A Frente Negra Brasileira

“O preconceito da cor no Brasil só nós os negros podemos sentir”

 Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966)

 

 

Com a publicação de fotografias da Frente Negra Brasileira pertencentes à Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, contamos neste artigo um pouco da história desta associação, fundada em São Paulo, em 16 de setembro de 1931, que foi, depois da Abolição da Escravatura no Brasil, ocorrida há exatos 136 anos, como movimento de massas, a mais importante organização que os negros lograram, segundo Abdias do Nascimento (1914 – 2011), importante voz do ativismo do Movimento Negro no Brasil.

 

“Minhas primeiras experiências de luta foram na Frente Negra Brasileira. Alguns dos dirigentes da FNB desde a década de vinte se esforçavam tentando articular um movimento. Houve, assim, um projeto de reunir o Congresso da Mocidade Negra, em 1928, em São Paulo, o que não chegou a se concretizar. Somente em 1938 eu e outros cinco jovens negros realizamos o I Congresso Afro-Campineiro e, em 1950, o Teatro Experimental do Negro promoveu o I Congresso do Negro Brasileiro, no Rio de Janeiro.

As pessoas e as idéias já vinham de antes, mas foi nos inícios dos anos trinta que o movimento se institucionalizou na forma da Frente Negra Brasileira. Entre seus fundadores estavam Arlindo Veiga dos Santos e José Correia Leite e, como movimento de massas, foi a mais importante organização que os negros lograram após a abolição da escravatura em 1888.

A Frente fazia protestos contra a discriminação racial e de cor em lugares públicos… sob a perspectiva de integrar os negros na sociedade nacional. Dessa forma combatia a FNB os hotéis, bares, barbeiros, clubes, guarda-civil, departamentos de polícia, etc. que vetavam a entrada ao negro, o que lembrava muito o movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos.

Uma perspectiva que eu hoje critico. Minhas lembranças não são muito seguras, mas acho que o movimento ia além das reivindicações citadas. Eu não podia me envolver profundamente na ação, pois estava servindo o exército, cujo regulamento disciplinar proibia qualquer participação em atividades sociais e políticas. Assim minha participação era mais simbólica e espiritual.

Mas me lembro de O Clarim da Alvorada, o jornal que transcrevia notícias e artigos do movimento que Marcus Garvey, o grande negro jamaicano, desencadeara nos Estados Unidos sob o lema da Volta à África. Apesar da barreira da língua, da pobreza dos meios de comunicação, a FNB permanecia alerta a todos os gestos emancipacionistas acontecidos em outros países.

Foi uma vanguarda com o objetivo de preparar o negro para assumir uma posição política e econômica na representação do povo brasileiro ao Congresso Nacional. E o movimento se espalhou de São Paulo para outros Estados com significativa população negra: Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão… O chamado Estado Novo ou a ditadura de Getúlio Vargas, instaurada em 1937, fechou a FNB juntamente com todos os partidos políticos então existentes.

A Frente, como qualquer outra instituição de massas, teve seus problemas internos de orientação e liderança, o que aliás é um bom índice da sua vitalidade. O dirigente Arlindo Veiga dos Santos se achava ligado ao Movimento Patrianovista, de orientação de direita, enquanto José Correia Leite se filiava ao pensamento socialista. Tal polarização levaria inevitavelmente ao fracionamento que ocorreu. Entretanto, não creio que o fato teve qualquer ligação ou influência com o Partido Comunista”.

 

Abdias do Nascimento em Memórias do Exílio (1976)

 

 

Acessando o link para as fotografias da Frente Negra Brasileira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Por cerca de 350 anos, o Brasil – destino de cerca de 4,5 milhões de escravizados africanos – foi o maior território escravagista do Ocidente, mantendo este sistema tanto no campo como na cidade. O lugar de trabalho era o lugar do escravizado. A escravidão foi abolida, em 13 de maio de 1888, após seis dias de votações e debates no Congresso, quando a princesa Isabel (1846 – 1921) assinou a Lei Áurea, que decretava a libertação dos escravizados no país (O Paiz, 14 de maio de 1888 e A Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888).

 

“A escravidão foi o processo mais violento, mais cruel, mas mais eficiente de obter, conservar, preservar e explorar o trabalho alheio. Ele não via em quem ele escravizava um semelhante, mas via um adversário e um ser inferior a ele.”

Alberto da Costa e Silva, diplomata, escritor e africanólogo

 

 

O propósito fundamental da Frente Negra Brasileira era discutir a questão do racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”.  Teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Segundo uma nota escrita por Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966), então secretário-geral da associação, em 1932, a FNB tinha 45 mil associados (A Gazeta, 16 de julho de 1932, segunda coluna). No site do ,IpeAfro, fala-se em cerca de 100 mil associados (Site IpeAfro).

Sob a liderança de Arlindo Veiga dos Santos (1902 – 1978), José Correia Leite (1909 – 1989), Aristides Barbosa (1920 -?) e Francisco Lucrécio (1909 – 2001), dentre outros, a FNB desenvolvia diversas atividades de caráter cultural, educacional, político e social para os seus associados. Promovia bailes, cursos de alfabetização, festas, festivais musicais e literários, oficinas de costuras, palestras e seminários.

Foi presidida por Arlindo Veiga dos Santos até 1934. Ele foi sucedido por Justiniano Costa, que ocupou o cargo até a extinção da FNB, em 1937.

Inicialmente, a sede da associação ficava em uma sala do Palacete Santa Helena, mas em março de 1932, cerca de seis meses após sua fundação, devido ao crescimento do número de filiados, mudou-se para a Rua da Liberdade, n° 196.

 

“A Frente Negra Brasileira foi a primeira organização no país a falar que o então chamado ‘preconceito de cor’ era um problema nacional e estrutural. Hoje isso é consenso, mas nos anos 1930 não era”.

Petrônio Domingues, historiador e

autor de livros sobre questões raciais, como Protagonismo Negro em São Paulo

 

A FNB se organizou, em 1935, como partido político. Foi o primeiro e único partido negro da história do país, mas não participou de nenhuma eleição. Em novembro de 1937, o Estado Novo do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) fechou todos as associações e partidos políticos. A Frente Negra Brasileira, declarada ilegal, foi dissolvida.

 

 

 

A Frente Negra Brasileira – Breve cronologia de 1931 a 1938

 

 

1931

 

No salão da Associação das Classes Laboriosas, em São Paulo, fundação, em 16 de setembro de 1931, da Frente Negra Brasileira, sob a presidência de Arlindo da Veiga Santos (1902 – 1978), que dirigiu os trabalhos da assembleia. Estavam presentes: Alfredo Eugenio da Silva, Ari Cananéa da Silva, Cantidio Alexandre, Constantino Nóbrega, David Soares, Francisco Costa Santos, Gervásio de Moraes, Horácio Arruda, Isaltino Veiga dos Santos, João Francisco de Araújo, Jorge Rafael, José Benedito Ferraz, Justiniano Costa, Leopoldo de Oliveira, Lindolfo Claudino, Messias Marques do Nascimento, Olavo Luciano Nardy, Oscar de Barros Leite, Raul de Moraes, Raul Joviano do Amaral (1914 – 1988), Roque Antonio dos Santos e Vitor de Sousa. Durante a fundação, falaram o professor Christiano Brasil e Alberto Orlando. Adalgisa Correa Lobo leu uma mensagem às mulheres negras brasileiras (Diário Nacional, 17 de setembro de 1931, última colunaDiário da Noite, 18 de setembro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 30 de setembro de 1931, terceira coluna).

 

 

 

Em outubro, foi anunciado que sua primeira sede havia sido instalada na sala 127 do primeiro andar do Palacete Santa Helena, localizado na Praça da Sé, e projetado pelos arquitetos italianos Giacomo Corberi e Giuseppe Sacchetti (1874 – 1955), em 1925. O edifício foi demolido em 1971 (Diário Nacional, 5 de outubro de 1931, segunda coluna).

 

 

Realização da primeira reunião do Grande Conselho da Frente Negra Brasileira quando o conselho diretor da associação tomou posse sob a presidência de Arlindo da Veiga Santos. O secretário da FNB era Isaltino Veiga dos Santos, irmão de Arlindo (Jornal do Brasil, 16 de outubro de 1931, última colunaDiário Nacional, 18 de outubro de 1931, segunda coluna).

Realização da quarta e última reunião de arregimentação da Frente Negra Brasileira que iniciaria agora sua ação (Diário Nacional, 20 de outubro de 1931, primeira coluna).

Em uma reunião da FNB, inauguração do Minuto Literário em homenagem a Ventura da Silva, autor do livro O Encarcerado. Houve também a apresentação da orquestra do professor João de Deus Conegundes, que executou várias peças, dentre elas o Hino da Gente Negra Brasileira e a marcha Palmares (Diário Nacional, 15 de novembro de 1931, terceira coluna).

A FNB fez um comunicado à imprensa protestando contra o ato racista de proprietários de rinks de patinação, proibindo a entrada de negros em seus estabelecimentos (Jornal do Brasil, 8 de dezembro de 1931, quinta coluna).

O interventor de São Paulo, Manuel Rabelo (1873 – 1945), enviou um telegrama à Frente Negra Brasileira prestando solidariedade à associação (Jornal do Brasil, 22 de dezembro de 1931, penúltima coluna).

José Correia Leite (1900 – 1989), um dos fundadores da FNB, rompeu com a entidade devido a conflitos políticos e ideológicos.

“Em 23 de dezembro de 1931, ele enviou uma carta aos membros do Conselho daquela entidade solicitando seu desligamento do colegiado. Nesse documento, Correia Leite apontava como causa do pedido de afastamento sua “incompatibilidade com o personalismo, clericalismo”, monarquismo e posições políticas “ultranacionalistas” do presidente da FNB. Além disso, esse dissidente fazia questão de declarar que condenava a monarquia, a religião cristã e a “república aristocrática”, tendo como sonho a construção do “socialismo democrático”. Apesar de sua defecção do cargo de direção, Leite escrevia que ainda se dispunha a continuar nas “fileiras” da organização como “soldado” (DOMINGUES, 2004).

Passou a fazer oposição à FNB, tendo fundado o Clube Negro de Cultura Social, idealizado com José de Assis Barbosa Leite. Em 6 de janeiro de 1924, juntamente com Jayme de Aguiar, Correia Leite havia fundado o Clarim, jornal renomeado como O Clarim da Alvorada, publicado até 13 de maio de 1932. Houve uma edição em 1940 (Clarim da Alvorada, 28 de setembro de 1940). Este jornal foi fundamental para fortalecer o incipiente movimento da cultura negra no Brasil e também para a formação da Frente Negra Brasileira.

 

 

 

1932

 

Isaltino Veiga dos Santos enviou ao interventor de São Paulo, coronel Manuel Rabelo (1878 – 1945), um ofício em nome da Frente Negra Brasileira protestando contra o não cumprimento do decreto que se refere à preferência que devem merecer em todas as colocações os brasileiros natos (Diário Nacional, 8 de janeiro de 1932, última coluna).

A FNB promoveu uma reunião durante a qual o poeta e escritor Joaquim Dutra da Silva proferiu a palestra Educação. Também foi realizada a apresentação da orquestra do professor João de Deus Conegundes*. Foram convidados para o evento o interventor de São Paulo, coronel Manuel Rabelo (1878 – 1945) e o chefe da Polícia, Oswaldo Cordeiro de Farias (1901 – 181), além da imprensa (Diário Nacional, 10 de janeiro de 1932, segunda coluna).

Houve um desentendimento entre Augusto Euzébio Oliveira e a direção da Frente Negra Brasileira (Diário Nacional23 de janeiro de 1932, quarta coluna; 24 de janeiro de 1932, quarta coluna).

Publicação do poema Preconceito, de Deocleciano Nascimento (? – 1967), dedicado à Frente Negra Brasileira (O Malho, 6 de fevereiro de 1932).

 

 

 

Na coluna “Actualidades”, a Frente Negra Brasileira foi criticada por inventar um problema: o conflito de raças (Diário Nacional, 13 de fevereiro de 1932, segunda coluna).

Publicação de um artigo sobre a história da FNB, suas delegações e estatuto (Correio da Manhã, 13 de fevereiro de 1932, quinta coluna)

Duas delegações da Frente Negra Brasileira foram instaladas no Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 16 de fevereiro de 1932, primeira colunaJornal do Brasil, 23 de fevereiro de 1932, antepenúltima coluna).

Publicação de um artigo de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993) contra a Frente Negra Brasileira (Diário da Noite, 25 de fevereiro de 1932, primeira coluna).

A sede da FNB foi transferida do Palacete Santa Helena para a Rua da Liberdade, 196 (Diário Nacional, 4 de março de 1932, sexta coluna).

 

 

A redação do jornal Chibata, que fazia várias críticas à FNB, foi empastelado. Suspeitou-se que a ação tivesse sido feita por filiados à associação (Diário Nacional, 20 de março de 1932, terceira coluna).

A Frente Negra Brasileira aderiu ao Club 3 de Outubro, organização política fundada, no Rio de Janeiro, em 1931, por pessoas vinculadas ao movimento tenentista, em apoio ao Governo Provisório de Getúlio Vargas (Jornal do Commercio, 30 de março de 1932, quinta coluna).

Estavam abertas na sede da FNB a matrícula para o Tiro de Guerra. Já estavam em funcionamento o consultório dentário e o salão de barbeiro (Diário Nacional, 7 de abril de 1932, penúltima coluna).

A FNB promoveu um festival artístico com a representação da comédia Contra-Veneno, de Isaltino Veiga dos Santos, e com a apresentação da palestra O negro e o momento pelo advogado baiano Joaquim Guaraná de Santana. A renda do evento seria revertida para o Departamento de Educação Frentenegrino (Diário Nacional, 20 de abril de 1932, penúltima coluna).

Estavam abertas as matrículas para os cursos primário, ginasial e técnico da escola fundada pela Frente Negra Brasileira (Diário Nacional, 6 de maio de 1932, quinta coluna).

A FNB inaugurou uma sub sede em Barra Funda e também o Departamento de Arte Culinária. Posteriomente, passaram a funcionar na sub sede os departamentos de comércio, desenho, mecânicos, motoristas, pedreiros e de pintura (Diário Nacional, 10 de maio de 1932, terceira colunaDiário Nacional, 24 de maio de 1932, primeira coluna).

Para marcar o dia 13 de maio, a Frente Negra Brasileira promoveu a realização de uma missa na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e uma passeata. Quando chegaram ao Largo do Arouche, onde fica a herma do advogado Luis Gama (1830 – 1882) – concebida por Yolando Mallozzi e inaugurada em 1931 -, foi feita uma parada e o presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, e o orador Vicente Ferreira (? – 1934) fizeram discursos em homenagem ao grande patrono da raça. A campanha pela construção da herma de Luis Gama foi  liderada pelo jornal Progresso, representante da imprensa negra.

 

 

O préstito seguiu para o Cemitério da Consolação onde o túmulo de Luiz Gama e de outros abolicionistas foram visitados. À noite, na sede da FNB, foi inaugurado um retrato do jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853 – 1905), de autoria de Olavo Xavier (Diário Nacional, 14 de maio de 1932).

 

 

A Frente Negra Brasileira promoveu um jogo de futebol entre os selecionados “preto” e “branco”, no campo do São Paulo Futebol Clube (Diário Nacional, 26 de maio de 1932, sexta colunaCorreio Paulistano, 28 de novembro de 1934, última coluna).

Foi anunciada a comemoração pelo primeiro ano da fundação da FNB, que ocorreria em sua sede em 16 de setembro (Correio de S. Paulo, 29 de junho de 1932, quinta colunaDiário Nacional, 29 de junho de 1932, segunda coluna).

Nos salões da Lega Lombarda, sociedade italiana fundada em São Paulo, em 1897, realização de um festival de artes promovido pela FNB, em 7 de julho, no Largo São Paulo, n° 18 (Correio de S. Paulo, 4 de julho de 1932, quinta coluna).

A Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado liderado por São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas e pela defesa de uma nova Constituição para o Brasileclodiu em 9 de julho. A Frente Negra Brasileira, que sempre apoiou Getúlio mas tinha sua sede em São Paulo, divulgou uma nota pública se dizendo neutra no conflito.

A Frente Negra Brasileira, União Político-Social da Raça, com a finalidade dupla de lutar pela grandeza da Pátria unida e de trabalhar, sem esmorecimento, pelo alevantamento moral e intelectual do negro no Brasil, pela primeira vez, depois do movimento armado, que se acha de pé e em cuja vanguarda se encontra o grande Estado de São Paulo, […] declara que todos os Frentenegrinos, residentes nesta Capital, no Interior do Estado; já foram cientificados de que a sua liberdade de pensar e agir não está, absolutamente, sujeita a quaisquer imposições da Frente Negra Brasileira, neste momento, mesmo porque não tem ela a mínima ligação com este ou aquele partido político, seja de civis ou militares, estando, porém, sempre solidária com as grandes causas, que venham ao encontro das aspirações nacionais.

A Gazeta, 16 de julho de 1932

 

Parte dos militantes ficou indignada com a posição, rompeu com a FNB e formou a chamada Legião Negra, em 14 de julho. A nova entidade era liderada pelo advogado baiano Joaquim Guaraná Santana e pelo capitão Gastão Goulart. Foi lançada uma “Proclamação a todos os negros do Brasil”. Estima-se que a Legião Negra tenha enviado cerca de 2 mil homens  à guerra. Ficaram conhecidos como os Pérolas Negras. O conflito terminou, em 2 de outubro de 1932, com a rendição do Exército Constitucionalista (A Gazeta, 23 de julho de 1932).

Arlindo Veiga dos Santos, presidente da FNB, os cabos Isaltino Veiga dos Santos e Mario Silva Junior; e o conselheiro Inacio Braga participaram do Congresso Revolucionário, no Rio de Janeiro, promovido pela Legião Cívica 5 de julho. Durante o evento, a Frente Negra Brasileira foi acusada de ter ligações com a Ação Integralista Brasileira e com a Ação Patrianovista. Isaltino Veiga dos Santos afirmou que a FNB tinha aliança unicamente com o Clube 3 de Outubro  (Correio de S. Paulo, 15 de novembro de 1932, quarta colunaO Radical, 15 de novembro de 1932O Radical, de 15 novembro de 1932, quinta coluna; O Radical, 22 de novembro de 1932, quinta coluna).

 

 

 

Isaltino Veiga dos Santos, secretário-geral da FNB,  enviou ao interventor de São Paulo, Waldomiro Lima (1873 – 1938), e ao presidente do Brasil, Getúlio Vargas (1882 – 1954), cartas explicando o posicionamento da Frente Negra Brasileira em relação à Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo (O Radical, 25 de outubro de 1932O Radical, 18 de novembro de 1932, primeira coluna).

Isaltino enviou também uma mensagem aos operários associando-se ao movimento de solidariedade trabalhista ao Governo Provisório (O Radical, 29 de outubro de 1932, terceira coluna).

Publicação de uma entrevista com Sebastião Schiffini, delegado da FNB e futuro diretor da Frente Negra Brasileira Socialista, fundada em março do ano seguinte (O Radical, 31 de outubro de 1932, terceira coluna).

Publicação de uma entrevista com Arlindo Veiga dos Santos, presidente da FNB, onde ele explica os pontos de vista da Frente Negra Brasileira de S. Paulo em face do atual momento nacional  (A Batalha, 12 de dezembro de 1932, antepenúltima coluna).

 

 

Foi anunciada a realização de uma parada cívica promovida pela FNB em 1°de janeiro de 1933 (Correio de S. Paulo, 24 de dezembro de 1932, terceira coluna).

Atendendo a um pedido da Frente Negra Brasileira, o coronel Waldomiro Lima (1873- 1938), interventor em São Paulo, admitiu na Guarda Civil  50 homens filiados à agremiação (O Radical, 26 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

 

1933

 

A FNB se pronunciou sobre um caso de racismo ocorrido no Rio de Janeiro. O acadêmico, sibarita deflorador João Abrão havia sido absolvido, atendendo à razão absurda de ser a vítima negra e humilde (Correio de S. Paulo, 16 de janeiro de 1933, terceira coluna).

Filena Veiga dos Santos, esposa de Isaltino Veiga dos Santos, enviou uma mensagem de agradecimento à primeira-dama Darci Vargas (1895 – 1968) em nome das mulheres da Gente Negra de São Paulo. Foi mencionado que Isaltino havia sido recebido por Getúlio Vargas no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, e que ele teria atendido às reivindicações feitas por Isaltino em relação ao favorecimento de estrangeiros em detrimento da população negra (Diário de Notícias, 9 de fevereiro de 1933, quinta coluna).

Em 10 de fevereiro, falecimento de Francisco Costa Santos (? – 1933), um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna).

Foi noticiado o apoio da FNB à Ação Integralista Brasileira na disputa das eleições constituintes (Correio de S. Paulo, 14 de fevereiro de 1933, última coluna).

“O integralismo tinha um apelo por conta de sua narrativa de inclusão da população negra. Essas ideologias estavam circulando por aqui e influenciando diversos grupos”, explicou o cientista social Márcio Macedo, coordenador de diversidade da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em entrevista recente à BBC News Brasil.

“Uma ideia que nasce com os integralistas, e que foi cara à FNB, era o conceito de segunda abolição. Isso significa que a abolição da escravatura não havia sido completa, porque não se pensou em políticas de integração e de auxílio à população que fora liberta. Seria necessária uma segunda abolição para que essas medidas fossem implementadas.”

Site da BBC, 13 de junho de 2020

 

Foi publicada uma entrevista com Isaltino Veiga dos Santos, secretário-geral da FNB, sobre o posicionamento político e também sobre o funcionamento do posto de alistamento eleitoral na sede da Frente Negra Brasileira, referida na reportagem como uma das mais perfeitas organizações sociais aparecidas nestes últimos tempos (Correio de S. Paulo, 17 de fevereiro de 1933, primeira coluna).

 

 

Foi anunciada a criação do Liceu Palmares, sob a direção de Arlindo Veiga dos Santos destinado a desenvolver a cultura intelectual dos nossos patrícios. O Liceu Palmares aceita alunos, mesmo que não sejam sócios da FNB, assim como brancos, brasileiros ou não. O nome do instituto de ensino foi proposto por Isaltino Veiga dos Santos (Correio de S. Paulo, 7 de março de 1933, terceira colunaA Voz da Raça, 25 de março de 1933, terceira coluna).).

Publicação da primeira edição do jornal A Voz da Raça, em 18 de março de 1933, semanário órgão oficial da Frente Negra Brasileira. O redator era Deocleciano Nascimento (? – 1967); seu secretário, Pedro Paulo Barbosa e A. de Campos era o gerente. Na edição foi publicada o quadro demonstrativo de receitas e despesas da FNB, de outubro de 1931 a setembro de 1932. Na época, Justiniano Costa era o tesoureiro e Deocleciano Nascimento, o guarda-livros da associação (A Voz da Raça, 18 de março de 1933).

 

 

A Secretaria Geral da FNB informava que em sua sede estava em funcionamento a Escola de Alfabetização para ministrar instrução aos negros de ambos os sexos; o departamento de musical, de costura e de alistamento eleitoral (A Voz da Raça, 25 de março de 1933, última colunaA Voz da Raça, 25 de março de 1933, terceira coluna).

 

 

Arlindo Veiga dos Santos comentou sobre a alegação de que a FNB teria um objetivo puramente monárquico. Arlindo havia sido o fundador, em 1932, da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, que pregava o retorno dos moldes monárquicos e a valorização do catolicismo (A Voz da Raça, 1º de abril de 1933, terceira coluna).

 

 

Deocleciano Nascimento (? – 1967), que foi o criador do jornal O Menelik, em 1915, fez uma doação de livros, na maioria clássicos nas línguas francesa, inglesa e portuguesa, para a Biblioteca da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, última coluna).

A FNB publicou um chamado ao Patrício Negro (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, quarta coluna).

 

 

Foram publicadas informações sobre a Caixa Beneficente da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação de um protesto dos Frentenegrinos contra ingratos que eram opositores da direção dos irmãos Veiga dos Santos e de outros diretores à frente da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933)

Em um artigo de Henrique Dias, a fundação da FNB é citada como uma iniciativa poderosa para a construção do Brasil-Nação. A FNB é uma pequena mostra de brasilidade, de patriotismo! De novo, foi publicado um protesto dos Frentenegrinos contra ingratos que eram opositores da direção dos irmãos Veiga dos Santos e de outros diretores à frente da FNB (A Voz da Raça, 15 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação dos estatutos da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 15 de abril de 1933, primeira coluna).

O Partido Socialista Brasileiro de São Paulo apresentou franca solidariedade à Ala Socialista da Frente Negra Brasileira (Correio de S. Paulo, 20 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação do artigo A União faz a Força, de José Bueno Feliciano, sobre as divergências de grupos dentro da FNB (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, terceira coluna).

Foi publicado que no carnaval de 1933 a FNB havia oferecido a Taça Arthur Friedenreiche aos Cordões Carnavalescos das Gente Negra Paulista (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, quarta coluna).

Publicação de uma reportagem sobre o livro Canto da Raça Negra, de Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966), um dos fundadores da FNB (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, quarta coluna).

O presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, lançou-se candidato avulso à Constituinte. Resumiu seu programa com as seguintes palavras: a Terra, o Sangue, o Trabalho, o Espírito (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933Correio de S. Paulo, 1º de maio de 1933Correio de S. Paulo, 2 de maio de 1933, primeira coluna).

 

 

 

Publicação da cópia do registro da Fundação Negra Brasileira (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933, penúltima coluna).

Foi mencionada no artigo Milicianos de Fé, de Olavo Xavier, a criação de uma milícia da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933, penúltima coluna).

A FNB celebrou com diversos eventos o 13 de maio, um deles foi a promoção de um festival literário e musical no Cine no Theatro Roma, com a apresentação do espetáculo Marietta, a heroína, em 6 de maio (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1933, quinta coluna; A Voz da Raça, 20 de maio de 1933, segunda coluna).

A vitória moral do candidato Arlindo Veiga dos Santos à eleição constituinte foi celebrada na primeira página de A Voz da Raça de 6 de maio de 1933.

 

 

Publicação do artigo A espiritualidade Frentenegrina, de João B. Mariano (A Voz da Raça, 6 de maio de 1933).

Publicação do artigo Liberdade Utópica, de Isaltino Veiga dos Santos, identificado como o Gandhi brasileiro,  onde a FNB é citada (A Voz da Raça, 13 de maio de 1933).

 

 

Foi noticiado que a FNB tinha um corpo cênico (A Voz da Raça, 3 de junho de 1933, última coluna).

Na sede da Frente Negra Brasileira funcionavam uma seção de proteção jurídico-social, curso de alfabetização, caixa beneficente, clínica dentária, barbearia, cabeleireiro, departamento teatral, musical e festivo, oficina de costura, sessões instrutivas de educação moral e cívica, domingueiras, etc (A Voz da Raça, 10 de junho de 1933, penúltima coluna)

Foi publicado um chamado para a Milícia Frentenegrina (A Voz da Raça, 17 de junho de 1933)

 

 

No artigo A vitória do negro está no livro, João B. Mariano afirmou que para a vitória final da raça negra no Brasil duas coisas são indispensáveis  O LIVRO e a UNIÃO (A Voz da Raça, 17 de junho de 1933, última coluna).

A Frente Negra Brasileira Socialista, formada por dissidentes da FNB, realizou, em 26 de junho, eleições para seu diretório e conselho fiscal, na sede do Partido Socialista Brasileiro de São Paulo. Manoel dos Passos era o presidente da FNBS (A Noite, 2 de junho de 1933, primeira colunaCorreio de S. Paulo, 26 de junho de 1933, penúltima colunaCorreio de S. Paulo, 5 de julho de 1933, terceira coluna).

Foi denunciado que pessoas da Frente Negra Brasileira Socialista, ao realizar cobranças, diziam que a citada entidade era filiada à Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 1° de julho de 1933, segunda coluna).

Mais uma vez, publicação de artigos, abordando divergências na Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 15 de julho de 1933, primeira coluna2 de setembro de 1933).

O comitê organizador da Associação de Ex-Combatentes de São Paulo enviou um ofício à Frente Negra Brasileira prestando uma homenagem à raça preta, salientando o papel importante que ela sempre ocupou nos grandes feitos da nacionalidade, inclusive no movimento paulista de 1932 (Correio de S. Paulo, 21 de julho de 1933, terceira coluna).

A Frente Negra Brasileira iniciou uma campanha para a compra de uma sede própria (A Voz da Raça, 28 de outubro de 1933).

Em 18 de novembro, no Salão da Lega Lombarda, no Largo São Paulo, 14, apresentação de um grupo sertanejo com acompanhamento de cavacos e de violões organizado pelo Corpo Cênico da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 11 de novembro de 1933).

A FNB enviou ao presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) um protesto contra a contínua entrada de imigrantes estrangeiros quando nada se faz para melhorar a situação da infinidade de negros desempregados (Correio de S.  Paulo, 25 de dezembro de 1933, terceira coluna).

 

1934

 

A Frente Negra Brasileira realizou a Grande Reunião de Unificação da Raça, em sua sede paulistana (Correio de S. Paulo, 1º de janeiro de 1934, segunda coluna).

A Frente Negra Brasileira desmentiu que houvesse enviado um representante ao Congresso do Partido Socialista. Publicação no jornal A Voz da Raça de um artigo sobre a Frente Negra Brasileira Socialista (Correio de S. Paulo, 12 de janeiro de 1934, terceira coluna; A Voz da Raça, 20 de janeiro de 1934, primeira colunaA Voz da Raça, 20 de janeiro de 1934, primeira coluna).

O primeiro ano de existência do jornal A Voz da Raça foi comemorado com um Festival Lítero-Dramático-Dançante, na Lega Lombarda. Amadores do Corpo Cênico da Frente Negra Brasileira participaram do evento (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934).

A Frente Negra Brasileira estava empenhada em construir uma casa própria: a Casa do Negro (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934, primeira coluna).

O conselheiro da FNB, Roque Antonio dos Santos, foi nomeado Comissário dos Cabos da Associação substituindo Mario da Silva Junior, que passou a ser Visitador das Delegações (Correio de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1934, última coluna). 

Em 7 de abril, realização de um Grande Festival Dançante, na Lega Lombarda, para a entrega das Taças e Medalhas para os Cordões Carnavalescos Negros do Concurso da Frente Negra Brasileira no Carnaval de 1934 (A Voz da Raça, 31 de março de 1934, primeira coluna).

O curso de alfabetização da FNB contava com cerca de 70 alunos frequentes (Correio de S. Paulo, 22 de maio de 1934, primeira coluna).

Arlindo Veiga dos Santos deixou a presidência da Frente Negra Brasileira e passou a integrar o Grande Conselho Frentenegrino com o cargo de consultor jurídico. Justiniano Costa assumiu a presidência e Francisco Lucrécio (1909 – 2001) tornou-se  primeiro secretário. Justiniano havia sido o primeiro tesoureiro da FNB e pertencia à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Era também funcionário público. Lucrécio havia migrado de Campinas para São Paulo para cursar a Escola Livre de Odontologia, em 1931. Foi morar com seus tios que eram ligados à FNB e logo começou a participar da entidade, tornando-se uma de suas lideranças (Correio Paulistano, 3 de julho de 1934, última coluna; Correio Paulistano, 4 de dezembro de 1934, última coluna).

 

 

Anúncio do funcionamento de um posto de alistamento eleitoral na sede da Frente Negra Brasileira (Correio de S. Paulo, 6 de julho de 1934, quinta coluna).

A FNB promoveu um festival dramático dançante com a apresentação pelo Grupo Rosas Negras do esquete Quasi Tragédia e da comédia Almas do outro mundo, e com a realização de um baile (Correio de S. Paulo, 11 de julho de 1934, quarta coluna).

 

 

A Frente Negra Brasileira protestou contra mais um caso de racismo: uma moça negra de 22 anos havia sido laçada em uma rua de São Paulo por um jovem branco da mesma idade que passava em um caminhão. Ela foi arrastada pelos paralelepípedos, perdendo os sentidos (Correio de S. Paulo, 11 de agosto de 1934, sexta coluna).

 

 

Realização na sede da FNB de uma festa de Natal das Crianças (Correio de S. Paulo, 22 de dezembro de 1934, quarta coluna)

 

1935

 

O Grupo das “Rosas Negras”, o Departamento de Festas da FBN, realizou nos salões da Lega Lombarda, em 3, 4 e 5 de março, bailes de carnaval, cuja renda foi revertida para as Escola Frentenegrinas (Correio Paulistano, 24 de fevereiro de 1935, penúltima colunaCorreio Paulistano, 2 de março de 1935, terceira coluna).

O Grande Conselho da Frente Negra Brasileira, presidido por Justiniano Costa, enviou ao presidente da Câmara de Deputados uma representação no sentido de tornar o dia 13 de maio, data da Abolição da Escravatura no Brasil,  feriado nacional (Correio de S. Paulo, 8 de maio de 1935, terceira coluna).

Comemoração, na sede da FNB, do dia 13 de maio, com a realização de palestras e de apresentação de números musicais e literários (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1935, segunda coluna).

Foi anunciada a inauguração do Departamento de Música, n FNB, sob a direção de Maurício P. de Queiroz. O Departamento da Cruz Feminina foi elogiado (Correio Paulistano, 21 de julho, quinta coluna).

Publicação de uma entrevista com Antônio Francisco Napoleão, delegado da FNB no Rio de Janeiro (Diário da Noite, 5 de setembro de 1935, primeira coluna).

 

 

A Companhia Miramar, de teatro, comemorando 150 apresentações consecutivas no Teatro Colombo, encenou a comédia Mãe Preta, de Paulo de Magalhães (1900 – 1972), em homenagem à Frente Negra Brasileira (Correio Paulistano, 10 de setembro de 1935, última coluna).

A Frente Negra Brasileira foi inscrita como partido politico de caráter nacional pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (A Noite, 11 de setembro de 1935, quarta coluna).

A FNB comemorou os quatro anos de sua fundação nos dias 21 e 22 de setembro. No Salão Lyra, na rua São Joaquim, 329, Arlindo Veiga dos Santos fez o discurso oficial, seguido da leitura de uma mensagem e da apresentação dos delegados da associação (Correio de S. Paulo, 17 de setembro de 1935, quinta coluna).

 

 

O major José da Silva, comandante da Guarda Civil, contestou a acusação feita por um diretor da FNB de que ele perseguia elementos da raça negra dentro da referida corporação (Jornal do Commercio, 16 e 17 de setembro de 1935, terceira coluna).

 

1936

 

Foi realizada uma quermesse em prol da Frente Negra Brasileira, no Largo do Mercado (Correio Paulistano, 9 de janeiro de 1936, última coluna).

Publicação dos eventos promovidos pela FNB para celebrar o 13 de maio (Correio Paulistano, 10 de maio de 1936, última coluna).

Comemoração dos 5 anos da fundação da Frente Negra Brasileira com a realização de diversos eventos, nos dias 19 e 20 de setembro (Correio Paulistano, 22 de setembro de 1936).

 

 

1937

 

A FNB prestou solidariedade ao então Ministro do Trabalho e interino da Justiça, Agamenon Magalhães (1892 – 1952) (A Noite, 25 de janeiro de 1937, terceira coluna).

Justiniano Costa, em nome da diretoria da FNB, prestou condolências na ocasião da morte do conde Francisco Matarazzo (1854 – 1937) (Correio Paulistano, 14 de fevereiro de 1937, antepenúltima coluna).

A FNB foi uma das associações promotoras de uma sessão cívica em homenagem aos 90 anos do nascimento do poeta baiano Castro Alves (1847 – 1871), em 14 de março, no Teatro Municipal de São Paulo  (Correio de S. Paulo, 13 de março de 1937, quinta coluna).

A FNB participou de uma homenagem à memória de Tiradentes (1746 – 1792) (Correio de S. Paulo, 13 de abril de 1937, quarta coluna).

Publicação do artigo O dever do negro, de João Cândido (1880 – 1969) na edição de abril de A Voz da Raça.

Justiniano Costa, por sua atuação como presidente da FNB, foi homenageado com um almoço na Gruta Baiana, em 21 de abril (Correio de S. Paulo, 22 de abril de 1937, quinta coluna; edição de abril de A Voz da Raça).

A FBN promoveu uma série de eventos comemorativos do 13 de maio (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1937, terceira colunaCorreio Paulistano, 14 de maio de 1937, penúltima colunaCorreio Paulistano, 15 de maio de 1937, quarta coluna).

A cantora e estrela da ópera, a norte-americana Marian Anderson (1897 – 1993), foi homenageada pela Frente Negra Brasileira e visitou a sede da associação (A Voz da Raça, junho de 1937Correio Paulistano, 23 de junho de 1937,última coluna).

 

 

A FNB prestou uma homenagem ao poeta Ciro Costa (1879 – 1937) (A Voz da Raça, julho de 1937).

Publicação de um pequeno artigo sobre o sucesso do Conjunto de Músicas Regionais da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, julho de 1937).

A Frente Negra Brasileira aderiu ao Partido Republicano Brasileiro (Correio Paulistano, 25 de julho de 1937, primeira coluna).

A Frente Negra Brasileira estava organizando um grande congresso em São Paulo que seria realizado em outubro. Seriam discutidos os problemas econômicos, sociais e culturais da raça negra. Em setembro, seria realizado um congresso político, quando a associação se definiria quanto à sucessão presidencial (A Voz da Raça, agosto de 1937, segunda coluna).

Luiz Costa era o delegado da FNB no Rio de Janeiro (A Noite, 25 de agosto de 1937, quinta coluna).

 

 

Publicação da programação das festividades do sexto ano da fundação da FNB (Correio Paulistano, 15 de setembro de 1937, segunda coluna; A Voz da Raça, 16 de setembro de 1937).

 

 

A Frente Negra Brasileira apoiava a candidatura de Jose Américo de Almeida (1887 – 1980), pré-candidato à Presidência da República (Correio Paulistano, 23 de outubro de 1937, quinta coluna)

Em 10 de novembro de 1937, decretação pelo presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) do Estado Novo que fechou, pouco depois, todos as associações e partidos políticos (Correio da Manhã, 11 de novembro de 1937).

A Frente Negra Brasileira participou das comemorações do Dia da Bandeira (Correio Paulistano, 18 de novembro de 1937, última coluna).

Em novembro, publicação da última edição de A Voz da Raça.

A Frente Negra Brasileira, assim como todos as associações e partidos políticos, foi dissolvida (Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 1937, sexta coluna).

 

1938

 

A Frente Negra Brasileira, que havia sobrevivido com o nome União Negra Brasileira,  sob a a presidência do advogado, historiador e jornalista Raul Joviano do Amaral (1914 – 1988), foi extinta em maio de 1938.

 

“Nós, da velha militância, estamos transferindo à mocidade inteligente, culta, laboriosa de hoje, o lábaro que a imprensa negra elevou bem
alto. Mas não só a imprensa negra, a imprensa branca também precisa colaborar porquê, se nós procuramos a confraternização em termos de
respeito, de compreensão, de amor, não só o negro precisa trabalhar em favor dessa compreensão, mas a sociedade brasileira precisa ter
presente que o negro na atualidade, como anteriormente, sempre se esforçou para conquistar o seu espaço; sempre lhe foi negada essa
oportunidade e agora o negro, mais adiantado, mais evoluído, mais coerente, mais consciente das suas necessidades, pode, deve, sem
paternalismo, sem tutela, alcançar esse lugar, conquistando-o”.

Raul Joviano do Amaral, programa da TV Cultura, em 1984

 

Assista aqui o programa CULTNE – Frente Negra Brasileira – 1985 – Parte 1CULTNE – Frente Negra Brasileira – 1985 – Parte 2 e CULTNE – Frente Negra Brasileira – Parte 3.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ASSUNÇÃO, Nádia Cecília Augusto; RIBEIRO, Edméia Aparecida. A Frente Negra Brasileira – 1931 – 1937. Os desafios da escola pública paranaense. Governo do Paraná.

CAVALCANTI, Pedro Celso Uchôa; RAMOS, Jovelino. Memórias do Exílio, Brasil 1964-19??. Editora e Livraria Livramento, 1978.

DOMINGUES, Petrônio José. O “messias” negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978): “Viva a nova monarquia brasileira; Viva Dom Pedro III!”. Varia história, vol.22, nº 36 Belo Horizonte, Dez/2006.

DOMINGUES, Petrônio. Paladinos da liberdade: A experiência do Clube Negro de Cultura Social em São Paulo (1932-1938). Revista de História, nú 150, julho, 2004, pp. 57-79. Universidade de São Paulo São Paulo, Brasil

DOMINGUES, Petrônio. Um “templo de luz”: Frente Negra Brasileira (1931-1937) e a questão da educação. Rev. Bras. Educ. 13 (39) • Dez 2008

FERREIRA, Maria Claudia Cardoso. Representações Sociais e Práticas Políticas do Movimento Negro Paulistano: as trajetórias de Correia Leite e Veiga dos Santos (1928-1937), Dissertação de Mestrado – UERJ, 2005.

Frente Negra Brasileira – Depoimentos: Entrevistas e textos: Márcio Barbosa. São Paulo : Editora Quilombhoje, 1998.

GOMES, Flavio. Negros e Política: 1888-1937. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2005.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. A Frente Negra Brasileira. Portal Geledés, 14 de dezembro de 2017.

MALATIAN, Teresa. Memória e contra-memória da Frente Negra Brasileira.

MALATIAN, Teresa. O cavaleiro negro. São Paulo : Editora Alameda, 2015.

MARTINS, Ana. Frente Negra Brasileira (1931 – 1938). Black Past Organization.

RAMATIS, Jacino. Frente Negra, Ação Integralista e conservadorismo como estratégico de enfrentamento ao racismo – 1930 -1937. Rev. Hist. (São Paulo) (181), 2022.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil –1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Site BBC

Site Fundação Palmares – Frente Negra Brasileira

Site Fundação Palmares – Aristides Barbosa

Site Imprensa Negra

Site IpeAfro

Site Literafro

SOTERO, Edilza Correia. Representação Política Negra no Brasil pós Estado Novo. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para a obtenção do título de doutor em Sociologia, junho de 2015.

VIEIRA, Flavia Maria Silva. Resistência e luta do Movimento Negro no Brasil: da rebeldia anônima na sociedade escravocrata ao enfrentamento político na sociedade de classes. Revista da ABPN, v. 8, n. 20, jul. 2016 – out. 2016.

A cidade de São Paulo e Tebas (1721 – 1811), reconhecido como arquiteto, em 2018, mais de 100 anos após sua morte

Hoje, no dia em que São Paulo completa 467 anos, a Brasiliana Fotográfica publica um artigo sobre um homem escravizado conhecido em seu tempo como o mestre pedreiro Tebas (1721 – 1811), que se destacou na cidade, no século XVIII, por criar projetos de edifícios, principalmente religiosos, tornando-se por sua atuação um ícone da arquitetura colonial no Brasil. Essencial para a renovação do estilo arquitetônico da cidade de São Paulo no século XVIII, foi o mais afamado oficial de cantaria de pedra, técnica de talhar pedras em formas geométricas, e era também mestre nas técnicas de alvenaria e hidráulica. Apesar da importância de seu legado, só foi reconhecido como arquiteto, em 2018, quando foi inserido no quadro associativo do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo. Era dado, então, mais um passo para acabar com a invisibilidade da trajetória desse importante personagem da história de São Paulo e do Brasil.

 

 

Nascido em 1721, em Santos, seu nome era Joaquim Pinto de Oliveira. Aprendeu seu ofício com o português Bento de Oliveira Lima (? – 1769), seu proprietário e renomado mestre de obras da cidade. Passaram a ser chamados para trabalhar na cidade de São Paulo, onde atuaram em diversas obras. Foram responsáveis pela restauração da antiga Catedral da Sé, demolida em 1911. Tebas já havia construido a torre da igreja em 1750. Lima morreu, em 1769, antes da conclusão da reforma da Sé, deixando sua viúva, Antônia Maria Pinta, endividada. No inventário de Lima, Tebas valia 400 mil réis enquanto seus outros três artífices escravizados valiam 100mil. Segundo o pesquisador do IPHAN, Carlos Gutierrez Cerqueira, a alforria de Tebas aconteceu entre 1777 e 1778, em ação judicial movida por Tebas contra a viúva de Bento, sob orientação de Matheus Lourenço de Carvalho, arcebispo da Sé.

 

 

 

 

Entre os trabalhos de Tebas estão a pedra fundamental da fachada da antiga igreja do Mosteiro de São Bento, um cubo de 22 centímetros “com relíquias e um Agnus Dei na base do cunhal”, pela qual teria recebido, em 1766, seis tostões. Além disso, segundo o arquiteto Carlos Lemos, “lavrou também a portaria de pedra da igreja, encimada por um frontão em forma de concha. Por todo o trabalho de cantaria lavrada – portada principal, três janelas do coro e cruz romana de remate da fachada – recebeu ele do mosteiro, no mesmo ano de 1766, a quantia de 286$040 réis.”

 

 

Também construiu o Chafariz da Misericórdia (1792), primeiro chafariz público da capital paulista, erguido onde hoje encontra-se a rua Direita. Na época era ponto de trabalho e de encontro do povo, especialmente da população negra da cidade. Na época, por permitir o acesso à água, os chafarizes eram fundamentais para a dinâmica de funcionamento das cidades.

Segundo o livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica (1988), organizado pelo artista plástico baiano, que a partir de 2004 passaria a ser diretor curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo (1940 – ), o chafariz foi “transferido para o distante Largo de Santa Cecília, talvez para servir de bebedouro de cavalos. Ficou por ali até os anos da I Grande Guerra. Depois, foi desmontado e largado num dos depósitos da prefeitura e, segundo informações que tivemos, até há uns quinze ou vinte anos atrás, ainda permanecia semi-enterrado entre os escombros e velhos postes de iluminação pública abandonados.” A transferência ocorreu em 1886.

 

 

 

Outras obras realizadas com a participação de Tebas foram as partes frontais da igreja da Ordem Terceira do Carmo (1775 – 1776) e da igreja da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco (1783).

 

 

Construiu a torre do Recolhimento de Santa Teresa e foi também o responsável pelo Cruzeiro Franciscano da cidade de Itu (1795), que integra o Centro Histórico de Itu, e foi tombado em 2004 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo. Considerado um monumento raro, só é comparável aos cruzeiros da Igreja de São Francisco, em João Pessoa; e o do Convento de Nossa Senhora das Neves, em Olinda.

 

 

Ainda trabalhava em obras quando faleceu, em 11 de janeiro de 1811, de gangrena. Foi velado e sepultado na Igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, em São Paulo.

O primeiro registro escrito sobre Tebas de que se tem notícia é de 1899 em uma cronologia da história paulistana, Chronologia paulista ou relação histórica dos factos mais importantes ocorridos em S. Paulo, desde a chegada de Martim Affonso de Souza a S. Vicente até 1898, elaborada pelo cronista maranhense José Jacinto Ribeiro (1846 – 1910), filiado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1935, Nuto Sant’Anna, chefe da Seção de Documentação Histórica do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, publicou o artigo Thebas: subsídios inéditos para a reconstituição da personalidade do célebre arquiteto paulistano do século XVIII, na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. Dois anos depois, escreveu o romance Tebas, o escravo, publicado em 1939.

Nas páginas iniciais do livro de Sant´Anna, há explicações preliminares:

 

PERSONAGENS

LENDÁRIO

Tebas, escravo pedreiro.

FICÇÃO

José Vaz, Mestre de Campo e D. Cotinha, sua mulher; Padre Justino, cônego; Gregório dos Anjos, feitor; Luiza, mulher do administrador do Quebra Lombo; Maria das Dores, Carolina, Tião, Juvêncio, Quitéria, Joana, Tibúrcio e Barnabé, escravos.

(…)

ENTRECHO

Dizem historiadores e cronistas que as tôrres das igrejas do Convento de Santa Teresa e da Sé foram construidas por Thebas. Thebas (Joaquim Pinto de Oliveira Thebas) trabalhou efetivamente nas obras do chafariz do largo da Misericórdia. O sítio do Tapanhoim existiu nas baixadas do ribeirão do Lavapés. A chácara do Quebra Lombo é também história. Os nomes das ruas e os aspectos ligeiramente delineados são reais.

O mestre de campo José Vaz é o dono do sítio do Tapanhoim e de tudo o que há nele, incluindo Tebas, protagonista da estória, e as demais pessoas ali escravizadas. O antagonista é o feitor Gregório dos Anjos, impedido por Tebas, a golpes de capoeira, de estuprar Maria das Dores, “mulatinha esguia, de saliências naturais bem feitas. Uns bonitos dentes. E uma certa vivacidade encantadora” nunca vista “nas outras crioulas” (p. 31).

Nesse tempo, a construção das pontes, a edifi cação de prédios altos, a erecção da tôrre das igrejas, constituiam verdadeiros problemas. Obras Tebas e o Tempo 15 difíceis e custosas. Os artífi ces da terra sentiam-se quasi incapazes de as realizar. O Convento de Santa Teresa, que, da beira do morro abrupto, espiava para a várzea, tinha já a sua igrejinha – mas sem tôrre; a da Sé também não a possuia; e a da igreja do Colégio, era pequenina e baixa. (p. 69)

Interessado nas habilidades de Tebas como pedreiro, padre Justino, cônego da Sé, o adquire junto ao mestre de campo José Vaz, sob a condição de libertá-lo assim que a obra estivesse concluída. Justino morre antes do início das obras, mas ainda tem tempo de ordenar o cumprimento da promessa e de determinar os ganhos (uma pataca e meia) do mestre pedreiro escravizado. Terminada a torre, o agora livre e respeitado Tebas juntara dinheiro para propor ao seu ex-senhor a compra de Maria das Dores. Mas é surpreendido por José Vaz, que lhe oferece de presente o amor de sua vida. Joaquim Pinto de Oliveira e Maria das Dores se casam um mês depois.

FIM

São Paulo, de 20 a 30 de junho de 1937

 (transcrito do livro Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, páginas 14 e 15)

 

O compositor paulistano Geraldo Filme (1927 – 1995) cantou a história do arquiteto no samba de 1974, da extinta escola de samba Paulistano da Glória, que, com o enredo, conquistou o vice-campeonato do Grupo de Acesso. Ouça aqui.

 

Praça da Sé, Sua Lenda, Seu Passado, Seu Presente

Geraldo Filme

Tébas negro escravo
Profissão alvenaria
Construiu a velha sé
Em troca da carta de alforria
Trinta mil ducados que lhe deu padre Justino
Tornou seu sonho realidade
Daí surgiu a velha Sé
Que hoje é o marco zero da cidade
Exalto no cantar de minha gente
A sua lenda, seu passado, seu presente
Praça que nasceu do ideal
E braço escravo, é praça do povo
Velho relógio, encontro dos namorados
Me lembro ainda do bondinho de tostão
Engraxate batendo na lata de graxa
E o camelô fazendo pregão
O tira-teima dos sambistas do passado
Bixiga, Barra Funda e Lavapés
O jogo da tiririca era formado
O ruim caía, o bom ficava de pé
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda

 

Sobre o apelido e a vida de Tebas, segue um depoimento de Geraldo Filme:

 

 

Em 1988, no já mencionado livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica,  foi publicado o artigo Thebas, do arquiteto Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Em 2011, Carlos Gutierrez Cerqueira, pesquisador do IPHAN, colocou no ar o blog Resgate – história e arte, a fim de divulgar suas pesquisas sobre Tebas, no artigo Tebas: vida e atuação na S. Paulo colonial; e também o resultado das suas mais de três décadas de trabalho no IPHAN. Em 2018, foi lançado o livro Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata, organizado pelo jornalista Abilio Ferreira e fundamental para a elaboração desse artigo.

Foi inaugurado, em 20 de novembro de 2020, Dia da Consciência Negra, um monumento em homenagem a Tebas. A estátua, de autoria do artista plástico Lumumba Afroindígena e da arquiteta Francine Moura, está exposta na praça Clóvis Bevilaqua, entre as igrejas da Sé e do Carmo, em São Paulo.

 

 

“A natureza coletiva do seu legado o libertou do esquecimento”.

 

 

Como não existe nenhuma pintura ou desenho de Tebas, o quadro Cabeça de negro (1934), de Cândido Portinari (1903 – 1962), é muitas vezes associado à imagem do arquiteto. Fenômeno semelhante foi abordado no artigo A mulher negra de turbante, de Alberto Henscheldas historiadoras Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, publicado aqui no portal em 13 de maio de 2020. Nele é mencionado a frequência com que a imagem de Luiza Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama (1830 – 1882), e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835, é associada à fotografia Mulher de turbante, produzida em torno de 1870, no Rio de Janeiro, pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882).

 

 

Uma curiosidade: Tebas era uma gíria usada pela populaçao paulista, no século XIX, para designar algo que era bom ou o melhor. Segundo o livro A capital da solidão: uma história de São Paulo das origens a 1900 (2003), do jornalista Roberto Pompeu de Toledo: “Foi tal a fama de Tebas, considerado, além de pedreiro exímio, corajoso e desenvolto, que até a primeira metade do século XX seu nome, em São Paulo, era sinônimo tanto de valentão, quanto de habilidoso. “Fulano é um Tebas”, dizia-se, e a palavra, com tais acepções, até hoje está nos dicionários. Alguns afirmam que o adjetivo “tebas” não vem do Tebas, e sim do idioma quimbundo – mas o simples fato de outros o atribuírem ao artesão paulista já é indicativo de sua reputação”.

A história de Tebas foi lembrada no documentário AmarElo – É tudo pra ontem (2020) em torno de um show do rapper Emicida (1985 – ), realizado no Theatro Municipal de São Paulo, em 27 de novembro de 2019. No filme, é resgatada parte da história da cultura e dos movimentos dos negros no Brasil. Sobre Tebas: foi decisivo na renovação estilística pela qual São Paulo passou no século XVIII.

 

O livro  Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, organizado por Abilio Ferreira e lançado em 2018, foi fundamental para a elaboração desse artigo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARAUJO, Emanoel (Org.). A mão afrobrasileira: significado da contribuição artística e histórica. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Museu Afro Brasil, 2010.

Arch Daily, 27 de novembro de 2020

Aventuras na História, 27 de outubro de 2020

Documentário AmarElo – É tudo pra ontem

FERREIRA, Abilio (org.); CERQUEIRA, Carlos Gutierrez; YOUNG, Emma; JACINO, Ramatis; CHIARETTI, Maurilio. Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo ; Idea, 2018.

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

O Estado de São Paulo

Outras palavras, 5 de abril de 2019

Projeto Tebas

Revista Galileu, 30 de junho de 2020

Revista Projeto, 14 de setembro de 2020

Site Cidade On

Site Prefeitura da Instância Turística de Itu

Site Cidade de São Paulo Cultura

Site IHGB

Site Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo

Site X Special Design

Veja São Paulo

 

 

A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel

A Brasiliana Fotográfica publica hoje, Dia da Abolição da Escravatura, o artigo “A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel”. Nele, as autoras, Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, historiadoras, respectivamente, do Museu Histórico Nacional e do Arquivo Nacional, duas instituições parceiras do portal, fazem a análise morfológica do retrato e levantam diversas questões como a representação imagética da mulher negra e a associação frequente da fotografia em questão com Luisa Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama, e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835.

 

A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel

Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho*

 

Dentre tantas imagens produzidas pelo fotógrafo Alberto Henschel[1], na segunda metade do século XIX, nota-se nos últimos anos o fascínio pela fotografia de uma mulher negra portando um turbante estampado. Nos limites deste artigo e, na trilha do historiador Ulpiano Bezerra de Meneses, chamamos a atenção para as qualidades estéticas dessa imagem, sua potência enquanto artefato, sua agência, a capacidade de produzir sentidos, de convocar diferentes apropriações e usos, e, finalmente, seu potencial de iconização.[2] Cabem, assim, algumas perguntas: o que explica a ampla circulação do registro, onipresente em variados meios e produtos? Por que a associação entre esta fotografia e Luiza Mahin? Qual a relação entre o seu uso maciço e a invisibilidade ou a subalternidade imposta a negros e negras em produtos culturais – em especial, em algumas exposições?

 

 

Conforme Joana Flores,[3] em sua análise sobre as exposições de longa duração em museus da cidade de Salvador, pode-se afirmar que, ainda hoje, as mulheres negras são reduzidas a coadjuvantes; suas imagens são apresentadas, em locais como o Museu Henriqueta Catharino, sem referências, legendas ou textos explicativos. Para a autora, não basta estas mulheres estarem presentes em suportes materiais: sem identidade, sem história, sem memória, a presença se traduz em ausência.

Em exposições organizadas em fazendas históricas do Vale do Paraíba, para além da subalternidade – com fotografias de homens e mulheres negros relegados a espaços secundários, uma espécie de porão/senzala, contrapondo-se às casas grandes, lugar exclusivo dos barões e das baronesas – verifica-se uma despreocupação em identificar corretamente os sujeitos. Em uma das fazendas, a São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras, Rio de Janeiro, por exemplo, vemos o registro da mulher de turbante, de Henschel, ladeada de outros dois, de homens negros. Em nenhum deles há legendas com o crédito do fotógrafo, a data e o local de produção da imagem e a instituição detentora, como se as fotografias pudessem falar por si, dando margem à imaginação de guias e visitantes. Ali, como em muitas outras instituições de memória e, também em produtos culturais, a mulher é apresentada como Luísa Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama, e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835.

Na análise morfológica do retrato em questão, vemos um fundo neutro que apresenta uma mulher em meio busto, com vestido escuro “decotado”, ombros à mostra, brincos e turbante estampado. Nada além disso. Nenhum mobiliário, apoio, utensílio ou instrumento de trabalho ou mesmo qualquer acessório em sua indumentária além dos mencionados. Ela não apresenta marcas. Assim como a maior parte das negras retratadas por Henschel, a mulher de turbante não sorri; ela exibe um olhar firme, quase desafiador.

O fato de existirem poucos elementos na composição da foto; a presença do turbante remetendo aos africanos de origem muçulmana que se rebelaram na Bahia em 1835; o olhar da retratada, são algumas pistas que podem ajudar a entender a associação entre a imagem e Luísa Mahin. Mas, chama a atenção que aquela continue a ser utilizada sem que se atente para a questão de que não há registros fotográficos da Revolta dos Malês nem dos seus participantes, posto que, apenas em 1849, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Em segundo lugar, conforme informação do Instituto Moreira Salles[4] a fotografia teria sido produzida por volta de 1870, ou seja, trinta e cinco anos após o evento. Levando-se em conta a visível juventude da retratada, não há possibilidade de ser Luísa Mahin, cuja história tornou-se mais conhecida por meio do livro Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves.[5]

A atribuição anacrônica vai sendo difundida graças à ampla circulação da imagem, em especial nos meios eletrônicos, e ao seu uso reiterativo. Uma busca na Internet com as palavras “Luísa Mahin”, “negra de turbante”, “escrava de turbante” e, sobretudo, associando-se estas expressões a Henschel ou Alberto Henschel, nos leva a uma grande quantidade de registros e diferentes usos da fotografia na divulgação de eventos, ilustração de artigos, capas de livros, intervenções urbanas, instalações artísticas e obras de arte, como “As filhas  de Eva” de Rosana Paulino, rótulos de cerveja e até em tatuagens, dentre muitos outros.[6]

Indo além da discussão em torno de um desconhecimento sobre a história da fotografia e sobre a história da Revolta dos Malês e de Luiza Mahin, podemos entender a apropriação dessa imagem como um desejo de dar voz e corpo a uma mulher. Se a própria existência de Luísa Mahin é questionada pela historiografia e sua participação no levante deve ser problematizada, como observa João José Reis,[7] na mesma medida, verifica-se, nas últimas décadas, um processo de mitificação que visa à sua manutenção no imaginário afro-brasileiro. Essa estratégia se deve, em especial, ao feminismo negro que, no intuito de superar a violência simbólica exercida sobre as mulheres negras, “buscou positivar a imagem das afro-brasileiras, recorrendo à reelaboração e valorização das histórias das suas sucessoras.”[8]

A mulher fotografada por Henschel é identificada como Luísa Mahin até mesmo em eventos acadêmicos, como observado em uma apresentação no I Congresso Nacional do PROFHISTÓRIA (Mestrado Profissional em Ensino de História), realizado em Salvador, em 2019. Uma historiadora que trabalha com educação patrimonial nas fazendas do Vale do Paraíba, tendo exibido a fotografia associando-a a mãe de Luís Gama, foi questionada quanto ao seu uso. A resposta foi enfática: uma escolha. Desejo de atribuir um rosto a uma personagem guerreira. É o olhar altivo com que a modelo encara a câmera sintetizando qualidades como força, resistência e coragem que corresponde à imagem desejada para essa mulher.

Nesse sentido e, no nosso entendimento, a mulher negra de turbante acaba contrariando a tese de Manuela Carneiro da Cunha sobre escravizados retratados, quando afirma que “Num retrato pode-se ser visto e pode-se dar a ver […]. Quem encomenda uma fotografia mostra-se, dá-se a conhecer […] como gostaria de ser visto […] É o sujeito do retrato. Aqui o escravo é visto, não se dá a ver.”[9] Certamente não é o caso da modelo fotografada por Henschel. Ela subverte a condição de escravizada e, por isso, objetificada, dando-se a ver como protagonista. E nesse aspecto, as autoras Maria Lafayette Aureliano Hirszman e Sandra Sofia Machado Koutsokos concordariam conosco, segundo a perspectiva de seus estudos sobre os retratos de autoria de Christiano Jr.[10]

Assim, a “negra de turbante” é retirada do sistema de classificação humana, usado para deleite, curiosidade, e principalmente para estudos sobre o “outro”. Estes, baseados em teorias cientificistas, de fundo racista, amplamente difundidas ao longo do século XIX, para as quais os registros fotográficos contribuíram como forma de comprovação de teses, como a de que os negros eram seres inferiores.[11] Deixa de ser vista da forma generalizante com que foi categorizada, um “tipo de negro”[12], exemplar de uma coletividade exótica e pitoresca, muito cara ao romantismo dos estudos de folclore. Entra para a história ao ganhar a singularidade de uma identidade – mesmo que atribuída muitos anos depois de sua própria morte – que a torna protagonista e ícone na construção da memória afro-diaspórica no Brasil.

 

[1] Sobre Henschel, ver, entre outros, HEYNEMANN, Cláudia. “De Berlim às capitais do Império: a experiência fotográfica em Alberto Henschel”. In: BAREL, Ana Beatriz Demarchi e COSTA, Wilma Peres (Orgs.). Cultura e poder entre o Império e a República: Estudos sobre os imaginários brasileiros (1822-1930), São Paulo, Alameda, 2018. HEYNEMANN, Cláudia e RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Retratos Modernos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. VASQUEZ, Pedro. Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX. São Paulo: Metalivros, 2000. WANDERLEY, Andrea C. T. O alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), o empresário da fotografia, Brasiliana Fotográfica. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=1138. Acesso em 2 de março de 2020.

[2] MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. A fotografia como documento – Robert Capa e o miliciano abatido na Espanha: sugestões para um estudo histórico. Tempo, Rio de Janeiro,n. 14, 2002, p. 131-151.

[3] FLORES, Joana . Mulheres negras e museus de Salvador. Diálogo em branco e preto. Salvador: edição da autora , 2017.

[4] A imagem também pode ser encontrada também no EthnologischesMuseum, de Berlim e na Fundação Joaquim Nabuco.

[5] GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2018.

[6] Ver, entre outros: o material de divulgação da palestra “Autografias Luíza Mahin: um mito libertário no Feminismo Negro”, promovida pelo SESC, em São Paulo, em 2015, disponível em: https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/luiza-mahin-um-mito-libertario-no-feminismo-negro , acesso em 10 de julho de 2019; do Colóquio Internacional Subjectividades Escravas nos Mundos Ibéricos (Séculos XV-XX), realizado em 2018, promovido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal, disponível em: https://www.ics.ulisboa.pt/sites/ics.ulisboa.pt/files/events/cartaz/diptico_subjective_hd1.pdf, acesso em 20 de agosto de 2019; as capas dos livros O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, de Abdias do Nascimento, disponível em: https://www.editoraufv.com.br/produto/o-genocidio-do-negro-brasileiro–processo-de-um-racismo-mascarado-3-edicao/1784951, acesso em 29 de fevereiro de 2020; Ocupação Luiza Mahin, disponível em: http://www.sindipetroba.org.br/2017/noticia/8337/lancamento-do-livro-%E2%80%9Cocupac%C3%A3o-luisa-mahin%E2%80%9D-tem-feijoada-e-m%C3%BAsica, acesso em 20 de agosto de 2019; Luiza Mahin, romance de Armando Avena, disponível em: http://atarde.uol.com.br/coluna/armandoavena/2112050-heroina-negra-luiza-mahin-e-tema-de-livro-de-armando-avena-premium, acesso em 12 de dezembro de 2019; o cartaz do evento “Sarau das Pretas – Luiza Mahin vive!”; disponível em: https://www.londrinatur.com.br/agenda/sarau-das-pretas-luiza-mahin-vive/, acesso em 20 de agosto de 2019; o site do MAR com a divulgação da exposição “Rosana Paulino: a costura da memória”, disponível em: http://museudeartedorio.org.br/programacao/a-costura-da-memoria-2/, acesso em 29 de fevereiro de 2020; a tatuagem apresentada como “Portrait de Luiza Mahin uma das figuras africanas mais importantes da história”, disponível em: http://picdeer.org/thiago.maga.tattoo, acesso em 20 de agosto de 2019; o rótulo da cerveja Mahin, disponível em https://www.facebook.com/1984215361805614/photos/a.1985548531672297/1985548365005647/?type=3&theater, acesso em 20 de agosto de 2019.

[7] “Nenhuma Luíza, aliás, foi incluída em quaisquer listas de presos por envolvimento no levante. A única mulher com esse nome que encontrei em 1835 foi uma liberta, presa provavelmente em novembro para ser deportada por crime não especificado, mas de forma alguma por insurreição. […] O personagem Luíza Mahin, então, resulta de um misto de realidade possível, ficção abusiva e mito libertário. A rigor, o que dela se conhece tem pouca fundamentação histórica. O que mais se aproxima dela é o pouco que sobre ela escreveu o filho Luiz Gama. Do que este revelou, o envolvimento da mãe em 1835 é até possível, embora os documentos sobre a revolta não o confirmem e indiquem como altamente improvável seu papel de liderança.” REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 301-303.

[8] LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luiza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. Dissertação. Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura, São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011, p.8.

[9] CUNHA, Manuela Carneiro da. “Olhar escravo, ser olhado”. In: AZEVEDO, Paulo Cesar de e LISSOVSKY, Mauricio [e outros] Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. São Paulo: Ed. Ex Libris Ltda., 1988, p. 23. Apud. KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo. Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Tese. Doutorado em Multimeios, Campinas, UNICAMP, 2006, p. 107.

[10] HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito: os retratos de escravos Christiano Jr. Dissertação. Mestrado em Artes, São Paulo, USP. 2011. KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo, op. cit.

[11] KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. ‘Typos de pretos no estúdio do photographo’: Brasil segunda metade do século XIX. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, v. 39, 2008, p. 455-482.

[12] O “tipo” é uma denominação classificatória das diferenças humanas físicas e culturais, caras aos estudos de história natural dos séculos XVIII e XIX, segundo os quais, a humanidade é parte da natureza e deve ser estudada segundo os mesmos critérios taxonômicos. “Assim, foi-se criando e se afirmando cada vez mais […] um padrão imagético taxonômico cuja expressão mais evidente pode-se chamar de documentação de espécimes – sejam botânicos, animais, ou tipos humanos inseridos em universos sociais”. Cf. SELA, Eneida Maria Mercadante. Modos de ser em modos de ver: ciência e estética em registros de africanos por viajantes europeus (Rio de Janeiro, ca. 1808-1850). Tese. Doutorado em História. Campinas, Unicamp, 2006. p.65. Em outras palavras, a classificação humana como “tipo” era uma forma não apenas de estudar o “outro”, mas também de inferiorizá-lo e dominá-lo, sob a perspectiva de lidar com uma “essência abstrata da variação humana” que é como o “tipo” é definido por Elizabeth Edwards Apud. HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Entre o tipo e o sujeito…, op. cit. p. 48.

 

*Aline Montenegro Magalhães é Doutora em História | Pesquisadora do Museu Histórico Nacional

Maria do Carmo Rainho é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

O artigo Produção, usos e apropriações de uma imagem: o processo de iconização da fotografia da mulher de turbante, de Alberto Henschel, das mesmas autoras e também sobre esse tema foi publicado da Revista de História da UEG (Universidade Estadual de Goiás), em 14 de julho de 2020. **

Link para o artigo As reencarnações de uma mulher negra: pessoa-coisa-pessoa, de Alexandre Araujo Bispo, publicado em 17 de novembro de 2020, na Revista de Fotografia Zum.***

 

**Esta informação foi acrescentada ao texto em 16 de julho de 2020.

*** Esta informação foi acrescentada ao texto em 17 de março de 2021.

 

 Links para artigos da Brasiliana Fotográfica sobre Alberto Henschel e sobre a escravidão no Brasil

 

cartão Albert Henschel

Photographia Allemã, de Alberto Henschel / Acervo IMS

 

 

 

 

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695)

Antônio Parreiras - Zumbi 2.jpg

Zumbi (1927), pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) / Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói

A Brasiliana Fotográfica homenageia Zumbi dos Palmares (1655-1695), considerado um dos símbolos da luta contra a escravidão no Brasil, com a publicação de uma galeria de tipos negros fotografados, em torno de 1869, na Bahia e em Pernambuco, por Alberto Henschel (1827-1882). Esses registros fotográficos integram o acervo do Leibniz-Institut für Laenderkul (1), primeira instituição internacional a se tornar parceira da Brasiliana Fotográfica.

O quadro retratando Zumbi (ao lado) é de Antonio Parreiras (1860-1937). Tanto o fotógrafo Alberto Henschel como o pintor já foram temas da Brasiliana Fotográfica.

O dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é comemorado em todo o Brasil como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data foi criada, em 2003, e instituída oficialmente em âmbito nacional com a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, em 21 de dezembro de 2023, o Projeto de Lei nº 3268/2021, que declara o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra feriado em todo o país. O texto do PL foi publicado no Diário Oficial da União do dia seguinte.*

Zumbi nasceu, em 1655, em uma das aldeias do Quilombo dos Palmares, uma comunidade formada por escravizados fugitivos. O quilombo, o maior do período colonial brasileiro, localizava-se na região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. Foi capturado, no quilombo, ainda criança, pelos soldados da expedição comandada por Brás da Rocha Cardoso, e entregue ao padre português Antônio Melo, do distrito de Porto Calvo, Alagoas. Foi batizado, aprendeu português e latim, e recebeu o nome de Francisco.

Aos 15 anos, fugiu e voltou para o Quilombo dos Palmares. Posteriormente, tornou-se o líder da comunidade, substituindo seu tio, Ganga Zumba (c. 1630 – 1678). A capital de Palmares foi destruída, em 1694, e Zumbi foi ferido. Traído por um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, foi morto em 20 de novembro de 1695, na serra de Dois Irmãos, local de seu esconderijo. Foi esquartejado e sua cabeça foi cortada e exposta na praça do Carmo, em Recife.

Há uma grande bibliografia sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Nem sempre os estudos apontam para a mesma direção.

 

Galeria de tipos negros fotografados por Alberto Henschel

 

Acessando o link para as fotografias de tipos negros fotografados por Alberto Henschel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

(1) O conjunto de 460 imagens do Brasil produzidas até 1900 pertencentes ao acervo do Leibniz-Institut für Länderkunde foi, mediante convênio, incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles por meio da digitalização das fotos em alta resolução. A instituição, sediada na cidade de Leipzig,  reúne o mais importante acervo de fotografia brasileira do século XIX  na Alemanha, em especial pelas imagens reunidas na coleção Stübel.

O geólogo alemão Moritz Alphons Stübel (1835 – 1904) viajou, entre 1868 e 1877, pela América do Sul com o também geólogo Wilhelm Reiss (1838 – 1908), que retornou um ano antes para a Alemanha. Stübel formou uma importante coleção de fotografias, composta originalmente por quase duas mil imagens. A “Collection Alphons Stübel”, a maior coleção de fotografias sul-americanas do século XIX, até agora conhecida, da Alemanha – e provavelmente da Europa – está preservada no Leibniz-Institut für Länderkunde.

Colaboraram para esta pesquisa a designer Mariana Newlands e a socióloga Roberta Zanatta, da equipe do IMS

*Este parágrafo foi acrescentado em 22 de dezembro de 2023.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002

FONSECA JR, Eduardo. Zumbi dos PalmaresA História do Brasil que não foi contada. Rio de Janeiro: Soc. Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, 1988)

FREITAS, Décio. Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre: Movimento, 1973

GOMES, Flavio dos Santos. De olho em Zumbi dos Palmares: História, símbolos e memória social. São Paulo: Claro Enigma, 2011

MOURA, Clovis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil / Clovis Moura; assessora de pesquisa Soraya Silva Moura – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX, São Paulo: Metalivros, 2000

Outras fontes:

Artigo de  Frank Stephan Kohl: “Collection Alphons Stübel”: um tesouro escondido

Artigo de Fernando Correia da Silva: Zumbi dos Palmares: libertador dos escravos: 1655-1695.

Entrevista Zumbi, um herói cercado de mistério, na Revista História, de novembro de 2009

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Site da Fundação Joaquim Nabuco

Site do Instituto Moreira Salles

Site do Leibniz-Institut für Laenderkunder

Dia da Abolição da Escravatura

  Dia da Abolição da Escravatura*

 

“A escravidão foi o processo mais violento, mais cruel, mas mais eficiente de obter, conservar, preservar e explorar o trabalho alheio. Ele não via em quem ele escravizava um semelhante, mas via um adversário e um ser inferior a ele.”

Alberto da Costa e Silva, diplomata, escritor e africanólogo

A escravidão no Brasil foi amplamente documentada pelos fotógrafos do século XIX. Contribuíram para isto o fato de ter a fotografia chegado cedo ao país, em 1840, sendo o imperador Pedro II um grande entusiasta do invento, além de ter sido o último país das Américas a abolir a escravatura, em 1888. Por cerca de 350 anos, o Brasil – destino de cerca de 4,5 milhões de escravizados africanos – foi o maior território escravagista do Ocidente, mantendo este sistema tanto no campo como na cidade. O lugar de trabalho era o lugar do escravizado.

 

 

Muitas vezes o objetivo das fotografias não era a denúncia e sim o estético ou, ainda, o registro do exótico. A Galeria do Dia da Abolição da Escravatura exibe fotos de escravizados em situações de trabalho, em momentos de descanso ou mesmo em poses obtidas em estúdios. São imagens apaziguadoras da escravidão e das várias funções dos escravizados. Dentre seus autores estão Alberto Henschel, Augusto Riedel, Augusto Stahl, Georges Leuzinger, João Goston, Marc Ferrez, Revert Henrique Klumb, além de alguns anônimos.

 

Acessando o link para as fotografias de escravizados disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

As fotos revelam uma representação naturalizada da escravidão, deixando a impressão de que seria normal a posse de homens por outros homens, o que fica evidenciado pela venda dessas imagens para o exterior como um produto exótico de um país tropical distante. Porém, percebe-se em não poucas dessas fotografias, segundo a antropóloga Lilia Schwarcz, que mais do que propriedades ou figurantes com papéis prévia e exteriormente demarcados, os escravizados negociam efetivamente nos registros fotográficos, nos pequenos sinais que deixaram no tempo e na imagem, seu lugar e condição.

 

 

A Abolição da Escravatura foi o acontecimento histórico mais importante do Brasil após a Proclamação da Independência, em 1822. No dia 13 de maio de 1888, após seis dias de votações e debates no Congresso, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que decretava a libertação dos escravizados no país (O Paiz, 14 de maio de 1888 e A Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888).

 

 

Sobre este dia, Machado de Assis escreveu na coluna “A Semana”, no jornal carioca Gazeta de Notícias de 14 de maio de 1893: Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto.

Até hoje se manifestam na sociedade brasileira as consequências sociais e culturais da longevidade e do alcance da escravatura no país.

 

 

Link para a série Entre cantos e chibatas – conversa com Lilia Schwarcz, produzida pelo Instituto Moreira Salles em 2011.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

*Esse artigo foi atualizado em maio de 2020