Manual de boas práticas de Preservação Digital

Neste artigo, destacamos a seção Links úteis, localizada à direita na parte superior da página de abertura da Brasiliana Fotográfica, onde o leitor pode acessar diversos textos e trabalhos importantes para o campo da preservação digital. A cada dia são gerados cada vez mais arquivos nato-digitais e versões digitais de imagens fotográficas, o que torna o tema da preservação digital essencial no tratamento de nossa memória visual e de nosso patrimônio documental no universo digital. O último trabalho anexado foi o Manual de boas práticas de Preservação Digital, elaborado pela Comissão Permanente de Preservação Digital da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras o portal. Foi publicado, em agosto de 2024, com o objetivo de orientar as unidades organizacionais em seu trabalho cotidiano, no gerenciamento de seus arquivos e materiais digitais, bem como de documentar de forma clara e acessível as estratégias de preservação digital, que devem ser adotadas. O manual trata das boas práticas para a gestão de arquivos e materiais digitais e está alinhado com a Política de Preservação Digital da Biblioteca Nacional, publicada, em 2020.

 

manual

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

As expedições realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo do século XX denunciavam as precárias condições de saúde das populações rurais e com elas a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu alterações. O artigo As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil, de Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisadores da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, aborda as expedições científicas realizadas sob a chefia de Lauro Travassos, entre 1938 e 1942.  Nelas havia um sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias das excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil chefiadas por Lauro Travassos disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

           Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e

Francisco dos Santos Lourenço*

 

 

Desde o início dos trabalhos em Manguinhos, Oswaldo Cruz (1872 – 1917), Carlos Chagas (1878 – 1934) e demais cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) não ficaram limitados às improvisadas salas e laboratórios da instituição. Frequentemente, participavam de expedições científicas pelo território brasileiro. Nos primeiros anos do IOC, as ações ficaram restritas às regiões próximas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Médicos, sanitaristas e cientistas eram solicitados para identificar, estudar e combater as doenças contagiosas que assolavam o país desde os tempos coloniais. Diferentemente das primeiras missões sanitárias que visavam resultados imediatos em pequenas localidades, cinco expedições científicas realizadas entre 1911 e 1913 foram longas, alcançando meses de viagem por grandes áreas do país.

As expedições pelos chamados “sertões” forneceram um sólido inventário das condições sanitárias e sociais das regiões visitadas. Por intermédio dos diários produzidos pelos viajantes, intelectuais e políticos nacionais tomaram consciência da triste realidade que imperava no interior do Brasil. Dessas cinco expedições participaram nomes como Carlos Chagas, Belisário Penna (1868 – 1939) e Arthur Neiva (1880 – 1943).

 

 

Depois da divulgação dos diagnósticos elaborados pelos cientistas, denunciando as precárias condições de saúde das populações rurais, a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu uma alteração. Se o interior do país estava doente, improdutivo para os padrões de eficiência e racionalidade capitalistas do século XX, o aumento da produtividade somente viria a acontecer com a melhoria da qualidade de vida de sua população. Era preciso conhecer as doenças das regiões mais afastadas do litoral para, enfim, propor estratégias de tratamento dos enfermos. Com essas preocupações, a ciência tomava literalmente o “caminho da roça”.

 

 

Há um depoimento interessante de Monteiro Lobato (1882 – 1948) sobre a necessidade do conhecimento in loco para entender e solucionar os problemas brasileiros. Lobato falava do contato direto com a realidade que o homem de responsabilidade pública deveria possuir. Com entusiasmo, o escritor acompanhou Arthur Neiva, diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo (1916 – 1920), em uma excursão à cidade de Iguape, onde se desenvolvia uma campanha contra a malária e ancilostomíase.

“Penetramos na mata, alguns quilômetros fora da cidade. Vi-o apear-se e acender a lanterna elétrica e correr a luz pelo couro do cavalo em procura das anofelinas que incontinenti acudiram àquele inesperado banquete. Encontrou as anofelinas da espécie perigosa. Tinham o ninho na água depositada pelas chuvas nas bromélias parasitas. Estava liquidado o caso. Regressamos e no outro dia ordens precisas eram dadas para matar de vez a malária de Iguape em seu derradeiro reduto” (Lobato apud Ribeiro, 1993, p. 208).

Essa forte tradição parece que impregnou o jeito de fazer ciência no Brasil. Várias expedições científicas e campanhas sanitárias foram empreendidas pelo país afora. Investigavam não somente as condições naturais das localidades, mas os modos de vida de seus habitantes.

 

 

Assim, inseridas nesse contexto histórico, apresentamos as excursões científicas (ou “comissões”, como eram chamadas) do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do país. Lideradas por Lauro Travassos (1890 – 1970), elas ocorreram nas seguintes etapas: a primeira em outubro de 1938; a segunda em julho de 1939; a terceira em fevereiro e março de 1940; a quarta em agosto e setembro de 1940; a quinta em janeiro de 1941; a sexta em novembro de 1941; e a sétima em maio de 1942.

 

 

 

As excursões concentraram-se na região da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), companhia criada em 1904, que chegou a operar uma rede ferroviária de 1.622 quilômetros, ligando o Oeste paulista até a área do Pantanal no estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. A linha-tronco da NOB entre as estações de Bauru e Porto Esperança, em Corumbá, foi concluída em 1914. Com cerca de 1.300 quilômetros, atravessava as cidades de Araçatuba, Três Lagoas, Campo Grande e Miranda. Nesta última encontra-se o povoado de Salobra, que devido à sua variada e exuberante fauna e flora foi escolhido como parada obrigatória para coleta de material científico em todas as etapas das excursões.

De acordo com os relatórios produzidos pelos cientistas, quem deu suporte para que as excursões acontecessem na região foi o diretor da NOB, major Américo Marinho Lutz (1899 – 1983), que gratuitamente pôs à disposição de Lauro Travassos um vagão-dormitório e outro para bagagem de sua companhia. O militar era sobrinho do cientista do IOC e principal estudioso da medicina tropical no Brasil, Adolpho Lutz (1855 – 1940).

Tomaram parte nas excursões profissionais jovens e experientes com distintas habilidades. Entre eles figuraram entomologistas, helmintologistas, protozoologistas, ictiologistas, herpetologistas, ornitologistas, mastozoologistas, técnicos de laboratório e taxidermistas. Para auxiliar nos trabalhos de campo das excursões foram contratados pescadores e caçadores das áreas estudadas.

 

 

Além dos cientistas e técnicos do IOC, integraram as excursões representantes de várias instituições do Brasil e exterior, como Museu Paulista, Instituto Biológico de São Paulo, Instituto de Higiene de São Paulo, Museu Nacional, Fundação Rockefeller, Clube Zoológico do Brasil, Universidade de São Paulo e Universidade de Michigan.

 

 

Embora alguns dos personagens envolvidos nessas jornadas tenham obtido sucesso em suas trajetórias científicas, entre eles Lauro Travassos, Frederico Lane (1901 – 1979), João Ferreira Teixeira de Freitas (1912 – 1970), Emmanuel Dias (1908 – 1962) e Maria José von Paumgartten, depois Maria Deane (1916 – 1995), estas páginas épicas são pouco conhecidas pelo campo científico e acadêmico nacional.

Nos relatórios das excursões constatamos o sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

“A seca proporcionou ainda oportunidade de observar o horrível espetáculo das queimadas. Por estes brutais incêndios dos campos, em que se formam linhas de fogo de quilômetros de extensão e que caminham léguas, tudo destruindo, flora e fauna, e ainda esterilizando o solo pelo formidável calor produzido por labaredas que atingem a 10 metros de altura e que a 100 metros já se torna insuportável, vai o brasileiro, metódica e tenazmente, transformando o nosso interior em árido deserto. Argumentam os autores desta brutalidade, a necessidade da melhoria dos campos. Sem dúvida é um processo barato para a limpeza dos pastos, mas de graves consequências para as gerações futuras. Há também prazer em contemplar o espetáculo” (Travassos, 1940, p. 700).

Durante os trabalhos de campo, os excursionistas coletaram farto material de interesse médico e biológico, como insetos, mamíferos, répteis, aves, batráquios, peixes, helmintos e amostras botânicas. Todo esse material foi incorporado ao patrimônio científico de instituições de ensino e pesquisa do país. O IOC, por exemplo, ficou com o maior número de exemplares de insetos e helmintos, que se encontram atualmente preservados em coleções dedicadas a esses grupos zoológicos.

 

 

Entretanto, os cientistas não se limitaram a investigar o clima, o relevo, os animais, a vegetação e as doenças reinantes na região, como malária, doença de Chagas e leishmaniose. Eles mostraram-se preocupados com as respostas que os habitantes poderiam dar perante às dificuldades impostas pela sobrevivência. Em quase todos os registros das excursões existem comentários sobre a qualidade da alimentação e as condições de moradia dos habitantes, que algumas vezes foram descritas como precárias e insalubres. A baixa densidade demográfica dos locais visitados também fez parte das observações dos cientistas.

 

 

Em resenha biográfica sobre Lauro Travassos, Newton Dias dos Santos (1916 – 1989), naturalista do Museu Nacional, descreveu com riqueza de detalhes a sua participação na quinta excursão ao Noroeste. Nos trechos selecionados desta narrativa encontramos uma síntese de como deve ter sido o cotidiano das “aventuras” científicas por um Brasil rural e selvagem, rico em biodiversidade, e que ainda guarda muitos aspectos a serem conhecidos por nós na atualidade.

“Imagine, caro leitor, cerca de três dias de viagem pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, estrada de penetração do nosso mais longínquo oeste, com deficiências, mas que é um orgulho da nossa gente. (…) A composição, puxada com sacrifício, acaba de atravessar a ponte do rio Miranda e para na estação de Salobra, próxima do grande pantanal. Olho em torno e diviso umas 10 casas de barro: eis toda a localidade. (…) Em meia hora está escolhida nossa sede; o pátio da estação. Começa o trabalho da montagem. (…) Em duas horas há um laboratório montado. Toda a minúscula população local, de olhos arregalados, está em torno. (…) O índice de impaludismo desta população é de 100%. (…) Cada um de nós começa a tomar quinino preventivo. A população entra também no quinino. (…) Enquanto estamos alojados, vem gente de longe em busca de tratamento. Todos são atendidos, pois a farmácia que levamos é grande.

A cozinha de campo é imediatamente montada e começa o trabalho da janta: feijão, arroz, carne seca. (…) Cai a noite e com ela o silêncio. (…) E começa o primeiro trabalho. Num grande lençol branco estendido verticalmente abaixo da lâmpada, começam a chegar os primeiros insetos curiosos. (…) Mosquitos e anofelíneos cobrem o pano; vão chegando, mariposas, coleópteros, hemípteros. (…) Nossos vidros e caixas vão se acumulando de material. Os sapos saem dos seus esconderijos e vem comer insetos e são por nós caçados. (…) Alguns já foram dormir; se não dá bicho vamos para a cama, mas de vez em quando acordamos, e vamos espiar o pano. O calor é terrível. (…) Travassos toma o primeiro café puro da manhã, apanha sua espingarda e dá uns giros por perto. Uma hora depois, está no acampamento com alguma cotia, ou alguma ave abatida. Os taxidermistas entram em ação. Tiram a pele do animal e dão o corpo ao professor. Este vai autopsiá-lo. Abre o animal, retira os intestinos e começa a catar os vermes (…) que são guardados em líquido conservador. (…)

Antes do almoço vão chegando mais peças: porcos do mato, gaviões, jacarés, ariranhas, veados, cotias, toda a classe de aves e mamíferos. (…) Outros excursionistas colecionam plantas, insetos, aracnídeos, moluscos, miriápodos. (…) Nos charcos, riachos e rios as nossas redes de pesca de arrastão trazem curiosos espécimens. (…) Cada dia passa um trem de ida ou de volta. É a nossa única distração. Às vezes, se consegue uma cerveja no trem e isso é uma delícia, pois a nossa única bebida é água e, por sinal, salobra, que é filtrada em caixa de areia. Felizmente ninguém adoece. (…) Travassos quase sempre leva seus dois esplêndidos auxiliares de Manguinhos, Mário Ventel e Antônio Nobre, que se incumbem da manutenção do laboratório e dos instrumentos. (…) Nossos banhos são no rio ou na caixa d’água que alimenta os trens. (…) Ao fim de 25 dias, nossas caixas estão cheias; chegamos ao fim, bastante maltratados”

Ciência para Todos, 27 de março de 1949

 

Ricardo Augusto dos Santos  é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz. Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço são pesquisadores do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

DALMEIDA, José Mario. Contribuições de Lauro Travassos (1890-1970) para a zoologia brasileira. História da Ciência e Ensino, São Paulo, v. 14, p. 88-99, 2016.

FONSECA FILHO, Olympio da. A escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. São Paulo: EGTR, 1974.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

RIBEIRO, Maria Alice Rosa. História sem fim… Inventário da saúde pública. São Paulo: Edusp, 1993.

SANTOS, Ricardo Augusto dos; VIEIRA, Felipe Almeida; LOURENÇO, Francisco dos Santos. O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 31 out. 2023.

Site Estações Ferroviárias do Brasil.

THIELEN, Eduardo Vilela et al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, 1992.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da excursão científica do Instituto Oswaldo Cruz realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em outubro de 1938. Boletim Biológico, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 208-260, 1939.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da terceira excursão a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil realizada em fevereiro e março de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 607-696, 1940.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quarta excursão do Instituto Oswaldo Cruz a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, realizada em agosto e setembro de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 4, p. 697-722, 1940.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quinta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em janeiro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 36, n. 3, p. 263-300, 1941.

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da excursão científica realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em julho de 1939. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 525-556, 1940

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sexta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em novembro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 37, n. 3, p. 259–286, 1942.

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sétima excursão cientifica do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em maio de 1942. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 38, n. 3, p. 385-412, 1943.

 

Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama

A historiadora Maria de Fátima Morado, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é a autora do artigo Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama, destacando imagens de dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha. Os registros apresentam o contexto da realização das obras, com etapas das construções e imagens de seus trabalhadores. Constam nas páginas dos álbuns informações manuscritas que colaboram para a descrição da execução dos trabalhos. Além disso, as imagens revelam aspectos da bela paisagem local no início do século XX.

 

Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama

Maria de Fátima Morado*

 

 

Na Lagoa de Araruama, os canais Palmer 1, Palmer 2 e Mossoró passaram por obras de melhoramentos promovidas pelo governo de Nilo Peçanha durante seu segundo mandato de presidente do estado do Rio de Janeiro (1914-1917). As fotografias que registram o andamento dessas obras compõem dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha, presente no acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

Acessando o link para as fotografias das obras nos canais da Lagoa de Araruama de dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha do Museu da República que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A exploração de sal na Lagoa de Araruama, considerada a maior laguna hipersalina do mundo, começou no período colonial de forma restrita, alcançando escala de industrialização durante o Império quando ocorreram as aberturas de canais para facilitar o escoamento do produto. Em Cabo Frio, o engenheiro francês Leger Palmer, um dos mais importantes negociantes do sal, depois de obter autorização dos poderes públicos para financiamento das obras que duraram de 1875 a 1880, promoveu a abertura dos dois canais que atualmente levam seu nome.

 

 

No período republicano, a produção do sal favorecia fortemente a economia da região da Lagoa de Araruama. Contudo, o transporte da mercadoria encontrava novos entraves, uma vez que os canais utilizados necessitavam de modernização para que pudessem acompanhar o crescimento da produção. Em 1911, o Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas, ao descrever o canal de Mossoró, em São Pedro da Aldeia, informa que sua origem ocorreu em torno de 1880 e destaca a necessidade de intervenção para sua melhoria, o que deveria ser feito em conjunto com as melhorias dos canais Palmer que também precisavam ser realizadas.

Nilo Peçanha tomou posse presidente do estado do Rio de Janeiro, em dezembro de 1914, e, no ano seguinte, recebeu por telegrama uma representação de salineiros com agradecimentos por incluir Mossoró na resolução que promoveria obras de dragagem, construção de pilares de alvenaria, entre outros benefícios, nos canais da Lagoa de Araruama.

 

 

Os veículos de imprensa da época noticiavam sobre o andamento das obras e a Revista Fon Fon publicou, em 1915, a fotorreportagem “As riquezas do Brasil: as salinas do Estado do Rio” sobre a visita da comitiva de Nilo Peçanha à região da Lagoa de Araruama.

 

 

Em dezembro de 1917, o jornal A Noite, anunciou a inauguração do monumento erguido em comemoração ao fim das obras fazendo uma retrospectiva sobre a necessidade que levou a modernização dos canais, lembrando o apelo dos produtores. Também citou como os responsáveis pelo projeto o engenheiro Meira Junior e o construtor Horácio Miranda. Nilo Peçanha havia renunciado ao mandato em 7 de maio de 1917 para assumir o Ministério das Relações Exteriores, assim, segundo o mesmo jornal, a inauguração foi feita pelo seu sucessor, Geraque Collet.

 

 

Publicações oficias também relatavam sobre a condução das obras nos canais, como por exemplo, o Relatório dos Presidentes dos Estados Brasileiros (RJ) – 1892 a 1930 que destacou a conclusão dos pilares de alvenaria de pedra, quebra-mar e cais nos canais Palmer 1 e 2 e da dragagem no canal Mossoró.

 

 

 

 

As fotografias da Coleção Nilo Peçanha apresentam o contexto da realização das obras, detalhando as etapas das construções com destaque para seus trabalhadores. Em diversas fotos podemos observar a presença dos homens empregados nas obras dos canais, especialmente em uma delas quando aparece um grupo segurando um cartaz. Nas páginas dos álbuns constam informações manuscritas que colaboram para a descrição da execução dos trabalhos. Sem esquecer que essas imagens revelam aspectos da bela paisagem local no início do século XX.

 

 

*Maria de Fátima Morado é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

CHRISTOVÃO, J. H. de O. Do sal ao sol: a construção social da imagem do turismo em Cabo Frio. Orientador: Helenice Aparecida Bastos Rocha. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores, São Gonçalo 2011.

FREITAS, G. G. de. A produção de sal marinho na lagoa de Araruama, RJ. Revista CEDEPEM, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 35-38, jul/ago. 2021.

PEREIRA, Olegário N. Azevedo; CASTRO, Elza Maria N. Vieira de; DIAS, João Alveirinho; BASTOS, Maria Rosário. A exploração de sal como motivo de antropização na laguna de Araruama: 1801-1900. In: Silvia Dias Pereira et al., O Homem e o Litoral: Transformações na paisagem ao longo do tempo, Rio de Janeiro, pp.312-331, 2017.

BIDEGAIN, Paulo; BIZERRIL, Carlos. Lagoa de Araruama: Perfil ambiental do maior ecossistema lagunar hipersalino do mundo. Rio de Janeiro: Semads, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:

Annaes da Assembléa Legislativa Provincial do Rio de Janeiro: Relação dos Deputados à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – 1836 a 1888. Ano 1878. Edição 00001 (1).

A Noite. Ano 1917. Edição 02155 (1)

Fon Fon: Semanario Alegre, Politico, Critico e Esfusiante. Ano 1915. Edição 00020 (1)

Jornal do Commercio. Ano 1918. Edição 00212 (1).

O Fluminense. Ano 1915. Edição 09454 (1)

Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas – 1910 a 1927. Ano 1911. Edição 00001 (4)

Relatórios dos Presidentes dos Estados Brasileiros – 1892 a 1930. Ano 1918. Edição 00001 (1)

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXX e série “Hotéis do Brasil” VII – O Grande Hotel Internacional em Santa Teresa

Destacando quatro imagens produzidas pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX , o Grande Hotel Internacional é o assunto do 30º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido e o sétimo da série Hotéis o Brasil. Considerado o mais cosmopolita dos hotéis do Rio de Janeiro na virada do século XX, situava-se em um grande casarão no lugar denominado Lagoinha, no morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Foi inaugurado, em 1º de dezembro de 1891, na Rua do Aqueduto. Pertencia à Companhia Melhoramentos de Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 2 de dezembro de 1891, primeira coluna).

 

 

Em 1893, foi adquirido pelo francês Ferdinand Mentges. Antes de se tornar um hotel, no casarão funcionava um sanatório para doenças do pulmão.

hotel2

 

Acessando o link para as imagens do Grande Hotel Internacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Na sua inauguração, compareceram várias senhoras e cavalheiros, a quem foi oferecido um delicado lunch. Ficava a 45 minutos da cidade, a 184 metros do nível do mar e em meio a uma vegetação soberba, o que contribuía poderosamente para a pureza do ar que ali se respira. Devido à sua localização recebia ventilação da Baía de Guanabara, para a qual tinha uma belíssima vista, mas era protegido de eventuais correntes de ar pelos morros Castor e Pólux. Em 1895, o então presidente da República, Prudente de Morais (1841-1902), passou uma temporada no hotel recuperando-se de uma de suas constantes febres (Jornal do Commercio, 29 de julho de 1934, segunda coluna).

Notabilizou-se por oferecer requintados serviços e também por reunir em seus salões intelectuais do Rio de Janeiro dentre eles o dramaturgo Artur de Azevedo (1855-1908), o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) e o escritor Raul Pompéia (1863-1895).

 

 

Quando foi inaugurado, possuía um prédio principal e dez chalés. No pavimento térreo, abrigava grandes salões com piano, bilhar e outros jogos, além de um restaurante, da copa e da cozinha. No segundo andar, ficavam a sala do gerente, o salão de honra e inúmeros quartos com todas as condições de conforto. A construção do Grande Hotel Internacional foi dirigida pelo comendador Bittencourt da Silva sob os conselhos do sr. Rocha Faria. Foram atendido rigorosos preceitos da higiene moderna.

 

 

Em 1911, foi ampliado: possuía 150 leitos e, além do prédio principal e dos chalés, três vilas.

“O hotel está rodeado de matas e os passeios são muitos e variados, tais como Lagoinha, Sumaré, Silvestre, Paineiras, Corcovado. O hotel é principalmente para famílias e estrangeiros que desejem residir em lugar sossegado durante a noite. O seu parque e as suas matas, da extensão de 40.000 metros quadrados, são de grande atrativo para os estrangeiros”.

Inovou, oferecendo aos hóspedes quadra de tênis e um campo de críquete, esportes ingleses que chegavam ao Rio de Janeiro. Bondes ligavam o hotel ao Largo da Carioca. Partiam de 15 em 15 minutos, o percurso era de cerca de 20 minutos e era feito por um caminho muito pitoresco e interessante.

GRAND HOTEL INTERNACIONAL - Santa Tereza

Foram seus hóspedes estrangeiros ilustres como o bailarino ucraniano Vaslav Nijinski (1889-1950) e A bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927), a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) e o arqueólogo e explorador britânico Percy Harrison Fawcett (1867-1925).

 

 

Na crônica Chegada de um estrangeiro ao Rio, de 1912, João do Rio (1881-1921), usou um tom elogioso para descrever o Rio de Janeiro aos olhos de um europeu. O Grande Hotel Internacional foi citado.

…Outros nédios, bem dispostos e tão nus como o primeiro insistiam para que eu tomasse um bote. Olhei, na semipenumbra, o desdobramento dos squares,  a linha dos carros de praça e os meus olhos viram, ao lado de automóveis, uma espécie de condução que até aquele momento só tinham visto em gravuras cantando os feitos do dândi d’Orsay, em Londres ou as elegâncias de Paris, em 1854. Os meus olhos viram os tílburis. Acerquei-me de um. O cocheiro tinha uma bota descalça. Agitou-se entre a bota, as rédeas e o chicote alguns segundos.

– Para onde vamos, V. senhoria?

Internacional, Santa Thereza, disse eu com a adresse que recebera a bordo.

– Ah! isso é lá em cima. O burro não sobe. Vou levá-lo à estação dos bondes.

– É muito longe? fiz com o vago receio do viajante solitário.

– Uma hora de viagem. É bonito…

 

 

Uma fotografia do Grande Hotel Internacional ilustrou um capítulo do livro Memórias de um rato de hotel publicado na Gazeta de Notícias, de 6 de janeiro de 1912, escrito por João do Rio. Era sobre um célebre ladrão da Belle Époque, Arthur Antunes Maciel, vulgo, Dr. Antonio, que ficou famoso por seus roubos inteligentes em hotéis, onde se hospedava com identidades diferentes.

 

 

Segundo uma observação publicada no livro Os dias passam, de João do Rio, editado pela Coordenadoria de Editoração da Fundação Biblioteca Nacional, de 2015, o Grande Hotel Internacional existiu até meados da década de 30. Em seu lugar foi construído, em 1959, o Condomínio Equitativa.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Agenda Bafafá

GONTIJO. Juliana Santiago. JOÃO DO RIO E AS REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO: O ARTISTA, O REPÓRTER E O ARTIFÍCIO – MODERNIDADE PERIFÉRICA E REPRESENTAÇÕES DO RIO DE JANEIRO Impressões do Brasil: Crônicas do Século XX

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

João, do Rio, 1881-1921. Os dias passam / João do Rio. – 2. ed. – Rio de Janeiro : FBN, Coordenadoria de Editoração, 2015. 408 p. : il. ; 12×19 cm. – (Coleção Cadernos da Biblioteca Nacional ; 13)

LEME, Deborah Lavorato. Matula do sertão: a trajetória do coronel Percy Harrison Fawcett no Brasil (1906-1951). Dissertação de mestrado apresentada na USP, 2023.

O GLOBO, 28 de fevereiro de 2015

Site Dantes

Site História do Esporte

Site Novo Milênio

 

No Dia do Ceará, fotografias de autoria de Miguel de Moura

Com imagens produzidas pelo fotógrafo cearense Miguel de Moura Cavalcante (1883 -19?), a Brasiliana Fotográfica celebra o Dia do Ceará, comemorado anualmente em 17 de janeiro. Foi estabelecido, em 18 de maio de 2004, pela Lei nº 13.470, passando a integrar o calendário de eventos oficiais do estado. Foi em 17 de janeiro de 1799 que o Ceará ganhou autonomia da Capitania de Pernambuco, tornando-se administrativamente independente. A emancipação foi realizada a partir de uma Carta Régia assinada pela rainha de Portugal, dona Maria I (1734-1816), e baseava-se no crescimento populacional e econômico do estado.

 

 

O fotógrafo e artista plástico Miguel de Moura Cavalcante, de quem se tem, até o momento, poucos dados biográficos, nasceu em Maranguape, em 27 de dezembro de 1883, segundo seu registro de batismo publicado no site Family Search.

Registro e batismo de Miguel e Moura / Site Family Search

Registro de batismo de Miguel de Moura / Site Family Search

 

Atuou no Ceará nas primeiras décadas do século XX e foi um dos precursores, no Brasil, na realização de fotomontagens de cunho alegórico com as imagens A Deusa das Flores e Imitação das Lutas Romanas que pertencem, assim como as outras destacadas neste artigo, à Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Miguel de Moura disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Foi um dos precursores da fotografia em Maranguape, onde era conhecido como Mourinha. Foi casado com Luiza Nogueira de Moura e seu estúdio fotográfico, inaugurado em 1911, ficava na casa onde moravam.

 

Captura de tela 2024-12-16 140612

Casa e estúdio de Miguel de Moura Cavalcante em Maranguape / Página no Instagram cafecomartempe

 

 

Sua filha, Lygia Nogueira Cavalcante (1918 -?), foi a primeira fotógrafa da cidade. Era também pianista e farmacêutica.

 

Lygia fotografada por seu pai, Miguel de Moura, s/d / Página no Instagramlygia.pesquia-e-memoria

Lygia fotografada por seu pai, Miguel de Moura, s/d /. Página no Instagram lygia.pesquisa_e_memoria

 

 

Captura de tela 2024-12-16 134918

Registro de batismo de Lygia Nogueira Cavalcante/ Site Family Search

 

Foi o idealizador do primeiro cinema da cidade, o Cinema Hermes, batizado em homenagem ao presidente da República Hermes da Fonseca (1855-1923), e inaugurado em 29 de junho de 1910 (Jornal do Ceará, 1° de julho de 1910, primeira coluna).

 

 

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Facebook – página de Marília Quinderé

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instagram – página lygia.pesquisa_e_memoria e caafecomartempe

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Family Search

Site Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará

SOUZA, Fabricia dos Santos. As nebulosidades imagéticas: representações do cotidiano quixadaense nas fotografias (1885-1930). Universidade Estadual do Ceará.

Novos acervos: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE

A Brasiliana Fotográfica, no ano em que celebra 10 anos de existência, anuncia com alegria e entusiasmo a adesão da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como sua 14ª instituição parceira. A missão principal do IBGE é retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania. Ao longo de seus quase 90 anos de existência, o IBGE acumulou um rico acervo bibliográfico, cartográfico e iconográfico que apresenta o Brasil em seus aspectos econômicos, sociais, culturais e demográficos, entre outros. O primeiro artigo produzido para o portal, Pioneiros do IBGE: um legado nas estatísticas e geociências do Brasil, foi escrito pelas bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros; e pelo arquivista Fabio Carvalho, todos do IBGE.

 

Pioneiros do IBGE: um legado nas estatísticas e geociências do Brasil

Luciana F. Lau, Fabio Carvalho e Danielle Barreiros*

 

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – recebeu com alegria e entusiasmo o convite para integrar o Portal Brasiliana Fotográfica e inicia sua participação com a inclusão de 28 fotografias. Esta é sem dúvida uma excelente oportunidade de ampliar a visibilidade, o acesso e gerar conhecimento acerca dos acervos fotográficos do IBGE, que constituem importantes fontes de informação histórica  e cultural.

Acesse aqui o link para as fotografias do acervo do IBGE disponíveis na Brasiliana Fotográfica

Em virtude de o IBGE estar prestes a comemorar seus 90 anos de criação, selecionamos para nossa primeira postagem uma imagem que celebra e valoriza o legado dos pioneiros que construíram as bases do Instituto. A imagem destacada acima faz parte da Coleção “Eventos Institucionais” e retrata uma reunião ocorrida no ano de 1939.

Entre os presentes no evento estão algumas personalidades que lançaram as bases fundadoras do próprio IBGE, como Mário Augusto Teixeira de Freitas, considerado o idealizador do órgão, José Carlos de Macedo Soares, seu primeiro presidente, Christovam Leite de Castro, entre outros.

Antes de apresentar os precursores é fundamental compreender o contexto de criação do próprio IBGE. Trata-se de um marco na história da estatística brasileira, com raízes que remontam ao período colonial. Mesmo de forma rudimentar, a Coroa portuguesa desde cedo empenhou esforços para coletar dados estatísticos em seus domínios na América, por meio de Ordens Régias, demonstrando uma preocupação em quantificar aspectos da vida colonial. Com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, a necessidade de conhecer melhor o território e a população da nova sede do Império impulsionaram um crescente interesse em organizar e analisar informações relevantes para a administração pública, culminando na criação da Diretoria Geral de Estatística, em 1871, e na realização do primeiro Recenseamento Geral do Brasil, em 1872, considerado um precursor dos esforços sistemáticos que resultariam na criação do IBGE.

Com o início do século XX, o Brasil passou por intensas transformações políticas, sociais e econômicas. A Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas inauguraram uma nova era, marcada pela modernização do Estado e pela afirmação do país no cenário internacional. Nesse contexto, a criação de um órgão nacional de estatística era vista como um passo fundamental para construir um Estado mais eficiente e capaz de planejar o desenvolvimento nacional. Diante dessa necessidade e para dar unidade e identidade aos órgãos de estatística dos diferentes setores da administração federal e estadual, o Governo, através do Decreto nº 24.609, de 6 de julho de 1934 criou o Instituto Nacional de Estatística. A instalação oficial do INE ocorreu em 29 de maio de 1936, no Palácio do Catete, com José Carlos de Macedo Soares como seu primeiro presidente.

Após sua criação, o INE se dedicou a organizar o sistema estatístico brasileiro e promover a cooperação entre diferentes esferas de governo. A Convenção Nacional de Estatística, realizada em agosto de 1936, estabeleceu as bases para o Conselho Nacional de Estatística, responsável por coordenar os serviços estatísticos em nível nacional. O pensamento vitorioso da Convenção também reconheceu a importância da integração entre serviços estatísticos e geográficos para aumentar a eficiência das atividades no Brasil. Como parte disso, foi criado o Conselho Brasileiro de Geografia pelo Decreto nº 1.527 de 1937, ligado ao Instituto Nacional de Estatística. Este conselho tinha como objetivo coordenar estudos geográficos, promover a cooperação entre órgãos públicos e privados e sistematizar o conhecimento do território nacional. Com sua nova estrutura e atribuições ampliadas, o IBGE se consolidou como o órgão central do sistema estatístico e geográfico brasileiro, desempenhando um papel vital na produção de informações para o governo, a sociedade e a comunidade internacional.

Para garantir harmonia entre as atividades geográficas e estatísticas, o Conselho Brasileiro de Geografia foi renomeado como Conselho Nacional de Geografia, enquanto o Instituto Nacional de Estatística passou a se chamar Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, conforme o Decreto nº 218 de 1938. Guardando cada sistema, em relação ao outro, o máximo de simetria possível, em sua estrutura e organicidade, ambos entrosados sob princípios de colaboração nacional e cooperação interadministrativa, os dois Conselhos passaram a coordenar e impulsionar as atividades geográficas e estatísticas no país.

Quem visita a unidade do IBGE na rua General Canabarro, no bairro Maracanã, pode ver o imponente busto de José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), que desperta interesse não somente dos servidores, mas também dos visitantes. Ao conhecer um pouco da história do IBGE, compreende-se esta e outras homenagens do Instituto a um dos responsáveis por sua criação.

 

IBGE1

Busto de José Carlos de Macedo Soares, localizado na Unidade do IBGE na Rua General Canabarro

 

Macedo Soares ou Embaixador como era conhecido, por também desempenhar a função de Ministro das Relações Exteriores do Brasil por duas vezes, a primeira em 1934 e a segunda em 1955, foi o primeiro presidente do IBGE e o mais longevo, permanecendo por 16 anos à frente do Instituto nos períodos de 1936 até 1951 e depois de 1955 até 1956. Além de embaixador, Macedo Soares também desempenhou outras funções no cenário político brasileiro; foi deputado federal na Assembleia Nacional Constituinte (1930), ministro da Justiça (1937) e interventor federal de São Paulo (1945). Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1939) e a Sociedade Brasileira de Geografia do Rio de Janeiro (1945). Para além do seu notável papel político, também foi uma personalidade no âmbito da literatura, tornando-se presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1942.

 

 

Nas palavras de outra personalidade, Christovam Leite de Castro (1991. p. 277), é possível vislumbrar a pessoa ímpar que foi José Carlos de Macedo Soares.

“Havia o presidente do Instituto, que era o embaixador José Carlos de Macedo Soares, aliás, presidente excepcional, pela sua inteligência, pela sua capacidade de trabalho, pela sua representatividade, pelo seu prestígio, pelo seu patriotismo, pelo conhecimento profundo dos problemas brasileiros. Realmente, era personalidade de excepcional projeção não só no País como no exterior. No País, por exemplo, Macedo Soares foi Presidente do IBGE e ao mesmo tempo Presidente da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, também, Ministro das Relações Exteriores”.

Um dos exemplos de como Macedo Soares conhecia os problemas brasileiros foi o seu apoio às mulheres na discussão sobre direitos políticos e serviço militar no âmbito do direito ao voto da mulher, o que ocasionou homenagens de feministas ao embaixador, conforme noticiado no Jornal do Brasil, de 21 de julho de 1934. Macedo estava ciente deste e de outros desafios da sociedade brasileira principalmente no contexto da estatística e da geografia do Brasil, o que o conduziu  a concretizar as concepções de Teixeira de Freitas, o idealizador do IBGE.

 

 

Sobre Teixeira de Freitas, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) expressou:

“E se hoje nos conhecemos mais a nós mesmos, se é possível elaborar planos de governo com base em dados positivos, se a iniciativa particular na promoção de riquezas dispõe de elementos essenciais para conhecimento do meio social e econômico, tudo isso se deve a Teixeira de Freitas. Teve antecessores ilustres e colaboradores de grande porte, mas a ideia, repito, é dele, como também a prática, e dele a maior glória” (Correio da Manhã, 25 de fevereiro de 1956, penúltima coluna).

Na década de 30, antes de atuar no IBGE, Teixeira de Freitas colaborou na reforma administrativa buscando com a racionalização dos serviços públicos a modernização das instituições públicas e seus métodos de gestão. Neste período, defendia a importância das estatísticas para a reforma. E defendia também a educação estatística. Certa vez destacou que “E como muitas vezes — ou quase sempre — os leitores dos dados estatísticos não sabem interpretá-los […]” (FREITAS, 1990, p. 29), destacando a importância do letramento estatístico para os cidadãos e para o país. A concepção de integração de Teixeira de Freitas não tinha como objetivo somente a integração do Brasil, por meio do esperanto [1] ele idealizava a comunicação internacional e a paz universal.

 

O idealismo e o Esperanto, 1954 / Acervo IBGE

O Idealismo e o Esperanto, 1954 / Acervo IBGE

 

Nos planos de integração de Teixeira de Freitas, a Geografia possuía um papel importante em conjunto com a Estatística, desta forma, contou com Christovam Leite de Castro como colaborador na área de Geografia.

Christovam Leite de Castro (1904-2002) tem contato com a Geografia em sua atuação no Ministério da Agricultura (1933) como chefe da Seção de Estatística Territorial, da qual tem origem o Conselho Nacional de Geografia, órgão colegiado que junto do Conselho Nacional de Estatística vieram a formar o IBGE. Por suas diversas atividades em favor do progresso da cidade do Rio de Janeiro, recebeu o título de Cidadão Carioca (1970), a Medalha Estado da Guanabara (1975) e o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro (1987). Essas homenagens se devem principalmente a sua atuação na Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, iniciada em 1930.

 

IBGE5

Homenagem no bondinho ao engenheiro Christovam Leite de Castro, 2018 / Foto de Fábio Carvalho

 

Christovam Leite de Castro foi diretor-presidente da Companhia e o responsável por implementar o novo Sistema Teleférico do Pão de Açúcar (1972), tornando possível, assim, que a cidade do Rio de Janeiro passasse a contar com um sistema mais seguro. Na fundação do Conselho Nacional de Geografia, Leite de Castro contou com a colaboração de Fábio de Macedo.

Fábio de Macedo Soares Guimarães (1906-1979) atuou no Serviço de Estatísticas Territoriais do Ministério da Agricultura. Posteriormente, junto com o grupo de especialistas reunidos com o objetivo de unificar o serviço estatístico federal, transfere-se para o Instituto Nacional de Estatística, denominado mais tarde de IBGE. Em 1941, como chefe da Seção de Estudos do Conselho Nacional de Geografia, realizou análises sobre a divisão territorial do País, que passaram a influenciar a divulgação de pesquisas no IBGE, apresentando a partir de então os resultados tabulados de acordo com os estados agrupados, segundo a distribuição dos estados brasileiros em Grandes Regiões (GUIMARÃES, 2006).

 

IBGE6

Revista Brasileira de Geografia, abr./jun. de 1941. Regiões do Brasil segundo vários autores

 

 

Os estudos de Fábio de Macedo relacionados à divisão regional do Brasil balizaram a divisão regional do Brasil em cinco grandes regiões adotada oficialmente em 1942. Nesse contexto, determinou matematicamente o centro exato do Brasil, que se situa no nordeste de Mato Grosso, e não em Goiás, como se pensava. Atuou de forma marcante nos estudos que recomendaram a localização da nova capital do Brasil. Para colaborar com o trabalho desenvolvido no Conselho Nacional de Geografia, Fábio de Macedo contou com o apoio do consultor Allyrio Hugueney.

Allyrio Hugueney de Mattos (1889- 1975)** inicia como consultor técnico no Conselho Nacional de Geografia em 1939 e assume cargos de relevância, dentre eles o de diretor da Divisão de Cartografia. Torna-se o responsável pelo cumprimento do Decreto-Lei nº 311/1938, conhecido como Lei Geográfica do Estado Novo, que obrigava a criação de mapas para a elaboração da Carta do Brasil. Como orientador da Campanha das Coordenadas Geográficas organizada pelo Conselho Nacional de Geografia (1939), entre outras atividades, determina a localização das sedes municipais por suas coordenadas geográficas e escolhe o sistema de representação cartográfica adequado à elaboração dos mapas. A relevância do trabalho de produção de mapas nesse período se reflete em suas palavras: “O Brasil tem fome de mapas. Diariamente, quer de dentro do país, quer de fora, chegam solicitações de mapas que não existem” (IBGE, 2016).

Nas pesquisas de campo, das quais foi o precursor, atuou utilizando novos equipamentos, o que permitiu a implantação de métodos geodésicos de coordenadas geográficas inovadores, que posteriormente seriam base para o desenvolvimento de projetos nas regiões privadas de cobertura cartográfica. Allyrio Hugueney recebeu diversas homenagens em reconhecimento ao trabalho que desenvolveu, destacando-se entre eles a condecoração da Ordem La Rose Blanche, em 1948, do governo da Finlândia, por colaborar com valorosos serviços durante o eclipse total do sol. E do IBGE recebeu como homenagem a nomeação do marco geodésico [2] norte de número 2250 de Base Allyrio de Mattos, situado em sua cidade natal, Cuiabá.

 

 

Após sua instalação, em 1936, o IBGE tinha somente quatro anos para planejar, estruturar, coordenar e operacionalizar seu primeiro recenseamento de 1940, e para colaborar no que seria um grande feito do Instituto, Macedo Soares convidou o Professor Mortara.

Giorgio Mortara (1885-1967) chegou com sua família ao Brasil, em 1939, fugindo de perseguições na Itália em razão do regime totalitarista. A convite do presidente do Instituto, atuou como consultor-técnico da comissão responsável por preparar e realizar o recenseamento de 1940. Utilizou metodologias inovadoras, até o momento inéditas no País no contexto da ciência demográfica. A criação do Laboratório de Estatística, ligado ao Conselho Nacional de Estatística, foi importante no cenário nacional para a formação de novos profissionais. Por sua contribuição na área de ensino da Estatística e em prol da cultura nacional, recebeu o título de professor Honoris Causa da Universidade do Brasil, em 1953.

 

 

Em 1942, o Brasil decide entrar na Segunda Guerra Mundial após ter navios mercantes torpedeados, declarando assim guerra à Itália e à Alemanha. Segundo as orientações do governo, o professor Mortara e seu filho, que atuava na Divisão da Receita da Comissão de Orçamento da República, deveriam ser enviados para os campos de concentração. Contudo, por influência de Macedo Soares, Teixeira de Freitas, Carneiro Felippe e outros, o professor e seu filho continuaram contribuindo para o desenvolvimento do Brasil, que passou a ser considerado por Mortara como sua segunda pátria. Após o final da guerra, Mortara foi reconduzido à cátedra na Universidade de Roma, porém decidiu permanecer no Brasil a fim de completar o trabalho que lhe fora confiado. Retornou à Itália, em 1956, após segundo convite para regressar à cátedra. Como seus filhos permaneceram no Brasil, Mortara passava longos períodos no Rio de Janeiro, onde veio a falecer, em 1967.

Como vimos, o IBGE não surgiu de forma repentina, mas foi fruto de um longo caminho de debates e articulações políticas.

O fato é que os primeiros anos do IBGE podem ser considerados como anos heroicos, pois foram momentos decisivos para a sua história  e para o desenvolvimento das estatísticas e da geociência no Brasil. Esse heroísmo pode ser atribuído às pessoas que fizeram parte daquele momento especial, como também das próprias decisões que estavam sendo tomadas nas assembleias destes quatro primeiros anos do Conselho Nacional de Estatística.

Esses pioneiros enfrentaram grandes desafios para consolidar o órgão como referência em estatística e geografia no Brasil.

O processo que culminou na criação do IBGE foi resultado da atuação de diversas figuras visionárias que reconheceram a importância da Estatística como ferramenta indispensável para a modernização do Estado brasileiro. Além dos citados, muitos outros profissionais contribuíram e contribuem ainda hoje para o desenvolvimento do IBGE. Entretanto, aos pioneiros o Instituto reserva honrarias especiais devido a tudo que fizeram pelo IBGE e pelo Brasil.

 

[1] O esperanto foi criado em 1887 pelo sábio médico polonês Lázaro Ludovico Zamenhof com o fim de tornar-se uma língua auxiliar internacional, isto é, uma língua segunda que cada nação estudaria ao lado de seu idioma nacional. O Dr. Zamenhof somente procurou criar uma língua artificial depois que se convenceu de que nenhuma das línguas vivas ou mortas poderia preencher o papel de língua internacional. FREITAS, M. A. T. de. O Esperanto no Brasil. Revista Brasileira de Estatística, Rio de Janeiro: IBGE, v. 6, n. 22, p. 197-206, abr./jun. 1945.

[2] As estações geodésicas são caracterizadas por um pequeno monumento de concreto denominado marco com uma pequena chapa metálica encravada em seu topo ou, simplesmente, a chapa metálica encravada em uma base (monumento, degrau de escada de acesso a prédios públicos) que garanta sua preservação. IBGE. Padronização de Marcos Geodésicos. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/metodos-e-outros-documentos-de-referencia/normas/16466-padronizacao-de-marcos-geodesicos.html?=&t=sobre. Acesso em: Acesso em: 13 dez 2024.

 

* Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

**Nota da editora: lembramos que Allyrio Hugueney de Mattos era astrônomo e integrou a equipe brasileira, liderada por Henrique Morize (1860-1930), que produziu registros fotográficos do eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, realizados por astrônomos brasileiros do Observatório Nacional e também por cientistas de outros países, em Sobral, no Ceará. Além de Allyrio, integravam a equipe brasileira os também astrônomos Domingos Fernandes da Costa (1882 – 1956) e Lélio Itapuambyra Gama (1892 – 1981), o químico Theophilo Henry Lee (1873 – ?), o meteorologista Luís Rodrigues, o mecânico Arthur de Castro Almeida e o carpinteiro Primo Flores.

 

Fontes:

CASTRO, Christovam Leite de. História oral do IBGE. Entrevista concedida à Equipe de Memória Institucional em 1991. In.: MALAVOTA, Leandro Miranda, 1976-. Christovam Leite de Castro e a geografia no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2013. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv64829.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024. 

FREITAS, M. A. Teixeira de. O Idealismo e o esperanto. Rio de Janeiro: IBGE, 1954. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv81724.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

FREITAS, M. A. Teixeira de.  Teixeira de Freitas: pensamento e ação. Rio de Janeiro: IBGE, 1990. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv22093.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024. 

GUIMARÃES, Fábio de Macedo Soares. O Pensamento de Fábio de Macedo Soares Guimarães: uma seleção de textos. Rio de Janeiro: IBGE, 2006. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv29363.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024. 

IBGE. Pioneiros do IBGE (1): José Carlos de Macedo Soares e Allyrio Hugueney de Mattos, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UEFjEU8XsSc. Acesso em: 13 dez. 2024. 

IBGE. Centro de Documentação e Disseminação de Informações. Encontro comemorativo do centenário de Teixeira de Freitas. Rio de Janeiro: IBGE, 1994.  Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv47713.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE, Centro de Documentação e Disseminação de Informações. Giorgio Mortara : ampliando os horizontes da demografia brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv34492.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. Allyrio Hugueney de Mattos. Disponível em: https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/pioneiros-do-ibge/20975-allyrio-hugueney-de-mattos.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. Christovam Leite de Castro. Disponível em: https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/pioneiros-do-ibge/20856-christovam-leite-de-castro.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. Fábio de Macedo Soares Guimarães. Disponível em: https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/pioneiros-do-ibge/20976-fabio-de-macedo-soares-guimaraes.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. Giorgio Mortara. Disponível em: https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/pioneiros-do-ibge/20977-giorgio-mortara.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. José Carlos de Macedo Soares. Disponível em: https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/galeria-de-presidentes/20968-jose-carlos-de-macedo-soares.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

IBGE. Memória Institucional. Mário Augusto Teixeira de Freitas. Disponível em:  https://memoria.ibge.gov.br/historia-do-ibge/pioneiros-do-ibge/20978-mario-augusto-teixeira-de-freitas.html. Acesso em: 13 dez. 2024.

JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro: [s.n.], 1891- . Diária. Disponível apenas em formato digital, 1 set. 2010- ; Retornou a forma impressa, ano 127, n. 1 (25 fev. 2018)-. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docmulti.aspx?bib=030015&pesq=. Acesso em: 12 dez. 2024. 

MALAVOTA, Leandro Miranda, 1976-. Christovam Leite de Castro e a geografia no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2013. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv64829.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. Embaixador Macedo Soares, um príncipe da conciliação: recordando o 1. presidente do IBGE. Rio de Janeiro: IBGE, 2008.  Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv38831.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. História das estatísticas brasileiras. Rio de Janeiro: IBGE, 2008. v. 3. Estatísticas organizadas (c.1936-1972). Prefácio por Angela de Castro Gomes. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv 31573_3.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. Tradição & renovação: uma síntese da história do IBGE. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv99039.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” V – É Natal na Brasiliana Fotográfica!

Com três imagens do acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro, incorporado, em 2016, pelo Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal celebra o Natal! O conjunto dos Diários adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o O Jornal, comprado por Assis Chateaubriand (1892-1968), em outubro de 1924, e primeiro órgão dos Diários Associados; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931. Os Diários Associados já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil. Leitores, apreciem as fotografias selecionadas, decorações de celebrações natalinas realizadas, provavelmente, na década de 1940! A equipe da Brasiliana Fotográfica deseja a vocês um Feliz Natal e um Ano Novo de muitas alegrias e realizações! Lembramos que em 2025 nosso portal celebrará 10 anos!

 

 

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias das decorações de Natal pertencentes ao acervo dos Diários Associados(RJ) – Acervo IMS disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus” XX – A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a “Eva Militante”

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante,  o 20° da série Feministas, graças a Deus!. Foi escrito pela historiadora Cibele Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco, uma das instituições parceiras do portal. Publicamos também uma breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira, escrita pela editora e pesquisadora do portal, Andrea C.T. Wanderley.

Edwiges de Sá Pereira tornou-se ainda jovem uma poetisa reconhecida nacionalmente, tendo suas poesias e artigos publicados em jornais e revistas do Brasil. Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, que com sua eleição tornou-se a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. Foi também presidente da Associação das Damas de Beneficência, a primeira presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso das Mulheres, integrante do Comitê Feminino da Maternidade do Recife, sócia colaboradora da Associação Pernambucana de Imprensa e professora da Escola Normal do Recife.

No artigo, estão destacadas duas imagens de Edwiges pertencentes ao acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas foram produzidas pelo fotógrafo Louis Piereck (1880-1931), que já foi tema de uma publicação da Brasiliana Fotográfica. A foto em que Edwiges está sem chapéu foi publicada na revista A Nota (PE), de 22 de maio de 1920 em uma matéria que a felicitava pelo ingresso na Academia Pernambucana de Letras. A imagem dela com chapéu é, conforme o verso da foto, de 29 de agosto de 1909, ano em que foi nomeada diretora da escola estadual da Boa Vista. Também no verso, consta que Edwiges  presenteou algum amigo ou amiga com a fotografia.

 

 

De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, Louis Piereck atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Considerado talentoso, Piereck tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante

Cibele Barbosa*

 

 

Edwiges de Sá Pereira foi uma mulher que não se conformou com as imposições de seu tempo. Nascida, em 1884, no município de Barreiros, estado de Pernambuco, a filha de José Bonifácio de Sá Pereira e de Maria Amélia Rocha de Sá Pereira, nutria, desde cedo, o interesse pelos livros. Conforme descreveu em suas notas autobiográficas, costumava ler escondido os livros dos irmãos mais velhos, em especial aqueles dedicados à poesia, que copiava e declamava em reuniões de família.

A menina que costumava dizer aos familiares que “haveria de ser poeta”, não tardou a cumprir seu intento. No início da adolescência, publicou um jornalzinho, o “Echo Juvenil”, juntamente com seu irmão Eugênio. Algum tempo depois, chegaram-lhe às mãos, pelos correios, exemplares do jornal O Paiz (RJ) com versos seus transcritos e apresentados pelo escritor Arthur Azevedo. A jovem poeta, do interior de Pernambuco, teve seu soneto “A uma estrela” reproduzido também na Revista do Brasil (SP), acompanhado de comentários entusiasmados de Cunha Mendes ao prenunciar que a menina se tornaria “a primeira poetisa do Brasil”.

Um ano antes de se mudar com sua família para o Recife, ainda vivendo na cidade de Barreiros, Edwiges teve seu primeiro livro publicado e prefaciado pelo jurista e poeta português Antônio de Souza Pinto, em 1901. A ideia de publicar os 51 versos da jovem escritora ocorreu-lhe quando estava de férias no interior e teve a oportunidade de ser apresentado aos poemas de Edwiges. Levou os manuscritos para a capital e os publicou com o título Campesinas.

Na edição de 17 de agosto de 1901, anunciava o Jornal Pequeno o recebimento do “mimoso livro” de Edwiges, impresso na forma de folheto, com 80 páginas. Ainda em 1901, fundou o pequeno jornal literário, o Azul e Ouro, com seu irmão Eugênio e seu amigo Caetano Andrade. Sua família se mudou para o Recife naquele período, após seu pai ter vendido o engenho na cidade de Barreiros para ocupar um cargo do governo do estado na capital pernambucana.

Já instalada na capital, Edwiges ingressou na Escola Normal para obter formação no magistério e tornar-se professora. Paralelamente aos estudos pedagógicos, a jovem participou ativamente da vida literária de seu tempo, contribuindo com seus escritos para jornais e revistas. Em 1902, colaborou com a Revista Pernambucana e foi convidada para ser uma das redatoras do jornal O Lyrio, formado somente por mulheres. Entre as companheiras da publicação estavam Amélia Beviláqua e Úrsula Garcia. Os textos desafiavam a rígida sociedade patriarcal da época refletindo sobre a importância da educação escolar e profissional para as mulheres, entre outras pautas como a equidade salarial. 

 

 

A partir de então, não parou mais, tendo sido convidada a ser sócia correspondente da recém-fundada Academia Pernambucana de Letras. Colaborou assiduamente em jornais como o Jornal Pequeno, do Recife, no qual foram publicados poemas seus inéditos e traduções de poetas como o simbolista Lorenzo Stecchetti, um dos pseudônimo do italiano Olindo Guerrini (1845-1916). Era sempre adjetivada por seus admiradores de “adorável”, “inteligente poetisa”.

Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, aliás a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. A normalista e poeta, defensora dos direitos das mulheres, ocupou a cadeira n.7 da APL, no lugar do acadêmico João Batista Regueira Costa, a quem dedicou o texto Um passado que não morre.

Em sua casa, na rua do Sossego, bairro da área central do Recife, Edwiges recebia convidados e declamava poemas em italiano, em especial os da poeta Ada Negri. Também nesse espaço eram comuns os encontros de mulheres que se dedicavam às causas da emancipação feminina.

Professora catedrática da Escola Normal, onde realizou sua formação como professora, Edwiges também atuou como professora de português no curso comercial do Colégio Eucarístico e assumiu a disciplina de História Geral e do Brasil no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Seu engajamento no campo da “instrução pública”, como se dizia à época, levou-lhe ao cargo de superintendente de ensino dos grupos escolares da capital pernambucana, cargo que lhe permitiu viajar para outros estados em eventos e oficinas ligadas à educação. O governo estadual chegou a publicar suas Impressões e notas (questões do ensino).

A participação ativa como educadora se alinhava às suas causas políticas. Para Edwiges era necessário que os governos investissem na educação das mulheres. Em 1931, participou do II Congresso Internacional Feminista, promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada por Bertha Luz, em 1922. Na ocasião, a escritora pernambucana apresentou o texto Pela mulher, para a mulher, publicado no ano seguinte. Em seu discurso, Edwiges exortava as mulheres de diferentes extratos sociais a se unirem para reivindicar direitos políticos e direito à educação.

Como consequência das articulações e redes que construiu no Rio de Janeiro, fundou, no mesmo ano, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). A primeira sessão da Federação Pernambucana teve participação de Odila Porto de Oliveira, representando a FBPF. Edwiges, presidente da filiada pernambucana, apresentou os projetos e propostas voltadas para “campanhas em prol dos direitos e demais interesses da mulher”. Na mesma ocasião, anunciou o projeto de um levantamento estatístico das “mulheres que exercem atividades no funcionalismo em Pernambuco, no comércio, no magistério”, de modo a subsidiar a criação de uma “Escola de Oportunidades”, ideia de Noemia Xavier, vice-presidente da Federação Pernambucana. A primeira ata foi assinada, em novembro de 1931, por 47 mulheres.

 

edwiges17cibele_red

Ata da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, 10 de novembro de 1931 / Acervo Fundaj

 

Nas eleições de 1933 para o parlamento, Edwiges, pelo Partido Economista, e a também escritora Martha de Hollanda, sem partido, foram as únicas mulheres a se candidatarem em Pernambuco. Apesar de não terem sido eleitas, deixaram sua marca na constituição do eleitorado feminino no Brasil.

Em 1947, Edwiges publicou a conferência “A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra”, na qual expôs os principais desafios do século XX e os impactos da catástrofe da II Guerra Mundial. Apontou retrocessos históricos, afirmando que a “questão feminista bem longe está do seu rumo necessário”.

 

edwiges16cibele

A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra, 1947 / Acervo Fundaj

 

A “Eva Militante”, como assim se nomeou em artigos de jornais nos anos de 1930, e “imortal” da Academia Pernambucana de Letras, deixou escritos de sua trajetória e projetos de futuro. Faleceu em 1958, aos 74 anos, com planos de publicar suas crônicas sociais, textos feministas e escritos poéticos. Horas Inúteis, livro de poemas, foi publicado postumamente.

 

*Cibele Barbosa é historiadora da Fundação Joaquim Nabuco.

 

Breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira (1884-1958)

Andrea C.T. Wanderley**

 

 

1884 - Em Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, nascimento, em 25 de outubro, de Isabel Edwiges de Sá Pereira, futura escritora, educadora, líder feminista e sufragista. Filha do barachel em Direito e senhor de engenho José Bonifácio de Sá Pereira (c.1831-1916) e da dona de casa Maria Amélia Rocha de Sá Pereira (18?-1915), pertencia à aristocracia latifundiária e letrada de Pernambuco. Era irmã dos advogados Virgílio e Manoel Arthur, do advogado e poeta Eugenio, o advogado e jornalista Eurico; e Érico, Nanette, Margarida, Fredovinda, Cândida, Adalgisa e Marieta.

1895 – Com apenas 11 anos de idade escreveu o poema Saudade, um dos seus primeiros textos de que se tem registro.

1886/1897 – Com seu irmão, Eugênio, criou o jornalzinho manuscrito Echo Juvenil, com pequenos textos e poesias, que circulava entre os seus familiares.

1897 - Algumas de suas poesias que se encontravam no Echo Juvenil foram publicadas no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, com apresentação do jornalista, escritor e dramaturgoArtur Azevedo (1855-1908) (O Paiz, 7 e agosto de 1897, primeira coluna).

A revista A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, foi criticada por não ter incluído Edwiges e outras escritoras no artigo de fundo de sua primeira edição. Era dirigida pela poetisa e feminista mineira Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944) (Revista do Brazil, setembro de 1897).

 

 

Seu poema Primaveras foi publicado (Revista do Brazil, 30 de novembro de 1897).

Publicação de seu poema A jurity ao beija-flores (Revista do Brazil, 30 de dezembro de 1897).

1898 – Algumas poesias de sua autoria foram publicadas na Revista do Brazil (Correio Paulistano, 8 de janeiro de 1898, terceira coluna).

Publicação de um soneto de sua autoria no Jornal do Recife, de 24 de maio de 1898.

 

1899 – Na revista Mensageira, n° 26, publicação de poesias de Edwiges (A Meridional, 1899).

Publicação de suas poesias SimileScenas Simples, na Revista do Rio Grande do Norte, outubro de 1899.

 

edwiges5

edwiges1

 edwiges2

 

1900 – Publicação de seu poema A Cigana, dedicado a Auta de Souza (A Província, 25 de setembro de 1900, terceira coluna).

1901 – Publicação de Campesinas, seu primeiro livro, com 51 poemas, prefaciado pelo jurista e poeta Antonio Souza Pinto (18-19), entusiasta da publicação. Ele havia conhecido Edwiges em uma viagem que fez a Barreiros (Almanaque do Garnier, 1903). Ofereceu um exemplar do livro à Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 17 de setembro de 1901, sexta coluna).

 

 

A obra recebeu boas críticas no Recife. Alguns de seus poemas foram:

Meu livro

Perdoa-me se um dia, Tuas nevadas folhas descerrando, Alguém, meu fraco mérito acusando, De ti chasqueie e ria, Não te escrevi, meu livro, para os sábios, Para os sábios, bem sei que tu não prestas… Tinha minh’alma em festas E um riso alegre a me enfeitar os lábios, E antes que me viessem vis ressábios A alegria turvar de minha vida, Eu quis cantar e essas canções modestas Fui tirando da lira estremecida. Tudo quanto da vida eu penso, e via Nos meus sonhos gentis e soberanos, Tudo quanto me enleva a fantasia – Canto na lira azul dos verdes anos!

Barreiros,1900.

No lar

À minha irmã Margarida

Ri-se na sala a trêfega criança, Como a enxotar a mágoa que domina A natureza, quando o sol declina Para o ocaso feliz onde descansa… Na estofada cadeira se embalança Uma jovem mulher, e a fronte inclina Para beijar a filha pequenina, De sua vida a lúcida esperança. Reflete o espelho a serpentina acesa, À luz da qual uma velhinha reza, E eu vejo a fé impressa no seu rosto… Basta em todas as casas esta cena, Assim tão meiga, plácida e serena, Para alegrar as horas do sol posto.

Barreiros, 1898.

Dor suprema

Pranto supremo, pranto dolorido, Companheiro da dor, pranto pungente Dize-me tu, que tornas comovente O suspirar de um coração ferido. Dize-me tu que já de toda a gente Ouviste o peito a soluçar dorido. Sim! Tu que és sempre o intérprete escolhido De quem os golpes do infortúnio sente: Dize-me tu se por acaso existe Dor tão cruenta, padecer tão triste Como de um’alma as duras aflições, Ao ver cortando a vastidão imensa Da região sombria da descrença O bando das primeiras ilusões.

Barreiros, 1900

A uma estrela

Áquela estrêla que acompanha a lua / Eu, curiosa perguntei um dia: / – Qual de vós vale mais, a que flutua / No céu azul da minha fantasia, // Ou tu que, no correr da noite fria, / Erras no céu assim, pálida e nua, / Das esferas ouvindo essa harmonia / Que, até ouvi-la o velho mar estua? // E a clara estrêla disse-me: “Criança, / Quando fanada a última esperança, / A alma ficar-te de ilusão vazia. // Inda hás de verme fulgurar, divina; / Mas, onde encontrarás a que ilumina / O céu azul da tua fantasia”?

       Desolada   

A meu Pai

Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde reza uma oração, fitando O vulto de Maria no sacrário. Dos belos olhos seus vem deslisando Um rosário de lágrimas ardentes, Que se lhe vai no colo desmanchando. Na posição dos pobres penitentes – Joelhos em terra, mãos entrelaçadas – Envia à Virgem súplicas ferventes. De pungente amargura repassadas São as frases que, triste, balbucia Com o fervor das almas desoladas. Pede à clemente e divinal Maria – Testemunha da dor que a dilacera – O bálsamo que as mágoas alivia. Suplica, reza e, soluçando, espera – Fitando sempre o casto santuário – A proteção da santa que venera. Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde pensa que tardar não deve O remédio que abrande o seu fadário… Beija a cruz do rosário, e não se atreve, Não faz o mesmo à cruz que lhe foi dada… Acha a que tem na mão pequena e leve, E a que carrega por demais pesada!

Barreiros, 1896

Madrigais

A Hortência

Para enfeitar o céu – quantas estrelas E tu, melhor do que elas Brilham de noite, apenas, no infinito Brilhas a qualquer hora aqui na terra! É que o intenso fulgor Do astro mais esplendente e mais bonito Tens nos olhos, ó flor, (mago espelho de uma alma sem refolhos!) Si eu fosse estrela, inda que fosse Vênus, Teria inveja de teus lindos olhos!

Musa sensível

Seja teu coração bondoso e terno Sensível para o riso e para o luto! O mundo chora e ri, e eu vejo e escuto, Que se às vezes é céu, outras é inferno! Se eu te visse assistir de olhar enxuto Desta vida que passa ao drama eterno, E, a um mesmo gesto, único e supremo, Confundir o que é bom e o que é poluto; Se eu te visse impassível e serena Ante o bem, ante o mal, de que deriva Ora o gozo, ora a mágoa que envenena, Eu que tanto te estimo e te respeito, Musa, sentirá a dor pungente e viva De extinguir -se teu culto no meu peito!

Eduardo de Carvalho (18?-19?), membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras, fundada em 26 de janeiro deste ano por iniciativa de Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913) e de um grupo de 19 escritores pernambucanos, fez uma bela crítica ao seu livro e a convidou para ser sócia correspondente da instituição. A Academia Pernambucana de Letras foi a quarta do Brasil, tendo sido precedida pela Academia Cearense de Letras, fundada, em 1894;  pela Academia Brasileira de Letras, fundada no Rio de Janeiro, em 1897; e pela Academia Paraense de Letras, fundada em 1900.

Edwiges colaborava com diversos jornais no país, dentre eles, O Norte (RJ) e o Escrutínio (RS), e com revistas, como a Revista Feminina (SP).

Publicação de seu poema Maria Amelia (Almanach de Pernambuco, ).

Era uma das redatoras da revista Azul e Ouro, órgão literário da Oficina Martins Junior, da qual era sócia honorária correspondente. A Oficina havia sido fundada em 1900 (Revista do Brazil, 1901).

Em fins deste ano, seu pai vendeu o engenho em Barreiros e foi morar com sua família no Recife, onde passou a trabalhar para o governo do Estado.

1902 - Edwiges, Adalgisa Duarte Ribeiro, Amélia Freitas Bevilacqua, Belmira Villarim, Cândida Duarte Barros, Luiza Ramalho e Maria Augusta Freire fundaram revista O Lyrio, cujo primeiro exemplar foi lançado em 5 de novembro. Em várias de suas 20 edições, abordava a importância da educação da mulher e a pouca atenção dos governantes em relação à instrução feminina. A publicação, encerrada em junho de 1904, foi importante para a difusão do ideário feminista baseado na educação como o único caminho para a emancipação da mulher. A Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, possui sete exemplares da revista armazenados na Divisão de Obras Raras e na Coordenadoria de Publicações Seriadas (Diário de Pernambuco, 10 de outubro de 1902, última coluna).

“Escrita somente por mulheres tem como redatora-chefe D. Amelia de Freitas Bevilaqua e como redatora-secretária D. Candida Duarte Barros. Participavam da redação as sras. Adalgisa Duarte Ribeiro, Belmira Villarim, Edwiges de Sá Pereira, Luiza Cintra Ramalho, Maria Augusta Freire  e Ursula Garcia. Impresso pela Emp. d’A Província, com exceção do primeiro exemplar, que foi na Imprensa Industrial. Na última página de cada exemplar encontra-se a informação de que “toda correspondência deve ser dirigida para rua do Lima, n.54, residência da Redactora-Secretaria”, e o valor da revista: número avulso custava 1$000 e a assinatura trimestral era de 2$000″.

BNDigital

 

Alguns de seus poemas publicados em O Lyrio foram Simile (n°1, novembro de 1902), dedicado a sua mãe; Paisagem (n°2, dezembro de 1902), Auta de Souza e  Esther (n°4, fevereiro de 1903)Olhos Verdes (nº 5, março de 1903); A um raio de sol (nº 6, abril de 1903); O Malmequer (nº 7, maio de 1903), e Miss (n°13 e 14, novembro e dezembro de 1903).

 

Olhos Verdes

Teus olhos verdes eu fito
Mas logo depois não sei
Se foi do excelso infinito
Divina estrella que olhei.

É que teu olhar encerra
Tanta graça e tanta luz
Que eu penso não ser da terra
O brilho que me seduz!…

Teus olhos, flor adorada,
São de um poder soberano:
E a gente os fita enlevada
Qual se contemplasse o oceano…

Não é que nelles escondas
Essa perola do mar,
Mas toda a attração das ondas
Tu tens guardada no olhar!

Eu nesse olhar adivinho
– Como a chimera vagueia! –
Candura de passarinho
Fascinação de sereia!…

O canto sonho do poeta
Nas noites claras de lua,
Semelha a chamma dilecta
Que nos teus olhos fluctua…

Formosa é sempre a esperança,
Pois vês teus olhos querida,
Têm a cor desta ave mansa
Que tece os sonhos da vida!…

Se pudessem teus olhares
Ver toda a immensa amargura
Do mundo eu via os pesares
Transformados em ventura…

Das almas tristes chorosas,
O pranto num doce riso,
A vida – num mar de rosas,
A terra num paraíso!…

 

Era considerada uma charadista (Almanach de Pernambuco, 1902).

Era uma das redatoras da Revista Pernambucana, que existiu entre 1902 e 1904 (Gazeta de Notícias, 26 de dezembro de 1902, sexta coluna).

1903 – Estudava na Escola Normal, onde se formou como professora, em 1905.

Publicação de seu poema Março (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Publicação de seu poema No camarim (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Seguia colaborando com a  Revista Pernambucana (Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1902, quinta coluna).

1904 - Foi eleita vice-presidente do clube literário Olintho Victor, fundado por estudantes da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1904, sétima coluna).

Seus poemas estavam presentes na publicação Sonetos brasileiros, editada por Laudelino Freire (1873-1937) (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1904, quarta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1904).

Ofertou livros à Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1904, sexta coluna).

Foi publicada uma foto de Edwiges no Almanach de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 10 de agosto de 1904, segunda coluna).

Foi a oradora na cerimônia de bênção do estandarte do corpo discente da Escola Normal, realizada na Ordem 3ª de São Francisco (Jornal Pequeno, 24 de setembro de 1904, segunda coluna).

Foi anunciado que a Oficina Martins Junior, que já existia desde 1900 e que em 1901 elegeu a revista Azul e Ouro como seu órgão literário, seria reconstituída em 2 de outubro, em uma sessão no Instituto Arqueológico Pernambucano. Em 1901, Edwiges havia se tornado sócia honorária correspondente da Oficina, mas na reorganização da agremiação tornou-se efetiva (Jornal do Recife, 11 de setembro de 1900, primeira coluna; Jornal do Recife, 2 de abril de 1901, penúltima colunaDiário de Pernambuco, 29 de setembro de 1904, segunda coluna; Jornal do Recife, 2 de outubro de 1904, última coluna).

Foi aceita como sócia honorária do Grêmio Literário Pantheon de Lettras (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1904, penúltima coluna).

Fez um discurso como representante do segundo ano da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1904, primeira coluna).

1905 – Na Revista Pernambucana, publicação de seu poema Amor (A Província (PE), 15 de fevereiro de 1905, quinta coluna).

Foi eleita presidente do Clube Literário Olintho Victor (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1905, primeira coluna).

Formou-se na Escola Normal (Diário de Pernambuco, 27 de outubro de 1905, quinta coluna). Em 19 de outubro, foi promovida a festa da Escola Normal das formandas de 1905 e Edwiges foi a oradora do evento (Almanach de Pernambuco, 1911).

A letra do hino da Escola Normal era de sua autoria (Diário de Pernambuco, 28 de novembro de 1905, sexta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1905).

1907 –  Publicação de seu poema Desolação (Almanach de Pernambuco1907).

Na rua da Aurora, n° 123, foram realizados os exames da escola particular mista presidida por Edwiges (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1907, quarta coluna).

Angariou fundos para a construção de uma estátua em homenagem ao poeta, professor e jurista Martins Junior (1860-1904) (Jornal do Recife, 26 de junho de 1907, última coluna).

Foi uma das colaboradoras da terceira edição de novembro/dezembro da revista Polyantho, sob a direção de Martins Filho (Jornal do Recife, 4 de janeiro de 1908, sexta coluna).

1908 - Publicação de seu poema Aves Libertas, dedicado a Aurea Jacome (Jornal do Recife, 1° de abril de 1908, última coluna).

Assumiu o cargo de professora primária do Estado de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1908, segunda coluna). Durante sua carreira no magistério lecionou Prática Didática e Pedagogia. Também foi professora de Português do curso Comercial do Colégio Eucarístico. Depois tornou-se catedrática da Escola Normal e mestra da cadeira de História Geral e do Brasil, do Instituto Nossa Senhora do Carmo. Posteriormente foi superintendente do Ensino nos Grupos Escolares do Recife.

Foi publicado um poema de sua autoria acerca da esperança (Diário de Pernambuco, 19 de fevereiro de 1908, última coluna).

1909 – Foi nomeada diretora da Escola Estadual da Boa Vista. No fim do ano, foi realizada na escola uma festa magnífica (Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1909, terceira coluna; Jornal do Recife, 7 de dezembro de 1909, sexta coluna).

Publicação de seu poema Maio (Jornal Pequeno, 7 de maio de 1909, terceira coluna).

Publicação de seu soneto O Violino.

“Magno instrumento a tua voz parece / A voz do coração que á gente fala: – / Ninguem te ouvindo o seu pezar esquece, / Ninguem te ouvindo os seus sorrisos cala… // Quando, ou tranqüilo e doce como aparece / Ou presto e alegre um som de ti revela, / – Queixa de quem magoas de amor padece / Canto de quem feliz amor propala, // O sêr que bebe o influxo soberano / Das emoções diversas de teu peito / Que pulsa e vibra como o peito humano, // Presa de enleio e de fascinação / Pensa um momento que tu foste feito / Das próprias cordas do seu coração…”

A “Secção Chic” do Jornal Pequeno foi aberta com a publicação do poema Inverno, de sua autoria (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1909, terceira coluna).
Foi elogiada em um artigo de Adelmar Tavares (1888-1963) (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1909, primeira coluna).
Foi noticiado que Edwiges havia enviado ao Jornal Pequeno belíssimos escritos para a Secção Chic do periódico sob o pseudônimo de Jessie Yorke. Foi descoberta e como artigo editorial foi publicado na primeira página do jornal o artigo Triste, de sua autoria (Jornal Pequeno, 16 de outubro de 1909, primeira coluna)
Após a palestra Trovas e trovadores proferida por Ademar Tavares, na Sexta Conferência Literária realizada pela Academia dos Nullos, uma associação de jovens acadêmicos, Edwiges ofereceu-lhe flores (Jornal Pequeno, 4 de outubro de 1909, segunda coluna).

Participou da organização de uma quermesse que seria realizada em 16 de janeiro de 1910 em benefício do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (A Província, 21 de dezembro de 1909, terceira coluna).

1910 - Publicação de uma fotografia de Edwiges no Almanach Literário Pernambucano (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1910, terceira coluna).

Ao longo do ano, publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria ManiasSombras, Não sei…, A esmo, O Lenço Azul, O Ensino ProfissionalPela infância; Sol Posto, Tradições, Fazer o bem, Grandes e pequenos, O Signal, Educação e Noite de Natal (Jornal Pequeno, 15 de janeiro de 1910, 22 de janeiro de 1910, 29 de janeiro de 1910, 5 de fevereiro de 1910, 12 de fevereiro de 1910, 19 de fevereiro, 5 de março de 1910, 12 de março de 1910, 2 de abril de 1910, 9 de abril de 191030 de abril de 1910, 7 de maio de 1910, 21 de maio de 1910 e 24 de dezembro de 1910).

O poema Vagando, assinado por Cecy, foi dedicado a ela (Jornal Pequeno, 5 de março de 1910, penúltima coluna).

Viajou para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 27 de maio de 1910, última coluna). Durante sua estadia, fez uma visita à Escola Normal (O Paiz, 16 de julho de 1910, última coluna). Em uma de suas colunas, a escritora e feminista Julia Lopes de Almeida (1862-1934) comentou a viagem de Edwiges (O Paiz, 1º de novembro de 1910, segunda coluna).

Publicação de seu poema Amor (Jornal Pequeno, 28 de maio de 1910).

Para tratar de sua saúde, licenciou-se do magistério (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1910, penúltima coluna).

Publicação de Nedda, de sua autoria (A República, 29 de outubro de 1910, quarta coluna).

1911 - Publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria Anno Bom, Pelo ensino, Ferri e Gaffre 1, Ferri e Gaffre 2, Ferri e Gaffre 3, Selma, Cortezias, Epistolar, Um livro novo, Mal entendido, A Chronica, Horas mysticas (Jornal Pequeno2 de janeiro de 1911, 14 de janeiro de 1911, 21 de janeiro de 1911, 28 de janeiro de 1911, 4 de fevereiro de 1911, 25 de fevereiro de 1911, 4 de março de 1911, 11 de março de 1911, 18 de março de 1911, 1º de abril de 1911, 8 de abril de 1911, 22 de abril de 1911,

Um artigo de sua autoria sobre as escolas brasileiras publicado no Jornal Pequeno foi citado na coluna “Dois dedos de prosa”, da escritora Julia Lopes de Almeida (O Paiz, 24 de janeiro de 1911, segunda coluna).

Publicação de seu poema Horas mysticas, na revista Santa Cruz (Correio Paulistano, 11 de junho de 1911, primeira coluna).

Integrava a Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 19 de outubro de 1911, terceira coluna).

1912 – Publicação de seu poema Aves e Coração (Almanak Henault, 1912/1913).

No artigo Um Protesto, foi mencionado que Edwiges teve a satisfação de ver traduzida em francês numa revista de Estocolmo uma de suas produções do Lyrio, acompanhada de lisongeiros conceitos do grande literato Pythion de Villar e a propósito de quem o ilustrado dr. Julio Pires, por aquele tempo do Lyrio, escreveu em seu Almanak: “discípula que honra o mestre” (Jornal Pequeno, 6 de fevereriro de 1912, segunda coluna).

Publicação de seu poema De Volta, dedicado a Mlle. Maria Estevan (Almanach de Pernambuco, 1912). Na mesma edição, escreveu o artigo D. Julia Lopes de Almeida, homenageando a escritora, a quem havia visitado no Rio de Janeiro (Almanach de Pernambuco, 1912).

Foi a oradora oficial da homenagem prestada pela mulher pernambucana, um concerto realizado em 13 de janeiro, no Theatro de Santa Isabel, ao general Dantas Barreto (1850-1931), governador de Pernambuco, em protesto por sua eliminação do número dos associados da Associação de Imprensa (Jornal do Recife, 9 de abril de 1912, quinta coluna).

 

 

Publicação de seu poema Maguas (A Faceira, agosto de 1912).

1913 – Publicação de seu poema À Florisa (Sciencias e Letras, fevereiro de 1912 a fevereiro de 1913).

Foi eleita a primeira presidente da Associação das Damas de Beneficência. Já fazia parte da diretoria do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (Jornal do Recife, 28 de janeiro de 1913, quarta coluna).

Publicação do artigo Pro-Parvulos Carta Aberta e Francisca Izidora, de sua autoria (Jornal Pequeno, 21 de junho de 1913, primeira coluna; Jornal Pequeno, 30 de agosto de 1913, primeira coluna).

No Instituto de Proteção e Assistência à Infância, foi promovido pelas Damas de Beneficência, sob a presidência de Edwiges, uma festa de Natal (Jornal Pequeno, 26 de dezembro de 1913, primeira coluna).

1914 - Publicação de seu poema No camarim (Jornal Pequeno, 28 de abril de 1914).

Estava inscrita, assim como Assis Chateaubriand (1892-1968) e outros, como colaboradora do recém criado vespertino A Tarde, em Pernambuco (O Paiz, 7 de junho de 1914, quinta coluna).

Foi aceita como membro efetiva do Instituto Arqueológico de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1914, terceira coluna).

Foi citada como uma das grandes poetisas brasileiras pelo palestrante Leal de Souza, secretário da redação da revista Careta, na 3ª conferência de uma série organizada por um grupo de literatos, no salão nobre do (Jornal do Commercio, 26 de agosto de 1914, última coluna).

Publicação de seu poema Natal na Aldeia (Às moças de minha aldeia natal) (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1914).

1915 - Falecimento de sua mãe, Maria Amélia Rocha de Sá Pereirra (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1915).

1916 - Seu pai, José Bonifácio de Sá Pereira, foi atropelado por um carro elétrico e faleceu (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1916, sexta coluna).

Publicação do artigo A Romã, de sua autoria (Jornal Pequeno, 30 de dezembro de 1916, primeira coluna).

1917 – Publicação do artigo Trabalho Feminino, de sua autoria, em que aborda a questão da admissibilidade da mulher trabalhar fora de casa (Sciencias e Letras, abril de 1917).

Publicação de seu poema De Volta (O Jornal (MA), 9 de outubro de 1917, primeira coluna).

O Jornal do Recife organizou o evento A Primeira Hora Literária Feminina e Edwiges foi a vencedora do Torneio Literário (Revista Feminina (SP), ano 4, n° 34, 1917).

1918 – Publicação em duas partes do artigo A Escola Moderna, de sua autoria, onde discute as noções da pedagogia (A Escola Primária, 1º de janeiro de 1918 e 1º de fevereiro de 1918).

Escreve para o periódico O Ratazana.

Seus versos eram vendidos em algumas lojas do Recife (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1918, primeira coluna).

Estava licenciada do magistério (Jornal do Recife, 5 de outubro de 1918, primeira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eugênio de Sá Pereira (Jornal do Commercio, 27 de novembro de 1918, segunda coluna).

1919 - Foi citada como exemplo de uma mulher inteligente na seção “Cartas de Mulher”, da revista Vida Moderna, em uma mensagem que contestava o conceito de Schopenhauer sobre as mulheres (Vida Moderna (PE), 22 de março de 1919, última coluna).

1920 – Ao longo dos anos 1920, se correspondeu com feministas do sudeste do Brasil.

Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e era também professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1921, primeira e segunda coluna).

Em 10 de abril, foi eleita membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras e tomou posse em 13 de maio, tornando-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo de uma Academia de Letras no Brasil, antecedendo, em 57 anos, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) que, em 4 de novembro de 1977, tornou-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo da Academia Brasileira de Letras (Diário de Pernambuco, 11 de abril de 1920, quarta coluna; A Nota, 22 de maio de 1920). A foto abaixo é de autoria do fotógrafo Louis Piereck.

 

 

Edwiges substituiu João Baptista Regueira Costa (1845-1915), na Cadeira de nº 7, cujo patrono é Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804-1968). A cerimônia de posse aconteceu na Câmara dos Deputados do Recife. Os outros membros empossados foram Antônio Andrade Bezerra (1889-1946), José Gonçalves Maia (1866-19?), Mario Carneiro do Rego Melo (1884-1959), Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e Zeferino Galvão (1864-1924). Faltaram à cerimônia, com motivo justificado, os novos acadêmicos Arthur Muniz (1896-1924), Antônio Andrade Bezerra (1889-1946) e João Barreto de Menezes (1872-1950) (Diário de Pernambuco, 14 de maio de 1920). O evento foi aberto por Samuel Martins (1862-1930), presidente da Academia Pernambucana de Letras, que exaltou Pernambuco como o berço da evolução literária brasileira. Em seguida, o acadêmico Luis de França Pereira (1870-1925) falou sobre a importância da Academia Pernambucana de Letras, das tradições de Pernambuco e saudou os novos imortais. Sobre Edwiges, falou:

“Edwiges de Sá Pereira, que como Sapho dedilha à lira de ouro as queixas mudas do coração humano…Será esta, penso, a primeira das actuaes Academias de Lettras do paiz a admitir uma senhora em seu seio. A casa de Bento Teixeira Pinto quiz ter a primazia neste acto de justiça aos vossos dotes de espirito. Mademoselle Edwiges. E é da tradicional galanteria pernambucana alliar a cooperação da Mulher a todas as nossas affirmações de Energia como a todas as nossas manifestações de Arte”.

Oliveira Lima, um dos novos imortais, falou em nome deles, agradecendo à Academia Pernambucana de Letras e traçou um perfil sobre si e sobre os demais empossados. Em seu discurso, valorizou a entrada de uma mulher na Academia e falou sobre Edwiges:

“Escolhestes a sra. d. Edwiges de Sá Pereira e com esta escolha destes as outras academias do Brazil um exemplo a que a Academia Brasileira ainda não afoitara. As produções poeticas e pedagogicas da nossa consocia justificam de certo vosso acto, mas não deixa ella de ser uma innovação. Devemos todos agradecer a sra. d. Edwiges de Sá Pereira o ter proporcionado a esta Academia o ensejo de tão depressa entrar na nova corrente de idéas, admittindo no seu gremio uma representante da intellectualidade pernambucana”.

 

 

Publicação do artigo Poesia e Moda, de sua autoria (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1920, primeira coluna).

É nomeada professora para a cadeira primária feminina da Escola Normal de Pernambuco (A Província (PE), 27 de junho de 1920, primeira coluna).

O escritor e acadêmico Artur Muniz (1870-1924) dedicou a ela o artigo Página de Saudade (A Província (PE), 14 de outubro de 1920, quinta coluna).

Publicação do artigo Natal, de sua autoria (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1920, última coluna).

1921 – Escreve para a revista A Nota e para a revista do Instituto da Sociedade de Letras de Pernambuco.

 

 

Publicação do artigo Um livro bom, de sua autoria (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1921, primeira coluna).

1922 - Publicação de seu poema Abril (Almanach de Pernambuco, 1922).

Foi a letrista do hino Pernambuco à independência com música de Maria do Carmo Santos Barbosa. Foi cantado na comemoração do centenário da Independência do Brasil, realizado no Theatro de Santa Izabel (Diário de Pernambuco,13 de julho de 1922, penúltima coluna).

Escreveu um artigo sobre a exposição da pintora Georgina Barbosa Vianna (18?-1961) (Jornal Pequeno, 22 de julho de 1922, primeira coluna).

Na Revista do Instituto de Sciências, publicação do soneto Pernambuco, de sua autoria (A Província (PE), 14 de novembro de 1922, quarta coluna).

Publicação de uma carta que Antônio Carneiro Leão (1887-1996), diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, havia enviado a Edwiges, sobre o livro Educação, de autoria dela (Jornal Pequeno, 1º de dezembro de 1922, penúltima coluna).

Participou, em dezembro, no Rio de Janeiro, do I Congresso Internacional Feminista ou 1ª Conferência pelo Progresso Feminino, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 9 de agosto de 1922 e presidida por Bertha Lutz (1894-1976).

1923 – Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1924).

Publicação de seu poema Avatari, dedicado a Julio Pires (Jornal Pequeno, 21 de fevereiro de 1923, quinta coluna).

1924 – Publicação de seu poema Contraste (Almanach de Pernambuco, 1924).

Foi eleita para integrar a comissão fiscal da Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1924, quarta coluna).

Foi concedida a ela uma licença de três meses para tratamento de saúde (Jornal do Recife, 16 de março de 1924, terceira coluna).

Fazia parte da comissão de Literatura da organização das festividades em torno da chegada do navio Italia ao Recife (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1924, quinta coluna).

Colaborou na revista mensal Nação Brasileira, dirigida por Evaristo de Moraes e Alfredo Horcades (O Paiz, 14 de junho de 1924, quarta coluna).

Publicação do artigo A prioridade de Pernambuco nas ideias liberais, de autoria de Edwiges (Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1924, quarta coluna).

Em maio, o governador de Pernambuco, Sergio Teixeira Lins de Barros Loreto (1867-1913), a encarregou para a realização de um estudo acerca da organização e funcionamento do ensino técnico e profissional em Pernambuco e em outros estados do país. Com esse fim, Edwiges partiu para o Rio Grande do Norte e proferiu uma palestra. Foi apoiada pelo governador José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) (Jornal do Recife, 11 de maio de 1924, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1924, penúltima coluna; 30 de julho de 1924, quarta coluna).

Seguiu para o Rio de Janeiro e para São Paulo para continuar seus estudos sobre a organização das escolas domésticas e das escolas profissionais (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1924, quarta coluna; A Província (PE), 27 de agosto de 1924, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, acompanhada por Antônio Carneiro Leão, diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, visitou escolas rurais. Também fez uma visita à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e encontrou-se com a presidente da entidade, Bertha Lutz, e esteve na Liga dos Professores, onde fez uma palestra. Foi visitada por membros do Centro Pernambucano sediado no Rio de Janeiro. Na Escola Nilo Peçanha foi homenageada com uma festa em comemoração à entrada da Primavera (Jornal do Brasil, 20 de setembro de 1924 e 25 de setembro de 1924O Paiz, 28 de setembro de 1924, sexta coluna; Jornal do Recife, 16 de dezembro de 1924, penúltima coluna; Jornal do Brasil, 17 de dezembro de 1924, sexta coluna).

 

 

Foi recebida em São Paulo com um chá oferecido na Liga das Senhoras Católicas (A Noite, 14 de outubro de 1924, quinta coluna; A Cigarra, 15 de novembro de 1924Diário de Pernambuco, 21 de novembro de 1924, segunda coluna).

Publicação e uma foto e Edwiges com o artigo de sua autoria, intitulado O Violão – ouvindo Josephina Robledo (Brasil Social, 1° de dezembro de 1924).

 

 

1925 - Publicação do artigo Sobre o Ensino Público no Brasil – impressões de uma educadora pernambucana, de sua autoria (Educação, janeiro de 1925).

Publicação de seu artigo Pelo ensino, na revista Brasil Social, dirigido por P.A. Soares (Brasil Social, 1º de janeiro de 1925).

Retornou de sua viagem ao Sul do Brasil onde esteve em comissão do governo estadual. Ao final do trabalho acerca da situação da educação no país, entregou ao governador um minucioso relatório, o qual, um ano depois, foi publicado com o título de Impressões e Notas (Jornal do Brasil, 14 de janeiro de 1925, quarta colunaDiário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1925, terceira coluna).

Publicação de seu artigo, A Mulher pernambucana (Diário de Pernambuco, 7 de novembro de 1925).

Escrevia para o periódico Vida Feminina.

1926 - Publicação de um artigo acerca do trabalho realizado por Edwiges em comissão do governo de Pernambuco sobre as escolas domésticas e as escolas profissionais do Brasil (Jornal Pequeno, 18 de maio de 1926, última coluna)

Publicação de um artigo de sua autoria sobre a declamadora Angela Vargas (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1926, primeira coluna).

1927 – Era catedrática da Escola Normal e foi a letrista do hino comemorativo do centenário do Ensino Primário no Brasil – foi musicado pela professora Maria do Carmo Santos Barbosa. O hino foi cantado durante uma sessão magna realizada no Theatro de Santa Isabel e presidida pelo governador Estácio Coimbra (1872-1937) em comemoração à efeméride (Jornal do Recife, 15 de outubro de 1927, primeira coluna; O Paiz, 29 de outubro de 1927, última coluna).

Visitou a redação do Jornal do Recife com a poetisa potiguar Palmyra Wanderley (1894-1978) que iria ler, no dia 10 de dezembro, na Academia Pernambucana de Letras, versos de seu livro Roseira Brava (Jornal do Recife, 2 de dezembro de 1927, quarta coluna).

 

 

1928 - Foi publicada uma declaração de Edwiges sobre a Academia Pernambucana de Letras, integrando a série de reportagens A casa de Bento Teyxeyra Pinto (Diário da Manhã (PE), 22 de janeiro de 1928).

 

 

Foi entrevistada sobre a questão do voto feminino (Diário da Manhã, 28 de março de 1928, sexta coluna).

1929 – Foi eleita a oradora da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1929, última coluna).

Assinou um artigo sobre o feminismo publicado na revista A dona de casa, dirigida por Cândida de Brito (Jornal do Brasil, 22 de março de 1929, terceira coluna).

Na Revista da Academia Pernambucana de Letras, publicação de um artigo de Edwiges (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1929, segunda coluna).

1931 - Em junho, ela, a médica Paulina Waisman e a pintora Georgina Barbosa Vianna participaram como delegadas de Pernambuco do II Congresso Internacional Feminista, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, entre 20 e 30 de junho. Edwiges e Georgina chegaram à cidade no dia 18, a bordo do navio Raul Soares. Foram recebidas por representantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, presidido por Bertha Lutz, e da União Universitária Feminina, presidida por Carmen Portinho (1903-2001). Na época, Edwiges era professora de português e história, na Escola Normal do Recife, além de vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Correio da Manhã, 19 de junho de 1931, primeira coluna).

Os temas do evento foram educação feminina, proteção às mães e à infância, trabalho feminino, direitos das mulheres e estreitamento das relações pan-americanas e internacionais (Correio da Manhã, 5 de março de 1931, primeira colunaJornal do Brasil, 19 de junho de 1931O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira coluna; Diário de Notícias, 20 de junho de 1931Correio da Manhã, 26 de junho de 1931O Malho, 27 de junho de 1931;  Revista da Semana, 27 de junho de 1931 Correio da Manhã, 1º de julho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931).

Destacam-se aqui as delegadas das representações estaduais: Amazonas – Emilia Galvão e Cassilda Araujo Lima; Pará – Marina Lamarão Cardoso, Noemia de Rego Lins, Glória Silva e Maria Aurora Pegado Beltrão; Maranhão – Mariana Gurjão, Cristina Vinhais; Piauí – Nazareth Pires Ferreira; Ceará – Henriqueta Galena, Adilia Moraes e Carmem Castelo Branco; Rio Grande do Norte – Maria Eugenia Celso e Julia de Medeiros; Paraíba do Norte – Rosalina Coelho Lisboa; Pernambuco – Edwiges de Sá Pereira, Georgina Barbosa Vianna e Paulina Waismann; Alagoas – Almerinda Farias Gama; Sergipe – Sra. Maria Rita Soares de Andrade, Carlota Camargo do Nascimento; Bahia – Edith Mendes da Gama e Abreu, dra. Hermelinda Paes, Lili Tosta, dra. Francisca Praguer Froés, Alice Kelsche de Aguiar, Celeste Cerqueira; Espírito Santo – Anna Borges Ferreira; Estado do Rio de Janeiro – Antonieta de Souza Braga, Murilla Torres, Yolanda Torres, Dulce Horta Esteves Lagoeira, Maria Rosa Ribeiro; Estado de São Paulo – Helena Gordo; Julia Algodoal, Clotilde Kleber, dr. Horácio Silveira, Alice de Toledo Tibiriça e outras: Paraná – Martha da Silva Gomes; Santa Catarina – Alice Pinheiro Coimbra; Rio Grande do Sul – Ascylia Correia Rodrigues, Acy Coelho e Ilka Labarthe; Minas Gerais – Ignácia Guimarães, dra. Alzira Reis Vieira Ferreira, Maria Esther Ramalho, Eunice Weaver; Goiás – Dra. Rosita Godinho de Oliveira Bello; Mato Grosso – Branca Portinho.

O discurso de abertura do evento foi pronunciado pela escritora Julia Lopes de Almeida (1862-1934). Durante o encontro, Edwiges proferiu o discurso Pela Mulher, para a Mulher, que defendia uma nova concepção de ensino para a mulher. Dividiu a população feminina em três categorias: mulheres que não precisavam trabalhar, mulheres que sabiam e precisavam trabalhar e, finalmente, as mulheres que não sabiam e precisavam trabalhar. Os dois primeiros grupos deveriam, segundo ela, se unir para que o terceiro grupo fosse auxiliado (Jornal do Brasil, 15 de julho de 1931, sexta coluna).

Foi entrevistada e declarou que “o feminismo é uma evolução natural dos tempos. Como todas as forças vivas da natureza, a mulher não poderia estacionar nas fronteiras do passado, montando guarda aos velhos preconceitos que lhe tolhiam a faculdade de pensar e agir“(Diário da Noite, 22 de junho de 1931, primeira coluna).

 

 

Dentro da programação do congresso, participou de uma missa campal com a presença da primeira-dama, Darcy Vargas (1895-1968), e de todas as delegadas do evento, realizada no terreno da igreja do Sagrado Coração de Jesus. No mesmo dia foi inaugurada a exposição anexa ao congresso, no Automóvel Club. Participou também da sessão de congraçamento presidido por Bertha Lutz, quando falou sobre a filosofia do momento feminista (Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1931, quinta coluna; Diário de Notícias, 1º de julho de 1931, primeira coluna).

Foi publicada uma entrevista com Edwiges (Jornal do Brasil, 1º de julho de 1931, terceira coluna).

Foi convidada pela escritora e feminista Martha de Holanda (1903-1950) para ser a presidente de honra da Cruzada Feminista Brasileira, fundada e presidida por Martha, mas não aceitou o cargo. Sobre Martha de Hollanda, Luciene de Freitas, autora de sua biografia “Uma guerreira no tempo – Um resgate de uma época, Martha de Hollanda e Delírio do Nada” (2003), escreveu:

“Ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Contestava o ensino, contestava as roupas, usava vestidos sem manga e curtos, sem meia, fumava, bebia, tinha amizades com homens e fazia saraus com intelectuais. Eram coisas que chocavam naquela época. Tanto que essa liberdade rendeu um falatório sobre ela na cidade”

 

 

Em 10 de novembro, no Clube Internacional do Recife, Odila Porto da Silveira, representante da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, deu posse à primeira diretoria da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino. Edwiges foi a primeira presidente desta associação, cargo que exerceu até 1935. Personalidades da sociedade pernambucana, assim como autoridades estaduais e federais, representantes da imprensa e de diversas corporações prestigiaram o evento (Jornal Pequeno, 10 de novembro de 1931, primeira colunaJornal do Recife, 11 de novembro de 1931, primeira coluna). Neste primeiro biênio da associação, a vice-presidente era a professora Noemia Ferreira Xavier, e a segunda vice-presidente era a também professora e irmã de Edwiges, Anna Sá Pereira da Silva Almeida. A secretária-geral era Maria de Lourdes Souza Leão, a tesoureira, Santina Monteiro; e a consultora jurídica era Ida Souto Uchôa (Jornal Pequeno, 7 de agosto de 1931, quinta coluna).

 

 

A ideia de criação da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino surgiu em reuniões de um grupo de pernambucanas que defendia a maior inclusão feminina na sociedade. Várias destas reuniões aconteceram na casa de Edwiges (Jornal do Recife, 20 de junho de 1931, primeira coluna). A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino apoiava fortemente os princípios católicos. Ao longo de sua existência, até fins da década de 1930, a associação, devido à forte influência de Edwiges, teve como prioridade a questão da educação da mulher. Investiu na criação da Escola de Oportunidades cuja principal meta era disponibilizar cursos como correspondência, datilografia e línguas às jovens de todas as classes sociais do Estado.

A coluna “Palestras Femininas”, do Diário de Notícias, homenageou Edwiges com a publicação do poema Dúvida, da escritora pernambucana (Diário de Notícias, 5 de julho de 1931, primeira coluna).

1932 – Sua tese Pela Mulher, para a Mulher foi publicada como de livro.

Ainda era a vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Fon-Fon, 5 de março de 1932, primeira coluna).

Foi eleita segunda secretária da diretoria da Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 1º de abril de 1932, última coluna).

No Clube Internacional, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu um evento para comemorar o Dia das Mães. Pela primeira vez a efeméride foi comemorada no Brasil de acordo com um decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1932, quarta coluna).

 

 

A oficialização do Dia das Mães no Brasil foi uma conquista da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que durante o II Congresso Internacional Feminista, realizado em junho de 1931, no Rio de Janeiro, designou uma comissão que fez a solicitação ao presidente Vargas. Ele assinou o Decreto 21.366, em 5 de maio de 1932, estabelecendo o segundo domingo de maio como a data comemorativa dedicada às mães.

 

 

1933 - Publicação do artigo Pela mulher, de sua autoria (Diário de Notícias, 20 de fevereiro de 1933, penúltima coluna).

Foi eleita vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1933, quarta coluna).

A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, sob a presidência de Edwiges, enviou a artista plástica e feminista Georgina Barbosa Vianna como representante da associação na Convenção Eleitoral Feminina, no Rio de Janeiro, com propostas de inclusão no texto constitucional de obras contra as secas, recusa ao serviço militar obrigatório para mulheres e apoio ao ideário católico (Diário de Pernambuco, 30 de março de 1933, primeira coluna).

Edwiges e Martha de Hollanda conseguiram o direito de votar e também de serem votadas. Em uma enquete promovida pelo Diário de Pernambuco, Edwiges foi apontada como uma excelente candidata pela pintora e feminista Emília Barbosa Viana Marchesini, por Edna Leite Gueiros, redatora da “Página Feminina” do Jornal do Commercio; por representantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, e por Ana Campos, catedrática da Escola Normal. Em, 30 de abril, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino fez uma publicação indicando Edwiges ao eleitorado (Diário de Pernambuco26 de janeiro de 1933, quarta coluna27 de janeiro de 1933, penúltima coluna;  29 de janeiro de 1933, penúltima coluna1º de fevereiro de 1933, penúltima coluna; 30 de abril de 1933, quarta coluna30 de abril de 1933, terceira coluna30 de abril de 1933, última coluna).

 

Captura de tela 2024-10-30 124213Captura de tela 2024-10-30 124334

 

Foi publicada uma entrevista com Edwiges e quanto à questão do divórcio, no Diário de Pernambuco, de 30 de março de 1933, ela afirmou:

“Somos católicos e não compreendemos as reivindicações femininas fora desses princípios. Somos pela indissolubilidade do matrimônio como condição máxima de garantia de família, da estabilidade do lar, da moral social, enfim. Mas, não basta impedir que o divórcio se instale em nossa lei magna; é o no código civil, quando se regular a sociedade conjugal que todo o cuidado se impõe. Combater o divórcio e deixar subsistindo na legislação civil e nos costumes as causas principais que o provocam é obra incompleta. Combatamos o mal do organismo social, ele está muito na indiferença com que consideramos e que de grosseiro temos herdado ou contagiado de raças diversas, vinculadas a nossa e má importação de práticas dissolventes de civilizações requintadamente epicuristas. Na época atual o espírito de sacrifício, o apelo a passividade e a resignação, afiguram-se de natureza e resultados muito precários”.

Martha, sem partido, e Edwiges, pelo Partido Economista de Pernambuco, foram candidatas a deputadas constituintes por Pernambuco, em 3 de maio, mas não se elegeram.

 

 

Publicação de seu poema Pernambuco (Brasil Feminino, maio de 1933).

Devido à reforma do Ensino Normal em Pernambuco, ela e mais três professoras catedráticas da Escola Normal foram postas em disponibilidade (A Província (PE), 16 de maio de 1933, quinta coluna).

Foi reeleita presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino para o biênio de 1933 a 1935 (Jornal Pequeno, 1º de agosto de 1933, primeira coluna).

1934 – Na reunião semanal da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, foi uma das escolhidas para o serviço direto junto à Constituinte (O Paiz, 22 de março de 1934, quinta coluna; O Paiz, 2 de maio de 1934, quinta coluna).

Publicação de uma entrevista com Edwiges sobre os rumos do feminismo no Brasil e das propostas à Constituição (Jornal do Recife, 22 de junho de 1934, primeira coluna).

Na Rádio Clube Recife, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu uma hora de arte para comemorar as vitórias alcançadas pela mulher na nova Constituição do país. O evento foi aberto por Edwiges (Jornal do Recife, 22 de julho de 1934, primeira coluna).

Foi admitida na Associação de Imprensa de Pernambuco como sócia colaboradora (Diário de Pernambuco, 15 de setembro de 1934, segunda coluna)

Falecimento de seu irmão, o desembargador Virgílio de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 22 de setembro de 1934, terceira coluna).

Publicação de seu artigo intitulado Natal (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1934, penúltima coluna).

Integrou o júri do Concurso Feminino promovido pelo Diário de Pernambuco. Os trabalhos foram divididos nas categorias puramente literários e de interesse educativo e social (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1934, terceira coluna).

1935 – Foi sucedida por Emília Barbosa Viana Marchesini na presidência da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, tornando-se sua presidente honorária.

Publicação do artigo A Arte de Conversar, de sua autoria (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1935).

Publicação do artigo Dia das Mães, de sua autoria (Jornal Pequeno, 11 de maio de 1935, segunda coluna).

Proferiu a palestra de abertura da Semana do Livro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1935, penúltima coluna).

1936 – Era a segunda vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 30 de junho de 1936, quarta coluna).

Discursou durante a visita da escritora Carolina Nabuco (1890-1981) à Academia Pernambucana de Letras (Jornal Pequeno, 6 de novembro de 1936, quarta coluna).

1937 – Recebeu 39 votos no plebiscito promovido pela revista O Malho para saber quem seriam as mulheres que mereceriam ingressar na Academia Brasileira de Letras. As cinco primeiras colocadas foram Maria Eugênia Celso (1886-1963), Gilka Machado (1893-1980), Alba Canizares (1893-1944), Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896-1971) e Henriqueta Lisboa (1901-1985) (O Malho, 14 de janeiro de 1937, quarta coluna).

Foi eleita para integrar a comissão da Revista da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 28 de março de 1937, última coluna).

Foi uma das eleitoras do concurso Príncipe dos Poetas Brasileiros promovido pela revista Fon-Fon (Fon-Fon, 24 de abril de 1937, segunda coluna).

Ela e outras integrantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino estiveram presentes à inauguração da Escola de Enfermagem de Olinda, fundada sob os auspícios da associação (Diário de Pernambuco, 17 de agosto de 1937, penúltima coluna).

Foi uma das palestrantes da 7ª Semana Anti-Alcoólica (Jornal do Recife, 30 de outubro de 1937, última coluna).

Em 22 de dezembro, foi instalado o Estado Novo que, de acordo com o Decreto-lei n. 37, de 02 de dezembro de 1937, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), proibia a existência de partidos políticos e organizações civis.

1938 – Esteve presente à cerimônia da entrega solene da Escola de Enfermagem de Olinda à prefeitura da cidade (Diário de Pernambuco, de 1938, segunda coluna).

1940 – Foi a autora da letra do Hino Escolar João Barbalho, musicado pela também professora Maria do Carmo Santos Barbosa (Diário da Manhã, 24 de outubro de 1940, quinta coluna).

1945 – Publicou o livro Um passado que não morre, uma homenagem póstuma ao historiador João Baptista Regueira Costa (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1952, terceira coluna).

Proferiu, na Academia Pernambucana de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. Na introdução deste trabalho escreveu sobre sua motivação para escrevê-lo: como “única mulher membro deste sodalício, competia-me, por vários motivos, a explanação do assunto, que em mim se integra por uma longa fase de cátedra e de suas afinidades sociais” .

1946 - Foi uma das colaboradoras da primeira edição da revista Capibaribe, dirigida por Jorge Medeiros de Souza (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1946, terceira coluna).

Tomou posse como uma das integrantes do Conselho Consultivo da filial pernambucana da Liga Internacional Mulheres, fundada no Recife (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1946, segunda coluna; Jornal do Brasil, 1° de setembro de 1946, primeira coluna).

Foi publicada na edição de dezembro da Revista da Academia Brasileira de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. O texto integrou uma série de 28 conferências organizada pela Academia Pernambucana de Letras (Revista Brasileira, dezembro de 1946).

1947 – Foi recebida na Federação das Academias de Letras no Brasil, no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1° de outubro de 1947, segunda coluna).

1948 – Fez uma visita de despedida à Federação das Academias de Letras no Brasil (Jornal do Brasil, 3 de fevereiro de 1948, terceira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eurico de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 31 de maio de 1948, penúltima coluna).

Seu apoio ao envio de uma mensagem de solidariedade da Academia Pernambucana de Letras ao Salão de Poesia escandalizou o acadêmico Mário Melo (1884-1959), que combatia a poesia moderna (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1948, primeira coluna).

1951 - Participou de um almoço, no restaurante Torre de Londres, em homenagem à escritora Maria das Graças dos Santos Leite pela publicação do livro Alma em vigília (Jornal Pequeno, 24 de agosto de 1951, quarta coluna).

1952 - Falecimento de sua irmã, Fredovinda, funcionária aposentada do Tribunal de Justiça (Diário de Pernambuco, 23 de abril de 1952, primeira coluna).

Colaborou na terceira edição da Revista Pernambucana, dirigida por Getúlio Amaral e Olympio Fernandes (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1952, terceira coluna).

1953 – Escreveu um artigo sobre a poetisa baiana Ilka Sanchez (1922-?) (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1953, sexta coluna).

Escreveu o artigo Austro Costa (Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1953, quinta coluna).

1954 - Escreveu o artigo “Rosa de Pedra”: poesias de Zila Mamede (Diário de Pernambuco, 28 de fevereiro de 1954, sexta coluna).

Escreveu o artigo Imagens e Sombras sobre o novo livro do poeta Costa Rego Junior (Diário de Pernambuco, 4 de abril de 1954, última coluna).

Publicação do artigo Poesia, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1954, quinta coluna).

Na colunaVida religiosa”, publicação do artigo Obra Social de Grande Vulto, de sua autoria, sobre o Centro Social Nossa Senhora da Soledade (Diário de Pernambuco, 18 de setembro de 1954, sexta coluna).

1955 – Publicação de seu poema Saudade, dedicado à poetisa Maria das Graças Santos Leite (Diário de Pernambuco, 8 de julho de 1955, quarta coluna).

1956 - Publicação do artigo Cartas, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 21 e 22 de abril de 1956, última coluna).

Publicação do artigo Poesias de Pierre Luz, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1956, sexta coluna)

1958 - Faleceu, em 14 de agosto, em sua casa, no bairro do Espinheiro, no Recife, vítima de uma trombose cerebral (Diário de Pernambuco, 15 de agosto de 1958, penúltima coluna). Nunca se casou nem teve filhos, mas sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, em um depoimento de 2010, revelou que Edwiges se arrependia de não ter sido mãe solteira (Revista Brasileira, abril maio, junho de 2020, página 69) .

 

 

 

 

Foi homenageada na Academia Pernambucana de Letras e a professora, educadora e escritora Dulce Chacon (1906-1982) pronunciou um discurso intitulado Edwiges de Sá Pereira – Escritora, acadêmica e professora, no qual dissertou sobre o respeito e carinho que a homenageada tinha para com os membros da referida agremiação, e em seguida, traçou um perfil de sua vida e obra. No ano seguinte, o discurso foi reunido em plaquette (Diário de Pernambuco, 28 de setembro de 1958, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 18 de janeiro de 1959, quarta coluna).

 

 

1960 – Publicação, por iniciativa de sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, de seu livro Horas inúteis, uma reunião de poemas escritos por ela, com prefácio do escritor e imortal da Academia Pernambucana de Letras, Jordão Emerenciano (1919-1972). O livro é composto por 53 poemas, alguns inéditos e outros que já haviam sido publicados em periódicos. No prefácio desta publicação póstuma, o professor Jordão Emereciano, fez breves considerações sobre a personalidade da autora, da sua importância para a história da Academia Pernambucana de Letras e sobre o valor desta publicação para o campo literário do estado. Para ele, este livro, era “um pouco a síntese de tudo isto porque os seus sonetos e poemas contêm os reflexos de sua atividade variada e diversificada e a motivação de toda uma vida que teve também os seus dias de luta e de sonho, de ideal e de poesia” (Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16 ).

A seguir, um trecho do prefácio:

 

edwiges3

 

Publicação de seu poema Capitólio, onde se evidenciava sua formação parnasiana.

“Hás de viver eternamente, ó verso, / Nos velhos moldes: no esplendor que anima / A luz no movimento do Universo! / O amor na lei da Natureza oprima! // Quando não mais surgisse um som disperso / Do hemisfério, da métrica e da rima, / Sobram-te louros de um parnaso terso: / Nunca a seara dos Gênios se dizima! // Não medra o esforço do que finge odiar-te. / Qual haverá que um dardo acerte dentre / Os que desdenham teu prestigio de arte? // Qual haverá que um poema legue, ovante, / Ao mundo, e o mundo o leia e se concentre / Como se lê Camões, Homero, Dante?!”

Dulce Chacon foi eleita para ocupar a vaga de Edwiges na Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 26 de novembro de 1959, terceira coluna).

1979 - Em seu livro de memórias, intitulado Medo de Criança (1979), Dulce Chacon revelou: “Tenho estado a pensar nos belos livros que Edwiges de Sá Pereira deixou reunidos, já datilografados, prontos para a impressão. Nos derradeiros anos, ver os seus três livros em letra de forma constituiu para ela o maior desejo” (Chacon, 1979:265). Os livros que a autora se refere, são: Eva MilitanteJóia de Turco Horas Inúteis. Sobre Eva militante, Dulce comentou que Edwiges havia feito uma análise de alguns aspectos dos problemas enfrentados pela mulher brasileira “no lar ou nas atividades externas, nas profissões liberais, ou na burocracia, aviadora, magistrada, prefeita, deputada, escrivã, professora”. Ainda segundo Chacon, no livro Jóia de Turco, Edwiges havia reunido algumas de suas crônicas sobre acontecimentos nacionais e internacionais, já publicadas em jornais, “inspiradas no noticiário e nos telegramas, nas conversas de rua e na leitura de livros, tirando-os da sombra ou de um recanto do passado para dar-lhe vida, movimento, graça, sentido poético e conteúdo humano”.

 

**Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AMARAL, Walter Valdevino do. Edwiges de Sá Pereira: Uma voz pernambucana no Segundo Congresso Internacional Feminista (Rio de Janeiro, 1931), 2017.

AMARAL, Walter Valdevino do. “Um passado que não morre”: traços biográficos de Edwiges de Sá Pereira. Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16.

AMARAL, Walter Valdevino do; RIBEIRO, Emanuela Souza. Edwiges de Sá Pereira: um breve olhar sobre a poesia feminina pernambucana, 2009.

BARBOSA, Izabelle Lúcia de Oliveira. Os movimentos feministas pernambucanos e o debate em torno do divórcio (1926-1937). XVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, Santa Catarina, 2015.

BNDigital

CAMPOS, Andrea Almeida Campos. Edwiges de Sá Pereira: Uma feminista vitoriana na primeira metade do século XX in Revista Brasileira, abril, maio, junho de 2020, página 59.

CAMPOS, Zuleica Dantas Pereira. Edwiges de Sá Pereira: um discurso para e pela mulher. In: I COLÓQUIO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA. GT12: Gênero, Sociabilidades e Sensibilidades. Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), 1º, 2008. Anais […]. Campina Grande – PB, 2008.

COSTRUBAL, Deivid Aparecido. Para além do sufragismo: A contribuição de Júlia Lopes de Almeida à história do feminismo no Brasil (1892-1934). Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em História (Área de conhecimento: História e Sociedade), 2017.

FAGUNDES, Emelly Sueny Fekete. Uma das faces do feminismo em Pernambuco: Transgressões e permanências na trajetória da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (1931-1937).  2018. 181 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

NASCIMENTO, Alcileide Cabral do. O bonde do desejo: o Movimento Feminista no Recife e o debate em torno do sexismo (1927-1931). Rev. Estud. Fem. 21 (1) • Abr 2013.

PEDROSA, Cida. A Eva militante e todas as horas úteis para a mulher e pela mulher. Revista Hexágono, 2020.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

SILVA, Martia Angélica Pedrosa de Lima. Entre engajamentos e manifestos: a inserção de Edwiges de Sá Pereira nos espaços públicos do Recife (1920-1935). Seminário Internacional Fazendo Gênero, Florianópolis, Santa Catarina, 2017.

Site Academia Pernambucana de Letras

Site Tribunal Eleitoral de Pernambuco

VAINSSENCHER, Semira Adler. Edwiges de Sá Pereira.

Novos acervos: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB

O artigo Generalíssimo por aclamação é a primeira publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB – na Brasiliana Fotográfica. O IHGB é a 12ª instituição parceira do portal, fundado pelo Instituto Moreira Salles e pela Fundação Biblioteca Nacional. O artigo, que destaca duas fotografias produzidas por Francisco Soucasaux (1856-1904), é sobre a comemoração do segundo mês da proclamação da República, realizado no dia 15 de janeiro de 1890, um evento único na história militar brasileira. Foi escrito pelo historiador Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss, vice-presidente do IHGB, fundado, em 1838, inspirado no Instituto Histórico de Paris, criado quatro anos antes. Desde seu início, dom Pedro II (1825-1891) esteve ligado ao IHGB, que foi a primeira instituição no Brasil dedicada à preservação e à pesquisa da cultura, das ciências sociais, da história e da geografia do Brasil. A adesão do IHGB à Brasiliana Fotográfica é mais um passo importante na história do portal.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Generalíssimo por aclamação

Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss*

 

A comemoração do segundo mês da República, no dia 15 de janeiro de 1890, ficou marcada por alguns eventos peculiares. Houve uma homenagem ao Ministro da Marinha, o então contra-almirante Eduardo Wandenkolk, que progrediu a uma homenagem ao chefe do Governo Provisório, o marechal-de-campo Manuel Deodoro da Fonseca. Há nela, entretanto, alguns eventos estranhos às homenagens de praxe, como promoções militares feitas por aclamação popular, isto é, do “povo, do Exército e da Armada”; mas também há a percepção de que o hino do Império, de Francisco Manuel da Silva, seria antes nacional que imperial e, portanto, deveria manter a condição de hino oficial.

As fotografias de Francisco Soucasaux, do acervo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, apresentam a expressão visual desse evento histórico. O que vemos na fotografia é o desfile da Marinha em homenagem a Deodoro da Fonseca em frente ao palácio Itamaraty, então sede do Governo Provisório. Trata-se do momento em que, após promovidos por aclamação, respectivamente, Deodoro a Generalíssimo, Wandenkolk a vice-almirante e Benjamin Constant a brigadeiro, as bandas da Marinha voltam a tocar desfilando em frente ao palácio. Pode-se ver a guarda de honra feita pelos soldados do 23º batalhão de infantaria do Exército separando os marinheiros em desfile dos civis no palácio.

 

 

Nos meses seguidos à Proclamação, houve um movimento de beneficiar os militares que apoiaram o golpe e de reformar os que se opuseram. O aumento do soldo veio em menos de um mês após a ruptura e, em janeiro de 1890, as promoções em massa fariam oficiais subirem dois ou três postos em questão de semanas ou meses.[1] Havia uma preocupação do governo em recompensar os seus partidários e, sobretudo, em valorizar os militares, os quais se consideravam vítimas de uma tradição civilista do Império que nutria antipatia aos valores, às demandas e às instituições castrenses.

Foi nesta conjuntura que ocorreu o evento fotografado. Segundo Raimundo Magalhães Júnior, houve uma espécie de conspiração palaciana em que o capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar almejava homenagear a Wandenkolk e o major Inocêncio Serzedello Correia, a Constant, Ministro da Guerra. Para tal, teriam incluído Deodoro, pensando ser assim mais fácil de convencê-lo a acatar ao pedido.[2] Planejou-se, desse modo, o desfile do quinze de janeiro.

Os jornais diários narram o seu trajeto: entre 11 e 12 horas, o corpo de marinheiros nacionais desembarca no Arsenal da Marinha, tendo a sua frente bandas de música[3]; seguiram, então, por volta de 13h30 e 14h15, para o Clube Naval, passando pela rua Primeiro de Março, pela Rua do Ouvidor até a rua do Theatro, após o Largo de São Francisco, e depois para a praça da Constituição (atual praça Tiradentes), onde se localizava o clube.[4] Após a homenagem a Wandenkolk e saudações generalizadas, este decide se unir ao desfile e seguir até a sede do governo com seu estado maior, por volta das 15h15.[5] A parada continuou pela rua Visconde do Rio Branco, atravessou a praça da Aclamação (atual praça da República) pelo lado da antiga prefeitura e foi para a rua Larga de São Joaquim, onde ficava o Itamaraty, encontrando lá o 23º batalhão de infantaria do Exército fazendo a guarda de honra do palácio.[6] O Diário de Noticias descreveu o aspecto da sede do governo:

 

“As janelas do palácio achavam-se apinhadas de famílias, e nas diversas salas circulava grande número de oficiais de mar e terra, cidadãos ministros do interior, da guerra, da agricultura e da justiça, dr. chefe de polícia e muitas outras pessoas gradas. No saguão do palácio tocavam as bandas de música […]

Na rua a multidão era compacta.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; p.1)

 

Ao chegarem ao Itamaraty, os marinheiros desfilaram, comandados pelo capitão-tenente Alexandrino, e houve uma saudação a Deodoro, que respondeu à cortesia. Foi quando o major Serzedello, comissionado por outros oficiais, da rua, dirigiu-se ao marechal pedindo permissão para que fossem promovidos – o Ministro da Guerra, o da Armada e o próprio chefe do governo – porque essa era a vontade do povo, do Exército e da Marinha.[7] O Paiz descreve o pedido:

Depois dessa formalidade, cercado de muitos oficiais, na rua, tomou a palavra o talentoso major Serzedello, que em nome do povo, da armada e do exercito, declarou, que, grata aos relevantes serviços prestados, a nação elevava o marechal Deodoro a generalissimo do exercito; o tenente-coronel Benjamin Constant a brigadeiro, e o contra-almirante Wandenkolk a vice-almirante. Ao troar dos canhões e por entre os vivas do povo, assim terminou o orador.

“É essa a vontade do povo e ela é soberana.” (Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, 16/01/1890; p.1)

 

 

Embora haja suspeita de que as promoções por aclamação tenham sido planejadas em uma conspiração do oficialato, os homenageados pareceram surpresos. Há relatos de que tanto Deodoro como Constant recearam em receber tais promoções. Afinal, uma promoção de patente por aclamação popular é algo estranho às práticas castrenses. O Diário de Noticias aponta que Deodoro relutou a princípio, mas acedeu após a insistência de Serzedello respondendo “Querem? pois bem, seja feita a vossa vontade”.[8] Já o O Paiz e a Gazeta de Notícias registram que Constant também receou em receber a promoção tendo, inclusive, discursado o porquê de sua recusa no momento.[9] Este jornal publicou o discurso no dia 17 e relata que ao seu fim, “O povo reclama e o Sr. major Serzedello declara que os decretos da população são irrevogáveis”.[10] O major de 29 anos era, à época, o secretário do Ministro da Guerra, que também terminou por acatar à homenagem.[11]

Após as relutâncias, os oficiais foram promovidos por aclamação em meio entusiasmado, as bandas de música voltaram a tocar e as forças de mar a desfilar em frente ao palácio. Acredita-se que foi este o momento das fotografias. Pode-se ver, em uma delas, Deodoro na sacada do palácio; em outra, o desfile dos marinheiros precedido pela banda de música. As fotografias parecem terem sido tomadas em sequência, tendo em vista que muitos dos personagens continuam no mesmo lugar, com a exceção do Generalíssimo. Percebe-se que na fotografia em que Deodoro aparece, o desfile da Marinha ainda não está no enquadramento da foto e muitos dos olhares sugerem a sua chegada pelo canto esquerdo. Supõe-se, por isso, que a fotografia com Deodoro tenha sido tomada no momento anterior.

Em seguida ao momento fotografado, o chefe do governo convidou os oficiais para um almoço solene no palácio. Foi Serzedello, ainda, quem, em nome de oficiais do Exército e da Armada, se dirigiu a Deodoro e a Constant para pedir a manutenção do hino, pois, repetindo o argumento corrente na imprensa[12], se tratava antes de um símbolo da nacionalidade do que da monarquia.[13] O ministro da Guerra respondeu que o governo já havia entendido ser esta a vontade do “[…] povo, do Exército e da Armada”.[14] Havia, no entanto, um concurso agendado para o dia vinte de janeiro, isto é, cinco dias depois, no qual seria eleito um novo hino para a República. Com a escolha da manutenção do hino antigo, houve uma mudança e o concurso elegeria o hino da Proclamação, não mais o da nação.[15] De qualquer forma, as bandas, que antes desfilavam na rua Larga de São Joaquim alternando entre marchas e a Marselhesa, sem despertar entusiasmo do público, com a anuência de Constant passam a tocar o hino de Francisco Manuel da Silva, que levou ao êxtase generalizado dos presentes.[16] A parada terminou por volta da 17h30.

Também digno de nota foram os presentes dados pela Escola Militar aos personagens promovidos por aclamação, buscando, desse modo, endossá-las. Por unanimidade de votos, ofereceram a Deodoro os bordados de Generalíssimo; a Constant o boné de brigadeiro; e a Wandenkolk um mimo que simbolizaria a concórdia entre o Exército e a Marinha.[17] Além disso, o major Serzedello também parece ter sido recompensado por seu empreendimento: ainda em 1890 foi promovido a tenente-coronel e nomeado presidente do Estado do Paraná.[18]

Por fim, quatro importantes questões se impõem à imagem apresentada. A primeira é a de que promoções militares por aclamação popular nas ruas são eventos estranhos à cultura castrense. De acordo com Frank McCann, este foi um evento único na história militar brasileira.[19] Além disso, a imagem da fotografia contrasta com os retratos oficiais da Proclamação, de predominância militar e carência de povo, como descrito por Aristides Lobo. O povo, quer dizer, civis de terno ou casaca, mulheres e crianças, participam do evento e da composição da imagem. As menções na imprensa diária incluindo o povo na aclamação, sempre se referindo à tríade povo, Exército e Armada, também não parece despropositada. O próprio major Serzedello havia salientado a importância de inclusão do elemento civil no Governo Provisório, quando saudou Quintino Bocaiúva no Clube Naval.[20] No Diário Oficial, por exemplo, a inclusão do povo era feita de forma diferente. Os decretos caracterizavam o Governo Provisório como constituído por “Exército e Armada em nome da nação”.[21] A terceira leva em consideração a tradição monárquica de aclamar os novos imperadores. No Brasil, D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II foram aclamados nas ruas. A do primeiro Imperador, inclusive, foi bem próxima à localização do Itamaraty, no Campo de Santana, que passou a ser chamado de praça da Aclamação. Uma aclamação popular a Deodoro dois meses após a Proclamação, em meio à disputa pela reorganização política do país, aparenta expor uma sociedade ainda conformada às distinções típicas do Império. O que leva à última questão: diferentemente das promoções a Wandenkolk e a Constant, a de Deodoro não foi uma ascensão na hierarquia militar propriamente dita. Trata-se, antes, de título distintivo, isto é, que visava à distinção do marechal que também era o governante e o personagem ao qual era atribuída a Proclamação. Ironicamente, o título a distinguir o proclamador da República, Generalíssimo, havia pertencido ao Imperador.[22]

O decreto escrito pelo secretário e sobrinho do chefe de governo, João Severiano da Fonseca Hermes, irmão do futuro Presidente Hermes da Fonseca[23], no dia das aclamações, foi transcrito de diferentes formas para os jornais diários, mas todas respeitando a mesma mensagem. Assim foi apresentado o decreto no Diario de Notícias:

“O povo brazileiro, o exercito e armada nacionaes, representados no governo provisorio, como gratidão eterna aos serviços immorredouros prestados à liberdade e à grandeza da patria, acclamam o marechal de campo Manoel Deodoro da Fonseca generalissimo do mesmo exercito, o contra-almirante Eduardo Wandenkolk, vice-almirante, e o tenente -coronel Benjamin Constant, brigadeiro.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1)

 

[1] McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009; 46.

[2] Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957; 134-135.

[3] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[4] As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[5] Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[6] Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[7] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[8] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[9] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[10] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[11] Magalhães Jr, op. cit., loc. cit.

[12] Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017; 123.

[13] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[14] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[15] Carvalho, op. cit., 124.

[16] Carvalho, op. cit., 122-123; McCann, op. cit., loc. cit.

[17] Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[18] Magalhães Jr, op. cit., 136; McCann, op. cit., 47.

[19] McCann, op. cit., loc. cit.

[20] Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[21] Citação presente em qualquer Diário Oficial da União de janeiro de 1890.

[22] McCann, op. cit., loc. Cit.

[23] Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

 

*Thiago Guimarães Pougy é doutorando em História na Universidade Federal Fluminense sob a orientação de Paulo Knauss, sócio titular e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

 

Bibliografia:

Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Faria, Durland Puppin de; Pedrosa, Fernando Velôzo Gomes. Hierarquia militar brasileira – Exército. IN: Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume II. Org. Silva, Francisco Carlos Teixeira da.  [et al.]. Rio de Janeiro: Autografia, 2022.

Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957.

McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional:

Diario de Notícias:

As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias:

Acclamações. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno da Republica. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1. (Escola Militar)

Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Jornal do Commercio:

Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

O Paiz:

Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 2.

Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

 

Biblioteca Machado de Assis – Acervo histórico do Diário Oficial da União – DOU:

http://museu.in.gov.br/fi/web/dou/dou/-/document_library/kcmautn6AnNs/view/575744?_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_navigation=recent&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaEntry=75&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByCol=modifiedDate&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByType=asc&p_r_p_resetCur=false&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curEntry=4

No Dia Nacional do Samba, uma homenagem ao gênero musical icônico do Brasil e a Donga, um dos compositores de “Pelo telefone”

Com uma fotografia do conjunto “Batutas”, considerado o primeiro grupo de música popular brasileira a alcançar projeção internacional,  a Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Nacional do Samba. Havia entre os integrantes dos “Batutas” vários expoentes, dentre eles Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, um dos autores daquele que ficou consagrado como o primeiro samba da história, Pelo telefone, registrado em 27 de novembro de 1916. O samba é o gênero musical icônico do Brasil e,  segundo Nélson Sargento (1924-2021), é um bonito modo de viver. Em 2005, a Unesco reconheceu o samba de roda como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

 

 

Em 9 de outubro de 2007, o samba tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) conferiu registro oficial, no Livro de Registro das Formas de Expressão, às matrizes do samba do Rio de Janeiro: samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo. O pedido de registro foi feito por Nilcemar Nogueira, presidente do Centro Cultural Cartola com apoio da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Nilcemar é neta do compositor Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980).

No ano de 2023, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro foram contempladas com a Lei nº 14.567 de 4 de maio de 2023, sancionada pelo Presidente da República em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva, em conjunto com os ministros Margareth Menezes da Purificação Costa, Flávio Dino de Castro e Costa e Anielle Francisco da Silva. Elas e seus desfiles foram reconhecidos assim como as suas músicas, suas práticas e suas tradições como manifestações da cultura nacional, competindo ao poder público a garantia da livre atividade das Escolas de Samba e a realização de seus desfiles carnavalescos.

 

Breve história do Dia Nacional do Samba

 

 

No Palácio Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, entre 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962 foi realizado o I Congresso Nacional do Samba, presidido pelo historiador e folclorista baiano Edison Carneiro (1912-1972). O evento foi patrocinado pela Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES), pela Associação Brasileira das Escolas de Samba (ABES), pela Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, pelo Conselho Nacional de Cultura e pela Ordem dos Músicos do Brasil. Seus vice-presidentes foram Ari Barroso (1903-1964), Araci de Almeida (1914-1988), Almirante (1908-1980), José Siqueira (1907-1985), Pascoal Carlos Magno (1906-1980), Paulo Lamarão, presidente da CBES; e Servan Heitor de Carvalho, presidente da ABES. Jota Efegê (1902-1987) foi seu secretário-geral. Do Congresso resultou a Carta do Samba, elaborada por Edison Carneiro (Diário de Notícias, 29 de novembro de 1962, terceira coluna; 2 de dezembro de 1962, primeira coluna).

 

 

“Esta carta, que tive a incumbência de redigir, representa um esforço por coordenar medidas práticas e de fácil execução para preservar as características tradicionais do samba sem, entretanto, lhe negar ou tirar espontaneidade e perspectivas de progresso. O Congresso do Samba valeu por uma tomada de consciência: aceitamos a evolução normal do samba como expressão das alegrias e das tristezas populares; desejamos criar condições para que essa evolução se processe com naturalidade, como reflexo real da nossa vida e dos nossos costumes; mas também reconhecemos os perigos que cercam essa evolução, tentando encontrar modos e maneiras de neutralizá-los. Não vibrou por um momento sequer a nota saudosista. Tivemos em mente assegurar ao samba o direito de continuar como expressão legítima dos sentimentos de nossa gente”.

 

No dia do encerramento do Congresso, 2 de dezembro de 1962, foi noticiada a criação do Dia do Samba, que seria comemorado anualmente neste dia de acordo com resolução da Assembleia Legislativa (Diário Carioca , 2 de dezembro de 1962, segunda coluna).

 

 

A resolução estava no Projeto de Lei n° 681, de 19 de novembro de 1962 e de autoria do deputado Frota Aguiar (1901-1996), publicado no Diário da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara do dia 20 de novembro de 1962 que em seu artigo 1° dispunha: “Fica o dia 2 de dezembro oficialmente considerado como o Dia do Samba”. Porém o projeto foi vetado pelo então governador Carlos Lacerda (1914-1977). Segundo ele, não haveria razão “para considerar outro Dia do Samba além dos três já dedicados à nossa festa popular, em que ele é exaltado espontaneamente pelo povo, sem a interferência do Poder Público”. O veto foi posteriormente rejeitado pelo Plenário, com o voto de vinte e nove deputados, transformando-se na Lei n° 554, de 27 de julho de 1964, que foi assinada no dia 29 de julho do mesmo ano pelo deputado Victorino James (1924-1997), presidente da Assembleia, e publicada no Diário Oficial do Estado da Guanabara, no dia 7 de agosto de 1964.

O vereador soteropolitano Luiz Monteiro da Costa apresentou, na Câmara Municipal de Salvador, em 3 de outubro de 1963, o projeto de lei n° 164/63, que “institui o Dia do Samba, manda preservar as características da música popular e dá outras providências”. Em seu projeto, o vereador mencionou explicitamente, em seu artigo 2°, o Primeiro Congresso Nacional do Samba e a respectiva Carta do Samba nele aprovada. O projeto foi transformado na Lei n° 1.543/63 no dia 18 de novembro de 1963, data de sua assinatura pelo Prefeito de Salvador Virgildásio de Senna (1923-) (Jornal do Brasil, 13 de novembro de 1963, segunda coluna).

Com os anos, passou a ser chamado de Dia Nacional do Samba.

 

Um pouco da história de Donga e do samba Pelo telefone

 

 

“O ritmo caracteriza um povo. Quando o homem primitivo quis se acompanhar, bateu palmas. As mãos foram, portanto, um dos primeiros instrumentos musicais. Mas como a humanidade é folgada e não quer se machucar, começou a sacrificar os animais, para tirar o couro. Surgiu o pandeiro. E veio o samba. E surgiu o brasileiro, povo que lê música com mais velocidade do que qualquer outro no mundo, porque já nasce se mexendo muito, com ritmo, agitadinho, e depois vira capoeira até no enxergar”.

Donga (1966)

 

Entre a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a comunidade afrodescendente se reunia na região batizada por Heitor dos Prazeres (1898-1966) de Pequena África para praticar religiões de matriz africana e cantar sambas. A área começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho, que foi totalmente remodelada nos anos 1940 para a abertura da avenida Presidente Vargas. Foi  lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira.

O carioca Donga nasceu em 5 de abril de 1890 e era filho do pedreiro construtor Pedro Joaquim Maria, que tocava bombardino nas horas vagas; e de Amélia Silvana de Araújo, uma das tias baianas da Pequena África, que gostava de cantar modinhas e promovia inúmeras festas e reuniões de samba. Sua mãe era irmã-de-santo da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, no terreiro de João Alabá, um dos principais babalorixás do candomblé  no Rio de Janeiro. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana (1887-1974), e, principalmente, a de Tia Ciata foram espaços fundamentais da música popular carioca e eram frequentados por Donga, Pixinguinha (1897 – 1973) e João da Baiana.

Foi na casa de Tia Ciata, onde havia um terreiro de candomblé clandestino e onde os bambas do samba se encontravam, que o primeiro samba, registrado e gravado como tal, Pelo telefone, foi composto por Donga e Mauro de Almeida (1882 – 1956), em 1916. Donga entregou no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional uma petição de registro para a música em 6 de novembro de 1916. A partitura manuscrita para piano, realizada por Pixinguinha, estava dedicada aos carnavalescos Mauro de Almeida, o Peru e a Norberto Amaral, o Morcego.

 

 

Dez dias depois, Donga anexou à petição um atestado afirmando que Pelo telephone havia sido executado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916, no Cine-Teatro Velho. O registro da obra foi efetuado pela Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, com o número 3.295. A iniciativa de Donga foi pioneira e o registro da música foi um marco na história da música popular brasileira. Pelo Telefone foi lançado pela Odeon e foi um sucesso no carnaval de 1917.

Existe uma polêmica em torno de sua autoria: foi registrado por Donga, mas teria sido uma criação coletiva. Houve uma troca de petardos musicais entre Sinhô (1888 – 1930), que estaria presente na casa de Tia Ciata quando o samba foi composto e a turma de Donga, dentre eles João da Baiana e Pixinguinha. Outra polêmica envolve o fato de ter sido mesmo o primeiro samba ou se foi o primeiro samba a fazer sucesso, já que alguns autores alegam que antes foram compostos os sambas Em casa da baiana, de 1911; e A viola está magoada, de 1914. Há ainda que conteste que a música seja de fato um samba.

Acesse aqui o programa da Rádio Batuta Como e por que nascem as canções Pelo telefone, apresentado por João Máximo en  editado e sonorizado por Filipe Di Castro (5 de março de 2024)

 

 

Segundo o jornalista, escritor e historiador da música Rodrigo Faour (1972-): “Ele entendeu que precisava fazer da gravação de Pelo telefone um acontecimento. Então planejou tudo muito bem. Pegou os versos de improviso e motivos folclóricos dessa canção e pediu que um jornalista prestigiado, Mauro de Almeida os organizasse, e foi até a Biblioteca Nacional registrá-lo.” Ainda segundo Faour, seu “trunfo maior foi chamar a atenção para este novo gênero musical“. O samba “rapidamente contagiou a todos e a música caiu na boca do povo”.

Em 1954, o fotógrafo, cineasta, empresário, professor e galerista húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas (1924-2011) fotografou as celebrações do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo e com uma filmadora Kodak 16mm, de corda, registrou em preto e branco, durante cerca de seis minutos, um show de Alfredinho Flautim (1884-1958), Almirante (1908 -1980), Benedito Lacerda (1903-1958), Donga, Jacob Palmieri (?-19?), João da Baiana e Pixinguinha, realizado no Parque do Ibirapuera, em 25 de abril. Mas não havia tomada de som. O filme ficou perdido por cerca de 50 anos – Farkas, por acaso, o encontrou. Marcelo Nastari, na época assistente de Coordenação do Instituto Moreira Salles, identificou as músicas que o grupo executava, Ele e eu e Patrão prenda seu gado e, em janeiro de 2004, o material foi sonorizado pelo Instituto Moreira Salles e pela Cia de Áudio e Imagem. As imagens sonorizadas podem ser vistas no documentário Pixinguinha e a velha guarda do samba (1954-2006), dirigido por ele e pelo cineasta e biólogo Ricardo Dias (O Estado de São Paulo, 25 de abril de 1954, página 17, primeira coluna).

 

 

Assista aqui o documentário Pixinguinha e a velha guarda do samba (1954-2006).

Alguns dos maiores sucessos de Donga foram Amigo Do Povo (Donga), Canção Das Infelizes (Donga / Luiz Peixoto), Benedito No Choro (Donga), Patrão Prenda Seu Gado (Donga / João da Bahiana / Pixinguinha), Vertigem (Donga), Seu Mané Luiz (Donga), Cinco de Julho (Donga), Ranchinho Desfeito (Castro e Souza / Donga), Ligia, Teus Olhos Dizem Tudo (Donga), Pelo Telefone (Donga / Mauro de Almeida) e Quando Uma Estrela Sorri (David Nasser / Donga / Villa-Lobos).

 

A Música de Donga

 

Donga  foi casado com a cantora e soprano carioca Zaíra de Oliveira (1900-1951) entre 1932 até a morte dela, em 15 de agosto de 1951.

 

 

Zaíra teve formação clássica e interpretou compositores como Donga, João da Baiana e Pixinguinha. Gravou temas de matriz africana e como professora do Colégio Orsina da Fonseca deu aulas, por exemplo, para dona Ivone Lara (1921-2018).

 

 

Ela estudou no Instituto Nacional de Música e, no final de 1921, quando completou o curso, com distinção, recebeu a Medalha de Ouro, o que permitiu que ela concorresse em um concurso cujo prêmio seria uma viagem à Europa com uma bolsa de estudos para aprimoramento em canto lírico. Em 30 de dezembro de 1921, ela conquistou por unanimidade de votos da comissão julgadora o primeiro prêmio do concurso. A aluna Emery de Carvalho e Souza também recebeu um primeiro prêmio (Correio da Manhã, de 31 de dezembro de 1921, sexta coluna). Porém Zaíra não recebeu o prêmio conquistado. Segundo a crônica Soprano Zaíra de Oliveira, A Marian Anderson do Brasil, de autoria de Jota Efegê, publicada em O Globo, de 29 de agosto de 1977, o motivo de não ter viajado à Europa teria sido o fato dela ser negra. 

 

samba3

samba2

O GLOBO, 29 de agosto de 1977

 

Tiveram uma filha, a pesquisadora Lygia de Oliveira Santos (1934-), que se dedicou à pesquisa da cultura brasileira, principalmente no campo da música popular ligada ao samba.

 

 

“Meu pai não tinha o terceiro ano primário, mas era uma pessoa de uma vivência muito grande, era muito sagaz, muito inteligente, lia demais e tinha uma visão segura das coisas. Trabalhava no Supremo Tribunal Federal, na 1.a Vara da Fazenda Pública, e sempre viveu do seu modesto ordenado e dos magros dividendos dos direitos autorais. O nome dele era Ernesto dos Santos mas,  felizmente, está na história musical do nosso país com o seu apelido: Donga. Apelido, aliás, que meus amigos incorporaram ao meu nome. Para eles eu sou a Lygia filha do Donga, o que muito me orgulha”.

Depoimento de Lygia publicado no livro Fala, Crioulo (1982)

 

Oficial de Justiça aposentado, Donga faleceu doente e quase cego, no Retiro dos Artistas, em 25 de agosto de 1974, assistido por sua segunda esposa, Maria das Dores Santos Conceição (1911-2014), a Vó Maria, que gravou seu primeiro disco com 91 anos. Estavam casados desde 1953 (Jornal do Brasil, 26 de agosto de 1974, quinta colunaManchete, 14 de setembro de 1974).

 

 

Em 6 de abril de 2023, foi fundado o Instituto Donga na residência da família Santos, que fica no Maracanã, zona norte do Rio, antiga Aldeia Campista, onde Donga nasceu e viveu a maior parte de seus 84 anos de vida. O acervo reúne 311 itens entre matérias de jornais, fotos, partituras, letras de música e anotações feitas pelo próprio Donga (Folha de São Paulo, 21 de abril de 2023).

 

Acesse aqui a matéria que o Canal Futura realizou sobre o samba Pelo Telefone.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Almanaque do Samba

BASTOS, Rafael José de Menezes. Les Batutas, 1922: uma antropologia da noite parisienseRevista Brasileira de Ciências Sociais – vol. 20 nº 58 , munho de 2005.

BIANCHI, Leonor. Nós somos batutasRevista do Choro, 1º de dezembro de 2019.

BRAGA, Sebastião. O lendário Pixinguinha. Niterói, RJ : Muiraquitã, 1997.

BULCÃO, Clóvis. Os Guinle: a história de uma dinastia. Rio de Janeiro : Intrínseca, 2015.

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (Brasil). Carta do samba / texto de Edison Carneiro / prefácio de Marcia Sant’Anna. — Rio de Janeiro : IPHAN, CNFCP, 2012.

COSTA, Haroldo. Fala, Crioulo. Rio de Janeiro: Record, 1982.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

DUQUE. O maxixe em Paris e em Nova York in O Cruzeiro, 7 de julho de 1934.

FERNANDES, Antonio Barroso (org.). As vozes desassombradas do museu: Pixinguinha, Donga  e João da Baiana. Rio de Janeiro : Museu da Imagem e do Som, 1970, vol. 1.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LACERDA. Isomar. Nós somos Batutas. Rio de Janeiro : Flor Amorosa Editora, 2019.

MARCONDES, Marcos Antônio (org.). Enciclopédia da música brasileira: popular, erudita e folclórica. São Paulo : Art Editora, 1998.

MARTINS, Luiza Mara Braga. Os Oito Batutas. Rio de Janeiro : UFRJ, 2014.

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro : Funarte, 1983.

NETO, Lira. Uma História do Samba: Volume 1 ( As origens). 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Portal IPHAN

RANGEL, Lúcio. Samba, jazz & outras notas; organização, apresentação e notas Sérgio Augusto. Rio de Janeiro ; Agir, 2007.

RANGEL, Lúcio.  Sambistas e chorões. São Paulo : IMS. Reedição, 2014.

SILVA, Wilton C. L. A Carta do Samba (1962), um grito de alerta do nacional popular. Encontro de estudos multidisciplinares em cultura, 2024.

SIMAS, Luiz Antônio; LOPES, Nei. Dicionário de História Social do Samba. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2015.

Site Biblioteca Nacional

Site Câmara dos Deputados

Site Casa da Tia Ciata

Site Centro de Documentação e Memória da UNESP

Site DW

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Museu da Pessoa

Site Museu do Samba

Site Musica Brasilis

Site Rádio Batuta

TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]