Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX, fotografou o Túnel da Rua Alice ou do Rio Comprido -Laranjeiras, aberto em 1887, que liga os dois bairros através do Morro dos Prazeres. Até as inaugurações do túneis Santa Bárbara, em 1962, e Rebouças, em 1967, era a única via disponível para as pessoas que quisessem transitar entre as zonas Norte e Sul da cidade sem passar pelo Centro. É o túnel mais antigo do Rio de Janeiro*.

O primeiro trecho da Rua Alice foi aberta pelo empresário Eduardo Klingelhoefer da Fonseca que o batizou com o nome de sua filha, Alice (1882 – 1960). Ele queria construir uma linha de bondes que ligasse a Zona Sul a Zona Norte, o que não ocorreu (Gazeta de Notícias, 22 de julho de 1887, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 26 de agosto de 1887, sexta coluna; O Paiz, 27 de novembro de 1887, primeira coluna; Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1887, primeira coluna).
O contrato para a construção do Túnel da Rua Alice foi celebrado entre a Câmara Municipal da cidade e a Companhia do Túnel e Ferro-Carril Rio Comprido e Laranjeiras, em 27 de outubro de 1886. Em 10 de fevereiro de 1887, foram abertas as propostas recebidas pela referida empresa para sua perfuração e construção. Seus fundadores – o Barão de Canindé, Malvino da Silva Reis, o já citado Eduardo Klingelhoefer e Manoel Ferreira Fernandes Bravo – foram eleitos presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro da companhia, respectivamente. A proposta escolhida, por ser a mais barata, foi a dos senhores Samuel Thompson e Charles Smith.
Durante as obras houve uma explosão com três vítimas e uma delas morreu no local (O Paiz, 26 de novembro 1886, primeira coluna; 29 de dezembro de 1886, quinta coluna; 30 de janeiro de 1887, quinta coluna; 10 de fevereiro de 1887, quarta coluna; 11 de fevereiro de 1887, quarta coluna; 11 de fevereiro de 1887, primeira coluna; 26 de fevereiro de 1887, última coluna; Gazeta de Notícias, 7 de outubro de 1887, penúltima coluna).
Às vésperas do Natal de 1888, a convite da diretoria Companhia do Túnel e Ferro-Carril Rio Comprido e Laranjeiras, autoridades visitaram o túnel (Gazeta de Notícias, 24 de dezembro de 1888, quinta coluna).
No início da década de 50, ainda sob a administração do prefeito Ângelo Mendes de Moraes (1894-1990), foram iniciadas as obras de ampliação e remodelamento do túnel. A galeria passou a ter 220 metros de comprimento por 10 de largura, foram realizadas a impermeabilização e revestimento da abóboda, construção dos pórticos, pavimentação das pistas e colocação de tubulações especiais d´água. Os melhoramentos fora entregues à população, em 7 de setembro de 1952, já na gestão do prefeito João Carlos Vital (1900-1984) (Revista Municipal de Engenharia, julho/setembro de 1950, primeira coluna; Diário de Notícias, 1º de novembro de 1951, primeira coluna; 6 de setembro de 1952, primeira coluna).
As já mencionadas inaugurações dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, na década de 1960, diminuíram consideravelmente o movimento do Túnel da Rua Alice.
*Já existia o Túnel da Marítima ou Túnel da Gamboa, inaugurado, em 1879, perfurado sob o Morro da Providência, que ligava a Central do Brasil à área portuária da Gamboa. Tinha 315 metros de extensão, mas era utilizado apenas para embarque e desembarque de carga. Foi desativado em 1995. Sua galeria foi reformada e, em 2017, passou a ser usado pela linha 2 do VLT sentido Praça XV-Região Portuária.
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume III. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1960
GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.







