No Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, artigos sobre escravidão e racismo no Brasil

Hoje é celebrado o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra que, a partir da sanção, em 21 de dezembro de 2023, do Projeto de Lei nº 3268/2021, foi declarado feriado em todo o país. Para comemorar a data, a Brasiliana Fotográfica disponibiliza uma lista de artigos já publicados no portal sobre a escravidão e o racismo no Brasil. Neles foram destacadas imagens produzidas por importantes fotógrafos que atuaram no país, entre eles o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), o provavelmente brasileiro Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), o português Joaquim Insley Pacheco (1830- 1912), o português José Christiano Junior (1832 – 1902), o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) e tmabém por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

 

A data de hoje remete à morte de Zumbi de Palmares, em 20 de novembro de 1695, em Alagoas. Ele foi o líder do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial brasileiro, que localizava-se na região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. Traído por um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, foi morto na serra de Dois Irmãos, local de seu esconderijo. Foi esquartejado e sua cabeça foi cortada e exposta na Praça do Carmo, em Recife.

 

 

Depois de uma importante mobilização do Movimento Negro foi sancionada a Lei 10.639, de 2003, que determina o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas e a inclusão do Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar. Cerca de oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff (1947-) oficializou 20 de novembro como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, com a Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 (G1, 11 de novembro de 2011).

 

Seguem os links dos artigos:

 

 

Dia da Abolição da Escravatura, publicado em 13 de maio de 2015

Missa Campal de 17 de maio de 1888, publicado em 17 de maio de 2015

Machado de Assis vai à missa, de autoria de José Murilo de Carvalho, publicado em 29 de maio de 2015

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Novas identificações, publicado em 2 de junho de 2015

Princesa Isabel (RJ, 29 de julho de 1846 – Eu, 14 de novembro de 1921), publicado em 21 de julho de 2015

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695), publicado em 20 de novembro de 2015

A beleza das baianas na fotografia do século XIX no Brasil, publicado em 25 de novembro de 2016

Missa Campal de 17 de maio de 1888 – Mais identificações, publicado em 17 de maio de 2017

A Galeria dos condenados por Lilia Schwarcz, publicado em 15 de fevereiro de 2019

Retratos de escravizados pelo fotógrafo Christiano Junior (1832 – 1902), publicado em 13 de maio de 2019

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695), publicado em 20 de novembro de 2019

A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel, publicado em 13 de maio de 2020

Série “Feministas, graças a Deus” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 23 de fevereiro de 2021

Os “Instantâneos Cruéis” de Monteiro Lobato, publicado em 26 de novembro de 2021

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” I – Os Batutas embarcam para Paris, em 29 de janeiro – Uma história de música e de racismo, publicado em 29 de janeiro de 2022

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” X – A morte do escritor Lima Barreto (1881 – 1922), publicado em 1º de novembro de 2022

O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, publicado em 21 de março de 2023

Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, publicado em 25 de julho de 2023

A Frente Negra Brasileira, publicado em 13 de maio de 2024

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Histórias da fotografia paraense entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX

Ainda durante a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, em Belém, o Pará volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Hoje o portal traz artigos que contam um pouco da história da fotografia paraense, entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX. Essa história começou, provavelmente, com a chegada do norte-americano Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894) ao estado, em 1846, poucos anos após o anúncio da descoberta do daguerreótipo, ocorrido em 1839, na França. Vamos destacar o trabalho do português Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903) e do alemão George Huebner (1862 – 1935), que já foram temas de publicações do portal.

 

 

Além disso, publicamos o artigo da artista e pesquisadora Mayra Rodrigues sobre a história da Photographia Oliveira, de Antonio Oliveira (1864 – 1929), seu tio-bisavô e destacado documentarista da cidade de Belém e retratista das famílias abastadas na belle époque da cidade; e de suas filhas, a fotógrafa Lourdes Oliveira (1893 – 1984) e a laboratorista Kyola Oliveira (18? – 19?). Segundo o jornalista, ensaísta e curador Cláudio de La Rocque Leal (1958 – 2006), Lourdes é um dos maiores nomes da fotografia paraense. Sua produção é uma das mais ricas, mais bonitas e inventivas…As irmãs Oliveira encontram terreno para o desenvolvimento de uma produção rara e bela, digna dos mais importantes centros fotográficos do mundo.

 

“O retrato paraense é um todo mítico de crendices, volúpias, revoltas, revoluções, âmagos dilacerados, histórias de envenenamento, morte, amor, ódio, expulsões, recebimentos, doações, tudo a um tempo só, átmo de segundo, átmo que a fotografia precisa para registrar para todo o sempre aquele instante fugidio, que já não é mais, como disse Lispector. E se alguns paraenses partiram algum dia em férias para Paris e lá foram fotografados por Felix Nadar ou, antes, por Daguerre, é unicamente porque faz parte dessa essência esse eterno mesclar, esse eterno misturar as raízes, as origens, os sentidos. Políticos, intelectuais, artistas, escritores, estivadores, militantes, feministas, todos – incluindo os esquecidos e os desconhecidos, guardados pelo acaso em registro desses fotógrafos-, enfim todos os que fizeram de sua participação na formação desse retrato a mais bela contribuição para a construção do rosto único – união de faces no espelho de Persona – são nosso retrato, representação de nosso caráter. E o olhar, conhecido ou anônimo faz o mesmo que a “femme inconue” de Nadar: fita-nos eternamente”.

Cláudio de La Rocque, março de 1998 (Retrato Paraense)

 

 

A Photographia Oliveira por Mayra Rodrigues*

 

 

Tio Antonico é como a família chamava meu tio-bisavô, o fotógrafo Antonio Oliveira. Experimentou a febre das modernidades introduzidas no Brasil pelo Norte, impulsionada pela economia da borracha e que, segundo Mário de Andrade, alumbrou o homem amazônico no século XIX.

 

Antonio Oliveira, em rara foto, 19? / Acervo da família Oliveira

Autor desconhecido.“Tio Antonico”, Antonio Joaquim da Paixão Oliveira (1864–1929), em rara fotografia / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Aos 24 anos, abriu a Photographia Oliveira, em Belém do Pará. O cálculo da idade do estabelecimento toma por base o ano de 1888 como provável data de sua fundação conforme anúncio publicado no Estado do Pará, em 1916, que afirmava: “Todos os retratos tirados na Photographia Oliveira, desde 1888 até hoje, fôram ahí archivados e poderão ser reproduzidos em qualquer tempo” (O Estado do Pará, 20 de fevereiro de 1916, última coluna).

No registro de óbito de Antonio Oliveira, de 21 de janeiro de 1929, lê-se: “Que hoje, às dezenove horas, no Hospital da Caridade, sexto distrito, falleceu de “diabetes, anasarca e colapso cardíaco” Antonio Joaquim da Paixão Oliveira, paraense, branco, de sessenta e cinco anos de idade, photographo, filho de Francisco Gregório Oliveira e donna Anna Izabel Maciel de Oliveira.”

Antônio Oliveira e seus irmãos são, por parte de mãe, sobrinhos-netos de Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente (Acará, 1798 — Lisboa, 1866), fundador do jornal O Paraense (1822), considerado o primeiro jornal publicado na então Província do Grão-Pará e Rio Negro. Patroni é apontado como um dos influenciadores do movimento que culminou na Revolta da Cabanagem (1835–1840) (1).

Voltando à fotografia, o português Filippe Augusto Fidanza é reconhecidamente o grande nome do período. Segundo o jornalista e curador Cláudio de La Rocque Leal, “seu estúdio encontra um rival à altura somente na década de 1880, exatamente em 1884, com a abertura do Photo Oliveira, cujo domicílio comercial situava-se no prédio ao lado do Photo Fidanza.” (Retrato Paraense, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Pará, 1998). Ele acrescenta: “Ao que tudo indica, não somente pelos noticiários, como por depoimentos colhidos, os dois eram os mais importantes da cidade.”

Comemorando as conquistas de Tio Antonico e seguindo as datas indicadas por Leal, registro que a Photographia Oliveira instalou-se no prédio ao lado do Photo Fidanza — no número 18-A da Rua Conselheiro João Alfredo — por volta de 1894, e não em 1884, já que anúncios, entre 1891 e 1893, ainda indicavam como domicílio o número 4 da mesma rua. Outra pista: em 1895, a revista A Palavra: revista militar e literária informava que “toda a correspondência deve ser dirigida à Photographia Oliveira, à rua João Alfredo, 98, ou ao 4º Batalhão de Artilharia de Posição.” É provável que tenha havido erro tipográfico, sendo correto o número 18 (A Palavra: revista militar e literária, 15 de setembro de 1895, primeira coluna).

Antonio Oliveira atuou como um leão por quatro décadas. No período em que trabalhou, a Princesa Isabel assinou a Abolição da Escravatura (1888), o Brasil passou de Império à República (1889) e o mundo enfrentou a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Anúncios, matérias na imprensa, trabalhos acadêmicos e fotografias em relatórios governamentais indicam que ele foi repórter fotográfico, paisagista, retratista dentro e fora do estúdio e comerciante de produtos e serviços ligados à fotografia e à pintura, além das então recentes novidades tecnológicas para o lar.

Em 1899, anuncia vagas para “typographos, pautadores, encadernadores, retocadores photographicos, de competencia profissional, assim como de uma cosinheira” (A República (PA), 19 de setembro de 1899, primeira coluna). É provável que a família, além de trabalhar, morasse também no sobrado. Fez da Photographia Oliveira uma referência na cidade como ponto de encontro, premiando clientes com retratos, promovendo concursos fotográficos e com a exibição dos resultados e notícias de interesse público na forma de murais na porta de seu estabelecimento, como retratos de criminosos procurados.

Além do tradicional expediente entre 8h e 17h, em 1921, abriu para “Retratos tirados à noite”, com novos horários “às terças, quintas e sábados, das 8h às 9h da noite. Excepto para creanças” (Estado do Pará, 19 de abril de 1921, segunda coluna).

A Photographia Oliveira também sabia brincar com o público em seus anúncios. Um deles prometia carteiras de “verdadeiro coiro da Rússia” e “à prova de batedores”, explicando que, “uma vez acostumadas com a mão do proprietário, extranham as alheias e GRITAM ao serem tocadas por estas” (A Província do Pará, 31 de janeiro de 1900, anno XXIV, nº 7.296, p. 4). Em outra oportunidade, garantia possuir um “grande depósito de paciência” para “retratar creanças tolas e traquinas” (Estado do Pará, 12 de agosto de 1915, sexta coluna).

 

Província do Pará, 1900

Província do Pará, 31 de janeiro de  1900

 

O ano de 1900 marca um ponto alto na carreira de meu tio-bisavô. Foi quando investiu em dois anúncios elaborados, publicados nos refinados álbuns bilíngues — português e italiano — de Arthur Caccavoni, impressos em Gênova: o Album Descriptivo Amazonico  ilustrado por P. Campofiorito, tem caráter mais artístico (a imagem do anúncio de Antonio Oliveira abre esse artigo); no outro, o álbum Pará Commercial, mais empresarial, o destaque do anúncio é o próprio fotógrafo — com uma rara imagem de seu rosto aos 36 anos e sua assinatura cursiva e abreviada: “A. J. P. Oliveira.”

 

 

 

 

Os adjetivos a ele atribuídos pela imprensa dão pistas de sua passagem por Belém e pelo tempo. Ainda nos anos 1890 é o “sympathico photographo”, “acreditado e bem montado”; em 1896, a Folha do Norte, comentando sobre um possível contraventor, publica que “Nada contém o Izidoro Santiago: nem a inexorabilidade do subprefeito capitão Cândido, nem a energia terrível do aterrador capitão Mattos e nem a célebre galeria da Photographia Oliveira”. Em 1902, é o “conhecidíssimo photographo belenense”; em 1911, possui um “conceito artístico que há muito distingue”; e, em 1921, é “antigo e esforçado” (A República (PA), 3 de junho de 1890, quarta coluna; Folha do Norte, 25 de novembro de 1896, última coluna; O Industrial (PA), 17 de abril de 1902, penúltima colunaEstado do Pará, 17 de dezembro de 1911, terceira coluna; Estado do Pará, 20 de abril de 1921, segunda coluna).

A essa altura, Tio Antonico há muito havia se casado com Tia Catita — Anna Catharina Miranda de Oliveira (08/01/1872 – 19/10/1956)  e era pai de sete mulheres – Maria de Lourdes, Regina, Deolinda, Anna, Kyola, Bonina e Helena; e de três homens – Milton, Sylla e Clóvis. Em 1921, não era possível prever que, oito anos mais tarde, o diabético Antonio Oliveira morreria de colapso cardíaco.

Mas, em 1929, Lourdes, a filha mais velha, então com 28 anos, e a irmã Kyola já estavam prontas para suceder o pai na Photographia Oliveira, a primeira como fotógrafa e a segunda como laboratorista. Mais que uma continuidade, e ainda muito pouco conhecido, é o fato que foi através de suas filhas Kyola e Lourdes que “o estúdio Oliveira acabou conhecido como o mais inventivo de todos.”

 

Lourdes Oliveira,19?. Belém, Pará / Foto do livro Retrato Paraense

Photographia Oliveira. Lourdes Oliveira, aos 26 anos, fotografada por sua irmã, Kyola de Miranda e Oliveira, 1919. Belém, Pará / Foto do livro Retrato Paraense.

 

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Photographia Oliveira. A jovem Lourdes Oliveira, em foto provavelmente feita por seu pai, Antonio Oliveira, no final dos anos 1910. Belém, Pará /Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Quem afirma é o crítico Cláudio de La Rocque Leal, que dedica a exposição e o livro Retrato Paraense, realizados pela Fundação Rômulo Maiorana, em 1998, à memória do português Felipe Augusto Fidanza, a do alemão George Huebner e a da brasileira Lourdes Oliveira.

Para Rocque Leal, Lourdes é “um dos maiores nomes da fotografia paraense, que continua no, dir-se-ia, semi anonimato.” Analisa que, com as irmãs Oliveira, “o retrato paraense ganha força”. Que reformularam a estética mais sisuda de então ao introduzir “um certo glamour” inspirado nos ídolos do cinema e “impingir às fotografadas uma sensualidade pudica, enquanto ganhavam espaço nunca dantes a mulheres permitido.” E ainda que “os olhares sedutores de seus dândis e especialmente a ternura de suas crianças, ainda hoje fascinam com facilidade.”

Torço para que Cláudio de La Rocque as tenha conhecido em vida.

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. Rapaz não identificado. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará /Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. Primeira comunhão de Beatriz de Oliveira Rodrigues da Costa (13/05/1924 – ?), Cecília Cordeiro de Oliveira (16/09/1920 – ?) e José Luiz Cordeiro de Oliveira (24/11/1921 – ?), filhos do “Tio Cesar”, Cesar Coutinho de Oliveira (09/10/1890 – 06/11/1983), e Maria Celeste Cordeiro de Oliveira (07/07/1897 – 13/03/1959). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Minha mãe, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (Belém, 1932 – Rio de Janeiro, 2025) — Neném para a família —, era assídua frequentadora da Photographia Oliveira e foi privilegiada com lindos retratos durante sua infância e juventude.

 

Photo Oliveira. , c. 193?. Belé, Pará / Acervo da família Oliveira

Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Photo Oliveira. , Maria Evangelina Rodrigues de Almeida, c. 193?. Belém, Pará / Acervo da família Oliveira

Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, com suas bonecas, Vilma, a branca; e Dulce, a preta, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

O estúdio, conta ela, ficava no segundo andar do sobrado da Rua João Alfredo, nº 18-A, onde se viam os vários cenários utilizados nas fotos e que, a pedido das proprietárias — pasmem! — adorava soltar a imagem gelatinosa do negativo de vidro na torneira do estúdio para que estes fossem reutilizados em outras tomadas fotográficas. Um sinal de que, nos anos 1930, o projeto anunciado, em 1916, segundo o qual a Photographia Oliveira guardava todos os negativos desde 1888, estava descontinuado.

 

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Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

É certo que nesse período o sobrado abrigava, não apenas a Photographia Oliveira, mas toda a família, e foi nessa casa que Tio Antonico faleceu.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939–1945) alavanca o Segundo Ciclo da Borracha e Belém vê chegar, aos milhares, nordestinos esfomeados, doentes, maltrapilhos, chamados de Soldados da Borracha pela propaganda de Getúlio, Soldados de Cristo pela igreja católica e de “arigós” pelos belenenses. Abandonados à própria sorte, batiam nas casas em busca de comida, assombrando a cidade.

A Photographia Oliveira teve dificuldade em importar papel fotográfico durante a guerra, me contou a prima Glorinha — Gloria Coutinho de Faria e Cunha, nascida em 1942, que ouvia da mãe essa explicação sempre que reclamava por ser a única da família sem fotos das Oliveira.

Parece haver aqui um ponto de inflexão nos negócios. Pois, segundo Cláudio de La Rocque Leal, foi nos anos 1940 que Lourdes e Kyola se mudam para o Rio de Janeiro e vendem a firma e o nome fantasia para João Barbosa. O novo proprietário atualizou o nome para Stúdio Oliveira, mantendo o estabelecimento como referência de simpatia e qualidade fotográfica até sua morte, em 22 de setembro de 2001.

Maria de Lourdes de Miranda e Oliveira, a Lourdes, certamente não viu nem a exposição nem o livro Retrato Paraense. Foi sepultada, aos 90 anos, no Cemitério de Santa Isabel, em Belém, em 27 de março de 1984. Nasceu em 23 de dezembro de 1893, mesmo dia de minha avó, que repetia que tudo o que a prima Lourdes fazia, fazia bem feito, e, analisava que sempre faltava algo em fotos de outros fotógrafos, que não faltava nas da prima.

Circula em Belém a informação de que Lourdes, além de fotógrafa, foi pintora. Perguntei a respeito aos que conviveram com ela e nenhuma lembrança confirma essa informação. Mas confirmaram outra habilidade de Lourdes: a costura.

Ainda não encontrei detalhes sobre o nascimento e morte de Kyola de Miranda e Oliveira, a Kyola, mas sim sobre sua moradia. Consta em certidão de compra e venda de imóvel, detalhada mais abaixo, que Kyola é a única das 4 irmãs citadas no documento, incluindo Lourdes, que residia no Rio de Janeiro, tanto no ato de compra, em 21/05/1962, como na data de venda, em 19/06/1981. Kyola trabalhou no estúdio Lucena e Arthur , no prédio do cinema Roxy, onde minha mãe recomendava que fossemos tirar as fotos. Depois montou o “Foto Kyola, FOTOGRAFIAS EM GERAL, Av. Copacabana 798/409 – Rio-RJ”, como se vê nesse remanescente estojinho para fotos 3×4, com fotos de meu irmão Léo, feitas provavelmente no final dos anos 1970.

 

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Foto Kyola Fotografias em Geral. Léo Rodrigues de Almeida (07/06/1958 – 11/01/2021), final da década de 1970 / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

A certidão do imóvel que cita Kyola se refere à casa da Rua Tiradentes, nº 494, uma das quatro casas da Villa Kelly, no bairro do Reduto, em Belém, última residência própria das irmãs. A escritura de venda informa que a casa estava hipotecada ao Banco da Amazônia e que as irmãs, devedoras, se comprometiam a pagar a dívida em “180 prestações mensais, aos juros de 8,9% ao ano”. Um claro sinal de que — tristeza! — passavam por dificuldades financeiras.

Dali saíram para o asilo Pão de Santo Antônio, onde morreram. É certo que Lourdes, Tio Antonico e Tia Catita estão enterrados no Cemitério de Santa Izabel, próximo ao asilo, mas provavelmente não estão juntos. Mensagem da funcionária do cemitério diz: “Estive na sepultura que dona Maria de Lourdes foi sepultada e não tem nada inscrito. Ela é chão”, e reforçou, “a sepultura é chão”.

Sobre o destino do acervo que permaneceu nas instalações da Photographia Oliveira, e que foi continuado meticulosamente por João Barbosa, como me contou sua filha Clara, uma notícia grave e trágica: foi destruído pelo fogo! Tudo!

Outros conjuntos se encontram com familiares, antigos clientes ou estão espalhados entre colecionadores.

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. “Tia Thereza”, Thereza Coutinho de Oliveira, nascida em 25/04/1898. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

 

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Photographia Oliveira. “Tia Pete”, Perpétua Coutinho de Oliveira, nascida em 26/02/1900. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Glória Coutinho de Faria e Cunha

 

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Photographia Oliveira. Maria Celeste Cordeiro de Oliveira (07/07/1897 – 13/03/1959). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1920. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Com o título Foto da Imagem Original de Nossa Senhora de Nazaré pode ser o registro mais antigo já encontrado”, matéria do jornal O Liberal, de 08 de outubro de 2025, conta sobre a descoberta de uma foto de Antonio Oliveira, que mostra a escultura antes de danos visíveis nas fotos oficiais de 1919, e que foi adquirida pelo colecionador Felipe Rissato, em leilão online organizado no Rio de Janeiro (O Liberal, 8 de outubro de 2025).

 

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Photographia Oliveira. Imagem de Nossa Senhora de Nazareth, c. 1910. Belém, Pará. No canto inferior direito, é possível identificar a assinatura do fotógrafo Antonio Oliveira

 

Finalizo sublinhando que o empreendedorismo independente e qualificado de Lourdes e Kyola é característica também de suas oito parentes ligadas ao Colégio da Quinta Carmita, fundado em Ananindeua, em 1900, às margens do rio Maguary. Uma característica forjada talvez pela educação familiar combinada à lufada feminista no pós-Primeira Guerra Mundial.

 

Colégio Quinta Carmita, Ananindeua, Pará

Colégio Quinta Carmita, Ananindeua, Pará

 

Além de atuarem no ensino e na administração do colégio, Tereza formou-se em Odontologia; Ana Celeste, a Ninó, em Farmácia; Glória importou máquinas de escrever Remington dos Estados Unidos e abriu um curso de datilografia em Belém; Maria do Rosário, a Zara trabalhou no Tesouro Nacional; e Perpétua, a Pete, fluente em inglês, trabalhou na então poderosa Rubber Reserve Company. Mais tarde, ao obter a certificação de qualidade da água mineral proveniente de uma nascente existente no terreno, Pete passou a comercializá-la sob o selo “Águas Maguary”.

 

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As Coutinho de Oliveira, no casarão do Colégio da Quinta Carmita, fundado em 1900, por seus pais, José Marcellino Sizenando de Oliveira e Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira, no município de Ananindeua, às margens do rio Maguary.

 

Uma curiosidade incomum para a época: dessas dez mulheres, a maioria — seis — não se casou.

Mas este já é um outro capítulo.

 

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Várias imagens realizadas pela Photographia Oliveira

 

Toda a pesquisa realizada é parte de meu projeto Cordel Paraense para Evangelina, nome de minha mãe, e a ela é dedicado.

 

(1) Um dos artigos da série “Cabanagem: 180 anos”, publicada em 2014 e 2015 pelo portal O Estado Net, intitulado “Patroni: o Profeta da Rebelião”, afirma:

“Não há dúvida de que Filipe Patroni é, pelo menos, a mais curiosa e enigmática figura da era dos ‘motins políticos’, conforme a classificação que o historiador Domingos Antônio Raiol — a maior fonte sobre a história desse período — deu aos acontecimentos no Pará entre 1821 e 1835.”

No entanto, a fotografia que vem sendo identificada como a de Filipe Patroni, tanto nesta quanto em outras publicações na web, retrata, na realidade, o irmão de Antônio e meu bisavô, José Marcellino Sizenando de Oliveira (16/07/1859 – 08/11/1938).

 

 

José Marcelino e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira (29/06/1861 – 18/08/1953) — identificados na imagem abaixo —, fundaram, em 1900, o já mencionado Colégio da Quinta Carmita, situado às margens do Rio Maguary, no município de Ananindeua.

 

José Marcellino Sizenando de Oliveira e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira

José Marcellino Sizenando de Oliveira e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira, , fundadores do Colégio da Quinta Carmita em 1900, localizado às margens do Rio Maguary, no município de Ananindeua. I

 

Um terceiro irmão também deixou sua marca na história do Pará: João Hosannah de Oliveira (15/04/1854 – 15/06/1923). Ao longo de sua trajetória, exerceu múltiplas funções — jornalista, escritor, advogado, sacerdote e deputado federal pelo Pará —, destacando-se ainda como o primeiro Procurador-Geral do Estado, cargo que ocupou de 22 de junho de 1891 a 1900 (Diário da Manhã (ES), 27 de julho de 1922, última coluna).

 

João Hosannah de Oliveira, retratado no Álbum Descriptivo Amazônico, de Arthur Caccavoni (1899), páginas 16 e 17

João Hosannah de Oliveira, retratado no Álbum Descriptivo Amazônico, de Arthur
Caccavoni (1899), páginas 16 e 17

 

Nota da autora: Esta pesquisa buscou confirmar duas informações surgidas ao longo do processo, cuja verificação não pôde ser assegurada. A primeira é a de que Lourdes, além de fotógrafa, foi pintora. Ao buscar referências, encontrei apenas outra artista de mesmo prenome — Maria de Lourdes Acatauassú Nunes, reconhecida pintora paraense. Consultei ainda familiares que conviveram com Lourdes, e nenhuma lembrança confirma essa informação. Mas confirmaram outra habilidade de Lourdes: a costura. A segunda é a de que a Photographia Oliveira teria tido uma filial em Manaus. Nada indica que isso tenha de fato ocorrido.

 

*Mayra Rodrigues (1955-) é artista e pesquisadora.

Acesse aqui trabalhos da autora relacionados à pesquisa para o Cordel Paraense para Evangelina:

Guajará — Cordel Paraense para Evangelina  e Pavlova no Paz — Cordel Paraense para Evangelina

 

Fredericks, Huebner e Fidanza – um pouco da história da fotografia no Pará

 

Andrea C. T. Wanderley**

 

Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894)

 

 

Charles DeForest Fredricks nasceu em 11 de dezembro de 1823, em Nova York. Com cerca de 20 anos, comprou um daguerreótipo e aprendeu a usá-lo com Jeremiah Gurney (1812 – 1895), um dos primeiros daguerreotipistas norte-americanos. Nesta mesma época, foi visitar um irmão que era comerciante em Ciudad Bolívar, na Venezuela. Decidiu vir para o Brasil, mas na descida do rio Orinoco, foi abandonado por seus guias indígenas. Sobreviveu, perdido, por aproximadamente 20 dias e retornou para Nova York.

Em 1846, voltou ao Brasil e foi, como já mencionado, possivelmente o primeiro fotógrafo a abrir um estúdio em Belém, no Pará, onde permaneceu por alguns meses, tendo também exercido a profissão de ourives (Treze de Maio (PA), 23 de maio de 1846).

 

 

Entre 1846 e 1849 esteve em São Luís e em Alcântara, no Maranhão; no Recife, em Salvador, no Rio Grande e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Vindo dos Estados Unidos, voltou ao Recife, em 1851, com o também daguerreotipista Alexander B. Weeks (1818-1859) e anunciou que estava a caminho do Rio de Janeiro. É notável a facilidade que Fredericks tinha de, naquela época, estabelecer-se num local, atuar por algum tempo e logo transferir-se para outro, reiniciando todo o processo com bastante rapidez (Publicador Maranhense, 5 de dezembro de 1846, segunda coluna; Publicador Maranhense, 2 de fevereiro de 1847, terceira colunaDiário Novo, 14 de junho de 1848, quarta coluna; Correio Mercantil (BA), 15 de novembro de 1848, segunda coluna; Diário do Rio Grande (RS), 24 a 27 de dezembro de 1848, segunda coluna; Diário de Pernambuco, 29 de setembro de 1851, segunda coluna).

Em 1853 esteve na França. Aprendeu a nova técnica de chapas de vidro a colódio, que superaria o sistema de daguerreotipia. Fredricks tornou-se proprietário do maior estabelecimento fotográfico dos Estados Unidos, em 1858, assim descrito pelo Frank Leslies Illustrated News:

“A Galeria Fotográfica de Fredricks, 585 e 587 Broadway, estava brilhantemente iluminada com lanternas coloridas. As palavras “Templo Fotográfico da Arte” eram formadas por centenas de lâmpadas, cobrindo um arco semicircular de 18 metros de curvatura. As janelas e sacadas dessas magníficas salas daguerrilhas ficavam lotadas de espectadores durante o dia, quase interrompendo os negócios. Não há galeria fotográfica mais popular em Nova York do que esta, e em nenhum lugar se obtêm retratos com maior fidelidade. A Galeria de Fredricks costuma ser frequentada por grupos, especialmente militares, e ele foi chamado, no sábado, para exercer sua arte com os oficiais da fragata a vapor H.B.M. Gorgon, cujos retratos ele tirou”.

 

 

Faleceu em 25 de maio de 1894, em Newark, Nova Jersey.

 

O fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903)

 

Reprodução do retrto de Fidanza, Álbum do Pará, em 1899

Reprodução do retrato de Fidanza, Álbum do Pará em 1899

 

Filho de Fernando Gabriel Fidanza e Maria de Jesus Fidanza, Felipe Augusto Fidanza nasceu em 4 de setembro de 1844, em Lisboa, e foi um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no norte do Brasil no século XIX e no início do século XX. Até hoje pouco se sabe de sua vida antes de sua chegada ao Brasil, em fins da década de 1860. Em 1º de janeiro de 1867, o Diario do Gram-Pará publicou o anúncio : “PHOTOGRAPHIA, ao largo das Mercez , nº. 5, Fidanza & Com”, o que prova que nessa época ele já estava estabelecido no Pará. Ainda em 1867, Fidanza realizou seu primeiro trabalho de importância nacional: o registro dos preparativos para a recepção da comitiva de dom Pedro II. O imperador foi ao Pará para participar das solenidades da abertura dos portos da Amazônia ao comércio exterior. Segundo Pedro Vasquez,  com esse trabalho, Fidanza “documentou de forma inovadora e antecipatória o espírito jornalístico”. No Diário de Belém, de 29 de agosto de 1869, há uma propaganda do ateliê Photographia Fidanza.

 

 

Era o predileto da aristocracia paraense e destacou-se por sua produção de retratos e também pelo registro das paisagens e documentações do início do desenvolvimento urbano de Belém e de Manaus, ocasionado pela riqueza do ciclo da borracha.  Essas imagens de paisagens urbanas foram divulgadas por álbuns fotográficos encomendados pelos governos do Pará e do Amazonas. A modernização de Belém e do Pará foram registradas nas coleções Álbum do Pará (1899) e Álbum de Belém (Correio da Manhã, de 22 de outubro de 1903, na quarta coluna sob o título “Intendência Municipal de Belém”).

 

 

 

Jornal do Brasil de 31 de janeiro de 1903 noticiou seu suicídio: “Atirou-se ao mar, de bordo do vapor Christiannia, em viagem de Lisboa para esta capital (Belém), o conhecido photographo Felippe Fidanza” ( Jornal do Brasil, 31 de janeiro de 1903, na primeira coluna ). Ele havia se jogado ao mar na altura da ilha da Madeira quando retornava de Portugal com a mulher e os filhos. Havia viajado para cuidar de uma encomenda dos governos do Pará e do Amazonas de 10 mil álbuns de vistas destes estados. Parece que foi mal sucedido e já havia, inclusive, tentado se matar em Lisboa ( O Pharol, 6 de março de 1903, na quinta coluna).

 

 

Segundo o jornalista Cláudio de La Rocque Leal, o estabelecimento fotográfico sob o nome “Fidanza” fez parte da história até 1969. Fidanza tornou-se uma marca da fotografia visto que, mesmo após a morte, seu nome permaneceu no cenário da produção fotográfica e na memória paraense, tanto que outros profissionais, ao adquirirem o seu ateliê, mantiveram o mesmo nome.

 

Acessando o link para as fotografias de Felipe Augusto Fidanza disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O fotógrafo e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935)

 

 

O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935) foi um dos estrangeiros atraídos a Manaus quando a cidade, com o ciclo da borracha, tornou-se um importante pólo econômico. Estabeleceu-se comercialmente em Belém, onde, em 1897, colaborou com o fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903). Em novembro do mesmo ano, apresentando-se como membro correspondente da Sociedade Geográfica de Dresden, informava a abertura de um ateliê fotográfico em Manaus, a Photographia Allemã, no antigo Hotel Cassina, junto ao palácio do governo. O ateliê mudou algumas vezes de endereço. Como fotógrafo registrou a chegada da modernidade em Belém e em Manaus, etnias indígenas, retratos de personalidades importantes de sua época, a sociedade que surgiu a partir do apogeu da economia da borracha e paisagens da floresta amazônica.

Em 1906, Huebner e o professor de Belas-Artes Libânio do Amaral (? – 1920), com quem já estava associado desde 1902, adquiriram, em Belém, o ateliê fotográfico Fidanza, que havia sido o mais tradicional do Pará. Dois anos depois, em 1908, Huebner foi pela primeira vez ao Rio de Janeiro, onde ele e Libânio do Amaral ganharam a medalha de prata e a medalha de ouro pelo Amazonas e o Grande Prêmio pelo Pará, na Exposição Nacional de 1908 (Almanak Laemmert, 1909). Em 1911, foi publicada uma propaganda da Photografia G. Huebner & Amaral informando que seria aberta e estaria à disposição do público para executar qualquer trabalho fotográfico a partir do dia 1º de janeiro de 1911, no Rio de Janeiro. Situava-se no edifício de O Paiz, na esquina da avenida Central com Sete de Setembro (A Notícia, 2 de janeiro de 1911, última coluna).

Em 1918, o Almanak Laemmert anunciou o estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia, na rua da Assembleia, 100, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, o estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, em Manaus, na avenida Eduardo Ribeiro, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert.

No ano seguinte, o estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, de Belém, na rua Conselheiro João Alfredo, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert. Foi anunciada a dissolução da sociedade entre George Huebner, Libânio do Amaral e Paulo Erbe, sócio-gerente da firma desde 1912, que passou a ser o único dono do estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1919, oitava coluna). Erbe se estabeleceu, posteriormente, na rua República do Peru, nº 100.

Em 1935, George Huebner, que em seus últimos anos de vida, vivia em um sítio nos arredores de Manaus coletando espécies vegetais, sobretudo orquídeas, faleceu.

Acessando o link para as fotografias de George Huebner disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Outro nomes da fotografia paraense entre o século XIX e as primeira década do século XX que constam no livro de Boris Kossoy, o Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro são: Antonio José de Araújo Lima, Antonio Maria de Mattos, Campbell, Constantino Barza, Feliciano Verlangieri, Firmo Lopes de Araújo, Freire, Fritz Bartels, Fortunato Ory, Guedes, Guillerme Potter, J.A.Veyret, J. Girard, José Carlos Gonçalves, José Thomaz Sabino, Julio A. Siza, Lourenço Antonio Dias, Marcello Thomaz Pull, Mello, M.H. Costa, Niels Olsen, Paulo Ernesto Meyer, Pedro Vilhote, R.H. Furman, Senna e Victor.

 

** Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

FONTES:

https://ppgdstu.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/Dissertacoes/2006/ROSA%20CLAUDIA.pdf

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LEAL, Cláudio de La Rocque. Retrato Paraense. Belém: Fundação Rômulo Maiorana, 1998.

LENZI, Teresa; MENESTRINO, Flávia. Pioneiros da fotografia em Rio Grande. Indícios de passagens e permanências. Relato de uma pesquisa histórica. Revista Memória em Rede, Pelotas, v.2, n.5, abr. / jul. 2011. Consultado em 26 de janeiro de 2013

Memorial de Charles DeForest Fredricks em Findagrave.com

PEREIRA, Rosa Claudia Cerqueira. Paisagens urbanas: fotografia e modernidade na cidade de Belém (1846-1908). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Pará como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História, 2006.

Site Broadway Photographs

Site Historic Camera

WANDERLEY, Andrea C. T. O suicídio do fotógrafo Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903) in Brasiliana Fotográfica, 31 de janeiro de 2016.

WANDERLEY, Andrea C. T. O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935) in Brasiliana Fotográfica, 2 de fevereiro de 2018.

Getúlio Vargas em Belém, a joia da Amazônia, ontem e hoje

A publicação de hoje, Getúlio Vargas em Belém, a jóia da Amazônia, ontem e hoje, é sobre um álbum de lembranças composto por 367 fotografias de uma viagem oficial que o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) fez, em outubro de 1940, à região amazônica. O artigo é de autoria de Maria de Fátima Morado, historiadora do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Álbum de fotografias da visita de Getúlio Vargas a Belém, em 1940, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Na época da viagem, a ideia de desenvolvimento e progresso não estava vinculada à preservação ambiental. Entre 10 e 21 de novembro de 2025, Belém, capital do Pará, será a sede da COP 30 – 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas -, evento que, há décadas, reúne lideranças mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações de combate às mudanças climáticas. A primeira foi realizada, em 1995, em Berlim, na Alemanha.

 

Getúlio Vargas em Belém, a joia da Amazônia, ontem e hoje

 Maria de Fátima Morado*

 

 

Em outubro de 1940, em viagem oficial à região amazônica, Getúlio Vargas fez sua primeira parada em Belém, capital do Pará. A visita recebeu uma cobertura fotográfica da participação do presidente em diversas solenidades e eventos. Esse registro foi organizado em um álbum de lembranças composto por 367 fotografias. Além da presença de Getúlio nos eventos promovidos pelas autoridades locais, essas fotografias também retratam outros aspectos da cidade apresentando edificações, monumentos, manifestações culturais e religiosas da população, além de produtos típicos e paisagens naturais.

 

 

As fotos do álbum procuram mostrar Belém como uma cidade promissora, dispondo de ruas asfaltadas, transporte adequado, áreas de lazer, parques, jardins, hospitais, escolas, comércio e fábricas, correspondendo idealmente bem ao propósito desenvolvimentista do governo federal. Como homenagem ao visitante ilustre, o álbum cumpre bem a função de expor uma visão otimista da cidade, onde não há espaço para a precariedade, prevalecendo a imagem do progresso. As fotos com Getúlio trazem homenagens recebidas, participações em inaugurações e lugares visitados por ele, com destaque para o Museu Goeldi, onde plantou uma árvore de pau-brasil, dizendo que “sempre julgará que uma das mais nobres missões do homem na terra era plantar árvores por todo o solo do seu país”.

 

 

Destaca-se também a grande receptividade da população para como presidente. Os jornais noticiaram que Getúlio foi recebido com diversas homenagens, entre elas uma parada de honra feita por 15 mil estudantes. Além disso, foram veiculadas informações sobre o acréscimo populacional em Belém, pois foi estimado em 150 mil o número de pessoas que vieram de outros lugares do Pará, como a Ilha de Marajó. A prefeitura não precisou decretar feriado porque os próprios comerciantes tomaram a iniciativa de fechar seus estabelecimentos para liberar os trabalhadores. Em seus discursos de agradecimento, Getúlio procura exaltar os trabalhadores e os benefícios conquistados por eles graças à legislação trabalhista promulgada pelo seu governo.

O álbum faz parte da Coleção Getúlio Vargas que foi formada artificialmente através de transferências de documentos do Museu Histórico Nacional para o Museu da República, além de doações avulsas diversas. Datado de março de 1941, o álbum foi oferecido como presente a Getúlio pelo prefeito de Belém, Abelardo Conduru, responsável pela recepção ao presidente, e seu portador foi o ministro da Marinha, Henrique Aristides Guilhem. A beleza deste álbum não se restringe ao conjunto das imagens, apresentando em suas páginas ornamentação com desenhos de inspiração marajoara. Há também um aspecto exótico: a capa do álbum é revestida com couro e cabeça empalhada de um jacaré filhote, algo impensável para os dias atuais em que a preocupação com a preservação ambiental movimenta as atenções de indivíduos, organizações e governos.

Oitenta e cinco anos depois da visita de Getúlio, Belém sediará, em novembro de 2025, a COP 30 – 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas -, evento que, há décadas, reúne lideranças mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações de combate às mudanças climáticas. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, justificou a escolha de Belém enquanto sede do evento dizendo que “Uma coisa é discutir a Amazônia no Egito; outra coisa é discutir a Amazônia em Berlim; outra coisa é discutir a Amazônia em Paris. Agora, não. Agora nós vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia. Nós vamos discutir a questão indígenas, vendo os indígenas. Nós vamos discutir a questão dos povos ribeirinhos, vendo os povos ribeirinhos e vendo como eles vivem”.

Getúlio também considerava a Amazônia como uma região de importância estratégica. Nessa época, estava em vigor o Estado Novo, governo ditatorial de Getúlio que durou de 1937 a 1945, e que implementou o programa Marcha para o Oeste visando a integração territorial, através da construção de infraestrutura que facilitasse o acesso às regiões do interior do país. “O programa de governo ‘Marcha para o Oeste’ continha importantes aspectos simbólicos, pois nenhum presidente havia feito o mesmo trajeto de Vargas pelas regiões mais remotas do país, lançando o programa durante visitas a diversas localidades, incluindo os estados constituintes da Amazônia. O primeiro movimento de ocupação e legitimação de áreas mais afastadas estava sendo feito pelo próprio líder da nação” (ANDRADE, 2010, p. 459).

A viagem de Getúlio estava programada para durar cerca de 15 dias e seu itinerário abarcou as regiões norte e nordeste. Em Manaus, após a passagem por Belém, Getúlio Vargas foi homenageado com um banquete, no dia 10 de outubro, onde pronunciou o discurso que ficou conhecido como Discurso do Rio Amazonas, em que diz: “Vim para ver e observar, de perto, as condições de realização do plano de reerguimento da Amazônia”.

Nesse discurso, Getúlio propõe a realização de uma reunião para elaboração de acordos de cooperação comercial entre os países que compartilham espaços da Floresta Amazônica, o que hoje se entende como Amazônia Internacional: “As águas do Amazonas são continentais. Antes de chegarem ao oceano, arrastam no seu leito, degelos dos Andes, águas quentes da planície central e correntes encachoeiradas das serranias do Norte. É, portanto, um rio tipicamente americano, pela extensão da sua bacia hidrográfica e pela origem das suas nascentes e caudatários, provindos de várias nações vizinhas. E, assim, obedecendo ao seu próprio signo de confraternização, aqui poderemos reunir essas nações irmãs para deliberar e assentar as bases de um convênio em que se ajustem os interesses comuns e se mostre, mais uma vez, como dignificante exemplo, o espírito de solidariedade que preside as relações dos povos americanos, sempre prontos à cooperação e ao entendimento pacífico”.

O jornal A Noite publicou uma declaração de Getúlio, posterior ao discurso, esclarecendo que a conferência entre países teria como finalidade negociar a vinda de investimentos para instalação da infraestrutura que permitisse a exploração comercial da região amazônica, contando também com a participação dos Estados Unidos. Antes de chegar a Manaus, Getúlio visitou o município de Belterra que, na época, era uma área cedida à Companhia Ford, do empresário norte-americano Henry Ford, e que se destinava ao cultivo das seringueiras para a produção de látex. Na década de 1940, a produção da borracha na região norte do Brasil teve um novo incentivo devido às dificuldades dos países aliados em obter o produto proveniente da Ásia, dificuldades que foram causadas pela Segunda Guerra Mundial.

Ainda de acordo com o Discurso do Rio Amazonas, para Getúlio, o Amazonas é o rio onde em suas margens será implantada “uma civilização única e peculiar, rica de elementos vitais e apta a crescer e prosperar” e para isso traça como bases o povoamento e o saneamento como garantias para o desenvolvimento da região, “o nomadismo dos seringueiros e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos devem dar lugar a núcleos de cultura agrária, onde o colono nacional, recebendo gratuitamente a terra desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com saúde e conforto”. Essa ideia do desenvolvimento econômico e social da região amazônica foi perfeitamente representada pela cena que ilustra a primeira página do álbum de lembrança de Belém dedicado a Getúlio. Em 1940, a ideia de desenvolvimento e progresso não estava vinculada à preservação ambiental. Em 2025, Belém receberá representantes do mundo para que seja feita a discussão sobre como vencer esse desafio.

*Maria de Fátima Morado é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

ANDRADE, Rômulo de Paula. Conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta: Getúlio Vargas e a revista “Cultura Política” redescobrem a Amazônia (1940-1941). Disponível em: https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/CSBRwGrXhdL6DKjG5bGQWwG/

ATLAS HISTÓRICO DO BRASIL. FGV/CPDOC. Getúlio Vargas. Disponível em: https://atlas.fgv.br/verbete/5458

Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Linha do tempo entenda como ocorreu a ocupação da Amazônia. Disponível em: https://imazon.org.br/imprensa/linha-do-tempo-entenda-como-ocorreu-a-ocupacao-da-amazonia/

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Rumo à COP30 Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/agenda-internacional/missoes-internacionais/cop28/cop-30-no-brasil

 

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:

Jornal do Brasil. ANO 1940 edição237 (6) O Presidente é convidado a plantar um pé de pau-brasil. https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_06&Pesq=getulio&pagfis=5678

A Noite. Ano 1940\Edição 10295 (15) Cercado do entusiasmo e do carinho popular. https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&Pesq=getulio&pagfis=4959

A Noite. Ano 1940\Edição 10296 Dias melhores e mais felizes para o trabalhador da Amazônia. https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=348970_04&pagfis=4999

A Noite. Ano 1940\Edição 10297 (11) A excursão presidencial. https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&Pesq=getulio&pagfis=5005

A Noite. Ano 1940\Edição 10299 (6) Conferência das Nações Amazônicas! https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&Pesq=discurso&pagfis=5037

A Noite. Ano 1940\Edição 10303 (4) A reunião das Nações Amazônicas. https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&Pesq=discurso&pagfis=5113

Santuário de Cristo Redentor e outras fotos do Morro da Favela, atual Morro da Providência

Com a publicação de uma fotografia de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957) do Santuário de Cristo Redentor no Morro da Favela, atual Morro da Providência, e de vistas deste mesmo morro produzidas também por Malta, por Jorge Kfuri (1893 – 1965) e pela Escola de Aviação Militar, celebramos o Dia da Favela, comemorado hoje, 4 de novembro, porque foi nesta data que, em 1900, o termo apareceu pela primeira vez em um documento público, quando o delegado da 10º Circunscrição e chefe da Polícia do Rio de Janeiro, Enéas Galvão, se referiu ao Morro da Providência, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, como favela. As imagens pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e ao Instituto Moreira Salles, as instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica; ao Museu Aeroespacial e à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, instituições parceiras do portal.

 

“…Todavia, a favela é também lugar de cultura e força simbólica positiva. Nela o povo negro construiu suas raízes junto com a história do Rio de Janeiro. A cultura do samba, do funk, da culinária afro, da moda, do passinho e tantas outras representações marcantes que são produto simbólico da favela no Brasil e no mundo. Neste sentido, faz-se premente nosso estado se alinhar a ações oficiais de homenagem, mobilização e conscientização por tudo que a favela tem a dizer e a mostrar”….Tal referência se inscreve na iniciativa de tomar a favela e seus habitantes em uma conotação positiva: não mais como um território estigmatizado, mas sim como um lugar de sociabilidades e produção de uma herança cultural”…

Trechos do Projeto de Lei 2019/2023 que adicionou ao Calendário Oficial do Estado do Rio de Janeiro o Dia Estadual da Favela

 

Em 2006, Celso Athayde (1963-), fundador da Central Única das Favelas (CUFA), teve a ideia de instituir o dia 4 de novembro como o Dia da Favela, projeto que foi oficializado pela Lei Municipal nº 4.383, de 28 de junho de 2006, no Rio de Janeiro. Desde o referido ano, a CUFA realiza ações no sentido de ressignificação do conceito de favela, tirando a potência desses territórios da invisibilidade. Outro estados também realizam atividades para visibilizar as favelas como fontes de criatividade, força e resiliência.

 

 

“Quando, em 2006, propus a criação deste dia, não pensei em celebrar a carência, nem as faltas que só quem vive nas favelas conhece de verdade. Minha ideia foi estabelecer uma data para que, todos os anos, pudéssemos olhar para as necessidades como oportunidades de avançar e mostrar à sociedade e ao poder público que as favelas são formadas por pessoas. Pessoas que consomem, criam, empreendem e realizam”, relembra Celso Athayde, CEO da Favela Holding e fundador da CUFA.

 

 

No estado do Rio de Janeiro, o Dia da Favela é lei, desde 2019. Na capital paulista, a data havia entrado para o calendário oficial, alguns anos antes, em 2015.

 

 

O Morro da Providência, no Rio de Janeiro, começou a ser ocupado no fim do século XIX, numa região já desvalorizada, perto de um cemitério, do porto e da linha férrea. A área já contava com diversos cortiços, que cresciam devido às leis que libertaram os filhos de escravizados e, depois, os próprios escravizados. Além disso, soldados egressos da Guerra de Canudos (1896-1897) não receberam o pagamento esperado pela vitória e começaram construir moradias no local, dando origem ao “Morro da Favela” – primeiro nome da comunidade, atribuído a um morro da região de Canudos, na Bahia, onde crescia uma planta chamada faveleira.

 

 

Segundo o Censo Demográfico 2022: Favelas e Comunidades Urbanas: Resultados do universo, divulgado, em 8 de novembro de 2024, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, existiam, em 2022, no Brasil, 12.348 favelas e comunidades urbanas, onde viviam 16.390.815 pessoas, o que equivalia a 8,1% da população do país, tudo isso distribuído em 656 municípios. O Estado de São Paulo apresentava 3.123 favelas e comunidades urbanas, sendo a Unidade da Federação com o maior número desses recortes territoriais no Brasil, representando 25,3% do total. O Rio de Janeiro foi o segundo Estado no ranking, com 1.724 favelas e comunidades urbanas em seu território, significando 14,0% do total.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

Agência IBGE

Arquivo Nacional

Censo Demográfico 2022 : favelas e comunidades urbanas : resultados do universo / IBGE

Exame

Extra, 4 de novembro de 2022

Site Câmara Municipal do Rio de Janeiro

As primeiras fotografias aéreas produzidas no Brasil, em 1916, de autoria do fotojornalista Jorge Kfuri

O jornal A Noite noticiou na capa de sua edição de 30 de outubro de 1916 a produção das primeiras fotografias aéreas do Brasil. Elas haviam sido realizadas pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965), que, na época, trabalhava para o periódico. Eram imagens do acampamento dos Afonsos tiradas de um biplano, da Escola de Aviação, pilotado pelo aviador italiano Ernesto Darioli (1881 – 19?) (A Noite, 30 de outubro de 1916). Darioli havia chegado ao Brasil, em fins de 1911 (A Noite, 6 de novembro de 1911, quarta coluna). Foi o instrutor de voo do primeiro aviador militar brasileiro, Ricardo Kirk (1874 – 1915). Ambos foram contratados pela União Federal para missões no teatro de operações da Guerra do Contestado.

 

 

 

Voltando às fotografias aéreas. Pouco depois, em 29 de novembro de 1916, Kfuri produziu mais fotografias aéreas, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare (1883 – 1956), futuro major-brigadeiro, no C-1, em uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats que haviam sido encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926). Chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 29 de novembro de 1916A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve perfil do fotojornalista Jorge Kfuri

 

 

Jorge Kfuri era sírio ou libanês (as fontes variam*) e na década de 1910 já estava no Brasil. Trabalhou entre essa década e a de 1920 nos jornais O Século e A Noite. Em 28 de outubro de 1913, foi um dos fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, no Rio de Janeiro, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil (Fon-Fon, 1º de novembro de 1913). Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). Em 1921, naturalizou-se brasileiro e, em dezembro do mesmo ano, foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira colunaO Relatório do Ministério da Marinha de 1922). Em 1923, para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna). Nos anos 1920, fotos de sua autoria eram publicadas em revistas como a Fon-Fon, a Illustração Brasileira.

Em 1957, em uma cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957 e Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna). Dois anos depois, em 1959, o presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

Kfuri faleceu em 21 de janeiro de 1965, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

*Em matérias de jornal, ele é referido ora como sírio ora como libanês. A pesquisa da Brasiliana Fotográfica acredita que ele tenha nascido no Líbano por dois fatos: em 1934, ele foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro; e o local de seu nascimento como o Líbano é o que consta em seu atestado de óbito.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

GERALDO, Alcyr Lintz. O avião na campanha do Contestado.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Reide Rio de Janeiro Buenos Aires – Oito histórias, 2021.

Site Early Aviators

Site G1

Site Museu Aeroespacial

WANDERLEY, Andrea C. T. Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913 in Brasiliana Fotográfica, 2 de setembro de 2025.

WANDERLEY, Andrea C. T. Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 26 de dezembro de 2019.

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola

Série Avenidas e ruas do Brasil XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola*

 

O poeta e escritor pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968), expoente da literatura brasileira e presença essencial na consolidação da poesia modernista, foi retratado na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, pelo fotógrafo argentino Horacio Coppola (1906 – 2012), provavelmente, segundo os professores Jorge Schwarcz (1944-) e Mauricio Lissovsky (1958 – 2022) (1), em 1931, quando, voltando da Europa, esteve no Rio de Janeiro, em Santos e em Salvador. Os dois registros de Coppola que destacamos no vigésimo artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. Há ainda, no fim do artigo, uma seleção de fotografias de autoria de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e de Marc Ferrez (1843 – 1923) produzidas a partir da Rua do Curvelo, além de uma produzida por Augusto Malta (1864 – 1957).

 

 

Além de um conjunto clássico das fotografias de Buenos Aires feitas por Coppola na década de 1930, o IMS guarda registros das esculturas de Aleijadinho (1738 – 1814) e outras imagens do Brasil.

 

Acesse aqui as fotos disponíveis no portal do IMS das esculturas de Aleijadinho realizadas por Coppola durante sua viagem a Congonhas do Campo e Ouro Preto, em 1945.

 

Bandeira foi retratado na janela de sua moradia, na Rua do Curvelo, nº 51, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. As duas fotografias foram tiradas de cima, da casa nº56 da Rua do Curvelo, onde residiam a psiquiatra Nise da Silveira (1905 – 1999), e seu marido, o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira (1905 – 1986).

 

 

Em uma das imagens, o poeta está sorrindo; na outra, estende a mão para uma moça que olha para Coppola:

Na calçada, uma jovem negra para diante da janela em que o poeta apareceu de pijama, com uma xícara de café. Coppola observa tudo à distância do outro lado da rua. Não sabemos sobre o que conversaram a moça e o poeta. Também não sabemos se Coppola ouviu falar das cidades mineiras naquele momento ou se algum dia leu o soneto que Bandeira escandiu em alexandrinos rimados. Mas percebemos pela fotografia que a noite já vinha chegando “de mansinho”, e que as mãos do poeta e da moça se tocam sobre o beiral da janela. Ela olha para o fotógrafo bem na hora do clique. Sua sombra desliza na calçada da Rua do Curvelo enquanto avulta sobre as pedras lavradas de Ouro Preto, a sombra descomunal da mão do Aleijadinho (LISSOVSKY, 2019).

 

 

Àquela altura, o poeta, no ano em que completou 45 anos, já havia publicado os importantes livros A Cinza das Horas (1917), Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, reunindo os dois primeiros acrescido de Ritmo Dissoluto (1924); e Libertinagem (1930). Neste último, estão os poemas Evocação ao Recife e Vou-me embora pra Pasárgada. Também em 1930, o artista pernambucano Cícero Dias (1907 – 2003) pintou o Retrato de Manuel Bandeira. Também fez  um desenho contemplando a Pasárgada e seu autor.

 

 

Foi, provavelmente, Bandeira quem apresentou Coppola ao poeta, ficcionista, ensaísta e musicista paulistano Mário de Andrade (1893 – 1945) e a outros artistas do Modernismo brasileiro, em 1931.

Alguns anos depois, em 1940, Bandeira tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 24, tendo sido eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães Filho. Foi recebido, em 30 de novembro de 1940, pelo acadêmico Ribeiro Couto (1898 – 1963), seu vizinho em Santa Teresa. Faleceu em 13 de outubro de 1968. Produziu, ao longo de seus 82 nos de vida, uma vasta obra que se tornou uma referência da literatura brasileira. Foi também professor e tradutor.

 

 

A Rua do Curvelo e o modernismo brasileiro

 

A Rua do Curvelo foi aberta, pelo decreto de 17 de junho de 1869, nas terras de Joaquim José de Meireles Ferreira, o barão do Curvelo. Passou a chamar-se Dias de Barros, em 15 de abril de 1931, pelo decreto de alteração de denominações nº 3647.

Em 1920, com 34 anos, Bandeira foi morar na Rua do Curvelo, aonde residiria até 1933. Inicialmente, ocupou a casa nº 53. Em 1923, morava na mesma rua, mas no número 43. No ano seguinte, seu endereço era rua do Curvelo, 51

“O morro do Curvelo (2) entrava, sem saber, na tradição literária. Um grande poeta ali morava: ali tomaria contato com a vida popular, observando, morro abaixo, os quintais efervescentes da rua Cassiano; ali permaneceria os melhores anos e os mais fecundo da criação poética”.

Rui Ribeiro Couto (3),

De menino doente a rei de Pasárgada in Três retratos de Manuel Bandeira, 2004

 

 

“A rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo”.

 Manuel Bandeira,

Itinerário de Pasárgada in Poesia e Prosa, 1958

 

Segundo Elvia Bezerra, pesquisadora de literatura brasileira e autora do livro A trinca do Curvelo (2026), os anos em que residiu na Rua do Curvelo foram fundamentais na formação e no destino de Manuel Bandeira.

“Bandeira era um homem da intensidade, mas não do exagero. Se ele disse que aquela rua foi tão importante na sua formação e no seu destino de poeta, vale a pena investigar o que tinha nessa rua. O que aconteceu de muito especial é que o humilde cotidiano, como ele designou, da rua do Curvelo veio ao encontro das tendências modernistas – tanto que ele diz que foi modernista da maneira mais natural possível, e é a pura verdade. É um casamento da rua com a tendência modernista e com a personalidade do próprio Bandeira, que era um homem simples. Ele se divertia com a vida que havia naquele momento e que o chamava lá fora”.

Elvia Bezerra, janeiro de 2026

 

Cronologia de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

 

A cronologia abaixo foi baseada na estabelecida pelo próprio poeta em 1966 e foi na publicada pela Folha de São Paulo, em 13 de outubro de 2008, data que marcava os 40 anos da morte de Bandeira

1886 - Nasce no Recife, em 19 de abril.
1896-1902 – No Rio de Janeiro, cursa o Externato do Ginásio Nacional (depois, Colégio Pedro II). Encontro fortuito com Machado de Assis, com quem conversa sobre Camões. Publicação do primeiro poema, um soneto alexandrino, na primeira página do Correio da Manhã.
1903-1904 – Vai para São Paulo, onde se matricula na Escola Politécnica. Adoece do pulmão no fim do ano letivo (1904) e abandona os estudos.
1913 - Embarca em junho para a Europa, a fim de tratar sua tuberculose no sanatório de Clavadel (de onde retorna em 1914). Organiza seu primeiro livro, Poemetos Melancólicos, mas esquece os originais no sanatório.
1916 - Falece a mãe.
1917 – Publica seu primeiro livro – A Cinza das Horas, edição de 200 exemplares, custeada pelo autor.
1918 – Falece a irmã, que tinha sido sua enfermeira desde 1904.
1919 – Publicação de Carnaval, custeada pelo pai. O livro entusiasma a geração paulista que iniciava a revolução modernista.
1920 – Falece o pai. Muda-se para a rua do Curvelo, onde já morava Ribeiro Couto.
1921 – Conhece Mário de Andrade.
1922 – Falece o irmão.
1924 – Publicação do volume Poesias, incluindo os dois livros anteriores acrescidos de O Ritmo Dissoluto.
1930 – Publicação de Libertinagem. Edição de 500 exemplares, custeada pelo poeta.
1936 - Publicação de A Estrela da Manhã (47 exemplares) e Crônicas da Província do Brasil. Por iniciativa dos amigos, sai o livro Homenagem a Manuel Bandeira, no cinquentenário do poeta.
1937 – Publicação, pela Civilização Brasileira, das Poesias Escolhidas, selecionadas pelo poeta, que também ouviu conselhos de Mário de Andrade. Sai a Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica. Ganha o prêmio de poesia da Sociedade Felipe d’Oliveira.
1938 – Nomeado professor de literatura do Colégio Pedro II. Publicação da Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e do Guia de Ouro Preto.
1940 – Ingresso na Academia Brasileira de Letras. Primeira publicação, pela Cia. Carioca de Artes Gráficas, das Poesias Completas, com o acréscimo de Lira dos Cinqüent’Anos. Publicação de Noções de História das Literaturas e, em separata, de A Autoria das Cartas Chilenas.
1943 - Deixa o Colégio Pedro II e é nomeado professor de literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia.
1944 - Nova edição das Poesias Completas.
1945 – Publica Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard.
1946 – Publica Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos.
1948 - Nova edição das Poesias Completas, pela Casa do Estudante do Brasil, com o acréscimo de Belo Belo. Nova edição das Poesias Escolhidas, pela Pongetti. Primeira edição de Mafuá do Malungo, impressa em Barcelona por João Cabral de Melo Neto. Nova edição aumentada dos Poemas Traduzidos (Editora Globo, de Porto Alegre). Edição crítica das Rimas, de José Albano.
1949 - Publica Literatura Hispano-Americana. Traduz sóror Juana Inés de la Cruz (El Divino Narciso).
1952 – Publica Opus 10, pela Editora Hipocampo.
1954 - Publica os livros Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia.
1955 - Publica 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor (MEC). Traduz Maria Stuart, de Schiller. Nova edição das Poesias Completas, pela José Olympio.
1956 – Escreve para a Enciclopédia Delta-Larousse um estudo sobre a versificação em língua portuguesa. Traduz Macbeth, de Shakespeare.
1957 – Publicação do livro de crônicas Flauta de Papel. Embarca em julho para a Europa. Visita a Holanda, Londres e Paris. Regressa ao Rio em novembro.
1958 - A Aguilar edita as obras completas em dois volumes: Poesia (que contém a primeira edição de Estrela da Tarde) e Prosa.
1963 – A José Olympio reedita Estrela da Tarde, acrescida de muitos poemas. Traduz O Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht.
1966 – Primeira publicação da Estrela da Vida Inteira, pela José Olympio. Pela mesma casa, sai, organizada por Carlos Drummond de Andrade, Andorinha, Andorinha, reunião de crônicas do poeta.
1968 – Falece no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro.

 

Brevíssimo perfil de Horacio Coppola (1906 – 2012)

 

 

Voltamos a Horacio Coppola, autor das duas fotografias de Bandeira publicadas neste artigo. Filho de imigrantes italianos, nasceu em Buenos Aires, em 31 de julho de 1906. Autodidata, começou a fotografar por influência de seu irmão, Armando, em fins da década de 1920, tendo como referência nomes como Félix Nadar (1820 – 1910) e Edward Weston (1886 – 1958). Em 1929, participou do primeiro salão modernista da capital argentina. Na ocasião, a palestra proferida pelo arquiteto suíço Le Corbusier (1887 – 1965), La mirada de las casas tradicionales de Buenos Aires como formas abstractas, influenciou decisivamente seu trabalho. “A partir daí, incorporou permanentemente, em suas fotografias, a noção modernista da perspectiva e dos pontos de fuga, enfatizando as linhas e os ângulos geométricos das fachadas, passeios e terraços do centro que se urbanizava” (Portal IMS). Também, em 1929, foi o fundador, com o cineasta León Klimovsk (1906 – 1996), do primeiro cineclube argentino.

“Eles são os olhos que viram um século.” Assim o descreveu certa vez Juan Manuel Bonet, responsável pela exposição que se realizou no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) em 1996, exposição que catapultou a sua obra para os mais prestigiados museus e galerias da Europa” (La Nation, 2011).

Suas primeiras fotos de Buenos Aires, realizadas em 1929, ilustraram a primeira edição do ensaio Evaristo Carriego (1930), de autoria do poeta Jorge Luis Borges (1899 – 1986), de quem era amigo.

 

 

Em 1932, em sua segunda viagem a Europa, fixou-se em Berlim, onde estudou no Departamento de Fotografia da Bauhaus, dirigido por  Walter Peterhans (1897 – 1960). Realizou com o diretor de teatro Walter Auerbach (1905 – 1975) o curta-metragem Traum (1933) e trabalhou no Studio ringl + pit com a fotógrafa alemã Greta Stern (1904 – 1999), uma das fundadoras do estabelecimento e sua futura esposa. A outra fundadora foi Ellen Auerbach (1906 – 2004).

 

 

Em 1933, a Bauhaus foi fechada e o casal deixou a Alemanha temendo a perseguição nazista. Stern se estabeleceu em Londres, onde realizou fotografias que se tornaram icônicas como, por exemplo, as de Bertold Brecht (1898 – 1956) e Karl Korsch (1886 – 1961). Após viajar pela Europa, Coppola se juntou a Stern em Londres, onde buscou uma linguagem modernista para suas fotografias da cidade, onde alternavam-se preocupação social e atmosfera surrealista.

Ele fotografou obras de arte suméria nos museus do Louvre e Britânico e este material foi publicado no livro L’Art de la Mesopotamie, em 1935, ano em que ele e Stern se casaram e passaram a viver em Buenos Aires. O casal importou as lições da Bauhaus para a América Latina. Realizaram a convite de Victoria Ocampo (1890 – 1979), então a primeira dama da cultura e das artes na Argentina, uma exposição nos escritórios da revista de vanguarda Sur, anunciando a chegada da fotografia moderna na Argentina.

Horacio produziu, a pedido da prefeitura, o álbum Buenos Aires 1936 (Visão Fotográfica) (1936), comemorativo dos 400 anos da cidade. O livro foi prefaciado por Alberto Presbisch (1899 – 1970), precursor da arquitetura moderna argentina; e pelo escritor Ignacio Anzoátegui (1905 – 1978).

 

 

Em 1937, ele e Greta abriram um estúdio fotográfico. Se separaram em 1943 e, dois anos depois, Coppola fotografou as obras de Aleijadinho nas cidades históricas mineiras, no Brasil. Recebeu, em 1985, o Grande Prêmio do Fundo Nacional para as Artes, em reconhecimento a sua carreira. Em 2003, foi agraciado com o título de Cidadão Ilustre da Cidade de Buenos Aires. Quando completou 100 anos, em 2006, foi realizada uma retrospectiva de sua obra no Museu Malba, em Buenos Aires, cidade onde faleceu, em 18 de junho de 2012.

Algumas de suas mais importantes exposições foram Quarenta Anos de Fotografia, no Museu Nacional de Belas Artes, em 1969; Minha fotografia, na Fundação San Telmo, em 1984; Antologia fotográfica 1927-1992, nMuseu Nacional de Belas Artes, em 1992; e El Buenos Aires de Horacio Coppola, no Instituto Valenciano de Arte Moderna, Centro Julio González, em Valência, entre 1996 e 1997. Em 2005, a Galeria Jorge Mara-La Ruche expôs fotografias realizadas por Coppola na década de 1930 na feira de arte espanhola ARCO e também na ArteBA. Entre 17 de maio e 4 de outubro de 2015, foi realizada, no Museu de Arte Moderna de Nova York MoMa, a exposição From Bauhaus to Buenos Aires: Grete Stern and Horacio Coppola.

 

Fotos realizadas a partir da Rua do Curvelo por Georges Leuzinger e Marc Ferrez, além de uma de autoria de Augusto Malta

 

A partir da Rua do Curvelo revela-se uma das mais paisagens do bairro da Glória e da Baía da Guanabara, fato que não passou despercebido para os fotógrafos Georges Leuzinger e Marc Ferrez.

 

 

Acessando o link para as fotografias realizadas por Leuzinger e por Ferrez a partir da Rua do Curvelo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

 

 

(1) O historiador, roteirista e professor de fotografia Mauricio Lissovsky nasceu em 29 de março de 1958, era membro da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dedicou grande parte de sua trajetória profissional à história visual e à teoria da imagem, com ênfase em fotografia, arquitetura, cinema e política. Entre seus nove livros sobre fotografia e história da imagem, destacamos Pausas do Destino: Teoria, Arte e História da Fotografia (2014), Refúgio do Olhar: a fotografia de Kurt Klagsbrunn no Brasil dos anos 1940 (com Márcia Mello)(2013) e Escravos Brasileiros do Século XIX na Fotografia de Christiano Jr (com Paulo César Azevedo)(1988). Faleceu em 25 de agosto de 2022. Em sua homenagem, entre 13 e 16 de agosto de 2024, foi realizada a primeira Jornada Mauricio Lissovsky de Fotografia (JMLF) no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

(2) A Rua Dias de Barros desemboca no largo conhecido como Curvelo. A região em torno da rua e do largo ficou conhecida como Curvelo.

(3) Refere-se ao poeta e amigo Rui Ribeiro Couto (1898 – 1963), que também morou na Rua do Curvelo.

 

Leia aqui o artigo do escritor Daniel Galera (1979-), O que se pode afirmar, sobre a foto de Bandeira por Coppola, publicado na seção “Por Dentro dos Acervos”, no site do IMS, em 8 de maio de 2020.

 

* O título desse artigo foi alterado e alguns acréscimos foram feitos, em 9 de fevereiro de 2026, a partir da leitura do extraordinário livro A trinca do Curvelo (2026), de Elvia Bezerra, publicado em 1995, foi relançado em 2026 em uma edição revista e ampliada. Os componentes da trica, além de Bandeira, era o poeta paulista Rui Ribeiro Couto e a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que revolucionou o tratamento mental no Brasil, também moradores da Rua do Curvelo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AITA, Giovanna. Due poeti brasiliani contemporanei: Manuel Bandeira & Ribeiro Couto. Napoli: Libreria Scientifica Editrice, 1953.

BEZERRA, Elvia. A trinca do Curvelo – os afetos de Manuel Bandeira. São Paulo : Todavia, 2026.

Folha de São Paulo, 13 de outubro de 2008

Folha de São Paulo, 26 de janeiro de 2026

GORELIK, Adrian. Um fotógrafo e uma cidade in Ciência Hoje.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LISSOVSKY, Mauricio. Coppola em Congonhas: um fotógrafo, três olhares. ANPUH – Brasil. 30º Simpósio Nacional de História. Recife, 2019.

Metromod.net

MIGLIACIO, Luciano. Obra de Horacio Coppola evidencia o diálogo entre o modernismo brasileiro e o argentino. Ciência e Cultura, vol. 65, nº 1. São Paulo, janeiro de 2013.

O GLOBO, 6 de julho de 2012

O GLOBO, 7 de fevereiro de 2026

Portal Enciclopédia Itaú Cultural

Portal IMS

SCHWARTZ, Jorge. O poeta entre profetas in Revista Serrote, Edição Especial para a Flip, 2009, páginas 8 a 15.

SENNA, Homero. Viagem a Pasárgada.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Ibran

Site La Nation

Site MoMa

Site Museu Malba

WANDERLEY, Andrea. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” II – A Semana de Arte Moderna in Brasiliana Fotográfica, 13 de fevereiro de 2022.

Wikipedia

O jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853 – 1905), o “Tigre da Abolição”

Com duas fotografias do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o artigo de hoje homenageia o grande jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853-1905), o Tigre da Abolição, que nasceu há exatos 172 anos, em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. O registro abaixo é o mais popular de Patrocínio, pelo qual sua imagem ficou conhecida até hoje.

 

 

 

A fotografia seguinte foi produzida quando José do Patrocínio e outros militares que se revoltaram contra o governo de Floriano Peixoto (1839 – 1895) foram deportados para Cucuí, no alto Rio Negro, no Amazonas, em 1892. Está assinada, no lado direito da foto, por M. Lira fotógrafo Iquitos, Peru. Foi doada à Biblioteca Nacional pelo município de São Gabriel, no Amazonas, em 1924.

 

 

Brevíssimo perfil de José do Patrocínio (1853 – 1905),

Zeca para os amigos, Zé do Pato para o povo

 

Se fosse possível reunir todos os artigos, todos os discursos, com que Patrocínio atacou a escravidão e seus defensores, o livro em que ficassem compendiados esses libelos seria o mais belo poema da Justiça

Olavo Bilac (1865 – 1918)

 

José Carlos do Patrocínio foi um dos principais protagonistas da luta pela abolição da escravatura no Brasil, tendo se engajado fortemente na causa a partir do jornalismo. Como já mencionado, nasceu em 9 de outubro de 1853, em Campos dos Goytacazes, norte fluminense. Filho do padre João Carlos Monteiro (1799 – 1876) e da quitandeira Justina Maria do Espírito Santo (c. 1840 – 1885), escravizada que havia sido alforriada, viveu sua infância na fazenda de seu pai, localizada em Lagoa de Cima, onde a violência, a injustiça e a desumanidade do sistema escravocrata fazia parte de seu cotidiano. Quando tinha 13 anos, não pode trabalhar no comércio de seu pai devido a sua cor. Seu impulso pela luta pela liberdade e pela igualdade teve origem, certamente, nestas circunstâncias de sua vida pessoal.

Em 1867, tendo concluído o primário, foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Santa Casa da Misericórdia  e retomou seus estudos no Externato de João Pedro de Aquino. Ingressou na Escola de Medicina, em 1871, e concluiu o curso de Farmácia, em 1874. Neste período residiu em uma república de estudantes. Quando terminou o curso, seu amigo João Rodrigues Pacheco Villanova (1852 – 1897), colega do Externato Aquino, convidou-o para morar na na casa da mãe dele, Henriqueta Amélia Ramos (1832-1911), que era casada, segundo casamento, com o capitão Emiliano Rosa de Senna (c. 1825 – 1896), proprietário de terras e de vários imóveis no Rio de Janeiro e avô do futuro pintor Di Cavalcanti (1897 – 1976). Patrocínio passou a lecionar para os filhos do capitão e a frequentar o Clube Republicano, que se reunia na residência, do qual faziam parte os jornalistas Lopes Trovão (1848 – 1925), Pardal Mallet (1864 – 1894) e Quintino Bocaiuva (1836 – 1912), dentre outros.

Em 1875, com Dermeval da Fonseca (c. 1852 – 1914), Patrocínio publicou, entre 1º de junho e 15 de outubro, dez números do quinzenário Os Ferrões. Assim Patrocínio iniciou sua carreira de jornalista. Seus  pseudônimos eram Eurus Ferrão e Notus Ferrão, respectivamente…

 

 

…e assim se apresentaram:

 

 

 

Em 1877, já trabalhava na Gazeta de Notícias, jornal fundado, em 2 de agosto de 1875, por Ferreira de Araújo (1848 – 1900), cujo pseudônimo era Lulu Sênior. Patrocínio assinava, sob o pseudônimo Proudhomme – alusão ao pensador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865), a coluna “Semana Parlamentar”, cuja primeira publicação aconteceu em 26 de fevereiro de 1877.  A Gazeta de Notícias foi um dos principais meios pelo qual Patrocínio propagou suas ideias abolicionistas.

Ainda em 1877, publicou no jornal o romance Motta Coqueiro ou a pena de morte, onde contou o caso verídico do último enforcamento no Brasil, o do fazendeiro Francisco Benedito de Souza Coqueiro (1799 – 1855), conhecido como Motta Coqueiro, o suposto mandante de um violento crime ocorrido no norte fluminense, em 1852. O livro criticava o sistema judiciário e o uso da pena de morte no Brasil do século XIX (Gazeta de Notícias23 de dezembro de 1877, primeira coluna e 4 de março de 1878, quinta coluna).

 

 

Em 1878, denunciou em uma série de artigos na Gazeta de Notícias a pior seca ocorrida no nordeste do Brasil no século XIX. A cobertura jornalística que realizava sobre a seca tinha como principal objetivo acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu, em 10 de maio de 1878, e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1). Mas só o texto não foi suficiente. Então, Patrocínio enviou as imagens produzidas pelo fotógrafo Joaquim Antônio Correia (18? – ?) para a redação da revista O Besouro, do chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905)para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo Sermão de Lágrimas (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes. A publicação de duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878, em em 20 de julho de 1878, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira).

 

 

Em 1879, publicou o romance Os retirantes, uma obra muito importante da literatura brasileira por sua crítica social e pelo engajamento de Patrocínio na causa abolicionista. A seca, a escravidão e a migração forçada são os temas do livro, considerado por muitos o introdutor do Realismo-Naturalismo no Brasil e da literatura da seca.

 

 

 

No mesmo ano, aderiu à campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em torno dele formou-se um grande coro de jornalistas e de oradores, dentre os quais José Ferreira de Meneses (1845 – 1881), Francisco de Paula Ney (1858 – 1897), Joaquim Nabuco (1849 – 1910), Lopes Trovão, Teodoro Sampaio (1855 – 1937) e Ubaldino do Amaral (1842 – 1920).

Foi um dos fundadores da escola noturna gratuita de São Cristóvão. Participaram da inauguração do colégio o capitão Emiliano Rosa de Senna, o conselheiro Saldanha Marinho (1816 – 1895) e João Rodrigues Pacheco Villanova (18? – ?) (Gazeta de Notícias, 23 de setembro de 1879, primeira coluna).

 

 

Em 7 de setembro de 1880, fundou com André Rebouças (1838 – 1898), Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e outros a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (Gazeta da Tarde, 10 de setembro de 1880, primeira coluna). No mesmo mês, ele, André Rebouças, Nicolau Joaquim Moreira (1824-1894) e Vicente de Souza (1852 – 1908) criaram a Associação Central Emancipadora (ACE), que começou a promover eventos abolicionistas em teatros – entre julho de 1880 e julho de 1881, a ACE organizou 43. Patrocínio era um orador entusiasmado e atraía grandes plateias (Gazeta de Notícias, 28 de setembro de 1880). Como produto da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, começou a ser publicado, em 1° de novembro de 1880, o jornal O Abolicionista. Na ocasião, Patrocínio já era filiado à maçonaria, que começava a assumir um protagonismo na luta pela abolição.

Casou-se, em 15 de janeiro de 1881, com Maria Henriqueta Sena (1864 – 1929), a Bibi, filha do capitão Emiliano Rosa de Senna (Gazeta da Tarde, 14 de janeiro de 1881, primeira coluna). Nesta época, segundo o historiador Flavio Gomes, os ataques racistas contra ele teriam aumentado devido ao fato de sua esposa ser branca.

 

 

Tiveram cinco filhos – duas meninas, que faleceram antes de completarem dois anos; e três meninos, dos quais os jornalistas Maceo (1897 – 1947) e José Carlos do Patrocínio Filho (c. 1886 – 1929), o Zeca. O filho Tinon desapareceu nas ruas do Rio de Janeiro quando criança e nunca mais foi encontrado. Nunca se soube de seu paradeiro.

 

 

Em 1881, devido ao falecimento de José Ferreira de Meneses, que era o proprietário da Gazeta da Tarde, Patrocínio comprou o jornal. Na época, também colaborava com a Revista Illustrada, de Ângelo Agostini (1843 – 1910). No ano seguinte, foi com Paula Ney para a Bahia, Pernambuco e Ceará para divulgar a causa abolicionista. Patrocínio fez conferências e comícios muito concorridos.

Em 9 de maio de 1883, fundou, em uma reunião organizada na sede da Gazeta da Tarde, a Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro, congregando todos os clubes abolicionistas do país. Foi um dos redatores do Manifesto da Confederação Abolicionista, que foi lido em uma sessão solene no Theatro Dom Pedro II, em agosto de 1883. A entidade promoveu fugas de escravizados, passeatas, festas, jantares, comícios e assembleias em prol da causa abolicionista.

 

 

 

 

Viajou para a Europa, em 1883, e retornou ao Brasil, em 1884, ano em que publicou na Gazeta da Tarde, a partir de 5 de abril, o romance Pedro Espanhol, em forma de folhetim, baseado na vida real de um assassino. Foi editado e vendido como livro no mesmo ano. Foi sua terceira e última obra de ficção. Foi reeditada em 2013, pela G. Ermakoff Casa Editorial. 

 

 

Em 1885, fez uma viagem a Campos, onde ele e outros abolicionistas fizeram conferências. Ele trouxe para o Rio de Janeiro sua mãe, Justina Maria do Espírito Santo, já bastante doente (Gazeta da Tarde, 18 de março de 1885, quinta coluna). Ela faleceu meses depois e o enterro transformou-se em um ato político em prol da abolição com a participação de personalidades como Campos Sales (1841 – 1913), Joaquim Nabuco, Prudente de Morais (1841 – 1902), Rodolfo Dantas (1854 – 1901) e Ruy Barbosa (1849 – 1923) (Gazeta da Tarde, 19 de agosto de 1885, última coluna e 20 de agosto de 1885, penúltima coluna).

 

 

Um caso de violência contra pessoas escravizadas foi mostrado, em fevereiro de 1886. “Não é só no interior que se cometem crimes contra os escravos. “As pretas Eduarda e Joana, levadas às redações dos jornais pelo José do Patrocínio e João Clapp provam que na Corte também há verdugos” (Revista Illustrada, 1886, edição 427). As escravizadas Eduarda, de 15 anos, e Joana, de 17, que haviam sido espancadas, foram exibidas pelas ruas do Rio de Janeiro. Seus rostos estavam deformados e as feridas em carne viva. Eduarda ficou cega e Joana morreu. Seu corpo foi carregado pelos abolicionistas, e o funeral rendeu mais um evento público denunciando tortura e assassinato. O caso de denúncia de tortura e assassinato se tornou uma comoção nacional.

 

 

Em agosto de 1887, o governo proibiu aglomerações nas ruas e edifícios públicos. Abolicionistas foram demitidos de seus empregos e partiram para o enfrentamento. Em 6 de agosto, organizaram uma conferência no Teatro Polytheama. Dois dias depois, um encontro em frente ao quartel do Campo da Aclamação. Ambos foram seguidos por enfrentamentos com a polícia. José do Patrocínio falou por muitos de seus companheiros, ao afirmar que “os abolicionistas sinceros estão todos preparados para morrer”.

Ainda neste ano organizou um manifestação em prol da abolição no Theatro Lyrico. A cantora que fazia o papel de Aída, na ópera homônima, a russa Nadina Bulicioff (1858 – 1921), comprou a liberdade de sete escravizados com os presentes que recebeu de seus admiradores. Entregou as cartas de alforrias em pleno palco, em 10 de agosto, em um ato da campanha abolicionista organizado por José do Patrocínio (1854 – 1905) (O Paiz, 11 de agosto de 1886, sexta coluna).

 

 

Em 1886, com expressiva votação, foi eleito vereador do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 2 de julho de 1886, quarta coluna). Em 1884, já havia se candidatado a deputado, sem sucesso. Em 1890, 1893 e 1895, voltou a se candidatar, mas não foi eleito.

Em 1887, abandonou a Gazeta da Tarde e fundou e dirigiu o jornal Cidade do Rio, lançado em 28 de setembro de 1887 e publicado até 1902.

Em 13 de maio de 1888, logo após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, abolindo a escravidão no Brasil, no Paço Imperial, Patrocínio fez um um notável discurso e foi saudado com um brinde feito por João Chaves (18? -?), representante da Gazeta de Notícias, tendo sido apontado como o iniciador do movimento abolicionista. Falou à população de uma das portas do Paço. Ofereceu à princesa Isabel, em nome da Confederação Abolicionista, um ramalhete de violetas e camélias artificiais com fitas verdes e amarelas, onde se lia Libertas alma mater (Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888, segunda, terceira  e quinta coluna; O Paiz, 14 de maio de 1888, última coluna). Por sua atuação na luta triunfante do abolicionismo, na qual foi a concretização do espírito nacional, foi homenageado na primeira página da Gazeta de Notícias de 14 de maio de 1888.

 

abolição

 

 

 

 

Idealizada pelo isabelista Manoel Maria de Beaurepaire Pinto Peixoto (18? – 19?) e abençoada por Patrocínio, a Guarda Negra da Redentora foi criada, em 9 de julho de 1888, na casa do abolicionista Emilio Rouède. Era uma instituição formada majoritariamente por libertos com o objetivo de proteger a princesa Isabel. Várias polêmicas aconteceram em torno da associação e do isabelismo – movimento de sustentação ao Terceiro Reinado isabelino, em franca oposição ao republicanismo que enxovalhava a herdeira de D. Pedro II e o marido dela, D. Gastão, o “Conde d´Eu” (Instituto Dona Isabel) – e Patrocínio foi envolvido em algumas delas (Cidade do Rio, 10 de julho de 1888, segunda colunaCidade do Rio, 5 de junho de 1889, terceira coluna; Cidade do Rio, 15 de julho de 1889, primeira colunaCidade do Rio, 20 de julho de 1889, segunda coluna). Respondeu a diversos críticos que o apontavam como um  negro vendido, explicando sua opinião acerca do isabelismo (O Tempo, 4 de agosto de 1888, última coluna):

 

O isabelismo

 

A profunda consideração que voto à redação da A Rua obriga-me a acudir pressurosamente em resposta às arguições, que ela me dirige, a respeito de uma frase por mim proferida no dia 13 de maio: “Enquanto houver sangue e honra abolicionistas, ninguém tocará no trono de Isabel, a Redentora”. Lançada em circulação sem considerações, que a precederam, semelhante frase, concordo, seria a mais terrível ameaça à democracia; a justificação prévia de todos os abusos do poder. Infelizmente o meu discurso não foi estenografado e é impossível, hoje, reproduzir integralmente quanto disse. O meu pensamento, porém, foi acentuar, nos termos os mais precisos, que a data de 13 de maio era a primeira de uma era nova, para a elaboração da qual todos tínhamos concorrido: o imperador, a princesa e o povo; que a essa nova era devia corresponder nova política, para a qual contávamos com a magnanimidade do imperador, que havia feito sacrifício maior que o de Abraão, trazendo ao altar da liberdade pátria em holocausto a sua única e adorada filha; a esta mulher heroica que estreou-se no Governo do país restituindo às mães a dignidade materna e educando os príncipes seus filhos no amor dos infelizes. Partiam dessas primícias governamentais a nossa veneração e a nossa esperança por Isabel, a Redentora; confiávamos que o seu futuro seria a confirmação de seu passado; que ela seria a imperatriz-opinião; a rainha-fraternidade; exortávamo-la a perseverar nesse sistema de governar, porque enquanto houvesse honra e sangue abolicionistas o seu trono seria sagrado. Inferir-se daí que eu tentei fechar todas as válvulas da democracia brasileira, que dei o futuro da pátria em hipoteca ao 13 de maio, sem levar em linha de conta o complemento necessário da nova era nacional, é forçar a lógica para tirar uma conclusão arbitrária.

 

Cidade do Rio, 18 de maio de 1889

 

Foi um defensor do Terceiro Reinado até praticamente o fim do Segundo, que se deu com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.  Tornou-se o proclamador civil da República, por ter desfraldado a bandeira do Clube Republicano, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde era vereador.

Em fevereiro de 1892, regressou da Europa. Em abril, foi declarado estado de sítio no Rio de Janeiro devido a um movimento em prol da deposição do presidente Floriano Peixoto (1839 – 1895) e aclamação do marechal Manoel Deodoro da Fonseca (1827 – 1892) à presidência. Patrocínio foi preso, acusado de cumplicidade. Ele, além de outros presos, foram deportados  para Cucuí, no alto Rio Negro, no estado do Amazonas (O Paiz, 23 de fevereiro de 1892, sexta colunaO Paiz, 12 de abril de 1892, quinta colunaO Paiz, 17 de abril de 1892, segunda colunaO Paiz, 26 de maio de 1892, quarta colunaGazeta de Notícias, 3 de julho de 1892, quarta coluna).

 

 

 

Ele e outros desterrados foram anistiados em 5 de agosto de 1892 e voltaram para o Rio de Janeiro, em 4 de setembro do mesmo ano. Patrocínio desembarcou no Cais Pharoux (O Paiz, 5 de setembro de 1892, quarta coluna). Devido a dificuldades financeiras e à perseguição política, foi morar no subúrbio de Inhaúma.

De volta ao jornal, Patrocínio continuou criticando o governo. Seu jornal, Cidade do Rio, publicou o manifesto O Veto, de Custódio de Melo (1840 – 1902), um dos líderes da Revolta da Armada contra o regime republicano recém-estabelecido, e apoiou o movimento. Po temer uma nova prisão, Patrocínio se exilou e Luis Murat (1861 – 1929) assumiu a direção do jornal. Cidade do Rio foi interditado, em 1893 – voltou a circular em 1895 (Cidade do Rio, 6 de setembro de 1893, primeira coluna; 8 de setembro de 1893, segunda coluna; 18 de setembro de 1893, primeira coluna). Desta época até 1894, Patrocínio morou na casa de sua sogra e cunhados, em São Cristóvão. Foi procurado pela polícia e houve um boato de que ele havia sido fuzilado em Sepetiba. Durante o exílio, de cerca de 15 meses, do qual só saiu quando se encerrou o mandato de Floriano Peixoto na presidência da República, começou a construir um balão, a sonhar com a ideia de voar.

 

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

 

Passou a colaborar com o jornal O Repórter (A Notícia, 2 e 3 de outubro de 1895, segunda coluna).

Compareceu às sessões preparatórias da instalação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 20 de julho de 1897, e foi o criador da cadeira nº 21, cujo patrono é Joaquim Serra.

Entusiasta da ciência e da tecnologia, no início do século XX, iniciou a construção de um dirigível de 45 metros, o Santa Cruz, que não foi concluído.

Em 1903, apesar de adoentado, Patrocínio saudou o grande inventor, cientista e aeronauta brasileiro Santos Dumont (1873 – 1932), o Pai da Aviação, presente à gala da ópera Fausto, no Theatro Lyrico, com um discurso que foi uma luminosa queda de estrelas, um dos rasgos de emoções em que se tornou incomparável. Na ocasião, foi acometido de uma hemoptise, causada por tuberculose. A chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro, neste mesmo dia, 7 de setembro de 1903, pela manhã, a bordo do navio Atlantique, que havia partido de Bordeaux, na França, foi apoteótica. Em menos de um mês o inventor visitou, além do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e permaneceu poucas horas em Salvador e no Recife (Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1903, primeira coluna; Revista da Semana, 13 de setembro de 1903).

 

 

Santos Dumont, que vinha de Minas Gerais, desembarcou na estação de Todos os Santos, onde, com outras personalidades políticas e da imprensa, foi recebido por Patrocínio, em seu hangar, em Inhaúma, onde estava sendo construído o balão Santa Cruz, idealizado por ele. Patrocínio ofereceu champanhe e saudou o aeronauta com um brilhante discurso, respondido por Santos Dumont. Patrocínio, foi um entusiasta da aviação nacional. O dirigível Santa Cruz não chegou a voar (Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1903, penúltima coluna).

No aniversário dos 16 anos da abolição, foi homenageado pela revista O Malho, 14 de maio de 1904: “Salve! José do Patrocínio- Das Almas Grandes a Nobreza é Esta”.

 

O Malho, 14 de maio de 1904

 

Faleceu, em 29 de janeiro de 1905. Morava em Inhaúma e todo o seu funeral durou 14 dias (O Paiz, 30 de janeiro de 1905, sexta coluna; O Malho, 4 de fevereiro de 1905Revista da Semana, 5 de fevereiro de 1905, última coluna).

No discurso de saudação ao novo membro da Academia Brasileira de Letras, Mario de Alencar (1872 – 1925), que passaria a ocupar a cadeira de José do Patrocínio, o acadêmico Coelho Neto (1864 – 1934) referiu-se a Patrocínio e mencionou que ele havia trazido o primeiro carro para o Brasil (Correio da Manhã, 15 de agosto de 1906, terceira coluna).

O desenho abaixo, de autoria  de M.J. Garnier (18? -?), foi publicado na página 108 do livro Sonetos brasileiros, organizado por Laudelino Freire (1873 – 1937) e editado por F. Briguiet & Cie. Editores. Foi usado na obra publicada em 1913.

 

 

 

Um dos netos de Patrocínio, o soldado Carlos Nuno do Patrocínio (1920 – 1946), filho de Maceo, morreu menos de um ano pós retornar da Segunda Guerra Mundial. Integrava o II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados e foi ferido em combate, tendo voltado ao Brasil com neurose de guerra. Suicidou-se e foi encontrado em seu apartamento em o bairro de Inhaúma, no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1946, e foi enterrado no cemitério do Caju.

Para marcar o dia 13 de maio, a Frente Negra Brasileira promoveu a realização de uma missa na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e uma passeata. Quando chegaram ao Largo do Arouche, onde fica a herma do advogado Luiz Gama (1830 – 1882) – concebida por Yolando Mallozzi e inaugurada em 1931 -, foi feita uma parada e o presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, e o orador Vicente Ferreira (? – 1934) fizeram discursos em homenagem ao grande patrono da raça. A campanha pela construção da herma de Luis Gama foi  liderada pelo jornal Progresso, representante da imprensa negra.

Integrando as celebrações do dia 13 de maio, em 1932, realizadas pela Frente Negra Brasileira, foi inaugurado, na sede da entidade, em São Paulo, um retrato de José do Patrocínio, de autoria de Olavo Xavier (Diário Nacional, 14 de maio de 1932). O propósito fundamental da Frente Negra Brasileira era discutir a questão do racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”.  Teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Existiu entre 1931 e 1937.

No centenário de seu nascimento, em 1953, Patrocínio foi homenageado com a celebração de uma missa na igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito dos Homens Pretos e com a inauguração, no jardim da Biblioteca Nacional, de um baixo relevo de bronze dele, elaborado pelo artista Ruffo Franucchi (? – 19?), a partir de uma pintura de Rodolfo Amoedo (1857 – 1941). O monumento foi erigido a partir de um movimento coletivo patrocinado por várias entidades, dentre elas a Associação Brasileira de Imprensa  – ABI -, a Câmara dos Vereadores, a União dos Homens de Cor e a Irmandade de São Benedito. O monumento foi ofertado ao Rio de Janeiro por seu povo e pela prefeitura da cidade. Na ocasião, Abdias do Nascimento (1914 – 2011), artista, professor e ativista do movimento negro; Herbert Moses (1884 – 1972), presidente da ABI; e o deputado Heitor Beltrão, representando a Casa do Jornalista, discursaram (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1953).

 

 

No ano seguinte, para celebrar o aniversário da Lei Áurea, o Teatro  Experimental do Negro, cujo diretor era Abdias do Nascimento, promoveu um Ato Cívico diante do monumento de José do Patrocínio (Jornal do Brasil, 12 de maio de 1955, quinta coluna).

 

 

 

Em 19 de dezembro de 2022, a Fundação Biblioteca Nacional- FBN – inaugurou uma nova placa alusiva ao monumento, dando início às comemorações pelos 170 anos do nascimento de Patrocínio, comemorado em 2023. O descerramento da placa contou com a presença do  do presidente da Comissão de Igualdade Étnico-Racial da ABI, Marcos Gomes; e de Octávio Costa, representando a ABI. Por parte da FBN, estiveram presentes o presidente da instituição, Luiz Carlos Ramiro Junior; seu diretor executivo, João Carlos Nara Jr.; o chefe de gabinete, Fernando Antônio Ferreira; e o chefe do Núcleo de Arquitetura, Luiz Antônio Lopes de Souza.

 

 

Uma curiosidade: segundo relatado por biógrafos e amigos, Patrocínio teria trazido, em 1901, o primeiro carro que circulou nas ruas do Rio de Janeiro. Esta data não foi confirmada pela pesquisa deste artigo. Em algumas fontes a data seria 1884, porém o carro, um modelo francês da marca Peugeot, movido a vapor, o Serpollet, só começou a ser fabricado em 1886. Outra data apontada é 1894, mas neste ano Patrocínio estava escondido, como já mencionado, fugindo da polícia do governo. Segundo João do Rio (1881 – 1921),a respeito do carro de Patrocínio, em seu livro Vida Vertiginosa (1911): “Um, o primeiro, de Patrocínio, quando chegou, foi motivo de escandalosa atenção. Gente de guarda-chuva debaixo do braço parava estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte imediata. Não durou muito: sofreu uma batida causada pelo poeta Olavo Bilac e ficou inutilizado.

 

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

Leia aqui uma crônica escrita por José do Patrocínio Filho sobre seu pai.

 

Veja aqui o programa sobre José do Patrocínio, da série Os Abolicionistas, veiculado pelo canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, do historiador Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

 

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Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

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ALONSO, Ângela. Associativismo avant la lettre – as sociedades pela abolição da escravidão no Brasil oitocentista. Sociologias, Porto Alegre, ano 13, no 28, set./dez. 2011.

ALONSO, Angela. Flores, votos e balas. O movimento abolicionista brasikeiro (1868-88). São Paulo : Companhia das Letras, 2015

ALVES, Uelinton Farias. José do Patrocínio: a imorredoura cor do bronze. Rio de Janeiro : Garamond, 2009.

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Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

CERQUEIRA, Bruno da Silva Antunes de; SOUZA, Arthur Danilo Castelo Branco. Negros, mulheres, pobres, ricos, letrados ou não: uma perspectiva histórica do isabelismo no Brasil. Cadernos ASLEGIS | 63 • 2º Semestre 2022.

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Fundação Biblioteca Nacional. A CAMPANHA ABOLICIONISTA José do Patrocínio COM O CORAÇÃO NOS LÁBIOS.

Motta, Felipe Ronner Pinheiro Imlau. Literatura, fatalidade e história: o jornalismo engajado de José do Patrocínio (1877-1905). Tese (Doutorado em Comunicação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A vida turbulenta de José do Patrocínio. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969

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WANDERLEY, Andrea C.T. Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias in Brasiliana Fotográfica, 12 de julho de 2015.

Tirando o Brasil dos arquivos por Ricardo Augusto dos Santos

Neste artigo Ricardo Augusto dos Santos, inspirado pela realização da comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, em abril de 2025, destaca fotografias de cidades presentes no acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal, na qual ele atua como pesquisador titular. No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, pode-se conhecer melhor o Brasil. Nas gavetas da COC/Fiocruz, foram identificados, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, conteúdos a respeito do tenentismo, da Fundação Rockefeller, da hanseníase, da eugenia, da reforma antimanicomial, do alcoolismo e da previdência social, dentre centenas de outros.

 

Tirando o Brasil dos arquivos

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

Em meio às gavetas  da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, surge uma fotografia da cidade de Cuiabá (MT). Em 1944, a milhares de quilômetros do palco da Grande Guerra, uma faixa anuncia o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1889-1977). Fotos como essa, registrando cidades pelo imenso país, conservam a memória do Brasil. Quando iniciamos a participação na Brasiliana Fotográfica, nosso objetivo era apresentar a importância do acervo sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz. São 133 fundos e coleções arquivísticas que reúnem quase três mil metros lineares de documentos, com 23.000 imagens organizadas e disponíveis para consulta, além de 80.000 fotografias e negativos em processo de classificação. Apesar do peso representativo dos temas relativos à história das ciências e da saúde, encontramos diversos assuntos nos arquivos, revelando inestimáveis aspectos da história do Brasil dos últimos 150 anos.[1]

Portanto, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, nas gavetas da COC/Fiocruz, identificamos conteúdos a respeito do tenentismo, Fundação Rockefeller, hanseníase, eugenia, reforma antimanicomial, alcoolismo e previdência social. São centenas de temáticas.

No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, podemos conhecer o país. Julgamos que é atribuição de um centro de documentação a ampliação do número de investigadores, permitindo condições de pesquisa aos documentos arquivísticos. Os trabalhos de divulgação devem ser amplos, afinal a função social dos arquivos é justamente torná-los de uso coletivo. Portanto, divulgar os acervos para o público é tarefa vital. Sem demanda à consulta, os documentos não são organizados ou esse processo poderá ser mais lento. A disseminação dos documentos textuais e fotografias propicia que as instituições alcancem um maior número de usuários, utilizando seus acervos, permitindo a multiplicação de seus acessos. No entanto, algo mais importante está em cena. A possibilidade que os brasileiros conheçam o país, suas regiões e habitantes em diferentes épocas.

 

 

Durante o evento de comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, tomamos conhecimento das visualizações das inúmeras localidades do Brasil.  Em nosso acervo, na Casa de Oswaldo Cruz, possuímos fotografias de centenas de cidades retratando a imensidão do território. Desde o final do século XIX até os dias atuais (2025).

Nosso esforço é tornar maior a identificação entre os arquivos e a população. Uma das principais tarefas é atingir o público leigo que não utiliza os documentos para fins acadêmicos ou culturais. A divulgação não somente amplia o conhecimento sobre os arquivos, incentivando a investigação sobre temas fundamentais, para a emergência de discussões no espaço acadêmico, mas funciona como recurso para o cidadão. Em suma, assegura a informação arquivística para a população leiga.

 

 

 

 

[1] Para acessar a Base Arch: https://basearch.coc.fiocruz.br

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz.

Dia Nacional do Rádio

Com uma imagem da Orquestra da Rádio Nacional – uma das mais emblemáticas estações radiofônicas brasileiras -, e de outros registros relacionados à história do rádio no Brasil, o portal destaca o Dia Nacional do Rádio. As fotografias pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. A escolha da data comemorativa, 25 de setembro, é uma homenagem ao nascimento, em 1884, daquele que é considerado o pai da radiodifusão no país, o carioca Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954). Ele foi um dos fundadores da primeira emissora oficial de rádio brasileira, a Rádio Sociedade Rio de Janeiro, a atual Rádio MEC, e pensou na comunicação pelo rádio como um poderoso meio para a educação, para a transformação social e para o desenvolvimento humano. A instituição e a comemoração do Dia Nacional do Rádio foi estabelecida pela lei 15.101/2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (1945-), em 13 de janeiro de 2025.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias relacionadas à história do rádio no Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Brevíssimo histórico do início do rádio no Brasil

 

 

Na abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência, foi realizada a primeira grande transmissão pública de rádio do Brasil. Outras transmissões radiofônicas já haviam sido realizadas no país – pelo padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861 – 1928), em 16 de julho de 1899, em São Paulo (Commercio de São Paulo, 17 de julho de 1899, terceira coluna); e pela Rádio Clube de Pernambuco, fundada em 6 de abril de 1919 (Jornal do Recife, 25 de abril de 1919, última coluna). Mas a realizada em 7 de setembro de 1922 é considerada a primeira transmissão radiofônica oficial brasileira.

Uma estação de 500 watts, montada no alto do Corcovado pela Westinghouse Eletric International em combinação com a Companhia Telefônica Brasileira, irradiou o discurso do presidente Epitácio Pessoa  (1865 – 1942), realizado no Rio de Janeiro, através de 80 receptores vindos dos Estados Unidos, instalados em pontos centrais da cidade, surpreendendo os visitantes da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. A transmissão também foi realizada para Niterói, Petrópolis e São Paulo. Pelo mesmo sistema, à noite, a ópera O Guarany, de Carlos Gomes, encenada no Teatro Municipal, foi irradiada (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1922, quinta colunaA União (RJ), 14 de setembro de 1922, quarta coluna).

Pixinguinha (1897 – 1973), em entrevista, disse que havia tocado durante as primeiras transmissões radiofônicas oficiais no Brasil. “Toquei num estudiozinho que havia lá e a Zaíra de Oliveira cantou”. O estúdio foi montado no pavilhão dos Estados Unidos.

Segundo Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954), presente no evento e considerado o pai da radiodifusão no Brasil, durante a Exposição de 1922:

“A verdade é que durante a exposição do centenário da Independência, em 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia, então realizadas pelas companhias norte-americanas Westinghouse, na estação do Corcovado e Western Electric na Praia Vermelha, muito pouco gente se interessou. Creio que a causa principal desse desinteresse foram os altos falantes instalados na exposição, ouvindo discursos e músicas reproduzidos no meio de um barulho infernal, tudo rofenho, distorcido, arranhando os ouvidos. Era uma curiosidade sem maiores conseqüências…”


“No começo de 1923, desmontava-se a estação do Corcovado, e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o governo não a comprasse. O Brasil ia ficar sem rádio… Ora eu vivia angustiado com essa história, porque já tinha a convicção profunda do valor informativo e cultural do sistema desde que ouvida as transmissões do Corcovado, meses antes conforme já marquei mais de uma vez, mas uma andorinha não faz verão… Resolvi interessar a Academia de Ciências, era presidente o nosso querido mestre Henrique Morize e eu era secretário, e assim que nasceu a radio Sociedade do Rio de Janeiro no dia 20 de abril de 1923.”

 

 

O fato é que, em 20 de abril de 1923, aquela que é considerada a primeira emissora radiofônica do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada tendo diversos associados, dentre eles os membros da Academia Brasileira de Ciências, influenciados pelo  engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 -1930), primeiro presidente da instituição, cargo que exerceu entre 1916 e 1926, e também presidente da recém criada estação radiofônica; e por seu principal idealizador, justamente Edgar Roquette-Pinto, que se tornou secretário da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

Lembramos aqui que, em torno de 1897, Morize realizava experiências no campo da imagem com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. Em 1899, no consultório dos doutores Camilo Fonseca e Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (A Imprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Morize foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.

A Rádio Sociedade Rio de Janeiro foi instituída como sociedade com fins exclusivamente educacionais e culturais e seu slogan era “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Em caráter experimental, a primeira transmissão da Rádio Sociedade aconteceu em 1º de maio de 1923, Dia do Trabalho, utilizando o prefixo PR1– A e, após, PRA-A e PRA-2 (O Paiz, 1º de maio de 1923, última coluna). Na ocasião, Roquette-Pinto declarou:

“A partir de agora todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias.”

Foi a primeira emissora regular no Brasil e foi instalada, em 19 de maio de 1923, na sala de Física e Química da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco (Correio da Manhã, 20 de maio de 1923, penúltima coluna).

 

 

 

Em 1936, foi doada por Roquette-Pinto ao Ministério da Educação e Saúde, então dirigido pelo ministro Gustavo Capanema (1900 -1985). Em 7 de setembro, foi realizada a cerimônia de doação da Rádio Sociedade, que passou a se chamar Rádio Ministério da Educação, popularmente Rádio Ministério e, atualmente, Rádio MEC.

 

 

Mas foi com a chegada de Getúlio Vargas (1882 – 1954) à presidência, em 1930, que a rádio começou a crescer, tornando-se o mais importante veículo de comunicação de massa do país. Em 1931, o governo começou a regulamentar a radiodifusão e aboliu as taxas pagas pelos ouvintes para que os aparelhos de rádio fossem instalados nas residências. No ano seguinte, a veiculação de anúncios comerciais pelo rádio passou a ser permitida. Com essas medidas, as emissoras foram se popularizando. No início da década de 1930, segundo a dissertação de mestrado Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945, realizada por Luiz André de Oliveira, o Brasil contava com 19 emissoras de rádio. Em 1937, já eram 63 e, em 1945, 111. Assim iniciava-se a Era de Ouro do Rádio no Brasil, entre as décadas de 1940 e 1950, onde a Rádio Nacional se sobressaiu, tornando-se um fenômeno cultural no país. Durante esses cerca de 20 anos, as emissoras de rádio eram poderosas, irradiavam programas para todo o país e possuíam robustas estruturas administrativas e artísticas. Os programas era humorísticos, jornalísticos, musicais, esportivos e de dramatização. Com a popularização da televisão, a partir da década de 1960, o rádio foi perdendo seu protagonismo.

 

 

Brevíssimo perfil de Edgar Roquette-Pinto

 

 

O carioca Edgar Roquette-Pinto nasceu em 25 de setembro de 1884 e foi um brilhante intelectual tendo sido antropólogo, etnólogo, ensaísta, médico-legista e professor. Foi delegado do Brasil no Congresso de Raças, realizado em Londres, em 1911. Logo depois integrou a Missão Rondon e foi diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1936. Foi, em 3 de maio de 1916, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 20 de outubro de 1927.

Foi o representante do Brasil no 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940. Na ocasião, o dia 19 de abril foi escolhido como Dia do Índio (Correio da Manhã, 4 de abril de 1940, quarta colunaCorreio da Manhã, 6 de abril de 1940, terceira colunaDiário de Notícias, 26 de maio de 1940, quarta coluna Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna). Realizou centenas de curtas-metragens para apoiar o ensino nas escolas.

“Vários naturalistas famosos deram o nome de Roquette-Pinto a algumas espécies de plantas e animais: Endodermophyton Roquettei (Parasito da pele dos índios de Mato Grosso) por Olímpio da Fonseca; Alsophila Roquettei, por Brade e Rosenstock; Roquettia Singularis, por Melo Leitão; Phyloscartes Roquettei (pássaro do Brasil Central) por Snethlage; Agria Claudia Roquettei (borboleta) por May” (Site Academia Brasileira de Letras).

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1954, em sua residência, na Avenida Beira-Mar, 406. Foi velado na Academia Brasileira de Letras e enterrado em Petrópolis (Gazeta de Notícias, 19 de outubro de 1954, terceira coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil – FGV

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BIANCO, Nelia del. O rádio ainda é relevante na sociedade do século 21. UNB Notícias, 2018.

CALABRE, Lia. A Era do Rádio. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro. A divulgação científica no Rio de Janeiro: um passeio histórico e o contexto atual in Revista Rio de Janeiro, set-dez de 2003.

OLIVEIRA, Luiz André Ferreira de. Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945. Dissertação (Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.

Portal da Câmara dos Deputados

Revista Galileu, 26 de setembro de 2019

Site Academia Brasileira de Ciências

Site Academia Brasileira de Letras

Site Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Site Memorial da Democracia

Site Templo Cultural Delfos

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país in Brasiliana Fotográfica, 7 de setembro de 2022

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro por Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi

As historiadoras Bárbara Primo, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e Maria Isabel Lenzi, do Museu Histórico Nacional (MHN), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são as autoras do artigo Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro que resume os acontecimentos em torno do tema desde a instalação da cidade do Rio de Janeiro no Morro do Castelo, em meados do século XVI, até o princípio do século XX. Estão aqui disponibilizados três álbuns: dois com registros realizados pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e um terceiro com fotografias de autoria desconhecida sob o título; Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky, em 1923.

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro

Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi*

 

 

A cidade do Rio de Janeiro, ao se instalar no Morro do Castelo, em 1557, encontrou um desafio: o abastecimento de água. Seus habitantes compravam água de indígenas e negros aguadeiros. Estes iam buscá-la no rio Carioca, que corria no vale que hoje denominamos de Laranjeiras e desaguava na praia do Flamengo. Com o pregão de “Hy! Hy! – palavra que na língua tupi significa água – o precioso líquido era anunciado à população.

Em 1673, no governo de João da Silva e Souza (1669-1674), foram iniciadas as obras da adução das águas do rio Carioca, mas os chamados Arcos Velhos da Carioca, de madeira, só seriam concluídos no início do século seguinte. Em 1723, sob o governo de Aires Saldanha, a água cristalina foi levada até o primeiro Chafariz da Carioca. O governo Gomes Freire de Andrade executou grandes reformas no aqueduto que, inaugurado em 1750, conserva ainda hoje as feições daquele tempo.

Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e o consequente aumento da população, a água tornou-se escassa, obrigando as autoridades a buscarem outras fontes. Se até então a vertente Corcovado do Maciço da Tijuca era a mais usada, a partir do início do século XIX, os rios da vertente Tijuca seriam também aproveitados em diversos novos chafarizes e bicas que foram instalados na cidade.

 

 

O primeiro rio dessa vertente a ser aproveitado foi o rio Comprido que veio abastecer os chafarizes de Santana, do Catumbi e do Lagarto. Posteriormente, as águas do rio Maracanã foram também suprir esses chafarizes.

Com o passar do tempo, outros rios da vertente Tijuca foram incorporados ao abastecimento da cidade: o São João, o Trapicheiro, o Andaraí (ou Joana), o riacho da Cascatinha, o Gávea Pequena, o riacho do Hotel Aurora, o riacho A. Taylor e os córregos do Caranguejo, Soberbo, Morcego, Amaral e Machado.

A água, aos poucos, chegava às torneiras das residências. Todavia, este bem, tão fundamental à vida, deixava de ser gratuito, sendo incorporado definitivamente ao capital. As instituições públicas e as pessoas com maior poder aquisitivo, por óbvio, foram os pioneiros a ter água da torneira em casa e a mão de obra que pegava a água no chafariz público ficava cada vez mais escassa, pois a partir de 1850 o tráfico negreiro foi definitivamente abolido e muitos escravizados que viviam nas cidades foram vendidos para o Vale do Paraíba. Deste modo, o Rio de Janeiro seria palco e testemunha de uma série de transformações e avanços tecnológicos que, a partir da segunda metade do século XIX, vem responder a uma demanda advinda da escassez da mão de obra escravizada e de um aumento populacional e urbano.

O Rio sofre mais uma vez com falta d’água – os mananciais cariocas já não são mais suficientes para dar conta do abastecimento da cidade em franco crescimento, ainda dependente do Maciço da Tijuca como única fonte de abastecimento de água. O governo imperial contrata, então, o engenheiro Antonio Gabrielli (18? -?) para organizar comissões em busca de rios e fontes fora dos limites da cidade, sobretudo aqueles cujas nascentes estavam na serra do Tinguá, em Nova Iguaçu. Assim, entre os anos de 1877 e 1889, foram canalizadas as águas dos rios D’Ouro, Santo Antônio e São Pedro.

 

 

Para auxiliar as obras de canalização da Serra do Tinguá foi construída a ferrovia Rio D’Ouro. Ela percorria, inicialmente, 53 quilômetros entre o Caju e a Baixada Fluminense, mas ao longo dos anos, a estrada de ferro que serpenteava pelos subúrbios cariocas foi ampliada e acrescida de diversos ramais até atingir uma extensão total de mais de 100 quilômetros. O trajeto dos trilhos da Rio D’Ouro transformou a paisagem do seu percurso, condicionando a ocupação dos territórios do entorno e o surgimento de povoados ao longo do seu caminho.

 

 

Todavia, encontramos novamente crise de abastecimento no final do século XIX consequência da seca enfrentada pelos cariocas no início de 1889. Somada à escassez de água, a cidade enfrentava um surto de febre amarela e a crescente insatisfação popular já dava indícios da falência do Império. Em meio a este cenário, o engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933)propôs como solução paliativa a captação provisória das águas da Serra do Tinguá para o reservatório de Pedregulho (Benfica). A ousadia da proposta, no entanto, não se deveu à grandiosidade da empreitada – canalização das águas por 18 km, mas ao tempo estimado para realizá-la: seis dias.

Diante de um problema tão grave e que já se arrastava por anos, a possibilidade de uma resolução tão imediata colocou em xeque a competência do já instável governo imperial. O apoio dos opositores do governo à proposta de Frontin e a repercussão do caso nos jornais fizeram deste um caso emblemático da crise político-social que conduziu o país à Proclamação da República em novembro deste mesmo ano.

Um pouco mais tarde, ao longo da primeira década do século XX, os rios Xerém e Mantiquira também foram domesticados de maneira a complementar o abastecimento da população carioca. Paralelamente à canalização de novos rios, diversas obras foram feitas para otimizar a distribuição e o tratamento as águas, como a construção de caixas de decantação, reservatórios e represas.

 

 

As novas possibilidades de fornecimento de água em domicílio traduziam-se em um maior comprometimento do poder público com a qualidade e armazenamento, o que resultou em novas práticas de controle deste fornecimento, assim como do consumo. É fato que a distribuição de água nas casas cariocas ocorreria de maneira desigual, privilegiando as famílias com maior poder aquisitivo.

Já em 1898 teve início a instalação de hidrômetros, mediante lei do ano anterior que regulamentava a cobrança de taxas. Assim, a distribuição de bicas e penas d’água acabaria por priorizar as freguesias mais abastadas em detrimento das regiões mais densamente povoadas.

 

 

O Museu Histórico Nacional preserva três álbuns com fotografias que documentam a domesticação da água no Rio de Janeiro. Dois deles trazem fotografias de Marc Ferrez. São eles: Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 e Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro. O terceiro álbum apresenta fotografias de autoria desconhecida sob o título Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky em 1923. Vale a pena apreciar essas fotografias.

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Bárbara Primo é historiadora do Instituto Brasileiro de Museus e Maria Isabel Lenzi é historiadora do Museu Histórico Nacional.