O romance “A Escrava Isaura” (1875), de Bernardo Guimarães

A obra histórica da literatura brasileira, A Escrava Isaura, escrita pelo mineiro Bernardo Guimarães (1825 – 1884), publicada, em 1875, foi importante na luta pela abolição da escravatura no Brasil. Foi uma das primeiras a abordar abertamente o tema da escravidão e sua crueldade, criticando as injustiças sociais da sociedade escravocrata brasileira e destacando a luta pela liberdade e pela igualdade.

 

“A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma úlcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo, resultante de um abuso que nos desonra aos olhos do mundo civilizado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será imitado. Sirva ele ao menos de um protesto enérgico e solene contra uma bárbara e vergonhosa instituição.”

Palavras de um dos personagens do livro, Álvaro

 

Ambientado em uma fazenda na região norte do Estado do Rio de Janeiro, em Campos dos Goytacazes, o romance narra a trajetória de Isaura, uma escravizada vítima de um senhor devasso, LeôncioIsaura era filha do capataz da fazenda e da escravizada Juliana. Tinha pele clara e havia sido educada por Gertrudes, esposa do comendador Almeida, pai do vilão Leôncio. A Brasiliana Fotográfica destaca neste artigo uma fotografia de Bernardo Guimarães, autor do livro, que pertence ao acervo fotográfico da Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, importante nome do romantismo nacional, nasceu em Ouro Preto, em 15 de agosto de 1825, tendo falecido na mesma cidade, em 10 de março de 1884. É o patrono da Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras. Escreveu outros romances, além de A Escrava Isaura. Sua obra poética foi reunida em Poesias completas de Bernardo Guimarães, organização, introdução, cronologia e notas de Alphonsus de Guimaraens Filho (1918 – 2008), uma edição do Ministério da Educação e Cultura/Instituto Nacional do Livro, de 1959.

Filho de Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira, Bernardo Guimarães passou sua infância e adolescência em Uberaba e Campo Belo. Em torno de 1842, voltou para Ouro Preto. Em 1847, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, tendo se formado em 1852, quando publicou seu livro de poesias, Cantos da solidão. Durante esses anos tornou-se amigo dos poetas Álvares de Azevedo (1831 – 1852) e Aureliano Lessa (1828 – 1861). Formaram com outros estudantes a Sociedade Epicureia, movimento estudantil que tinha como inspiração o poeta britânico Lord Byron (1788 – 1824).

Exerceu em dois períodos – 1852-1854 e 1861-1864 – o cargo de juiz municipal e de órfãos de Catalão, em Goiás. Morando no Rio de Janeiro, em 1858, trabalhou como jornalista e crítico literário. Entre 1864 e 1865, de novo o poeta viveu na Corte, onde publicou o volume Poesias. Em 1866, voltou para Ouro Preto e foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro. No ano seguinte casou-se com Teresa Maria Gomes. Tiveram oito filhos. Em 1873, foi nomeado professor de latim e francês em Queluz, atual Lafayette, em Minas Gerais.

Em 1881, dom Pedro II, durante sua viagem a Minas Gerais, encontrou-se com Bernardo Guimarães, e lhe revelou que desejava ter suas obras completas (Jornal do Commercio, 25 de abril de 1881, terceira coluna).

 

 

Bernardo Guimarães faleceu, em março de 1884 (Gazeta de Notícias, 11 de março de 1884, terceira coluna; 12 de março de 1884, penúltima colunaA Província de Minas, 13 de março de 1884,segunda colunaGazeta Literária, 20 de março de 1884, primeira coluna).

 

 

 

Voltando à A Escrava Isaura, “que faz lembrar as belas e eloquentes páginas de A Cabana do Pai Tomás que nos dois mundos tornou tão conhecido e célebre o nome de Miss Becher Stone”. Em 1874, o romance começou a ser divulgado em O Globo como folhetim, mas a publicação foi suspensa. O jornal O Apóstolo, o considerava imoral e atentatório da pública honestidade  (O Globo3 de setembro, 4 de setembro5 de setembro6 de setembro de 1874, primeira colunaO Apóstolo28 de maio de 1875, terceira coluna2 de junho de 1875, segunda coluna).

 

 

No mesmo ano de sua publicação, 1875, outras obras foram lançadas pela editora Garnier: Mademoiselle Mariani, do francês Arsène Houssaye (1815 – 1896), com tradução de Salvador de Mendonça (1841 – 1913); e Compêndio de orações para os devotos do Sagrado Coração de Jesus, do Reverendo Henrique Ramière (1821 – 1884), também francês (A Reforma, 30 de maio de 1875, primeira colunaDiário de Pernambuco, 3 de julho de 1875, quarta coluna; O Novo Mundo, 23 de julho de 1875, segunda coluna).

 

 

Foram publicadas críticas ao livro (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1875; O Liberal (PA), 21 de julho de 1875O Globo, 28 de setembro de 1875, segunda coluna). Ainda em 1875, foi comercializado em Portugal (Artes e Letras (Lisboa, Portugal), 1875).

 

 

 

 

Em 1929, foi lançado o filme A Escrava Isaura, sob a direção e com roteiro de Antônio Marques Costa Filho (? – 19?) – no elenco, Felício Agnelo (? – 19?), Amadeu Belluci  (? – 19?), Elisa Betty (? – 19?), Ronaldo de Alencar (? – 19?) e Celso Montenegro (? -19?), dentre outros (O Paiz, 9 e 10 de dezembro de 1929, quinta coluna).

 

 

 

Vinte anos depois, em 1949, com direção e roteiro de Euripides Santos (1906 – 1986), foi lançada uma nova versão cinematográfica de A Escrava Isaura, com Fada Santoro (1924 – 2024) e Graça Mello (1914 – 1979) como seus protagonistas (A Scena Muda, 24 de janeiro d 1950).

 

 

 

 

O romance ganhou uma versão para a televisão, que se tornou um marco na história da teledramaturgia nacional, tendo repercutido internacionalmente. Ficou no ar, na TV Globo, entre 11 de outubro de 1976 a 5 de fevereiro de 1977. Adaptada por Gilberto Braga (1945 – 2021) e dirigida por Herval Rossano (1935 – 2007), foi protagonizada por Lucélia Santos (1957-), como Isaura, e Rubens de Falco (1931 – 2008), como Leôncio. Dentre outros, atuaram na novela Edwin Luisi (1947-), Roberto Pirillo (1947-) e Norma Blum (1939-). O sucesso da novela na China foi tão grande que Lucélia Santos integrou a comitiva da viagem do então presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso (1931-), ao país, em dezembro de 1995 (Jornal do Brasil, 12 de dezembro de 1995).

 

Logotipo da telenovela brasileira Escrava Isaura

Logotipo da telenovela brasileira Escrava Isaura

 

Em 2004, A Escrava Isaura voltou a ser adaptada como telenovela, desta vez pela Record – foi exibida entre 18 de outubro de 2004 e 29 de abril de 2005. Uma curiosidade: na Polônia, oito mil pessoas se reuniram em um estádio para uma competição de sósias de Isaura e Leôncio.

Assim, a já centenária obra literária, A escrava Isaura, voltava a ter uma grande visibilidade no Brasil e no mundo.

 

Lista da obra completa de Bernardo Guimarães:

Cantos da solidão, 1852.
Poesias, 1865.
O ermitão de Muquém, 1868.
Lendas e romances, 1871.
O garimpeiro, 1872.
Histórias da província de Minas Gerais, 1872.
O seminarista, 1872.
O índio Afonso, 1873.
A morte de Gonçalves Dias, 1873.
A escrava Isaura, 1875.
Novas poesias, 1876.
Maurício ou os paulistas em São João Del-Rei, 1877.
A ilha maldita, 1879.
O pão de ouro, 1879.
Rosaura, a enjeitada, 1883.
Folhas de outono, 1883.
O bandido do Rio das Mortes, 1904.

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SEABRA, Alexandre Sabado. A relevância não comentada de “A escrava Isaura”.  Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, 30 de março de 2019.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Memória Globo

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