As primeiras fotografias aéreas produzidas no Brasil, em 1916, de autoria do fotojornalista Jorge Kfuri

O jornal A Noite noticiou na capa de sua edição de 30 de outubro de 1916 a produção das primeiras fotografias aéreas do Brasil. Elas haviam sido realizadas pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965), que, na época, trabalhava para o periódico. Eram imagens do acampamento dos Afonsos tiradas de um biplano, da Escola de Aviação, pilotado pelo aviador italiano Ernesto Darioli (1881 – 19?) (A Noite, 30 de outubro de 1916). Darioli havia chegado ao Brasil, em fins de 1911 (A Noite, 6 de novembro de 1911, quarta coluna). Foi o instrutor de voo do primeiro aviador militar brasileiro, Ricardo Kirk (1874 – 1915). Ambos foram contratados pela União Federal para missões no teatro de operações da Guerra do Contestado.

 

 

 

Voltando às fotografias aéreas. Pouco depois, em 29 de novembro de 1916, Kfuri produziu mais fotografias aéreas, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare (1883 – 1956), futuro major-brigadeiro, no C-1, em uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats que haviam sido encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926). Chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 29 de novembro de 1916A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve perfil do fotojornalista Jorge Kfuri

 

 

Jorge Kfuri era sírio ou libanês (as fontes variam*) e na década de 1910 já estava no Brasil. Trabalhou entre essa década e a de 1920 nos jornais O Século e A Noite. Em 28 de outubro de 1913, foi um dos fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, no Rio de Janeiro, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil (Fon-Fon, 1º de novembro de 1913). Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). Em 1921, naturalizou-se brasileiro e, em dezembro do mesmo ano, foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira colunaO Relatório do Ministério da Marinha de 1922). Em 1923, para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna). Nos anos 1920, fotos de sua autoria eram publicadas em revistas como a Fon-Fon, a Illustração Brasileira.

Em 1957, em uma cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957 e Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna). Dois anos depois, em 1959, o presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

Kfuri faleceu em 21 de janeiro de 1965, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

*Em matérias de jornal, ele é referido ora como sírio ora como libanês. A pesquisa da Brasiliana Fotográfica acredita que ele tenha nascido no Líbano por dois fatos: em 1934, ele foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro; e o local de seu nascimento como o Líbano é o que consta em seu atestado de óbito.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

GERALDO, Alcyr Lintz. O avião na campanha do Contestado.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Reide Rio de Janeiro Buenos Aires – Oito histórias, 2021.

Site Early Aviators

Site G1

Site Museu Aeroespacial

WANDERLEY, Andrea C. T. Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913 in Brasiliana Fotográfica, 2 de setembro de 2025.

WANDERLEY, Andrea C. T. Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 26 de dezembro de 2019.

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola

Série Avenidas e ruas do Brasil XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola*

 

O poeta e escritor pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968), expoente da literatura brasileira e presença essencial na consolidação da poesia modernista, foi retratado na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, pelo fotógrafo argentino Horacio Coppola (1906 – 2012), provavelmente, segundo os professores Jorge Schwarcz (1944-) e Mauricio Lissovsky (1958 – 2022) (1), em 1931, quando, voltando da Europa, esteve no Rio de Janeiro, em Santos e em Salvador. Os dois registros de Coppola que destacamos no vigésimo artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. Há ainda, no fim do artigo, uma seleção de fotografias de autoria de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e de Marc Ferrez (1843 – 1923) produzidas a partir da Rua do Curvelo, além de uma produzida por Augusto Malta (1864 – 1957).

 

 

Além de um conjunto clássico das fotografias de Buenos Aires feitas por Coppola na década de 1930, o IMS guarda registros das esculturas de Aleijadinho (1738 – 1814) e outras imagens do Brasil.

 

Acesse aqui as fotos disponíveis no portal do IMS das esculturas de Aleijadinho realizadas por Coppola durante sua viagem a Congonhas do Campo e Ouro Preto, em 1945.

 

Bandeira foi retratado na janela de sua moradia, na Rua do Curvelo, nº 51, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. As duas fotografias foram tiradas de cima, da casa nº56 da Rua do Curvelo, onde residiam a psiquiatra Nise da Silveira (1905 – 1999), e seu marido, o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira (1905 – 1986).

 

 

Em uma das imagens, o poeta está sorrindo; na outra, estende a mão para uma moça que olha para Coppola:

Na calçada, uma jovem negra para diante da janela em que o poeta apareceu de pijama, com uma xícara de café. Coppola observa tudo à distância do outro lado da rua. Não sabemos sobre o que conversaram a moça e o poeta. Também não sabemos se Coppola ouviu falar das cidades mineiras naquele momento ou se algum dia leu o soneto que Bandeira escandiu em alexandrinos rimados. Mas percebemos pela fotografia que a noite já vinha chegando “de mansinho”, e que as mãos do poeta e da moça se tocam sobre o beiral da janela. Ela olha para o fotógrafo bem na hora do clique. Sua sombra desliza na calçada da Rua do Curvelo enquanto avulta sobre as pedras lavradas de Ouro Preto, a sombra descomunal da mão do Aleijadinho (LISSOVSKY, 2019).

 

 

Àquela altura, o poeta, no ano em que completou 45 anos, já havia publicado os importantes livros A Cinza das Horas (1917), Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, reunindo os dois primeiros acrescido de Ritmo Dissoluto (1924); e Libertinagem (1930). Neste último, estão os poemas Evocação ao Recife e Vou-me embora pra Pasárgada. Também em 1930, o artista pernambucano Cícero Dias (1907 – 2003) pintou o Retrato de Manuel Bandeira. Também fez  um desenho contemplando a Pasárgada e seu autor.

 

 

Foi, provavelmente, Bandeira quem apresentou Coppola ao poeta, ficcionista, ensaísta e musicista paulistano Mário de Andrade (1893 – 1945) e a outros artistas do Modernismo brasileiro, em 1931.

Alguns anos depois, em 1940, Bandeira tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 24, tendo sido eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães Filho. Foi recebido, em 30 de novembro de 1940, pelo acadêmico Ribeiro Couto (1898 – 1963), seu vizinho em Santa Teresa. Faleceu em 13 de outubro de 1968. Produziu, ao longo de seus 82 nos de vida, uma vasta obra que se tornou uma referência da literatura brasileira. Foi também professor e tradutor.

 

 

A Rua do Curvelo e o modernismo brasileiro

 

A Rua do Curvelo foi aberta, pelo decreto de 17 de junho de 1869, nas terras de Joaquim José de Meireles Ferreira, o barão do Curvelo. Passou a chamar-se Dias de Barros, em 15 de abril de 1931, pelo decreto de alteração de denominações nº 3647.

Em 1920, com 34 anos, Bandeira foi morar na Rua do Curvelo, aonde residiria até 1933. Inicialmente, ocupou a casa nº 53. Em 1923, morava na mesma rua, mas no número 43. No ano seguinte, seu endereço era rua do Curvelo, 51

“O morro do Curvelo (2) entrava, sem saber, na tradição literária. Um grande poeta ali morava: ali tomaria contato com a vida popular, observando, morro abaixo, os quintais efervescentes da rua Cassiano; ali permaneceria os melhores anos e os mais fecundo da criação poética”.

Rui Ribeiro Couto (3),

De menino doente a rei de Pasárgada in Três retratos de Manuel Bandeira, 2004

 

 

“A rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo”.

 Manuel Bandeira,

Itinerário de Pasárgada in Poesia e Prosa, 1958

 

Segundo Elvia Bezerra, pesquisadora de literatura brasileira e autora do livro A trinca do Curvelo (2026), os anos em que residiu na Rua do Curvelo foram fundamentais na formação e no destino de Manuel Bandeira.

“Bandeira era um homem da intensidade, mas não do exagero. Se ele disse que aquela rua foi tão importante na sua formação e no seu destino de poeta, vale a pena investigar o que tinha nessa rua. O que aconteceu de muito especial é que o humilde cotidiano, como ele designou, da rua do Curvelo veio ao encontro das tendências modernistas – tanto que ele diz que foi modernista da maneira mais natural possível, e é a pura verdade. É um casamento da rua com a tendência modernista e com a personalidade do próprio Bandeira, que era um homem simples. Ele se divertia com a vida que havia naquele momento e que o chamava lá fora”.

Elvia Bezerra, janeiro de 2026

 

Cronologia de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

 

A cronologia abaixo foi baseada na estabelecida pelo próprio poeta em 1966 e foi na publicada pela Folha de São Paulo, em 13 de outubro de 2008, data que marcava os 40 anos da morte de Bandeira

1886 - Nasce no Recife, em 19 de abril.
1896-1902 – No Rio de Janeiro, cursa o Externato do Ginásio Nacional (depois, Colégio Pedro II). Encontro fortuito com Machado de Assis, com quem conversa sobre Camões. Publicação do primeiro poema, um soneto alexandrino, na primeira página do Correio da Manhã.
1903-1904 – Vai para São Paulo, onde se matricula na Escola Politécnica. Adoece do pulmão no fim do ano letivo (1904) e abandona os estudos.
1913 - Embarca em junho para a Europa, a fim de tratar sua tuberculose no sanatório de Clavadel (de onde retorna em 1914). Organiza seu primeiro livro, Poemetos Melancólicos, mas esquece os originais no sanatório.
1916 - Falece a mãe.
1917 – Publica seu primeiro livro – A Cinza das Horas, edição de 200 exemplares, custeada pelo autor.
1918 – Falece a irmã, que tinha sido sua enfermeira desde 1904.
1919 – Publicação de Carnaval, custeada pelo pai. O livro entusiasma a geração paulista que iniciava a revolução modernista.
1920 – Falece o pai. Muda-se para a rua do Curvelo, onde já morava Ribeiro Couto.
1921 – Conhece Mário de Andrade.
1922 – Falece o irmão.
1924 – Publicação do volume Poesias, incluindo os dois livros anteriores acrescidos de O Ritmo Dissoluto.
1930 – Publicação de Libertinagem. Edição de 500 exemplares, custeada pelo poeta.
1936 - Publicação de A Estrela da Manhã (47 exemplares) e Crônicas da Província do Brasil. Por iniciativa dos amigos, sai o livro Homenagem a Manuel Bandeira, no cinquentenário do poeta.
1937 – Publicação, pela Civilização Brasileira, das Poesias Escolhidas, selecionadas pelo poeta, que também ouviu conselhos de Mário de Andrade. Sai a Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica. Ganha o prêmio de poesia da Sociedade Felipe d’Oliveira.
1938 – Nomeado professor de literatura do Colégio Pedro II. Publicação da Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e do Guia de Ouro Preto.
1940 – Ingresso na Academia Brasileira de Letras. Primeira publicação, pela Cia. Carioca de Artes Gráficas, das Poesias Completas, com o acréscimo de Lira dos Cinqüent’Anos. Publicação de Noções de História das Literaturas e, em separata, de A Autoria das Cartas Chilenas.
1943 - Deixa o Colégio Pedro II e é nomeado professor de literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia.
1944 - Nova edição das Poesias Completas.
1945 – Publica Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard.
1946 – Publica Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos.
1948 - Nova edição das Poesias Completas, pela Casa do Estudante do Brasil, com o acréscimo de Belo Belo. Nova edição das Poesias Escolhidas, pela Pongetti. Primeira edição de Mafuá do Malungo, impressa em Barcelona por João Cabral de Melo Neto. Nova edição aumentada dos Poemas Traduzidos (Editora Globo, de Porto Alegre). Edição crítica das Rimas, de José Albano.
1949 - Publica Literatura Hispano-Americana. Traduz sóror Juana Inés de la Cruz (El Divino Narciso).
1952 – Publica Opus 10, pela Editora Hipocampo.
1954 - Publica os livros Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia.
1955 - Publica 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor (MEC). Traduz Maria Stuart, de Schiller. Nova edição das Poesias Completas, pela José Olympio.
1956 – Escreve para a Enciclopédia Delta-Larousse um estudo sobre a versificação em língua portuguesa. Traduz Macbeth, de Shakespeare.
1957 – Publicação do livro de crônicas Flauta de Papel. Embarca em julho para a Europa. Visita a Holanda, Londres e Paris. Regressa ao Rio em novembro.
1958 - A Aguilar edita as obras completas em dois volumes: Poesia (que contém a primeira edição de Estrela da Tarde) e Prosa.
1963 – A José Olympio reedita Estrela da Tarde, acrescida de muitos poemas. Traduz O Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht.
1966 – Primeira publicação da Estrela da Vida Inteira, pela José Olympio. Pela mesma casa, sai, organizada por Carlos Drummond de Andrade, Andorinha, Andorinha, reunião de crônicas do poeta.
1968 – Falece no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro.

 

Brevíssimo perfil de Horacio Coppola (1906 – 2012)

 

 

Voltamos a Horacio Coppola, autor das duas fotografias de Bandeira publicadas neste artigo. Filho de imigrantes italianos, nasceu em Buenos Aires, em 31 de julho de 1906. Autodidata, começou a fotografar por influência de seu irmão, Armando, em fins da década de 1920, tendo como referência nomes como Félix Nadar (1820 – 1910) e Edward Weston (1886 – 1958). Em 1929, participou do primeiro salão modernista da capital argentina. Na ocasião, a palestra proferida pelo arquiteto suíço Le Corbusier (1887 – 1965), La mirada de las casas tradicionales de Buenos Aires como formas abstractas, influenciou decisivamente seu trabalho. “A partir daí, incorporou permanentemente, em suas fotografias, a noção modernista da perspectiva e dos pontos de fuga, enfatizando as linhas e os ângulos geométricos das fachadas, passeios e terraços do centro que se urbanizava” (Portal IMS). Também, em 1929, foi o fundador, com o cineasta León Klimovsk (1906 – 1996), do primeiro cineclube argentino.

“Eles são os olhos que viram um século.” Assim o descreveu certa vez Juan Manuel Bonet, responsável pela exposição que se realizou no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) em 1996, exposição que catapultou a sua obra para os mais prestigiados museus e galerias da Europa” (La Nation, 2011).

Suas primeiras fotos de Buenos Aires, realizadas em 1929, ilustraram a primeira edição do ensaio Evaristo Carriego (1930), de autoria do poeta Jorge Luis Borges (1899 – 1986), de quem era amigo.

 

 

Em 1932, em sua segunda viagem a Europa, fixou-se em Berlim, onde estudou no Departamento de Fotografia da Bauhaus, dirigido por  Walter Peterhans (1897 – 1960). Realizou com o diretor de teatro Walter Auerbach (1905 – 1975) o curta-metragem Traum (1933) e trabalhou no Studio ringl + pit com a fotógrafa alemã Greta Stern (1904 – 1999), uma das fundadoras do estabelecimento e sua futura esposa. A outra fundadora foi Ellen Auerbach (1906 – 2004).

 

 

Em 1933, a Bauhaus foi fechada e o casal deixou a Alemanha temendo a perseguição nazista. Stern se estabeleceu em Londres, onde realizou fotografias que se tornaram icônicas como, por exemplo, as de Bertold Brecht (1898 – 1956) e Karl Korsch (1886 – 1961). Após viajar pela Europa, Coppola se juntou a Stern em Londres, onde buscou uma linguagem modernista para suas fotografias da cidade, onde alternavam-se preocupação social e atmosfera surrealista.

Ele fotografou obras de arte suméria nos museus do Louvre e Britânico e este material foi publicado no livro L’Art de la Mesopotamie, em 1935, ano em que ele e Stern se casaram e passaram a viver em Buenos Aires. O casal importou as lições da Bauhaus para a América Latina. Realizaram a convite de Victoria Ocampo (1890 – 1979), então a primeira dama da cultura e das artes na Argentina, uma exposição nos escritórios da revista de vanguarda Sur, anunciando a chegada da fotografia moderna na Argentina.

Horacio produziu, a pedido da prefeitura, o álbum Buenos Aires 1936 (Visão Fotográfica) (1936), comemorativo dos 400 anos da cidade. O livro foi prefaciado por Alberto Presbisch (1899 – 1970), precursor da arquitetura moderna argentina; e pelo escritor Ignacio Anzoátegui (1905 – 1978).

 

 

Em 1937, ele e Greta abriram um estúdio fotográfico. Se separaram em 1943 e, dois anos depois, Coppola fotografou as obras de Aleijadinho nas cidades históricas mineiras, no Brasil. Recebeu, em 1985, o Grande Prêmio do Fundo Nacional para as Artes, em reconhecimento a sua carreira. Em 2003, foi agraciado com o título de Cidadão Ilustre da Cidade de Buenos Aires. Quando completou 100 anos, em 2006, foi realizada uma retrospectiva de sua obra no Museu Malba, em Buenos Aires, cidade onde faleceu, em 18 de junho de 2012.

Algumas de suas mais importantes exposições foram Quarenta Anos de Fotografia, no Museu Nacional de Belas Artes, em 1969; Minha fotografia, na Fundação San Telmo, em 1984; Antologia fotográfica 1927-1992, nMuseu Nacional de Belas Artes, em 1992; e El Buenos Aires de Horacio Coppola, no Instituto Valenciano de Arte Moderna, Centro Julio González, em Valência, entre 1996 e 1997. Em 2005, a Galeria Jorge Mara-La Ruche expôs fotografias realizadas por Coppola na década de 1930 na feira de arte espanhola ARCO e também na ArteBA. Entre 17 de maio e 4 de outubro de 2015, foi realizada, no Museu de Arte Moderna de Nova York MoMa, a exposição From Bauhaus to Buenos Aires: Grete Stern and Horacio Coppola.

 

Fotos realizadas a partir da Rua do Curvelo por Georges Leuzinger e Marc Ferrez, além de uma de autoria de Augusto Malta

 

A partir da Rua do Curvelo revela-se uma das mais paisagens do bairro da Glória e da Baía da Guanabara, fato que não passou despercebido para os fotógrafos Georges Leuzinger e Marc Ferrez.

 

 

Acessando o link para as fotografias realizadas por Leuzinger e por Ferrez a partir da Rua do Curvelo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

 

 

(1) O historiador, roteirista e professor de fotografia Mauricio Lissovsky nasceu em 29 de março de 1958, era membro da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dedicou grande parte de sua trajetória profissional à história visual e à teoria da imagem, com ênfase em fotografia, arquitetura, cinema e política. Entre seus nove livros sobre fotografia e história da imagem, destacamos Pausas do Destino: Teoria, Arte e História da Fotografia (2014), Refúgio do Olhar: a fotografia de Kurt Klagsbrunn no Brasil dos anos 1940 (com Márcia Mello)(2013) e Escravos Brasileiros do Século XIX na Fotografia de Christiano Jr (com Paulo César Azevedo)(1988). Faleceu em 25 de agosto de 2022. Em sua homenagem, entre 13 e 16 de agosto de 2024, foi realizada a primeira Jornada Mauricio Lissovsky de Fotografia (JMLF) no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

(2) A Rua Dias de Barros desemboca no largo conhecido como Curvelo. A região em torno da rua e do largo ficou conhecida como Curvelo.

(3) Refere-se ao poeta e amigo Rui Ribeiro Couto (1898 – 1963), que também morou na Rua do Curvelo.

 

Leia aqui o artigo do escritor Daniel Galera (1979-), O que se pode afirmar, sobre a foto de Bandeira por Coppola, publicado na seção “Por Dentro dos Acervos”, no site do IMS, em 8 de maio de 2020.

 

* O título desse artigo foi alterado e alguns acréscimos foram feitos, em 9 de fevereiro de 2026, a partir da leitura do extraordinário livro A trinca do Curvelo (2026), de Elvia Bezerra, publicado em 1995, foi relançado em 2026 em uma edição revista e ampliada. Os componentes da trica, além de Bandeira, era o poeta paulista Rui Ribeiro Couto e a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que revolucionou o tratamento mental no Brasil, também moradores da Rua do Curvelo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AITA, Giovanna. Due poeti brasiliani contemporanei: Manuel Bandeira & Ribeiro Couto. Napoli: Libreria Scientifica Editrice, 1953.

BEZERRA, Elvia. A trinca do Curvelo – os afetos de Manuel Bandeira. São Paulo : Todavia, 2026.

Folha de São Paulo, 13 de outubro de 2008

Folha de São Paulo, 26 de janeiro de 2026

GORELIK, Adrian. Um fotógrafo e uma cidade in Ciência Hoje.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LISSOVSKY, Mauricio. Coppola em Congonhas: um fotógrafo, três olhares. ANPUH – Brasil. 30º Simpósio Nacional de História. Recife, 2019.

Metromod.net

MIGLIACIO, Luciano. Obra de Horacio Coppola evidencia o diálogo entre o modernismo brasileiro e o argentino. Ciência e Cultura, vol. 65, nº 1. São Paulo, janeiro de 2013.

O GLOBO, 6 de julho de 2012

O GLOBO, 7 de fevereiro de 2026

Portal Enciclopédia Itaú Cultural

Portal IMS

SCHWARTZ, Jorge. O poeta entre profetas in Revista Serrote, Edição Especial para a Flip, 2009, páginas 8 a 15.

SENNA, Homero. Viagem a Pasárgada.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Ibran

Site La Nation

Site MoMa

Site Museu Malba

WANDERLEY, Andrea. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” II – A Semana de Arte Moderna in Brasiliana Fotográfica, 13 de fevereiro de 2022.

Wikipedia

O jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853 – 1905), o “Tigre da Abolição”

Com duas fotografias do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o artigo de hoje homenageia o grande jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853-1905), o Tigre da Abolição, que nasceu há exatos 172 anos, em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. O registro abaixo é o mais popular de Patrocínio, pelo qual sua imagem ficou conhecida até hoje.

 

 

 

A fotografia seguinte foi produzida quando José do Patrocínio e outros militares que se revoltaram contra o governo de Floriano Peixoto (1839 – 1895) foram deportados para Cucuí, no alto Rio Negro, no Amazonas, em 1892. Está assinada, no lado direito da foto, por M. Lira fotógrafo Iquitos, Peru. Foi doada à Biblioteca Nacional pelo município de São Gabriel, no Amazonas, em 1924.

 

 

Brevíssimo perfil de José do Patrocínio (1853 – 1905),

Zeca para os amigos, Zé do Pato para o povo

 

Se fosse possível reunir todos os artigos, todos os discursos, com que Patrocínio atacou a escravidão e seus defensores, o livro em que ficassem compendiados esses libelos seria o mais belo poema da Justiça

Olavo Bilac (1865 – 1918)

 

José Carlos do Patrocínio foi um dos principais protagonistas da luta pela abolição da escravatura no Brasil, tendo se engajado fortemente na causa a partir do jornalismo. Como já mencionado, nasceu em 9 de outubro de 1853, em Campos dos Goytacazes, norte fluminense. Filho do padre João Carlos Monteiro (1799 – 1876) e da quitandeira Justina Maria do Espírito Santo (c. 1840 – 1885), escravizada que havia sido alforriada, viveu sua infância na fazenda de seu pai, localizada em Lagoa de Cima, onde a violência, a injustiça e a desumanidade do sistema escravocrata fazia parte de seu cotidiano. Quando tinha 13 anos, não pode trabalhar no comércio de seu pai devido a sua cor. Seu impulso pela luta pela liberdade e pela igualdade teve origem, certamente, nestas circunstâncias de sua vida pessoal.

Em 1867, tendo concluído o primário, foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Santa Casa da Misericórdia  e retomou seus estudos no Externato de João Pedro de Aquino. Ingressou na Escola de Medicina, em 1871, e concluiu o curso de Farmácia, em 1874. Neste período residiu em uma república de estudantes. Quando terminou o curso, seu amigo João Rodrigues Pacheco Villanova (1852 – 1897), colega do Externato Aquino, convidou-o para morar na na casa da mãe dele, Henriqueta Amélia Ramos (1832-1911), que era casada, segundo casamento, com o capitão Emiliano Rosa de Senna (c. 1825 – 1896), proprietário de terras e de vários imóveis no Rio de Janeiro e avô do futuro pintor Di Cavalcanti (1897 – 1976). Patrocínio passou a lecionar para os filhos do capitão e a frequentar o Clube Republicano, que se reunia na residência, do qual faziam parte os jornalistas Lopes Trovão (1848 – 1925), Pardal Mallet (1864 – 1894) e Quintino Bocaiuva (1836 – 1912), dentre outros.

Em 1875, com Dermeval da Fonseca (c. 1852 – 1914), Patrocínio publicou, entre 1º de junho e 15 de outubro, dez números do quinzenário Os Ferrões. Assim Patrocínio iniciou sua carreira de jornalista. Seus  pseudônimos eram Eurus Ferrão e Notus Ferrão, respectivamente…

 

 

…e assim se apresentaram:

 

 

 

Em 1877, já trabalhava na Gazeta de Notícias, jornal fundado, em 2 de agosto de 1875, por Ferreira de Araújo (1848 – 1900), cujo pseudônimo era Lulu Sênior. Patrocínio assinava, sob o pseudônimo Proudhomme – alusão ao pensador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865), a coluna “Semana Parlamentar”, cuja primeira publicação aconteceu em 26 de fevereiro de 1877.  A Gazeta de Notícias foi um dos principais meios pelo qual Patrocínio propagou suas ideias abolicionistas.

Ainda em 1877, publicou no jornal o romance Motta Coqueiro ou a pena de morte, onde contou o caso verídico do último enforcamento no Brasil, o do fazendeiro Francisco Benedito de Souza Coqueiro (1799 – 1855), conhecido como Motta Coqueiro, o suposto mandante de um violento crime ocorrido no norte fluminense, em 1852. O livro criticava o sistema judiciário e o uso da pena de morte no Brasil do século XIX (Gazeta de Notícias23 de dezembro de 1877, primeira coluna e 4 de março de 1878, quinta coluna).

 

 

Em 1878, denunciou em uma série de artigos na Gazeta de Notícias a pior seca ocorrida no nordeste do Brasil no século XIX. A cobertura jornalística que realizava sobre a seca tinha como principal objetivo acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu, em 10 de maio de 1878, e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1). Mas só o texto não foi suficiente. Então, Patrocínio enviou as imagens produzidas pelo fotógrafo Joaquim Antônio Correia (18? – ?) para a redação da revista O Besouro, do chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905)para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo Sermão de Lágrimas (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes. A publicação de duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878, em em 20 de julho de 1878, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira).

 

 

Em 1879, publicou o romance Os retirantes, uma obra muito importante da literatura brasileira por sua crítica social e pelo engajamento de Patrocínio na causa abolicionista. A seca, a escravidão e a migração forçada são os temas do livro, considerado por muitos o introdutor do Realismo-Naturalismo no Brasil e da literatura da seca.

 

 

 

No mesmo ano, aderiu à campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em torno dele formou-se um grande coro de jornalistas e de oradores, dentre os quais José Ferreira de Meneses (1845 – 1881), Francisco de Paula Ney (1858 – 1897), Joaquim Nabuco (1849 – 1910), Lopes Trovão, Teodoro Sampaio (1855 – 1937) e Ubaldino do Amaral (1842 – 1920).

Foi um dos fundadores da escola noturna gratuita de São Cristóvão. Participaram da inauguração do colégio o capitão Emiliano Rosa de Senna, o conselheiro Saldanha Marinho (1816 – 1895) e João Rodrigues Pacheco Villanova (18? – ?) (Gazeta de Notícias, 23 de setembro de 1879, primeira coluna).

 

 

Em 7 de setembro de 1880, fundou com André Rebouças (1838 – 1898), Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e outros a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (Gazeta da Tarde, 10 de setembro de 1880, primeira coluna). No mesmo mês, ele, André Rebouças, Nicolau Joaquim Moreira (1824-1894) e Vicente de Souza (1852 – 1908) criaram a Associação Central Emancipadora (ACE), que começou a promover eventos abolicionistas em teatros – entre julho de 1880 e julho de 1881, a ACE organizou 43. Patrocínio era um orador entusiasmado e atraía grandes plateias (Gazeta de Notícias, 28 de setembro de 1880). Como produto da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, começou a ser publicado, em 1° de novembro de 1880, o jornal O Abolicionista. Na ocasião, Patrocínio já era filiado à maçonaria, que começava a assumir um protagonismo na luta pela abolição.

Casou-se, em 15 de janeiro de 1881, com Maria Henriqueta Sena (1864 – 1929), a Bibi, filha do capitão Emiliano Rosa de Senna (Gazeta da Tarde, 14 de janeiro de 1881, primeira coluna). Nesta época, segundo o historiador Flavio Gomes, os ataques racistas contra ele teriam aumentado devido ao fato de sua esposa ser branca.

 

 

Tiveram cinco filhos – duas meninas, que faleceram antes de completarem dois anos; e três meninos, dos quais os jornalistas Maceo (1897 – 1947) e José Carlos do Patrocínio Filho (c. 1886 – 1929), o Zeca. O filho Tinon desapareceu nas ruas do Rio de Janeiro quando criança e nunca mais foi encontrado. Nunca se soube de seu paradeiro.

 

 

Em 1881, devido ao falecimento de José Ferreira de Meneses, que era o proprietário da Gazeta da Tarde, Patrocínio comprou o jornal. Na época, também colaborava com a Revista Illustrada, de Ângelo Agostini (1843 – 1910). No ano seguinte, foi com Paula Ney para a Bahia, Pernambuco e Ceará para divulgar a causa abolicionista. Patrocínio fez conferências e comícios muito concorridos.

Em 9 de maio de 1883, fundou, em uma reunião organizada na sede da Gazeta da Tarde, a Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro, congregando todos os clubes abolicionistas do país. Foi um dos redatores do Manifesto da Confederação Abolicionista, que foi lido em uma sessão solene no Theatro Dom Pedro II, em agosto de 1883. A entidade promoveu fugas de escravizados, passeatas, festas, jantares, comícios e assembleias em prol da causa abolicionista.

 

 

 

 

Viajou para a Europa, em 1883, e retornou ao Brasil, em 1884, ano em que publicou na Gazeta da Tarde, a partir de 5 de abril, o romance Pedro Espanhol, em forma de folhetim, baseado na vida real de um assassino. Foi editado e vendido como livro no mesmo ano. Foi sua terceira e última obra de ficção. Foi reeditada em 2013, pela G. Ermakoff Casa Editorial. 

 

 

Em 1885, fez uma viagem a Campos, onde ele e outros abolicionistas fizeram conferências. Ele trouxe para o Rio de Janeiro sua mãe, Justina Maria do Espírito Santo, já bastante doente (Gazeta da Tarde, 18 de março de 1885, quinta coluna). Ela faleceu meses depois e o enterro transformou-se em um ato político em prol da abolição com a participação de personalidades como Campos Sales (1841 – 1913), Joaquim Nabuco, Prudente de Morais (1841 – 1902), Rodolfo Dantas (1854 – 1901) e Ruy Barbosa (1849 – 1923) (Gazeta da Tarde, 19 de agosto de 1885, última coluna e 20 de agosto de 1885, penúltima coluna).

 

 

Um caso de violência contra pessoas escravizadas foi mostrado, em fevereiro de 1886. “Não é só no interior que se cometem crimes contra os escravos. “As pretas Eduarda e Joana, levadas às redações dos jornais pelo José do Patrocínio e João Clapp provam que na Corte também há verdugos” (Revista Illustrada, 1886, edição 427). As escravizadas Eduarda, de 15 anos, e Joana, de 17, que haviam sido espancadas, foram exibidas pelas ruas do Rio de Janeiro. Seus rostos estavam deformados e as feridas em carne viva. Eduarda ficou cega e Joana morreu. Seu corpo foi carregado pelos abolicionistas, e o funeral rendeu mais um evento público denunciando tortura e assassinato. O caso de denúncia de tortura e assassinato se tornou uma comoção nacional.

 

 

Em agosto de 1887, o governo proibiu aglomerações nas ruas e edifícios públicos. Abolicionistas foram demitidos de seus empregos e partiram para o enfrentamento. Em 6 de agosto, organizaram uma conferência no Teatro Polytheama. Dois dias depois, um encontro em frente ao quartel do Campo da Aclamação. Ambos foram seguidos por enfrentamentos com a polícia. José do Patrocínio falou por muitos de seus companheiros, ao afirmar que “os abolicionistas sinceros estão todos preparados para morrer”.

Ainda neste ano organizou um manifestação em prol da abolição no Theatro Lyrico. A cantora que fazia o papel de Aída, na ópera homônima, a russa Nadina Bulicioff (1858 – 1921), comprou a liberdade de sete escravizados com os presentes que recebeu de seus admiradores. Entregou as cartas de alforrias em pleno palco, em 10 de agosto, em um ato da campanha abolicionista organizado por José do Patrocínio (1854 – 1905) (O Paiz, 11 de agosto de 1886, sexta coluna).

 

 

Em 1886, com expressiva votação, foi eleito vereador do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 2 de julho de 1886, quarta coluna). Em 1884, já havia se candidatado a deputado, sem sucesso. Em 1890, 1893 e 1895, voltou a se candidatar, mas não foi eleito.

Em 1887, abandonou a Gazeta da Tarde e fundou e dirigiu o jornal Cidade do Rio, lançado em 28 de setembro de 1887 e publicado até 1902.

Em 13 de maio de 1888, logo após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, abolindo a escravidão no Brasil, no Paço Imperial, Patrocínio fez um um notável discurso e foi saudado com um brinde feito por João Chaves (18? -?), representante da Gazeta de Notícias, tendo sido apontado como o iniciador do movimento abolicionista. Falou à população de uma das portas do Paço. Ofereceu à princesa Isabel, em nome da Confederação Abolicionista, um ramalhete de violetas e camélias artificiais com fitas verdes e amarelas, onde se lia Libertas alma mater (Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888, segunda, terceira  e quinta coluna; O Paiz, 14 de maio de 1888, última coluna). Por sua atuação na luta triunfante do abolicionismo, na qual foi a concretização do espírito nacional, foi homenageado na primeira página da Gazeta de Notícias de 14 de maio de 1888.

 

abolição

 

 

 

 

Idealizada pelo isabelista Manoel Maria de Beaurepaire Pinto Peixoto (18? – 19?) e abençoada por Patrocínio, a Guarda Negra da Redentora foi criada, em 9 de julho de 1888, na casa do abolicionista Emilio Rouède. Era uma instituição formada majoritariamente por libertos com o objetivo de proteger a princesa Isabel. Várias polêmicas aconteceram em torno da associação e do isabelismo – movimento de sustentação ao Terceiro Reinado isabelino, em franca oposição ao republicanismo que enxovalhava a herdeira de D. Pedro II e o marido dela, D. Gastão, o “Conde d´Eu” (Instituto Dona Isabel) – e Patrocínio foi envolvido em algumas delas (Cidade do Rio, 10 de julho de 1888, segunda colunaCidade do Rio, 5 de junho de 1889, terceira coluna; Cidade do Rio, 15 de julho de 1889, primeira colunaCidade do Rio, 20 de julho de 1889, segunda coluna). Respondeu a diversos críticos que o apontavam como um  negro vendido, explicando sua opinião acerca do isabelismo (O Tempo, 4 de agosto de 1888, última coluna):

 

O isabelismo

 

A profunda consideração que voto à redação da A Rua obriga-me a acudir pressurosamente em resposta às arguições, que ela me dirige, a respeito de uma frase por mim proferida no dia 13 de maio: “Enquanto houver sangue e honra abolicionistas, ninguém tocará no trono de Isabel, a Redentora”. Lançada em circulação sem considerações, que a precederam, semelhante frase, concordo, seria a mais terrível ameaça à democracia; a justificação prévia de todos os abusos do poder. Infelizmente o meu discurso não foi estenografado e é impossível, hoje, reproduzir integralmente quanto disse. O meu pensamento, porém, foi acentuar, nos termos os mais precisos, que a data de 13 de maio era a primeira de uma era nova, para a elaboração da qual todos tínhamos concorrido: o imperador, a princesa e o povo; que a essa nova era devia corresponder nova política, para a qual contávamos com a magnanimidade do imperador, que havia feito sacrifício maior que o de Abraão, trazendo ao altar da liberdade pátria em holocausto a sua única e adorada filha; a esta mulher heroica que estreou-se no Governo do país restituindo às mães a dignidade materna e educando os príncipes seus filhos no amor dos infelizes. Partiam dessas primícias governamentais a nossa veneração e a nossa esperança por Isabel, a Redentora; confiávamos que o seu futuro seria a confirmação de seu passado; que ela seria a imperatriz-opinião; a rainha-fraternidade; exortávamo-la a perseverar nesse sistema de governar, porque enquanto houvesse honra e sangue abolicionistas o seu trono seria sagrado. Inferir-se daí que eu tentei fechar todas as válvulas da democracia brasileira, que dei o futuro da pátria em hipoteca ao 13 de maio, sem levar em linha de conta o complemento necessário da nova era nacional, é forçar a lógica para tirar uma conclusão arbitrária.

 

Cidade do Rio, 18 de maio de 1889

 

Foi um defensor do Terceiro Reinado até praticamente o fim do Segundo, que se deu com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.  Tornou-se o proclamador civil da República, por ter desfraldado a bandeira do Clube Republicano, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde era vereador.

Em fevereiro de 1892, regressou da Europa. Em abril, foi declarado estado de sítio no Rio de Janeiro devido a um movimento em prol da deposição do presidente Floriano Peixoto (1839 – 1895) e aclamação do marechal Manoel Deodoro da Fonseca (1827 – 1892) à presidência. Patrocínio foi preso, acusado de cumplicidade. Ele, além de outros presos, foram deportados  para Cucuí, no alto Rio Negro, no estado do Amazonas (O Paiz, 23 de fevereiro de 1892, sexta colunaO Paiz, 12 de abril de 1892, quinta colunaO Paiz, 17 de abril de 1892, segunda colunaO Paiz, 26 de maio de 1892, quarta colunaGazeta de Notícias, 3 de julho de 1892, quarta coluna).

 

 

 

Ele e outros desterrados foram anistiados em 5 de agosto de 1892 e voltaram para o Rio de Janeiro, em 4 de setembro do mesmo ano. Patrocínio desembarcou no Cais Pharoux (O Paiz, 5 de setembro de 1892, quarta coluna). Devido a dificuldades financeiras e à perseguição política, foi morar no subúrbio de Inhaúma.

De volta ao jornal, Patrocínio continuou criticando o governo. Seu jornal, Cidade do Rio, publicou o manifesto O Veto, de Custódio de Melo (1840 – 1902), um dos líderes da Revolta da Armada contra o regime republicano recém-estabelecido, e apoiou o movimento. Po temer uma nova prisão, Patrocínio se exilou e Luis Murat (1861 – 1929) assumiu a direção do jornal. Cidade do Rio foi interditado, em 1893 – voltou a circular em 1895 (Cidade do Rio, 6 de setembro de 1893, primeira coluna; 8 de setembro de 1893, segunda coluna; 18 de setembro de 1893, primeira coluna). Desta época até 1894, Patrocínio morou na casa de sua sogra e cunhados, em São Cristóvão. Foi procurado pela polícia e houve um boato de que ele havia sido fuzilado em Sepetiba. Durante o exílio, de cerca de 15 meses, do qual só saiu quando se encerrou o mandato de Floriano Peixoto na presidência da República, começou a construir um balão, a sonhar com a ideia de voar.

 

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

 

Passou a colaborar com o jornal O Repórter (A Notícia, 2 e 3 de outubro de 1895, segunda coluna).

Compareceu às sessões preparatórias da instalação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 20 de julho de 1897, e foi o criador da cadeira nº 21, cujo patrono é Joaquim Serra.

Entusiasta da ciência e da tecnologia, no início do século XX, iniciou a construção de um dirigível de 45 metros, o Santa Cruz, que não foi concluído.

Em 1903, apesar de adoentado, Patrocínio saudou o grande inventor, cientista e aeronauta brasileiro Santos Dumont (1873 – 1932), o Pai da Aviação, presente à gala da ópera Fausto, no Theatro Lyrico, com um discurso que foi uma luminosa queda de estrelas, um dos rasgos de emoções em que se tornou incomparável. Na ocasião, foi acometido de uma hemoptise, causada por tuberculose. A chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro, neste mesmo dia, 7 de setembro de 1903, pela manhã, a bordo do navio Atlantique, que havia partido de Bordeaux, na França, foi apoteótica. Em menos de um mês o inventor visitou, além do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e permaneceu poucas horas em Salvador e no Recife (Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1903, primeira coluna; Revista da Semana, 13 de setembro de 1903).

 

 

Santos Dumont, que vinha de Minas Gerais, desembarcou na estação de Todos os Santos, onde, com outras personalidades políticas e da imprensa, foi recebido por Patrocínio, em seu hangar, em Inhaúma, onde estava sendo construído o balão Santa Cruz, idealizado por ele. Patrocínio ofereceu champanhe e saudou o aeronauta com um brilhante discurso, respondido por Santos Dumont. Patrocínio, foi um entusiasta da aviação nacional. O dirigível Santa Cruz não chegou a voar (Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1903, penúltima coluna).

No aniversário dos 16 anos da abolição, foi homenageado pela revista O Malho, 14 de maio de 1904: “Salve! José do Patrocínio- Das Almas Grandes a Nobreza é Esta”.

 

O Malho, 14 de maio de 1904

 

Faleceu, em 29 de janeiro de 1905. Morava em Inhaúma e todo o seu funeral durou 14 dias (O Paiz, 30 de janeiro de 1905, sexta coluna; O Malho, 4 de fevereiro de 1905Revista da Semana, 5 de fevereiro de 1905, última coluna).

No discurso de saudação ao novo membro da Academia Brasileira de Letras, Mario de Alencar (1872 – 1925), que passaria a ocupar a cadeira de José do Patrocínio, o acadêmico Coelho Neto (1864 – 1934) referiu-se a Patrocínio e mencionou que ele havia trazido o primeiro carro para o Brasil (Correio da Manhã, 15 de agosto de 1906, terceira coluna).

O desenho abaixo, de autoria  de M.J. Garnier (18? -?), foi publicado na página 108 do livro Sonetos brasileiros, organizado por Laudelino Freire (1873 – 1937) e editado por F. Briguiet & Cie. Editores. Foi usado na obra publicada em 1913.

 

 

 

Um dos netos de Patrocínio, o soldado Carlos Nuno do Patrocínio (1920 – 1946), filho de Maceo, morreu menos de um ano pós retornar da Segunda Guerra Mundial. Integrava o II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados e foi ferido em combate, tendo voltado ao Brasil com neurose de guerra. Suicidou-se e foi encontrado em seu apartamento em o bairro de Inhaúma, no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1946, e foi enterrado no cemitério do Caju.

Para marcar o dia 13 de maio, a Frente Negra Brasileira promoveu a realização de uma missa na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e uma passeata. Quando chegaram ao Largo do Arouche, onde fica a herma do advogado Luiz Gama (1830 – 1882) – concebida por Yolando Mallozzi e inaugurada em 1931 -, foi feita uma parada e o presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, e o orador Vicente Ferreira (? – 1934) fizeram discursos em homenagem ao grande patrono da raça. A campanha pela construção da herma de Luis Gama foi  liderada pelo jornal Progresso, representante da imprensa negra.

Integrando as celebrações do dia 13 de maio, em 1932, realizadas pela Frente Negra Brasileira, foi inaugurado, na sede da entidade, em São Paulo, um retrato de José do Patrocínio, de autoria de Olavo Xavier (Diário Nacional, 14 de maio de 1932). O propósito fundamental da Frente Negra Brasileira era discutir a questão do racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”.  Teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Existiu entre 1931 e 1937.

No centenário de seu nascimento, em 1953, Patrocínio foi homenageado com a celebração de uma missa na igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito dos Homens Pretos e com a inauguração, no jardim da Biblioteca Nacional, de um baixo relevo de bronze dele, elaborado pelo artista Ruffo Franucchi (? – 19?), a partir de uma pintura de Rodolfo Amoedo (1857 – 1941). O monumento foi erigido a partir de um movimento coletivo patrocinado por várias entidades, dentre elas a Associação Brasileira de Imprensa  – ABI -, a Câmara dos Vereadores, a União dos Homens de Cor e a Irmandade de São Benedito. O monumento foi ofertado ao Rio de Janeiro por seu povo e pela prefeitura da cidade. Na ocasião, Abdias do Nascimento (1914 – 2011), artista, professor e ativista do movimento negro; Herbert Moses (1884 – 1972), presidente da ABI; e o deputado Heitor Beltrão, representando a Casa do Jornalista, discursaram (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1953).

 

 

No ano seguinte, para celebrar o aniversário da Lei Áurea, o Teatro  Experimental do Negro, cujo diretor era Abdias do Nascimento, promoveu um Ato Cívico diante do monumento de José do Patrocínio (Jornal do Brasil, 12 de maio de 1955, quinta coluna).

 

 

 

Em 19 de dezembro de 2022, a Fundação Biblioteca Nacional- FBN – inaugurou uma nova placa alusiva ao monumento, dando início às comemorações pelos 170 anos do nascimento de Patrocínio, comemorado em 2023. O descerramento da placa contou com a presença do  do presidente da Comissão de Igualdade Étnico-Racial da ABI, Marcos Gomes; e de Octávio Costa, representando a ABI. Por parte da FBN, estiveram presentes o presidente da instituição, Luiz Carlos Ramiro Junior; seu diretor executivo, João Carlos Nara Jr.; o chefe de gabinete, Fernando Antônio Ferreira; e o chefe do Núcleo de Arquitetura, Luiz Antônio Lopes de Souza.

 

 

Uma curiosidade: segundo relatado por biógrafos e amigos, Patrocínio teria trazido, em 1901, o primeiro carro que circulou nas ruas do Rio de Janeiro. Esta data não foi confirmada pela pesquisa deste artigo. Em algumas fontes a data seria 1884, porém o carro, um modelo francês da marca Peugeot, movido a vapor, o Serpollet, só começou a ser fabricado em 1886. Outra data apontada é 1894, mas neste ano Patrocínio estava escondido, como já mencionado, fugindo da polícia do governo. Segundo João do Rio (1881 – 1921),a respeito do carro de Patrocínio, em seu livro Vida Vertiginosa (1911): “Um, o primeiro, de Patrocínio, quando chegou, foi motivo de escandalosa atenção. Gente de guarda-chuva debaixo do braço parava estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte imediata. Não durou muito: sofreu uma batida causada pelo poeta Olavo Bilac e ficou inutilizado.

 

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

Leia aqui uma crônica escrita por José do Patrocínio Filho sobre seu pai.

 

Veja aqui o programa sobre José do Patrocínio, da série Os Abolicionistas, veiculado pelo canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, do historiador Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

 

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Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALONSO, Ângela. A teatralização da política: a propaganda abolicionista. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

ALONSO, Ângela. Associativismo avant la lettre – as sociedades pela abolição da escravidão no Brasil oitocentista. Sociologias, Porto Alegre, ano 13, no 28, set./dez. 2011.

ALONSO, Angela. Flores, votos e balas. O movimento abolicionista brasikeiro (1868-88). São Paulo : Companhia das Letras, 2015

ALVES, Uelinton Farias. José do Patrocínio: a imorredoura cor do bronze. Rio de Janeiro : Garamond, 2009.

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de; LOGATTO, Rosângela. Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p. 71-83.

Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

CERQUEIRA, Bruno da Silva Antunes de; SOUZA, Arthur Danilo Castelo Branco. Negros, mulheres, pobres, ricos, letrados ou não: uma perspectiva histórica do isabelismo no Brasil. Cadernos ASLEGIS | 63 • 2º Semestre 2022.

FAPPI, Thiago. No balão do Patrocínio: José do Patrocínio e o advento da aviação no Brasil. Publicação independente2021.

Fundação Biblioteca Nacional. A CAMPANHA ABOLICIONISTA José do Patrocínio COM O CORAÇÃO NOS LÁBIOS.

Motta, Felipe Ronner Pinheiro Imlau. Literatura, fatalidade e história: o jornalismo engajado de José do Patrocínio (1877-1905). Tese (Doutorado em Comunicação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A vida turbulenta de José do Patrocínio. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969

O GLOBO, 1º de setembro de 2013

OLINTO, Antônio. Patrocínio: 100 anos. Tribuna da Imprensa, 21 de junho de 2005.

ORICO, Oswaldo. O Tigre da Abolição. Rio de Janeiro : Gráfica Olimpica Editora, 1953.

Portal Literafro

Portal Ministério da Cultura

Projeto Intelectuais Negros nas Américas, Universidade Federal Fluminense – José do PatrocínioJosé Ferreira de Menezes, Vicente de Souza

ROCHA, D. Os retirantes (1879), de José do Patrocínio: texto fundador da literatura da secaRevista Crioula29, 95-124, 2022.

SILVA, Ana Carolina Feracin. De “papa-pecúlios” a Tigre da Abolição: a construção da legenda de José do Patrocínio nas últimas décadas do século XIX. Revista da ABPN, v. 10, n. 25 • mar – jun 2018, p.69-81.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

Site Family Search

Site FGV CPDOC

Site Geledés

Site Geneanet

Site Jornalismo de Guerra

Site Lideranças Políticas – José Carlos do Patrocínio

Site Monumentos do Rio

SOUZA, Marcos Teixeira de. Motta Coqueiro ou a pena de morte. Revista Jangada, julho/dezembro de 2014.

VASCONCELOS, Rita de Cássia Azevedo Ferreira de. REPÚBLICA SIM, ESCRAVIDÃO, NÃO: o Republicanismo de José do Patrocínio e sua vivência na República. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Mestrado em História Contemporânea I na Universidade Federal Fluminense, 2011.

WANDERLEY, Andrea C.T. Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias in Brasiliana Fotográfica, 12 de julho de 2015.

Tirando o Brasil dos arquivos por Ricardo Augusto dos Santos

Neste artigo Ricardo Augusto dos Santos, inspirado pela realização da comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, em abril de 2025, destaca fotografias de cidades presentes no acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal, na qual ele atua como pesquisador titular. No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, pode-se conhecer melhor o Brasil. Nas gavetas da COC/Fiocruz, foram identificados, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, conteúdos a respeito do tenentismo, da Fundação Rockefeller, da hanseníase, da eugenia, da reforma antimanicomial, do alcoolismo e da previdência social, dentre centenas de outros.

 

Tirando o Brasil dos arquivos

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

Em meio às gavetas  da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, surge uma fotografia da cidade de Cuiabá (MT). Em 1944, a milhares de quilômetros do palco da Grande Guerra, uma faixa anuncia o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1889-1977). Fotos como essa, registrando cidades pelo imenso país, conservam a memória do Brasil. Quando iniciamos a participação na Brasiliana Fotográfica, nosso objetivo era apresentar a importância do acervo sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz. São 133 fundos e coleções arquivísticas que reúnem quase três mil metros lineares de documentos, com 23.000 imagens organizadas e disponíveis para consulta, além de 80.000 fotografias e negativos em processo de classificação. Apesar do peso representativo dos temas relativos à história das ciências e da saúde, encontramos diversos assuntos nos arquivos, revelando inestimáveis aspectos da história do Brasil dos últimos 150 anos.[1]

Portanto, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, nas gavetas da COC/Fiocruz, identificamos conteúdos a respeito do tenentismo, Fundação Rockefeller, hanseníase, eugenia, reforma antimanicomial, alcoolismo e previdência social. São centenas de temáticas.

No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, podemos conhecer o país. Julgamos que é atribuição de um centro de documentação a ampliação do número de investigadores, permitindo condições de pesquisa aos documentos arquivísticos. Os trabalhos de divulgação devem ser amplos, afinal a função social dos arquivos é justamente torná-los de uso coletivo. Portanto, divulgar os acervos para o público é tarefa vital. Sem demanda à consulta, os documentos não são organizados ou esse processo poderá ser mais lento. A disseminação dos documentos textuais e fotografias propicia que as instituições alcancem um maior número de usuários, utilizando seus acervos, permitindo a multiplicação de seus acessos. No entanto, algo mais importante está em cena. A possibilidade que os brasileiros conheçam o país, suas regiões e habitantes em diferentes épocas.

 

 

Durante o evento de comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, tomamos conhecimento das visualizações das inúmeras localidades do Brasil.  Em nosso acervo, na Casa de Oswaldo Cruz, possuímos fotografias de centenas de cidades retratando a imensidão do território. Desde o final do século XIX até os dias atuais (2025).

Nosso esforço é tornar maior a identificação entre os arquivos e a população. Uma das principais tarefas é atingir o público leigo que não utiliza os documentos para fins acadêmicos ou culturais. A divulgação não somente amplia o conhecimento sobre os arquivos, incentivando a investigação sobre temas fundamentais, para a emergência de discussões no espaço acadêmico, mas funciona como recurso para o cidadão. Em suma, assegura a informação arquivística para a população leiga.

 

 

 

 

[1] Para acessar a Base Arch: https://basearch.coc.fiocruz.br

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz.

Dia Nacional do Rádio

Com uma imagem da Orquestra da Rádio Nacional – uma das mais emblemáticas estações radiofônicas brasileiras -, e de outros registros relacionados à história do rádio no Brasil, o portal destaca o Dia Nacional do Rádio. As fotografias pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. A escolha da data comemorativa, 25 de setembro, é uma homenagem ao nascimento, em 1884, daquele que é considerado o pai da radiodifusão no país, o carioca Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954). Ele foi um dos fundadores da primeira emissora oficial de rádio brasileira, a Rádio Sociedade Rio de Janeiro, a atual Rádio MEC, e pensou na comunicação pelo rádio como um poderoso meio para a educação, para a transformação social e para o desenvolvimento humano. A instituição e a comemoração do Dia Nacional do Rádio foi estabelecida pela lei 15.101/2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (1945-), em 13 de janeiro de 2025.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias relacionadas à história do rádio no Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Brevíssimo histórico do início do rádio no Brasil

 

 

Na abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência, foi realizada a primeira grande transmissão pública de rádio do Brasil. Outras transmissões radiofônicas já haviam sido realizadas no país – pelo padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861 – 1928), em 16 de julho de 1899, em São Paulo (Commercio de São Paulo, 17 de julho de 1899, terceira coluna); e pela Rádio Clube de Pernambuco, fundada em 6 de abril de 1919 (Jornal do Recife, 25 de abril de 1919, última coluna). Mas a realizada em 7 de setembro de 1922 é considerada a primeira transmissão radiofônica oficial brasileira.

Uma estação de 500 watts, montada no alto do Corcovado pela Westinghouse Eletric International em combinação com a Companhia Telefônica Brasileira, irradiou o discurso do presidente Epitácio Pessoa  (1865 – 1942), realizado no Rio de Janeiro, através de 80 receptores vindos dos Estados Unidos, instalados em pontos centrais da cidade, surpreendendo os visitantes da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. A transmissão também foi realizada para Niterói, Petrópolis e São Paulo. Pelo mesmo sistema, à noite, a ópera O Guarany, de Carlos Gomes, encenada no Teatro Municipal, foi irradiada (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1922, quinta colunaA União (RJ), 14 de setembro de 1922, quarta coluna).

Pixinguinha (1897 – 1973), em entrevista, disse que havia tocado durante as primeiras transmissões radiofônicas oficiais no Brasil. “Toquei num estudiozinho que havia lá e a Zaíra de Oliveira cantou”. O estúdio foi montado no pavilhão dos Estados Unidos.

Segundo Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954), presente no evento e considerado o pai da radiodifusão no Brasil, durante a Exposição de 1922:

“A verdade é que durante a exposição do centenário da Independência, em 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia, então realizadas pelas companhias norte-americanas Westinghouse, na estação do Corcovado e Western Electric na Praia Vermelha, muito pouco gente se interessou. Creio que a causa principal desse desinteresse foram os altos falantes instalados na exposição, ouvindo discursos e músicas reproduzidos no meio de um barulho infernal, tudo rofenho, distorcido, arranhando os ouvidos. Era uma curiosidade sem maiores conseqüências…”


“No começo de 1923, desmontava-se a estação do Corcovado, e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o governo não a comprasse. O Brasil ia ficar sem rádio… Ora eu vivia angustiado com essa história, porque já tinha a convicção profunda do valor informativo e cultural do sistema desde que ouvida as transmissões do Corcovado, meses antes conforme já marquei mais de uma vez, mas uma andorinha não faz verão… Resolvi interessar a Academia de Ciências, era presidente o nosso querido mestre Henrique Morize e eu era secretário, e assim que nasceu a radio Sociedade do Rio de Janeiro no dia 20 de abril de 1923.”

 

 

O fato é que, em 20 de abril de 1923, aquela que é considerada a primeira emissora radiofônica do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada tendo diversos associados, dentre eles os membros da Academia Brasileira de Ciências, influenciados pelo  engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 -1930), primeiro presidente da instituição, cargo que exerceu entre 1916 e 1926, e também presidente da recém criada estação radiofônica; e por seu principal idealizador, justamente Edgar Roquette-Pinto, que se tornou secretário da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

Lembramos aqui que, em torno de 1897, Morize realizava experiências no campo da imagem com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. Em 1899, no consultório dos doutores Camilo Fonseca e Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (A Imprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Morize foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.

A Rádio Sociedade Rio de Janeiro foi instituída como sociedade com fins exclusivamente educacionais e culturais e seu slogan era “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Em caráter experimental, a primeira transmissão da Rádio Sociedade aconteceu em 1º de maio de 1923, Dia do Trabalho, utilizando o prefixo PR1– A e, após, PRA-A e PRA-2 (O Paiz, 1º de maio de 1923, última coluna). Na ocasião, Roquette-Pinto declarou:

“A partir de agora todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias.”

Foi a primeira emissora regular no Brasil e foi instalada, em 19 de maio de 1923, na sala de Física e Química da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco (Correio da Manhã, 20 de maio de 1923, penúltima coluna).

 

 

 

Em 1936, foi doada por Roquette-Pinto ao Ministério da Educação e Saúde, então dirigido pelo ministro Gustavo Capanema (1900 -1985). Em 7 de setembro, foi realizada a cerimônia de doação da Rádio Sociedade, que passou a se chamar Rádio Ministério da Educação, popularmente Rádio Ministério e, atualmente, Rádio MEC.

 

 

Mas foi com a chegada de Getúlio Vargas (1882 – 1954) à presidência, em 1930, que a rádio começou a crescer, tornando-se o mais importante veículo de comunicação de massa do país. Em 1931, o governo começou a regulamentar a radiodifusão e aboliu as taxas pagas pelos ouvintes para que os aparelhos de rádio fossem instalados nas residências. No ano seguinte, a veiculação de anúncios comerciais pelo rádio passou a ser permitida. Com essas medidas, as emissoras foram se popularizando. No início da década de 1930, segundo a dissertação de mestrado Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945, realizada por Luiz André de Oliveira, o Brasil contava com 19 emissoras de rádio. Em 1937, já eram 63 e, em 1945, 111. Assim iniciava-se a Era de Ouro do Rádio no Brasil, entre as décadas de 1940 e 1950, onde a Rádio Nacional se sobressaiu, tornando-se um fenômeno cultural no país. Durante esses cerca de 20 anos, as emissoras de rádio eram poderosas, irradiavam programas para todo o país e possuíam robustas estruturas administrativas e artísticas. Os programas era humorísticos, jornalísticos, musicais, esportivos e de dramatização. Com a popularização da televisão, a partir da década de 1960, o rádio foi perdendo seu protagonismo.

 

 

Brevíssimo perfil de Edgar Roquette-Pinto

 

 

O carioca Edgar Roquette-Pinto nasceu em 25 de setembro de 1884 e foi um brilhante intelectual tendo sido antropólogo, etnólogo, ensaísta, médico-legista e professor. Foi delegado do Brasil no Congresso de Raças, realizado em Londres, em 1911. Logo depois integrou a Missão Rondon e foi diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1936. Foi, em 3 de maio de 1916, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 20 de outubro de 1927.

Foi o representante do Brasil no 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940. Na ocasião, o dia 19 de abril foi escolhido como Dia do Índio (Correio da Manhã, 4 de abril de 1940, quarta colunaCorreio da Manhã, 6 de abril de 1940, terceira colunaDiário de Notícias, 26 de maio de 1940, quarta coluna Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna). Realizou centenas de curtas-metragens para apoiar o ensino nas escolas.

“Vários naturalistas famosos deram o nome de Roquette-Pinto a algumas espécies de plantas e animais: Endodermophyton Roquettei (Parasito da pele dos índios de Mato Grosso) por Olímpio da Fonseca; Alsophila Roquettei, por Brade e Rosenstock; Roquettia Singularis, por Melo Leitão; Phyloscartes Roquettei (pássaro do Brasil Central) por Snethlage; Agria Claudia Roquettei (borboleta) por May” (Site Academia Brasileira de Letras).

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1954, em sua residência, na Avenida Beira-Mar, 406. Foi velado na Academia Brasileira de Letras e enterrado em Petrópolis (Gazeta de Notícias, 19 de outubro de 1954, terceira coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil – FGV

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BIANCO, Nelia del. O rádio ainda é relevante na sociedade do século 21. UNB Notícias, 2018.

CALABRE, Lia. A Era do Rádio. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro. A divulgação científica no Rio de Janeiro: um passeio histórico e o contexto atual in Revista Rio de Janeiro, set-dez de 2003.

OLIVEIRA, Luiz André Ferreira de. Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945. Dissertação (Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.

Portal da Câmara dos Deputados

Revista Galileu, 26 de setembro de 2019

Site Academia Brasileira de Ciências

Site Academia Brasileira de Letras

Site Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Site Memorial da Democracia

Site Templo Cultural Delfos

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país in Brasiliana Fotográfica, 7 de setembro de 2022

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro por Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi

As historiadoras Bárbara Primo, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e Maria Isabel Lenzi, do Museu Histórico Nacional (MHN), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são as autoras do artigo Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro que resume os acontecimentos em torno do tema desde a instalação da cidade do Rio de Janeiro no Morro do Castelo, em meados do século XVI, até o princípio do século XX. Estão aqui disponibilizados três álbuns: dois com registros realizados pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e um terceiro com fotografias de autoria desconhecida sob o título; Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky, em 1923.

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro

Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi*

 

 

A cidade do Rio de Janeiro, ao se instalar no Morro do Castelo, em 1557, encontrou um desafio: o abastecimento de água. Seus habitantes compravam água de indígenas e negros aguadeiros. Estes iam buscá-la no rio Carioca, que corria no vale que hoje denominamos de Laranjeiras e desaguava na praia do Flamengo. Com o pregão de “Hy! Hy! – palavra que na língua tupi significa água – o precioso líquido era anunciado à população.

Em 1673, no governo de João da Silva e Souza (1669-1674), foram iniciadas as obras da adução das águas do rio Carioca, mas os chamados Arcos Velhos da Carioca, de madeira, só seriam concluídos no início do século seguinte. Em 1723, sob o governo de Aires Saldanha, a água cristalina foi levada até o primeiro Chafariz da Carioca. O governo Gomes Freire de Andrade executou grandes reformas no aqueduto que, inaugurado em 1750, conserva ainda hoje as feições daquele tempo.

Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e o consequente aumento da população, a água tornou-se escassa, obrigando as autoridades a buscarem outras fontes. Se até então a vertente Corcovado do Maciço da Tijuca era a mais usada, a partir do início do século XIX, os rios da vertente Tijuca seriam também aproveitados em diversos novos chafarizes e bicas que foram instalados na cidade.

 

 

O primeiro rio dessa vertente a ser aproveitado foi o rio Comprido que veio abastecer os chafarizes de Santana, do Catumbi e do Lagarto. Posteriormente, as águas do rio Maracanã foram também suprir esses chafarizes.

Com o passar do tempo, outros rios da vertente Tijuca foram incorporados ao abastecimento da cidade: o São João, o Trapicheiro, o Andaraí (ou Joana), o riacho da Cascatinha, o Gávea Pequena, o riacho do Hotel Aurora, o riacho A. Taylor e os córregos do Caranguejo, Soberbo, Morcego, Amaral e Machado.

A água, aos poucos, chegava às torneiras das residências. Todavia, este bem, tão fundamental à vida, deixava de ser gratuito, sendo incorporado definitivamente ao capital. As instituições públicas e as pessoas com maior poder aquisitivo, por óbvio, foram os pioneiros a ter água da torneira em casa e a mão de obra que pegava a água no chafariz público ficava cada vez mais escassa, pois a partir de 1850 o tráfico negreiro foi definitivamente abolido e muitos escravizados que viviam nas cidades foram vendidos para o Vale do Paraíba. Deste modo, o Rio de Janeiro seria palco e testemunha de uma série de transformações e avanços tecnológicos que, a partir da segunda metade do século XIX, vem responder a uma demanda advinda da escassez da mão de obra escravizada e de um aumento populacional e urbano.

O Rio sofre mais uma vez com falta d’água – os mananciais cariocas já não são mais suficientes para dar conta do abastecimento da cidade em franco crescimento, ainda dependente do Maciço da Tijuca como única fonte de abastecimento de água. O governo imperial contrata, então, o engenheiro Antonio Gabrielli (18? -?) para organizar comissões em busca de rios e fontes fora dos limites da cidade, sobretudo aqueles cujas nascentes estavam na serra do Tinguá, em Nova Iguaçu. Assim, entre os anos de 1877 e 1889, foram canalizadas as águas dos rios D’Ouro, Santo Antônio e São Pedro.

 

 

Para auxiliar as obras de canalização da Serra do Tinguá foi construída a ferrovia Rio D’Ouro. Ela percorria, inicialmente, 53 quilômetros entre o Caju e a Baixada Fluminense, mas ao longo dos anos, a estrada de ferro que serpenteava pelos subúrbios cariocas foi ampliada e acrescida de diversos ramais até atingir uma extensão total de mais de 100 quilômetros. O trajeto dos trilhos da Rio D’Ouro transformou a paisagem do seu percurso, condicionando a ocupação dos territórios do entorno e o surgimento de povoados ao longo do seu caminho.

 

 

Todavia, encontramos novamente crise de abastecimento no final do século XIX consequência da seca enfrentada pelos cariocas no início de 1889. Somada à escassez de água, a cidade enfrentava um surto de febre amarela e a crescente insatisfação popular já dava indícios da falência do Império. Em meio a este cenário, o engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933)propôs como solução paliativa a captação provisória das águas da Serra do Tinguá para o reservatório de Pedregulho (Benfica). A ousadia da proposta, no entanto, não se deveu à grandiosidade da empreitada – canalização das águas por 18 km, mas ao tempo estimado para realizá-la: seis dias.

Diante de um problema tão grave e que já se arrastava por anos, a possibilidade de uma resolução tão imediata colocou em xeque a competência do já instável governo imperial. O apoio dos opositores do governo à proposta de Frontin e a repercussão do caso nos jornais fizeram deste um caso emblemático da crise político-social que conduziu o país à Proclamação da República em novembro deste mesmo ano.

Um pouco mais tarde, ao longo da primeira década do século XX, os rios Xerém e Mantiquira também foram domesticados de maneira a complementar o abastecimento da população carioca. Paralelamente à canalização de novos rios, diversas obras foram feitas para otimizar a distribuição e o tratamento as águas, como a construção de caixas de decantação, reservatórios e represas.

 

 

As novas possibilidades de fornecimento de água em domicílio traduziam-se em um maior comprometimento do poder público com a qualidade e armazenamento, o que resultou em novas práticas de controle deste fornecimento, assim como do consumo. É fato que a distribuição de água nas casas cariocas ocorreria de maneira desigual, privilegiando as famílias com maior poder aquisitivo.

Já em 1898 teve início a instalação de hidrômetros, mediante lei do ano anterior que regulamentava a cobrança de taxas. Assim, a distribuição de bicas e penas d’água acabaria por priorizar as freguesias mais abastadas em detrimento das regiões mais densamente povoadas.

 

 

O Museu Histórico Nacional preserva três álbuns com fotografias que documentam a domesticação da água no Rio de Janeiro. Dois deles trazem fotografias de Marc Ferrez. São eles: Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 e Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro. O terceiro álbum apresenta fotografias de autoria desconhecida sob o título Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky em 1923. Vale a pena apreciar essas fotografias.

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Bárbara Primo é historiadora do Instituto Brasileiro de Museus e Maria Isabel Lenzi é historiadora do Museu Histórico Nacional.

 

 

O Monumento do Ipiranga por Guilherme Gaensly

Com uma imagem realizada pelo fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), por volta de 1902, a Brasiliana Fotográfica destaca o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, que desde final do século XIX abriga o Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista na cidade de São Paulo, que completa 130 anos. O registro pertence ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

Gaensly foi o autor de importantes registros de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte. Na ocasião, a presença da Light representava a modernização da área urbana e dos serviços da cidade. Apesar de nunca ter sido o fotógrafo oficial de São Paulo, como foi Augusto Malta (1864 – 1957) no Rio de Janeiro, Gaensly foi o autor de uma abrangente obra sobre a capital paulista nas primeiras décadas do século XX, o que o coloca nessa posição.

Ele e Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) são considerados os fotógrafos que mais cultuaram São Paulo. Gaensly fotografou a cidade em plena transição para a modernidade, tendo registrado todos os aspectos urbanos da nova metrópole que surgia. Registrou a inauguração dos bondes elétricos que substituíram as carroças, o Jardim da Luz, a agitação do comércio na região do entorno da Praça da Sé, o crescimento da avenida Paulista, além do Museu do Ipiranga, palacetes, chácaras, edifícios públicos, igrejas, escolas, teatros e hospitais. Essas vistas de São Paulo foram comercializadas em álbuns impressos na Suíça a partir de fotografias em papel albuminado e de colotipias. Fotografou também a chegada de imigrantes italianos em Santos e em São Paulo. Dentre os prêmios que recebeu, está uma medalha de prata conquistada na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904.

 

Breve histórico do Museu do Ipiranga ou Museu Paulista da Universidade de São Paulo

 

O arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915), segundo o próprio indicado por Ignacio da Gama Cochrane (1836 – 1912), superintendente de obras públicas da Província de São Paulo, foi contratado, em 1882, pela Comissão Provincial do Monumento do Ipiranga para realizar o projeto de um monumento-edifício no local onde aconteceu o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Sua escolha foi criticada pelo fato dele ser estrangeiro. Em 10 de dezembro de 1882, com a presença do governador de São Paulo, Francisco de Carvalho Soares Brandão(1839 – 1899), e de outras autoridades foi colocada a primeira pedra do monumento (Correio Paulistano, 11 de dezembro 1882, segunda coluna). Foi executado pelo mestre de obras Luigi Pucci (18? -?), também italiano. O edifício, localizado dentro do complexo do Parque Independência, foi construído entre 1885 e 1890. Em estilo eclético, tem 123 metros de comprimento e 16 metros de profundidade com muitos elementos decorativos e ornamentais. A técnica empregada, uma novidade na época, foi a da alvenaria de tijolos cerâmicos.  Em São Paulo ainda predominavam as técnicas vernaculares, de construção em taipa. O edifício é tombado pelo patrimônio histórico municipal, estadual e federal.

 

 

As obras encerraram-se em 1890 (Correio Paulistano, 24 de junho de 1890, segunda coluna). Houve a possibilidade de abrigar uma escola pública, mas, em 1892 foi decidido que o Museu do Estado, criado em 1890, seria transferido para o Edifício-Monumento.

Em 1893, instituiu-se o Museu Paulista, que foi inaugurado em 7 de setembro de 1895, no Monumento do Ipiranga  (Correio Paulistano, 8 de setembro de 1895, quinta coluna). Possui um acervo de mais de 125 mil unidades, entre objetos, iconografia e documentação textual, do século XVII até meados do século XX.

 

 

Assim as trajetórias do museu público mais antigo de São Paulo e do Monumento do Ipiranga se encontraram e, desde então, ele ficou conhecido como Museu do Ipiranga. O primeiro diretor do museu foi o zoólogo teuto-brasileiro Hermann von Ihering (1850 – 1930) e seu acervo originou-se na coleção particular do coronel Joaquim Sertório (18? – 1905). Em 1963, o Museu Paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo.

O Museu do Ipiranga foi fechado para o público, em 2013, devido a suas péssimas condições físicas e estruturais. Em 2019, foi iniciada as obras de sua reforma, cujo custo foi estimado em 235 milhões de reais. Sua área construída foi dobrada e, a área expositiva, triplicada. O Jardim Francês e suas fontes foram recuperados. Foi reinaugurado em 7 de setembro de 2022, quando foi comemorado o bicentenário da Independência do Brasil. No dia seguinte, foi aberto ao público.

Uma das obras mais conhecidas de seu acervo é o quadro Independência ou Morte, pintado pelo artista Pedro Américo, em 1888.

 

 

Breve perfil de Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915)

 

 

Bezzi formou-se engenheiro, em Turim, onde nasceu em 18 de janeiro de 1844. Foi voluntário, nas campanhas de Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882) para a unificação italiana. Também serviu como oficial do regimento de cavalaria do exército regular, comandado pelo Duque D’Aosta (1845 – 1890), tendo se destacado na Batalha de Custosa contra os austríacos. Foi ferido em combate diversas vezes e foi condecorado com medalhas pelas campanhas da Itália de 1860-1861-1866. Foi condecorado por bravura com uma medalha de prata. Em 1868, viajou para o Uruguai e Argentina.

Seu primeiro projeto no Brasil, para onde veio, na década de 1870, foi o edifício da alfândega de Fortaleza, realizado a pedido do governo imperial, em 1874 (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1874, primeira coluna; Jornal do Commercio, 19 de julho de 1877, quarta colunaA Constituição (CE), 20 de novembro de 1874, penúltima coluna). Começou a trabalhar como engenheiro-arquiteto no Rio de Janeiro, onde, inicialmente, ficou hospedado na casa do Visconde do Rio Branco (1819 – 1880). Casou-se, em 26 de janeiro de 1876,  com Dona Francisca Nogueira da Gama Carneiro de Bellens, de uma nobre família brasileira (Diário do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1876, quinta coluna). A partir dessas relações entrou para o círculo íntimo do imperador Pedro II (1825 – 1891). O casal residia na Rua Bambina, em Botafogo.

Em 1876, foi designado para fiscalizar as obras da ponte da alfândega de Belém do Pará (A Constituição (PA), 19 de agosto de 1876, última coluna).

Na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na Sala Gabriel Soares, foram expostos produtos da arte plumária brasileira, adornos, tecidos e vestes de muitas tribos do Brasil, além das coleções arqueolíticas do Museu Nacional, de Amália Machado Cavalcanti de Albuquerque e dos senhores  Joaquim Monteiro Caminhoá (1836 – 1896), João Barbosa Rodrigues (1842 – 1909) e Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) (A Constituição (PA), 16 de agosto de 1882, terceira coluna). A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes.

Ainda em 1882, a Comissão para o Monumento à Independência Brasileira, futuro Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista, cujo projeto vencedor foi o de Bezzi, o qualificou como arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico (Correio Paulistano, 11 de dezembro de 1882, terceira coluna). Em 1883, Bezzi passou a residir em São Paulo, na Rua do Senador Florencio de Abreu, 43 (Correio Paulistano, 6 de julho de 1883, última coluna). Também em São Paulo projetou o ajardinamento da Praça da República, realizado entre 1902 e 1904 (Arquivo Histórico de São Paulo); e o Velódromo de São Paulo, inaugurado na década de 1890.

No Rio de Janeiro, além do Clube Naval, Bezzi projetou diversos prédios e residências, dentre eles o antigo Banco do Comércio, na Rua 1º de Março, e reformou o Edifício Itamarati, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores, tendo construído sua ala esquerda.

Bezzi fundou algumas associações de fundo patriótico ligadas à Itália, dentre elas a Sociedade dos Combatentes Italianos pela unidade e pela independência da Itália, a Societa Veterani e Reduci e a Sociedade União Beneficente. Foi eleito membro honorário do Instituto de Engenheiros Civis de Londres, agraciado como Oficial da Legião de Honra da França e com o Hábito da Ordem Militar de São Maurício e São Lázaro, pelo governo da Itália. Era Comendador da Coroa Italiana e o representante no Brasil da Cruz Vermelha italiana (Jornal do Brasil, 30 de maio de 1915, sexta coluna).

Faleceu em 23 de maio de 1915, no Rio de Janeiro. Residia na Rua Cosme Velho, 57 (O Paiz, 24 de maio de 1915, terceira coluna; Correio da Manhã, de maio de 1915, penúltima coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes

BREFE, Ana Claudia Fonseca. O Museu Paulista – Affonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo : Editora UNESP, 2025.

EMERICH, Denise (autora); DIAS, Fabiano (tradutor). Museu Paulista: 120 anos de história | 120 years of history (PT/ING). São Paulo : Editora Brasileira, 2016.

NERY, Pedro. Arte, pátria e civilização: A formação dos acervos artísticos do Museu Paulista e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1893-1912. Revista Fórum Permanente, dezembro de 2016.

ONO, Rosaria; LIMA, Solange Ferraz. O novo Museu do Ipiranga no Bicentenário da Independência do Brasil. São Paulo, 2022.

Site Arquitetura Italiana no Estado de São Paulo

Site Fflch – Enciclopédia de Antropologia

Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913

Hoje, no Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica destaca a criação da Associação dos Photographos de Imprensa, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil. Foi criada em 28 de outubro de 1913 e entre seus fundadores estavam Augusto Malta (1864 – 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; e Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, produzidas em 1916 – ambos representados no acervo fotográfico do portal e protagonistas de artigos acompanhados de cronologia publicados na Brasiliana Fotográfica. A fotografia abaixo, publicada na revista Fon-Fon, de 1º de novembro de 1913, está assinada por F. Garcia, o presidente da então recém criada associação.

 

 

Na ocasião, fotógrafos de jornais e revistas da então capital federal reuniram-se na casa 106, da Rua São José, criaram a associação e elegeram a seguinte diretoria, que regeria os destinos da entidade por um ano: na presidência, Francisco Garcia; na vice-presidência, Arthur do Carmo; Jayme Ramalho e Benjamin Vernaut, primeiro e segundo secretário, respectivamente; Carlos Chapelin, tesoureiro; e José Teixeira, procurador.

O objetivo da Associação dos Photographos de Imprensa era a união da classe, a assistência em caso de caso de doença, etc (Revista Moderna, 25 de outubro de 1913A Noite, 28 de outubro de 1913, última colunaCorreio da Manhã, 29 de outubro de 1913, quarta colunaO Paiz, 29 de outubro de 1913Fon-Fon, 1º de novembro de 1913).

 

 

Num artigo da Illustração Photographica (SP), de junho de 1919, intitulado Associação dos Photographos de Imprensa, os profissionais da classe foram criticados:

 

 

Tudo indica que a iniciativa não vingou por mais muito tempo porque logo nos primeiros dias de 1929 os fotógrafos de imprensa foram convocados para formar uma associação (A Noite, 3 de janeiro de 1929, segunda coluna).

 

Augusto Malta (1864 – 1957) e Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

Na imagem abaixo, Augusto Malta é o primeiro sentado à direita com sua inequívoca gravata de laço preto. A identificação de Jorge Kfuri, o terceiro, em pé, da esquerda para a direita, foi feita a partir da comparação com uma foto dele publicada na revista Vida Sportiva, de 12 de outubro de 1918.

 

 

 

 

As fotos de Malta foram divulgadas em guias turísticos, cartões-postais, revistas e publicações oficiais. Sua vasta produção fotográfica foi decisiva para a formação da identidade visual da Belle Époque no Rio de Janeiro e para a preservação da memória da cidade. Foi, sem dúvida, um importante incentivador do fotojornalismo no Brasil, tendo fornecido imagens de acontecimentos, pessoas, aspectos urbanos e paisagens para diversas revistas e jornais.

Nas primeiras décadas do século XX, Kfuri trabalhou nos jornais O Século e A Noite e produziu as primeiras fotografias aéreas do Brasil. Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). No ano seguinte, naturalizou-se brasileiro e foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval.

 

Para saber mais sobre a vida destes dois fotógrafos, acesse os seguintes artigos já publicados aqui na Brasiliana Fotográfica:

O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, 10 de julho de 2015

Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2019

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono por Beatriz Kushnir

Destacando uma imagem do Cemitério Israelita de Inhaúma, produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), em 11 de abril de 1934, a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Você quer saber quem somos nós? O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir. Inaugurado em 1o de outubro de 1916, lá encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas. Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer, ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino. As prostitutas judias ficaram conhecidas como “as polacas”.

Você quer saber quem somos nós?

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono

Beatriz Kushnir*

 

 

No dia 11 de abril de 1934, uma quarta-feira, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) (1) registrou um evento no Cemitério Israelita de Inhaúma. Na foto, homens e mulheres diante de uma lápide. Na tradição judaica, algum tempo após o enterramento, há a cerimônia de sua inauguração, com a colocação da pedra e das informações sobre o/a falecido/a. Possivelmente era isto que acontecia ali. Ao que parece, apenas cinco homens compareceram e, assim, não se seguia o rito religioso que exige um minian – um quórum de dez homens judeus adultos, ou seja, com 13 anos ou mais. Isto é um indício de que talvez o grupo não tivesse tantos homens judeus disponíveis.

A curiosidade do fotógrafo demonstra que as atividades naquele espaço despertavam, há muito, o interesse da sociedade carioca. Seguindo preceitos e ritos milenares, os judeus costumam visitar seus mortos no final de semana entre o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Iom Kipur). Os vários cemitérios judeus, em todo o mundo, ficam lotados nesses dias. Mantendo tal costume, Zelda e sua irmã Celina apareceram no Cemitério Israelita de Inhaúma, em 1992, quando as encontrei. Diferentemente dos demais, lá as visitas são raras.

No subúrbio de Inhaúma, colado ao cemitério municipal, encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas (2). Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer (1902 – 1991), ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino.

As polacas, como ficaram conhecidas, estão presentes na letra de Mestre-Sala dos Mares, homenagem de João Bosco (1946-) e Aldir Blanc (1946 – 2020) a João Cândido (1880 – 1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata (1910): “Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens, polacas e por batalhões de mulatas”. No poema Balada do Mangue, de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), publicado em 1946, onde se lê: “Glabras, glúteas cafetinas / Embebidas em jasmim / Jogando cantos felizes / Em perspectivas sem fim. / Cantais maternais hienas / Canções de cefetinizar / Gordas polacas serenas / Sempre prestes a chorar”(3). Nos desenhos de Lasar Segall (1889 – 1957), intitulada Mangue (4), e de Di Cavalcanti (1897 – 1976) (5), e nas fotos de Augusto Malta (6).

 

 

 

 

Há também a música que Moreira da Silva (1902 – 2000) compôs para uma paixão, Estera Gladkowicer (1927 – 1968), uma polaca de origem russa naturalizada brasileira, nascida em 20 de maio de 1907, solteira e que chega ao Brasil em 1927. Estera era a sócia no 65 da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI) e morreu em 1968 por ingestão de barbitúricos. Intitulada Judia Rara, Kid Morengueira declara que “A rosa não se compara/a essa judia rara/criada no meu país/rosa de amor sem espinhos/diz que são meus carinhos/e eu sou um homem feliz/Os olhos dessa judia/cheios de amor e poesia/dorme o mistério da noite/brilha o milagre do dia/A sua boca vermelha/é uma flor singular/e meu desejo uma abelha/em torno dela a bailar” (https://www.youtube.com/watch?v=gXfRBepUV1M).

 

 

Quando encontrei Zelda e Celina ali, em 1992, elas vinham visitar seus mortos: a mãe, a sogra de uma irmã, amigos e amigas. Logo me perguntaram: “ah, você quer saber quem somos nós?”. Mas a quem pertence este espaço e por que está isolado? O Cemitério Israelita de Inhaúma materializa a necessidade que esse grupo teve de retirar de si o manto da marginalidade e da exclusão pela via da solidariedade e da sociabilidade com base na religiosidade. Isto porque, dentro dos preceitos religiosos judaicos as prostitutas são enterradas junto ao muro dos cemitérios, reforçando e demarcando o locus da exclusão e do estigma. A partir da vivência comunal religiosa construída por esse grupo, com a aquisição de um cemitério próprio, estes homens e mulheres puderam manter e reforçar sua identidade judaica.

No Rio de Janeiro, o espaço do cemitério revela números – participação feminina e masculina, existência de filhos – e hierarquias. Assim, foi durante a gestão de 1916 que a ABFRI inaugurou o Cemitério Israelita de Inhaúma, em um terreno na rua Piragibe nº 99, com fundos para o Cemitério Municipal de Inhaúma. O processo de aquisição do terreno remonta a fevereiro de 1912, quando a procuradora Norma Pargament reencaminhou um pedido ao prefeito da Cidade do Rio de Janeiro “(…) para que lhe fosse arrematado ou vendido um terreno junto ao Cemitério de Inhaúma, para nele ser instalado o cemitério da mesma Associação a fim de ali serem internados (sic). todos os seus associados”(7).

Em agosto de 1916, o Diretor Geral de Obras e Viação, José Dias Cupertim, aprovou a obra e, às vésperas do décimo aniversário de fundação da ABFRI, se inaugurou o seu cemitério em 1o de outubro de 1916. Este ato representa e corporifica o objetivo central de uma sociedade dessa natureza: a manutenção de uma identidade étnico-religiosa. Contrariamente ao que se poderia supor, os membros da ABFRI não eram ilustres desconhecidos. Tal qual a curiosidade de Malta em 1934, a inauguração de seu cemitério, em 1916, não passou despercebida na imprensa carioca, sendo noticiada na primeira página do jornal A Noite (8), em uma matéria que reproduz as imagens da época quanto aos imigrantes/cáftens/ prostitutas/judeus.

 

 

A reportagem, não assinada, foi ilustrada com uma foto do campo de Inhaúma cercado por grades e identificado com uma placa com o nome da Associação, expondo seu caráter ainda precário e o que difere muito do que acontecerá nas duas próximas décadas como a imagem do Malta demonstra.

No tom de uma verdadeira crônica policial, o jornal A Noite faz referências aos homens e mulheres ali presentes, seus trajes e costumes. Narrando o que denominava de bizarro, a notícia conta a história da primeira pessoa a ser ali enterrada “(…) de nome Helena. Coube a essa a primeira cova aberta. Helena. [moradora à] rua do Regente, (…) era austríaca, solteira e tinha 33 anos. Faleceu no dia 22 de outubro deixando uma filha “(…) Eva. Esse foi o nome escolhido por suas irmãs de religião. Mas a [criança] foi gerada da união da pecadora com um soldado naval. O soldado não quis que se chamasse Eva a pequena, nome judaico, e sim que se lhe desse Iracema, nome indígena”(9).

A descrição da “festa macabra” realizada pelo jornal misturava em um mesmo caldeirão todas as referências usualmente feitas ao fenômeno do tráfico de escravas brancas e à atuação de parte da comunidade judaica nessa área. Assim, o jornalista refere-se a uma possível cerimônia de inauguração do campo, no qual um carneiro sacrificado foi enterrado, seguindo-se a uma distribuição de doces e bolos e a um leilão de cargos beneméritos da Associação, mediante pagamento que reverteria para a construção das instalações do cemitério. Tais descrições poderiam se aproximar do capturado pelas lentes de Malta, em 1934. Também ali vemos alimentos e bebidas, que talvez se justifiquem pelo difícil acesso ao local naquele momento. O longo deslocamento de ida e volta exigiria a ingestão de um farnel.

Três dias após a publicação do A Noite, o mesmo órgão de imprensa registrou uma resposta do redator-chefe, David J. Perez, do jornal A Columna – órgão da comunidade israelita carioca. Perez escreveu uma nota negando existir qualquer preceito religioso que regesse a inauguração de um cemitério judeu e justificava a existência e atuação de judeus nesse tipo de ofício pela ausência de uma organização comunal na cidade (A Noite, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

O Cemitério Israelita de Inhaúma foi o primeiro cemitério israelita de caráter particular estabelecido na cidade do Rio de Janeiro. Anteriormente, os judeus desta cidade eram enterrados em quadras delimitadas no Cemitério do Caju, São João Batista ou dos Ingleses, segundo os preceitos religiosos judaicos. Dentro destes preceitos, os suicidas e as prostitutas eram enterrados junto ao muro, demarcando e reconfirmando a marca da exclusão. E foi certamente para sair deste lugar que aqueles homens e mulheres se organizaram associativamente a partir de 1906, em um ato pioneiro dentro do processo imigratório de judeus para o Brasil. Portanto, é errônea a visão segundo a qual, “(…) a municipalidade havia cedido à comunidade judaica uma extensa área, no Bairro de Inhaúma, para que fosse lá localizado um cemitério dentro dos preceitos da sua religião. (…) Aconteceu que os judeus da escravatura branca, chamados de ‘impuros’, quando souberam da concessão governamental, conseguiram das autoridades que seus mortos também fossem enterrados no cemitério de Inhaúma. Esse fato fez com que a comunidade, diante da impossibilidade de revogar a ordem, abandonasse o mencionado cemitério e, na impossibilidade de obter uma outra concessão. Dentro do então Distrito Federal. (…) foi instalado um cemitério em Vila Rosaly, atual município de São João de Meriti, então município de Nova Iguaçu” (Malamud, 1988, p. 83-4).

A ABFRI sobreviveu no século 20. Foi dirigida por mulheres que formavam uma irmandade. A última das quatro irmãs superioras foi Rebecca Freedman, a Becca, que faleceu com 103 anos, em 1984, talvez a verdadeira data de encerramento da associação. Ela havia sido eleita presidente por uma gestão de quatro anos, até 1970, porém nunca foi substituída. Após 62 anos de existência, a ABFRI se “exaure”, como me descreveu o seu contador, Sr. O. As rendas já não cobrem as despesas e as mensalidades já não conseguem ser pagas pelos associados. Diferente de suas companheiras e, certamente, não por sua vontade, Becca foi enterrada no Cemitério Comunal do Caju, pela Sociedade Cemitério Comunal, uma entidade israelita que cuidava até 2020 do Cemitério Israelita de Inhaúma. Mesmo com o fim da Associação, esse cemitério ainda recebeu sepultamentos e, na década de 1960, segundo a Comissão de Cemitérios do Rio de Janeiro, sua média anual era de oito enterros. O Livro de Registro dos óbitos dos associados da ABFRI encerra seus dados em outubro de 1967, embora outros cinco sócios tenham sido sepultados até setembro de 1970. Após esse ano, pela ausência de recursos e de pessoal que cuidasse do cemitério, ele fica abandonado.

As tentativas que membros da ABFRI realizam desde a década de 1960 para solucionar a questão chega a um limite e a transferência dos cuidados do cemitério para outra sociedade israelita me foi narrada pelo Sr. O como um processo longo. Anos mais tarde, já no final da década de 1970, a atual sociedade responsável – Sociedade Cemitério Comunal – procurou o Sr. O. Nos anos 2000, a entidade que assumiu o cemitério teve a intenção de usar as áreas livres restantes para outros enterros que não os dos sócios da  ABFRI. Os sócios seriam concentrados em uma área determinada, transladando-se os corpos, o que não é permitido pela religião judaica.

Para que isto não ocorresse, a Prefeitura do Rio tombou o cemitério como um sitio arqueológico (Decreto no 28.463, de 21 de setembro de 2007 e Decreto no 32.993, de 27 de outubro de 2010). Abandonado desde 2020, trancado e impossibilitado de receber visitantes, o espaço pede socorro!

 

* Beatriz Kushnir é Doutora em História/Unicamp. Autora, entre outros, de Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição, as polacas e suas associações de ajuda mútua (Imago). Mantém o blog: http://polacas.blogspot.com

 

(1)  Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeiro Pereira Passos.
(2) Este dado foi retirado do Livro de Registro de Óbitos dos Adultos e Anjos sepultados no Cemitério da Associação
Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – Inhaúma. Esse material foi elaborado por essa entidade e hoje se encontra em um depósito no arquivo da Sociedade Cemitério Comunal – instituição judaica carioca que tomava conta do local até 2020. Esse Livro possui páginas numeradas, 31 até 88, que dão conta do período de 22 de outubro de 1916 até 12 de outubro de 1967.
(3) Vinicius de Moraes, Antologia poética. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2006.
(4) Lasar Segall, (Vilna, 1889 – São Paulo, 1957) foi um pintor, escultor e gravurista judeu nascido no território da atual Lituânia. Álbum de desenhos de Mangue foi realizado entre 1925 e 1928, e inclui texto de Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. A edição de luxo é limitada a 135 exemplares.
(5) Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, ou Di Cavalcanti, (1897–1976), abordou temas brasileiros em suas obras e, em 1929, pintou o quadro Mangue.
(6) Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeito Pereira Passos, instituiu um significativo acervo das transformações da então capital do Brasil.
(7) AGCRJ (Vol.4, p. 598, códice 58-3-22).
(8)“Uma festa Macabra – Os exploradores do judaísmo. Os ‘wizugths’ pagam o seu tributo – O destino de Helena”.
Jornal A Noite, RJ, 30/10/1916, p.1.
(9) Op. cit. Nota 8.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VII – A Orquestra Sinfônica Brasileira – sua fundação e primeiro concerto, em 1940

Destacando duas fotografias do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, o sétimo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica homenageia os 85 anos da fundação e do primeiro concerto realizado pela Orquestra Sinfônica Brasileira, patrimônio cultural brasileiro e importante promotora do acesso à música de concerto em nosso país. É a única orquestra do Brasil que se mantém em permanente atividade há mais de 80 anos, desde sua fundação.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias relativas à Orquestra Sinfônica Brasileira pertencentes ao acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Sob a regência do maestro húngaro Eugen Szenkar (1891 – 1977), seu primeiro diretor artístico, a orquestra apresentou-se no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1940, cinco dias após sua criação. O regente, que ficou à frente da OSB até 1949 (Diário de Notícias, 27 de setembro de 1949, quarta coluna30 de dezembro de 1949), incluiu no repertório de estreia a obra Serenata, do compositor brasileiro, Alberto Nepomuceno (1864 – 1920). As outras peças executadas foram dos compositores alemães Carl Maria von Weber (1786 – 1826), Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), Richard Wagner (1813 – 1883) e do tcheco naturalizado norte-americano Jaromír Wainberg (1896 – 1967) (Diário de Notícias17 de agosto de 1940, sexta coluna; 18 de agosto de 1940, quinta coluna).

Uma das fotografias do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro destacadas neste artigo é de Eugen Szenkar ensaiando a orquestra, que ilustrou uma entrevista do maestro, seis anos após a fundação da OSB (Diário da Noite, 4 de julho de 1946).

 

 

 

 

A outra, uma fotografia publicada pelo Diário da Noite, de 2 de setembro de 1944, é um flagrante da apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira no 6º Concerto para a Juventude, no Cine Teatro Rex, em uma iniciativa conjunta com o Ministério da Educação. O concerto, que integrou as festividades da Semana da Pátria, estava lotado (Diário da Noite, 2 de setembro de 1944, última coluna).

 

 

 

A preservação de um arquivo fotográfico de imprensa é muito importante porque as imagens podem, a partir de recursos tecnológicos como o zoom e a digitalização, terem uma boa visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena. O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, adquirido por Assis Chateaubriand (1892 – 1968) em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Os registros cobrem um período representativo do século XX – de 1915 a 2005.

 

Brevíssima história da Orquestra Sinfônica Brasileira

 

A Orquestra Sinfônica Brasileira foi fundada, em julho de 1940, graças aos esforços do maestro José Siqueira (1907 – 1985), e de outros professores da Escola Nacional de Música: Orlando Frederico, Alfredo Gomes, Antão Soares, Djalma Guimarães, Alberto Lazzoli, Antonio Leopardi, Iberê Gomes Grosso, Nelson Cintra e o capitão Fortunato Nascimento, além de apoiadores como o jornalista Roberto Marinho (Diário de Notícias, 13 de julho de 1940, coluna).

 

O compositor e regente paraivano José Siqueira

O compositor e regente paraibano José Siqueira (1907 – 1985)

 

Como já mencionado, o primeiro concerto realizou-se em 17 de agosto de 1940. Inicialmente, os ensaios da orquestra eram realizados na Sala Leopoldo Miguez, da Escola Nacional de Música.

 

osboglobo16deagostode1940

O GLOBO, 16 de agosto de 1940

 

 

 

Um dos mais importantes críticos de música de seu tempo, o curitibano José Cândido de Andrade Muricy (1895 – 1984), saudou a criação da OSB em uma crônica publicada no Jornal do Commercio, de 21 de julho de 1940, primeira coluna.

De acordo com o site da OSB, sucederam o maestro Eugen Szenkar: o italiano Lamberto Baldi (1895 – 1979), em 1950 (Correio da Manhã, 13 de março de 1950, segunda coluna); o cearense Eleazar de Carvalho (1912 – 1996), em 1952; e o curitibano Alceu Bocchino (1918 -2013), em 1963 (Diário de Notícias, 18 de abril de 1963, segunda coluna).

Em 1943, a OSB ganhou um patrono de peso, o empresário Arnaldo Guinle, que doou uma sede à orquestra, em dois andares do prédio na Avenida Rio Branco, 137, no centro do Rio de Janeiro. Também neste ano foram inaugurados os Concertos para a Juventude, cuja premissa era dar oportunidades a jovens solistas brasileiros. Eram realizados no último domingo do mês. O primeiro concerto aconteceu, em 25 de abril, no Cine Teatro Rex, reunindo cerca de 900 estudantes na platéia (Diário de Notícias, 29 de abril de 1943; A Noite, 12 de setembro de 1943, primeira coluna). Nos anos 1950, a Orquestra gravou seu primeiro LP, com peças de Carlos Gomes (1836 – 1896), Oscar Lorenzo Fernandez (1897 -1948), Francisco Braga (1868 – 1945), Alberto Nepomuceno e Fructuoso Vianna (1896 – 1976). Em 1958, já possuía 18 LPs gravados.

Na inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, a OSB apresentou-se, a convite do governo federal.

OSB foi transformada em fundação, em 1966, ano em que Eleazar de Carvalho reassumiu a orquestra. Ganhou um maior impulso a partir de 1970, graças ao dinamismo de seu novo diretor, o brasileiro de ascendência russa Isaac Karabtchevsky (1934 -), realizando sua primeira turnê para o exterior: apresentou-se na Europa, em 1974. Três anos depois, em 1977, fez uma temporada nos Estados Unidos e no Canadá.

O Projeto Aquarius, criado em 1972, também ajudou a popularizar a OSB, levando a música clássica às camadas mais populares, em concertos na Quinta da Boa Vista. Sua estréia, em 30 de abril de 1972, no Aterro do Flamengo, foi assistida por cerca de 100 mil pessoas. Em 1984, por exemplo, foi realizado o Rock Concerto – iniciativa do Projeto Aquarius, na Praça da Apoteose, com a orquestra e o coro do Theatro Municipal, Barão Vermelho e Blitz. E no centenário do compositor Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959), em 1987, o Projeto Aquarius o homenageou apresentando um grande concerto com a participação de cinco mil vozes.

Ainda sob a regência de Karabtchevsky a OSB causou uma polêmica por ter executado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a obra Rapsódia sobre temas de Chico Buarque, de Lindolfo Gaya (1921 – 1987), uma homenagem a Chico Buarque (1944-). Foi aplaudida por um auditório repleto mas não agradou a todos. O pianista, regente e compositor Francisco Mignone (1897 – 1986) teria dito, no foyer do teatro: É sinal de luto pela música brasileira (Correio da Manhã, 9 de novembro de 1967, quarta colunaDiário de Notícias, 9 de novembro de 1967, segunda coluna; O Jornal, 10 de novembro de 1967, quinta colunaJornal do Brasil, 15 de novembro de 1967, terceira coluna; Jornal do Commercio, 19 de novembro de 1967, terceira coluna).

Karabtchevsky, que foi regente titular da OSB de 1969 a 1996, foi sucedido pelo paulistano Roberto Tibiriçá (1954-), em 1996; pelo israelense-argentino Yeruham Scharovsky (1956-), em 1998; e pelo paulistano Roberto Minczuk (1967-), em 2005, que ocupou o cargo até 2011, quando assumiram os cariocas Fernando Bicudo (1946-) e Pablo Castellar ( 1976-). Desde 2015 a orquestra não tem regente titular (Revista Concerto, 1º de março de 2025).

Em 5 de outubro 1997, durante a missa campal feita pelo papa João Paulo II, no Rio de Janeiro, a OSB tocou Cidade Maravilhosa e foi acompanhada pelo coro de uma plateia de milhares de pessoas.

Em 1999, foi criada a Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem (Tribuna da Imprensa, 31 de agosto de 1999, primeira coluna).

No século XXI, a OSB se apresentou na abertura do Rock in Rio III, no Palco Mundo, para mais de 120 mil pessoas presencialmente, em 2001 (Youtube).

 

OSB na abertura do Rock in Rio, em 2001

OSB na abertura do Rock in Rio, em 2001

 

Neste mesmo ano, realizou uma turnê com concertos ao ar livre nas regiões norte e nordeste do Brasil. No ano seguinte, 2002, tornou-se parceira da Prefeitura do Rio de Janeiro que, em 2003, a convidou para ocupar a Cidade da Música, complexo cultural na Barra da Tijuca. Ainda em 2003, apresentou-se na celebração dos 10 anos da criação do grupo Afroreggae. Em 2006, a Vale juntou-se à Prefeitura do Rio como mantenedores das atividades da OSB. Em 29 de novembro de 2008, apresentou-se com o cantor e compositor Ivan Lins (1945-), na inauguração da 13ª Árvore de Natal, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Em 2009, nasceu a parceria entre a Fundação OSB e o BNDES.

Em 2010, a OSB celebrou seus 70 anos anos com uma série de eventos, dentre eles a reprise de seu primeiro concerto (Jornal do Brasil, 10 de março de 2010). Pelo Projeto Aquarius, apresentou um espetáculo para mais de 100 mil pessoas na Praia de Copacabana (O GLOBO, 29 de maio de 2010).

Os 80 anos da orquestra foram celebrados, em 2020, em plena pandemia do Covid-19. O plano inicial das comemorações previam uma temporada presencial com destaque para músicos brasileiros e música nacional, mas devido à pandemia a programação foi adaptada para o formato digital – concertos em vídeos foram divulgados nas redes sociais (Série Virtual OSB 80).

Algumas de suas séries e projetos criados pela OSB são: Série Vesperal (1977), Música pelo Brasil (1983), Os Pianistas (1991), Concertos Didáticos (1998), Orquestra Para Todos (2004), Série Safira (2007), Orquestra em Movimento (2016) e Conexões Musicais (2017)

Ao longo de sua história a OSB revelou diversos talentos, dentre eles o pianista Arthur Moreira Lima (1940 – 2024), o violinista Henrique Morelenbaum (1931 – 2022) e o pianista Nelson Freire (1944 – 2021), que estreou, com apenas 11 anos, à frente da orquestra nos Concertos para a Juventude, de 1956. Também revelou a pianista Cristina Ortiz (1950-), que venceu o concurso Jovens Solistas do programa Concertos para a Juventude, de 1961; e o violoncelista Antonio Meneses (1957 – 2024). Também recebeu estrelas internacionais como o maestro Kurt Masur (1927 – 2015), e os cantores Luciano Pavarottin(1935 – 2007), José Carreras (1946-) e Placido Domingo (1941-).

A partir do decreto municipal nº 48.727, 9 de abril de 2021, a Orquestra Sinfônica Brasileira passou a ser Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município do Rio de Janeiro

A OSB segue sua vocação democrática, educativa e de excelência artística na direção da popularização da música de concerto e na de transformação social por meio da música. Viva a cultura! Viva a Orquestra Sinfônica Brasileira! Vida longa à Orquestra Sinfônica Brasileira!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo de O GLOBO

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CORREA, Sergio Nepomuceno Alvim. Orquestra Sinfonica Brasileira 1940-2000. FUNARTE, 2004.

 Gazeta do Povo, 7 de abril de 2013

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Orquestra Sinfônica Brasileira 81 Anos 

Site Academia Brasileira de Música

Site Dicionário Cravo Alvim de Música Popular Brasileira

Site Eleazar de Carvalho

Site Orquestra Sinfônica Brasileira