de 1923, segunda coluna; e Beira-Mar, 19 de agosto de 1923).

 

Destacamos registros do hotel produzidos por Augusto Malta (1864 – 1957) que, entre 1903 e 1936, foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do então Distrito Federal, por Thiele (? – 19?) e imagens realizadas por um fotógrafo ainda não identificado.

 

Acessando o link para as fotografias do Hotel Copacabana Palace disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Um pouco da história do Copacabana Palace

 

“Contar a história do hotel é contar a história da cidade e do país”

O jornalista Ricardo Boechat (1952 – 2019)

sobre o Copacabana Palace

Inspirado nos hotéis Negresco, em Nice, e no Carlton, em Cannes – ambos na França – e situado na Avenida Atlântica 1.702, o Copacabana Palace é um marco na ocupação e na paisagem de Copacabana e contribuiu para a projeção internacional do Rio de Janeiro. Seu arquiteto foi, como já mencionado, o francês Joseph Gire (1872 – 1933). O engenheiro responsável pela obra do Copa foi Cesar de Mello e Cunha (1898 – 1991). O hotel  foi construído com cimento alemão, mármore de Carrara, e adornado com vidros e lustres da Tchecoslováquia, móveis franceses, tapetes ingleses e cristais da Boêmia. Suas porcelanas eram Limoges. Surgia então um monumento à elegância.

 

Edifício Gire, no Rio

COPACABANA PALACE – FACHADA PRINCIPAL No HOTEL sobre a AVENIDA ATLÂNTICA / Joseph Gire architeto – Escala 100

 

A construção de um hotel de luxo na avenida Atlântica, recém duplicada e iluminada pelo prefeito Paulo de Frontin (1860 – 1933), em Copacabana, bairro que concentrava a aristocracia moderna do Rio de Janeiro, fazia parte dos preparativos  para a celebração do centenário da independência do Brasil, em 1922. Determinado a propagar as belezas do Brasil no exterior, o presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942) submeteu o projeto ao empresário Octávio Guinle (1886 – 1968), membro de uma das mais ricas e tradicionais famílias do Brasil e dono do Palace Hotel, no Rio de Janeiro, e do Hotel Esplanada, em São Paulo. Ele aceitou o desafio. Porém o Copacabana Palace só ficou pronto, em 1923, quando a Exposição Internacional do Centenário da Independência, aberta em 7 de setembro de 1922, já havia sido encerrada, em 24 de julho de 1923.

 

 

Sobre a localização do novo hotel, Epitácio fazia questão que fosse construído na Praia de Copacabana, uma descoberta recente dos cariocas. Segundo o jornalista Maneco Müller (1923 – 2005), cujo pseudônimo era Jacinto de Thormes, A cidade dava as costas para o mar, a paisagem. A maneira de ser do carioca só nasceu quando fizeram o túnel em direção ao areal. 

Ao longo de sua existência o hotel foi visitado ou hospedou artistas, atletas, cientistas, intelectuais, nobres e políticos como Albert Einstein(1879 – 1955), Ava Gardner (1922 – 1990), Emerson Fittipaldi (1946 -), Janis Joplin (1943 – 1970), Hebe Camargo (1929 – 2012), Lady Di (1961 – 1997) e Príncipe Charles (1948 – )Mick Jagger (1943 – ), Nelson Mandela (1918 – 2013), Orson Welles (1915 – 1985), Paul McCartney (1942 – ), Pelé (1940 – 2022),  Roberto Carlos (1941 -), Santos Dumont (1873 – 1932), Tom Jobim (1927 – 1994), Walt Disney (1901 – 1966), Washington Luís (1869 – 1957) e os futuros reis Edward VIII (1894 – 1972) e George VI (1895 – 1952). Uma curiosidade: na ocasião de sua visita ao Brasil, Edward, então Príncipe de Gales, teve um tórrido romance com a uruguaia Negra Bernardez, cujo um dos filhos era o já mencionado Maneco Muller. Segundo Ricardo Boechat, autor do livro Copacabana Palace – Um Hotel e Sua História, foi a história mais bonita do Copa. Tem renúncia, tristeza, amor e glamour.

 

 

 

 

O Copa, apelido pelo qual ficou conhecido, teve seu batismo oficial realizado em 13 de agosto de 1923 com a visita do presidente da República, Artur Bernardes (1875 – 1955), em companhia de outras autoridades, dentre elas o prefeito do Rio de Janeiro, Alaor Prata (1882 – 1964). Foram recebidos por Octávio Guinle. No dia seguinte o hotel começou a receber hóspedes, distintos turistas e brasileiros da melhor sociedade (Gazeta de Notícias, 8 de agosto de 1923O Paiz, 14 de agosto de 1923, segunda coluna; e Beira-Mar, 19 de agosto de 1923).

Em sua abertura, só seis apartamentos estavam ocupados, mas sua equipe já contava com cerca de mil funcionários. As diárias custavam menos de 10 dólares e davam direito a pensão completa e transporte para o Centro da cidade. Desde o início sua marca era o requinte, a sofisticação e em um artigo publicado no mês seguinte a sua inauguração, a iniciativa foi muito elogiada (O Paiz, 9 de agosto de 1923).

 

 

Para o comando gastronômico do Copacabana Palace, foi contratado por Octávio o chef Auguste Escoffier, trazido do Hotel Savoy, de Londres. Em 1930, com a contratação do chef tcheco Fery Wunsch como maitre sênior a cozinha do hotel se consagrou.

Rigoroso em relação a protocolos e etiquetas, Octávio criou o Código de Empregados da Companhia Copacabana Palace onde detalhava, em 18 itens, a conduta de seus funcionários. Para supervisionar o hotel, possuía, em seu quarto, a suíte B, um sistema de escuta que possibilitava que ele soubesse de tudo o que se passava no Copa.

 

 

A principal atração de seu baile de inauguração, que contou com figuras importantes da República, era a dançarina francesa Mistinguett (1875 – 1956), mas o show foi cancelado na véspera por seus empresários. Mesmo assim o evento foi um sucesso (Gazeta de Notícias, 1º de setembro de 1923, quarta coluna; e O Paiz, 31 de agosto de 1923, primeira coluna; O Paiz, 1º de setembro de 1923, primeira coluna).

 

 

 

Foi ambientado no Copa o filme Voando para o Rio (1933), estrelado por Fred Astaire (1899 – 1987) e Ginger Rogers (1911 – 1995) – no qual pela primeira vez apareceram dançando juntos -, Dolores del Rio (1904 – 1983) e Gene Raymond (1908 – 1998).

 

CARTAZ

Cartaz do filme Voando para o Rio

 

De 1924 a 1946, o Copa abrigou o Cassino Copacabana – nesse período ficou um tempo fechado e foi reaberto em maio de 1933 (Fon-Fon, 26 de janeiro de 1924Beira-Mar, 13 de maio de 1933, primeira coluna).

 

 

Abaixo, uma imagem aérea de autoria do fotógrafo e aviador britânico S.H. Holland (1883 – 1936) da chegada das misses ao Copacabana Palace para a eleição de Miss Universo feita exclusivamente para a revista O Cruzeiro. O concurso foi conquistado pela gaúcha Yolanda Maria Sabage Pereira (1910 – 2001).

 

 

Diversos artistas nacionais e internacionais apresentaram-se em seu lendário Golden Room, inaugurado em 26 de dezembro de 1940 (Diário Carioca, 28 de dezembro de 1940), dentre eles Carmen Miranda (1909 – 1955), Charles Aznavour (1924 – 2018), Edith Piaf(1915 – 1963), Ella Fitzgerald (1917 – 1996), Josephine Baker (1906 – 1975), Marlene Dietrich (1901 – 1992), Maurice Chevalier (1888 – 1972), Nat King Cole (1919 – 1965), Ray Charles (1930 – 2004) e Yves Montand (1921 – 1991). No Golden Room também eram realizados bailes (Careta21 de julho de 1951).

 

 

O antigo restaurante do hotel, o Bife de Ouro, e sua piscina eram muito frequentados pelos granfinos e foram pontos de encontro da sociedade carioca e de políticos de todo o Brasil (Beira-Mar, 20 de fevereiro de 1943O Cruzeiro, 10 de dezembro de 1949Careta, 26 de maio de 1951) ). Foi no Bife de Ouro  que, em março de 1954, ocorreu uma briga entre o jornalista Carlos Lacerda (1914 – 1977) e Euclides Aranha, filho do então ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha (1894 – 1960), noticiada no jornal O Globo, de 24 de março de 1954:

Lacerda e filho de Aranha trocam socos

Principiando por uma altercação seguida de luta corporal entre o Sr. Euclides Aranha e o jornalista Carlos Lacerda, um incidente que se prolongaria até a meia-noite, resultando, inclusive, em congestionamento do tráfego da Avenida Atlântica e interdição do local por autoridades policiais, perturbou na noite de ontem o jantar no Bife de Ouro, o restaurante do Copacabana palace Hotel. Achavam-se reunidos na mesma mesa o ministro João Cleophas, o deputado Edilberto Ribeiro, o Sr. Manuel Ferreira e Carlos Lacerda, diretor da “Tribuna da Imprensa”, num jantar promovido pelo deputado. De outra mesa, o Sr. Euclides Aranha, filho do ministro Oswaldo Aranha, jantava com a esposa, levantou-se, fisionomia transtornada, dirigiu-se à mesa onde se encontrava o referido grupo, deteve-se junto à cadeira do jornalista e interpelou-o sobre ataques dirigidos a seu pai na “Tribuna da Imprensa”. À interpelação seguiu-se áspera troca de palavras, tendo o jornalista se levantado, entrando em luta com o filho do ministro da Fazenda. Segundo as testemunhas, os dois trocaram socos por algum tempo, até que amigos comuns se interpuseram e os separaram. Às 23h, o próprio ministro Oswaldo Aranha compareceu ao restaurante para ver o que ocorrera. Pouco depois, simultâneamente, por portas diferentes, os Srs. Euclides Aranha e Carlos Lacerda abandonaram o Bife de Ouro.

Existe no Copacabana Palace o Teatro Copacabana, remodelado e reinaugurado em 9 de setembro de 1949, com a peça A Mulher do Próximo, de Abilio Pereira de Almeida, apresentada pelo Grupo de Teatro Experimental de São Paulo. Foi fechado em 1994 e reaberto em 2021, com a encenação de Copacabana Palace – O Musical, com texto de Ana Velloso e Vera Novello e direção de Gustavo Wabner e Sergio Módena (O Jornal, 9 de setembro de 1949; A Scena Muda, 20 de setembro de 1949A Cigarra (SP), novembro de 1949Diário do Rio, 21 de dezembro de 2021). Foi lá que a atriz Fernanda Montenegro fez sua estreia profissional nos palcos, na peça Alegres Canções na Montanha, em 1950.

 

 

Os salões do hotel eram palcos de chás elegantes e de desfiles, bailes, concursos de beleza, exposições de arte e homenagens (Careta5 de agosto de 1950, 9 de junho de 195128 de julho de 1951;27 de outubro de 195118 de outubro de 19521º de agosto de 195329 de maio de 1954). Também eram muito concorridos seus bailes de carnaval (O Cruzeiro, 11 de março de 195016 de março de 1957).

Houve um incêndio no hotel, em 10 de agosto de 1953, que atingiu o teatro, o Golden Room e parte da Boate Meia Noite (Correio da Manhã, 11 de agosto de 1953).

Em 1989, a família Guinle vendeu o Copacabana Palace para o grupo Orient-Express, posteriormente, Belmond, que foi vendido para o grupo francês LVMH, em dezembro de 2018. O hotel, patrimônio histórico, é tombado em nível federal, estadual e municipal.

 

gire5

 

Devido à pandemia do coronavírus, pela primeira vez desde sua inauguração o hotel foi fechado, em 10 de abril de 2020. Andrea Natal, na época diretora geral do Grupo Belmond do Brasil, que administra o estabelecimento, e o cantor e compositor Jorge Ben Jor (1945 -), que vive lá desde 2018, foram os únicos que continuaram no hotel. Foi reaberto em 20 de agosto de 2020.

 

 

Pequeno perfil do arquiteto francês Joseph Gire

 

Joseph Gire no lobby do Palace Hotel, 1922 / Acervo familiar

Joseph Gire no lobby do Palace Hotel, 1922 / Acervo da família, publicada no livro Joseph Gire: a construção do Rio de Janeiro moderno

 

Gire nasceu, em 12 de janeiro de 1872, em Yssingeaux, na região do Velay, na França.  Estudou no liceu de Puy e acompanhava as aulas de desenho ministradas por seu pai, Jules Gire (1850 -?) na escola municipal chamada de “Belas-Artes e da Indústria”. Em 1896, ganhou um concurso para um monumento em homenagem à Charles Crozatier, escultor da cidade de Puy-en-Velay. Estudou na École des Beaux Arts de Paris, à qual teve sua candidatura de admissão apresentada pelo arquiteto Georges Debrie (1856 – 1910).

Em 1900, casou-se com Pauline Duparchy (18? -19?), com quem teve as filhas Renée e Antoinette; foi nomeado arquiteto-inspetor da Exposição Universal de Paris e passou a trabalhar no prestigioso escritório dos arquitetos Lucien e Henri Grandpierre, quando projetou o palácio Singer-Polignac. Quando os Grandpierre se aposentaram, em 1906, Gire e seu colega, Jamin, assumiram a direção da firma. Entre 1908 e 1909, estabeleceu-se em Buenos Aires, capital da Argentina, na rua Paraná, 1261.

 

gire7

 

Na ocasião, associou-se ao engenheiro Juan Molina Civit. Também possuiu um escritorio em Montevidéu, no Uruguai, na rua Zabala, 1441.

 

Joseph Gire e sua mulher, a produtora cultural Pauline Deparchy, no Palace Hotel, em 1924

Joseph Gire e sua mulher, Pauline Deparchy, no Palace Hotel, em 1924 / Acervo da família publicada em O Globo de 25 de abril de 2010

 

Em 1916, desembarcou no Rio de Janeiro, no auge da Belle Époque carioca, a convite da abastada e influente família Guinle, cuja origem da riqueza foi a sociedade que o patriarca Eduardo Eduardo Palassin Guinle (1846 – 1912) manteve por toda a vida com Cândido Gaffrée (1856 – 1919), com quem fundou a Companhia Docas de Santos e a Companhia Brasileira de Energia Elétrica. Em 1918, Gire voltou à cidade, desta vez a convite da companhia dos hotéis Carlton Ritz (O Paiz, 1º de outubro de 1918, primeira coluna).

Já havia, entre 1909 e 1914, realizado com Armando Silva Telles a residência de Eduardo Guinle (1878 – 1941) que, em 1946, foi comprada pelo governo federal durante a presidência do General Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) – o Palácio das Laranjeiras, desde 1975 o endereço oficial dos governadores do estado do Rio de Janeiro; e o Palacete Guinle (1913), que foi residência de Carlos Guinle (1883 – 1969) e, posteriormente, sediou a Embaixada da Argentina. Eduardo e Carlos eram filhos do casal Eduardo Palassin Guinle e Guilhermina Coutinho Guinle (1854-1925).

Gire fundou um escritório na cidade e teve forte influência na transformação de sua paisagem arquitetônica e urbana, na verticalização da Praia de Copacabana, da Praia do Flamengo e da Glória. Morou com sua família, no Palace Hotel, localizado na avenida Rio Branco, 185; na Rua Voluntários da Pátria, 104; e na Rua das Laranjeiras, 452 (Correio da Manhã, 17 de abril de 1920, quarta coluna; O Paiz, 2 de abril de 1924, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de janeiro de 1925, quarta coluna).

Também realizou, durante a década de 1920, dentre vários outros projetos, o do Hotel Glória, inaugurado em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922). Foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

 

 

Também projetou o Esplanada Hotel, em São Paulo (O Paiz, 28 de junho de 1921, penúltima coluna), que ficava próximo ao Teatro Municipal de São Paulo e foi inaugurado em março de 1923. Um de seus frequentadores foi o escritor Oswald de Andrade (1890 – 1954), um dos maiores representantes do Modernismo no Brasil que, em seu poema, Balada do Esplanada, publicado, em 1927, no Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, homenageou o hotel. Em 1987, musicada pelo cantor Cazuza (1958 – 1990), o poema foi uma das faixas do LP Só se for a dois.

 

Balada do Esplanada

Ontem de noite eu resolvi
Ver se aprendia como é que se fazia
Uma balada, antes de ir pro meu hotel
É que esse coração
Já se cansou de viver só
E quer então
Morar contigo no Esplanada
Contigo no Esplanada
Pra respirar
Abro a janela
Como um jornal
Eu vou fazer a balada
Fazer a balada
Do Esplanada e ficar sendo o menestral
E fico sendo
O menestrel do meu hotel
Do meu hotel
Mas não há poesia num hotel
Nem mesmo sendo
O Esplanada um grande hotel
Há poesia na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor, no elevador
No elevador

 

Outros projetos de sua autoria foram o do Edifício Praia do Flamengo (1925) (Diário do  Rio, 22 de agosto de 2021), conhecido como Palacete de Areia, primeiro prédio de apartamentos no Flamengo; a da antiga sede da Sul América, no Centro, em parceria com o arquiteto escocês Robert Russell Prentice (1883 – 1960); o Edifício Touring, na Praça Mauá; e a do Edifício Joseph Gire (1929), em estilo art déco, primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro, que ficou conhecido como Edifício A Noite, na época o mais alto da América do Sul (Jornal das Moças, 12 de setembro de 1929). Gire era um entusiasta dos arranha-céus (O Paiz, 24 de junho de 1928). É do início da década de 1930, seu projeto do palácio da Ilha de Brocoió, para outro filho de Eduardo Guinle, Octávio (1886 – 1968). É atualmente o palácio de férias do governador do Estado do Rio de Janeiro. Ainda na mesma década, projetou os edifícios Paraopeba e São João Marcos.

 

 

Foi o responsável pela reforma do prédio do Automóvel Club (Automóvel Club – RJ, dezembro de 1925) e do Palácio do Itamaraty (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1929), além de ter contribuido como consultor em inúmeras obras como a da construção do Hipódromo da Gávea. Foi também membro do conselho de embelezamento da cidade de São Paulo e da Comissão Executiva do Centenário da Independência, em 1922.

Ficou fora do Brasil entre 1930 e 1932 (Correio da Manhã, 21 de agosto de 1932, sétima coluna). Faleceu em 5 de outubro de 1933, em Arberáts, no País Basco francês (Correio da Manhã, 7 de novembro de 1933, sexta coluna; 10 de novembro de 1933, última coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Em 29 de outubro de 2023, o título deste artigo foi alterado para Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire.

 

Fontes:

A Casa Senhorial

BOECHAT, Ricardo. Copacabana Palace: um hotel e sua história. São Paulo: DBA, 1998.

CABOT, Roberto. Joseph Gire: a construção do Rio de Janeiro moderno/RobertoCabot, – 1. ed – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014.

CABRAL, Maria Cristina. Arquitetos franceses no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. III Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo arquitetura, cidade e projeto: uma construção coletiva São Paulo, 2014

Casa Cor

G1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 17 de dezembro de 2018

O’DONNELL, Julia. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

O Globo, 13 de agosto de 2008

O Globo, 25 de abril de 2010

Portal Iphan

Revista Época, 13 de dezembro de 2010

Site Arquivo Arq

Site  Bafafá

Site I-Patrimônio – Edifício Praia do Flamengo 

Site I-Patrimônio – Tombamento

Site Rio Memórias

UOL Notícias, 30 de outubro de 2008

Uol Notícias, 2 de julho de 2020

 

Outros artigos da série Os arquitetos do Rio de Janeiro

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” I – Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, de autoria de Cristiane d´Avila – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, publicado em 14 de janeiro de 2021.

Série “Os arquitetos do Rio” II – No Dia Nacional da Saúde, o Desinfetório de Botafogo e um breve perfil do arquiteto português Luiz de Moraes Junior, responsável pelo projeto, de autoria de Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, publicado em 5 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IV – Archimedes Memória (1893 – 1960), o último dos ecléticos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 1º de dezembro de 2023

Série “O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e “Os arquitetos do Rio” V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de janeiro de 2024

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VI – O Clube Naval e os arquitetos Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) e Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de maio de 2024

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre hotéis

Hotéis do século XIX e do início do século XX no Brasil, publicado em 5 de novembro de 2015 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Glória – antes e depois, publicado em 21 de dezembro de 2017, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca, publicado em 13 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Pharoux por Revert Henrique Klumb, publicado em 15 de junho de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023.