Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama

A historiadora Maria de Fátima Morado, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é a autora do artigo Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama, destacando imagens de dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha. Os registros apresentam o contexto da realização das obras, com etapas das construções e imagens de seus trabalhadores. Constam nas páginas dos álbuns informações manuscritas que colaboram para a descrição da execução dos trabalhos. Além disso, as imagens revelam aspectos da bela paisagem local no início do século XX.

 

Nilo Peçanha, o sal e as obras nos canais da Lagoa de Araruama

Maria de Fátima Morado*

 

 

Na Lagoa de Araruama, os canais Palmer 1, Palmer 2 e Mossoró passaram por obras de melhoramentos promovidas pelo governo de Nilo Peçanha durante seu segundo mandato de presidente do estado do Rio de Janeiro (1914-1917). As fotografias que registram o andamento dessas obras compõem dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha, presente no acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

Acessando o link para as fotografias das obras nos canais da Lagoa de Araruama de dois álbuns que integram a Coleção Nilo Peçanha do Museu da República que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A exploração de sal na Lagoa de Araruama, considerada a maior laguna hipersalina do mundo, começou no período colonial de forma restrita, alcançando escala de industrialização durante o Império quando ocorreram as aberturas de canais para facilitar o escoamento do produto. Em Cabo Frio, o engenheiro francês Leger Palmer, um dos mais importantes negociantes do sal, depois de obter autorização dos poderes públicos para financiamento das obras que duraram de 1875 a 1880, promoveu a abertura dos dois canais que atualmente levam seu nome.

 

 

No período republicano, a produção do sal favorecia fortemente a economia da região da Lagoa de Araruama. Contudo, o transporte da mercadoria encontrava novos entraves, uma vez que os canais utilizados necessitavam de modernização para que pudessem acompanhar o crescimento da produção. Em 1911, o Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas, ao descrever o canal de Mossoró, em São Pedro da Aldeia, informa que sua origem ocorreu em torno de 1880 e destaca a necessidade de intervenção para sua melhoria, o que deveria ser feito em conjunto com as melhorias dos canais Palmer que também precisavam ser realizadas.

Nilo Peçanha tomou posse presidente do estado do Rio de Janeiro, em dezembro de 1914, e, no ano seguinte, recebeu por telegrama uma representação de salineiros com agradecimentos por incluir Mossoró na resolução que promoveria obras de dragagem, construção de pilares de alvenaria, entre outros benefícios, nos canais da Lagoa de Araruama.

 

 

Os veículos de imprensa da época noticiavam sobre o andamento das obras e a Revista Fon Fon publicou, em 1915, a fotorreportagem “As riquezas do Brasil: as salinas do Estado do Rio” sobre a visita da comitiva de Nilo Peçanha à região da Lagoa de Araruama.

 

 

Em dezembro de 1917, o jornal A Noite, anunciou a inauguração do monumento erguido em comemoração ao fim das obras fazendo uma retrospectiva sobre a necessidade que levou a modernização dos canais, lembrando o apelo dos produtores. Também citou como os responsáveis pelo projeto o engenheiro Meira Junior e o construtor Horácio Miranda. Nilo Peçanha havia renunciado ao mandato em 7 de maio de 1917 para assumir o Ministério das Relações Exteriores, assim, segundo o mesmo jornal, a inauguração foi feita pelo seu sucessor, Geraque Collet.

 

 

Publicações oficias também relatavam sobre a condução das obras nos canais, como por exemplo, o Relatório dos Presidentes dos Estados Brasileiros (RJ) – 1892 a 1930 que destacou a conclusão dos pilares de alvenaria de pedra, quebra-mar e cais nos canais Palmer 1 e 2 e da dragagem no canal Mossoró.

 

 

 

 

As fotografias da Coleção Nilo Peçanha apresentam o contexto da realização das obras, detalhando as etapas das construções com destaque para seus trabalhadores. Em diversas fotos podemos observar a presença dos homens empregados nas obras dos canais, especialmente em uma delas quando aparece um grupo segurando um cartaz. Nas páginas dos álbuns constam informações manuscritas que colaboram para a descrição da execução dos trabalhos. Sem esquecer que essas imagens revelam aspectos da bela paisagem local no início do século XX.

 

 

*Maria de Fátima Morado é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

CHRISTOVÃO, J. H. de O. Do sal ao sol: a construção social da imagem do turismo em Cabo Frio. Orientador: Helenice Aparecida Bastos Rocha. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores, São Gonçalo 2011.

FREITAS, G. G. de. A produção de sal marinho na lagoa de Araruama, RJ. Revista CEDEPEM, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 35-38, jul/ago. 2021.

PEREIRA, Olegário N. Azevedo; CASTRO, Elza Maria N. Vieira de; DIAS, João Alveirinho; BASTOS, Maria Rosário. A exploração de sal como motivo de antropização na laguna de Araruama: 1801-1900. In: Silvia Dias Pereira et al., O Homem e o Litoral: Transformações na paisagem ao longo do tempo, Rio de Janeiro, pp.312-331, 2017.

BIDEGAIN, Paulo; BIZERRIL, Carlos. Lagoa de Araruama: Perfil ambiental do maior ecossistema lagunar hipersalino do mundo. Rio de Janeiro: Semads, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:

Annaes da Assembléa Legislativa Provincial do Rio de Janeiro: Relação dos Deputados à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – 1836 a 1888. Ano 1878. Edição 00001 (1).

A Noite. Ano 1917. Edição 02155 (1)

Fon Fon: Semanario Alegre, Politico, Critico e Esfusiante. Ano 1915. Edição 00020 (1)

Jornal do Commercio. Ano 1918. Edição 00212 (1).

O Fluminense. Ano 1915. Edição 09454 (1)

Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas – 1910 a 1927. Ano 1911. Edição 00001 (4)

Relatórios dos Presidentes dos Estados Brasileiros – 1892 a 1930. Ano 1918. Edição 00001 (1)

O Dia do Trabalho

Para celebrar o Dia do Trabalho a Brasiliana Fotográfica destaca diversos registros de trabalhadores no Brasil do século XIX e do início do século XX. São imagens produzidas por Albert Frisch (1840 – 1918), Augusto Malta (1864 – 1957)Christiano Junior (1832 – 1902)Georges Leuzinger (1813 – 1892), Gomes Junior (18? – 19?), Guilherme Gaensly (1843 – 1928) J. Pinto (1884 – 1951), Jorge Kfuri (1893 – 1965)Marc Ferrez (1843 – 1923), Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905)Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), Therezio Mascarenhas (18? – 19?), Torres (18? – 19?) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918),  dentre outros, além de registros realizados por  fotógrafos até hoje não identificados.

 

 

A galeria contempla trabalhadores rurais e urbanos, e escravizados, trazendo, por um lado, um pouco da história cotidiana brasileira e, por outro, imagens do mundo do trabalho na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX que ajudam a contextualizar as transformações objetivas e subjetivas que modificaram significativamente as relações sociais, econômicas e políticas no país no período.

Acessando o link para as fotografias selecionadas e relativas ao tema trabalho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a ela.

 

 

Na seleção feita no acervo fotográfico do portal, há 45 imagens, mas existem mais de 100 relativas ao tema. A Brasiliana Fotográfica convida você, leitor, a fazer sua própria seleção. Basta entrar na página de abertura do portal, selecionar a aba “Acervo” e depois navegar na aba “Assunto”. Aí, colocar no local indicado a palavra-chave “trabalho“, “trabalhadores” e “operário“, por exemplo.

 

 

A primeira comemoração da data que se tem registro no Brasil aconteceu, em 1895, no salão do Partido Operário, em Santos, por iniciativa do Centro Socialista de Santos, em São Paulo, fundado pelo médico e líder social sergipano Silvério Martins Fontes (1858-1928), também fundador do jornal A Questão Social, órgão divulgador do socialismo no Brasil, e autor do Manifesto Socialista. Seu filho foi o poeta José Martins Fontes (1884 – 1937).

 

 

Mas a celebração da data só foi oficializada pelo governo brasileiro, em 26 de setembro de 1924, a partir do Decreto nº 4.859, sancionado pelo então presidente Arthur Bernardes (1875-1955).  Em seu artigo único declarava “feriado nacional o dia 1 de maio, consagrado à confraternidade universal das classes operárias e à comemoração dos mártires do trabalho; revogadas as disposições em contrário”.

 

 

 

O Dia do Trabalho tem sua origem numa homenagem aos trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos, que, em 1º de maio de 1886, iniciaram uma série de manifestações por melhores condições de trabalho e especialmente por uma jornada de trabalho de 8 horas. Em 1889, durante uma reunião da Segunda Internacional Socialista, em Paris, a data foi estabelecida.

 

 

Links para as notícias da comemoração do primeiro feriado de 1º de maio no Brasil:

O Paiz – Edição de 02/05/1925

Jornal do Brasil – Edição de 02/05/1925

 

 

Acesse aqui o outro artigo publicado na Brasiliana Fotográfica sobre o Dia do Trabalho.

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

COGGIOLA, Osvaldo. Origens do movimento operário e do socialismo no Brasil. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 7, n. 2, p. 51-91, dez. 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site BBC

Site Chicago Detours

Site Novo Milênio

Site Time Magazine