Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXII – O prédio da Imprensa Nacional e o arquiteto Antonio de Paula Freitas

Com registros produzidos pelos fotógrafos Augusto Malta (1864-1957), Juan Gutierrez (c.1860-1897), Marc Ferrez (1843-1923) e por Rodrigues & C°. Editores e Proprietários, a Brasiliana Fotográfica publica o 7º artigo da série Os arquitetos do Rio e Janeiro e o 32º da série O Rio de Janeiro desaparecido. É sobre o prédio da Imprensa Nacional que ficava situado na Rua da Guarda Velha, atual Avenida Treze de Maio, no Rio de Janeiro. E também sobre o arquiteto e engenheiro Antonio de Paula Freitas (1843-1906), que o projetou e construiu.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias do prédio da Imprensa Nacional projetado por Paula Freitas disponíveis no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

 

O edifício gótico-manuelino foi inaugurado, em 31 de dezembro de 1877, por João Maurício Wanderley (1815-1889), o barão de Cotegipe, então ministro da Fazenda, cerca de três anos após o lançamento de sua pedra fundamental, em 26 de agosto de 1874, por José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, pai do barão do Rio Branco.

 

 

Foi demolido, entre 1940 e 1941, devido a um projeto de alargamento do Largo da Carioca (Jornal do Brasil, 8 e novembro de 1940, sexta coluna; A Noite, 5 de fevereiro de 1941Gazeta de Notícias, 30 de julho de 1941).

 

Brevíssimos perfis dos fotógrafos que produziram as fotos do prédio da Imprensa Nacional destacadas neste artigo

Augusto Malta (1864-1957)

O fotógrafo alagoano Augusto Malta foi o mais  importante cronista fotográfico do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX, cidade onde chegou em fins de 1888. Em 1903, foi contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como fotógrafo oficial, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou.

Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)

A foto destacada abaixo foi produzida pelo fotógrafo Juan Gutierrez, um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX, no Brasil e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro. Foi um dos fotógrafos principais da transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens do Rio de Janeiro, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Sobre a foto abaixo, a historiadora Maria Isabel Ribeiro Lenzi, do Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, comentou no artigo O Rio de Janeiro de Juan Gutierrez, publicado no portal, em 1º de março de 2019: Ampliando a imagem, observamos um vendedor de pequenas mercadorias que hoje chamamos de camelô, bem como podemos notar, atrás do prédio da Imprensa Nacional, os primeiros barracos a serem construídos no Morro Santo Antônio, que abrigou uma grande favela no centro do Rio de Janeiro e que no final de década de 1950 foi arrasado.

 

 

 Marc Ferrez (1843-1923)

O carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), filhos de franceses, foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 Rodrigues & C°. Editores e Proprietários

Há até o momento poucas informações sobre este fotógrafo. Sabe-se que esteve em atividade no Rio de Janeiro nas décadas de 1890 e 1900. O endereço de seu estabelecimento era Rua dos Ouvidor, n° 57.

Breve perfil do engenheiro e arquiteto Antonio de Paula Freitas (1843-1906)

 

 

O engenheiro e arquiteto carioca Antonio de Paula Freitas, nascido em 10 de janeiro de 1843, foi o responsável pelo projeto e pela construção do prédio da Imprensa Nacional, na Rua da Guarda Velha. A tarefa foi atribuída a ele por José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, em 1874. O visconde era, então, o ministro da Fazenda e Paula Freitas era engenheiro do ministério (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, fevereiro de 1874).

 

 

 

 

Paula Freitas começou a estudar no Colégio Vittorio com 10 anos de idade. Tornou-se bacharel, em 4 de dezembro de 1863, e doutor em Ciências Físicas e Matemáticas pela antiga Escola Politécnica, em 21 de maio de 1870 (Constitucional, 5 de dezembro e 1863, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 21 de maio de 1870, terceira coluna; Renascença, abril de 1907). Havia defendido sua tese, em 17 de março de 1870, com a presença de dom Pedro II (1825-1891) (Diário do Rio de Janeiro, 18 de março de 1870, quarta coluna). Era também engenheiro geógrafo e civil. Foi professor catedrático do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica, conselheiro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e engenheiro fiscal do governo junto da companhia das docas de dom Pedro II (Diário do Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1871, primeira coluna; Diário do Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 1874, segunda coluna). Foi membro da Comissão de Contas da Associação Promotora da Instrução de Meninos, Secretário da Secção de Aclimação da Associação Brasileira de Aclimação e sócio da Sociedade Auxiliadora da Imprensa Nacional (Jornal do Commercio, 20 e julho de 1867, sexta colunaDiário do Rio de Janeiro, 26 e 27 de dezembro de 1876, terceira coluna; Jornal do Commercio, 27 de março de 1877, quinta coluna). Foi membro do Instituto dos Engenheiros Civis de Londres, da Sociedade Francesa de Higiene e da Diretoria do Congresso Científico Latino-Americano. Foi fundador e membro da Administração do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica; do Liceu de artes e Ofícios e do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, tendo sido colaborador da Revista de Engenharia (Revista de Engenharia, 10 de agosto de 1879). Presidiu o Instituto Politécnico Brasileiro e foi durante anos responsável pela revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

 

 

Recebeu, em 13 de novembro de 1877, por seu trabalho Determinação dos Coeficientes numéricos das Fórmulas Matemáticas o importante Prêmio Hawkshaw, honraria instituída pelo Instituto Politécnico Brasileiro e atribuída a quem se destacasse por trabalhos acadêmicos na área da Engenharia. Foi entregue a ele em uma sessão solene no referido instituto, na época presidido pelo visconde do Rio Branco, com a presença de dom Pedro II (Jornal do Commercio, 14 de novembro de 1877, terceira coluna).

Devido a seu destaque tanto nas atividades profissionais como nas acadêmicas foi agraciado, durante o reinado de dom Pedro II (1825-1891), com os títulos de Oficial Menor da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa e cavaleiro da Ordem de Cristo.

 

 

Segundo a tese de doutorado A formação da  Escola Politécnica na corte do Império brasileiro (2022), de Laura Roberta Fontana, dentre suas obras estão:

1. História natural popular dos animais, precedida das indispensáveis noções de fisiologia e anatomia dos diferentes grupos zoológicos.

2. Curso de estradas professado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 1º tomo.

3. Tese apresentada à Escola Central do Rio de Janeiro e sustentada perante a mesma escola, a fim de obter o grau de Doutor em ciências matemáticas e naturais. A obra é dividida em duas partes. Na 1ª parte trata do teorema das velocidades virtuais, independente da consideração dos infinitamente pequenos, e dos princípios fundamentais da mecânica, reduzidos ao menor número possível. Na 2ª parte estuda qual a hipótese que melhor explica a formação primitiva da Terra, e depois se examina a teoria de Laplace.

4. Demonstrar em geral o teorema das velocidades virtuais sem dependência da consideração dos infinitamente pequenos. Demonstrar quais são os princípios fundamentais da mecânica reduzidos ao menor número possível: tese de concurso.

5. Integrais definidas, consideradas como parâmetros. Funções eulerianas. Enchentes dos rios e meios propostos para impedir os seus efeitos: tese de concurso à primeira cadeira do 2º ano da Escola Central.

6. Determinação dos coeficientes numéricos das fórmulas matemáticas.

7. Relatório sobre o abastecimento de água da Cidade do Rio de Janeiro. Este relatório foi escrito de colaboração com o Doutor Manoel Buarque de Macedo em comissão do Ministério da Agricultura.

8. Informações sobre o estado da indústria nacional pela secção de indústria fabril da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, presidida pelo Doutor Antônio de Paula Freitas.

9. Descrição do novo edifício da Tipografia Nacional do Brasil. A planta deste edifício, feita pelo Doutor, tornou-se quadro na Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.

10. Discurso pronunciado na sessão magna da Sociedade Acadêmica Atheneu Central em 17 de fevereiro de 1865.

11. Breves considerações sobre os freios empregados nos trens dos caminhos de ferro. Revista de Engenharia, tomo 1º, n. 8, 1879.

 

São de sua autoria os projetos e a construção de vários prédios históricos na cidade do Rio de Janeiro, como o imóvel-sede do Tesouro Nacional, já demolido, e o do Correio Geral, na Rua Primeiro de Março.

 

 

Também projetou, em 1880, a pedido do ministro de Negócios do Império, Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo (1837-1918), o barão de Homem de Mello, um edifício para sediar a Faculdade de Medicina, cuja pedra fundamental foi lançada, em 12 de fevereiro de 1881, por dom Pedro II. As obras foram suspensas e só foram terminadas, em 1908, quando o prédio foi utilizado como Palácio dos Estados, um dos pavilhões da Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926). Em 1909, o Serviço Geológico foi ali instalado, em conjunto com outros órgãos do Ministério da Agricultura. Abriga atualmente o Museu de Ciências da Terra, que está fechado. O prédio foi tombado em 1994.

 

 

Foi engenheiro da Igreja da Candelária, por mais de 20 anos, tendo sido responsável pelo projeto e construção de suas duas sacristias laterais, em 1877, e pelo desenho e colocação – em colaboração com Heitor de Cordoville (c.1851-1904) – do novo revestimento interno em mármore italiano, além da instalação das belíssimas portas em bronze, em 1901 (Renascença, fevereiro de 1905). Em 1898, publicou o livro Memória histórica sobre a fundação e construção da Igreja da Candelária.

 

 

 

Nos últimos anos da década de 1880, como diretor das obras do ministério do Império, apresentou um projeto de melhoramentos no prédio da Escola Politécnica, mas a obra não foi realizada (Gazeta de Notícias, 2 de fevereiro de 1905).

Com Torquarto Neto, Alexandre Wagner, Otto Simon e Theodoro Duvivier, genro de Wagner, criou, em 1891, a Empreza de Construções Civis. Foram pioneiros no desenvolvimento de Copacabana. Paula Freitas, que presidia a empresa, foi o responsável pelo projeto e obras de arruamento do bairro, em 1894. Seu nome foi dado à antiga rua Itororó.

 

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Em 1903, foi eleito intendente municipal e presidente do Conselho de Intendência Municipal (Gazeta de Notícias, 29 de junho de 1903; 18 de julho de 1903, terceira coluna; Jornal do Brasil, 26 de janeiro de 1904, oitava coluna). Porém, devido a divergências políticas com o prefeito Pereira Passos (1836-1913), renunciou aos cargos. Foi, posteriormente, presidente do Conselho do Instituto Politécnico Brasileiro (Gazeta de Notícias, 21 de março de 1905, sexta coluna). Faleceu em 18 de março de 1906, em sua residência, na Rua Marquês de Abrantes, nº82, em consequência de uma cirurgia para a retirada de pedras na bexiga. Foi enterrado no Cemitério São João Batista (Jornal do Brasil, 19 de março de 1906, colunaGazeta de Notícias, 25 de março de 1906, quinta coluna; Revista da Semana, 25 de março de 1906; Renascença, abril de 1907).

 

 

 

Um pouco da história da Imprensa Nacional

 

A história da Imprensa Nacional começou na década de 1800. Cerca de um ano antes da vinda da corte portuguesa para o Brasil, ocasionada pela invasão francesa no país, o governo português havia comprado da Inglaterra prelos e material tipográfico para a Secretaria de Negócios Estrangeiros e de Guerra. Na fuga da corte de Portugal para o Brasil, em 29 de novembro de 1807, o futuro Conde da Barca, dom Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), despachou o material, que nem havia sido desencaixotado, na nau Medusa, que fazia parte da esquadra que veio para o Brasil. Além da já mencionada embarcação, integravam a esquadra portuguesa que cruzou o Oceano Atlântico conduzindo a família real, a corte, cerca de 10 mil pessoas da aristocracia e todo o Tesouro português as naus Afonso de Albuquerque, Conde D. Henrique e Martins de Freitas, D. João de Castro, Príncipe do Brasil, Príncipe RealRainha de Portugal; as fragatas Golfinho, Minerva e Urânia; os brigues Lebre, Vingança e Voador; e as escunas Curiosa e Furacão.

 

 

Foi constituída como Impressão Régia e foi um dos primeiros atos editados pela Família Real em solo brasileiro, em 13 de maio de 1808, dia do 41º aniversário do príncipe regente dom João (1767-1826), quando foi impresso seu primeiro trabalho, uma Relação de Despachos com os documentos oficiais desde a chegada da corte ao Brasil até aquela data.

“Relação dos despachos publicados na corte I pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra | no faustosíssimo dia dos annos de S. A. R. | o príncipe regente N. S. | E de todos os mais que se tem expedido pela mesma Secretaria desde a feliz chegada de S. A. R. nos Estados do Brasil até o dito dia | Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1808. | Na Impressão Régia. | Vende-se na Loja de Manoel Jorge da Silva j Livreiro na Rua do Rosário I in-fol. de 27 pp. num”.

Assinado por dom João, o decreto de Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), futuro conde de Linhares, determinava a instalação no Rio de Janeiro dos prelos trazidos de Lisboa após a fuga da corte portuguesa.

 

 

DECRETO DE 13 DE MAIO DE 1808.

Crêa a Impressão Régia

Tendo-me constado, que os prélos que se acham nesta Capital, eram os destinados para a Secretaria de Estado dos Negocias Estrangeiros e da Guerra; e attendendo á necessidade que ha da officina de impressão nestes meus Estados: sou servido, que a casa, onde elles se estabeleceram, sirva interinamente de Impressão Regia, onde so imprimam exclusivamente toda a legislação e papeis diplomaticos, que emanarem de qualquer Repartição do meu real serviço; e se possam imprimir todas, e quaesquer outras obras; ficando interinamente pertencendo o seu governo e administração á mesma Secretaria. D. Rodrigo de Souza Coutinho, do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretario de Estado dos Negocies Estrangeiros e da Guerra, o tenha assim entendido, e procurará dar ao emprego da Officina a maior extensão, e lhe dará todas as Instrucções e Ordens necessárias e participará a este respeito a todas as Estações o que mais convier ao meu real serviço.

Palácio do Rio de Janeiro em 13 de Maio de 1808.

Com a rubrica do Príncipe Regente Nosso Senhor.

Ficava criada a Impressão Régia, que passou a imprimir, em 10 de setembro do mesmo ano a Gazeta do Rio de Janeiro, inaugurando a imprensa no Brasil. Foi inicialmente redigida pelo frei português Tibúrcio José da Rocha (1776-1840). Antes disso, como prevenção à disseminação de ideias revolucionárias no Brasil, não era permitida no país a tipografia e o jornalismo. O Correio Braziliense é um pouco mais antigo, foi lançado em 1º de junho de 1808, mas era impresso em Londres.

 

 

Primeiramente a Impressão Régia foi instalada na casa do conde da Barca, na Rua do Passeio nº 44, e, em 1810, foi transferida para o andar térreo de um prédio da Rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), esquina com a Rua das Marrecas. Em 1831, foi transferida para algumas salas da Imperial Academia de Belas Artes, na Avenida Passos. Em 23 de abril de 1836, passou a funcionar no andar térreo da Câmara dos Deputados, antiga Cadeia Velha, na Rua da Misericórdia, onde ficou até outubro de 1860, quando mudou-se para um edifício do governo, na Rua da Guarda Velha, contiguo à Secretaria do Império. Em 1° de outubro de 1862, o governo brasileiro, a partir  de uma deliberação de Pedro de Araújo Lima (1793-1870), o marquês de Olinda, passou a divulgar os atos legais através do Diário Oficial, impresso pela Imprensa Régia.

 

 

Foi José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, então ministro da Fazenda, que encomendou ao engenheiro de obras de seu ministério, Antonio de Paula Freitas, o projeto e a construção de um prédio para a Imprensa Nacional.

 

 

 

 

 

Como já mencionado, o prédio foi inaugurado no último dia de 1877 pelo ministro da Fazenda, João Mauricio Wanderley, o barão de Cotegipe.

 

 

Até um incêndio ocorrido, em 15 de setembro de 1911, por volta das 11 horas a noite, o prédio foi sua sede. O fogo teve início no almoxarifado, perto do corredor que separava o edifício do Teatro Lírico, que teve suspensa a opereta Orfeu nos infernos devido à forte fumaça que invadiu a sala de espetáculos. Restou apenas as paredes frontal e laterais, além da tesouraria do edifício. Houve suspeitas de que o incêndio havia sido criminoso, mas nada foi provado durante as investigações. A oficina da Imprensa Nacional passou a funcionar  no Calabouço e no edifício do Ministério da Agricultura.

 

 

 

Em 28 de dezembro de 1940, por iniciativa do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), a Imprensa Nacional foi transferida para um edifício na Rua Rodrigues Alves nº 1. Foi sua última sede no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Sua sede em Brasília foi inaugurada, em 21 de abril de 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) acionou a rotativa Marinoni dando início à primeira impressão do Diário Oficial da União na nova capital do Brasil. A Imprensa Nacional é ligada à Casa Civil da Presidência da República (Revista Imprensa Nacional, julho de 2017).

Em 13 de maio de 1982, foi inaugurado, em Brasília, o Museu da Imprensa. Uma das peças exibidas no museu é o Prelo Machado de Assis, uma máquina de impressão tipográfica fabricada, em 1833, de origem inglesa. Funcionou na Imprensa Nacional até 1940 e foi o instrumento de trabalho do escritor Machado de Assis (1839-1908), que foi servidor da Imprensa Nacional, entre os anos 1856 e 1858. Entre 1867 e 1874, Machado foi assessor do diretor do Diário Oficial. Pelo decreto presidencial de 13 de janeiro de 1997, tornou-se patrono da Imprensa Nacional. Em maio de 2017, o órgão criou a Revista Imprensa Nacional com periodicidade bimestral.

 

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Lista dos diretores da Imprensa Régia / Imprensa Nacional de 1808 a 2025

Primeira Junta Diretória (1808 – 1815)

José Bernardes de Castro, José Marino Pereira da Fonseca (marquês de Maricá) e José da Silva Lisboa (visconde de Cairu).

Segunda Junta Diretória (1815 – 1830)

José Bernardes de Castro, José Marino Pereira da Fonseca (marquês de Maricá), José da Silva Lisboa (visconde de Cairu), Silvestre Pinheiro Ferreira, José Saturnino da Costa Pereira (substituto do marquês de Maricá), Francisco Vieira Goulart, Manoel Ferreira de Araújo Guimarães e Januário da Cunha Barbosa.

Diretores (1830 – 1834)

 Januário da Cunha Barbosa e Francisco Crispiniano Valderato.

Administradores 

Braz Antonio Castriolo (1834 – 1857), Manoel Antônio de Almeida (1857 – 1859), João Paulo Ferreira Dias (1859 – 1878), Antônio Nunes Galvão (1878 – 1892), José Marques Acauã Ribeiro (1892 – 1894), Veríssimo Julio de Moraes (1894 – 1897) e Antônio NUnes Galvão (1897 – 1898).

Diretores-Gerais

Mário Nunes Galvão (interino – 1898 -1900), Manuel Alves da Silva (interino – 1900), Antônio Bernardino Lopes Ribeiro Júnior (1900 – 1901), Raimundo Floresta de Miranda (1901 – 1904), Alfredo Augusto da Rocha (1904 – 1910), Manuel Temístocles de Almeida ((1910), Armênio Jouvin (1910 – 1912), Luís Alves Leite de Oliveira Bello (interino – 1912), Manoel Elói de Andrade (1912 – 1913), Leôncio Corrêa (1913 – 1914), José Silveira do Pilar Filho (interino – 1914), Antônio Borges Leal Castelo Branco (1914 – 1922), Eugênio Gracie Cata-Preta (1922 – 1929), Severiano A. Cavalcante (interino – 1929), Antônio Jaime de Alencar Araripe (1930), Aníbal Falcão de Barros Cassal (1931), Heito Bracet (interino – 1931), Francisco Antônio Rodrigues de Salles Filho (1932 – 1935), Manuel Vilerbo de Carvalho e Silva (1935 – 1940), Rubens D´Almeida Horta Porto (1940 – 1944), Francisco de Paula Achilles (1946 – 1951), Alberto Sá Souza de Britto Pereira (1944 – 1946) e (1951 – 1979), Octaciano da Costa Nogueira Filho (1979 – 1980), Dinorá Moraes Ferreira (1980 – 1989), Marlene Freitas Rodrigues Alves (1989 – 1990), Itler Cézar Bado (1990 – 1991), Enio Tavares da Rosa (1991 – 1994), Galba Menegale (1994), Ary Cícero de Moraes Ribeiro (1994 – 1995), Jamil Francisco dos Santos (1995 – 1996), Antônio Eustáquio Corrêa da Costa (1996 – 2000), Carlos Alberto Guimarães Batista da Silva (2000 – 2003), Fernando Tolentino de Souza Vieira (2003 – 2015), José Vivaldo Souza de Mendonça (2015 – 2016), Alexandre Retarnal Barbosa (2016), Pedro Antonio Bertone Ataíde (2016 – 2020),  Ariosto Antunes Culau (2020 – 2021), Sávio Luciano de Andrade Filho (2021), Heldo Fernando de Souza (2021 – 2022) e Afonso Oliveira de Almeida (2023 -).

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blog Família Paula Freitas

Brasiliana Iconográfica

COSTA, Carla. Série “O Rio de Janeiro desaparecido” II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos in Brasiliana Fotográfica, 5 de abril de 2018

Dirigentes da Imprensa Nacional / Imprensa Nacional, Novos Rumos da Comunicação Pública

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume III. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1960.

FONTANA, Laura Roberta. Tese de doutorado A formação da  Escola Politécnica na corte do Império brasileiro. Rio de Janeiro : UNIRIO, 2022.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002

LARANJEIRA, Álvaro Nunes. Arqueobiografia do pioneiro da imprensa no Brasil: nas pegadas do frei Tibúrcio. Revista FAMECOS mídia, cultura e tecnologia. Porto Alegre, v. 18, n. 3, p. 765-781, setembro/dezembro 2011.

MIRANDA, Francisco Gonçalves(org). Memória Histórica da Imprensa Nacional. Rio de Janeiro : Imprensa Nacional, 1922.

Site Museu da Imprensa

Portal Arquivo Nacional

Portal MultiRio

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

As bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros e o arquivista Fabio Carvalho, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, desde 2024 uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores da publicação Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta sobre a história do atendimento de emergência no Rio de Janeiro e a criação, em 1907, do Posto Central de Assistência Pública, origem do atual Hospital Municipal Souza Aguiar. Segundo o artigo, Augusto Malta (1864 – 1957) com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública. Ele foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, entre 1904 e 1936, quando se aposentou.

 

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

 Luciana Lau, Danielle Barreiros e Fábio Carvalho*

 

 

No início do século XX, o Rio de Janeiro, então capital da República, transformava-se em um grande canteiro de obras. Com o propósito de civilizar e modernizar a cidade, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) promoveu reformas radicais que alteraram para sempre sua paisagem urbana e social. Essas transformações, marcadas tanto pelo progresso quanto por profundas desigualdades, foram meticulosamente registradas pelas lentes de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da prefeitura e principal cronista visual dessa era de mudanças e de paisagens efêmeras de uma cidade em transição. Com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública.

O ambicioso projeto de modernização de Pereira Passos, popularmente conhecido como “bota-abaixo”, tinha como objetivo sanear e embelezar a capital federal, seguindo os moldes das grandes metrópoles europeias.

Visando modernizar a saúde pública, em sua gestão, Pereira Passos determinou a criação de postos médicos nas Agências Municipais, sendo possível entrever a possibilidade de atendimento emergencial na cidade do Rio de Janeiro. O então prefeito solicitou  verba para a criação do primeiro grande posto de assistência médica que foi instalado na rua Camerino. O Posto Central de Assistência Pública na Rua Camerino foi a primeira unidade de socorro médico de emergência do município. Tendo suas obras iniciadas em 1906, foi inaugurado em 1º de novembro de 1907 pelo prefeito à época, Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), sendo futuramente homenageado por esta instituição, que foi denominada Hospital Municipal Souza Aguiar, como a conhecemos atualmente.

Como pioneiro na prestação do serviço de urgência, o Posto teve o desafio de implementar um novo modelo de serviço de emergência, que até aquele momento era realizado por farmácias e médicos particulares.

A implementação do novo processo de atendimento de urgência teve como desafio inicial modificar o comportamento dos cidadãos, que após sofrerem algum incidente na rua ou em casa, queriam ser atendidos somente pelos farmacêuticos e médicos particulares, pois esse era o hábito da população. E também porque estranhavam e até “desconfiavam” das ambulâncias brancas, pedindo passagem pela cidade, e do fato de serem levados para um hospital, um lugar desconhecido. Assim, a fim de familiarizar a população com o novo modelo de atendimento de emergência, foi realizada uma estratégia de marketing recomendada por Dr. Paulino Werneck (18? – 19?), superintendente do Posto Central de Assistência, chamada de “ensaios de socorro” na qual pessoas caiam pelas ruas e recebiam atendimento emergencial por meio das ambulâncias. A estratégia mostrou-se efetiva e as ambulâncias passaram a ser chamadas de “mãe carinhosa”.

 

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Ensaio de socorro / DISTRITO FEDERAL (BRASIL), 1922, p. 248

 

Em pouco tempo a quantidade de chamados de urgência aumentaram e o Posto Central de Assistência já não conseguia atender as solicitações recebidas, tornando-se necessário ampliar sua capacidade de atendimento.

Desta forma, o prefeito Souza Aguiar decidiu transferir o Posto Central para um novo endereço na Praça da República.  Coube ao prefeito general Inocêncio Serzedelo Corrêa (1858 – 1932), depois de determinar que fossem feitas ampliações no edifício, inaugurar o Posto em 17 de outubro de 1910. “O prédio tinha três pavimentos e estava equipado com o que havia de mais moderno” (RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 23).

Após a inauguração houve diversas ampliações e reconfigurações dos espaços. Em 1921, após reformulações nos serviços de assistência pública da capital, a Lei n.º 2.401 de 22 de janeiro determinava em seu artigo 28, a construção urgente de um Hospital de Pronto Socorro em anexo ao Posto Central, para a qual já havia verba consignada de mil contos de réis.  O Hospital do Pronto Socorro foi finalmente inaugurado no dia 20 de setembro de 1925.

 

 

Sobre o novo Hospital de Pronto Socorro inaugurado em 1925 comentou-se:

“[…] atendia, de modo satisfatório, aos reclamos da população, visto que se achava bem aparelhado e instalado para aquela época, como também situado em local de grande concentração populacional. Porém, dentro de pouco tempo, verificou-se a insuficiência de recursos do Hospital, tanto no que se relacionava com as suas possibilidades técnicas, como materiais, para o atendimento da população que crescia rapidamente”(RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 39).

Augusto Malta registra mais uma imagem do Posto Central na Praça da República revelando o poder da fotografia como guardiã da memória urbana:

 

 

Na gestão do interventor Pedro Ernesto (1884 – 1942), foi inaugurada uma maternidade no Hospital de Pronto Socorro, com o objetivo de ampliar sua área de atuação junto à população.  E houve a unificação dos serviços do antigo Posto Central de Assistência e do Hospital de Pronto Socorro, permanecendo o último nome.

 

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Prefeito Pedro Ernesto em visita ao Hospital de Pronto Socorro / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 53

 

Novos planos para reforma do Hospital de Pronto Socorro surgiram com o professor Clementino Fraga (1880 – 1971) à frente da Secretaria-Geral de Saúde e Assistência. Previa-se a instalação de 300 leitos e a aquisição de novas ambulâncias no projeto do novo hospital.

 

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

 

Em 2 de junho de 1955, enquanto o novo hospital ainda estava em construção, o prefeito Alim Pedro (1907 – 1975), no centenário do nascimento de Souza Aguiar, deu ao Hospital do Pronto Socorro, o nome de Hospital Geral Souza Aguiar em reconhecimento. Em 1962, por meio da Lei n.º 279, o hospital passa a ser chamado Hospital Estadual Souza Aguiar e, posteriormente, torna-se Hospital Municipal Souza Aguiar.

 

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Um busto em homenagem a Francisco Marcelino de Souza Aguiar está no segundo andar da Biblioteca Nacional em exposição permanente

 

Na edificação do novo hospital, por se tratar de uma construção de grandes proporções, as novas instalações entraram em funcionamento em etapas, à medida em que eram finalizadas e tinham condições de serem utilizadas. Até que em 04 de novembro de 1968, o novo prédio do Hospital Souza Aguiar foi inaugurado.

 

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Hospital Souza Aguiar / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 113

 

Porém as obras de melhorias no Hospital Souza Aguiar não pararam, conforme discursa o governador Negrão de Lima, mais obras seriam realizadas até que ele ficasse à altura dos melhores hospitais (LIMA, Negrão de., 1965/1970), sendo considerado hoje  o hospital com a maior emergência pública do Rio de Janeiro e da da América do Sul.  Além disso, seu edifício atual, projetado pelo arquiteto Ary Garcia Roza (1911 – 1999), é considerado patrimônio da cidade e foi tombado em 2009. Possui belíssimas obras do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), como o painel interno de pedras e o muro escultório.

 

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

 

** Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

 

Referências:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ivo Pitanguy: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.

A UNIÃO. Rio das Ostras, RJ: [s.n.]. Semanal. Acesso em: 2 abr. 2025.

DISTRITO FEDERAL (BRASIL). PREFEITURA. Assistência pública e privada no Rio de Janeiro (Brasil): história e estatística: commemoração do centenário da independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do Annuario do Brasil, 1922. 912 p.

LIMA, Negrão de (Governador). Discursos: Visita às Novas Instalações do Hospital Souza Aguiar de [1965/1970]. Rio de Janeiro, RJ: [s. n.], [1965/1970]. Acesso em: 06 de março de 2025.

RIO DE JANEIRO (Estado). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS. Assistência pública: Guanabara : 80 anos de história. Rio de Janeiro: Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, Superintendência de Serviços Médicos, 1972. 408 p.

SERVIÇO DE UROLOGIA. Hospital Souza Aguiar: experiência em atendimentos de urgência e emergência. [S. l.]: Serviço de Urologia, 2023. Acesso em: 06 de março de 2025.

A Brasiliana Fotográfica no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”

Prezados leitores da Brasiliana Fotográfica, assistam aqui a entrevista realizada pelo historiador, advogado, genealogista e indigenista Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (1979-) com a editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley (1964-), em 7 de junho de 2025, no canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, criado por ele em 2019.

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No Dia Mundial do Meio Ambiente, um pouco da obra do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou no Brasil

Com fotografias de Augusto Malta (1864 – 1953), Georges Leuzinger (1813 – 1892), Fritz Busch (18? -?), Guilherme Santos (1871 – 1966), Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), Theodor Preising (1883 – 1962), da Phototypia A. Ribeiro e de fotógrafos ainda não identificados, dentre outros, a Brasiliana Fotográfica celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente trazendo um pouco da história do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (1828* – 1906), no Brasil, onde viveu entre fins de 1850 e 1890, destacando seu trabalho como administrador da Floresta da Tijuca e como criador dos jardins do Campo de Santana ou Campo da Aclamação, do Passeio Público e da Quinta da Boa Vista. Glaziou foi, segundo o grande paisagista brasileiro Roberto Burle Marx (1909 – 1994), seu precursor e também o inventor do jardim tropical brasileiro. Foi Flavio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, que me sugeriu escrever sobre esse tema e a ele dedico essa publicação.

 

Brevíssimo perfil de Auguste François Marie Glaziou, o paisagista do Império do Brasil

“Ele deixou uma obra precursora no domínio da ecologia, do desenvolvimento urbano durável que inspira os paisagistas e urbanistas do século XXI confrontados a uma acelerada urbanização”.

Jean-Yves Mérien (1944-),

professor emérito de Literatura e Civilização Brasileiras na Universidade de Rennes-II,

sobre a obra de Glaziou.

 

 

Auguste François Marie Glaziou foi um importante paisagista francês que atuou no Brasil entre as décadas de 1860 e 1890, tendo deixado sua marca na paisagem urbana do Rio de Janeiro.  Nasceu na cidade de Lannion, na Bretanha, em agosto de 1828, filho primogênito da cozinheira Marie-Josèphe Grovalet   (1795 – 18?) e do jardineiro Yves Glaziou (1804 – 18?). Estudou Botânica no Museu de História Natural de Paris, tendo também praticado agricultura e horticultura. Participou da reforma do Jardim Público da cidade de Bordeaux, onde foi morar em 1854. Em 1856, casou-se com a camiseira Marie Chemineau (1833 -?), sua vizinha na rua Penicaud, em Bordeaux. No ano seguinte, nasceu o filho do casal, Andre Yves Arthur (1857 – 18?). A filha do casal, madame Simard (18? – 19?), nasceu no Brasil.

Em 30 de agosto de 1858, Glaziou, assinou seu pedido de passaporte para viajar para o Rio de Janeiro, no navio norte-americano Thomas Allibonne, que partiu de Bordeaux, na França, em 10 de setembro do mesmo ano.  Declarava-se tanoeiro – artesão que faz ou conserta barris – e agricultor. Adotou o nome Auguste, provavelmente, em homenagem ao botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779 – 1853), pesquisador da flora brasileira. Aportou no Rio, como um simples imigrante com poucos recursos, na primavera de 1858, e com ele o jardim europeu do século XIX chegava ao Brasil ** (Jornal do Commercio, 2 de novembro de 1858, última coluna; 8 de novembro de 1858, penúltima coluna13 de novembro de 1858, segunda coluna).

 

 

O primeiro parque que projetou no país foi o do Palácio do Catete, construção realizada entre 1858 e 1867, encomendada por Antonio Clemente Pinto (1795 – 1869), barão de Nova Friburgo. Abriga atualmente o Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. O arquiteto do prédio foi o prussiano Carl Friedrich Gustav Waehneldt (1830 – 1873). Em seguida, criou os jardins da residência do barão de Nova Friburgo, o atual Parque São Clemente, então Chácara do Chalé, em Nova Friburgo; e foi encarregado de arborizar o Cais da Glória, no Rio de Janeiro.

Em 1861, Glaziou iniciou a reforma do Passeio Público, conforme veremos mais adiante neste artigo. Após uma crítica acerca de seu conhecimento em Botânica, publicou uma carta (abaixo), onde contou um pouco de sua vida na França, antes de vir para o Brasil, esclarecendo, segundo suas palavras “quem sou, da onde vim e para onde vou”. Fala no artigo de sua amizade com o naturalista alemão Ludwig Riedel (1790 – 1861), criador do primeiro herbário do Brasil, em 1831 (Correio Mercantil, 21 de agosto de 1862, penúltima coluna).

 

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Glaziou descobriu e introduziu plantas brasileiras em praças e ruas, dentre elas, o oitizeiro, tendo sido um dedicado coletor de plantas em território brasileiro, que ele classificou de acordo com sua espécie, tendo catalogado pela primeira vez diversas espécies nativas brasileiras, como a  maniçoba-do-ceará, cujo nome científico faz referência a ele: Manihot glaziovii.

 

 

Outras espécies cujos nomes científicos referenciam Glaziou: Glaziova Bureau (bignonia), Glaziova Martius (sinônimo de Cocos), Glaziostelma E. Fourn (asclepíade), Glaziophyton Franch (gramínea), Bisglaziova (melastomacetaceae) e Glaziella Berkt (champignon, pirenomiceto).

Introduziu também o uso de árvores de flores e, principalmente, de espécies nativas – muitas delas descobertas e trazidas por ele para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tendo sido, nas décadas de 1860 e 1870, o responsável pela arborização do Rio de Janeiro. O herbário da Província de Minas para o ensino de zoologia e botânica da Escola de Minas de Ouro Preto era formado por plantas determinadas por ele (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1879).

Em 1864, por encomenda da princesa Leopoldina (1847 – 1871), criou os jardins do Palácio Leopoldina, que já não existe mais. Ficava no bairro do Maracanã.

Em 1865 e 1866, acompanhou o casal Louis (1807 – 1873) e Elizabeth Agassiz (1822 – 1907) em excursões pelos arredores do Rio de Janeiro. Louis Agassiz comandava a Comissão ou Expedição Thayer, que percorreu boa parte do território brasileiro entre o Rio de Janeiro e a Amazônia, viagem que deu origem ao livro A journey in Brazil, editado em Boston, em 1868. A Comissão Thayer foi financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883), ex-aluno de Agassiz no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard. Vale lembrar que Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), o futuro chefe da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), integrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), participou da Comissão Thayer – foi a primeira vez que esteve no Brasil.

Glaziou integrou o júri da Exposição Agrícola da Segunda Exposição Nacional, realizada entre 19 de outubro e 16 de dezembro de 1866, na Casa da Moeda (Jornal do Commercio, 19 de novembro de 1866, penúltima coluna). Tornou-se cavalheiro da Ordem de Cristo, pelo decreto imperial de 6 de junho 1868, devido a serviços prestados ao Brasil na Exposição Universal de Paris de 1867 (O Ypiranga, 13 de junho de 1868, primeira coluna).

 

 

A convite de dom Pedro II (1823 – 1891), pelo decreto de 26 de janeiro de 1869, foi nomeado Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial. Ainda em 1869, projetou e executou os jardins da casa de Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872), em Juiz de Fora, Minas Gerais. Entre este ano e 1873, realizou o ajardinamento do Largo do Machado com palmeiras e figueiras e o embelezamento da avenida do Mangue com palmeiras.

Foi também Inspetor dos Jardins Municipais e integrou a Associação Brasileira de Aclimação, para a qual, em 1873, o imperador Pedro II doou um terreno na Imperial Quinta da Boa Vista para depósito de animais e viveiros de plantas. Foi membro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1870 , 18721874).

A partir da década de 1870, a paisagem da Quinta da Boa Vista passou a ordenada por ele. Formou com o botânico e diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto (1838 – 1894), e com o Barão do Catete (1827 – 1903) o júri da primeira exposição hortícula e agrícola realizada, em Petrópolis, por iniciativa da princesa Isabel, inaugurada em 2 de fevereiro de 1875. A medalha de ouro da exposição foi concedida pao paisagisa e botânico francês Jean Baptiste Binot (1806 – 1894). Por sua participação neste evento, Glaziou foi condecorado com a Ordem da Rosa (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1880; Jornal do Recife, 30 de julho de 1875, primeira coluna).

 

 

Glaziou foi o responsável pelo embelezamento da praça do Campo de Santana, cujas obras foram inauguradas, em 7 de setembro de 1880, com a presença do imperador Pedro II. Foi, na ocasião, agraciado com o título de comendador da Ordem de Cristo.

 

 

Também em 1880, criou, no bairro de São Cristóvão, os jardins da casa de Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), o barão de Mauá, atual Museu do Primeiro Reinado; e jardins em residências de Petrópolis.

Em 1881, a pedido do então diretor da Biblioteca Nacional, Ramiz Galvão (1846 – 1938), Glaziou colaborou na ornamentação do prédio da instituição na ocasião da inauguração da importante Exposição de História do Brasil. Era comendador da Imperial Ordem Russiana de São Estanislau (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1881).

Em 20 de abril 1884, com ornamentação de Glaziou, foi aberta a Quarta Exposição da Sociedade Agrícola e Hortícula de Petrópolis, a primeira no Palácio de Cristal – as três primeiras haviam sido realizadas em 1875 (como já mencionado), em 1876 e em 1877, em pequenos pavilhões na Praça Koblenz. Ainda em 1884, realizou dois projetos de jardins público, em Valença, no estado do Rio de Janeiro.

Em 1889, como delegado do Rio de Janeiro na Exposição Universal de Paris, escolheu as flores e as plantas ornamentais brasileiras que compuseram a estufa diante do Pavilhão Brasileiro. Foram emprestadas pelo Museu de História Natural de Paris. Criou ainda um jardim com plantas exóticas e o lago da Vitoria Régia. Por sua participação, foi premiado pelo tribunal do evento (O Paiz, 4 de setembro de 1891, última colunaJornal do Commercio, 31 de março de 1890, segunda coluna). Retornou à França, em 1890 para tratar de febres contraídas durante suas expedições botânicas pelo Brasil.

 

 

Foi homenageado pela colônia francesa do Rio de Janeiro com um retrato e uma mensagem que ressaltava que ele era o melhor entre os franceses (Jornal do Commercio, 17 de setembro de 1890, quinta coluna).

 

 

Foi noticiado que Glaziou deixaria o Brasil – o que não aconteceu – porque os últimos jardins de sua criação e os únicos hoje a seu cargo lhe vão ser retirados (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1892, quarta colunaO Paiz, 22 de janeiro de 1892, quarta coluna; O Paiz, 23 de janeiro de 1892, quinta coluna). Em maio, voltou ao Rio de Janeiro após uma excursão à Serra do Espinhaço, em Santa Catarina, e a Minas Gerais, a serviço do Museu Nacional (O Paiz, 22 de maio de 1892, sexta coluna).  Glaziou cobrou do governo a quantia que, com a autorização do ministro da Agricultura, havia pedido emprestada para concluir as obras do jardim do Campo da Aclamação. Foi atendido (Jornal do Commercio, 23 de setembro de 1892, quinta coluna; 5 de outubro de 1892, quinta coluna).

Foi nomeado inspetor-geral de Matas, Florestas, Jardins Públicos, Arborização e Caça (O Paiz, 3 de dezembro de 1893, segunda coluna).

Em 1894, passou a integrar a Comissão Exploradora do Planalto Central, a Missão Cruls, chefiada pelo astrônomo e botânico francês Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), que demarcou uma área de 14.400 Km², considerada adequada para a futura capital do Brasil, que ficou conhecida como “Quadrilátero Cruls” (O Paiz, 20 de junho de 1894, segunda coluna). Cruls comentou a participação de Glaziou na comissão e uma carta enviada para ele por Glaziou sobre a natureza e o clima do Planalto Central foi publicada (Jornal do Commercio, 9 de janeiro de 1895, quarta coluna; 23 de junho de 1896, sétima coluna). Por sua participação na comissão, Glaziou foi declarado Cidadão Honorário de Brasília, em 2006.

Em 1895, viajou para a Europa, de onde escreveria o relatório de sua expedição ao Planalto Central e classificaria com rigor científico as 2.000 mil plantas que havia colhido em Goiás. Foi noticiado que voltaria em oito meses (Gazeta de Notícias, 28 de novembro de 1895, penúltima coluna).

Foi nomeado membro do conselho administrativo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional no biênio 1895 /1897 (Jornal do Commercio, 2 de janeiro de 1896, segunda coluna).

No ano seguinte, foi exonerado do cargo de inspetor-geral de Matas, Florestas, Jardins Públicos, Arborização e Caça e nomeado botânico da mesma inspetoria (Gazeta de Notícias, 3 de agosto de 1896, quarta coluna). Em 1897, Glaziou aposentou-se do cargo a partir da sanção de uma lei do Conselho Municipal. Na época, o prefeito do Rio de Janeiro era Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) que, elogiou a atuação de Glaziou no Brasil: “tantos serviços prestou ao Brasil, concorrendo para embelezar a sua capital e principalmente para tornar conhecidas no estrangeiro as riquezas de sua imensa flora” (Jornal do Commercio, 5 de maio de 1897, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 21 de agosto de 1897, primeira coluna; Jornal do Commercio, 2 de setembro de 1897, quarta coluna).

 

 

 

Glaziou  dotou o Museu Nacional de História Natural de Paris com um quarto das ricas coleções da flora brasileira que lá estão reunidas e colaborou com os mais célebres botânicos de seu tempo, em particular com o alemão Carl Friedrich Philipp Von Martius (1794 – 1868) e seus sucessores, para a realização da Flora Brasiliensis (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1892, quarta coluna).

Fez ao longo de sua vida algumas publicações, dentre eleas: Notícia sobre botânica aplicada, Resumo numérico das espécies de plantas colhidas na Comissão de exploração do Planalto de Goiás, Algas brasileiras dos arredores do Rio de Janeiro; Cripotógamos vasculares do Brasil e Líquens Brasileiros.

Faleceu, em Bordeaux, na França, em 30 de março de 1906. Já era viúvo.

Em 12 de outubro de 1910, foi inaugurado um busto em mármore em sua homenagem, na Quinta da Boa Vista, obra da escultora paulista Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (1874 – 1941) .

 

 

Em novembro de 2009, foi inaugurada, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a exposição Glaziou e os jardins sinuosos. O evento integrou comemorações do Ano da França no Brasil (O GLOBO, 4 de novembro de 2009).

 

Exposição Glaziou e os jardins sinuosos, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

 

Em 22 de outubro de  2015, o Museu Nacional/UFRJ inaugurou a exposição Plantas do Brasil Central – Resgate histórico e herbário virtual de Auguste Glaziou. O evento foi promovido pelo Herbário e o Departamento de Botânica do Museu Nacional/UFRJ e contou com a conferência Auguste Glaziou e os jardins na segunda metade do século XIX do professor Carlos Terra, diretor da Escola de Belas Artes, e o lançamento do site http://glaziou.cria.org.br, que apresenta o herbário virtual de Glaziou.

 

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Glaziou e algumas de suas obras e colaborações

 

 

Segundo Carlos Gonçalves Terra em  O Jardim no Brasil do Século XIX: Glaziou Revisitado, UFRJ/EBA, 1993 –, a obra de Glaziou, situada tanto na cidade como no estado do Rio de Janeiro e em outras regiões do país, pode ser agrupada em três grupos, de acordo com a documentação sobre seu trabalho.

“O primeiro grupo tem sua atribuição apoiada apenas na opinião de alguns historiadores ou de artigos na imprensa, que trataram do tema. Fazem parte dele: Praça Tiradentes, Largo de São Francisco, Jardins do Palácio do Catete, Jardim da Casa da Marquesa de Santos, todos na cidade -do Rio de Janeiro, RJ; Jardim da Aclimação, em São Paulo, SP; Parque do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, MG. Além de outros que se apoiam apenas na tradição oral.

O segundo grupo é formado por aqueles jardins a ele atribuídos e aos quais se pode, com relativa segurança, considerar como obra sua, no seu traçado original, pois existem projetos por ele assinados ou documentos que mencionam sua autoria. São eles: Palácio Imperial, Petrópolis, RJ; Parque São Clemente, Nova Friburgo, RJ; Praça D. Pedro li (atual Praça XV de Novembro), Rio de Janeiro, RJ .

Os exemplos mais significativos constituem o terceiro e o último grupo. Eles podem, com certeza, ser apontados como obra de Glaziou, pois farta documentação existe de sua intervenção no projeto e na execução dos mesmos. Entre as suas realizações na cidade do Rio de Janeiro, optou-se pelo estudo daquelas que ainda hoje mantém as características básicas de seu traçado original, embora a maioria dos elementos que compõe sua estrutura tenham sido alterados ou substituídos no decorrer da evolução urbana da cidade. São eles: Reforma do Passeio Público, onde um novo traçado transformará radicalmente o de Mestre Valentim; Quinta da Boa Vista, em que a natureza a sua volta será modificada, planejada e cultivada; e Campo de Santana, no qual a impregnação de seu tratamento será de acordo com aquele ditado pelo modismo do período – o jardim inglês”. 

Como já mencionado na introdução do artigo, vamos destacar o trabalho de Glaziou na Floresta da Tijuca, no Campo de Santana , no Passeio Público e na Quinta da Boa Vista. Lembramos aqui a importância da presença nas cidades da natureza, de jardins públicos, tanto ambientalmente como socialmente.

 

“Os jardins para as grandes cidades são como escapadas da civilização. Entre duas árvores o homem é inteiramente diverso do homem entre duas vitrines”

João do Rio (1881 – 1921), início de A alma dos jardins (1908)

 

“Que achei eu do nosso século carioca? Achei que será contado como o século dos jardins. À primeira vista, parece banalidade. O jardim nasceu com o homem. A primeira residência do primeiro casal foi um jardim, que ele só perdeu por se atrasar nos aluguéis da obediência, onde lhe veio o mandado de despejo…A cidade é sempre o homem do primeiro jardim. Tem a fé, tem a paciência, tem o amor, mas não há meio de achar um jardim em si mesma, e vai tecendo o século com outros. Creio que fiz um verso: E vai tecendo o século com outros”.

Machado de Assis (1839 – 1908, trecho de sua coluna “A Semana”,

(Gazeta do Rio de Janeiro, 5 de maio de 1895)

 

 

Passeio Público

 

 

 

Ao longo do século XIX, o Passeio Público, inaugurado em 1783, passou por algumas reformas, tendo sido a mais importante a realizada por Glaziou, que teve início em 1861. Ele alterou o traçado original concebido pelo mineiro Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido como Mestre Valentim (c. 1745 – 1813), um dos maiores artistas do período colonial brasileiro. Francisco José Fialho (1814 ‒1885) foi o responsável pela execução da obra e o Passeio Público foi reinaugurado na ocasião da celebração do 40º aniversário da Proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1862. Glaziou morava em um chalé dentro do Passeio Público (Diário do Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1862, na quarta coluna sob o título “O Passeio Público”Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro1862 e 1863).

“A nova composição agregava elementos do jardim à inglesa e tentava dar ao parque uma aparência semelhante à dos parques contemporâneos europeus. No novo projeto, o ponto de vista único e ideal foi substituído pela diversidade de pontos de observação e o eixo longitudinal de simetria substituindo por uma sucessão de planos. Havia caminhos sinuosos, pavilhões, árvores e plantas nativas e água jorrando pela fonte dos jacarés, no grande tanque. As pirâmides de granito, liberadas da vegetação que as encobria, passaram a exibir os medalhões com inscrições do tempo do idealizador do Passeio Público, o vice-rei D. Luís de Vasconcelos”.

Casa de Rui Barbosa

 

 

Em 1863, Glaziou foi acusado de contrabando de pássaros. Na verdade, ele estava trazendo para o Passeio Público três pássaros de uma viagem ao Rio Grande do Sul (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1863, segunda coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias do Passeio Público disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Quinta da Boa Vista

 

Projeto de Glaziou da reforma dos jardins da imperial Quinta da Boa Vista

Projeto de Glaziou da reforma dos jardins da imperial Quinta da Boa Vista / Arquivo do Instituto Brasileiro de Patrimônio Cultural

 

Glaziou projetou os jardins da Quinta da Boa Vista, localizada na Zona Norte carioca, no bairro de São Cristóvão, e atualmente, o Parque da Quinta da Boa Vista, um dos maiores parques urbanos do Rio de Janeiro. Tem grande valor tanto devido a sua paisagem como devido a sua história.

 

A Quinta da Boa Vista e um casarão, futuro Palácio Real ou Paço Real, que existia nela, pertenciam a um rico comerciante, o traficante de escravos Elias Antônio Lopes. Devido à carência de espaços residenciais no Rio de Janeiro, Elias doou sua propriedade ao então príncipe regente dom João (1767 – 1826), quando ele chegou ao Brasil, em 1808. A partir de 1817, transformou-se na moradia da família real até 1889, quando foi proclamada a República no Brasil e a família partiu para Portugal.

O projeto de Glaziou foi apresentado a dom Pedro II, na década de 1860. A partir da década seguinte, a paisagem da Quinta da Boa Vista passou a ser organizada de forma ordenada por ele, que plantou no entorno da residência da família real espécimes do Brasil e de outras regiões do mundo. Representou os espécimes da flora brasileira, congregando-os com as zonas climáticas que habitavam, formando uma “vitrine” da botânica nacional.

 

 

Após a Proclamação da República, o palácio sediou os trabalhos da Assembleia Nacional que resultaram na Constituição Brasileira promulgada em 24 de fevereiro de 1891 (Gazeta de Notícias, 25 de fevereiro de 1891, na primeira coluna). Em 1892, o Museu Nacional do Brasil, criado em 6 de junho de 1818 por dom João VI e sediado no Campo de Santana, mudou-se para o Palácio da Quinta (O Paiz, 13 de março de 1892, na terceira coluna). Denominado, atualmente, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi um um dos maiores museus de antropologia e de história natural das Américas. Foi atingido, em 2 de setembro de 2018, por um incêndio de grandes proporções.

Acessando o link para as fotografias da Quinta da Boa Vista disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Campo de Santana

 

Até meados do século XVIII, o Campo de Santana ou Campo da Aclamação era deserto e abandonado, tendo sido escolhido para o despejo de detritos, fato que perdurou até a gestão do vice-rei conde Resende (1790 a 1801), que ordenou o aterro e o saneamento do campo. A partir daí, surgiu a praça, edificações e novas delineações urbanas. Foi Glaziou o responsável pelo embelezamento da praça, iniciado nos primeiros anos da década de 1870 (Jornal do Commercio, 2 de maio de 1872, terceira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1873, primeira coluna) com a a construção de jardins românticos, cascatas, pontes e grutas. A inauguração da obra aconteceu em 7 de setembro de 1880 com a presença do imperador Pedro II. Na ocasião, como já mencionado, Glaziou foi condecorado como comendador da Ordem de Cristo (Gazeta de Notícias, 7 de setembro de 1880, primeira colunaAlmanak Administrativo, Mercantil e Industrial, 1883; e Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1889, primeira colunaAlmanak Laemmert, 1897, primeira coluna).

 

 

Em 1938, o Campo de Santana entrou para a lista de patrimônio histórico nacional, mas saiu cinco anos depois quando teve 18% de sua área suprimida para abrir passagem à construção da Avenida Presidente Vargas. Foi tombado de novo, em 1978, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) segundo o qual o complexo “reúne atributos históricos, uma vez que foi palco de celebrações oficiais e cívicas ligadas à condição do Rio de Janeiro enquanto sede do Império e capital do país; artística, pelo projeto do paisagista francês Glaziou que o levou ao seu primeiro tombamento; e também paisagística, reconhecendo o valor da paisagem de jardim romântico que o bem oferece, foi construído no século XVIII”.

 

Acessando o link para as fotografias do Campo de Santana disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Floresta da Tijuca

A Floresta da Tijuca é o resultado de uma grande obra de reflorestamento iniciada em 1861 pelos seus primeiros administradores, o major Manuel Gomes Archer (1821 – 1907) e o Barão d’Escragnolle (1821 – 1888). Desde fins do século XVIII, a vegetação original que cobria o Maciço da Tijuca havia sido devastada pelas plantações de café e pelas queimadas para produção de carvão. Com isso, as fontes de água potável da região, que abasteciam a cidade, ficaram ameaçadas de secar. A recuperação da floresta começou com a desapropriação das fazendas de café e o plantio de sementes e mudas de árvores nativas e exóticas. Glaziou colaborou com o  Barão d’Escragnolle, entre 1874 e 1888, transformando a floresta num parque, com a abertura de estradas cavalgáveis, fontes, lagos, pontes e áreas de lazer como o mirante do Excelsior, a gruta Paulo e Virgínia e a Vista do Almirante. Com a morte de d´Escragnolle, em 1888, Glaziou assumiu a administração da Floresta, permanecendo no cargo até o início de 1889.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Floresta da Tijuca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 Íntegra de A alma dos jardins (1908), de João do Rio

Os jardins para as grandes cidades são como escapadas da civilização. Entre duas árvores o homem é inteiramente diverso do homem entre duas vitrines. À beira de um lago artificial, na sombra de velhas árvores, o cidadão sente o estremecimento atávico, o acordar dos instintos. Onde houver muitas árvores, o ar livre, o céu azul visto através do rendado das folhas verdes, podeis ter a certeza de que aí as criaturas mais amarfanhadas pela nevrose urbana sentem o desabrocho rubro do sexto sentido. É como a sensualidade, é tal qual a luz e tal qual o perfume, impalpável e invisível, a sensualidade parece pender dos ramos no cheiro forte das folhas, na luz de que se abebera a fronte. As árvores guardam sempre amadriadas no tronco e vêem sempre passar os faunos. Os ramos de certas árvores abrem como querendo abraçar. E há troncos de uma tão insidiosa cumplicidade de amor!…

Por isso quem entra nos jardins por estes meses de primavera mádida volta ao paraíso primitivo, por isso, os jardins encravados na cidade são como as escapadas da natureza, as peias da civilização.

Eu vou aos jardins públicos. Tu também vais. É provável, porém, que nunca tivesses reparado nas pessoas que vão aos jardins. Eu vou e reparo.

Oh! as pessoas que entram nos jardins! Nunca se entra nesses sítios como no teatro, como em qualquer rua, como por uma porta qualquer. Os que transpõem os grandes portões de ferro aproximam-se, sentem a necessidade, ou são forçados a aproximarem-se da natureza. Vede as crianças. Na rua, em casa elas estão de outro modo. Logo que chegam a esses lugares, perdem o respeito como se retomassem o sentimento da liberdade primitiva. É rara a criança da cidade que, vendo uma aléia sombreada de árvores, não sinta a necessidade, a obrigação de se expandir em gestos, de se penetrar daquele verde, daquela atmosfera de quieta e morna e doce sensualidade, e não deite logo a correr.

Correr, correr inutilmente, é um prazer, um enebriamento que nos vem do homem das florestas. As crianças correm, ficam excitadas, ficam mesmo brutais. E, pela manhã, é curioso vê-las à solta, brigando com as amas, gesticulando, gritando, rindo, para, à saída, retomar o passo medido da calçada e do seu grau social. Apenas uma grade separava-as da rua ativa — e era um mundo…

Aos jardins vão também homens e mulheres. Há jardins aristocráticos onde só se encontram — mas oito, dez, mais por dia! — as tentações do escol e o começo dos romances de alto tom. Não só a gente do alto tom, obedecendo a uma sugestão muitas vezes milenar, se julga nos jardins ao abrigo da curiosidade para o abandono dos beijos. Foi bem num jardim que se deu a Revelação — porque até hoje a mulher de todas as classes e o homem de classes variadas procuram, inconscientemente, o jardim para a entrevista.

Entretanto não há quem não tenha trocado palavras como estas, na vida:

— Amanhã?

— Onde?

— No Passeio, às 2.

No Passeio, no Parque da Aclamação, no Jardim Botânico. Não importa o nome. O lugar é sempre um jardim.

Tenho passeado com calma por esses surtos selvagens da cidade e sempre pasmei da variedade dos grupos. Há senhoras casadas que vão a esses lugares, vestidas de escuro com véus espessos. Como em geral elas amam ou se encapricham por cidadãos da sua esfera, os porteiros sabem logo a sorte do felizardo que entra e do infeliz que não entra. Há damas que se sentam nos bancos, à beira dos lagos, e procuram o recesso dos maciços, a sombra da folhagem; e meninas que entram, à volta dos cursos para conversar com os namorados; e há também um fato tocante — se ainda na vida pudesse haver fatos tocantes! —: as mais baixas mulheres, a que o mundo não perdoa, sentem um prazer extraordinário em conversar com o seu querido em sítios umbrosos. O querido é sempre um soldadinho jovem ou um jovem paisano. E é interessante ver entrar para o mesmo lugar homens de tão diferente existência, mulheres de responsabilidade tão variada. Muitas vezes os pares encontram-se. Alguns trocam sorrisos de mútuo consentimento, de doce cumplicidade. Solidariza-os o pecado. Só há uma evidente irritação dos pares, que se traduz pelo olhar frio e duro, pelo súbito silêncio, pelo desenlaçar das mãos, quando passa uma mulher sem companheiro ou um homem isolado. É que lhes germina o egoísmo, e o ciúme primitivo, a necessidade de defesa e da posse. E, por mais que eles saibam do contrário, o atavismo, o instinto sensual, sob a influência amoral das folhas e dos troncos, brota e floresce no jardim sensual.

Nos jardins encontram-se também os desgraçados, os sem emprego, os mendigos. O mendigo é o cisco da cidade. A sua função, com o embotamento das forças vivas da resistência é vegetarizar-se. Os mendigos nos jardins chegam ao fim da desagregação. Os desgraçados, os sem emprego, apoiam-se na eclosão da natureza para criar ânimo, para beber esperanças, e, como os doentes do corpo vão ao campo convalescer, há homens sujos e pálidos nos jardins, sem almoço, sem pão, sem protetores, que pedem às árvores a cura da própria sorte.

Os brutos, os marçanos, os que obedecem apenas à função fisiológica vendo a vida sem poesia, não namoram no teatro onde vão assistir à peça, não namoram à refeição porque vão comer; não namoram na rua porque vão com destino certo. Namoram, isto é, apanham a mulher no jardim, à sombra das árvores. Daí, aos domingos, os jardins estarem cheios. O dia de folga, as bebidas, o prazer, levamnos lá. O instinto rebenta ao contato com o resumo da floresta. Há bandos de adolescentes pesados, de bengalão e charuto, dizendo facécias grossas. E há também bandos de meninas namoradoiras, de costureirinhas, a rir, a responder aos dichotes.

Não vos espanteis, oh! não! À noite, os jardins acolhem também os degenerados, esses doentes da sensualidade, cuja loucura na rua sabe sofrear-se para não entrar no hospício: damas de apetites desvairados, sujeitos de vícios secretos. Não fosse o jardim a recordação da floresta antiga e não precisava de bacantes e de sátiros!

Como a licença cria austeras filosofias, os jardins têm também filósofos, esfarrapados cheios de orgulho, de cabeça socrática e gesto medido que pela manhã dissertam para pequenos grupos sobre a decadência deste país. E tem mesmo ex-pisa-flores, ex-leões da moda, da diplomacia dos falecidos cotillons do Paço. O esfarrapado é severo e condena. O esfarrapado, com as roupas lavadas de benzina, os arcaicos chapéus com reflexos furta-cores, os cabelos pintados, as unhas tratadas, lêem o jornal e guardam horas e horas um digno silêncio. Estão ali, como num museu a arejar. E talvez seja triste vê-los ao sol, aquecendo a carcaça, enquanto um ou outro soldado ou marinheiro, almas simples nascidas nas florestas do norte sentam-se nos bancos e olham as moitas, nostálgicos e pasmos.

Os que passeiam por esses sítios sabem de tudo isso porque os jardins não guardam segredo, para mostrar decerto o poder da sua influência. Não há dama dando rendez-vous a um rapaz, indo ela a uma hora e ele a outra, entrando um por uma porta, e outro por outra sem que os jardins deixem de murmurar esse colóquio. Como? Em tudo — no ambiente, nas correntes misteriosas que vão de folha em folha, cantando a nova. O freqüentador sabe da fatal entrevista apenas pelo andar do homem, e os porteiros, os grandes manuais de amor oculto da cidade, sorriem e diagnosticam à primeira vista.

Os jardins públicos são os guardas da sensualidade. Os seus estados de alma estudam-se pelas horas. De manhã, há crianças, filósofos, vagabundos e gente a fazer o seu footing. A essa hora esforçam-se eles por tomar um ar sério, lavam-se, irrigam-se, tomam a ducha reanimadora dos delírios noturnos. Mas vá o sol subindo e suba ao espaço a poeira, ou melancolicamente teça a chuva entre as folhas uma teia de cristal, começam a chegar os que dormiram até tarde, começam a aparecer os nevropatas, surgem os amorosos. Quando entra um sujeito desconhecido, o jardim parece recebê-lo com um riso silencioso de velho sátiro.

Até as cinco da tarde quando o dia morre, o culto de Eros toma variedades esquisitas e abundantes. Daí em diante, com as primeiras sombras, as combustões amenas, as águas dos lagos mais misteriosas e a voz das árvores mais sensível — podeis ter a certeza que é a ronda da pornéia. A concorrência aumenta. Há gente aos bandos em começo de simpatia e pares solitários em início de contatos. A areia das aléias parece mais seca, um pó seco paira no ar. Por isso os jardins, nas grandes cidades, são como escapadas de civilização, e eu não entro num jardim, sem me sentir dominado pela Natureza brutal — de que com tanto custo, quando não está nos jardins, parece liberto o Homem da Cidade…

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica no Dia Mundial do Meio Ambiente

 

A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente, publicado em 5 de junho de 2019

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

No Dia Mundial do Meio Ambiente, velas abertas na Baía da Guanabara, publicado em 5 de junho de 2022

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a potente imagem da Cachoeira de Paulo Afonso, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2023

 

*Diversas fontes foram consultadas e o ano de nascimento de Glaziou varia entre 1828 e 1833, mas na certidão de casamento de seus pais, consta que ele nasceu em 1828.

**Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, há o registro da chegada de A. Glaziou, no Brasil, em 1861 (Correio Mercantil, 20 de janeiro de 1861, sexta coluna). Será que esteve aqui em 1858, voltou para a França e depois retornou?

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Archives Departamentales de Côtes  d´Armor –  acte de mariage de Marie-Josephe Grovalet et Yves Glaziou : acte 5, vue 308 dans lot n° 37.

AZEVEDO, Alda; ONO, Fernando Pedro de Carvalho. Ludwig Riedel, o primeiro diretor de jardins da capital do império do Brasil, fevereiro de 2018.

BÉRIAC, Jean-Pierre. Auguste Glaziou, un paysagiste entre Bordeaux et Rio de Janeiro. Revue archéologique de Bordeaux, 2012.

BUREAU, Edouard. Notice Historique sur F.M. Glaziou. Bulletin de la Sociètè de Botanique de France, 28 de fevereiro de 1908.

Câmara Legislativa do Distrito Federal

FERREIRA, João Carlos, MARTINS, Angela Maria Moreira. Quinta da Boa Vista: de espaço de elite  espaço público. Paisagem, ambiente, ensaios, dezembro de 2000.

Glaziou e os jardins sinuosos

GUIMARÃES, Ivo Venerotti. Campo de Santana: o nome do lugar. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HETZEL, Bia, NEGREIROS, Silvia (organizadoras). Glaziou e as raízes do paisagismo no Brazil. Rio de Janeiro : Manati, 2011.

O imperador do Brasil e os seus amigos da Nova-Inglaterra in Anuário do Museu Imperial, 1952 volume 13

MENEZES FILHO, Paulo Ferreira de. A Quinta de Glaziou. A Aula-passeio como divulgação científica, janeiro de 2010.

MÉRIEN, Jean-Yves. Auguste Glaziou. Site Biblioteca Nacional da França, 2009.

MORALES FILHO, Adolfo de. O Rio de Janeiro Imperial. Rio de Janeiro : Topbooks Editora, 2000.

NICOLAU, Giselle Pereira. Hasteando a bandeira tricolor em outros cantos: a imigração francesa no Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro : Universidade Federal Fluminense, 2018.

Página do Arquivo Nacional no Facebook

PESSOA, Ana. O tabelião Fialho, imaginação e negócios na modernização do Brasil, 2021.

Portal Monumentos do Rio

ROCHA, Marcelo Montiel da. Dr. Glaziou – O Profeta de Brasília in Boletim do Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal, setembro de 2001.

SEGAWA, Hugo. Ao amor do público – Jardins do Brasil. São Paulo : Livros Studio Nobel, Ltda, 1996.

Site Casa de Rui Barbosa

TERRA, Carlos Gonçalves. Os jardins no Brasil do século XIX: Glaziou revisitado. UFRJ: Dissertação de Mestrado em História da Arte, 1993
TRINDADE, Jeanne Almeida da. Os jardins de Glaziou para a Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro / RJ. Revista Espaço Acadêmico, maio de 2014.

Os 200 anos do Jardim da Luz, em São Paulo

Com cinco fotografias produzidas pelo suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) e uma pelo francês Fréderic Manuel (1868-1961) a Brasiliana Fotográfica celebra os 200 anos do Jardim da Luz, em São Paulo. Os registros dos dois fotógrafos estrangeiros foram realizados na década de 1900. O Jardim da Luz foi criado por uma Ordem Régia da Coroa Portuguesa, de 19 de novembro de 1798, e suas obras foram iniciadas, no ano seguinte. Foi inaugurado, em 1825, como Jardim Botânico (Império do Brasil: Diário Fluminense, 17 de outubro de 1825, primeira coluna).

 

 

Em 1838, foi denominado Jardim Público. Em 1916, recebeu oficialmente a denominação de Jardim da Luz devido a sua proximidade com o Convento da Luz. É o mais antigo parque paulistano, tendo sido o primeiro espaço de lazer da cidade. Até o final do século XIX era a principal atração de São Paulo.

 

 

Entre os últimos anos dos oitocentos e os primeiros do século XX, no auge da economia cafeeira, o Jardim da Luz passou por uma grande reforma. Teve períodos de degradação e, em 1981, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAATE. Em 1999, foi iniciado seu restauro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Jardim da Luz disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Suas principais  atrações são suas vegetação e fauna; suas esculturas, dentre elas obras de Lasar Segall (1889-1957), Maria Martins (1894-1973) e Victor Brecheret (1894-1955); e a Herma de Garibaldi com um busto de autoria de Emilio Gallori (1846-1924), inaugurada, em 1910, pelo poeta Olavo Bilac (1865-1918), em homenagem a Giuseppe Garibaldi (1807-1882). Também destacam-se seu coreto, sua gruta e cascata, um aquário subterrâneo, um antigo ponto de bonde e a Casa do Administrador.

 

 

 

O Jardim da Luz tem 113 400 m² e está localizado na Avenida Tiradentes. É atualmente um importante espaço de lazer e cultura da cidade de São Paulo. Fica ao lado da Estação da Luz, cujo edifício atual, projeto do britânico Charles Henry Driver (1832-1900), foi inaugurado em 1º de março de 1901. No Jardim, encontra-se o edifício sede do mais antigo museu da cidade, a Pinacoteca de São Paulo, criada pelo governo estadual paulista, em 1905.

 

 

 

Brevíssimos perfis dos fotógrafos Fréderic Manuel e Guilherme Gaensly

 

Frédéric Manuel (1868 – 1961)

 

As fotografias paulistanas do francês Frédéric Manuel (1868-1961), sobre quem há ainda pouquíssima informação, foram realizadas, em 1906, para Menotti Levi (18? – 19?), editor do Guia Levi, publicado, em São Paulo, de 1899 a meados até 1984 (Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1900, penúltima colunaA Notícia (RJ), 27 e 28 de agosto de 1906, segunda coluna), cuja utilidade já está comprovada pela aceitação que o público lhe dispensa (Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1905, penúltima coluna). O Guia Levi era uma publicação mensal de horários de trens, de bondes e outras informações úteis (Correio Paulistano, 8 de agosto de 1908, penúltima coluna), Uma curiosidade: o grande arquiteto e urbanista paulistano Rino di Menotti Levi (1901 – 1965) é filho de Menotti Levi.

 

Guilherme Gaensly (1843-1928)

 

 

O suíço Guilherme Gaensly nasceu em 1843, em Wellhausen, cantão de Thurgau, na Suíça.  Foi para Salvador, na Bahia, aos 5 anos de idade. Em 1871, após um período de aprendizado no ateliê de Alberto Henschel (1827 – 1882) na capital baiana, estabeleceu-se como fotógrafo. Destacou-se como retratista e como fotógrafo de paisagens urbanas e rurais. Em 1882, Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?) tornou-se seu sócio e, em 1894, a próspera empresa Gaensly & Lindemann abriu uma filial em São Paulo, onde Gaensly foi morar. Foi o autor de importantes registros do estado e da cidade de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Foi o mais importante divulgador da nova imagem do estado como líder do Brasil.

Ao lado de seu contemporâneo Marc Ferrez (1843 – 1923), Gaensly foi provavelmente o fotógrafo mais publicado em postais no Brasil. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte, ocorrida em 20 de junho de 1928.

Para conhecer mais a vida e a obra de Gaensly, acesse o artigo São Paulo sob as lentes de Guilherme Gaensly (1843-1928), publicado na Brasiliana Fotográfica, em 25 de janeiro de 2017.

 

Fontes:

Folder Parque Jardim da Luz

GLUECK, Silvia Costa; RIBEIRO, Monica Cristina; GIOSA, Celia Rolim; DIAS, André Camili. A Casa do Administrador. Prefeitura do Estado de São Paulo, março de 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

OTAHKE. Ricardo; DIAS, Carlos. Jardim da Luz. Um museu a céu aberto. Senac São Paulo, 2011.

PEREIRA, Fabio Mariano Cruz. Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo, in Brasiliana Fotográfica, 16 de outubro de 2024.

Portal de Educação Ambiental

Site Cidade de São Paulo

Site CONDEPHAATE

Site Pinacoteca de São Paulo

WANDERLEY, Andrea C. T. São Paulo sob as lentes de Guilherme Gaensly (1843-1928), in Brasiliana Fotográfica, 25 de janeiro de 2017.

 

Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris

No artigo de hoje, de autoria da jornalista Cristiane d´Avila e da historiadora Ana Luce Girão, ambas da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são divulgadas imagens inéditas de Paris, realizadas em 1907, “frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz”.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Oswaldo Cruz produzidas em Paris, em 1907, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O cientista flanou pelas ruas de Paris e produziu fotografias estereoscópicas com um Verascope Richard, sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. No Brasil se destacaram na produção de registros estereoscópicos o comerciante, colecionador de selos e pinturas e fotógrafo amador carioca Guilherme dos Santos (1871 – 1966) e o francês Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), “Photographo da Casa Imperial”, favorito da imperatriz Teresa Christina e professor de fotografia da princesa Isabel. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas. A técnica da estereoscopia foi desenvolvida pelo escocês David Brewster (1781 – 1868), em 1844, poucos anos após a invenção da fotografia. O lançamento do Verascope, pela Maison Richard, na França, em 1893, contribuiu para que a estereoscopia voltasse a se proliferar, atraindo a atenção de fotógrafos amadores e de foto clubes europeus.

 

 

Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris

 Cristiane d’Avila e Ana Luce Girão*

 

 

Entre os meses de abril e dezembro deste ano, Brasil e França realizam uma série de eventos, em ambos os países, para reforçar as relações diplomáticas bilaterais e as parcerias entre instituições brasileiras e francesas. Trata-se da Temporada Brasil-França, ano cultural estabelecido pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (1945-) e Emmanuel Macron (1977-), que coincide com os dez anos do Acordo de Paris e a COP 30, em Belém do Pará, em dezembro próximo. A proposta é debater temas referentes a clima e transição ecológica, diversidade, democracia e globalização equitativa.

Motivado pela celebração, o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz traz a público imagens estereoscópicas inéditas de Paris, sob a guarda do arquivo histórico, datadas de 1907. O ineditismo, nesse caso, tem duplo sentido: além de não divulgadas até então, as imagens são frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz (1872-1917), em suas deambulações pelas ruas da capital francesa. Neste artigo, seguiremos o caminhante Dr. Photographo, alcunha carinhosamente atribuída ao médico por estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em sua flânerie pela cidade-luz, durante a qual registrou suas emblemáticas praças e monumentos.

 

 

“Em Paris não se escreve, vive-se.”, sentenciou o genial João do Rio, pseudônimo mais famoso do jornalista e cronista Paulo Barreto (1881-1921), em carta ao amigo português, o poeta e pedagogo João de Barros (1881-1960), em fevereiro de 1909[i]. O sentimento captado pelo flâneur da alma encantadora das ruas pode ter igualmente arrebatado seu contemporâneo na Academia Brasileira de Letras, o cientista Oswaldo Cruz , que viveu a cidade-luz registrando suas praças e monumentos por estereoscópio[ii]. Homem de seu tempo atento aos avanços tecnológicos da modernidade, Oswaldo parece ter se deslumbrado com a capital francesa, lócus da belle époque por excelência, o que o declara nas imagens aqui publicadas.

 

 

O périplo acadêmico-científico do médico, então diretor do Instituto Soroterápico Federal (que logo passou a Instituto Oswaldo Cruz, embrião da Fiocruz), foi iniciado em Paris, de onde rumou para outras capitais da Europa, Estados Unidos e México. Como de costume à época, o roteiro do cientista pelo continente europeu começou em Lisboa, onde o “Avon”, navio transatlântico da grandiosa companhia de transporte britânica Royal Mail Steam Packet Company, aportou em 7 de agosto de 1907.

 

 

A bordo do navio, ainda em alto-mar, Cruz escreveu duas longas cartas à esposa Emília, a quem carinhosamente chamava de Miloca ou Miloquinha. Nas missivas, o cientista queixou-se: “O spleen que me devora em palavras representadas por estes garranchos (…) evade-me o espírito e assenhora-se por completo de mim”. O comentário melancólico, tão ao gosto do Decadentismo baudelairiano e dos estrangeirismos, não impediu que Oswaldo observasse que o “flirt” (flerte) “imperava em todos os cantos” do “Avon”.

 

Após desembarcar em Lisboa, onde ficou tempo suficiente para visitar a cidade serrana de Sintra e almoçar no famoso restaurante Leão D’Ouro, partiu no mesmo dia para Paris, permanecendo alguns dias na cidade. Da capital francesa foi para Berlim e, posteriormente, Nova Iorque, Washington e Cidade do México.

O sucesso em Berlim

A viagem foi motivada pelo convite do governo alemão para que o Brasil participasse do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, que se reuniria em Berlim, em setembro daquele ano. Representando o Brasil, o então Instituto Soroterápico Federal apresentou uma exposição composta, entre outras coisas, por peças anátomo- patológicas, coleções de mosquitos, imagens do expurgo dos mosquitos nas residências e modelo de isolamento hospitalar dos pacientes de febre amarela. No evento, os cientistas demonstraram como se deu o combate vitorioso contra a febre amarela no Rio de Janeiro.

 

 

A exposição do Instituto Soroterápico Federal recebeu o 1º prêmio, representado por uma medalha de ouro oferecida pela Imperatriz alemã Augusta Vitória de Schleswig-Holstein (1858 – 1921). A enorme repercussão deste prêmio no Brasil trouxe um grande prestígio para Oswaldo Cruz e para o instituto que dirigia. Isso fez com que sua viagem se estendesse.

 

 

Assim, por designação do governo brasileiro, seguiu para a Cidade do México (passando antes para conhecer Nova Iorque) para participar da 3ª Convenção Sanitária Internacional das Repúblicas Americanas. Da capital mexicana partiu para Washington, uma vez que o então embaixador brasileiro, Joaquim Nabuco (1849 – 1910), agendara um encontro dele com o presidente Theodore Roosevelt (1858 – 1919). O objetivo da missão era comunicar ao chefe estadunidense a extinção da febre amarela no Rio de Janeiro.

Nessa mesma temporada, da América cruzou mais uma vez o Atlântico Norte para visitas às Escolas de Higiene e Medicina Tropical de Londres e Liverpool. Na carta que escreve de Liverpool à esposa, em 21 de dezembro de 1907, Oswaldo diz que pretende finalizar sua viagem em Paris, para descansar e comprar os presentes e vestidos que ela havia encomendado a ele. Outra ‘missão’ que deveria cumprir na capital era a promessa, também feita a Miloca, de depositar uma placa comemorativa na Igreja de Notre Dame des Victoires por uma graça recebida.

Em 19 de outubro escreveu a Egydio Salles Guerra (1858 – 1945), seu amigo e posterior biógrafo: “Depois de ter percorrido uma longa via sacra estou instalado no meu antigo “quartier dos Champs Elysées: Avda • Marignan, 17, num pequeno rez de chaussée mais ou menos confortável!”[iv].

 

 

Em carta seguinte, datada de 5 de janeiro de 1908, se congratula com a esposa pelo aniversário de casamento de ambos, dá notícias sobre o andamento das encomendas de vestidos e chapéus, e informa que partirá de Paris em 24 do mesmo mês, devendo finalmente chegar ao Rio de Janeiro em 10 de fevereiro (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1908, sétima coluna).

O retorno a Paris, de fato, teria sido sugestão de Salles Guerra, muito preocupado com a saúde de Oswaldo Cruz. Salles Guerra havia sugerido que Oswaldo fosse para a Suíça e permanecesse algum tempo no Sanatório de Val Mont, em Montreaux para tratar de uma nefrite, recentemente diagnosticada, motivo de grande preocupação de sua família e amigos. Conselho que o amigo e “paciente” não acatou, afirmando ter horror a sanatórios.

Na última carta da série (iniciada em agosto de 1907), datada de 14 de janeiro de 1908, escrita de Paris, vê-se um Oswaldo Cruz circunspecto, que evita contatos formais e sofre com o rigor do inverno parisiense. Imerso em grande nostalgia do tempo em que morou com a esposa e os três filhos mais velhos na Rue Marbeuf, entre 1897 e 1898, relata que os lagos do Bois de Boulogne estão congelados, atraindo muitos patinadores, e pede para Miloca informar às crianças que o circo da Avenue des Champs Elysée[v] já não existe mais.

 

[i] RIO, João do. Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Org.: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: Funarte, 2013, p.75.

[ii] Para saber mais sobre a estereoscopia, ver o interessante artigo A estereoscopia e o olhar da modernidade de Maria Isabela Mendonça dos Santos na Brasiliana Fotográfica.

[iii] As cartas de Oswaldo Cruz para sua esposa compõem este Dossiê e parte delas está transcrita em Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz – Acervos

[iv] SALES GUERRA, Egydio. Oswaldo Cruz. Primeira Edição. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940, p.391.

[v] Cirque d’Été, demolido em 1900.

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

Série “Conflitos” X – Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da FEB

Com fotografias do Cemitério de Pistoia, na Itália, pertencentes ao acervo do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e um pequeno perfil e cronologia do autor dos registros, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o portal lembra os 80 anos do Dia da Vitória na Europa, ocorrido em 8 de maio de 1945, data formal da derrota dos nazistas e da vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No cemitério foram sepultados os corpos dos integrantes da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.  A cronologia de Horacio é a 69ª publicada pelo portal, que acredita que este trabalho seja uma importante contribuição para a historiografia da fotografia brasileira.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Horacio Coelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Os restos mortais dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) permaneceram no Cemitério de Pistoia até 5 de outubro de 1960, quando foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

Inicialmente, o Brasil se manteve neutro na Segunda Guerra Mundial, porém, com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) alinhou o país às nações aliadas, declarando guerra ao países do Eixo.

 

 

 

Brevíssimo perfil de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

“A tomada de Monte Castelo, os terríveis combates de Montese, tudo foi gravado em celulóide e perpetuado em sal de prata, imagem por imagem, graças a objetiva de Horacio Coelho, sua picareta de trabalho na paz e sua arma de combate na guerra”.

Revista da Semana, 7 de setembro de 1945

 

 

Nasceu em Fernando de Noronha, em Pernambuco, em 2 de setembro de 1890, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c.1859 – 1929). Era neto do português Joaquim José Coelho (1797 – 1860), o Barão da Vitória. Teve com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948), com quem foi casado, seis filhos: Pojucan, Rômulo, Rêmulo, Maria Clementina, Murilo e Alberto.

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi nomeado pelo marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna). Algumas de suas fotos foram publicadas em artigos da Revista da SemanaOs brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945) e Onde a cobra fuma (Revista da Semana, 24 de março de 1945). Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha, em 1945 (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna). Dois anos depois, em 1947, foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

Com sua aposentadoria, na década de 1950, o cargo de cinegrafista do Exército foi extinto, em 1956 (Portal da Câmara dos Deputados).

Em 8 de maio de 1958, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga e Fernando Stamato, dentre outros também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1963, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

Uma curiosidade: Na foto abaixo, o último ajoelhado da esquerda para a direita é Fernando Stamato, filho do fotógrafo e pioneiro do cinema nacional João Stamato (1886 – 1951), que participou da viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz, em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins, documentando a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. O cineasta Fernando Stamato seguiu os caminhos do pai, tendo sido cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

Acesse aqui a cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

 

Fontes:

Allan Fischer Photo

Atlas Histórico do Brasil – FGV

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORADO, Maria de Fátima. O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB in Brasiliana Fotográfica, 18 de fevereiro de 2022.

O GLOBO, 14 de junho de 2015

Portal da Câmara dos Deputados

SANTOS, Ricardo Augusto. João Stamato, um fotógrafo nos sertões in Brasiliana Fotográfica, 9 de fevereiro de 2021.

Site Family Search

Site INPI

Site Memorial da FEB

Portal Domínio Público

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

 

1890 – Em 2 de setembro, nascimento, no Presídio de Fernando de Noronha, em Pernambuco, de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836- 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929). Na ocasião, seu pai era diretor do presídio (Diário de Pernambuco8 de junho de 1890, primeira coluna13 de julho de 1890, última coluna).

 

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão / Family Search

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search

 

Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902), pai de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho  / Site Family Search

 

 

Era neto de Joaquim José Coelho (1797 – 1860) e de Maria Bernardina de Gusmão (1783 – 1885), barão e baronesa da Vitória.

 

 

 

1902 – Falecimento de seu pai, Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) (A Província (PE), 15 de maio de 1902, quarta coluna).

No Colégio Porto Carrero, no Recife, foi aprovado com distinção na segunda série da aula infantil (A Província (PE), 11 de dezembro de 1902, terceira coluna).

1905 / 1906 Estudava no Colégio Diocesano São José, no Rio de Janeiro (A União, 17 de agosto de 1905, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de dezembro de 1905, quinta colunaCorreio da Manhã, 15 de abril de 1906, terceira coluna).

1911 - Foi nomeado pelo governador do Amazonas, Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853 – 1926), com a permissão do ministro da Guerra, Dantas Barreto (1850 – 1931), auxiliar e fotógrafo da Comissão Amazonense de Limites (Jornal do Commercio (AM), 10 de julho de 1911, primeira coluna).

Chegou no Recife, vindo de Manaus, a bordo do vapor Ceará (A Província (PE), 11 de outubro de 1911, última coluna).

 

 

1913 – Casou-se com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948) e tiveram seis filhos: Pojucan (19 -?), Rômulo (1918 – 1971), Rêmulo (1921 – 1985), Maria Clementina (1928- 2016), Murilo (1929 – 1970) e Alberto (19? – ?).(Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro, de 1913, quarta coluna).

1915 - Era guarda do corpo administrativo da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (Almanak Laemmert, 1915, última coluna).

1918 – Por ordem do ministro da Guerra, José Caetano de Faria (1855 – 1936), o inspetor de alunos Horacio de Gusmão Coelho passou a servir no 1º Distrito de Artilharia de Costa (Jornal do Commercio, 12 de janeiro de 1918, terceira coluna).

1920 - Devido à iminente reabertura da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras (1870 – 1934) pediu que se apresentassem alguns funcionários adidos de instituições subordinadas ao ministério da Guerra, dentre eles Horacio (O Paiz, 13 de fevereiro de 1920, sexta coluna).

Horacio foi identificado como empregado da Light. Teria arrendado o teatro Politheama e sido passado para trás no negócio* (O Paiz, 3 de outubro de 1920, quarta colunaO Jornal, 3 de outubro de 1930, terceira coluna).

1921 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 10 de setembro de 1921, quinta colunaGazeta de Notícias, 10 de setembro de 1921, quarta coluna).

1923 – Identificado como empregado público, pediu ao Ministério da Agricultura privilégio para uma nova armação giratória destinada a diversões públicas. A patente foi concedida* (Jornal do Commercio18 de abril de 1923, quinta coluna5 de junho de 1923, penúltima coluna).

 

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1925 – Ficou ferido em uma explosão em um barracão nos fundos de um prédio na Rua Emerenciana, em São Cristóvão, quando eram manipulados petardos por dinamiteiros (O Imparcial, 6 de maio de 1925, segunda coluna).

Por abandono de emprego, foi exonerado do cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 19 de junho de 1925, penúltima coluna).

1926 – O ministro da Fazenda, Aníbal Freire da Fonseca (1884 – 1970), enviou ao ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho (1861 – 1947) o processo originado pelo requerimento da esposa de Horacio, Maria Emilia Coelho, solicitando o recolhimento das contribuições para o montepio devidas por Horacio, cujo paradeiro era ignorado (Jornal do Commercio, 1º de janeiro de 1926, primeira coluna).

1928 – Ele e sua esposa compareceram à missa de sétimo dia do ex-ministro da Fazenda, Esmeraldino Bandeira (1865 – 1928) (Jornal do Commercio, 12 de abril de 1928, quarta coluna).

1929 – Falecimento de sua mãe, Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929), na residência de Horacio, no Rio de Janeiro (Diário da Manhã (PE), 13 de agosto de 1929, sexta colunaJornal do Recife, 14 de agosto de 1929, última colunaDiário da Manhã (PE), 17 de agosto de 1929, primeira coluna).

1931 – Pelo chefe do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), foi considerado readmitido no cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior, desde 13 de novembro do ano anterior (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do general Xavier de Brito (1866 – 1930) (Correio da Manhã, 10 de abril de 1930, antepenúltima coluna).

1933 – Integrou a comitiva presidencial que viajou para o Norte do país no navio Almirante Jaceguay (Diário de Notícias, 13 de outubro de 1933, sexta coluna).

1934 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro (1891 – 1963), desenhista, cartógrafo da Escola de Estado Maior (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, penúltima coluna).

1935 – Foi posto pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro, à disposição do ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), para atuar como fotógrafo na Comissão de Limites da Seção Sul (Correio de Manhã, 18 de janeiro de 1935, quarta coluna).

1938 – Com o secretário do Interior de Pernambuco, Arthur de Moura, e outras autoridades visitou Fernando de Noronha (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1938, segunda coluna).

1940 - Publicação de uma fotografia de Maria Clementina, filha de Horacio e Maria Emilia (Revista da Semana, 24 de fevereiro de 1940).

1942 – O presidente da República, Getúlio Vargas, assinou um decreto com várias promoções em diversos ministérios. Horacio foi um dos promovidos (Correio da Manhã, 21 de janeiro de 1942, quarta coluna).

1943 – Publicação de fotografias de autoria de Horacio de uma viagem entre Recife e Rio de Janeiro na reportagem Nossa Terra (Revista da Semana, 31 de julho de 1946).

1944/1945 – No relatório das atividades de 1944 apresentado ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, por Roquette-Pinto, diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi informado que a instituição havia dado toda assistência técnica para o manejo e aquisição de câmeras 16mm pelo sr. Horacio Coelho, cinematografista do Ministério da Guerra que seguiu com as forças expedicionárias brasileiras tendo o INCE examinado o material adquirido, fornecido filmes e câmeras para o treinamento do mesmo cinegrafista, que fica assim habilitado a desempenhar toda e qualquer filmagem em operações de guerra (A Noite, 13 de março de 1945, segunda coluna).

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi posto pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), à disposição do marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (A Noite, 7 de junho de 1944, quarta colunaDiário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna).

 

 

Publicação da reportagem Os brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra fuma com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 24 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra está fumando com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 31 de março de 1945).

Publicação da reportagem Senta a Púa avestruz com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

Na reportagem A Batalha de Castelnuevo, publicação da fotografia abaixo (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

 

 

No suplemento de guerra da Revista da Semana, de 5 de maio de 1945, publicação de fotos enviadas especialmente da Itália por Horacio Coelho (Revista da Semana, 5 de maio de 1945).

Publicação da reportagem Visões de uma guerra que passou com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 30 de junho de 1945).

Publicação da reportagem Depois da vitória Veneza com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de julho de 1945).

Publicação da reportagem A volta de nosso correspondente com fotos de autoria de Horacio e do próprio Horacio em frente ao Café Petrarca, em Veneza (Revista da Semana, 7 de setembro de 1945).

Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

 

 

Uma mensagem de Horacio elogiando seus companheiros de imprensa foi lida em um programa de rádio (Jornal do Commercio, 4 de julho, quinta coluna).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna).

 

 

1946 - Fazia parte do quadro de civis permanentes do ministério da Guerra e foi promovido por merecimento na carreira de desenhista (Correio da Manhã, 11 de maio de 1946, sexta coluna).

Com o tenente João Brito Jorge, adjunto da SS Cine da Secretaria Geral de Guerra, foi para Resende filmar as manobras da Escola Militar (Correio da Manhã. 18 de setembro de 1946, segunda coluna).

1947 - Foi um dos correspondentes de guerra que atuaram junto à FEB na Segunda Guerra Mundial convidados pela Embaixada dos Estados Unidos para uma reunião no Serviço Cultural e Informativo dos Estados Unidos da América, quando foi exibido um longa-metragem sobre a atuação dos brasileiros na guerra (Correio da Manhã, 25 de janeiro de 1947, penúltima coluna).

Foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

1948 - Em 24 de fevereiro, falecimento de sua esposa Maria Emilia, a Miluca (Correio da Manhã, 29 de fevereiro de 1948).

 

 

Década de 1950 – Aposentou-se do cargo de cinegrafista na década de 1950.

1958 – Em 8 de maio, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa, quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga (1913 – 1990) e Fernando Stamato (1917 – 1993), dentre outros, também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

1963 -  Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

 

 

 

*A pesquisa não conseguiu confirmar se trata-se do mesmo Horacio ou se é um homônimo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

 

Série “Hotéis do Brasil” VIII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXI – O Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, e o Dia da Literatura Brasileira

Hoje comemora-se o Dia da Literatura Brasileira em homenagem à data de nascimento do cearense José de Alencar (1829-1877),  importante escritor do Romantismo brasileiro, autor de clássicos como O Guarani (1857), Lucíola (1862), Iracema (1865) e Senhora (1875). Sua estátua, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi registrada por Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1897; e por Augusto Malta (1864 – 1957), em 1906. O Dia da Literatura Brasileira seria, a princípio, o tema central deste artigo. Mas, nas fotos do monumento, aparece o Hotel dos Estrangeiros. O artigo passou então a ser também sobre o hotel e a ser o 31º da série O Rio de Janeiro desaparecido e o 8º da série Hotéis do Brasil.

 

 

 

O Hotel dos Estrangeiros* foi inaugurado, provavelmente, em 1849, ano em que foi mencionado pela primeira vez nos jornais da época, e ficava na Rua do Catete, nº 1 (Jornal do Commercio, 8 de maio de 1849, quarta coluna).

 

 

 

Foi demolido em 1951 e em seu lugar, foi construído o edifício Simon Bolivar (A Noite, 16 de abril de 1951, última colunaCorreio da Manhã, 17 de junho de 1951, quarta coluna, A Noite, 26 de junho de 1952, quarta coluna).

 

 

 

 

Breve histórico do Hotel dos Estrangeiros no Catete

 

 

Um dos pioneiros na história da hotelaria carioca, o Hotel dos Estrangeiros era, quando inaugurado, dirigido por Milliet Chesnay, William Coute e Lafourcade pertencia a Francisco Lumau e ficava na confluência das atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo, em frente à atual Praça José de Alencar. Oferecia uma vista magnífica para o mar, e reúne todas as comodidades para banhos (Almanak Laemmert, 1850).

 

 

Ao longo da década de 1850, eram vendidos no hotel ingressos para espetáculos teatrais e esportivos (Diário do Rio, 8 de novembro de 1853, última coluna; Courrier du Brésil, 31 de outubro de 1858, última coluna). Em 1856, pertencia a João Mayall, que plantou as quatro figueiras em frente ao edifício, que encantavam os visitantes e que foram tema do poema As quatro irmãs, de Odete de São Felix Simonsen (Almanak Laemmert, 1856; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950, quarta coluna).

Em torno de 1860, diplomatas norte-americanos passaram a residir no hotel (Revista da Semana, 7 de novembro de 1942, segunda coluna).

Em 1896, foi anunciado que ele havia passado por uma reforma. Tinha instalações bonitas e higiênicas, um bom restaurante e dispensava a seus clientes um tratamento diferenciado.

 

 

“Esse hotel que foi completamente restaurado, situa-se na melhor parte da cidade, recebendo ar e luz por todos os lados, próximo a mais limpa praia da cidade e cercado por um grande jardim. Possui quartos grandes e confortáveis e bem mobilhados, bons chuveiros, e banhos quentes, desinfetantes na água, armários, água potável filtrada pelo sistema Pasteur, bom serviço de mesa, e é considerado o primeiro hotel dessa capital. Possui ainda suntuosos salões, e serviço de mesa esplendido para baquetes. O restaurante e serviços não podem ser superados”.

Tornou-se a moradia de autoridades nacionais, chefes de estado em visita ao Rio de Janeiro e personalidades importantes nacionais e estrangeiras.

 

 

Foi um ponto de importantes reuniões e encontros, tanto de natureza social quanto política. Foi lá que Prudente de Moraes (1841 – 1902), primeiro presidente civil e eleito no Brasil, foi morar com sua família quando veio de São Paulo, em 1894 (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1894, segunda coluna). E também foi lá que nasceu a candidatura do marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) à Presidência da República, cargo que exerceu entre 1910 e 1914.

Foi cenário, em 8 de setembro de 1915, do assassinato do senador José Gomes Pinheiro Machado (1851 – 1915), importante e poderoso político da República Velha. Foi apunhalado por Manso de Paiva (c. 1886 – década de 1960), no saguão do hotel, aonde visitaria o político Rubião Junior (1851-1915), do Partido Republicano Paulista. Suas últimas palavras teriam sido: “Ah, canalha! Apunhalaram-me!” (Careta, 11 de setembro de 1915A Noite, 24 de janeiro de 1934; O Cruzeiro, 8 de julho de 1944).

Meses antes, Pinheiro Machado previra sua própria morte em entrevista ao jornalista João do Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César…”

 

 

Foi noticiado o despejo do hotel em fins de 1949 e, em 5 de abril de 1950, foi requerida por seus credores a decretação de sua falência (Diário da Noite, 14 de dezembro de 1949, segunda coluna;Correio da Manhã, 5 de abril de 1950, sexta coluna; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950). Em setembro do mesmo ano, foi alugado pela Justiça Eleitoral (A Manhã, 9 de setembro de 1950, terceira coluna). Em fevereiro de 1951, foi anunciado um baile de carnaval em suas dependências. Poucos meses depois foi demolido: uma tradição do Rio que mergulha no esquecimento para sempre (Gazeta de Notícias, 17 de dezembro de 1949, última colunaCorreio da Manhã, 18 de janeiro de 1951, quarta coluna).

 

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Dia da Literatura Brasileira

 

Para homenagear o Dia da Literatura Brasileira, como já mencionado o ponto de partida deste artigo, o portal destaca, ainda, três imagens de importantes escritores brasileiros, todos fundadores da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Nabuco (1849-1910), Lucio de Mendonça (1854-1909) e Machado de Assis (1839-1908). As fotografias foram produzidas por Augusto Malta, José Ferreira Guimarães (1841-1924) e por Joaquim Insley Pacheco (1830-1912) com Marc Ferrez, respectivamente. Lembramos aqui que, por escolha de Machado de Assis, José de Alencar é o patrono da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras.

 

 

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A propósito, o Hotel dos Estrangeiros foi citado em dois romances e em um conto de Machado de Assis:

“- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquilizar a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pô-los em ordem”.

Esaú e Jacó (1904)

 

“Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:

- O que é eterno, Iaiá Lindinha?

Ela, suspirando:

- Ingrato! É o amor que te tenho.

Jantei sem remorsos; ao contrário, tranquilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes…”

 

Eterno! (1899) – conto

 

“25 de junho

Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.

Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a ideia da volta, a que aludia frequentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete”.

Memorial de Aires (1908)

 

De acordo com o portal machadodeassis.net:

Segundo o Almanaque Laemmert de 1888, havia dois hotéis com esse nome: um em francês (Hôtel des Étrangers), pertencente a Pedro Lemgruber, que ficava na rua da Assembleia, 54; outro em português (Hotel dos Estrangeiros), pertencente a João Mayall, que ficava “no caminho Velho de Botafogo, em frente ao largo do Catete”, isto é, na confluência da rua Senador Vergueiro com a rua Barão do Flamengo, no bairro do Flamengo, na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em frente à atual praça José de Alencar. O contexto da ficção machadiana sugere que se trata do segundo, que era um estabelecimento de grande prestígio à época.

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo

 

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo, obra do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), foi inaugurado em 1º de maio de 1897, no Largo do Catete, que passou nesta data a se chamar Praça José de Alencar – era anteriormente denominada Praça Ferreira Vianna. Foi o primeiro monumento erguido no Brasil para homenagear um escritor brasileiro e é composto por uma estátua de José de Alencar, quatro relevos e quatro medalhões em bronze, dispostos em uma base octogonal, onde estão gravadas cenas dos romances Iracema, O Gaúcho O Guarani e O Sertanejo, de autoria do homenageado.

Sua inauguração contou com a presença do então presidente da República, Prudente de Moraes, do prefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) e de diversas autoridades e, apesar do sol e imenso calor, a praça e as imediações estavam apinhadas. Sua viúva, filhos, seu irmão, o barão de Alencar (1832 – 1921); e outros familiares também estiveram presentes à cerimônia. Na ocasião, discursaram Ferreira de Araújo (1848 – 1900), fundador da Gazeta de Notícias; os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Bilac (1865 – 1918), além de políticos presentes (Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1897, terceira colunaO Paiz, 2 de maio de 1897, terceira colunaRevista da Semana, 9 de maio de 1942).

 

“Bernardelli deu a José de Alencar (mais conhecido ainda hoje como político do que como romancista) a mais bela e duradoura das consagrações, já agora é possível que a profissão das letras mereça mais respeito, uma vez que o povo está vendo que um homem de letras merece também a homenagem devida aos heróis e aos benfeitores da pátria.

E não seria justo que o nome do escultor não fosse entregue ao aplauso público, ao lado do nome do escritor glorificado.
E que este dia (o primeiro dia em que o governo do meu país dá uma demonstração pública de que deseja honrar a arte e a literatura do Brasil, vindo assistir a essa festa de homens de letras) possa iniciar uma era nova de florescimento intelectual.”
Trecho do discurso de Olavo Bilac

 

A ideia da construção do monumento partiu dos redatores do Monitor Sul Mineiro, da cidade de Campanha, em Minas Gerais, que abriram uma subscrição para esse fim. A família do jornalista Evaristo da Veiga (1799 – 1837) incumbiu a divulgação da ideia à Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1880, segunda coluna). Foram feitos diversos donativos e, em 1º de dezembro de 1894, foi realizado um concerto, no Cassino Fluminense, para arrecadar dinheiro para a construção da estátua (Gazeta de Notícias, 1º de dezembro de 1894).

 

* Não confundir com o Hotel dos Estrangeiros que existiu anteriormente na Rua da Cadeia, 69 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de julho de 1846, terceira coluna).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Almanaque Gaúcho

Aventuras na História

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro : Cia. Editora e Comercial F. Lemos, 1956.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século 1910/1930 – Anos de crise e de criação. São Paulo : Editora Abril, 1980

SILVA, Maria do Carmo Couto da. Escultura e literatura nacional: o monumento a José de Alencar (1897). 

Site Arqueologia Histórica do Rio de Janeiro

WANDERLEY, Andrea C.T. A fundação da Academia Brasileira de Letras  in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

 

 

 

Dia Internacional da Dança

Com uma fotografia de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923) da escultura Dançarina, a Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Internacional da Dança, instituído, em 1982, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a UNESCO.

 

 

A data foi escolhida em homenagem ao nascimento do professor de balé e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810), pioneiro da reflexão teórica sobre o balé, escritor das Cartas sobre a Dança.

 

 

A escultura Dançarina, em mármore de Carrara, foi inaugurada, em 1908, na Praia de Botafogo. É uma réplica de uma obra do escultor francês Paul Darbefeuille (1852-1933). Na década de 1950, foi fotografada no Jardim do Méier, e, em 1960, estava na Avenida Presidente Vargas, em frente à Central do Brasil. Em 1992, foi encontrada no Largo do Tanque, em Jacarepaguá, tendo sido transferida, em janeiro de 1996, para a Praça Leony Mesquita, no mesmo bairro. Em 2023, uma das mãos da escultura foi restaurada pela Secretaria de Conservação do Rio de Janeiro.

 

A DANÇA E A ALMA

Carlos Drummond de Andrade

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.
 
No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.
 
Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…
 
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

 

Lembramos que o Grupo Corpo, uma das mais importantes companhias de balé do Brasil com renome internacional, completa, em 2025, 50 anos de existência.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Andrade, Carlos Drummond de. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

Monumentos do Rio

Site Conselho Internacional da Dança

Site Lu Lacerda