Enterro do coronel Fulgêncio da Força Pública Mineira, em Passa Quatro (MG). Vê-se o Coronel Cristóvão Barcelos (à frente, com os braços cruzados) e o então capitão-médico Juscelino Kubitschek (à esquerda de Cristóvão Barcelos), 1932. Passa Quatro, Minas Gerais/ Acervo Museu da República
O artigo “A Revolução Constitucionalista de 32 e Juscelino Kubitschek nas fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos”, o décimo segundo da série “Conflitos”, é de autoria de Maria de Fátima Morado, historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Estão destacadas, na publicação, dez fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos. Ele, como coronel, combateu os paulistas durante a Revolução Constitucionalista liderando o Destacamento Coronel Barcelos na região da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Em algumas dessas fotos vê-se o futuro presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, que, enquanto médico do Hospital Militar da Força Pública de Minas Gerais, foi enviado pelo comando-geral para atender as tropas mineiras e instalar um hospital de sangue em Passa Quatro.
A jornalista Cristiane d´Avila é a autora do artigo “Rio de encantos mil”, onde homenageia a natureza do Rio de Janeiro imortalizada nas belas fotografias e nos negativos de vidro sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. São imagens, realizadas por fotógrafos ainda não identificados, da paisagem natural da cidade que inspira, há séculos, viajantes e artistas das mais variadas nacionalidades e tendências.
Pouco se sabe, até hoje, sobre a vida, tanto pessoal como profissional, do fotógrafo brasileiro, provavelmente maranhense, Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?). Trabalhou em várias províncias da região Nordeste do Brasil e foi o último profissional a receber o título de Fotógrafo da Casa Imperial, concedido em 6 de agosto de 1889, por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia. Era também compositor e dedicou uma música às cataratas de Paulo Afonso. Sua cronologia é a 73ª publicada na seção Cronologia de Fotógrafos da Brasiliana Fotográfica, que reuniu as imagens de autoria de Mendo disponíveis em seu acervo fotográfico para que seus leitores conheçam um pouco do legado fotográfico deixado por ele. São fotos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, produzidas em 1880, e pertencem ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal.
O barão do Rio Branco (1845-1912) foi o responsável pelo Album de vues du Brésil, considerada a última peça para a promoção do Brasil imperial, representando um resumo iconográfico do país e de suas riquezas. Foi um dos livros que inaugurou a ilustração fotográfica do Brasil e é considerado por muito uma espécie de balanço final do período imperial. Nas palavras do barão, o álbum pretendia “mostrar a fisionomia atual das principais cidades do Brasil e seus arredores. Sob esse aspecto, a presente coleção é a mais completa publicada até hoje”. Trazia fotografias produzidas por Augusto Riedel (1836 -?), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Marc Ferrez (1843 – 1923) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?), dentre outros. Foi lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, ocorrida entre 6 de maio e 31 de outubro e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado.
“Àquela altura, Rio Branco recebeu um impulso extraordinariamente importante para sua trajetória. Rui Barbosa publicou, no Diário de Notícias de 14 de outubro de 1889, às vésperas da República, artigo no qual ressaltou sua colaboração na Grand Encyclopedie. Segundo Álvaro Lins, foi esta a primeira vez que o nome do Barão do Rio Branco apareceu perante o público do Brasil como “grande historiador erudito”. Rui Barbosa ressaltou um atributo do barão que se revelou fundamental para o êxito de suas atividades de historiador/diplomata: “O sentimento do real, esse movimento da vida, essa impressão de contacto direto das coisas.“(Barão do Rio Branco : 100 anos de memória, p.38).
Filho de José Maria da Silva Paranhos (1819 – 1880), o visconde do Rio Branco, uma das maiores figuras do período monárquico brasileiro, o barão do Rio Branco – professor, jornalista, diplomata, político e historiador – tornou-se sinônimo da tradição da diplomacia brasileira. Teve destacada atuação na definição das fronteiras brasileiras em várias ocasiões, quando se sobressaiu como hábil negociador, tendo assinado tratados com diversos países. Participou das negociações de paz da Guerra do Paraguai (1865-1870). Foi diretor do jornal A Nação e entre 6 de dezembro de 1875 e 1886, foi cônsul-geral do Brasil em Liverpool, na Inglaterra, na época, o principal porto comercial de interesse para o Brasil. Em 1884, recebeu a Ordem da Rosa, maior condecoração do Império, e o convite para ser o delegado do governo na Exposição Universal de São Petersburgo. Depois da proclamação da República, em 1891, substituiu o conselheiro Antônio Prado (1840 – 1929), como superintendente-geral na Europa da emigração para o Brasil, cargo que exerceu até 1893.
Foi o representante brasileiro na disputa da região dos Sete Povos das Missões com a Argentina e também na disputa do Amapá entre o Brasil e a Guiana Francesa, tendo obtido resultados favoráveis ao Brasil em 1895 e em 1900, respectivamente. Em 1901, foi como ministro plenipotenciário para Berlim, na Alemanha, onde ficou até 1902, quando foi nomeado ministro das Relações Exteriores do Brasil, cargo que exerceu até sua morte. Com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 1903, garantiu a posse do Acre, reivindicado pela Bolívia. A partir de vários tratados com países da América do Sul – em 1904, com o Equador; em 1907, com a Colômbia; em 1904 e 1909, com o Peru; em 1909, com o Uruguai; e em 1910, com a Argentina, definiu, de um modo geral, os atuais contornos do território brasileiro.
Ainda como ministro das Relações Exteriores, participou da III Conferência Americana, realizada no Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, de 23 de julho a 27 de agosto de 1906. Foi também responsável pelas gestões junto à Santa Sé para a criação do primeiro cardinalato brasileiro, o que aconteceu em 1905, e enviou Rui Barbosa (1849 – 1923) à Conferência da Paz, em Haia, em 1907.
Foi eleito, em 1º de outubro de 1898, o segundo ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de João Manuel Pereira da Silva (1817 – 1898). Sócio do Instituto Geográfico Histórico Brasileiro desde 1867, foi seu presidente entre 1907 e 1912.
Faleceu em 10 de fevereiro de 1912, às vésperas do Carnaval (Jornal do Brasil, 11 de fevereiro de 1910). Como homenagem, o governo adiou a folia momesca para abril. Não adiantou. O povo brincou os dois carnavais, cantando a seguinte marchinha: “Com a morte do Barão/ tivemos dois carnavá/ Ai que bom, ai que gostoso/ Se morresse o Marechá”. O ‘Marechá’ era o então presidente, marechal Hermes da Fonseca.
1 – O nome da avenida Central, aberta oficialmente em 1905, que foi durante muito tempo a principal via de circulação do Rio de Janeiro, que ligava o novo porto, onde atualmente está a praça Mauá, à região da Glória, foi mudado, por decreto, em 15 de fevereiro de 1912, para avenida Rio Branco, cinco dias depois do falecimento do diplomata (O Paiz, 16 de fevereiro de 1912, sob o título “Barão do Rio Branco”).
2 – Em 1945, nas comemorações do centenário de seu nascimento, foi criado o Instituto Rio Branco, uma das academias diplomáticas mais antigas do mundo, depois da Academia de Viena e da Academia Pontifícia.
3 – O barão dá também nome à condecoração Ordem do Rio Branco, instituída pelo Decreto nº 51.697, de 5 de fevereiro de 1963, com o objetivo de ao “distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção”. Tem 5 graus: Grã-Cruz, Grande Oficial, Comendador, Oficial e Cavaleiro, além de uma Medalha anexa à Ordem. É concedida pelo Ministério das Relações Exteriores, geralmente, em 20 de abril, Dia do Diplomata, data de nascimento do barão.
Segundo o regulamento: “A insígnia da Ordem é uma cruz de quatro braços e oito pontas esmaltadas de branco, tendo no centro a esfera armilar, em prata dourada, inscrita, num círculo de esmalte azul, a legenda “Ubique Patriae Memor”, do mesmo metal. No reverso dourado, as datas 1845-1912.” As datas se referem aos anos do nascimento e da morte do barão e a expressão “Ubique Patriae Memor” foi extraída do ex-libris do Barão do Rio Branco e se traduz como “Em qualquer lugar, terei sempre a Pátria em minha lembrança”.
Um pouco da vida pessoal do barão:
“Não lhe faltaram, no entanto, contrariedades e angústias. No início de 1872, Juca (apelido do barão) encontrou no Alcazar Lyrique uma jovem belga chamada Marie Philomène Stevens, de 22 anos, por quem se apaixonou. O casamento era impossível, pois ela era apenas uma bela atriz de pouca instrução, que viera faire l’Amérique no Rio de Janeiro. Juca Paranhos parecia bastante ingênuo, talvez cego pelo amor, pois chegou a escrever para um amigo dizendo que Marie lhe havia chegado aos braços “perfeitamente pura!”. Logo ela engravidou e, ao longo de 26 anos de convívio interrompido, tiveram cinco filhos. Quando foi nomeado para Liverpool, o Barão do Rio Branco instalou-a em Paris, onde viveu até morrer, em 1898. Nunca mais regressou ao Brasil. No entanto, demoraram a casar-se, o que finalmente ocorreu em 1890, em Londres, quando os primeiros filhos já eram quase adultos” (Vasco Mariz in Barão do Rio Branco : 100 anos de memória).
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
HEINSFELD, Adelar. O Barão e o cardeal : Rio Branco e a conquista do cardinalato para o Brasil. Passo Fundo:PPGH/UPF, 2012.
LAGO, Pedro Corrêa do. Brasiliana Itaú: uma grande coleção dedicada ao Brasil / curadoria da coleção: Pedro Corrêa do Lago, Ruy Souza e Silva. Rio de Janeiro: Capivara, 2009.
LINS, Álvaro. O Barão do Rio Branco. Rio de Janeiro:Editora José Olympio, 1945.
MORAES, Antônio Carlos Robert. O Barão do Rio Branco e a Geografia, in Revista Terra Brasilis. São Paulo:Universidade de São Paulo, dezembro de 2015.
MOSSÉ, Benjamin. Dom Pedro II, Imperador do Brasil: o Imperador visto pelo barão do Rio Branco / Benjamin Mossé. – Brasília : FUNAG, 2015.
RICÚPERO, Rubens. Um personagem da República, in José Maria da Silva Paranhos, Barão do Río Branco: uma biografia fotográfica. Brasília:Fundação Alexande de Gusmão, 1995.
Concorrido ponto de encontro da população carioca nos séculos XVIII e XIX e primeiro parque ajardinado do Brasil, o Passeio Público foi tema de importantes fotógrafos. A Brasiliana Fotográfica selecionou imagens do parque produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957), Camillo Vedani (18? – 1888), Georges Leuzinger (1813 – 1892), Jorge Kfuri (1892/3? – 1965) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). Construído entre 1779 e 1783, o Passeio Público localiza-se no centro histórico do Rio de Janeiro, entre a Lapa e a Cinelândia, e foi concebido pelo mineiro Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido como Mestre Valentim (c. 1745 – 1813), um dos maiores artistas do período colonial brasileiro. Ele desenhou um jardim em estilo francês para o qual fez várias obras de arte, dentre elas esculturas, chafarizes e pirâmides como o Chafariz dos Jacarés ou Fonte dos Amores, duas pirâmides de granito com as inscrições À Saudade do Rio e Ao Amor do Público, ea Fonte do Menino com a escultura do menino da bica.
No local do Passeio Público existiu, até fins do século XVIII, a Lagoa Boqueirão da Ajuda, única que desaguava no mar e onde a população despejava seus dejetos. Por sua insalubridade, foi aterrada por ordem do vice-rei do Estado do Brasil, dom Luís Vasconcelos (1742 – 1809), que decidiu ocupar a área com um jardim público. O aterramento ocasionou a abertura das ruas do Passeio e das Belas Noites – atual rua das Marrecas. Inaugurado em 1783, já em 1786, o Passeio Público foi o cenário das grandes festas em comemoração ao casamento de dom João VI (1767 – 1826) e Carlota Joaquina (1775 – 1830).
Em 1815, o frade carmelita Frei Leandro do Sacramento (1778 – 1829), futuro diretor do Jardim Botânico (1824), começou a ministrar aulas de Botânica ao ar livre, no Passeio Público. Ao longo do século XIX, o jardim passou por algumas reformas, tendo sido a mais importante realizada pelo paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (1828 – 1906), que teve início em 1861, por determinação de dom Pedro II (1825 – 1891). Glaziou alterou o traçado original do Mestre Valentim e o Passeio Público foi reinaugurado na ocasião da celebração do 40º aniversário da Proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1862 (Diário do Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1862, na quarta coluna sob o título “O Passeio Público”).
Em 1920, durante a administração do prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), foi demolido o belvedere do parque. Em seu lugar, foi inaugurado, em 1926, o Teatro-Cassino Beira Mar, projeto do arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920). Na administração do prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975) foram demolidos os prédios onde funcionava o Teatro-Cassino, fato abordado na matéria “O Passeio Público e as suas transformações”, publicado em 14 de outubro de 1937, no jornal A Noite. Em junho de 1938, o Passeio Público do Rio de Janeiro foi tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
O Departamento Geral de Parques e Jardins da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos empreendeu uma nova reforma no Passeio Público, recuperando mil metros do parque, em 1988. Dez anos depois, em fevereiro de 1998, foi realizado um trabalho de limpeza no Passeio e, em 1999, seus gradis foram restaurados. Em 2004, passou por outra reforma, que durou cerca de um ano, e foi reinaugurado em 14 de dezembro de 2004 (Jornal do Brasil, 15 de dezembro de 2004).
“Os 33.649 m² de área do Passeio são habitados por espécies vegetais variadas e por algumas espécies animais. O parque possui mais de 90 espécies de grande porte, como mangueiras, goiabeiras, figueiras, pitangueiras, pau-mulato, bambus, coqueiros, palmeira-areca, cacto-rabo-de-rato, bromélias, flamboyants, pés de tamarindo, baobás, gameleiras, pau-rosa, pau-ferro, pau-rei, oitizeiro, carvalho negro do Brasil, jequitibá, ipê roxo, perobeira, palmeira imperial, uma grande amendoeira e até pau-brasil. A fauna é composta por muitas aves que freqüentemente pousam nas árvores e nos jardins, como rolinhas, sabiás, bem-te-vis, saíras-amarelas, garças e beija-flores”.
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
A Brasiliana Fotográfica homenageia os 463 anos de São Paulo, a maior cidade da América do Sul e a quarta maior do mundo, com imagens produzidas pelo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Ele nasceu em Wellhausen, cantão de Thurgau, e foi para Salvador, na Bahia, aos 5 anos de idade. Em 1871, após um período de aprendizado no ateliê de Alberto Henschel (1827 – 1882) na capital baiana, estabeleceu-se como fotógrafo. Destacou-se como retratista e como fotógrafo de paisagens urbanas e rurais. Na década de 1880, Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?) tornou-se seu sócio e, em 1894, a próspera empresa Gaensly & Lindemann abriu uma filial em São Paulo, onde Gaensly foi morar.
Foi o autor de importantes registros do estado e da cidade de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Foi o mais importante divulgador da nova imagem do estado como líder do Brasil.
“As imagens de Gaensly foram fartamente utilizadas pelas primeiras publicações ilustradas, oficiais ou não, num contexto promocional, interessadas em divulgar a imagem do Estado de São Paulo no plano internacional. Gaensly, de sua parte, veicularia amplamente sua produção através dos cartões postais…Se, por um lado, enquanto fotógrafo proprietário de um esta belecimento comercial as vistas urbanas e rurais se incluíam em sua atividade profissional constituindo-se no seu meio de vida, por outro, ele colaborou definitivamente para a construção da imagem oficial da cidade: aquela idealizada pelas elites e pelo Estado, a imagem de uma cidade que se “apresentava” moderna através de estilos “neoclássicos”.
Boris Kossoy in Realidades e ficções na trama fotográfica, 2002
Ao lado de seu contemporâneo Marc Ferrez (1843 – 1923), Gaensly foi provavelmente o fotógrafo mais publicado em postais no Brasil. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte. Na ocasião, a presença da Light representava a modernização da área urbana e dos serviços da cidade.
“Essa documentação, assinada por um fotógrafo plenamente maduro e no auge da carreira, possui particular importância já que Gaensly valia-se ainda da tecnologia e do olhar estético característico da fotografia do final do século XIX, o que lhe permitiu conferir peculiar qualidade a seus registros, fazendo-os mesmo transcender os aspectos estritamente técnicos das imagens que sabia capturar com extremo rigor formal e poder de síntese”.
Catálogo da Exposição comemorativa da doação do Acervo Brascan ao IMS –
Guilherme Gaenly e Augusto Malta: dois mestres da fotografia brasileira no Acervo Brascan, p.10)
Apesar de nunca ter sido o fotógrafo oficial de São Paulo, como foi Augusto Malta (1864 – 1957) no Rio de Janeiro, Gaensly foi o autor de uma abrangente obra sobre a capital paulista nas primeiras décadas do século XX, o que o coloca nessa posição. Ele e Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) são considerados os fotógrafos que mais cultuaram São Paulo. Gaensly fotografou a cidade em plena transição para a modernidade, tendo registrado todos os aspectos urbanos da nova metrópole que surgia. Registrou a inauguração dos bondes elétricos que substituíram as carroças, o Jardim da Luz, a agitação do comércio na região do entorno da Praça da Sé, o crescimento da avenida Paulista, além de palacetes, chácaras, edifícios públicos, igrejas, escolas, teatros e hospitais. Essas vistas de São Paulo foram comercializadas em álbuns impressos na Suíça a partir de fotografias em papel albuminado e de colotipias. Fotografou também a chegada de imigrantes italianos em Santos e em São Paulo. Dentre os prêmios que recebeu, está uma medalha de prata conquistada na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904.
“Guilherme Gaensly foi sem dúvida o fotógrafo que mais aproximou o seu trabalho das necessidades e exigências do ideário republicano de progresso social e material. Dedicado e ativo nas primeiras décadas do século passado, produziu uma visão da metrópole emergente com requinte e elegância, buscando interpretá-la como um espaço urbano harmonioso; uma memória que não ultrapassa o estritamente fotográfico, mas que hoje se evidencia como um dos principais fios condutores da história da cidade”
Rubens Fernandes Junior, in Guilherme Gaensly, 2011
1843 – Em 1º de setembro (provavelmente), nascimento de Wilhelm (Guilherme) Gaensly, em Wellhausen, cantão de Thurgau, na Suíça, fronteira com a atual Alemanha, filho de Jacob Heinrich (c. 1804 – 1868) e Anna Barbara Kin (c. 1813 – 1895). Teve 4 irmãos: Ferdinand (c. 1837 – 1915), Frederick (c. 1838 – 1902), Julia (c.1848 – 1936) e Alaine (c.1852 – ?). Nesse mesmo ano, seu pai veio para o Brasil, repetindo a experiência de primos e irmãos, chegando em Salvador, em 19 de setembro.
1848 – Em julho, chegada de Anna Barbara com os filhos Ferdinand, Frederick e Guilherme em Salvador, na época a segunda cidade mais populosa do Brasil – a primeira era o Rio de Janeiro.
1850/1851 – Criação do Bahia Fremden Kirschhof, o Cemitério dos Estrangeiros. Os pais e irmãos de Gaensly estão enterrados lá, na área dos protestantes.
Década de 1870 – Segundo Kossoy, durante essa década, Gaensly também foi associado ao fotógrafo alemão Joseph Schleier (1827 – 1903), que havia chegado em Salvador em 1851.
1871 – Após um período de aprendizado no ateliê de Henschel, situado na rua da Piedade, 16 (Jornal da Bahia, 16 de setembro de 1871), Gaensly estabeleceu-se como fotógrafo na firma Maison Gaensly & Lange (segundo Kossoy, Waldemar Lange), com a colaboração de Karl Gustaff ( c. 1837 – 1872), alemão que também havia prestado serviços para Henschel. Provavelmente, a Maison Gaensly & Lange ficava na Estrada do Manguinho.
1874 – Segundo Geraldo da Costa Leal em Um cinema chamado saudade (1997), nessa época, o europeu Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (c. 1852 – 19?) já trabalharia com Gaensly.
1875 – No Jornal da Bahia de 29 de agosto de 1875, na página 3, de 31 de agosto, na página 4, e de 4 de setembro, na página 4, foram publicadas propagandas da Photographia do Commercio, de Gaensly, na Ladeira de São Bento, 1. A propaganda foi publicada outra vez em 14 e 19 de abril de 1876 no mesmo jornal.
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1876 – Segundo Kossoy, Gaensly anunciou seu estabelecimento, a Photographia do Commercio, no Largo do Teatro, 1, no Jornal da Bahia, de20 de junho de 1876.
1877 – Foi agraciado com 3 medalhas pelo Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.
A presença de Schleier no catálogo da Exposição de História do Brasil parece confirmar a associação entre ele e Gaensly. As imagens são do Terreiro de Jesus com a cathedral e Faculdade de Medicina (antigo colégio dos jesuitas). Segundo Ricardo Mendes, “Considerando a abrangência do trabalho de Gaensly ao registrar a cidade de Salvador, não teria sentido a inclusão de imagens de locais tão conhecidos, a não ser que se tratasse de uma associação efetiva. De J. Schleier existem poucas referências, além de raras imagens no acervo da Biblioteca Nacional e dos Instituto Geográfico e Histórico da Bahia”.
Nesse ano o endereço de seu ateliê mudou para Largo do Teatro n° 92 – ao lado do Teatro São João – local que anos depois ficaria conhecido como Praça Castro Alves. O estúdio, um grande sobrado, era, provavelmente, também a residência de Gaensly.
Gaensly e Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (c. 1852 – 19?), futuramente seu sócio e cunhado, fotografaram a inauguração do segundo trecho da Estrada de Ferro Central da Bahia, entre São Félix e Tapera, atual Taperi (Diário de Pernambuco, 1º de janeiro de 1882, na última coluna).
1882 – Informava-se ao público novas mudanças e melhorias na Fotografia premiada de Guilherme Gaensly, que além de ateliê fotográfico funcionava também como uma galeria de seus trabalhos e anunciava “a melhor coleção de vistas dos pontos mais bonitos da capital e subúrbios. Chama especial atenção para os retratos de tamanho natural pela câmara solar, retocados por um hábil artista de Paris”. O retoque deveria ser uma referência ao acabamento de fotopintura. (Diário de Notícias, 1 de janeiro de 1882).
Foi agraciado com uma medalha do Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.
Admitiu como ajudante Rodolpho Frederico Francisco Lindemann (c. 1852 – 19?), que no final dessa década tornou-se seu sócio.
1883 – Foi publicado um anúncio do ateliê fotográfico de Gaensly, com a denominação Photographia Gaensly, na Praça de Castro Alves (Diário de Notícias, 4 de abril de 1883).
“O conhecido e acreditado photographo Gaensly” registrou o grupo que estava presente ao lançamento da pedra fundamental para as obras do primeiro engenho central da companhia Bahia Central Sugar Factories, um empreendimento do engenheiro britânicoHugh Wilson, organizador da Companhia Anônima da Imperial Estrada de Ferro Central da Bahia (Jornal do Commercio, 3 de junho de 1883, na primeira coluna).
Foi agraciado com uma medalha do Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.
1884 – Foi agraciado com uma medalha do Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.
1885 – Foi agraciado com uma medalha do Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.
1888- Em 5 de maio, Guilherme casou-se com Ida Itschner (c.1863 – 1933), na residência dos pais da noiva, João Jacob Itschner e Elisabet Wolf Itschner. Teve como testemunhas seu sócio, Rodolfo Lindemann, e um de seus irmãos, Frederick. A cerimônia foi celebrada pelo pastor A.L. Blackford, um dos fundadores da igreja presbiteriana no Brasil.
Rodolfo Lindemann havia se casado com a irmã de Guilherme, Alaine, em 23 de abril, no ateliê fotográfico dele e de Guilherme, tendo como testemunhas os irmãos de Gaensly, Frederick e Ferdinand.
Rodolfo Lindemann havia se casado com a irmã de Guilherme, Alaine, em 23 de abril, no ateliê fotográfico dele e de Guilherme, tendo como testemunhas os irmãos de Gaensly, Frederick e Ferdinand.
Acervo IMS
1889 – Rodolpho Lindemann, do ateliê Gaensly & Lindemann, foi premiado na Exposição Universal de Paris, no Campo de Marte, com uma medalha de bronze com quadros fotográficos da Bahia e de Pernambuco.
1894 – Inauguração da filial da firma Gaensly & Lindemann, em São Paulo, na rua XV de Novembro, 28, onde se concentrava o comércio de alto padrão na capital. Gaensly foi chefiar a sede paulista e Lindemann permaneceu em Salvador. A firma baiana teve seu nome alterado para Photographia Cosmopolita. Tudo indica que a crescente concorrência em Salvador e a queda do desempenho da economia baiana devido à seca foram as causas da abertura do ateliê em São Paulo.
Entre 1894 e 1897, editou a série de grandes estampas fotográficas de São Paulo.
O ateliê fotográfico Gaensly & Lindemann foi o responsável pela produção de um quadro com os retratos de todos os arcebispos da Bahia. Foi organizado por iniciativa de Olavo de Freitas Martins, um dos fundadores do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. “O trabalho artístico do systema photogravura foi executado pelo artista sr. Rodolpho Lindemann, ficando perfeito”. A matéria também informava que a sede paulista do ateliê Gaensly & Lindemann estava produzindo um quadro com os retratos dos arcebispos de São Paulo (Jornal de Recife, 24 de outubro de 1894, na quinta coluna).
As edições de 1894 e 1895 do livro São Paulo, de Gustav Köenigswald, foram ilustradas com as primeiras séries de vistas da capital paulista produzidas por Gaensly.
1895 – Aos 82 anos, faleceu em Salvador a mãe de Gaensly, Anna Barbara.
1896 – Anúncio em francês da Photographia Gaensly & Lindemann, com os endereços em São Paulo – rua Quinze de Novembro,28 – e em Salvador – Largo Castro Alves, 92 (Almanach, 1896).
Elogio à fotografia Otto de bicicleta, produzida pelo ateliê Gaensly & Lindemann, exposta na casa de música do sr. Luiz Levy, na rua Quinze de Novembro, em São Paulo(A Bicycleta, 12 de julho de 1896, na primeira coluna).
No periódico paulista A música para todos, exemplar de dez.1896 / jan.1897, foi anunciada a Photographia Gaensly & Lindemann recomendada aos nossos assinantes. No mesmo anúncio, foi também noticiada a exposição de mais de cinquenta fotografias do ateliê na redação da revista.
1898 – Foi comercializado o álbum “Colleções de 27 cartões com vistas da Cantareira, Jardim Publico, Quartel de Policia, Serra de Santos, Fazendas de Café, Poços de Caldas, Escola Normal de Campinas, Estação de Campinas, Largo de São Bento, Largo do Palacio, Ypiranga e outros”, cartões postais impressos por Victor Vergueiro Steidel (1868 – 1906). Não foi apresentada a autoria das imagens, mas foram, muito provavelmente, baseadas em fotografias de Gaensly, de Paulo Kowalsky e de Marc Ferrez(1843 – 1923). O fotógrafo Kowalsky teria atuado em São Paulo entre 1891 e 1897.
Para a Escola Politécnica, o estúdio Gaensly & Lindemann produziu o quadro de formatura da turma de Engenheiros Geógrafos.
1899 – Gaensly & Lindemann presentearam o Correio Paulistano com “uma bella collecção de bilhetes postais contendo vistas dos principais edificios e dos logares mais pitorescos” de São Paulo (Correio Paulistano, 4 de agosto de 1899, na última coluna). Seria sua primeira série de postais, Lembrança de São Paulo.
Gaensly & Lindemann anunciaram o envio da Grande Collecção de Vistas de São Paulo para a Exposição Universal de Paris de 1900.
Em abril, foi constituída em Toronto, por um grupo de investidores canadenses estimulados por empresários paulistas a The São Paulo Railway, Light and Power Company Limited. Em 17 de junho, a empresa obteve autorização para funcionar no Brasil e logo em seguida iniciou seus trabalhos no país.
Gaensly foi contratado pela companhia e foi seu principal fotógrafo até 1925. Com equipamentos de grande porte (negativos em vidro 24 x 30cm), passou, então, a documentar os trabalhos da empresa, produzindo registros das transformações urbanas de São Paulo, causadas por obras de implantação de linhas de bonde elétrico, de iluminação pública, imagens de casas de máquina e interiores de oficinas de manutenção, além de fotografias da construção de barragens e das hidrelétricas da Light no estado. A primeira fotografia produzida por ele para a Light foi das obras da rua 25 de março, em 5 de julho.
1900 – Terminou a sociedade entre Gaensly & Lindemann, em São Paulo, e Gaensly passou a atuar sozinho na Photographia Gaensly (Alkmanak Lammert, 1901). No mesmo Almanak, consta o ateliê Gaensly & Lindemann, em Salvador.
Produção da segunda série de postais, também denominada Lembrança de São Paulo, dessa vez apenas com a assinatura de Gaensly. A terceira série deve ter sido editada logo em seguida.
1902- As imagens publicadas no primeiro Relatório de Diretoria da Light dirigido aos acionistas no exterior foram baseadas em fotografias de Gaensly e Lindemann, produzidas especificamente para a empresa ou para o álbum Lembrança de São Paulo, editado pelo Instituto Politécnico de Zurique e impresso em colotipia.
O estúdio fotográfico Gaensly & Lindmann continuava funcionando em Salvador (Almanak Laemmert, 1903).
1903- Para “auxiliar a propaganda do café” na Exposição de Saint Louis (1904), Gaensly começou a documentar as instalações e a lavoura cafeeira da colônia americana em Santa Bárbara (Correio Paulistano, 6 de dezembro de 1903).
Gaensly integrou uma comitiva que visitou a Ilha dos Búzios, parte do Arquipélago de Ilhabela, onde seria instalada uma colônica correcional. O conhecido fotógrafo Gaensly tinha a tarefa de tirar vistas dos trechos mais pitorescos e menos conhecidos dos Búzios e das histórias do fortes coloniais de Bertioga, São Sebastião e Villa Bella. Dentre vários, também estavam na expedição o escritor e engenheiro Euclides da Cunha (1866 – 1909), autor de Os Sertões, e o pintor Benedito Calixto (1853 – 1927), além de autoridades como o secretário do Interior de São Paulo e o chefe de polícia (Correio Paulistano, 8 de agosto de 1904, na quarta coluna, e 12 de agosto de 1904, na última coluna).
Na Exposição Mundial de Saint Louis, realizada entre 30 de abril e 1º de dezembro de 1904, Gaensly ganhou medalha de prata na categoria “Photographia” (Almanak Laemmert, 1905).
O estúdio fotográfico Gaensly & Lindmann continuava funcionando em Salvador (Almanak Laemmert, 1905).
1905- Entre 1905 e 1907, nas notas fiscais da Photographia Gaensly existem muitas referências a serviços de reproduções de mapas para a Comissão Geográfica e Geológica.
Início das atividades da Rio de Janeiro Railway, Light and Power Company Limited e contratação do fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957).
Foi publicada uma fotografia de autoria de Gaensly da festa do Club da Guarda Nacional, realizada no Jardim da Luz, em 26 de julho de 1905 (Revista da Semana, 20 de agosto de 1905).
c. 1905 – Gaensly editou uma série no formato postal, que ficou conhecida como a série A, com cinquenta imagens. Foi produzida com uma técnica de impressão que resultava numa melhor visualização, próxima ao da cópia fotográfica.
1910 – Iniciou a produção de um novo conjunto de 50 imagens de São Paulo no formato postal, posteriormente conhecida como a série B.
1911- O naturalista Hermann von Ihering (1850-1930), que dirigiu o Museu Paulista entre 1894 e 1916, pediu à Diretoria de Terras, Colonização e Imigração um coleção de fotografias dos núcleos coloniais “ultimamente tiradas pelo dr. Gaensly” (Correio Paulistano, 29 de abril de 1911, na segunda coluna).
Uma coleção de fotografias de Guilherme Gaensly foi um dos prêmios da rifa organizada por artistas em prol das vítimas de uma inundação ocorrida em Santa Catarina e no Paraná (O Paiz, 18 de dezembro de 1911, na última coluna)
c. 1912 – O ateliê de Gaensly mudou-se para a rua Boa Vista, 39 (Almanak Laemmert, 1913).
1915- Foi publicada no jornal Germania, da comunidade alemã, em 15 de junho de 1914, uma propaganda do ateliê do fotógrafo na rua Boa Vista, 39.
1922 – Fotografou os participantes do Sínodo Presbiteriano Independente reunido em São Paulo em 24 de maio, um importante evento da igreja presbiteriana. A imagem foi publicada na edição de 2 de março de 1922 na capa do jornal O Estandarte eencontra-se arquivada no Centro de Documentação e História Reverendo Vicente Themudo Lessa.
1925 – Gaensly deixou de trabalhar para a The São Paulo Railway, Light and Power Company Limited.
1927 – Último registro do funcionamento de seu ateliê na rua Boa Vista, 39, no Almanak Laemmert de 1927.
1928 – Guilherme Gaensly morreu em 20 de junho de pneumonia, em São Paulo.
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Fontes:
BURGI, Sergio;DIETRICH, Ana Maria;MENDES,Ricardo. Imagens de São Paulo – Gaensly no acervo da Light 1899 – 1925, organização Vera Maria de Barros Ferraz. São Paulo:Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo, 2001.
Catálogo da Exposição comemorativa da doação do Acervo Brascan ao IMS – Guilherme Gaenly e Augusto Malta: dois mestres da fotografia brasileira no Acervo Brascan. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2002
FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.
HANNAVY, John. Encyclopedia of Nineteenth-Century Photography. New York:Taylor and Francis Group, 205.
KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.
KOSSOY, Boris. Origens e Expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro:Funarte, 1980.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo : Ateliê Editorial, 2002.
KOSSOY, Boris. São Paulo, 1900. Rio de Janeiro:Editora Kosmos, 1988.
LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il
LIMA, Solange Ferraz de. São Paulo na virada do século. As imagens da razão urbana: a cidade nos álbuns fotográficos de 1887 a 1919. São Paulo:Universidade de São Paulo, 1995.
OLSZEWSKI FILHA, Sofia. A fotografia e o negro na cidade de Salvador, 1840 – 1914. Salvador:EGBA, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1989.
TEIXEIRA, Cid. Professores de daguerreotipia: eles deixaram a Imagem do Senhor-de-Engenho e Sinhazinhas. Jornal da Bahia, 10 e 11 de novembro de 1963.
TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.
VASQUEZ, Pedro. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.
Para a elaboração dessa cronologia foi realizada uma ampla pesquisa em inúmeros jornais da Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem da Gruta da Imprensa, localizada na Niemeyer, uma das mais bonitas avenidas do Rio de Janeiro. O registro foi produzido por Augusto Malta ( 1864 – 1957), fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, de 1903 a 1937, e pertence ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras do portal. A Gruta da Imprensa foi inaugurada pelo prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), dias antes do início da viagem dos reis da Bélgica ao Brasil, em 1920, e sua denominação foi uma homenagem do prefeito à imprensa carioca (Correio da Manhã, 19 de setembro de 1920, na segunda coluna e O Globo, 10 de março de 1926, sob o título “Loucura que passou”).
“Em meio dessa avenida, a comitiva fez alto para inaugurar a “Gruta da Imprensa”, delicada homenagem do Sr. Prefeito. Trata-se de uma gigantesca laje, que da margem da avenida se aprofunda no oceano, deixando , por um capricho da natureza, larga abertura, formando gruta, de fácil acesso, onde o mar irrompe violento sem, contudo, oferecer perigo. Uma longa escadaria com balaustrada foi construída levando a gruta à entrada da qual o Sr. Carlos Sampaio fez colocar em cimento o dístico: – Gruta da Imprensa” (Jornal do Brasil, 18 de setembro de 1920, na quinta coluna).
Tornou-se, na época, um concorrido ponto turístico. Em 1926, foi cogitada a construção de um bar no local, mas os técnicos responsáveis pelas vistorias alegaram falta de segurança na região e alertaram para o iminente desaparecimento da Gruta, devido à “fácil deterioração pela ação da água” (O Globo, 10 de março de 1926, sob o título “Loucura que passou”). Contrariando as previsões de destruição, a Gruta da Imprensa continua lá, mas já não é uma área de lazer utilizada pelos cariocas. Sua presença foi de novo notada na ocasião do desabamento da Ciclovia Tim Maia, justamente na altura da Gruta da Imprensa, em 21 de abril de 2016, cerca de três meses após sua inauguração.
Durante as corridas de automóveis do Circuito da Gávea ou Trampolim do Diabo, concorrido acontecimento social e esportivo que acontecia no entorno do Morro Dois Irmãos e da Avenida Niemeyer, entre os anos 1933 e 1954, e chegava a reunir até 300 mil espectadores, alguns jornalistas esportivos acompanhavam as provas apoiados na mureta da gruta. Em 1935, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi presenteada pelo pintor Álvaro de Almeida com um quadro retratando a Gruta da Imprensa. Na ocasião, o gesto foi saudado pelo conselheiro da ABI, jornalista Carlos Maul: “É um quadro que tem para nós dupla valia: a de ser uma obra de beleza e a de fixar um dos mais formosos aspectos da paisagem carioca em que um governo da cidade perpetuou o nome da nossa classe. Esse quadro avivará em nosso espírito a memória do símbolo que ele exprime: a resistência heroica a todas as tempestades” (O Globo, 27 de abril de 2016).
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
O centenário do Dia do Fico foi comemorado, no Rio de Janeiro, em 9 de janeiro de 1922, com diversas festividades (O Paiz, 10 de janeiro de 1922). Uma delas foi a inauguração, na igreja do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, localizada na rua Uruguaiana, no Centro, de uma placa esculpida por Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931). A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem da celebração em frente à igreja, produzida pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), na época, fotógrafo oficial da cidade.
Foi justamente dessa igreja que, em 9 de janeiro de 1822, uma comitiva liderada pelo presidente do Senado, José Clemente Pereira (1787 – 1854), saiu para entregar a dom Pedro de Alcântara, posteriormente Pedro I (1798 – 1834), a mensagem do povo do Rio de Janeiro, com mais de oito mil assinaturas, pedindo por sua permanência no Brasil, já que as Cortes Portuguesas haviam ordenado seu regresso a Portugal. Ao apelo, dom Pedro respondeu:
“Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer, demorarei a minha saída até que as Cortes e meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido” (Diário do Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1822).
Porém, a frase que marcou esse acontecimento, mais forte e assertiva do que a do texto original, foi proferida no dia seguinte e daria nome ao episódio que passou para a história do Brasil como o Dia do Fico:
O Dia do Fico foi um passo importante na direção da proclamação da Independência do Brasil , ocorrida cerca de nove meses depois, em 7 de setembro de 1822.
Teresa Cristina Maria, princesa do Reino das Duas Sicílias, nasceu em Nápoles, na Itália, em 14 de março de 1822, filha do rei Francisco I (1777 – 1830), do ramo italiano da Casa de Bourbon, e da infanta Maria Isabel da Espanha (1789 – 1848). Em 30 de maio de 1843, casou-se com dom Pedro II por procuração, em sua cidade natal. Como eles eram primos, tiveram que obter licença de Roma. Em 3 de setembro, ela chegou ao Rio de Janeiro e eles se encontraram pela primeira vez, a bordo da fragata Constituição (Jornal do Commercio, de 4 de setembro, na última coluna; ede 5 de setembro de 1843, na primeira coluna, ambas sob o título “Jornal do Commercio”). Dom Pedro II ficou muito decepcionado com a aparência de sua esposa, fato percebido por ela. Segundo José Murilo de Carvalho, no livro D. Pedro II, ele se sentiu “enganado e queixou-se amargamente a Paulo Barbosa e d. Mariana. Chorou nos ombros do mordomo e reclamou da aia: “Enganaram-me, Dadama!””.
Teresa Cristina foi uma entusiasta da arqueologia, atividade a qual seus antepassados haviam se dedicado em escavações nas cidades italianas de Herculano e Pompéia. Devido a esse interesse da imperatriz, o Brasil possui a maior coleção de arqueologia clássica da América Latina, com cerca de setecentas peças. Na bagagem que trouxe para o Brasil, encontravam-se várias peças provenientes da região da Campânia, na península itálica, que seriam, posteriormente, o núcleo da coleção que recebeu o seu nome e está em exposição no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Além disso, ela patrocinou escavações nas redondezas de Roma e estabeleceu com seu irmão, Fernando II (1810 – 1859) um intercâmbio entre antiguidades pertencentes ao Real Museu Bourbônico e peças de artesanato indígena.
Uma curiosidade: seu nome completo era Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltasar Melchior Januária Rosalía Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bonosa Andréia de Avelino Rita Liutgarda Gertrude Venância Tadea Spiridione Roca Matilde.
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Fontes:
AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina Maria de Bourbon, uma imperatriz silenciada. In: Anais do XX Encontro Regional de História: História e Liberdade. ANPUH/SP – UNESP-Franca. São Paulo, set. 2010.
BESOUCHET, Lídia. Exílio e morte do Imperador. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975
CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975. Cinco Vols.
GUIMARAES, Lucia Maria Paschoal. Teresa Cristina de Bourbon (1822-1889): a face oculta da imperatriz silenciosa. In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, Jul. 2011.
HARING, Bertita. O Trono do Amazonas – a história dos Braganças no Brasil – José Olympio, RJ, 1944.
PRIORE, Mary Del. Condessa de Barral. – Rio de janeiro: Objetiva, 2008.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador. – 2ª Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
A Brasiliana Fotográfica publica o texto Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, curador do portal e coordenador da área de Fotografia do Instituto Moreira Salles, publicado originariamente no livro Marc Ferrez – Rio, editado pelo IMS e pela Steidl, em 2015. Conta um pouco da história da fotografia no Brasil do século XIX, ressaltando a importância de Ferrez na construção da representação visual do Rio de Janeiro.
Sergio Burgi*
Sua estranheza, seu surrealismo, seu onirismo – aos nossos olhos atuais – são resultado de um cuidado extremo de preparação e estruturação da imagem… O registro direto de certos aspectos da realidade pode nos conquistar com muito mais força do que a ficção. Com Ferrez, nós nos deslocamos para aquele momento. Ele procura nos encantar. Ele constrói para o mundo um Brasil do mito, um Brasil da vertigem. Assim é formada essa documentação-ficção que até hoje nos fascina. Ele abre o diafragma da câmera para captar uma fantasia, um sonho de Brasil.
A paisagem é uma marca indelével na história e na representação do Rio de Janeiro. Desde os primeiros relatos sobre a baía de Guanabara, a iconicidade de sua geografia já se fazia presente. Artistas viajantes do século 18 e início do 19 retrataram em desenhos, pinturas e gravuras sua singular localização, incrustada entre o mar e as montanhas, que molda a cidade desde a sua fundação, em 1º de março de 1565.
Os primeiros registros fotográficos feitos do Rio, logo no começo de 1840, são vistas urbanas do Paço Imperial, do Chafariz do Mestre Valentim, na atual Praça xv, e do mosteiro de São Bento, sobre o morro de mesmo nome que se projeta sobre as águas da baía. Todas são tomadas de um pavimento elevado do antigo Hotel Pharoux, na Praça xv. Até essa época, ainda não tinham sido explorados os diversos pontos de vista naturais oferecidos pela própria geografia da cidade, que seriam a marca de toda a documentação fotográfica posterior do Rio de Janeiro. Mesmo assim, essas primeiras imagens já indicam os caminhos que a representação fotográfica da cidade percorreria daí em diante, buscando o registro simultâneo do natural e do construído.
Fotógrafos como Revert Henry Klumb, Victor Frond, Augusto Stahl e Georges Leuzinger produziram entre 1856 e 1875 uma extensa documentação do Rio de Janeiro e de sua paisagem. Marc Ferrez, que iniciou suas atividades profissionais em 1867, interagiu com todos eles e, a partir de 1875, passa a ser o principal fotógrafo do Rio de Janeiro, realizando uma obra única de registro da paisagem urbana e natural da então capital do país.
O Rio de Janeiro do século 19, além de capital política, econômica e cultural do Império, foi também a capital da fotografia. Do ponto de vista quantitativo, esse fenômeno pode ser nitidamente percebido pelo “mapeamento preliminar” elaborado pelo historiador Boris Kossoy sobre as firmas fotográficas que existiam na cidade no período.
Em seu Dicionário histórico-fotográfico brasileiro, editado pelo Instituto Moreira Salles, o pesquisador afirma que “durante o século 19, concentrava-se no Rio de Janeiro o maior número de estabelecimentos. Era, pois, o mais importante centro para a atividade fotográfica no país”.2 Mas a força da fotografia no Rio se expressava ainda na qualidade com que essa atividade era desenvolvida.
Como no resto do mundo, também no Brasil os fotógrafos profissionais operavam suas câmeras em estabelecimentos fixos nas grandes cidades e em ateliês improvisados e ambulantes no interior, sobretudo os retratistas – aliás, o uso mais frequente da fotografia das primeiras décadas foi o de fixar a imagem do homem, não a de vistas ou paisagens. Nos primeiros anos após a apresentação da daguerreotipia, os processos fotográficos se modernizaram com rapidez. O avanço tecnológico, o desenvolvimento de novos processos, com destaque para o negativo-positivo, em poucos anos tornaram obsoleta aquela técnica primeira. Lentes e substâncias químicas fotossensíveis mais eficientes propiciaram uma expressiva melhora do resultado fotográfico. A partir de 1851, à medida que o mercado e o acesso a informações técnicas se expandiam, a obtenção de um negativo de colódio úmido de qualidade para a produção de múltiplas impressões em papel albuminado – processo mais comum na segunda metade do século 19 – foi ficando, aos poucos, menos complexa e mais barata.
Em Paris, com os chamados carte-de-visite, André Adolphe-Eugène Disdéri gerou uma verdadeira febre de retratos. Em vários países, nos anos de 1860, abriram-se estúdios que os produziam em formato carte-de-visite, cabinet e outros, cada vez com menos custo e mais qualidade.
Sem dúvida desde a invenção da daguerreotipia, embora em quantidade muito menor, houve também fotógrafos dedicados a paisagens. As chamadas “vistas” ou “panoramas” eram desafios extremamente atraentes e interessantes para muitos pioneiros, que trabalhavam como os pintores paisagistas antes do advento da fotografia. Existiam muito menos paisagistas que retratistas em parte devido às dificuldades de se trabalhar fora do ateliê, em parte devido à pouca demanda desse tipo de imagem. Se na década de 1860 – apesar das oscilações evidenciadas pelas frequentes mudanças de endereços e associações entre profissionais – a profissão de retratista já formava um mercado, foi somente mais tarde, entre 1870 e 1880, que os especialistas em paisagens passaram a viver de seu ofício. E foi Marc Ferrez o precursor e principal fotógrafo a se dedicar a esse campo da fotografia no Brasil.
Quase metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade do Rio de Janeiro e seu entorno. A outra parte registra as regiões do Brasil que ele regularmente percorreu em seus diversos trabalhos comissionados, tanto como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, em meados dos anos 1870, quanto como fotógrafo das construções ferroviárias no Brasil, especialmente entre 1880 e 1890, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época. Em suas fotografias do Rio de Janeiro, além do espaço construído, registra a exuberância da natureza que a envolve.
Sempre atento às inovações tecnológicas, Marc Ferrez aumentou suas possibilidades de fotografar paisagem com a câmera Brandon, equipamento de fotografia panorâmica de varredura, sendo o único fotógrafo da década de 1880 a fazer esse tipo de registro em grande formato no Brasil, que o levou mais tarde a suas magistrais fotografias de arquitetura produzidas durante a construção da avenida Central no Rio de Janeiro e também a seu envolvimento com a introdução do cinema e da fotografia estereoscópica em cores no Brasil no início do século 20.
Ferrez foi o único fotógrafo no século 19 a percorrer todas as regiões do território nacional e isso o ajudou a se tornar, já em meados dos anos 1870, o principal responsável, em seu século, pela divulgação da imagem do Brasil no exterior, participando de exposições internacionais, publicando imagens em diversas revistas e almanaques do período e por meio da intensa e constante produção e comercialização de imagens do Brasil no seu estabelecimento, na capital do Império.
Ferrez inaugurou seu ateliê durante a Guerra do Paraguai, em 1867, sob o nome Marc Ferrez & Cia., fato confirmado pela pesquisa feita por Maria Inez Turazzi no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro:
“A Casa Marc Ferrez & Cia. envia requerimento à Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, no dia 12 de março [de 1867], solicitando licença para funcionar à rua de São José, 96, bem como o registro de efetuação do pagamento do imposto de indústria e comércio vigente”.3
O primeiro anúncio da loja foi divulgado na edição de 1868 do Almanak Laemmert,4 na seção “Photographos”, à página 671. Ele informava o público da Corte sobre o início do funcionamento, à rua de São José, 96, do empreendimento “Marcos Ferrez & C.”, usando a forma aportuguesada do seu nome e indicando sua associação a outros profissionais. Instalou-se no mesmo endereço onde os fotógrafos Robin & Klumb e Oscar Delaporte tinham se estabelecido no ano anterior, aproveitando a infraestrutura de um ateliê e do laboratório fotográfico, fato comum nas sucessões comerciais fotográficas no século 19. Outra explicação para isso é que Ferrez iniciou sua carreira numa provável associação com Klumb e sob influência de outros fotógrafos paisagistas do período, trabalhando como fotógrafo na capital do Império antes mesmo de 1867.
A hipótese é reforçada pelos carimbos e impressos de Ferrez no período que sucedeu seu primeiro anúncio no Almanak Laemmert. Os cartes-de-visite da época em que ele utilizou a inscrição “Marc Ferrez & Cia.” eram impressos no verso exatamente com o mesmo “Photographia Brazileira” usado por Robin & Klumb. Quando a inscrição na face do carte-de-visite passou a ser apenas “Marc Ferrez”, incluiu-se no verso o nome do fotógrafo, e o termo “Photographia Brazileira” passou a ocupar um espaço menor. Mais tarde, possivelmente a partir de 1872, esse termo deixou de aparecer e os cartões foram graficamente reformulados por completo.
Em um anúncio5 no Jornal do Comércio de 1869, Ferrez ainda usou o “Photographia Brazileira”. Em inglês, ele oferece fotografias de paisagem do Rio de Janeiro e arredores e variados serviços de fotografia: “specialty of views of Rio and surroundings of all dimensions. Views taken of chacras [sic], ships, monuments, etc., etc. of all sizes at resoable [sic] rates”. Em 1881, Marc Ferrez publicou um pequeno catálogo intitulado Exposição de paisagens photographicas. Productos do artista brasileiro Marc Ferrez, photographo da Marinha Imperial e da Comissão Geologica em que declara: “Este estabelecimento dedicado especialmente a fazer vistas do Brazil foi fundado em 1860” – provavelmente se referindo ao empreendimento “Photographia Brazileira”, cujo início foi justamente nessa década.
“O sr. Henrique Klumb, discípulo dos melhores professores de Paris (Mayer, Disderé [sic] e Belloc), dono deste magnífico estabelecimento, o primeiro deste gênero no Brasil, tem a honra de avisar aos amantes das bellas artes e ao respeitável público que domingo, 4 do corrente, abrirá a sua galeria de exposição, onde se poderá julgar o alto ponto de perfeição a que tem levado este insigne professor a arte do daguerreótipo”.
Além da daguerreotipia, Klumb tinha trabalhado, já em 1856, com negativos de colódio úmido, produzindo retratos, vistas e vistas estereoscópicas sobre papel salinizado e albuminado. Em 1866 transferiu-se para Petrópolis, onde fez um excepcional trabalho de fotografia de paisagem, exposto naquela cidade em 1875. Dois aspectos devem ser ressaltados nessa série de imagens de Petrópolis: os registros dos céus e nuvens e as fotografias que sugerem registros noturnos. O desafio de Klumb, em ambas as situações, é antes de tudo a luz e seu pleno domínio. Considerando que ele tenha trabalhado no período em que os fotógrafos preparavam cada chapa de vidro de colódio úmido, os resultados são excepcionais.
Os originais dessa série em albumina fotografada em Petrópolis e muitos de seus negativos hoje fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles. Esse conjunto representa uma das mais importantes descobertas da fotografia brasileira do século 19. Os negativos deixam claro que o registro da área de céu nessas imagens foi obtido diretamente e evidenciam o elaborado trabalho de Klumb para controlar a exposição à luz e para formular suas emulsões de colódio, que lhe permitiram fotografar as nuvens simultaneamente à paisagem.
Os negativos de Klumb integram o conjunto de negativos de Marc Ferrez pertencentes à Coleção Gilberto Ferrez/Acervo IMS, mais um fato que reforça a hipótese de que os dois fotógrafos tenham trabalhado juntos já em meados da década de 1860, sem contar a existência de pelo menos três negativos de Klumb cujo retratado muito possivelmente seja o próprio Marc Ferrez. O estudo do trabalho de Klumb feito no início da década de 1870 em Petrópolis permite também uma comparação direta com a obra de Marc Ferrez do mesmo período. Em 1875, Ferrez produziu paisagens do Brasil para a Comissão Geológica do Império com uma abordagem semelhante, registrando o rio São Francisco, a cachoeira de Paulo Afonso e o Recife em imagens com uma importante presença de céus e nuvens. O exame comparativo dos negativos originais de Klumb e Ferrez desse período revela semelhanças de procedimentos e de técnica que permitem supor que os dois fotógrafos mantiveram parceria por mais ou menos uma década (1865 e 1875), e por isso é realmente muito provável que a indicação “Photographia Brazileira” nas obras de Ferrez não se deva apenas à sucessão comercial entre eles. Ferrez, em seu catálogo de 1881, Exposição de paisagens photographicas, escreve: “As vistas de effeito de luar obtidas por meios chimicos descobertos pelo photographo dono do estabelecimento são entregues pelos mesmos preços, acima indicados”, ou seja, talvez ele tenha trabalhado com Klumb na busca de soluções para o registro de nuvens e também para os chamados “efeitos noturnos” ou “efeitos de luar” nessa série de Petrópolis.
Único no Brasil do século 19 a fazer de seu trabalho documental e de paisagem uma atividade exclusiva e rentável por mais de 50 anos, Ferrez passou a ocupar um lugar cada vez mais destacado entre os fotógrafos da corte. Frond tinha deixado a cidade em 1862. Klumb e Stahl também já não trabalhavam no Rio de Janeiro desde o início da década de 1870. Com o encerramento das atividades fotográficas da Casa Leuzinger, em 1875, nenhum fotógrafo paisagista de renome permaneceu ativo na capital do Império além de Ferrez, que se dedicou naquela década à reconstrução de sua vida profissional após o incêndio que destruiu em 1873 seu ateliê, onde também morava, à rua de São José.
A partir desse período, Ferrez engajou-se em grandes projetos documentais comissionados pelo governo, fazendo o acompanhamento fotográfico das obras de construção e expansão de ferrovias, de captação e abastecimento de água, do cultivo de café, então o principal produto de exportação do país, e como fotógrafo da Marinha Imperial. Foi nessa época que Ferrez se consolidou como o maior fotógrafo paisagista do século 19 no Brasil.
Aos 32 anos, quando trabalhava para a Comissão Geológica do Império (1875 e 1876), principal missão científica do país financiada pelo governo, o artista já estava em seu pleno domínio técnico. Seu controle de luz e sua precisão na escolha do ponto de vista ressaltaram com mestria os aspectos formais das cenas registradas. O elemento humano participa de maneira discreta, conferindo escala aos cenários naturais ou urbanos e levando o olhar a percorrer a imagem em todas as suas dimensões.
O trabalho feito por Ferrez para a Comissão Geológica coloca-o definitivamente no mesmo patamar de outros importantes fotógrafos viajantes do século 19, como Francis Frith, no Egito, Samuel Bourne, na Índia, John Thomson, na China, e Carleton E. Watkins, nos Estados Unidos. Foi com esse trabalho que sua atividade profissional como fotógrafo de paisagem evoluiu, pois precisou na época buscar soluções técnicas ainda mais arrojadas. Aprimorou as vistas panorâmicas e adquiriu em 1878, em Paris, o aparelho inventado e construído por David Hunter Brandon. Aperfeiçoado por Ferrez, o equipamento permitia a produção de vistas panorâmicas sobre chapas de vidro de 40 x 110 cm.
O que caracteriza a produção de Ferrez no final dos anos 1870 e início dos anos 1880 é justamente o constante investimento em câmeras de grande formato e panorâmicas, como a câmera panorâmica de varredura Brandon, e por isso foi o único fotógrafo comissionado brasileiro capaz de operar no limite das possibilidades técnicas e formais daquele momento. O emprego de negativos de vidro de grande formato (42 x 52 cm) atinge seu maior virtuosismo na série sobre a construção da avenida Central e de edificações associadas a ela, a que se dedicou de 1903 a 1911. A imagem do Teatro Municipal, feita em negativo de vidro de formato 42 x 52 cm, expressa todo seu domínio em operar equipamentos de ponta e de grande porte, tanto pela qualidade da imagem como pelo rigor de sua estruturação formal.
Adotadas desde o início da carreira e raras entre os demais estúdios fotográficos do período, as paisagens naturais e vistas urbanas compõem a mais poderosa vertente de seu trabalho, imagens únicas que marcariam para sempre a iconografia brasileira do século 19. Ferrez percorre os arredores da cidade, seja na montanha ou na baía, construindo uma visão pessoal e poética do espaço urbano com suas fotografias dos locais de fronteira entre o natural e o construído, áreas mágicas que até hoje caracterizam a grande metrópole em que se transformou a cidade do Rio de Janeiro ao longo do século 20.6
Da paisagem ao retrato: associações e parcerias
A maior parte dos retratos de Marc Ferrez foi produzida fora de estúdio, normalmente durante seus trabalhos comissionados. Destacam-se aqui os retratos dos índios Botocudo, no sul da Bahia, feitos em 1875 e 1876 quando trabalhou na Comissão Geológica do Império; as vendedoras negras nos mercados do Rio de Janeiro, também na década de 1870; e os retratos do imperador d. Pedro II, da princesa Isabel e do conde D’Eu, em meados de 1880.
Em muitos de seus trabalhos, retratou personalidades do mundo científico, como o geólogo Charles Frederick Hartt, diretor da Comissão Geológica do Império, e Paul Ferrand, professor da Escola de Minas de Ouro Preto, ambos em plena atividade. São registros que combinam um forte senso de estruturação da fotografia de paisagem com a presença da figura humana em escala, porém aqui com o objetivo de realização de um retrato ambientado, onde paisagem e retratado se fundem em um único registro que combina a vertente paisagística de Ferrez com o retrato de personalidades em sua atividade profissional. Outros retratos, como o de Luís Cruls, astrônomo e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, são evidência de seu relacionamento profissional e colaboração com o meio científico da época, também exemplificado por seu trabalho em associação com Henrique Morize, engenheiro, geógrafo, astrônomo e catedrático de física experimental na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com quem Ferrez realizou experiências fotográficas com raios-x.
A trajetória de Ferrez é, portanto, marcada por um permanente convívio com as atividades culturais e científicas de sua época e também por um contato permanente com os principais desenvolvimentos tecnológicos do período. Como principal fotógrafo das ferrovias e das obras de abastecimento de água, por exemplo, realizará retratos emblemáticos do imperador e suas comitivas em imagens hoje referenciais dentro de sua produção fotográfica. Fruto dessa convivência com intelectuais e cientistas, e também com o próprio imperador d. Pedro ii, podemos citar também os retratos que Ferrez realiza da própria família imperial, inclusive em registros mais privados, como os da Princesa Isabel e da Baronesa de Muritiba no Paço Isabel, hoje Palácio Guanabara, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Ferrez buscou ampliar a representação da paisagem social e humana do país em sua obra com projetos fotográficos e editoriais desenvolvidos em parceria com outros editores e fotógrafos, como Henri Gustave Lombaerts e Joaquim Insley Pacheco. Análises recentes em seus negativos indicam que retratos antes atribuídos exclusivamente a ele foram na verdade feitos por outros fotógrafos, mas integram seu acervo justamente por causa desses projetos desenvolvidos em parceria entre 1880 e 1910, principalmente os editoriais (nos quais foram usados processos fotomecânicos da época, como a colotipia e a fotogravura). Alguns desses negativos, sobretudo os das séries de retratos, portanto, ou são de outros autores ou foram feitos em conjunto com fotógrafos com os quais Ferrez associou-se por muito tempo, como Joaquim Insley Pacheco, possível autor do retrato de Machado de Assis, conforme indicam documentos recentemente localizados na Biblioteca Nacional.
Entre os registros de índios, em especial de Goiás, sabe-se que algumas imagens são de autoria do fotógrafo José Severino Soares. Já entre as fotografias de ambulantes, a revisão do acervo de negativos originais evidenciou que alguns deles trazem a assinatura de Gomes Junior, o que indica que essa série do início do século 20 ou foi incorporada ao acervo de Ferrez por aquisição ou comissionamento, ou possivelmente desenvolvida em conjunto pelos dois fotógrafos.
As novas informações sobre sua obra reafirmam a clara opção de Marc Ferrez pela fotografia de paisagem, à qual se dedicou durante toda sua trajetória profissional e que o levou também a desenvolver sua linguagem autoral e a expandir os limites da representação visual do período. Além disso, estendeu suas ações (nesse caso principalmente como editor e produtor) para outros segmentos, como a impressão fotomecânica, alguns campos do retrato, a fotografia estereoscópica e em cores (autocromos), e também o cinema, na maioria das vezes associando-se a outros profissionais, inclusive seus filhos Júlio e Luciano, que a partir de 1905 integraram a sociedade Casa Marc Ferrez & Filhos. O acervo de mais de cinquenta anos de carreira evidencia suas diversas associações profissionais, que vão desde sua provável parceria nos anos 1860 com Revert Henry Klumb até, por exemplo, seus projetos editoriais feitos com processos fotomecânicos do final do século 19 e início do século 20.
Graças à preservação de seu acervo, que inclui a expressiva série de mais de cinco mil negativos de vidro originais hoje reunidos no IMS, além de milhares de tiragens originais, entre fotografias, estereoscopias, autocromos e impressões fotomecânicas, a trajetória de Marc Ferrez em todas as suas fases pode hoje ser pesquisada e reconstruída. Esta publicação é mais um passo nessa direção.
1 – Laurent Gervereau, “Da foto ao filme”, in O Brasil de Marc Ferrez, São Paulo: Instituto Moreira Salles. 2005. p. 115
2 – Boris Kossoy, Dicionário Histórico Fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833 – 1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002, p, 27
3 – Maria Inez Turazzi, Marc Ferrez. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p. 113
4 – O Almanak Laemmert, periódico anual, é editado pela primeira vez em 1844 no Rio de Janeiro pelos irmãos Henrique Eduardo Laemmert. Foi publicado até o século XX. Reuniu as informações mais importantes sobre o Rio de Janeiro, até 1889, capital do Império e em seguida capital da República.
5 – Jornal do Comércio, 6 de junho de 1869, p. 3
6 – Este texto baseia-se, em sua primeira parte, no trabalho de pesquisa feito por Sergio Burgi e Frank Stephen Kohl, publicado anteriormente em Sergio Burgi; Frank Stephen Kohl. “O fotógrafo e seus contemporâneos: influências e confluências”, in INSTITUTO MOREIRA SALLES, O Brasil de Marc Ferrez. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2005
Fontes:
INSTITUTO MOREIRA SALLES. O Brasil de Marc Ferrez. São Paulo: IMS, 2005.
Prata, José Expedicto (org). O álbum de Jorge Henrique. São Paulo. Edição do autor, 2014.
Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.
“E é nesse entorno que Ferrez fez muitas das imagens que melhor representam o seu trabalho de um ponto de vista mais pessoal e autoral…”. ¹
Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior. Em meados dos anos 1870, integrou a Comissão Geológica do Império. Tornou-se nos anos 1870 Fotógrafo da Marinha Imperial.
De 1877 até o final da década de 1880, foi o responsável pela produção da documentação fotográfica das obras destinadas a melhorar o abastecimento de água no Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, de 28 de junho de 1889, na segunda coluna, sob o título “Águas do rio S. Pedro”). Este trabalho comissionado de Marc Ferrez resultou em oito álbuns com os registros fotográficos das obras de abastecimento de água. Três deles foram presenteados a dom Pedro II, em 1889, último ano do regime imperial no Brasil. Outros três foram dados ao engenheiro Francisco de Paula Bicalho (1847-1919), diretor das Águas da Corte. Entre 1880 e 1890, fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.
Sua trajetória profissional foi marcada por uma ligação permanente com atividades culturais e científicas e também por um contato permanente com os principais desenvolvimentos tecnológicos de sua época. A importância da obra de Ferrez vai além de sua quantidade e qualidade. Ela foi também um compêndio dos formatos e processos experimentados pela fotografia entre fins da década de 1860 até a morte do fotógrafo, em 1923.
Marc Ferrez aumentou suas possibilidades de fotografar paisagens ao adquirir, em 1878, uma câmera Brandon, equipamento de fotografia panorâmica de varredura. Foi o único fotógrafo da década de 1880 a fazer esse tipo de registro em grande formato no Brasil, fato que o levou, mais tarde, a produzir suas magistrais fotografias de arquitetura durante a construção da avenida Central, no Rio de Janeiro, e também a seu envolvimento com a introdução do cinema e da fotografia estereoscópica em cores no Brasil, no início do século XX.
Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (1797 – 1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (18? – 1851). Seu pai, um escultor e gravador francês, havia chegado com o irmão Marc (Marcos), no Rio de Janeiro, em 1817. Os dois passaram a integrar a Missão Francesa, que havia se instalado na cidade no ano anterior. Zeferino tornou-se um dos primeiros autores de medalhas comemorativas cunhadas no Brasil e foi também um dos pioneiros nas indústria de fabricação de botões, de canos de ferro e de papel. Seu irmão, o escultor Marcos (1788 – 1850), homônimo do fotógrafo, tornou-se catedrático de escultura da Academia Imperial de Belas Artes.
A maior parte das fontes indica que, depois do falecimento de seus pais em 1851, Marc foi viver em Paris com o gravador de medalhas Joseph Eugène Dubois. De volta ao Brasil, atuou sempre como fotógrafo e faleceu em 12 de janeiro de 1923 na capital que o acolheu e ele eternizou com sua arte ( O Paiz, 14 de janeiro de 1923, última notícia da sexta coluna e Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1923, na última coluna).
“Há nas suas paisagens…uma nota artística sempre: a escolha do ponto de vista denotava no fotógrafo a existência daquela divina centelha de arte que dá o toque de poesia às frias imagens que a objetiva mecanicamente registra”.
1843 – O fotógrafo Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro, sexto e último filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (31/07/1797 – 22/07/1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (18? – 1851), que se casaram em 16 de junho de 1821, na igreja do Santíssimo Sacramento e passaram a residir na rua do Hospício, 62. Seu pai, o escultor e gravador francês Zeferino, e seu tio Marc (Marcos) Ferrez (14/09/1788 – 31/03/1850), também escultor, chegaram ao Rio de Janeiro, via Nova York, conforme informado nos livros da polícia de Registros Estrangeiros guardados no Arquivo Nacional. Eram formados pela Escola de Belas Artes de Paris e passaram a integrar a Missão Francesa, um dos marcos do desenvolvimento das artes no Brasil, que havia se instalado na cidade em 1816, chefiada por Joachim Le Breton (1760 – 1819) (O Despertador, 7 de março de 1840, na quarta coluna). Os irmãos de Marc Ferrez eram Fanny (1822 – 1902), Isabelle (18? – ?), Augustine Emile (1826 – 1904), afilhada do casal Grandjean de Montigny; Sophie (1831 – 1877) e Maurice (1835 – 1886). Marc não foi registrado na Legação Francesa.
1850 - Falecimento de seu tio, o escultor e seu homônimo, Marc (Marcos) Ferrez, em 31 de março, de febre amarela.
1851- Em 20 de maio, Zeferino obteve a autorização da Secretaria de Polícia para embarcar para a França em “companhia de um filho menor”, Maurice ou Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 21 de maio de 1851, na terceira coluna). Há uma possibilidade dele não ter embarcado porque, segundo especialistas, devido à duração da travessia entre o Brasil e a Europa não haveria tempo hábil para ele estar de volta em meados de julho, quando faleceu no Rio de Janeiro.
Segundo Gilberto Ferrez, seu neto, Marc Ferrez teria ido viver em Paris com o gravador de medalhas Joseph Eugène Dubois (1795 – 1863) e sua esposa Uranie Virginie Béthune. Porém, segundo a revista Palcos e Telas, de 8 de abril de 1920, Marc Ferrez já estaria em Paris quando ficou órfão. Segundo a mesma matéria, Marc Ferrez teria ficado na França até completar 21 anos. Gilberto Ferrez, afirmava que o avô teria retornado ao Brasil com 16 anos. Há muitas informações controversas a respeito da vida de Marc Ferrez no período em que morou em Paris.
Em 11 de agosto de 1951, foi realizado o inventário de Zeferino. Nele constava que o fotógrafo suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892) era o tutor do irmão de Marc Ferrez, Maurice. Apesar de ser suíço, Leuzinger mantinha muitas relações com a colônia francesa do Rio de Janeiro por ter se casado com a francesa Anne Antoinette du Authier (1822 – 1898), conhecida como Eleonore. Também informava que uma das filhas de Zeferino, Isabelle, era casada com Guillaume Keller, sub-rogado no documento como tutor de Marc. Ainda não se sabe se Guillaume era parente de Franz Keller, casado com Sabine, uma das filhas de Georges Leuzinger. Em outro documento, Amedée Poindrelle, marido de sua irmã Fanny, era apontado como o tutor de Marc.
c. 1863 – Marc Ferrez retornou ao Brasil. Segundo seu neto, o historiador Gilberto Ferrez (1908 – 2000), Marc teria aprendido a arte da fotografia com o engenheiro e botânico alemão Franz Keller (1835 – 1890), que trabalharia como fotógrafo no ateliê de Georges Leuzinger, aberto em 1865. Uma carta enviada em 17 de janeiro de 1923 por um amigo de Ferrez, Luiz Carlos Franco, a seus filhos Julio e Luciano após a a morte do fotógrafo, confirma que Ferrez havia trabalhado para Leuzinger. Porém, a participação de Franz Keller no ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável. Na verdade, até hoje não foi comprovada, e na década de 1860, Keller fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai, Joseph, explorando rios do país, sob contrato do governo imperial.
Foi também por volta dessa data que Ferrez requereu um registro de nascimento e batizado junto à Legação Francesa no Rio de Janeiro, que foi assinada pelo chanceler Théodore Taunay (1797-1881) e pelo próprio Ferrez, emitida em 12 de agosto de 1863.
1865 / 1875 – Durante esse período, provavelmente Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Ferrez mantiveram uma parceria. A suposição existe devido a exames comparativos dos negativos originais dos fotógrafos que revelam semelhanças de procedimentos e de técnica.
1867 – Em 12 de março, Marc Ferrez enviou requerimento à Câmara Municipal do Rio de Janeiro para obter licença para que seu estabelecimento fotográfico funcionasse na rua São José, 96, sob a razão comercial Marc Ferrez & Cia. Nesse ano, o fotógrafo Oscar Delaporte e o artista gráfico Paul Théodore Robin (? – 1897) anunciavam seus estabelecimentos nesse mesmo endereço. Este último era dirigido pelo fotógrafo Revert Henrique Klumb (Almanak Laemmert, 1867). Durante o século XIX, era comum fotógrafos utilizarem os mesmos espaços anteriormente usados por outros fotógrafos para aproveitar a infraestrutura e o laboratório fotográfico já existente. Segundo Gilberto Ferrez, Marc já teria sua loja desde 1865.
Pela primeira vez, o Almanak Laemmert se referiu a Marc Ferrez na seção “Fotógrafos”. O endereço de seu ateliê era rua São José, 96.
1869 – Publicação de um anúncio, em inglês, do estabelecimento de Ferrez, que ainda usava o nome de Photographia Brazileira, anunciando vistas do Rio de Janeiro e de seus arredores em todas as dimensões (Jornal do Commercio, 6 de junho de 1869, na segunda coluna).
1870- Em 10 de julho, Ferrez fotografou o “Monumento à Deusa da Vitória” e o “Templo da Vitória”, localizados no Campo da Aclamação, durante as comemorações ocorridas no Rio de Janeiro pelo fim da Guerra do Paraguai – foi a primeira festa cívica do império. Uma das imagens das comemorações foi doada a dom Pedro II (Jornal do Commercio, 11 de julho de 1870, na quarta coluna).
Nos versos de seus cartões de montagem e fotografias estava inscrito “Marc Ferrez. Fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navais do Rio de Janeiro”. Provavelmente a nomeação de Ferrez como fotógrafo oficial da Marinha relacionava-se com o lançamento do Plano para a Organização da Força Naval do Império que previa a renovação da frota com embarcações de diversos tipos, o que aconteceu nas décadas de 1870 e 1880. Ferrez registrou fotograficamente esses novos navios.
1872 – Ferrez divulgou no Almanak Laemmert sua “especialidade de vistas do Brasil”, indicando que seu estabelecimento ficava na rua São José, 96.
No mês de março, fotografou a comemoração pela chegada do casal imperial ao Brasil, após viagem pela Europa. Foi a primeira viagem ao exterior que dom Pedro II realizou em companhia da imperatriz Teresa Cristina (Diário do Rio de Janeiro, 1º de abril de 1872).
1873 – A comissão de organização da III Exposição Nacional, aberta em 1º de janeiro, encomendou de Ferrez fotografias do edifício da Escola Central da Corte, onde o evento se realizou. Suas fotografias do palácio da exposição e da cascata construída em seu pátio foram enviadas para a Exposição Universal de Viena realizada no mesmo ano sob o tema “Cultura e Educação”.
Ferrez casou-se com a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914) em 16 de agosto. Cerca de um mês antes, em 13 de julho, foram lidas as proclamas do casamento na capela imperial (A República, 20 de julho de 1873, na quarta coluna).
1874 – Viajou para a França, graças à ajuda de seu amigo Júlio Claudio Chaigneau (? – 1894), negociante de artigos fotográficos. Em Paris, adquiriu material para recomeçar sua vida profissional de fotógrafo. Encontrou-se com seu amigo Alfée Dubois (1831 – 1905), de quem o Institut de France havia encomendado a cunhagem de moedas comemorativas de eventos astronômicos. Posteriormente, o Instituto enviou por Marc Ferrez três medalhas para dom Pedro II, em reconhecimento à colaboração do monarca brasileiro à ciência. Foram ofertadas por Jean-Baptiste Dumas (1800-1884), Secretário Perpétuo do Institut de France. As medalhas são relativas à descoberta do centésimo planeta pequeno, à descoberta do processo de observação das protuberâncias do sol e a terceira era uma homenagem ao químico francês Michel Eugène Chevreul (1786 – 1889). Provavelmente as medalhas foram entregues pessoalmente por Ferrez a Pedro II em uma visita que realizou ao Paço Imperial (Diário do Rio de Janeiro, 18 de maio de 1874, na primeira coluna).
1875- Marc ingressou, em fevereiro, na Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, como irmão remido.
Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro. Segundo Gilberto Ferrez, foi durante essa viagem que Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.
Carimbo de Marc Ferrez. Rio de Janeiro, c. 1875 / Acervo IMS
Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna. sob o título “Norte do Império”).
Ferrez apresentou na Exposição de Obras Públicas, evento paralelo à IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (O Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna).
A mulher de Ferrez, Marie Lefebvre foi retratada pelo renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), radicado no Rio de Janeiro.
1876 -O New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na Exposição Universal da Filadélfia aberta em 10 de maio. Fotografias de Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império foram premiadas com medalha (The Rio News, 5 de agosto de 1879). Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.
Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na revista Illustração Brasileira, 1ºde agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.
O livro A Descrição do novo edifício para a Tipografia Nacional, publicado pelo engenheiro Antonio de Paula Freitas (1845 – 1906), foi ilustrado por gravuras baseadas em fotografias de Marc Ferrez.
O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.
Foi anunciada a exposição de quatro fotografias de autoria de Marc Ferrez, na galeria da A la Glacê Elegante, situada na rua do Ouvidor, 138.Eram imagens do “importante estabelecimento hidroterápico e casa de saúde do sr. dr. Fernando Eiras (Jornal do Commercio, 11 de setembro de 1877, na quarta coluna). Na A la Glacê Elegante, outra exposição de fotografias de Ferrez, desta vez do engenho central Quissamã (Gazeta de Notícias. 12 de outubro de 1877, na quarta coluna). Ferrez voltaria a expor várias vezes na A la Glacê Elegante, loja de molduras, que assim como outros estabelecimentos como o Espelho Fiel e a Casa de Wilde, em meio a seus produtos, abriam espaço para exposições de obras de arte ou novidades do mundo artístico-industrial. Por exemplo, em 1878, o artista italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900) expôs suas pinturas na A la Glacê Elegante.
Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Brenner e mno laboratório pelo Sr. Ratbunn, que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão“(O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877).
1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.
Viajou para a França na época da Exposição Universal de Paris, quando apresentou o mesmo panorama do Rio de Janeiro que havia exposto na Exposição Universal da Filadélfia, em 1876. Participou de reuniões da da Sociedade Francesa de Fotografia apresentando imagens de paisagens brasileiras de sua autoria e retratos produzidos pelo fotógrafo Insley Pacheco (1830 – 1912). Ferrez comprou o aparelho panorâmico de varredura, fabricado por David Hunter Brandon (1821 – 1893) sob sua encomenda. Com esse equipamento, que pesava mais de 100 quilos, era possível produzir grandes imagens panorâmicas de até 1 metro e 10 centímetros sem as distorções muitas vezes provocadas pela justaposição de várias fotografias para a formação de uma única imagem.
1879 – Matéria bem humorada sobre o ofício da fotografia. Segundo o autor, “as crianças é que são o pesadelo, a ave agoureira” dos fotógrafos. Devido a elas Ferrez e outros fotógrafos estariam “avelhantados e cheio de cans” (Jornal do Commercio, 20 de janeiro, sob o título “Photographos”).
Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro, 15 de outubro, 5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.
Anos 1880 – Começou a desenvolver a atividade de comerciante e representante de produtos e artigos para fotografia, de onde conseguia boa parte de sua renda. Entre 1880 e 1910, desenvolveu vários projetos em parceria com editores e fotógrafos, dentre eles Henri Gustave Lombaerts (1845-1897), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912) e Gomes Junior.
1880 – No mês de junho, Ferrez fotografou o evento comemorativo do tricentenário de morte do poeta português Luis de Camões (c. 1524 – 1589 ou 1580), a Exposição Camoniana, inaugurada em 10 de junho na Biblioteca Nacional, então denominada Biblioteca Pública. Um desses registros foi oferecido à instituição por dom Pedro II.
Na casa do litógrafo Jules Martin, foi realizada uma exposição de fotografias de Ferrez produzidas no interior de São Paulo e na cidade de Santos, onde havia estado pela primeira vez (Jornal da Tarde, 29 de setembro de 1880, na terceira coluna).
1881- Nascimento do primeiro filho do casal Ferrez, Julio Marc (1881 – 1946), em 14 de abril.
Na Exposição da Indústria Nacional, organizada por Jorge Henrique Leuzinger (1845 -1908), secretário da Associação Industrial e filho do fotógrafo Georges Leuzinger (1813 – 1892), Ferrez apresentou fotografias realizadas com a câmara panorâmica Brandon e ganhou o grande prêmio da mostra (O Binóculo, 23 de dezembro de 1881).
Publicou o folheto Exposição de paisagens fotográficas produtos do artista brasileiro Marc Ferrez Fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica, onde em 10 páginas divulgava seu trabalho. Nesse folheto declarava que seu estabelecimento, “dedicado especialmente a fazer vistas do Brasil”, havia sido fundado em 1860. Segundo Maria Inez Turazzi, a data coincide com a inauguração da oficina de fotografia e ambrótipo do litógrafo Paul Théodore Robin (? – 1897), com quem Ferrez pode ter trabalhado.
A Coroa imperial comprou, por 200 mil réis, quatro fotografias produzidas por Ferrez do Campo da Aclamação. No local havia sido instaladas as novas lâmpadas de filamento inventadas pelo industrial norte-americano Thomas Edison (1847 – 1931).
1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março (a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600m2), com as fotografias apresentadas na Exposição da Indústria Nacional do ano anterior e foi premiado com uma medalha de prata e um prêmio ao mérito.
Fotografou na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, uma série de registros de objetos e aspectos da vida indígena. Algumas fotografias de sua autoria também foram expostas. A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes.
Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).
1882 / 1883 – A fotomontagem feita por Ferrez de imagens de Antônio Luiz von Hoonholtz Tezpur, o Barão de Teffé (1837 – 1931), do capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça (1849 – 1906) e do tenente Arthur Índio do Brasil e Silva (1856 – 1936) , os três homens encarregados pelo Observatório Imperial do Brasil para observar o trânsito de Vênus sobre o Sol, na ilha de São Tomás nas Antilhas, fez parte da publicação Comissão Astronômica Brasileira – Passagem de Vênus de 6 de dezembro de 1882, álbum comemorativo da participação brasileira no esforço internacional para acompanhar o citado evento astronômico. Com esse objetivo havia sido criado um observatório pelo Observatório Imperial, em homenagem a dom Pedro II (1825 – 1891), na ilha de São Tomás nas Índias Ocidentais Dinamarquesas (atualmente Ilhas Virgens Americanas). Esse trânsitos ofereciam a oportunidade de determinação da distância entre a Terra e o Sol e houve grande interesse científico e público nos trânsitos de 1874 e 1882.
1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).
Participou da Exposição Internacional de Amsterdam, realizada entre maio e outubro de 1883, com 24 grandes fotografias do Rio de Janeiro, de Santos, de Petrópolis e de outros lugares do interior do Brasil, tendo sido premiado com a medalha de bronze (Jornal do Commercio, 9 de outubro de 1883, na sétima coluna).
c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba). O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.
1884- Nascimento do segundo filho do casal Ferrez, Luciano José André (1884 – 1955), em 9 de fevereiro.
Exposição, na Notre Dame de Paris, de um retrato do astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, “trabalho artístico obtido pelo novo sistema de gelatino-bromureto, especialidade do sr. Marc Ferrez, clichê do sr. Insley Pacheco”(Jornal do Commercio, 4 de julho de 1884, na última coluna).
Fotografias de Ferrez ilustravam a matéria escrita por Arthur Barreiros sobre o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, publicada na segunda edição da revista Galeria Contemporânea do Brasil (O Cearense, 29 de agosto de 1884, na terceira coluna).
Na primeira edição da revista Galeria Contemporânea do Brasil, publicação de uma fotografia de Machado de Assis, identificada como uma fotografia inalterável de Marc Ferrez e clichê de Insley Pacheco (Revista Ilustrada, 31 de agosto de 1884, na seção “Livros a ler”). Já na época, a Revista Ilustrada comentou o que parecia ser uma imprecisão na identificação da autoria da fotografia de Machado e documentos recentemente localizados na Biblioteca Nacional indicam Insley Pacheco como possível autor desse retrato.
Na “Seção de Fotografia” na Exposição Geral de Belas Artes, exibiu as fotografias Gaúcho do Rio Grande, Fragata Pallas, Fragata inglesa Amethyst, Cruzador brasileiro Almirante Barroso, Passeio pela baía e Amazona e cavaleiro, feitas em gelatino-brometo de prata. Sob o título Vegetação, apresentou fotografias produzidas pelo processo de platina.
1885 – Por volta deste ano, Ferrez produziu uma fotografia de uma vista panorâmica do Rio de Janeiro a partir de Santa Tereza, na qual ele brincava com o ilusionismo proporcionado pela dupla exposição: ele e um amigo apareciam duas vezes na foto.
O imperador Pedro II agraciou Ferrez com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, em 7 de março (Publicador Maranhense, 26 de março de 1885, na quarta coluna). Outros que receberam a condecoração na mesma ocasião foram os pintores Antonio Firmino Monteiro (1855 – 1888), Augusto Rodrigues Duarte (1848 – 1888), Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello (1856 – 1916), José Ferraz de Almeida Junior (1850 – 1899) , além do músico Vicente Cernicchiaro (1858 – 1928).
Na Exposição Internacional de Beauvais, inaugurada em maio, 30 grandes fotografias de cidades brasileiras, dentre elas, Rio de Janeiro e Petrópolis, de autoria de Ferrez foram expostas. A seção brasileira foi organizada pelo sr. Rodrigues de Oliveira (Jornal do Commercio, 29 de maio de 1885, na sexta coluna).
Ferrez partiu, em outubro, para Paris no vapor Orenoque onde buscaria as últimas novidades sobre técnicas e equipamentos de fotografia (Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1885, na sexta coluna, sob o título “Despedida”). Aprimorou, na época, a técnica do ferro prussiano, método utilizado para reprodução rápida de plantas de engenharia e outros desenhos, um dos serviços que oferecia em seu estabelecimento (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1886). Para a mesma finalidade, Ferrez também usava a heliografia.
Apresentou na Sociedade Francesa de Fotografia, em Paris, entre 1885 e 1886, uma câmera desenvolvida para a realização de fotografias marinhas e ofereceu à associação provas panorâmicas produzidas no Brasil.
Participou da Exposição Universal da Antuérpia ou Exposição Universal de Anvers, na Bélgica, com Grande coleções de vistas do Rio de Janeiro: 31 fotografias e ganhou a medalha de prata, na classe VII, de “Provas e aparelhos fotográficos”(O Auxiliador da Indústria Nacional, de 1885), informação corroborada no livro Anvers à l´Exposition Universelle 1885, de René Cornelli e Pierre Mussely, publicado no ano seguinte à mostra. Em 14 de outubro, os reis da Bélgica visitaram a exposição e a rainha apreciou muito as fotografias de Ferrez (Jornal do Recife, de 20 de novembro de 1885, na sexta coluna).
O livro Bilder aus Brasilen (Imagens do Brasil), do teuto-brasileiro Carlos von Koseritz (1830 – 1890), publicado em Leipzig por A. W. Sellin foi ilustrado com onze gravuras produzidas a partir de fotografias de Ferrez. Foi traduzido para português, na década de 40, por Afonso Arinos de Melo Franco (1905 – 1990).
1885/1887- Com a reprodução de 12 imagens de Ferrez, a editora milanesa Fratelli Tensi publicou o álbum de fotogravuras Lembrança do Rio de Janeiro.
1886 – O Boletim da Sociedade Francesa de Fotografia registrou a apresentação do equipamento criado por Ferrez para produzir fotografias marinhas.
O engenheiro belga Aimé Durieux (1827 – 1901), representante da Sociedade Anonyma de Trabalhos Dyle & Bacalan, doou à Sociedade de Geografia de Paris, da qual era integrante, um álbum com 26 fotografias de autoria de Ferrez sobre a ferrovia do Paraná. A empresa atuava na construção de veículos ferroviários, navios e aeronaves, bem como em obras públicas.
O militar italiano Carlo de Amezaga (1835 -1899) publicou em Roma os quatro volumes de Viaggio di circumnavigazione della corvetta Caracciolo. No terceiro volume, há duas estampas do Rio de Janeiro baseadas em fotografias de Ferrez.
O engenheiro britânico Hastings Charles Dent (1855 – 1909) publicou A year in Brazil: with notes on the abolition of slavery, the finances of the empire, religion, metereology, natural history, etc com 10 páginas de ilustrações e mapas baseados em registros de Ferrez.
Estava em exposição na A la Glacê Elegante diversos aumentos de retratos pelo sistema inalterável de gelatino-bromure, de autoria de Ferrez, dentre eles uma fotografia do navio Almirante Barroso considerada rara por suas “enormes dimensões”. O sistema era uma especialidade da Casa Marc Ferrez(Jornal do Commercio, 29 de março de 1886, na terceira coluna e 30 de março de 1886, na quarta coluna). Sobre a mesma exposição, Ferrez foi referido como “habilíssimo fotógrafo” que havia chegado da Europa para onde havia ido se aperfeiçoar “nas mais recentes ficelles de l´art, e fez no estabelecimento A la Glacê Elegante uma exposição de positivos ampliados de clichês, e de uma prova de fotografia instantânea representando o cruzador Almirante Barroso. Esta prova é de grandes dimensões, calculamos ser de 1m20 x 0.80m. É escusado dizer que os trabalhos expostos traduzem a costumada e reconhecida perícia do expositor”. Informava também que uma das especialidades do ateliê de Ferrez era a reprodução rápida de plantas e de outros desenhos de engenharia através do processo “ferro prussiato“” (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1886, na segunda coluna). Para a mesma finalidade, Ferrez também usava a heliografia.
Propaganda do estabelecimento de Marc Ferrez na rua São José 88 onde era anunciado como Photographia da Marinha Imperial e oferecia material completo para fotógrafos e amadores, chapas instantâneas Clayton, aumento de retratos, reprodução indelével de plantas e vistas de todas as partes do Brasil (O Programa Avisador, 8 de julho de 1886, na última coluna). O anúncio foi publicado diversas vezes ao longo de 1886.
Propaganda do estabelecimento fotográfico de Marc Ferrez, 1886.
Na A la Glacê Elegante, exposição de fotografias produzidas “instantaneamente” por Marc Ferrez com um aparelho de sua invenção construído em Paris sob sua imediata inspeção (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1886, na quarta coluna).
Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).
A estampa que acompanhava o artigo sobre o túnel de ferro corrugado publicado na Revista de Engenharia de 18 de outubro de 1886, foi impressa “por um econômico processo heliográfico, de cujos detalhes o bem conhecido fotógrafo Marc Ferrez adquiriu o conhecimento em sua recente viagem à Europa, e que é eminentemente adaptado pelo seu moderado custo à reprodução de desenhos, quando se precisa apenas de algumas dezenas de exemplares”.
Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.
Não usava mais a referência da Comissão Geológica em seu currículo profissional. Apresentava-se como “Fotógrafo da Marinha Imperial”.
1887- Ferrez comunicou a chegada de novas chapas gelatino Brumure Clayton, reconhecidas comoas melhores e mais rápidas, de todos os tamanhos, das quais ele era o único depositário (Jornal do Commercio, 27 de fevereiro de 1887).
O antigo gerente do estabelecimento de Ferrez, Albert Breton, tornou-se funcionário da Casa Saturno, “grande atelier de retratos”, localizado na rua 1º de março, 23 (O Programa Avisador, 3 de março de 1887).
O Ministério da Agricultura encomendou a Ferrez dez grandes fotografias da hospedaria da Ilha das Flores, local de passagem obrigatória dos imigrantes estrangeiros que aportavam no Rio de Janeiro (Gazeta da Tarde, 7 de abril de 1887).
Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do juri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).
Ferrez era o secretário-adjunto da Diretoria da Associação Industrial, que enviou ao conselheiro Rodrigo Augusto da Silva (1833 – 1889), ministro e secretário de Estado para os Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, um plano para a realização de uma exposição preparatória para a Exposição Universal de Paris, em 1889 (Revista de Engenharia, 28 de agosto de 1887).
Anúncio da Photographia Marc Ferrez, apresentando-se como depositária das chapas secas de Attout-Taillfer & Clayton, além de oferecer cartões e câmaras de viagem (Jornal do Commercio, 4 de setembro de 1887, quarta e quinta colunas). Propagandas da Casa Marc Ferrez foram veiculadas várias vezes no mesmo jornal ao longo de 1887 e 1888.
No Arsenal de Marinha, foi concluído o faceamento do meteorito de Bendegó com as presenças da princesa Isabel e do conde d´Eu. Ferrez fotografou o meteorito e o grupo com “Suas Altezas, o presidente da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Marquez de Paranaguá, iniciador da ideia de remoção desse meteorito, o diretor do Museu Nacional, os membros da comissão, e o sr. ministro dos estrangeiros”(Correio Paulistano, 17 de julho de 1888, na quinta coluna, sob o título “Meteorito de Bedengó”). Também no Arsenal de Marinha, cerca de um mês depois, com as presenças de Suas Altezas, da baronesa de Loreto Maria Amanda Paranaguá Dória (1849 – 1931), do barão de Corumbá João Mendes Salgado (1832 – 1894), do marquês de Paranaguá João Lustosa da Cunha Paranaguá (1821 – 1912), e do diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), dentre outros, o meteorito de Bedengó foi coberto com ácido nítrico. Na matéria, foi mencionado que Ferrez fotografaria o meteorito (Gazeta de Notícias, 17 de agosto de 1888, na segunda coluna sob o título “Corte do Bendegó”).
Ferrez fotografou a fachada da tradicional farmácia carioca Casa Granado, tradicional farmácia carioca, enfeitada para as festividades de boas vindas a dom Pedro II e à Imperatriz D. Teresa Cristina, que retornavamde sua viagem à Europa. No passepartout da fotografia, que foi distribuída como brinde pelo estabelecimento e trazia a assinatura de Marc Ferrez, lê-se: “Homenagem da Drogaria Granado ao feliz regresso de SS. MM. Imperiaes. Rio, 22 de agosto de 1888”.
Em torno deste ano, produziu fotografias dentro de minas de ouro – as primeiras conhecidas até hoje. Foram fotografadas as minas da Passagem e de Pari, em Minas Gerais. Ferrez utilizou o flash de magnésio. Na ocasião também realizou registros de Ouro Preto e de Itacolomy*.
Ferrez fotografou a cerimônia em que a Princesa Isabel (1846 – 1921) foi condecorada com a Rosa de Ouro, honraria do Vaticano, outorgada pelo papa Leão XIII (1810 – 1903) por ter assinado a Lei Áurea. A solenidade, celebrada em 28 de setembro, na Capela Imperial, foi, provavelmente, a primeira grande ocasião em que Ferrez usou os novos flashes de magnésio que havia recebido recentemente da Europa. A data escolhida para a entrega da Rosa de Ouro marcava o aniversário da Lei do Ventre Livre, assinada no dia 28 de setembro de 1871 (Gazeta da Tarde, 28 de setembro de 1888, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 29 de setembro de 1888). Ferrez e Pedro da Silveira foram designados para fotografar o evento. O engenheiro Morin seria o encarregado pela luz elétrica (O Espírito – Santense, 6 de outubro de 1888, na segunda coluna).
Marc Ferrez. A Princesa Isabel recebe a Rosa de Ouro, outorgada pelo papa Leão XIII, 28 de setembro de 1888. Rio de Janeiro, RJ / Coleção Princesa Isabel
Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).
Transcrição, na Gazeta de Notícias, de um artigo escrito pelo jornalista francês Charles (Carlos) Morel, redator chefe do jornal Étoile du Sud, sobre a participação brasileira na Exposição Universal de Paris de 1889. O desenvolvimento da fotografia no Brasil e a exposição de fotografias de Ferrez foram abordados (Gazeta de Notícias, 16 de dezembro de 1888, na sexta coluna).
O Jornal do Commercio noticiou que havia recebido a já mencionada fotografia da Casa Granado, de autoria de Ferrez, por ocasião da volta de dom Pedro II da Europa, ocorrida em 1888 (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1889, na sexta coluna).
Ferrez viajou com seus filhos e mulher para Paris. Apresentou fotografias de vistas do Rio de Janeiro, de vistas marinhas e paisagens na Exposição Universal em Paris, realizada entre 6 maio e 31 de outubro de 1889. De acordo com Maria Inez Turazzi, recebeu a medalha de bronze. Segundo o Auxiliador da Indústria Nacional, ele teria recebido a medalha de prata (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1889). Foi nessa exposição que a Torre Eiffel, na época a mais alta estrutura do mundo, foi inaugurada.
Na reportagem “La Révolution au Brésil”, sobre a queda do Império, foi publicado um desenho cuja base foi a fotografia da estátua eqüestre de Dom Pedro I, realizada por Marc Ferrez nos anos 1870 (Le Monde illustrée, 30 de novembro de 1889).
Em maio, Ferrez anunciou a câmara detetive de Steinheil. Comunicou, no mês seguinte, também, que seu estabelecimento possuía um catálogo, que, se solicitado, poderia ser remetido aos clientes. Esta foi, provavelmente, a primeira referência à existência de um catálogo de produtos de sua loja (Jornal do Commercio, 18 de maio de 1890, sétima coluna, e O Paiz, 29 de junho de 1890, última coluna).
Ferrez oferecia em propaganda e desta vez indicando amadores também como potenciais clientes. É uma aposta e uma evidência de que essa nova categoria representava na época uma expansão no mercado de equipamentos e material de fotografia. “Grande especialidade de todas as pertenças para profissionais e amadores photographos. Câmaras objectivas garantidas de Dallmeyer e outros afamados fabricantes, banheiras, lanternas, obturadores, cartões de todos os tamanhos e qualidades etc. Acaba de receber a última novidade: a câmara detetive de Steinheil” (Jornal do Commercio, 1º de junho de 1890, segunda coluna).
Anúncio da série completa de objectivas desse célebre autor (Ferrez), além de chapas de “todos os tamanhos e diversos autores”.
Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a inauguração das obras da ferrovia Benevente-Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).
Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.
1891 – Anúncio de venda de produtos fotográficos importados e exclusivos, como “as objetivas Dallmayer, de Londres, e das chapas Wratten-Wamweight”, em seu estabelecimento, situado na rua São José, 88 (Jornal do Commercio, 15 de janeiro e 18 de outubro de 1891).
A Casa Lombaerts & C incorporou-se à Casa Marc Ferrez, sob a firma Lombaerts, Marc Ferrez & C (Diário da Manhã, 9 de março de 1891, na terceira coluna). A firma Lombaerts, Marc Ferrez & C foi a editora e proprietária do jornal quinzenal de moda AEstação (A Estação, 15 de julho de 1891). A sede do jornal ficava na rua dos Ourives, 7 (Almanak Laemmert, última edição de 1892). A firma também publicou postais e, por encomenda da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária da Capital, publicou o álbum Quadros de história Pátria, com 21 fototipias, e o ensaio do engenheiro e astrônomo Henrique Morize (1860 – 1930), intitulado Esboço de una climatologia do Brasil. A sociedade de Lombaerts e Ferrez foi dissolvida (Diário de Notícias, 15 de dezembro de 1891, quarta coluna).
1892 – O estabelecimento de Marc Ferrez era um dos locais de venda de ingressos para a Festa do 14 de Julho – Festa Nacional da França (Gazeta de Notícias, 11 de julho de 1892).
Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).
Ferrez recebeu o pagamento de e 2:284$ pelo material fornecido para a exposição de Chicago e 6:454$ pelos “ trabalhos photographicos para a referida Exposição”, de acordo com a solicitação do Ministério da Justiça em 5 de janeiro, e com o pedido de transferência para o Tesouro Nacional do dia 8 de junho, publicados no Diário Oficial em janeiro e julho de 1893[1]
1893 – O governo autorizou uma encomenda a Marc Ferrez de “fotografias de diversas estradas e ainda os indispensáveis à organização da carta plastográfica” que seria enviada para a Exposição de Chicago. O valor do trabalho foi 6:454$000 (Relatório do Ministério da Agricultura, 1893).
Ferrez registrou as consequências da Revolta da Armada nos navios e instalações da Marinha brasileira.
1894 – Foi para Minas Gerais, onde produziu fotografias para a Comissão Construtora da Nova Capital do Estado.
No Rio de Janeiro, registrou os engenheiros que trabalharam, em 1893, na elaboração da Carta Cadastral do Distrito Federal, encomendada pelo prefeito Cândido Barata Ribeiro (1843 – 1910).
Após quatro décadas de carreira, Marc Ferrez é um fotógrafo consagrado e um comerciante de sucesso. Embora discreto e pacato, goza também de certa notoriedade para além do círculo de seus clientes e amigos. Sua popularidade é bem exemplificada no conto Dor, de Escrangolle Doria, publicado na revista A Semana e vencedor do segundo prêmio de prosa literária do próprio periódico. Seu nome aparece nos parágrafos finais do capítulo derradeiro, quando os dois personagens principais olhando para uma parede, fitam um retrato au crayon, de autoria de Marc Ferrez
O nome de Ferrez apareceu ao final do último capítulo do conto Dor, de Escrangolle Doria, vencedor do segundo prêmio de prosa literária da revista A Semana. Ele é citado quando os dois personagens principais olhavam um retrato au crayon, de autoria de Marc Ferrez (A Semana, 31 de março de 1894, terceira coluna).
Forneceu o material para o laboratório de fotografia da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), encarregada do plano urbanístico e da construção dos edifícios públicos de Belo Horizonte, nova capital de Minas Gerais.
Exposição na redação do jornal A República de duas fotografias do couraçado Vinte e Quatro de Maio, ex-Aquidaban, ambas de autoria de Marc Ferrez. O navio havia sido atingido, em 16 de abril de 1894, em Santa Catarina, pela torpedeira Gustavo Sampaio, durante a Revolta da Armada (A República, 29 de agosto de 1894, na última coluna).
Em novembro, fotografou os festejos pela proclamação da República: a inauguração da estátua do general Osório, na Praça XV, em 12 de novembro, e a posse do novo presidente, Prudente de Morais (1841 – 1902), no dia 15 do mesmo mês. Um álbum do qual faziam parte essas imagens foi presenteado ao marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895) pela comissão militar encarregada pelas comemorações oficiais do evento. Ferrez divulgava seu trabalho informando que “tendo por ordem do governo tirado fotografias das festas nacionais, tem conseguido magnífico resultado de todas elas” e que “recebia encomendas para coleção completa” (Jornal do Commercio, 18 de novembro de 1894).
1895 – Propaganda da Casa Marc Ferrez anunciavam que o estabelecimento agenciava com exclusividade as objetivas Dallmeyer, Français e Zeiss, além das chapas Wratten e Wanwrigth no Brasil (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1895).
Publicação da fotografia do funeral do marechal Floriano de Peixoto (1839 – 1895), com crédito para Marc Ferrez (Le Monde Illustré, 3 de agosto de 1895).
Na igreja São Francisco de Paula, Ferrez produziu fotos do templo, ao final da cerimônia das solenes exéquias do almirante Saldanha da Gama (1846 – 1895), um dos líderes da Revolta da Armada (Jornal do Commercio, 4 de julho de 1895, quinta coluna).
Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).
1896 – O explorador naturalizado francês Charles Wiener (1851 – 1913) e também cônsul geral encarregado de negócios franceses no Brasil, adquiriu uma coleção de 329 fotografias do Brasil, sendo 92 de autoria de Ferrez. Os três dos quatro álbuns dessas fotografias estão no Ministério das Relações Exteriores da França.
Entusiasta da imigração de europeus para o Brasil, o fotógrafo Maurício Lamberg publicou o livro O Brazil, sobre o qual o historiador Sacramento Blake (1827 – 1903) comentou: “[…] trata da natureza do Brazil e das diversas raças que contém; de sua lavoura, do solo, da imigração e colonização; de suas florestas…”. Para escrever o livro, Lamberg viajou durante anos pelo norte e por parte do sul do país. Escrita originariamente em alemão, a obra, que abrange assuntos como história, geografia, fontes de renda e costumes, foi vertida para o português pelo jornalista e crítico musical Luiz de Castro (1863 – 1920), editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas distribuídos em 15 capítulos, com fotos de Lamberg e de outros autores, dentre eles Ferrez.
Em torno desse ano, Ferrez realizava experiências no campo da imagem com Henrique Morize (1860 – 1930) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. O francês naturalizado brasileiro Henri Charles Morize ou Henrique Morize era engenheiro e astrônomo. Foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.
1898 – Ferrez cedeu dois retratos de família pintados por August Muller (1815 – 1883) para a Exposição Retrospectiva do Centro Artístico, associação de jornalistas e literatos, criada em 1897, que tinha como objetivo a promoção da arte brasileira. A mostra, realizada durante o mês de julho, na Escola Nacional de Belas Artes, foi o primeiro evento organizado pelo Centro Artístico. Reuniu um grande número de objetos de arte cedidos por proprietários e colecionadores (Gazeta da Tarde, 13 de agosto de 1898, na última coluna e Diário de Notícias, 28 de julho de 1898, na penúltima coluna).
1899 – Por volta desse ano, Ferrez realizou, possivelmente em parceria com Gomes Junior, uma série de fotografias de ambulantes, como a de “Jornaleiros” e “Comprador de garrafas”.
No consultório dos doutores Camilo Fonseca e Henrique Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (AImprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Elas foram fotografadas por Marc Ferrez em várias posições (O Cachoeirano, 2 de julho de 1899, na última coluna). A cirurgia para separá-las, realizada em 30 de maio de 1900, na Casa de Saúde São Sebastião, no Rio de Janeiro, pelo médico Eduardo Chapot Prevost (1864 – 1907), foi a primeira do gênero que foi bem sucedida em todo o mundo. Maria morreu cinco dias após a cirurgia devido a uma grave infecção e Rosalina viveu até pelo menos 75 anos, tendo casado e tido filhos (AImprensa, 11 de agosto de 1900, na primeira coluna).
1900 – Com seu amigo, o engenheiro Humberto Antunes, participou, a bordo do vapor “Vigilante”, que abrigava membros da Sociedade de Benefcência Portuguesa, da procissão de navios que acompanham a chegada da comitiva portuguesa, vinda para as comemorações do quarto centenário do descobrimento do Brasil (Jornal do Commercio, 30 de abril de 1900, terceira coluna).
Ferrez fotografou alguns eventos dos festejos dos 400 anos da descoberta do Brasil: a missa campal celebrada pelo frei Amor Divino Costa (1830 – 1909), a inauguração do monumento a Pedro Álvares Cabral, de autoria de Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), o desfile das tropas e o arco manuelino na praça da Glória (Gazeta de Notícias, 4 de maio de 1900).
Era um dos integrantes da comissão Exposição Artístico-Industrial Fluminense Comemorativa do IV Centenário do Descobrimento, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas-Artes, realizada no Liceu de Artes e Ofícios, na rua da Guarda Velha, atual avenida 13 de Maio (O Paiz, 7 de maio de 1900, na sétima coluna). Ferrez participou com trabalhos fotográficos em transparentes de cristal.
A Casa Marc Ferrez lançou bilhetes-postais com imagens produzidas pelo fotógrafo impressas em fototipia.
Foram lançados os livros O Rio de Janeiro em 1900: vistas e excursões, do militar e jornalista Francisco Ferreira da Rosa (1864 – 1952)e Estados Unidos do Brasil, do geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus (1830 – 1905). O primeiro trazia fotografias produzidas por Ferrez e, o segundo, estampas de T. Taylor e A. Slom baseadas em fotos de Ferrez.
Marc Ferrez e sua família foram à exposição da tela histórica de Aurélio Figueiredo (1856 – 1916), O descobrimento do Brasil, no salão da Casa Postal, na rua do Ouvidor (O Paiz, 31 de maio de 1900, na quarta coluna).
A Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez. A Revista da Semana havia sido lançada em 20 de maio por Álvaro de Tefé.
Perto do fim do ano, teria embarcado para a Europa, onde até o dia 12 de novembro realizou-se a Exposição Universal de Paris. Uma curiosidade: pela primeira vez numa feira internacional foi feita, para efeito de premiação, uma diferença entre fotografia profissional e amadora.
1901 – Em março, Ferrez anunciou seu retorno da temporada europeia e a retomada de suas atividades.
No encerramento da Exposição Artístico-Industrial Fluminense Comemorativa do IV Centenário do Descobrimento, Ferrez recebeu o diploma de honra. A mostra foi promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (Jornal do Brasil, 14 de maio de 1901, na sétima coluna).
Ferrez prometeu fazer uma doação para a Associação Nossa Senhora Auxiliadora para “o patrimônio do recolhimento de meninas e moças pobres, órfãs ou abandonadas”. O dinheiro seria parte da quantia devolvida pela Sociedade Propagadora de Belas Artes aos contribuintes das festas de distribuição dos prêmios da Exposição Artístico-Industrial Fluminense (A Notícia, 24 de maio de 1901, na última coluna).
Foi publicada uma fotografia produzida por Marc Ferrez de um grupo presente na garden party oferecida pelo cônsul alemão à oficialidade e a alguns marinheiros do cruzador Vinela, no Sylvestre(Revista da Semana, 4 de agosto de 1901). Na edição seguinte, de 11 de agosto, foi publicada uma fotografia do Vinela, também de autoria de Ferrez.
Fotografias de Marc Ferrez foram publicadas para ilustrar uma matéria sobre “A festa na ilha do Vianna – Experiência oficial de máquinas do cruzador República e da caça-torpedeiro Gustavo Sampaio” (Revista da Semana, 10 de novembro de 1901). Na edição seguinte, foi publicada uma fotografia da baía do Rio de Janeiro por ocasião da revista de tropas de 15 de novembro (Revista da Semana, 24 de novembro de 1901).
1902 – Fotografia de autoria de Marc Ferrez do sr. Armando Darlot (? – 1902), no caixão. Ele havia sido um dos fundadores da empresa de seguros Sul-América (Revista da Semana, 13 de abril de 1902).
O então capitão Tasso Fragoso (1869 – 1945), realizou sua segunda conferência sobre artilharia de campanha de tiro rápido. Foram apresentadas fotografias de projéteis e canhões, expostas em uma lanterna de projeção manejada por Henrique Morize e Marc Ferrez (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1902, na nona coluna).
Ferrez registrou a inauguração da estátua do visconde do Rio Branco, na Glória, no dia 13 de maio. A obra, de autoria do escultor Félix Maurice Charpentier (1858 – 1924), fazia parte dos festejos pela comemoração da Abolição da Escravatura (Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1902, na quinta coluna, na quarta coluna).
1903 – Fotografias de Ferrez foram publicadas na Revista da Semana: dos navios que haviam partido para o norte do Brasil sob o comando do contra-almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926) (Revista da Semana, 8 de fevereiro de 1903) e Os Dois irmãos no Sylvestre, Laranjeiras, Entrada da barra do Rio de Janeiro vista por fora e Ilha das Cobras (Revista da Semana, 1º de março de 1903).
Ao longo desse ano e de 1904, foram publicadas, no Correio da Manhã, diversas propagandas dos serviços prestados por Ferrez e ele era identificado como “Fotógrafo da Marinha Nacional” (Correio da Manhã, 3 de outubro de 1903, na terceira coluna).
Em 4 de dezembro, Marc Ferrez assinou o termo de aceitação da proposta de indenização do imóvel que pertencia a ele na rua São José e que seria demolido para a construção da avenida Central. Recebeu 25 contos de réis pela propriedade.
Ele e o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco receberam a medalha de ouro na Exposição Universal de Saint Louis, nos Estados Unidos, realizada entre de 30 de abril e 1 de dezembro de 1904 (Almanak Laemmert, 1905). O prédio que sediou o Pavilhão Brasileiro da exposição foi, em 1906, remontado no Rio de Janeiro, e foi batizado de Palácio Monroe.
Foi editada, provavelmente nesse ano, pela Inspeção Geral das Obras Públicas da Capital Federal, a obra Abastecimento d´água do Rio de Janeiro, com o trabalho feito por Ferrez sobre as obras na cidade.
No final do ano, falecimento da irmã de Ferrez, Augustine Emile Cantinot.
1905 – O Guia da cidade do Rio de Janeiro, organizado pelo engenheiro civil Vicente Alves de Paula Pessoa (c. 1857 – 19?), por incumbência da comissão diretora do Terceiro Congresso Científico Latino Americano, publicado pela Editora Beviláqua, foi ilustrado por imagens produzidas por Ferrez. A escolha das ilustrações e outros aspectos da publicação foram elogiados (Jornal do Brasil, na primeira coluna e O Paiz, na quinta coluna, ambos de 18 de agosto de 1905).
Ferrez iniciou a produção do Álbum da Avenida Central, importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. As pranchas de desenho foram impressas em zincografia e os prédios foram fotografados em colotipia. Esse álbum foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progresso.
Com seu filho Julio obteve a representação da firma francesa Pathé Frères no Brasil. A firma era a maior e melhor fábrica de aparelhos e filmes cinematográficos da Europa.
No final do ano, a Casa Marc Ferrez & Filhos passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre Passeio Público, que existiu entre em 28 de outubro de 1905 e 2 de novembro de 1906, e pertencia ao português Arnaldo Gomes de Souza e ao italiano Vittorio di Maio (1852 – 1926). Passou também a distribuir filmes para outros cinematógrafos ambulantes do Rio de Janeiro.
1906 – No periódico O Commentario, março de 1906, foi publicada a fotografia de um edifício, produzida por Marc Ferrez, 8 minutos após seu desabamento. O prédio estava sendo construído, na avenida Central, por ordem do Club de Engenharia.
Foi publicado um anúncio da Photographia Cinematographica, de Marc Ferrez, anunciando “um imenso sortimento de material para profissionais e amadores a “preços vantajosos”. Também anunciava a “remessa de catálogos” (Jornal do Recife, 29 de março de 1906, na última coluna).
Em dezembro de 1906 e ao longo de 1907, foram publicadas várias vezes propagandas de “Anúncios luminosos”, na avenida Central. “Grande lanterna mágica com várias vistas atraentes. Informações à rua S. José, 88, com Emilio Brondi, casa Marc Ferrez” (Rio Nu, 12 de dezembro de 1906, na última coluna).
1907 – Em 30 de janeiro, Ferrez assinou um contrato com a Comissão Construtora da avenida Central para a impressão do Álbum da Avenida Central.
Seu filho, Julio, casou-se com Claire Poncy Ferrez (1888 – 1980).
Marc Ferrez e Abílio Fontes representaram o comércio em uma comissão arbitral que julgaria o recurso interposto por Eduardo Trindade contra uma decisão da comissão de tarifas. Pela fazenda nacional, compunham a comissão arbitral Mendonça de Carvalho e Miranda Reis (Correio da Manhã, 7 de maio de 1907, na terceira coluna, sob o título “Alfândega”).
Arrendou, em sociedade com Arnaldo Gomes de Souza, os prédios de número 145 e 149 da Avenida Central e inaugurou, em 18 de setembro, o Cinema Pathé, o terceiro da cidade (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1907, nas sexta e sétima colunas) – o primeiro, Chic, foi inaugurado em 1º de agosto de 1907; o segundo, o Grande Cinematographo Pariziense, foi aberto em 9 de agosto do mesmo ano. A firma de Arnaldo e Ferrez chamava-se Arnaldo & Cia, omitindo a participação de Ferrez, porque Charles Pathé (1863 – 1957), um dos proprietários da Pathé Frères, proibia que seus distribuidores e representantes possuíssem cinematógrafos.
Em primeiro de outubro, foi criada a firma Marc Ferrez & Filhos. Ferrez era dono de 60% das ações, cabendo a Luciano e a Julio 20% do negócio. A empresa Marc Ferrez & C não deixou de existir. Em seu nome eram feitas as importações de material fotográfico enquanto a nova empresa era responsável pelas importações de material para cinema.
A empresa de fotografia de Ferrez passa a ser administrada por Emilio Brondi.
A sociedade de Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi denunciada pelo concorrente de Ferrez, Jácomo Rosário Staffa (c. 1867 – 1927), proprietário do Grande Cinematographo Pariziense.
A família Ferrez morava na rua Pedro Américo, 121.
Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Ferrez produziu o curta-metragem A mala sinistra, tambémdirigido por seu filho Julio. Além disso, a Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.
Fotografias de Ferrez e também de outros fotógrafos, dentre eles Augusto Malta (1864 – 1957), foram publicadas na obra organizada pelo engenheiro Luiz Raphael Vieira Souto (1849 – 1922), Notícia sobre o desenvolvimento da indústria fabril no Distrito Federal e sua situação atual.
Fotografias de Ferrez integravam a segunda edição do The new Brazil; its resources and attractions: historical, descriptive and industrial, de Marie Robinson Wright (1866 – 1914), publicada pela editora George Barrie & Son, da Filadélfia.
Ao longo de 1908, foi publicado várias vezes um anúncio da venda de cinematógrafos na sucursal da firma Marc Ferrez & Filhos em São Paulo, o Bijou-Theatre, do empresário espanhol Francisco Serrador (1872-1941) (OCommercio de São Paulo, 15 de fevereiro de 1908, na primeira coluna).
Em um anúncio veiculado pela Associação Geral de Auxílios Mútuos da Estrada de Ferro Central do Brasil, era noticiado um espetáculo de “Música com a expressão das fitas”. Informava também que as “fitas da Estrada são de exclusiva propriedade da Associação, conforme contrato assinado com a Casa Marc Ferrez (Correio da Manhã, 3 de abril de 1908, na quinta coluna).
Fotografou a Exposição Nacional, realizada na Praia Vermelha no Rio de Janeiro, entre 11 de agosto e 15 de novembro, para celebrar o centenário da Abertura dos Portos ao Livre Comércio e, posteriormente, lançou uma série de postais sobre o evento.
Marc Ferrez enviou telegrama de pêsames ao empresário e um dos pioneiros do cinema no Brasil, Paschoal Segreto (1868 – 1920), pelo falecimento de seu irmão, o jornalista Gaetano Segreto (A Imprensa, 29 de junho de 1908, na terceira coluna).
O primeiro aniversário do Cinema Pathé foi comemorado com uma reforma, uma programação “divertida” e uma ceia (Fon-Fon, 26 de setembro de 1908).
Ferrez fez uma doação de 10$000 para ajudar os sobreviventes de um terremoto ocorrido na Itália, nas regiões da Calábria e da Sicília, em 28 de dezembro de 1908. A iniciativa foi de David Romagnoli e as doações seriam entregues a uma comissão organizada pela Associação de Imprensa (A Imprensa, 13 de janeiro de 1909 na sexta coluna e 15 de janeiro na penúltima coluna).
1909- Foi anunciada a exibição do filme “Festival Hermes da Fonseca, fita nova para esta capital, mais completa e perfeita que se apresentou no Rio e foi tirada pela importante Casa Marc Ferrez” (A República, 27 de janeiro de 1909, sob o título “Diversões”).
Um aprendiz de fotografia que trabalhava na Casa Marc Ferrez, o italiano Roviso Pietro, de 19 anos, após ter sido repreendido por seu patrão, tentou se suicidar (O Paiz, 12 de fevereiro de 1909, na quarta coluna).
Foi anunciada pela Casa Marc Ferrez & Filhos a venda de “conjuntos electrogenios para produzir luz elétrica a domicílio por meio do querosene: pequeno consumo e grande força”(Revista da Semana, 11 de abril de 1909).
Na Exposição Nacional de 1908, em comemoração ao centenário do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908 , no Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 12 de agosto de 1908), Marc Ferrez participou no grupo de Fotografia e ganhou uma medalha de ouro (Almanak Laemmert, 1909).
1910 – Marc Ferrez estava na lista de “Capitalistas, banqueiros, proprietários e pessoas ricas” do Almanak Laemmert de 1910,com o endereço Christóvão Colombo, 23 (futura rua Dois de Dezembro).
O Cinema Royal, em Recife, anunciou um “Majestoso programa remetido do Rio de Janeiro no paquete Alagoas pelo srs. Marc Ferrez & Filhos, agentes em todo o Brasil da Casa Pathé Frères (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1910, na sexta coluna).
A fábrica Pathé Frères de Paris por intermédio de seus representantes exclusivos no Brasil, a Casa Marc Ferrez , negou a autoria da fita cinematográfica “O Guarany”, conforme havia sido noticiado por “má fé” por um cinema de São Paulo (Correio Paulistano, 16 de janeiro de 1910, na quarta coluna).
Marc Ferrez foi um dos subscritores da lista organizada pelos presidentes das sociedades francesas sob os auspícios do cônsul da França para ajudar as vítimas de inundações ocorridas em Paris no mês de janeiro (O Paiz, 11 de fevereiro de 1910, na penúltima coluna).
Foi publicada a lista dos estabelecimentos comerciais com os quais a Empresa Paschoal Segreto havia feito negócios em 1909 e a Casa Marc Ferrez havia sido uma delas (O Paiz, 17 de março de 1910).
José Ignácio Guedes Pereira Filho comunicou que havia firmado um contrato com a firma Marc Ferrez & Filhos para fornecer a ele durante um ano fitas cinematográficas da Pathé Frères (A Província, 27 de março de 1910, na primeira coluna).
O ministro da Fazenda, José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856 – 1928), negou “provimento ao recurso de Marc Ferrez e filhos interposto contra a decisão da Alfândega dessa capital, que lhes impôs a multa de 3:756$, tripulo do valor arbitrado para mercadoria submetida a despacho” (A Imprensa, 30 de abril de 1910, na terceira coluna).
A firma Marc Ferrez & Filhos negou que a empresa do Iris Cinema recebia diretamente da Pathé Frères de Paris material cinematográfico para venda, já que os Ferrez eram seus representantes exclusivos e que em São Paulo sua sucursal era o Bijou-Theatre, do empresário Francisco Serrador (Correio Paulistano, 2 de maio de 1910, na segunda coluna, sob o título “Secção Livre”).
No Anuário do Jornal do Brasil, foi veiculada uma propaganda dos Cinematógrafos Pathé Frères cujo representante para todo o Brasil era a firma Marc Ferrez & Filhos.
Foi grande o sucesso do filme “Notre-Dame de Paris”, exibido no Cinema Pathé (Fon-Fon, 4 de novembro de 1911). Ao longo de todo o ano de 1911, vários filmes exibidos pela Casa Marc Ferrez & Filhos foram anunciados na revista.
O ministro da Fazenda, Francisco Antônio de Salles (1863 – 1933), negou provimento ao recurso interposto por Marc Ferrez “do ato da Inspetoria da Alfândega do Rio de Janeiro, mandando classificar como cinematógrafo, para pagamento de 60$ cada um, a mercadoria para a qual os recorrentes pediram classificação prévia” (A Imprensa, 13 de agosto de 1912, na terceira coluna).
Marc Ferrez era um dos integrantes da comitiva do presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), que havia ido para Passa Quatro observar o eclipse. Também participaram do evento o então diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize (1860 – 1930), o diretor do Jardim Botânico, Graciano dos Santos Neves (1868 – 1922), e astrônomos ingleses, dentre outros (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1912, na quinta coluna sob o título “Marechal Hermes e o eclipse“).
O sr. Emilio Brondi, sócio da firma Marc Ferrez, ofereceu ao Arquivo Municipal do Rio de Janeiro 28 fotografias de aspectos da cidade (A Noite, 14 de outubro de 1912, na quarta coluna). No ano seguinte, ele fez uma segunda doação, desta vez de 176 fotografias, ao Arquivo Municipal do Rio de Janeiro. Em homenagem ao doador, o Arquivo iria organizar as fotografias em álbuns denominados Coleção Emilio Brondi (O Paiz, 30 de março de 1913, na terceira coluna).
1913 – Em março, uma grande ressaca ocorrida no Rio de Janeiro inundou o porão da casa da família Ferrez, na Dois de Dezembro – antiga rua Christóvão Colombo, 23 – destruindo os exemplares do Álbum da Avenida Central ali guardados (O Paiz, 9 de março de 1913).
Foi publicado Twentieth century impressions of Brazil: its history, people, commerce, industries and resources, uma obra de divulgação do Brasil, com fotografias de Marc Ferrez (Anais da Biblioteca Nacional de 1914).
1914 – O casal Ferrez retornou ao Rio de Janeiro e alugou uma casa na Rua Voluntários da Pátria 50, em Botafogo.
1915 – No Almanak Laemmert, o estabelecimento Emilio Brondi & C.. Casa Marc Ferrez localizava-se na rua Rodrigo Silva, 28.
Em abril, Ferrez viajou para França no navio Frizia em companhia de seu filho Julio – que retornou ao Brasil em agosto. Em junho, Marc foi para Vichy para tratar de dores nas pernas. Ficou hospedado no Hotel Europe. Nos cinco anos que ficou na Europa, Ferrez passou temporadas em Paris e na Suíça. Aderiu às fotografias coloridas.
Em um dos diálogos de “Photo-Mania”, um sainete (peça alegre do teatro espanhol) de autoria de Eustorgio Wanderley (1882 – 1962), a loja de Marc Ferrez foi citada (Revista O Tico-Tico, 1º de dezembro de 1915).
Foi publicado um anúncio informando que a agência geral para os estados do norte da Agência Cinematográfica Marc Ferrez & Filhos situava-se, provisoriamente, na rua Duque de Caxias, 39, em Recife. Eles continuavam como representantes da Casa Pathé Frères(Jornal do Recife, 18 de dezembro de 1915).
A Casa Marc Ferrez & Filhos anunciou “estar aparelhada para atender aos mais exigentes pedidos em toda a América Latina”. O endereço da agência Pathé em Recife era Duque de Caxias, 51 (A Província, 30 de abril de 1916).
1917- Seus filhos, Julio e Luciano, fundaram a Companhia Cinematográfica Brasileira, mais tarde denominada Casa Marc Ferrez Cinemas e Eletricidade Ltda.
1919- Diversos representantes e importadores de filmes, dentre eles Marc Ferrez & Filhos, publicaram um anúncio aos exibidores, comprometendo-se a não recusarem a nenhum deles o fornecimento de filmes nos moldes em que explicitaram na mensagem (Correio da Manhã, 18 de junho de 1919). Dois dias depois, a Fox Film Corporation e a Marc Ferrez & Filhos afirmaram, em outro anúncio, que nunca tiveram prevenção contra a Aliança dos Cinematografistas do Brasil (Correio da Manhã, 20 de junho de 1919).
A polícia proibiu a exibição do filme O Caso Caillaux e Bolo Pachá, no Cinema Pathé. Tratava de um crime de alta traição julgado no Conselho de Guerra de Paris (Correio da Manhã, 31 de julho de 1919).
Julio Ferrez foi um dos fundadores da União dos Importadores Cinematográficos no Brasil (O Imparcial, 8 de dezembro de 1919, na segunda coluna). Foi o primeiro tesoureiro da associação, cujo primeiro presidente foi o empresário Francisco Serrador.
Em 15 de dezembro, Marc Ferrez participou da cerimônia de recepção na recém criada categoria Aplicação das ciências à indústria da Academia Francesa de Ciências a seu amigo Louis Lumière (1864 – 1948) que, com o irmão Auguste Lumière (1862 – 1954), havia inventado o cinematógrafo(Academia Francesa de Ciênciase Palcos e Telas, 8 de abril de 1920).
Os escritórios da empresa Marc Ferrez & Filhos, mudaram-se para a Rua São José 64.
Em 10 de fevereiro, no Palais d´Orsay, Ferrez foi um dos cerca de 500 convidados de um banquete em homenagem aos 25 anos da invenção do cinema e também a seu criador, Louis Lumière, que ingressou na Academia Francesa de Ciências. O evento foi organizado por associações e câmaras sindicais de fotógrafos e cinematografistas franceses.
Foi noticiada a volta de Marc e Luciano Ferrez ao Brasil, a bordo do paquete inglês Orcona (Vida doméstica, abril de 1920). No O Paiz de 22 de março de 1920, foi noticiada a chegada do Orcona ao Rio de Janeiro, mas na lista de passageiros publicada pelo jornal não constavam os nomes de Marc e Luciano Ferrez.
A Casa Marc Ferrez Söndahl Comp. Limited localizava-se na Rua Sachet, 8 – antiga Travessa do Ouvidor – e anunciava-se como a única que dispunha de um técnico para instruir os amadores (Vida doméstica, junho de 1920).
1921 – João Antônio Bruno, diretor das Empresas Cinematográficas Reunidas, defendeu-se da acusação de haver um “trust paulista”. Segundo ele, havia sim uma combinação da Companhia Cinematográfica Brasileira com as firmas Derrico & Bruno e Lopes & Figueiredo”. Afirmou que Marc Ferrez o apoiava (Palcos e Telas, 10 de março de 1921).
Em maio, Ferrez voltou à França e chegou em Bordeaux, em 5 de junho. Em Paris, instalou-se no Hotel Brebant.
Em correspondência a Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), sua nora, Ferrez contou que fez belas fotografias de rosas, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que freqüentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris.
Foram publicados dados estatísticos da indústria cinematográfica no Brasil no primeiro semestre de 1921. Em número de filmes, a firma Marc Ferrez & Filhos representava 3,9% (Para Todos, 13 de agosto de 1921). Na mesma revista, em 8 de julho de 1922, foram publicados os dados estatísticos do primeiro semestre de 1922.
Devido ao inverno rigoroso de Paris, em dezembro, Marc viajou para Hyères, na Cote d´Azur.
1922 – Em março, de volta à capital francesa, Marc recebeu a visita de seu amigo, o cientista Henrique Morize, em viagem para Europa em missão oficial do Observatório Nacional.
Em matéria publicada em O Malho, 27 de maio de 1922 sobre a indústria cinematográfica, Marc Ferrez & Filhos foram citados como uma firma que fez fortuna atuando no setor.
Marc Ferrez embarcou no navio Lutetia, em Bordeaux, de volta ao Brasil, em 31 de julho, e chegou ao Rio de Janeiro, em 14 de agosto. O navio fez escala em Boulogne-sur-mer, Vigo e Lisboa. Também viajaram no Lutecia o inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), o presidente do Jockey Clube, Linneu de Paula Machado (1880 – 1942); Arnaldo Guinle (1884 – 1963), presidente do Fluminense S.C.; o médico Paulo de Figueiredo Parreiras Horta (1884 – 1961) e os Oito Batutas, grupo musical formado, entre outros, por Pixinguinha (1897 – 1973) e Donga (1890 – 1974) (O Paiz, 15 de agosto de 1922, página 3 e página 4).
Marc realizou fotografias estereoscópicas e autocromos dos diversos pavilhões nacionais e internacionais da Exposição do Centenário da Independência, inaugurado em 7 de setembro, no Rio de Janeiro (O Paiz, 8 e 9 de setembro de 1922).
No Almanak Laemmert, anúncio de Marc Ferrez & Filhos, na rua da Quitanda, 67.
Sua missa de sétimo dia foi celebrada na Igreja São Francisco de Paula, em 19 de janeiro, foi muito concorrida e contou com a presença dos engenheiros André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933) e Alfredo de Paula Freitas (1855 – 1931); dos cientistas Henrique Morize (1860 – 1930), dos médicos Camillo Fonseca e Rodolpho e José Chapot-Prevost; artistas, como o escultores Benevenuto Berna (1865 – 1940) e Rodolpho Bernardelli (1852 – 1931), além de jornalistas, exibidores e donos das empresas cinematográficas (O Paiz, 20 de janeiro de 1923, na última coluna).
No periódicoA Scena Muda, 25 de janeiro de 1923, foi publicado um perfil de Ferrez, no qual sua morte foi atribuída a uma enfermidade que ele havia contraído devido ao uso do colódio. Na mesma matéria, foram mencionadas as experiências que fazia com seu amigo, o engenheiro e astrônomo Dr. Henrique Morize, em sua casa na rua São José, 88, com “luz oxi-etherica, luz oxydrica, de gás incandescente de petróleo com mechas concentradas fazendo também na ocasião as primeiras experiências com cinematógrafo com um aparelho Lumière e fitas de 10 e 20 metros…”. Na matéria da Para Todos de janeiro de 1923, o caráter de Ferrez foi exaltado: “A perfeita correção do velho comerciante, sua intransigente honradez, a lisura dos seus processos o tornaram sempre uma figura de destaque nos meios cinematográficos”.
1951 – Na edição de O Cruzeiro, de 25 de agosto de 1951, foi publicada a reportagem Fotografias do Rio Antigo, com texto de Gilberto Ferrez e fotografias produzidas por Marc Ferrez.
1953- Em 1º de junho, falecimento de Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), esposa de Luciano Ferrez (1884 – 1955), segundo filho de Marc Ferrez. Ele e José Fruscht, filho de criação do casal, agradeciam às manifestações de pesar (Correio da Manhã, 7 de junho de 1953).
1980- Falecimento de Claire Poncy Ferrez (1888 – 1980), viúva de Julio Marc (1881 – 1946), primogênito de Marc Ferrez, e mãe de Gilberto, Eduardo e João Luciano Ferrez (O Globo, 15 de novembro de 1980).
2000 – Em maio, falecimento de Gilberto Ferrez (1908 – 2000) (O Globo, 25 de maio de 2000).
O Globo, 25 de maio de 2000
2007 – Na edição de novembro de 2007 do Boletim Informativo da ABI, cujo tema foi o trabalho dos repórteres fotográficos, Marc Ferrez foi homenageado como o precursor do fotojornalismo no Brasil (ABI Boletim Informativo, novembro de 2007).
Para a elaboração dessa cronologia, a Brasiliana Fotográfica pesquisou principalmente em diversos periódicos da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e valeu-se da cronologia de autoria de Maria Inez Turazzi publicada no livro O Brasil de Marc Ferrez, lançado pelo Instituto Moreira Salles em 2005.
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Para a elaboração dessa cronologia, a Brasiliana Fotográfica pesquisou principalmente em diversos periódicos da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e valeu-se da cronologia de autoria de Maria Inez Turazzi publicada no livro O Brasil de Marc Ferrez, lançado pelo Instituto Moreira Salles em 2005.
* O artigo foi atualizado em 6 de fevereiro de 2019.
** Este link foi colocado em 9 de setembro de 2020.
*** A data e a ocasião desta fotografia foram alteradas em 3 de junho de 2026. Anteriormente, foi identificada como o registro da cerimônia de Te Deum pela aclamação da Princesa Isabel como regente, realizada em 1887.
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Fontes:
AZEVEDO, Jussara França de. A proposta política da Associação Industria RJ – O estatuto. Artigo apresentado no VII Encontro de Pós-Graduação em História Econômica e V Conferência Internacional de História Econômica. Universidade Federal Fluminense, Niterói, setembro de 2014.
BARROS, Mariana Gonçalves Monteiro de. Marc Ferrez e o Rio de Janeiro do seu tempo. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social da Cultura do Departamento de História da PUC-Rio, Rio de Janeiro, setembro de 2006.
ERMAKOFF, George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.
FÁBIO, Flávia de Almeida. Insley Pacheco – propagador das artes. Texto integrante dos Anais do XVIII Encontro Regional de História – O historiador e seu tempo. ANPUH/SP – UNESP/Assis, 24 a 28 de julho de 2006. Cd-rom.
FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840 – 1900. Rio de Janeiro: Fundação Nacional Pró-Memória/Funarte, 1975.
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Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez
Dom Pedro II ( RJ, 2/12/1825 – Paris, 5/12/1891), um entusiasta da fotografia*
Dom Pedro II foi um entusiasta da fotografia, seja como mecenas seja colecionador. Foi o primeiro brasileiro a possuir um daguerreótipo, e, provavelmente, o primeiro fotógrafo nascido no Brasil. Devido ao seu interesse no assunto, implantou e ajudou decisivamente o desenvolvimento da fotografia no país. Sua filha, a princesa Isabel (1846-1921), foi, inclusive, aluna do fotógrafo alemão Revert Henrique Klumb (c. 1826- c. 1886). Ao ser banido do país, em 1889, pelos republicanos, Pedro II doou à Biblioteca Nacional a coleção de cerca de 25 mil fotografias, que então denominou, juntamente com a coleção de livros, de Coleção Dona Theresa Christina Maria (Jornal do Commercio, 16 de março de 1892, penúltima coluna; Anais da Biblioteca Nacional, 1897, volume 19, página 230). Segundo Pedro Vasquez, essa coleção é, até hoje, “o mais diversificado e precioso acervo dos primórdios da fotografia brasileira jamais reunido por um particular, e tampouco por uma instituição pública“.
A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: em 7 de janeiro de 1839, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851); cerca de 4 meses depois, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido o tema de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839, para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.
Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843-1923) e Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia passou a ser o instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, “moderna como queria que fosse o reino”, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, e tornou-se também mais um símbolo de civilização e status.
Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Vitória da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.
Dom Pedro II governou o Brasil de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889 e, segundo José Murilo de Carvalho, o fez “com os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, não foi amado por quase ninguém“. Em seus quase 50 anos de governo, o tráfico de escravizados e a escravidão foram abolidos, a unidade do Brasil foi consolidada, as principais capitais brasileiras se modernizaram, a ciência e a cultura se desenvolveram. Sinais, sobretudo estes últimos, de um reinado que, não obstante o conservadorismo escravista dominante, perseguiu sempre uma pauta liberal, humanista e civilizatória.
Em seu diário de 1862, Pedro II declarou: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferia a de presidente da República ou ministro a imperador”. De fato, no século XIX, muito do que se fez no Brasil nos campos das letras e das ciências deveu-se a ele, um dos monarcas mais eruditos de sua época.
Lista dos Fotógrafos da Casa Imperial, na ordem cronológica em que foram agraciados com este título, segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez:
Buvelot & Prat, título concedido em 8 de março de 1851 (província do Rio de Janeiro)
Joaquim Insley Pacheco, título concedido em 22 de dezembro de 1855 (província do Rio de Janeiro)
João Ferreira Villela, título concedido em 18 de setembro de 1860 (província de Pernambuco)
Revert Henrique Klumb, título concedido em 24 de agosto de 1861 (província do Rio de Janeiro)
Stahl & Wahnschaffe, título concedido em 21 de abril de 1862 (província do Rio de Janeiro)
Diogo Luiz Cipriano, título concedido em 20 de setembro de 1864 (província do Rio de Janeiro)
Antonio da Silva Lopes Cardoso, título concedido em 30 de novembro de 1864 (província da Bahia)
Thomas King, título concedido em 18 de maio de 1866 (província do Rio Grande do Sul)
José Ferreira Guimarães, título concedido em 13 de setembro de 1866 (província do Rio de Janeiro)
Pedro Satyro da Silveira*, título concedido na década de 1870 (província do Rio de Janeiro)
José Tomás Sabino, título concedido em 13 de agosto de 1873 (província do Pará)
Henschel & Benque, título concedido em 7 de dezembro de 1874 (província do Rio de Janeiro)
Pedro Hees *, título concedido em 1876 (província do Rio de Janeiro)
Antonio Henrique da Silva Heitor, título concedido em 2 de março de 1885 (província do Rio de Janeiro)
Fernando Skarke, título concedido em 14 de dezembro de 1886 (província de São Paulo)**
Ignácio Fernandes Mendo, título concedido em 6 de agosto de 1889 (província da Bahia)
Apesar de não estarem na lista de Auler, os fotógrafos Mangeon & Van Nyvel, radicados no Rio de Janeiro e Luiz Terragno (c. 1831 – 1891), do Rio Grande do Sul, também anunciavam esse título e as armas imperiais no verso de suas fotografias. Já Marc Ferrez foi o único com a distinção de Fotógrafo da Marinha Imperial. Seis fotógrafos estrangeiros também foram agraciados com o título de fotógrafos imperiais: o francês Alphonse Liebert, o português Joaquim Coelho da Rocha, o austríaco Guilherme Perimutter, os tchecos Franz Piedrich e Charles Molock; e o italiano Francesco Pesce.
Alphonse Léon Nöel; Victor Frond. Dom Pedro II, 1861. Paris, França / Acervo FBN
1825 – Em 2 de dezembro, nascimento de Pedro II, às 2h30 da manhã, no Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, filho mais novo do imperador dom Pedro I do Brasil (1798 – 1834) e da imperatriz dona Maria Leopoldina de Áustria (1797 – 1826) (Diário do Rio de Janeiro, de 5 de dezembro de 1825).
Foi batizado, em 9 de dezembro, e seu nome completo era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon. Um pouco menor que o nome do seu pai, Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (Império do Brasil: Diário Fluminense, de 10 de dezembro de 1825).
1826 – Em agosto, foi oficialmente reconhecido como herdeiro do trono brasileiro com o título de príncipe imperial .
1831 – Em 7 de abril, o imperador Pedro I abdicou (Aurora Fluminense, de 11 de abril de 1831). O príncipe imperial Pedro tornou-se “Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil“, sendo aclamado por uma multidão. Dom Pedro I deixou seu filho aos cuidados do tutor José Bonifácio de Andrada (1763 – 1838), de dona Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho (? – 1855), tornada condessa de Belmonte, em 5 de maio de 1844, aia de Pedro II desde seu nascimento, a quem ele chamava de Dadama; e de Rafael, que era um empregado do paço em quem Pedro I possuía grande confiança.
No mesmo dia da abdicação, foi eleita, no Senado, a Regência Provisória, formada pelos senadores Nicolau do Campos Vergueiro (1788 – 1859), por José Joaquim de Campos (1768 – 1836), o Marquês de Caravelas, e pelo senador Francisco de Lima e Silva (1785 – 1853), pai de Luís Alves de Lima e Silva (1803 – 1880), o Duque de Caxias.
Em 17 de junho, a Regência Trina Permanente foi eleita pela Assembleia Geral. Era composta pelo deputado da Bahia, José da Costa Carvalho (1796 – 1860), o Marquês de Monte Alegre; do Maranhão, João Bráulio Moniz (1796 – 1835), e pelo senador Francisco de Lima e Silva (1785 – 1853), do Rio de Janeiro (Aurora Fluminense, de 20 de junho de 1831, na primeira coluna, sob o título “Rio de Janeiro”).
1834- Em 12 de agosto foi aprovado o Ato Adicional, que estipulou o fim da Regência Trina e alterou a Constituição de 1824, autorizando cada uma das províncias a criar uma Assembleia Legislativa. A situação política do país se acalmou.
1835- Em 7 de janeiro, teve início a Cabanagem no Pará.
Em abril, realizaram-se as eleições para a primeira Regência Una. Venceu o padre Diogo Antônio Feijó (1784 – 1843), um dos líderes progressistas e antigo ministro da Regência Trina Permanente.
Em 20 de setembro, iniciou-se a revolta Farroupilha, no Rio Grande do Sul.
1837 - Para tentar acabar com o avanço da Cabanagem e da Farroupilha, movimentos revoltosos contra o governo, Feijó pediu a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do aumento dos efetivos militares do governo. Seu pedido foi negado e ele renunciou. O presidente da Câmara dos Deputados e líder da facção regressista, o marquês de Olinda, Pedro Araújo Lima (1793 – 1870), assumiu provisioriamente a regência (Jornal do Commercio, de 25 de setembro de 1837, na primeira coluna).
Em 13 de dezembro, teve início a Balaiada no Maranhão.
1839 – O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro recebeu o patronato do imperador dom Pedro II , que além de seu protetor, tornou-se um ativo membro, tendo presidido centenas de sessões.
1840 – O abade francês Louis Comte (1798 – 1868), capelão da corveta L´Oriental-Hydrographe, fez na hospedaria Pharoux, a primeira apresentação do daguerreótipo no Brasil e na América Latina, realizando um ensaio fotográfico (Jornal do Commercio, de 17 de janeiro de 1840, na primeira coluna). Dias depois, apresentou o invento a dom Pedro II (Jornal do Commercio, de 20 de janeiro de 1840, na terceira coluna). Em março do mesmo ano, com menos de 15 anos, dom Pedro II adquiriu o equipamento, através do negociante Felício Luzaghy.
O Brasil encontrava-se em uma situação delicada com as revoltas e dom Pedro II só poderia ser declarado maior com 18 anos de idade. Além disso, a Regência sempre motivaria conflitos políticos. Em abril, o senador do Partido Liberal, José Martiniano de Alencar (1794 – 1860), pai do romancista José de Alencar, propôs a criação da Sociedade Promotora da Maioridade, que passou a se chamar Clube da Maioridade. Seu presidente, Antônio Carlos de Andrada (1773 – 1845), levou a campanha para as ruas, conseguindo a adesão do povo.
1842 / 1843 – Entre dezembro de 1842 e princípio de 1843, d.Pedro II foi apresentado ao fotógrafo norte-americano Augustus Morand, que ficou no Rio de Janeiro até abril de 1843, tendo produzido daguerreótipos do monarca, da família imperial e vistas dos arredores do Palácio Real de São Cristóvão.
1843 – Em 30 de maio, dom Pedro II e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), princesa das Duas Sicílias, casaram-se por procuração, em Nápoles. Como eles eram primos, tiveram que obter licença de Roma. Em 3 de setembro, ela chegou ao Rio de Janeiro. Eles se encontraram pela primeira vez, a bordo da fragata Constituição (Jornal do Commercio, de 4 de setembro, na última coluna; ede 5 de setembro de 1843, na primeira coluna, ambas sob o título “Jornal do Commercio”). Dom Pedro II ficou muito decepcionado com a aparência de sua esposa .
Teve início a Revolução Praieira, em Pernambuco. De caráter liberal e federalista, ganhou o nome de Praieira, pois a sede do jornal Diário Novo, comandado pelos revoltosos, ficava na rua da Praia.
1849 – O primo de d. Pedro II, Henrique Guilherme Adalberto da Prússia (1811-1873), em seu diário sobre a visita que havia feito ao Brasil, comentou que d. Pedro II fazia experimentos com o daguerreótipo.
1850 – Morreu dom Pedro Afonso, em 10 de janeiro (Diário do Rio de Janeiro, de 11 de janeiro de 1850). O túmulo dos únicos filhos homens de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, os Príncipes Imperiais Afonso Pedro de Bragança (1845 – 1847) e Pedro Afonso de Bragança (1848 – 1850) estão no Mausoleu do Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro.
Foram promulgados o Código Comercial, baseado nos Códigos de Comércio de Portugal, França e Espanha; e a Lei de Terras, que foi regulamentada em 1854. Esta lei estabelecia a compra como a única forma de acesso à terra e abolia, em definitivo, o regime de sesmarias.
O governo brasileiro rompeu relações com a Confederação Argentina, governada por Juan Manuel de Rosas (1793 – 1877).
1851 – Brasil, Uruguai e as províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes firmaram, em Montevidéu, uma aliança ofensiva e defensiva contra Rosas, que declarou guerra ao Império brasileiro.
Tornou-se um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Vitória da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 8 de março de 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.
1852 – Em fevereiro, Rosas foi derrotado pelo general Justo José de Urquiza (1801-1870) com o apoio do Brasil, na Batalha de Monte Caseros (Correio da Tarde, de 24 de fevereiro de 1952).
Início da telegrafia elétrica no Brasil. Telegramas foram trocados entre o imperador, que se encontrava na Quinta de São Cristóvão, e o ministro da Justiça, Eusébio de Queiroz (1812 – 1868), e o professor Guilherme Schüch de Capanema (1824 – 1908), que estavam no Quartel General, no Campo da Aclamação, atual Campo de Santana.
1856 – Dom Pedro II conheceu a tutora de suas filhas, a condessa de Barral, Luisa Margarida Portugal de Barros (1816 – 1891), por quem se apaixonou e se correspondeu intensamente ao longo de 26 anos de relacionamento. Cartas trocadas entre os dois estão disponíveis no Correio IMS: em 12 de junho de 1876, em 15 de março de 1877, em 29 de março de 1877 e em 7 de junho de 1880.
1859 – Publicação de um esboço biográfico de dom Pedro II, de autoria, segundo a historiadora Cristiane Garcia Teixeira, doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina, de Machado de Assis (1839 – 1908) (O Espelho, 6 de novembro de 1859; Uol, 17 de setembro de 2020).
Dom Pedro II viajou para as províncias do Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Quando visitou Recife, em outubro, o fotógrafo João Ferreira Villela (18? -?) ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas: do Pavilhão construído a mando da Câmara Municipal para a recepção do imperador, do porto de desembarque do imperador com quiosque, dois barracões, chafariz e cais do Colégio; da continuação da citada vista com o mastro norte do pavilhão da Câmara e mosqueiro com todas as embarcações ali fundeadas; de uma marinha, do Templo dos Ingleses, na rua da Aurora; e do fim da rua da Cruz com o princípio do arsenal de Marinha. S. Majestade, com a bondade que todos conhecem, dignou-se receber o mimo, declarar que conhecia todas as vistas e achava bom o trabalho. Encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido. Ficou combinado que seriam remetidas para o Rio de Janeiro. É mais uma prova do quanto nosso adorado monarca aprecia e anima as artes assim como do valor e importância que dá ao que é nosso (Diário de Pernambuco, 26 de dezembro de 1859, quarta coluna).
1861 - Em dezembro, início da Questão Christie com o naufrágio e posterior pilhagem do navio inglês Prince of Wales nas costas do Rio Grande do Sul. O incidente diplomático envolvendo o Brasil Império e a Inglaterra foi batizado com esse nome porque o embaixador britânico no Brasil era William Dougal Christie (1816-1874).
1862- Em 5 de dezembro, foram presos por terem causado distúrbios três oficiais da fragata inglesa Fort. Eles estavam bêbados e à paisana. O embaixador Christie exigiu a punição do chefe da polícia. Também cobrou o pagamento da indenização de 6 mil libras esterlinas pela pilhagem do navio inglês Prince of Wales. Esse fato teria gerado, segundo o historiador Bóris Fausto, um clima de “exaltação patriótica”. Houve manifestações populares contra a Grã-Bretanha, no Rio de Janeiro
1863 – Em janeiro, o governo brasileiro não atendeu às exigências de Christie e a Marinha inglesa fundeada no Rio de Janeiro bloqueou a baía de Guanabara e apreendeu 5 navios brasileiros. Sob protesto, em 26 de fevereiro, o Brasil pagou a indenização pelo Prince of Wales e Christie foi obrigado a deixar o país. O governo imperial brasileiro rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, em 25 de maio, pela ausência de desculpas do governo britânico.
1871 / 1872 – Em 25 de maio de 1871, dom Pedro II viajou pela primeira vez para a Europa e para o Oriente Médio. A princesa Isabel tornou-se, pela primeira vez, regente provisória. Em Lisboa, seu primeiro destino, dom Pedro visitou dona Amélia (1812 – 1873), viúva de dom Pedro I (1798 – 1834), no palácio das Janelas Verdes. Conheceu diversos intelectuais portugueses, entre eles, Alexandre Herculano (1810 – 1877). Depois foi à Espanha, à França, onde encontrou a condessa de Barral (1816 – 1891) e o filósofo Arthur de Gobineau (1816 -1882); à Inglaterra, à Bélgica, à Alemanha, onde conheceu o compositor Richard Wagner (1813 – 1883); à Áustria, à Itália, ao Egito, à Creta e à Suíça. Em 31 de março de 1872, retornou ao Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, 1º de abril de 1872), trazendo o duque de Saxe, viúvo de de sua filha Leopoldina, e seus dois netos, Pedro Augusto (1866 – 1934) e Augusto Leopoldo (1867 – 1922), que seriam educados no Brasil.
1874 – Em 22 de junho, foi efetivada a ligação do Brasil a Portugal por telégrafo.
Teve início a revolta do Quebra-Quilos, quando várias cidades do nordeste se rebelaram contra o decreto que impunha a implantação de um novo sistema métrico. No ano seguinte, com a forte repressão promovida pelo governo imperial, a região foi pacificada.
1876 – Em março, dom Pedro II viajou para os Estados Unidos e para a Europa. Embarcou no Rio de Janeiro, no navio americano Hevelius, sob o comando do capitão Markwell (Diário do Rio de Janeiro, 26 de março de 1876, na terceira coluna). Acompanhando a comitiva real, estava o repórter J. O´Kelly, do jornal New York Herald. Chegou em Nova York, em 15 de abril (Diário do Rio de Janeiro, 20 de bril de 1876, segunda coluna). Visitou outras cidades como Chicago, Pittsburg e Washington. Inaugurou a Exposição da Filadélfia, que abriu ao lado do presidente Ulysses S. Grant (1822 – 1885), em 10 de maio, em meio a uma multidão de cerca de 200 mil pessoas. A cerimônia de abertura terminou no pavilhão de máquinas e equipamentos com Grant e Dom Pedro II acionando o motor a vapor Corliss Steam Engine (Diário do Rio de Janeiro, 12 de maio de 1876, primeira coluna). Na exposição, esteve com os cientistas Thomas Edison (1847 – 1931) e Grahan Bell (1847 – 1922), que apresentou ao imperador sua invenção – o telefone. Foi também à Niagara Falls. Em 12 julho, partiu para a Europa no vapor Russia, da Cunard Line: foi a Londres e Bruxelas, onde encontrou o famoso médico francês Jean-Marie Charcot (1825 – 1893). Deixou a imperatriz Teresa Cristina em Gastein, na Áustria, para tratamento de saúde e partiu para a Grécia. No Oriente, a imperatriz e a condessa de Barral o encontraram. Foi à Roma, Viena e Paris, onde conheceu os intelectuais Jean Louis Quatrefages (1810 – 1892), Ernest Renan (1823 – 1892), Louis Pasteur (1822 – 1895) e Victor Hugo (1802 – 1885). Retornou em setembro.
1877 – Por ordem de dom Pedro II, foram instaladas linhas telefônicas entre as residências dos ministros e o palácio da Quinta da Boa Vista.
O New York Herald relembrou a visita de Pedro II aos Estados Unidos, e apresentou a seguinte proposta: “Para nossa chapa Centenária, indicamos Dom Pedro II e Charles Francis Adams, para presidente e vice-presidente. Estamos cansados de gente comum, e sentimo-nos dispostos a apoiar gente de estilo”. O advogado, político, diplomata e escritor americano Charles Frances Adams ( 1807 – 1886) era neto do presidente John Adams e filho do presidente John Quincy Adams.
1878 – Dom Pedro II viajou para a província de São Paulo.
1879 – Inauguração da iluminação elétrica na Estação Central da Estrada de Ferro Dom Pedro II.
Em 28 de dezembro de 1879, início no Rio de Janeiro da Revolta do Vintém, contra a cobrança de um tributo instituído pelo ministro da fazenda, o visconde de Ouro Preto, Afonso Celso de Assis Figueiredo (1836 – 1912), de vinte réis, ou seja, um vintém, nas passagens dos bondes. O ministério, desmoralizado, caiu no ano seguinte e o imposto foi revogado.
1880 – Criação da Telephone Company of Brazil, primeira companhia telefônica nacional.
Dom Pedro II viajou ao Paraná, onde participou do lançamento da pedra fundamental da estrada de ferro Paranaguá – Curitiba, a ferrovia do Paraná (Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880).
1881 – Em 9 de janeiro, aprovação da Lei Saraiva, que estabeleceu o voto direto e proibiu o voto dos analfabetos.
1883 – A cidade de Campos (RJ) tornou-se o primeiro município da América do Sul a receber iluminação elétrica pública.
Início da Questão Militar, uma série de conflitos entre autoridades da monarquia e os oficiais do Exército brasileiro, que fortaleceu a campanha republicana.
1885 – Promulgação da Lei dos Sexagenários, em 28 de setembro.
1886 – Dom Pedro II, dona Teresa Cristina e a comitiva imperial viajaram para a província de São Paulo entre outubro e novembro (Correio Paulistano, 19 de outubro e 20 de novembro de 1886).
1887 / 1888 – Em 30 de junho de 1887, dom Pedro II viajou pela terceira vez para a Europa. Seu primeiro destino foi Portugal. De lá, seguiu para Paris. Aconselhado por médicos, seguiu para Baden-Baden, e retornou a Paris, onde visitou intelectuais, entre eles, Louis Pasteur. Fez um cruzeiro pela Riviera italiana e foi para a estação de cura de Aix-les-Bains, na França. Também visitou, atendendo a um desejo de sua esposa, dona Teresa Cristina Maria, as ruínas de Pompeia (Gazeta de Notícias, 17 de junho de 1888, quarta coluna). Em 22 de agosto de 1888, retornou ao Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 23 de agosto de 1888, primeira coluna).
1889 – Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado quando saía do Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, com alguns membros de sua família, em 15 de julho de 1889 (O Paiz, 16 de julho de 1889, sexta coluna).
Em 9 de novembro, foi realizado o baile da Ilha Fiscal (Gazeta de Notícias, de 11 de novembro de 1889), que passou à história como o último baile da monarquia no Brasil. Reza a lenda que dom Pedro II, durante a festividade, teria tropeçado em um tapete e teria comentado: “O monarca tropeçou, mas a monarquia não caiu“. Ironia do destino?
Em 15 de novembro, foi proclamada a República (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1889). Quando foi deposto, dom Pedro II tinha governado por 49 anos, três meses e 22 dias.
Em Cannes, em abril, Pedro II escreveu seu testamento político, intitulado Fé de Ofício, uma declaração de seus sentimentos e de seus feitos pelo Brasil. Foi seu último ato público. Discutiu seu texto com o engenheiro abolicionista André Rebouças (1838 – 1898)e sua versão final foi redigida pelo visconde de Taunay (1843 – 1899). Foi publicado no Jornal do Commercio de 28 de maio de 1891 (Jornal do Commercio, 28 de maio de 1891, segunda coluna).
Transcrição do texto publicado no Jornal do Commercio, de 28 de maio de 1891, introduzindo a Fé do Ofício, de autoria de Pedro II
O EX-IMPERADOR
É uma espécie de testamento político, ou antes um memorial, em que são anotados com uma forma por vezes brusca, sempre concisa, e são gravados em traços vigorosos e lapidares todos os desígnios, todos os ideais, todas as preocupações que agitaram e fizeram agir o homem probo e patriota, que, durante mais de meio século, dirigiu os destinos da mais bela porção desta América, que ele chama em uma frase simples e tocante, da qual transuda o mais entranhado amor — “o meu caro Brasil.” A forma testamentária desse documento não nos obriga, entretanto, a proferir o juízo que os contemporâneos tenham já formado do papel político que D. Pedro II representou no Brasil. Essa tarefa incumbe, no nosso entender, à posteridade, que tem a perspectiva dos acontecimentos que nos falece a nós, e assim pode gravar o seu juízo inexorável e infalível. O que queremos apenas testemunhar, o que queremos assinalar com o maior relevo é que, no declínio da existência, nessa melancólica paragem da vida humana, em que se arrefecem todas as aspirações e ambições e a vida moral não se inebria mais com a voluptuosidade alentadora das esperanças, aquele venerando Ancião volve irresistivelmente os seus olhos já cansados para a terra que lhe foi berço, que ele ama estremecidamente, e deixa entrever o desejo de que aqueles, a cuja comunhão os destinos o acaso o fez presidir, julguem-no também pelas suas intenções, que foram límpidas como o cristal, pelo amor infinito que dedicou e dedica a esta terra; e do mais profundo do coração lembra, com as luzes da sua longa experiência, o caminho da felicidade, no qual quer ver encarreirado o “seu caro Brasil”. Fé de Ofício“Creio em Deus.
Fez-me a reflexão sempre conciliar as suas qualidades infinitas: Previdencia, Omnisciencia e Misericordia. Possuo o sentimento religioso, innato ao homem, é despertado pela comtemplação da natureza. Sempre tive fé e acreditei nos dogmas. O que sei, devo-o, sobretudo, á pertinacia.
Reconheço que sou muito somenos do que é relativo aos dotes da imaginação, que posso bem apreciar nos outros. Muito me preocuparam as leis sociaes; e não sou o mais competente para dizer a parte que de continuo tomei em meu estudo de applicação. Sobremaneira me interessei pelas questões economicas, estudando com todo o cuidado as pautas das alfandegas no sentido de proteger as industrias naturaes até o período do seu prospero desenvolvimento.
Invariavelmente propendi para a instrucção livre, havendo sómente inspecção do Estado quanto á moral e á hygiene, devendo pertencer a parte religiosa ás famílias e aos ministros das diversas religiões. Pensei tambem no estabelecimento de duas Universidades uma no norte e outra no sul, com as faculdades e institutos necessarios e portanto apropriados ás differentes regiões, sendo o provimento das cadeiras por meio de concurso.
Egreja livre no Estado livre; mas isso quando a instrucção do povo pudesse aproveitar de taes institutos. Estudei com cuidado o que era relativo á moeda corrente e se prendia á questão dos bancos. Quanto á legislação sobre privilegio, oppuz-me aos que se ligam á propriedade literaria, sustentando assim as opiniões de Alexandre Herculano antes que elles as tivesse manifestado.
Cautelosa e insistentemente estudei questões de immigração sobre a base da propriedade e o aproveitamento das terras, explorações para o conhecimento das riquezas naturaes, navegação de rios e differentes vias de communicação. Pensava na installação de um bom observatorio astronomico, moldado nos mais modernos estabelecimentos desse genero. Segundo as minhas previsões e estudos, poderia ser superior ao de Nice.
Cogitei sempre em todos os melhoramentos para o exercito e a marinha, afim de que estivessemos preparados para qualquer eventualidade, embora contrario ás guerras. Buscava assim evital-as. Preocuparem-me seriamente os estudos de hygiene publica e particular de modo a nos livrar das epidemias; e isso sem grande vexame para as populações.
Acompanhava-me sempre a idéa de vêr o Brasil que me é tão caro, o meu Brasil sem ignorancia, sem falsa religião, sem vicios e sem distancias. Para mim o homem devia ser regenerado e não suprimido; e por isso, muito estudava a penalidade, tomando grande parte no que se fez relativamente a prisões e pensando todas as questões modernas, que tendiam ao seu melhoramento.
Procurei abolir a pena capital, tendo encarregado o Visconde de Ouro Preto de apresentar ás Camaras um projecto para a abolição legal da mesma pena.
Pacientemente compulsava todos os processos para a commutação da pena ultima: quando não encontrava base para isso, guardava-os, sendo a incerteza já uma pena para os réos.
Muito me esforcei pela liberdade das eleições e, como medida provisoria, pugnei pela representação obrigada do terço, preferindo a representação uninominal de circulos bem divididos; pois o systema, ainda por ora impraticavel, deve ser o da maioria de todos os votantes de uma nação. Conselho de Estado, organizado o mais possivel como o da França, reformando-se a Constituição para que pudesse haver direito administrativo contencioso.
Provimento de logar de magistratura, por concurso perante tribunal judiciario para formar lista dos mais habilitados, onde o governo pudesse escolher; concurso tambem para os logares de administração; categorias de presidencias para que se preparassem os que devião regel-as, conforme a importancia de cada um. Trabalhei muito para que só votasse quem soubesse ler e escrever, o que supõe riqueza moral e intelectual, isto é, a melhor.
Sempre procurei não sacrificar a administração á politica.
Cogitava na construção de palacios para os ramos legislativo e judiciario e para a administração, para bibliotheca e exposições de differentes especies, para conferencias publicas. Nunca me descuidei de sorte physica do povo, sobretudo em relação as habitações salubres e a preço commodo é á sua alimentação. Nunca deixei de estudar um só projecto, discutindo com os seus autores e procurando estabelecer-me.
O meu dia era todo ocupado no serviço publico e jamais deixei de ouvir e fallar a quem quer que fosse. Lia todas as folhas e jornais da capital e alguns das províncias para tudo conhecer por mim quanto possivel, e mandava fazer e fazia extractos nos das províncias dos fatos mais importantes que se ligavam á administração, com a idéa constante de justiça a todos.
Assisti a todos os actos públicos para poder vêr e julgar por mim mesmo.
Em extremo gostei do theatro dramático e lyrico, cogitando sem cessar da idéa de um theatro nacional. Nunca me esqueci da Academia de Bellas Artes, pintura, esculptura, desenho e gravura, e fiz o que pude pelo Lyceu de Artes e Officios. Desejava estabelecer maior numero de dioceses, conforme comportasse o território, assim como differentes seminarios. Sempre me interessei pelas expedições scientificas, desde a do Ceará, que publicou trabalhos interessantes, lembrando-me agora a de Agassiz e de algumas que ilustrarão nossos patricios no continente europeu.
Presidia ultimamente a comissão encarregada do Codigo Civil e esperava que, em pouco tempo, apresentasse ella trabalho digno do Brasil.
Pensava na organização de instituto scientifico e literario, como o de França, utilisando para isso alguns estabelecimentos de instrucção superior que já possuimos; e para isso eu encarreguei o Dr. Silva Costa e outros de formarem projectos de estatutos.
Sempre procurei animar palestras, sessões, conferencias scientificas e literarias, interessando-me muito pelo desenvolvimento do Museu Nacional.
O que ahi fez o Dr. Conty tornou esse estabelecimento conhecido na Europa; muitos dos trabalhos do Museu são hoje citados e applaudidos.
Preocuparam-me as escolas praticas de agricultura e zootechnia.
Dei toda a atenção ás vias de comunicação de todas as especies no Brasil, tendo feito, além de outros, estudo especial dos trabalhos do celebre engenheiro Haukshaw relativos aos melhoramentos da barra do Rio Grande do Sul. Do mesmo modo, tudo quanto se referia estabelecer a circulação do Brasil por agua desde o Amazonas até ao Prata e dahi ao S. Francisco, da fóz para o interior ligando-se por estradas de ferro a região dos Andes ás bacias do Prata e Amazonas.
Oxalá pudesse a navegação por balões aerostaticos tudo dispensar e, elevando-se bem alto assim como submarina aprofundando-se bastante, nos livrassem ambas das tempestades.
São, porem, devaneios…
Nas preocupações scientificas e no constante estudo é que acho consolo e me preservo das tempestades moraes…”
Dom Pedro de Alcantara
Cannes, 23 de abril de 1891.
Em 24 de outubro, dom Pedro II chegou em Paris, onde se hospedou no Hotel Bedford, número 17 da rua de l’Arcade.
‘Nós, abaixo assinados, Professores da Faculdade de Medicina e doutores em medicina, certificamos que Dom Pedro II d’Alcantara morreu em 5 de Dezembro de 1891 à meia noite e 35 (da manhã) no hotel Bedford, 17 rue de l’Arcade, em Paris, em conseqüência de uma pneumonia aguda do pulmão esquerdo.
Quando seu corpo estava sendo preparado para o velório, foi encontrado um pacote lacrado nos aposentos do imperador com a mensagem: “É terra de meu país. Desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”. Em seu leito de morte, um livro, simbolizando que sua mente descanava sobre o conhecimento, foi colocado sob sua cabeça.
Ao final da tarde do dia 5, centenas de coroas de flores, uma delas enviada pela rainha Vitória , e mais de cinco mil telegramas já haviam chegado ao Hotel Bedford. O caixão foi coberto pela bandeira imperial e o presidente francês, Sadi Carnot (1837 – 1894), determinou honras militares, fatos que irritaram o governo brasileiro.
Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, a morte do imperador teve grande repercussão no Brasil “apesar dos esforços do governo para a abafar. Houve manifestações de pesar em todo o país: comércio fechado, bandeiras a meio pau, toques de finados, tarjas pretas nas roupas, ofícios religiosos“.
Na noite do dia 8, seu corpo, já embalsamado, foi levado, em cortejo oficial no mesmo carro usado nos funerais do ex-presidente Adolphe Thiers (1797 – 1877), para a igreja da Madeleine. No dia seguinte, houve exéquias solenes com a presença de autoridades francesas e de outros países, além de personalidades como sua filha, a princesa Isabel; o escritor português Eça de Queirós (1845 – 1900) e o diplomata Joaquim Nabuco (1849 – 1910), na época correspondente do Jornal do Brasil na França, que escreveu:
“Mais do que isso, infinitamente, D. Pedro II preferia ser enterrado entre nós, e por certo que o tocante simbolismo de fazerem o seu corpo descansar no ataúde sobre uma camada de terra do Brasil interpreta o seu mais ardente desejo. Ao brilhante cortejo de Paris ele teria preferido o modesto acompanhamento dos mais obscuros de seus patrícios, e daria bem a presença de um dos primeiros exércitos do mundo em troca de alguns soldados e marinheiros que lhe recordassem as gloriosas campanhas nas quais seu coração se enchera de todas as emoções nacionais. Mas foi a sua sorte morrer longe da Pátria. É uma consolação, para todos os brasileiros que veneram o seu nome, ver que ele, na sua posição de banido, recebeu da gloriosa nação francesa as supremas honras que ela pode tributar. No dia de hoje o coração brasileiro pulsa no peito da França.”
Da igreja partiu um imenso cortejo – calcula-se que cerca de 200 mil pessoas o acompanhou – e, ao som da Marcha Fúnebre de Frédéric Chopin (1810 – 1849), o corpo foi levado para a estação de Austerlitz, seguindo de trem para Portugal. No dia 12, foram realizados os funerais em São Vicente de Fora, nos arredores de Lisboa. O corpo de dom Pedro II foi colocado no jazigo da família Bragança, entre o de sua esposa, Teresa Cristina (1822 – 1889), e de sua madrasta, dona Amélia de Leuchtenberg (1812 – 1873).
Os funerais do imperador do Brasil / Le Petit Journal, 26 de dezembro de 1891
No New York Times, de 5 de dezembro, vários elogios foram feitos a dom Pedro II: havia sido o mais ilustrado monarca do século e havia tornado o Brasil tão livre quanto uma monarquia pode ser. A imprensa brasileira também manifestou-se, em sua maioria, elogiosamente a ele. A exceção foi o Diário de Notícias, e alguns clubes republicanos que protestaram contra as homenagens, vendo nelas, segundo o historiador José Murilo de Carvalho, “manobras monarquistas. Foram vozes isoladas“.
Mesmo os republicanos como Quintino Bocaiuva (1836 – 1912) e José Veríssimo (1857 – 1916), seus adversários políticos, salientaram suas qualidades, dentre elas a simplicidade, o patriotismo, o espírito de justiça e liberdade.
Sobre Pedro II, Quintino Bocaiuva declarou: “A república, que na hora do seu trinfo foi magnânima; hoje, no momento em que desaparece dentre os vivos o Sr. D. Pedro de Alcântara, só pode ter e só deve ter para com a sua memórioa o respeito devido a um brasileiro ilstre que, ao menos pelo seu carater e virtudes pessoais, não desonrou o Brasil e desempenhou, como pode, ou como soube, com boa intenção e ânimo reto, as altas funções de que foi investido como chefe supremo da nação brasileira ” (O Paiz, 6 de dezembro de 1891, penúltima coluna).
Segundo Veríssimo em sua coluna “Às Segundas-feiras”, intitulada Pedro II, durante o governo do monarca: “Todos pensávamos como queríamos e dizíamos o que pensávamos. Eu não sei que maior elogio se possa fazer a um estadista” (Jornal do Brasil, 8 de dezembro de 1891, última coluna).
1920 – O projeto do deputado mineiro Francisco Valadares (18? – 1933) requerendo a revogação do banimento da família imperial do Brasil, que havia sido apresentado em dezembro de 1919 e arquivado, recebeu em 1920 um parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça e foi rapidamente aprovado no Congresso. Em 3 de setembro de 1920, no Palácio do Catete, o presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942) assinou, com uma caneta de ouro adquirida a partir da arrecadação de dinheiro mediante subscrição pública promovida pelo jornal A Rua, o decreto que revogava o banimento da família imperial. A cerimônia foi realizada com a presença de comissões de instituições importantes como o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, a Academia Brasileira de Letras e a Associação Brasileira de Imprensa. O decreto também autorizava o Poder Executivo, mediante concordância da família do ex-imperador e do governo de Portugal, a trasladar para o Brasil os despojos mortais de dom Pedro II e de dona Teresa Christina (A Rua, 4 de setembro de 1920, primeira coluna).
1921- Chegaram no Rio de Janeiro os corpos de dom Pedro II e de dona Teresa Cristina, que estavam no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Viajaram no encouraçado São Paulo, que havia transportado do Brasil à Europa os reis da Bélgica. O conde d´Eu (1842 – 1922), seu filho, o príncipe Dom Pedro (1875 – 1940), e o barão de Muritiba (1839 – 1922) acompanharam a viagem dos despojos (O Paiz, de 9 de janeiro de 1921; Careta, 15 de janeiro de 1921). A princesa Isabel não chegou a se beneficiar da revogação do banimento da família real do Brasil porque faleceu em 14 de novembro de 1921. Os corpos de dom Pedro II e de dona Teresa Cristina ficaram na Catedral Metropolitana.
1925 – Os restos mortais dos monarcas foram para a Catedral de Petrópolis.
Foi publicada em O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados, uma edição comemorativa pelo centenário de nascimento de d. Pedro II, com um artigo escrito pelo proprietário do grupo, Assis Chateaubriand, intitulado “Professor de elites – A obra mais interessante de Pedro II consistiu na formação das elites no Brasil” (O Jornal, 2 de dezembro de 1925).
1939 – Em 5 de dezembro, foram para o Mausoléu Imperial, uma capela localizada à direita da entrada da Catedral de Petrópolis, numa cerimônia na qual estava presente o presidente da República, Getulio Vargas (1882 – 1954). O túmulo foi esculpido em mármore de Carrara pelo francês Jean Magrou (1869 – 1945) e pelo brasileiro Hildegardo Leão Veloso (1899 – 1966) (Jornal do Brasil, de 6 de dezembro de 1939).
1978 – Durante o 2º Encontro de Astronomia do Nordeste (EANE), realizado no Recife, entre 30 de junho e 2 de julho, astrônomos de todo o Brasil elegeram Pedro II Patrono da Astronomia Brasileira. O dia de seu nascimento, 2 de dezembro, passou a ser celebrado informalmente como o Dia Nacional da Astronomia.A data foi oficializada pela Lei nº 13.556, de 21 de dezembro de 2017.
Para a elaboração dessa cronologia, além da pesquisa em inúmeros jornais da Hemeroteca da Biblioteca Nacional, a Brasiliana Fotográfica também se valeu, principalmente, dos livros Pedro II: ser ou não ser, de José Murilo de Carvalho, e As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz.
Com curadoria de Paulo Knauss e Marcia Mello, realização, no Museu da Justiça, no Rio de Janeiro, foi inaugurada em 10 de julho de 2025 a exposição A partilha de Pedro II que aborda a memória e o legado do ex-imperador reunindo mais de 100 obras de acervos como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Museu Imperial, o Museu Histórico Nacional, o Museu Histórico da Cidade e o Museu de Arte do Rio, entre outros.***
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
*Esse artigo foi atualizado em 17 de setembro de 2020.
**Essa data foi modificada em 27 de outubro de 2020, baseada no documento original enviado para a pesquisadora Andrea Wanderley pelo bisneto do fotógrafo, Luiz Pitombo.
***Esse parágrafo foi inserido em julho de 2025. Fontes:
BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão: e a Construção do Brasil. São Paulo : Editora UNESP, 2012.
BESOUCHET, Lídia. Exílio e morte do Imperador. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975
CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
KHATLAB, Roberto. As viagens de D. Pedro II: Oriente médio e áfrica do norte, 1871 e 1876. São Paulo : Benvirá, 2015.
PAGANO, Sebastião. Eduardo Prado e Sua Época – O Cetro, SP, 1960.
REZUTTI, Paulo. D. Pedro II – A história não contada: O último imperador do Novo Mundo revelado por cartas e documentos inéditos. Portugal : EditoraLeya, 2019.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SCHWARCZ, Lilia; COSTA; Angela Marques da; AZEVEDO, Paulo Cesar de. A longa viagem da biblioteca dos reis. São Paulo : Companhia das Letras, 2002.
SEGALLA, Lygia: Victor Frond – Luzes sobre um Brasil pitoresco, 2007.
A Brasiliana Fotográfica homenageia a beleza das baianas na fotografia do século XIX no Brasil na data da comemoração do Dia Nacional da Baiana de Acarajé, publicando imagens produzidas por Alberto Henschel (1827 – 1882) e por Marc Ferrez (1843 – 1923). Estas fotografias da segunda metade do século XIX, período ainda de vigência do trágico regime de escravidão que marcou e moldou a história de nosso país, nos colocam face a face com mulheres que vivenciaram diretamente a sociedade daquele momento em todas as suas contradições, algumas libertas, outras ainda na condição de escravizadas, todas, entretanto, integrantes da construção deste legado de cultura e de resistência. Os registros revelam sua beleza, dignidade e altivez.
A baiana, oriunda das ruas de Salvador, tornou-se ao longo da história uma figura emblemática e tradicional da cultura brasileira. Dá nome, inclusive, a uma ala obrigatória das escolas de samba do país. Foi na casa de uma baiana, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata (1854 – 1924), no coração da Pequena África, apelido da Praça XI, que o samba nasceu, no Rio de Janeiro. Foi em 27 de novembro de 1916 que o compositor Donga (1889 – 1974) registrou na Biblioteca Nacional a música “Pelo telefone”, considerada o primeiro samba, composta em uma das festas da casa de Tia Ciata.
“Este bem cultural de natureza imaterial, inscrito no Livro dos Saberes em 2005, é uma prática tradicional de produção e venda, em tabuleiro, das chamadas comidas de baiana, feitas com azeite de dendê e ligadas ao culto dos orixás, amplamente disseminadas na cidade de Salvador, Bahia. Dentre as comidas de baiana destaca-se o acarajé, bolinho de feijão fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído em um pilão de pedra (pedra de acarajé), temperado e posteriormente frito no azeite de dendê fervente. Sua receita tem origens no Golfo do Benim, na África Ocidental, tendo sido trazida para o Brasil com a vinda de escravos dessa região.”
Alguns dos aspectos abordados quando o ofício foi registrado foram a indumentária da baiana, a preparação do tabuleiro e locais onde se instalam e os significados atribuídos pelas baianas ao seu ofício.