No Dia do Ceará, fotografias de autoria de Miguel de Moura

Com imagens produzidas pelo fotógrafo cearense Miguel de Moura Cavalcante (1883 -19?), a Brasiliana Fotográfica celebra o Dia do Ceará, comemorado anualmente em 17 de janeiro. Foi estabelecido, em 18 de maio de 2004, pela Lei nº 13.470, passando a integrar o calendário de eventos oficiais do estado. Foi em 17 de janeiro de 1799 que o Ceará ganhou autonomia da Capitania de Pernambuco, tornando-se administrativamente independente. A emancipação foi realizada a partir de uma Carta Régia assinada pela rainha de Portugal, dona Maria I (1734-1816), e baseava-se no crescimento populacional e econômico do estado.

 

 

O fotógrafo e artista plástico Miguel de Moura Cavalcante, de quem se tem, até o momento, poucos dados biográficos, nasceu em Maranguape, em 27 de dezembro de 1883, segundo seu registro de batismo publicado no site Family Search.

Registro e batismo de Miguel e Moura / Site Family Search

Registro de batismo de Miguel de Moura / Site Family Search

 

Atuou no Ceará nas primeiras décadas do século XX e foi um dos precursores, no Brasil, na realização de fotomontagens de cunho alegórico com as imagens A Deusa das Flores e Imitação das Lutas Romanas que pertencem, assim como as outras destacadas neste artigo, à Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Miguel de Moura disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Foi um dos precursores da fotografia em Maranguape, onde era conhecido como Mourinha. Foi casado com Luiza Nogueira de Moura e seu estúdio fotográfico, inaugurado em 1911, ficava na casa onde moravam.

 

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Casa e estúdio de Miguel de Moura Cavalcante em Maranguape / Página no Instagram cafecomartempe

 

 

Sua filha, Lygia Nogueira Cavalcante (1918 -?), foi a primeira fotógrafa da cidade. Era também pianista e farmacêutica.

 

Lygia fotografada por seu pai, Miguel de Moura, s/d / Página no Instagramlygia.pesquia-e-memoria

Lygia fotografada por seu pai, Miguel de Moura, s/d /. Página no Instagram lygia.pesquisa_e_memoria

 

 

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Registro de batismo de Lygia Nogueira Cavalcante/ Site Family Search

 

Foi o idealizador do primeiro cinema da cidade, o Cinema Hermes, batizado em homenagem ao presidente da República Hermes da Fonseca (1855-1923), e inaugurado em 29 de junho de 1910 (Jornal do Ceará, 1° de julho de 1910, primeira coluna).

 

 

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Facebook – página de Marília Quinderé

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instagram – página lygia.pesquisa_e_memoria e caafecomartempe

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Family Search

Site Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará

SOUZA, Fabricia dos Santos. As nebulosidades imagéticas: representações do cotidiano quixadaense nas fotografias (1885-1930). Universidade Estadual do Ceará.

Série “Feministas, graças a Deus” XX – A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a “Eva Militante”

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante,  o 20° da série Feministas, graças a Deus!. Foi escrito pela historiadora Cibele Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco, uma das instituições parceiras do portal. Publicamos também uma breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira, escrita pela editora e pesquisadora do portal, Andrea C.T. Wanderley.

Edwiges de Sá Pereira tornou-se ainda jovem uma poetisa reconhecida nacionalmente, tendo suas poesias e artigos publicados em jornais e revistas do Brasil. Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, que com sua eleição tornou-se a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. Foi também presidente da Associação das Damas de Beneficência, a primeira presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso das Mulheres, integrante do Comitê Feminino da Maternidade do Recife, sócia colaboradora da Associação Pernambucana de Imprensa e professora da Escola Normal do Recife.

No artigo, estão destacadas duas imagens de Edwiges pertencentes ao acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas foram produzidas pelo fotógrafo Louis Piereck (1880-1931), que já foi tema de uma publicação da Brasiliana Fotográfica. A foto em que Edwiges está sem chapéu foi publicada na revista A Nota (PE), de 22 de maio de 1920 em uma matéria que a felicitava pelo ingresso na Academia Pernambucana de Letras. A imagem dela com chapéu é, conforme o verso da foto, de 29 de agosto de 1909, ano em que foi nomeada diretora da escola estadual da Boa Vista. Também no verso, consta que Edwiges  presenteou algum amigo ou amiga com a fotografia.

 

 

De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, Louis Piereck atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Considerado talentoso, Piereck tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante

Cibele Barbosa*

 

 

Edwiges de Sá Pereira foi uma mulher que não se conformou com as imposições de seu tempo. Nascida, em 1884, no município de Barreiros, estado de Pernambuco, a filha de José Bonifácio de Sá Pereira e de Maria Amélia Rocha de Sá Pereira, nutria, desde cedo, o interesse pelos livros. Conforme descreveu em suas notas autobiográficas, costumava ler escondido os livros dos irmãos mais velhos, em especial aqueles dedicados à poesia, que copiava e declamava em reuniões de família.

A menina que costumava dizer aos familiares que “haveria de ser poeta”, não tardou a cumprir seu intento. No início da adolescência, publicou um jornalzinho, o “Echo Juvenil”, juntamente com seu irmão Eugênio. Algum tempo depois, chegaram-lhe às mãos, pelos correios, exemplares do jornal O Paiz (RJ) com versos seus transcritos e apresentados pelo escritor Arthur Azevedo. A jovem poeta, do interior de Pernambuco, teve seu soneto “A uma estrela” reproduzido também na Revista do Brasil (SP), acompanhado de comentários entusiasmados de Cunha Mendes ao prenunciar que a menina se tornaria “a primeira poetisa do Brasil”.

Um ano antes de se mudar com sua família para o Recife, ainda vivendo na cidade de Barreiros, Edwiges teve seu primeiro livro publicado e prefaciado pelo jurista e poeta português Antônio de Souza Pinto, em 1901. A ideia de publicar os 51 versos da jovem escritora ocorreu-lhe quando estava de férias no interior e teve a oportunidade de ser apresentado aos poemas de Edwiges. Levou os manuscritos para a capital e os publicou com o título Campesinas.

Na edição de 17 de agosto de 1901, anunciava o Jornal Pequeno o recebimento do “mimoso livro” de Edwiges, impresso na forma de folheto, com 80 páginas. Ainda em 1901, fundou o pequeno jornal literário, o Azul e Ouro, com seu irmão Eugênio e seu amigo Caetano Andrade. Sua família se mudou para o Recife naquele período, após seu pai ter vendido o engenho na cidade de Barreiros para ocupar um cargo do governo do estado na capital pernambucana.

Já instalada na capital, Edwiges ingressou na Escola Normal para obter formação no magistério e tornar-se professora. Paralelamente aos estudos pedagógicos, a jovem participou ativamente da vida literária de seu tempo, contribuindo com seus escritos para jornais e revistas. Em 1902, colaborou com a Revista Pernambucana e foi convidada para ser uma das redatoras do jornal O Lyrio, formado somente por mulheres. Entre as companheiras da publicação estavam Amélia Beviláqua e Úrsula Garcia. Os textos desafiavam a rígida sociedade patriarcal da época refletindo sobre a importância da educação escolar e profissional para as mulheres, entre outras pautas como a equidade salarial. 

 

 

A partir de então, não parou mais, tendo sido convidada a ser sócia correspondente da recém-fundada Academia Pernambucana de Letras. Colaborou assiduamente em jornais como o Jornal Pequeno, do Recife, no qual foram publicados poemas seus inéditos e traduções de poetas como o simbolista Lorenzo Stecchetti, um dos pseudônimo do italiano Olindo Guerrini (1845-1916). Era sempre adjetivada por seus admiradores de “adorável”, “inteligente poetisa”.

Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, aliás a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. A normalista e poeta, defensora dos direitos das mulheres, ocupou a cadeira n.7 da APL, no lugar do acadêmico João Batista Regueira Costa, a quem dedicou o texto Um passado que não morre.

Em sua casa, na rua do Sossego, bairro da área central do Recife, Edwiges recebia convidados e declamava poemas em italiano, em especial os da poeta Ada Negri. Também nesse espaço eram comuns os encontros de mulheres que se dedicavam às causas da emancipação feminina.

Professora catedrática da Escola Normal, onde realizou sua formação como professora, Edwiges também atuou como professora de português no curso comercial do Colégio Eucarístico e assumiu a disciplina de História Geral e do Brasil no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Seu engajamento no campo da “instrução pública”, como se dizia à época, levou-lhe ao cargo de superintendente de ensino dos grupos escolares da capital pernambucana, cargo que lhe permitiu viajar para outros estados em eventos e oficinas ligadas à educação. O governo estadual chegou a publicar suas Impressões e notas (questões do ensino).

A participação ativa como educadora se alinhava às suas causas políticas. Para Edwiges era necessário que os governos investissem na educação das mulheres. Em 1931, participou do II Congresso Internacional Feminista, promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada por Bertha Luz, em 1922. Na ocasião, a escritora pernambucana apresentou o texto Pela mulher, para a mulher, publicado no ano seguinte. Em seu discurso, Edwiges exortava as mulheres de diferentes extratos sociais a se unirem para reivindicar direitos políticos e direito à educação.

Como consequência das articulações e redes que construiu no Rio de Janeiro, fundou, no mesmo ano, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). A primeira sessão da Federação Pernambucana teve participação de Odila Porto de Oliveira, representando a FBPF. Edwiges, presidente da filiada pernambucana, apresentou os projetos e propostas voltadas para “campanhas em prol dos direitos e demais interesses da mulher”. Na mesma ocasião, anunciou o projeto de um levantamento estatístico das “mulheres que exercem atividades no funcionalismo em Pernambuco, no comércio, no magistério”, de modo a subsidiar a criação de uma “Escola de Oportunidades”, ideia de Noemia Xavier, vice-presidente da Federação Pernambucana. A primeira ata foi assinada, em novembro de 1931, por 47 mulheres.

 

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Ata da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, 10 de novembro de 1931 / Acervo Fundaj

 

Nas eleições de 1933 para o parlamento, Edwiges, pelo Partido Economista, e a também escritora Martha de Hollanda, sem partido, foram as únicas mulheres a se candidatarem em Pernambuco. Apesar de não terem sido eleitas, deixaram sua marca na constituição do eleitorado feminino no Brasil.

Em 1947, Edwiges publicou a conferência “A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra”, na qual expôs os principais desafios do século XX e os impactos da catástrofe da II Guerra Mundial. Apontou retrocessos históricos, afirmando que a “questão feminista bem longe está do seu rumo necessário”.

 

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A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra, 1947 / Acervo Fundaj

 

A “Eva Militante”, como assim se nomeou em artigos de jornais nos anos de 1930, e “imortal” da Academia Pernambucana de Letras, deixou escritos de sua trajetória e projetos de futuro. Faleceu em 1958, aos 74 anos, com planos de publicar suas crônicas sociais, textos feministas e escritos poéticos. Horas Inúteis, livro de poemas, foi publicado postumamente.

 

*Cibele Barbosa é historiadora da Fundação Joaquim Nabuco.

 

Breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira (1884-1958)

Andrea C.T. Wanderley**

 

 

1884 - Em Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, nascimento, em 25 de outubro, de Isabel Edwiges de Sá Pereira, futura escritora, educadora, líder feminista e sufragista. Filha do barachel em Direito e senhor de engenho José Bonifácio de Sá Pereira (c.1831-1916) e da dona de casa Maria Amélia Rocha de Sá Pereira (18?-1915), pertencia à aristocracia latifundiária e letrada de Pernambuco. Era irmã dos advogados Virgílio e Manoel Arthur, do advogado e poeta Eugenio, o advogado e jornalista Eurico; e Érico, Nanette, Margarida, Fredovinda, Cândida, Adalgisa e Marieta.

1895 – Com apenas 11 anos de idade escreveu o poema Saudade, um dos seus primeiros textos de que se tem registro.

1886/1897 – Com seu irmão, Eugênio, criou o jornalzinho manuscrito Echo Juvenil, com pequenos textos e poesias, que circulava entre os seus familiares.

1897 - Algumas de suas poesias que se encontravam no Echo Juvenil foram publicadas no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, com apresentação do jornalista, escritor e dramaturgoArtur Azevedo (1855-1908) (O Paiz, 7 e agosto de 1897, primeira coluna).

A revista A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, foi criticada por não ter incluído Edwiges e outras escritoras no artigo de fundo de sua primeira edição. Era dirigida pela poetisa e feminista mineira Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944) (Revista do Brazil, setembro de 1897).

 

 

Seu poema Primaveras foi publicado (Revista do Brazil, 30 de novembro de 1897).

Publicação de seu poema A jurity ao beija-flores (Revista do Brazil, 30 de dezembro de 1897).

1898 – Algumas poesias de sua autoria foram publicadas na Revista do Brazil (Correio Paulistano, 8 de janeiro de 1898, terceira coluna).

Publicação de um soneto de sua autoria no Jornal do Recife, de 24 de maio de 1898.

 

1899 – Na revista Mensageira, n° 26, publicação de poesias de Edwiges (A Meridional, 1899).

Publicação de suas poesias SimileScenas Simples, na Revista do Rio Grande do Norte, outubro de 1899.

 

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1900 – Publicação de seu poema A Cigana, dedicado a Auta de Souza (A Província, 25 de setembro de 1900, terceira coluna).

1901 – Publicação de Campesinas, seu primeiro livro, com 51 poemas, prefaciado pelo jurista e poeta Antonio Souza Pinto (18-19), entusiasta da publicação. Ele havia conhecido Edwiges em uma viagem que fez a Barreiros (Almanaque do Garnier, 1903). Ofereceu um exemplar do livro à Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 17 de setembro de 1901, sexta coluna).

 

 

A obra recebeu boas críticas no Recife. Alguns de seus poemas foram:

Meu livro

Perdoa-me se um dia, Tuas nevadas folhas descerrando, Alguém, meu fraco mérito acusando, De ti chasqueie e ria, Não te escrevi, meu livro, para os sábios, Para os sábios, bem sei que tu não prestas… Tinha minh’alma em festas E um riso alegre a me enfeitar os lábios, E antes que me viessem vis ressábios A alegria turvar de minha vida, Eu quis cantar e essas canções modestas Fui tirando da lira estremecida. Tudo quanto da vida eu penso, e via Nos meus sonhos gentis e soberanos, Tudo quanto me enleva a fantasia – Canto na lira azul dos verdes anos!

Barreiros,1900.

No lar

À minha irmã Margarida

Ri-se na sala a trêfega criança, Como a enxotar a mágoa que domina A natureza, quando o sol declina Para o ocaso feliz onde descansa… Na estofada cadeira se embalança Uma jovem mulher, e a fronte inclina Para beijar a filha pequenina, De sua vida a lúcida esperança. Reflete o espelho a serpentina acesa, À luz da qual uma velhinha reza, E eu vejo a fé impressa no seu rosto… Basta em todas as casas esta cena, Assim tão meiga, plácida e serena, Para alegrar as horas do sol posto.

Barreiros, 1898.

Dor suprema

Pranto supremo, pranto dolorido, Companheiro da dor, pranto pungente Dize-me tu, que tornas comovente O suspirar de um coração ferido. Dize-me tu que já de toda a gente Ouviste o peito a soluçar dorido. Sim! Tu que és sempre o intérprete escolhido De quem os golpes do infortúnio sente: Dize-me tu se por acaso existe Dor tão cruenta, padecer tão triste Como de um’alma as duras aflições, Ao ver cortando a vastidão imensa Da região sombria da descrença O bando das primeiras ilusões.

Barreiros, 1900

A uma estrela

Áquela estrêla que acompanha a lua / Eu, curiosa perguntei um dia: / – Qual de vós vale mais, a que flutua / No céu azul da minha fantasia, // Ou tu que, no correr da noite fria, / Erras no céu assim, pálida e nua, / Das esferas ouvindo essa harmonia / Que, até ouvi-la o velho mar estua? // E a clara estrêla disse-me: “Criança, / Quando fanada a última esperança, / A alma ficar-te de ilusão vazia. // Inda hás de verme fulgurar, divina; / Mas, onde encontrarás a que ilumina / O céu azul da tua fantasia”?

       Desolada   

A meu Pai

Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde reza uma oração, fitando O vulto de Maria no sacrário. Dos belos olhos seus vem deslisando Um rosário de lágrimas ardentes, Que se lhe vai no colo desmanchando. Na posição dos pobres penitentes – Joelhos em terra, mãos entrelaçadas – Envia à Virgem súplicas ferventes. De pungente amargura repassadas São as frases que, triste, balbucia Com o fervor das almas desoladas. Pede à clemente e divinal Maria – Testemunha da dor que a dilacera – O bálsamo que as mágoas alivia. Suplica, reza e, soluçando, espera – Fitando sempre o casto santuário – A proteção da santa que venera. Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde pensa que tardar não deve O remédio que abrande o seu fadário… Beija a cruz do rosário, e não se atreve, Não faz o mesmo à cruz que lhe foi dada… Acha a que tem na mão pequena e leve, E a que carrega por demais pesada!

Barreiros, 1896

Madrigais

A Hortência

Para enfeitar o céu – quantas estrelas E tu, melhor do que elas Brilham de noite, apenas, no infinito Brilhas a qualquer hora aqui na terra! É que o intenso fulgor Do astro mais esplendente e mais bonito Tens nos olhos, ó flor, (mago espelho de uma alma sem refolhos!) Si eu fosse estrela, inda que fosse Vênus, Teria inveja de teus lindos olhos!

Musa sensível

Seja teu coração bondoso e terno Sensível para o riso e para o luto! O mundo chora e ri, e eu vejo e escuto, Que se às vezes é céu, outras é inferno! Se eu te visse assistir de olhar enxuto Desta vida que passa ao drama eterno, E, a um mesmo gesto, único e supremo, Confundir o que é bom e o que é poluto; Se eu te visse impassível e serena Ante o bem, ante o mal, de que deriva Ora o gozo, ora a mágoa que envenena, Eu que tanto te estimo e te respeito, Musa, sentirá a dor pungente e viva De extinguir -se teu culto no meu peito!

Eduardo de Carvalho (18?-19?), membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras, fundada em 26 de janeiro deste ano por iniciativa de Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913) e de um grupo de 19 escritores pernambucanos, fez uma bela crítica ao seu livro e a convidou para ser sócia correspondente da instituição. A Academia Pernambucana de Letras foi a quarta do Brasil, tendo sido precedida pela Academia Cearense de Letras, fundada, em 1894;  pela Academia Brasileira de Letras, fundada no Rio de Janeiro, em 1897; e pela Academia Paraense de Letras, fundada em 1900.

Edwiges colaborava com diversos jornais no país, dentre eles, O Norte (RJ) e o Escrutínio (RS), e com revistas, como a Revista Feminina (SP).

Publicação de seu poema Maria Amelia (Almanach de Pernambuco, ).

Era uma das redatoras da revista Azul e Ouro, órgão literário da Oficina Martins Junior, da qual era sócia honorária correspondente. A Oficina havia sido fundada em 1900 (Revista do Brazil, 1901).

Em fins deste ano, seu pai vendeu o engenho em Barreiros e foi morar com sua família no Recife, onde passou a trabalhar para o governo do Estado.

1902 - Edwiges, Adalgisa Duarte Ribeiro, Amélia Freitas Bevilacqua, Belmira Villarim, Cândida Duarte Barros, Luiza Ramalho e Maria Augusta Freire fundaram revista O Lyrio, cujo primeiro exemplar foi lançado em 5 de novembro. Em várias de suas 20 edições, abordava a importância da educação da mulher e a pouca atenção dos governantes em relação à instrução feminina. A publicação, encerrada em junho de 1904, foi importante para a difusão do ideário feminista baseado na educação como o único caminho para a emancipação da mulher. A Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, possui sete exemplares da revista armazenados na Divisão de Obras Raras e na Coordenadoria de Publicações Seriadas (Diário de Pernambuco, 10 de outubro de 1902, última coluna).

“Escrita somente por mulheres tem como redatora-chefe D. Amelia de Freitas Bevilaqua e como redatora-secretária D. Candida Duarte Barros. Participavam da redação as sras. Adalgisa Duarte Ribeiro, Belmira Villarim, Edwiges de Sá Pereira, Luiza Cintra Ramalho, Maria Augusta Freire  e Ursula Garcia. Impresso pela Emp. d’A Província, com exceção do primeiro exemplar, que foi na Imprensa Industrial. Na última página de cada exemplar encontra-se a informação de que “toda correspondência deve ser dirigida para rua do Lima, n.54, residência da Redactora-Secretaria”, e o valor da revista: número avulso custava 1$000 e a assinatura trimestral era de 2$000″.

BNDigital

 

Alguns de seus poemas publicados em O Lyrio foram Simile (n°1, novembro de 1902), dedicado a sua mãe; Paisagem (n°2, dezembro de 1902), Auta de Souza e  Esther (n°4, fevereiro de 1903)Olhos Verdes (nº 5, março de 1903); A um raio de sol (nº 6, abril de 1903); O Malmequer (nº 7, maio de 1903), e Miss (n°13 e 14, novembro e dezembro de 1903).

 

Olhos Verdes

Teus olhos verdes eu fito
Mas logo depois não sei
Se foi do excelso infinito
Divina estrella que olhei.

É que teu olhar encerra
Tanta graça e tanta luz
Que eu penso não ser da terra
O brilho que me seduz!…

Teus olhos, flor adorada,
São de um poder soberano:
E a gente os fita enlevada
Qual se contemplasse o oceano…

Não é que nelles escondas
Essa perola do mar,
Mas toda a attração das ondas
Tu tens guardada no olhar!

Eu nesse olhar adivinho
– Como a chimera vagueia! –
Candura de passarinho
Fascinação de sereia!…

O canto sonho do poeta
Nas noites claras de lua,
Semelha a chamma dilecta
Que nos teus olhos fluctua…

Formosa é sempre a esperança,
Pois vês teus olhos querida,
Têm a cor desta ave mansa
Que tece os sonhos da vida!…

Se pudessem teus olhares
Ver toda a immensa amargura
Do mundo eu via os pesares
Transformados em ventura…

Das almas tristes chorosas,
O pranto num doce riso,
A vida – num mar de rosas,
A terra num paraíso!…

 

Era considerada uma charadista (Almanach de Pernambuco, 1902).

Era uma das redatoras da Revista Pernambucana, que existiu entre 1902 e 1904 (Gazeta de Notícias, 26 de dezembro de 1902, sexta coluna).

1903 – Estudava na Escola Normal, onde se formou como professora, em 1905.

Publicação de seu poema Março (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Publicação de seu poema No camarim (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Seguia colaborando com a  Revista Pernambucana (Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1902, quinta coluna).

1904 - Foi eleita vice-presidente do clube literário Olintho Victor, fundado por estudantes da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1904, sétima coluna).

Seus poemas estavam presentes na publicação Sonetos brasileiros, editada por Laudelino Freire (1873-1937) (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1904, quarta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1904).

Ofertou livros à Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1904, sexta coluna).

Foi publicada uma foto de Edwiges no Almanach de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 10 de agosto de 1904, segunda coluna).

Foi a oradora na cerimônia de bênção do estandarte do corpo discente da Escola Normal, realizada na Ordem 3ª de São Francisco (Jornal Pequeno, 24 de setembro de 1904, segunda coluna).

Foi anunciado que a Oficina Martins Junior, que já existia desde 1900 e que em 1901 elegeu a revista Azul e Ouro como seu órgão literário, seria reconstituída em 2 de outubro, em uma sessão no Instituto Arqueológico Pernambucano. Em 1901, Edwiges havia se tornado sócia honorária correspondente da Oficina, mas na reorganização da agremiação tornou-se efetiva (Jornal do Recife, 11 de setembro de 1900, primeira coluna; Jornal do Recife, 2 de abril de 1901, penúltima colunaDiário de Pernambuco, 29 de setembro de 1904, segunda coluna; Jornal do Recife, 2 de outubro de 1904, última coluna).

Foi aceita como sócia honorária do Grêmio Literário Pantheon de Lettras (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1904, penúltima coluna).

Fez um discurso como representante do segundo ano da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1904, primeira coluna).

1905 – Na Revista Pernambucana, publicação de seu poema Amor (A Província (PE), 15 de fevereiro de 1905, quinta coluna).

Foi eleita presidente do Clube Literário Olintho Victor (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1905, primeira coluna).

Formou-se na Escola Normal (Diário de Pernambuco, 27 de outubro de 1905, quinta coluna). Em 19 de outubro, foi promovida a festa da Escola Normal das formandas de 1905 e Edwiges foi a oradora do evento (Almanach de Pernambuco, 1911).

A letra do hino da Escola Normal era de sua autoria (Diário de Pernambuco, 28 de novembro de 1905, sexta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1905).

1907 –  Publicação de seu poema Desolação (Almanach de Pernambuco1907).

Na rua da Aurora, n° 123, foram realizados os exames da escola particular mista presidida por Edwiges (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1907, quarta coluna).

Angariou fundos para a construção de uma estátua em homenagem ao poeta, professor e jurista Martins Junior (1860-1904) (Jornal do Recife, 26 de junho de 1907, última coluna).

Foi uma das colaboradoras da terceira edição de novembro/dezembro da revista Polyantho, sob a direção de Martins Filho (Jornal do Recife, 4 de janeiro de 1908, sexta coluna).

1908 - Publicação de seu poema Aves Libertas, dedicado a Aurea Jacome (Jornal do Recife, 1° de abril de 1908, última coluna).

Assumiu o cargo de professora primária do Estado de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1908, segunda coluna). Durante sua carreira no magistério lecionou Prática Didática e Pedagogia. Também foi professora de Português do curso Comercial do Colégio Eucarístico. Depois tornou-se catedrática da Escola Normal e mestra da cadeira de História Geral e do Brasil, do Instituto Nossa Senhora do Carmo. Posteriormente foi superintendente do Ensino nos Grupos Escolares do Recife.

Foi publicado um poema de sua autoria acerca da esperança (Diário de Pernambuco, 19 de fevereiro de 1908, última coluna).

1909 – Foi nomeada diretora da Escola Estadual da Boa Vista. No fim do ano, foi realizada na escola uma festa magnífica (Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1909, terceira coluna; Jornal do Recife, 7 de dezembro de 1909, sexta coluna).

Publicação de seu poema Maio (Jornal Pequeno, 7 de maio de 1909, terceira coluna).

Publicação de seu soneto O Violino.

“Magno instrumento a tua voz parece / A voz do coração que á gente fala: – / Ninguem te ouvindo o seu pezar esquece, / Ninguem te ouvindo os seus sorrisos cala… // Quando, ou tranqüilo e doce como aparece / Ou presto e alegre um som de ti revela, / – Queixa de quem magoas de amor padece / Canto de quem feliz amor propala, // O sêr que bebe o influxo soberano / Das emoções diversas de teu peito / Que pulsa e vibra como o peito humano, // Presa de enleio e de fascinação / Pensa um momento que tu foste feito / Das próprias cordas do seu coração…”

A “Secção Chic” do Jornal Pequeno foi aberta com a publicação do poema Inverno, de sua autoria (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1909, terceira coluna).
Foi elogiada em um artigo de Adelmar Tavares (1888-1963) (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1909, primeira coluna).
Foi noticiado que Edwiges havia enviado ao Jornal Pequeno belíssimos escritos para a Secção Chic do periódico sob o pseudônimo de Jessie Yorke. Foi descoberta e como artigo editorial foi publicado na primeira página do jornal o artigo Triste, de sua autoria (Jornal Pequeno, 16 de outubro de 1909, primeira coluna)
Após a palestra Trovas e trovadores proferida por Ademar Tavares, na Sexta Conferência Literária realizada pela Academia dos Nullos, uma associação de jovens acadêmicos, Edwiges ofereceu-lhe flores (Jornal Pequeno, 4 de outubro de 1909, segunda coluna).

Participou da organização de uma quermesse que seria realizada em 16 de janeiro de 1910 em benefício do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (A Província, 21 de dezembro de 1909, terceira coluna).

1910 - Publicação de uma fotografia de Edwiges no Almanach Literário Pernambucano (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1910, terceira coluna).

Ao longo do ano, publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria ManiasSombras, Não sei…, A esmo, O Lenço Azul, O Ensino ProfissionalPela infância; Sol Posto, Tradições, Fazer o bem, Grandes e pequenos, O Signal, Educação e Noite de Natal (Jornal Pequeno, 15 de janeiro de 1910, 22 de janeiro de 1910, 29 de janeiro de 1910, 5 de fevereiro de 1910, 12 de fevereiro de 1910, 19 de fevereiro, 5 de março de 1910, 12 de março de 1910, 2 de abril de 1910, 9 de abril de 191030 de abril de 1910, 7 de maio de 1910, 21 de maio de 1910 e 24 de dezembro de 1910).

O poema Vagando, assinado por Cecy, foi dedicado a ela (Jornal Pequeno, 5 de março de 1910, penúltima coluna).

Viajou para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 27 de maio de 1910, última coluna). Durante sua estadia, fez uma visita à Escola Normal (O Paiz, 16 de julho de 1910, última coluna). Em uma de suas colunas, a escritora e feminista Julia Lopes de Almeida (1862-1934) comentou a viagem de Edwiges (O Paiz, 1º de novembro de 1910, segunda coluna).

Publicação de seu poema Amor (Jornal Pequeno, 28 de maio de 1910).

Para tratar de sua saúde, licenciou-se do magistério (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1910, penúltima coluna).

Publicação de Nedda, de sua autoria (A República, 29 de outubro de 1910, quarta coluna).

1911 - Publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria Anno Bom, Pelo ensino, Ferri e Gaffre 1, Ferri e Gaffre 2, Ferri e Gaffre 3, Selma, Cortezias, Epistolar, Um livro novo, Mal entendido, A Chronica, Horas mysticas (Jornal Pequeno2 de janeiro de 1911, 14 de janeiro de 1911, 21 de janeiro de 1911, 28 de janeiro de 1911, 4 de fevereiro de 1911, 25 de fevereiro de 1911, 4 de março de 1911, 11 de março de 1911, 18 de março de 1911, 1º de abril de 1911, 8 de abril de 1911, 22 de abril de 1911,

Um artigo de sua autoria sobre as escolas brasileiras publicado no Jornal Pequeno foi citado na coluna “Dois dedos de prosa”, da escritora Julia Lopes de Almeida (O Paiz, 24 de janeiro de 1911, segunda coluna).

Publicação de seu poema Horas mysticas, na revista Santa Cruz (Correio Paulistano, 11 de junho de 1911, primeira coluna).

Integrava a Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 19 de outubro de 1911, terceira coluna).

1912 – Publicação de seu poema Aves e Coração (Almanak Henault, 1912/1913).

No artigo Um Protesto, foi mencionado que Edwiges teve a satisfação de ver traduzida em francês numa revista de Estocolmo uma de suas produções do Lyrio, acompanhada de lisongeiros conceitos do grande literato Pythion de Villar e a propósito de quem o ilustrado dr. Julio Pires, por aquele tempo do Lyrio, escreveu em seu Almanak: “discípula que honra o mestre” (Jornal Pequeno, 6 de fevereriro de 1912, segunda coluna).

Publicação de seu poema De Volta, dedicado a Mlle. Maria Estevan (Almanach de Pernambuco, 1912). Na mesma edição, escreveu o artigo D. Julia Lopes de Almeida, homenageando a escritora, a quem havia visitado no Rio de Janeiro (Almanach de Pernambuco, 1912).

Foi a oradora oficial da homenagem prestada pela mulher pernambucana, um concerto realizado em 13 de janeiro, no Theatro de Santa Isabel, ao general Dantas Barreto (1850-1931), governador de Pernambuco, em protesto por sua eliminação do número dos associados da Associação de Imprensa (Jornal do Recife, 9 de abril de 1912, quinta coluna).

 

 

Publicação de seu poema Maguas (A Faceira, agosto de 1912).

1913 – Publicação de seu poema À Florisa (Sciencias e Letras, fevereiro de 1912 a fevereiro de 1913).

Foi eleita a primeira presidente da Associação das Damas de Beneficência. Já fazia parte da diretoria do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (Jornal do Recife, 28 de janeiro de 1913, quarta coluna).

Publicação do artigo Pro-Parvulos Carta Aberta e Francisca Izidora, de sua autoria (Jornal Pequeno, 21 de junho de 1913, primeira coluna; Jornal Pequeno, 30 de agosto de 1913, primeira coluna).

No Instituto de Proteção e Assistência à Infância, foi promovido pelas Damas de Beneficência, sob a presidência de Edwiges, uma festa de Natal (Jornal Pequeno, 26 de dezembro de 1913, primeira coluna).

1914 - Publicação de seu poema No camarim (Jornal Pequeno, 28 de abril de 1914).

Estava inscrita, assim como Assis Chateaubriand (1892-1968) e outros, como colaboradora do recém criado vespertino A Tarde, em Pernambuco (O Paiz, 7 de junho de 1914, quinta coluna).

Foi aceita como membro efetiva do Instituto Arqueológico de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1914, terceira coluna).

Foi citada como uma das grandes poetisas brasileiras pelo palestrante Leal de Souza, secretário da redação da revista Careta, na 3ª conferência de uma série organizada por um grupo de literatos, no salão nobre do (Jornal do Commercio, 26 de agosto de 1914, última coluna).

Publicação de seu poema Natal na Aldeia (Às moças de minha aldeia natal) (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1914).

1915 - Falecimento de sua mãe, Maria Amélia Rocha de Sá Pereirra (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1915).

1916 - Seu pai, José Bonifácio de Sá Pereira, foi atropelado por um carro elétrico e faleceu (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1916, sexta coluna).

Publicação do artigo A Romã, de sua autoria (Jornal Pequeno, 30 de dezembro de 1916, primeira coluna).

1917 – Publicação do artigo Trabalho Feminino, de sua autoria, em que aborda a questão da admissibilidade da mulher trabalhar fora de casa (Sciencias e Letras, abril de 1917).

Publicação de seu poema De Volta (O Jornal (MA), 9 de outubro de 1917, primeira coluna).

O Jornal do Recife organizou o evento A Primeira Hora Literária Feminina e Edwiges foi a vencedora do Torneio Literário (Revista Feminina (SP), ano 4, n° 34, 1917).

1918 – Publicação em duas partes do artigo A Escola Moderna, de sua autoria, onde discute as noções da pedagogia (A Escola Primária, 1º de janeiro de 1918 e 1º de fevereiro de 1918).

Escreve para o periódico O Ratazana.

Seus versos eram vendidos em algumas lojas do Recife (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1918, primeira coluna).

Estava licenciada do magistério (Jornal do Recife, 5 de outubro de 1918, primeira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eugênio de Sá Pereira (Jornal do Commercio, 27 de novembro de 1918, segunda coluna).

1919 - Foi citada como exemplo de uma mulher inteligente na seção “Cartas de Mulher”, da revista Vida Moderna, em uma mensagem que contestava o conceito de Schopenhauer sobre as mulheres (Vida Moderna (PE), 22 de março de 1919, última coluna).

1920 – Ao longo dos anos 1920, se correspondeu com feministas do sudeste do Brasil.

Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e era também professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1921, primeira e segunda coluna).

Em 10 de abril, foi eleita membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras e tomou posse em 13 de maio, tornando-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo de uma Academia de Letras no Brasil, antecedendo, em 57 anos, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) que, em 4 de novembro de 1977, tornou-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo da Academia Brasileira de Letras (Diário de Pernambuco, 11 de abril de 1920, quarta coluna; A Nota, 22 de maio de 1920). A foto abaixo é de autoria do fotógrafo Louis Piereck.

 

 

Edwiges substituiu João Baptista Regueira Costa (1845-1915), na Cadeira de nº 7, cujo patrono é Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804-1968). A cerimônia de posse aconteceu na Câmara dos Deputados do Recife. Os outros membros empossados foram Antônio Andrade Bezerra (1889-1946), José Gonçalves Maia (1866-19?), Mario Carneiro do Rego Melo (1884-1959), Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e Zeferino Galvão (1864-1924). Faltaram à cerimônia, com motivo justificado, os novos acadêmicos Arthur Muniz (1896-1924), Antônio Andrade Bezerra (1889-1946) e João Barreto de Menezes (1872-1950) (Diário de Pernambuco, 14 de maio de 1920). O evento foi aberto por Samuel Martins (1862-1930), presidente da Academia Pernambucana de Letras, que exaltou Pernambuco como o berço da evolução literária brasileira. Em seguida, o acadêmico Luis de França Pereira (1870-1925) falou sobre a importância da Academia Pernambucana de Letras, das tradições de Pernambuco e saudou os novos imortais. Sobre Edwiges, falou:

“Edwiges de Sá Pereira, que como Sapho dedilha à lira de ouro as queixas mudas do coração humano…Será esta, penso, a primeira das actuaes Academias de Lettras do paiz a admitir uma senhora em seu seio. A casa de Bento Teixeira Pinto quiz ter a primazia neste acto de justiça aos vossos dotes de espirito. Mademoselle Edwiges. E é da tradicional galanteria pernambucana alliar a cooperação da Mulher a todas as nossas affirmações de Energia como a todas as nossas manifestações de Arte”.

Oliveira Lima, um dos novos imortais, falou em nome deles, agradecendo à Academia Pernambucana de Letras e traçou um perfil sobre si e sobre os demais empossados. Em seu discurso, valorizou a entrada de uma mulher na Academia e falou sobre Edwiges:

“Escolhestes a sra. d. Edwiges de Sá Pereira e com esta escolha destes as outras academias do Brazil um exemplo a que a Academia Brasileira ainda não afoitara. As produções poeticas e pedagogicas da nossa consocia justificam de certo vosso acto, mas não deixa ella de ser uma innovação. Devemos todos agradecer a sra. d. Edwiges de Sá Pereira o ter proporcionado a esta Academia o ensejo de tão depressa entrar na nova corrente de idéas, admittindo no seu gremio uma representante da intellectualidade pernambucana”.

 

 

Publicação do artigo Poesia e Moda, de sua autoria (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1920, primeira coluna).

É nomeada professora para a cadeira primária feminina da Escola Normal de Pernambuco (A Província (PE), 27 de junho de 1920, primeira coluna).

O escritor e acadêmico Artur Muniz (1870-1924) dedicou a ela o artigo Página de Saudade (A Província (PE), 14 de outubro de 1920, quinta coluna).

Publicação do artigo Natal, de sua autoria (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1920, última coluna).

1921 – Escreve para a revista A Nota e para a revista do Instituto da Sociedade de Letras de Pernambuco.

 

 

Publicação do artigo Um livro bom, de sua autoria (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1921, primeira coluna).

1922 - Publicação de seu poema Abril (Almanach de Pernambuco, 1922).

Foi a letrista do hino Pernambuco à independência com música de Maria do Carmo Santos Barbosa. Foi cantado na comemoração do centenário da Independência do Brasil, realizado no Theatro de Santa Izabel (Diário de Pernambuco,13 de julho de 1922, penúltima coluna).

Escreveu um artigo sobre a exposição da pintora Georgina Barbosa Vianna (18?-1961) (Jornal Pequeno, 22 de julho de 1922, primeira coluna).

Na Revista do Instituto de Sciências, publicação do soneto Pernambuco, de sua autoria (A Província (PE), 14 de novembro de 1922, quarta coluna).

Publicação de uma carta que Antônio Carneiro Leão (1887-1996), diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, havia enviado a Edwiges, sobre o livro Educação, de autoria dela (Jornal Pequeno, 1º de dezembro de 1922, penúltima coluna).

Participou, em dezembro, no Rio de Janeiro, do I Congresso Internacional Feminista ou 1ª Conferência pelo Progresso Feminino, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 9 de agosto de 1922 e presidida por Bertha Lutz (1894-1976).

1923 – Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1924).

Publicação de seu poema Avatari, dedicado a Julio Pires (Jornal Pequeno, 21 de fevereiro de 1923, quinta coluna).

1924 – Publicação de seu poema Contraste (Almanach de Pernambuco, 1924).

Foi eleita para integrar a comissão fiscal da Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1924, quarta coluna).

Foi concedida a ela uma licença de três meses para tratamento de saúde (Jornal do Recife, 16 de março de 1924, terceira coluna).

Fazia parte da comissão de Literatura da organização das festividades em torno da chegada do navio Italia ao Recife (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1924, quinta coluna).

Colaborou na revista mensal Nação Brasileira, dirigida por Evaristo de Moraes e Alfredo Horcades (O Paiz, 14 de junho de 1924, quarta coluna).

Publicação do artigo A prioridade de Pernambuco nas ideias liberais, de autoria de Edwiges (Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1924, quarta coluna).

Em maio, o governador de Pernambuco, Sergio Teixeira Lins de Barros Loreto (1867-1913), a encarregou para a realização de um estudo acerca da organização e funcionamento do ensino técnico e profissional em Pernambuco e em outros estados do país. Com esse fim, Edwiges partiu para o Rio Grande do Norte e proferiu uma palestra. Foi apoiada pelo governador José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) (Jornal do Recife, 11 de maio de 1924, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1924, penúltima coluna; 30 de julho de 1924, quarta coluna).

Seguiu para o Rio de Janeiro e para São Paulo para continuar seus estudos sobre a organização das escolas domésticas e das escolas profissionais (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1924, quarta coluna; A Província (PE), 27 de agosto de 1924, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, acompanhada por Antônio Carneiro Leão, diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, visitou escolas rurais. Também fez uma visita à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e encontrou-se com a presidente da entidade, Bertha Lutz, e esteve na Liga dos Professores, onde fez uma palestra. Foi visitada por membros do Centro Pernambucano sediado no Rio de Janeiro. Na Escola Nilo Peçanha foi homenageada com uma festa em comemoração à entrada da Primavera (Jornal do Brasil, 20 de setembro de 1924 e 25 de setembro de 1924O Paiz, 28 de setembro de 1924, sexta coluna; Jornal do Recife, 16 de dezembro de 1924, penúltima coluna; Jornal do Brasil, 17 de dezembro de 1924, sexta coluna).

 

 

Foi recebida em São Paulo com um chá oferecido na Liga das Senhoras Católicas (A Noite, 14 de outubro de 1924, quinta coluna; A Cigarra, 15 de novembro de 1924Diário de Pernambuco, 21 de novembro de 1924, segunda coluna).

Publicação e uma foto e Edwiges com o artigo de sua autoria, intitulado O Violão – ouvindo Josephina Robledo (Brasil Social, 1° de dezembro de 1924).

 

 

1925 - Publicação do artigo Sobre o Ensino Público no Brasil – impressões de uma educadora pernambucana, de sua autoria (Educação, janeiro de 1925).

Publicação de seu artigo Pelo ensino, na revista Brasil Social, dirigido por P.A. Soares (Brasil Social, 1º de janeiro de 1925).

Retornou de sua viagem ao Sul do Brasil onde esteve em comissão do governo estadual. Ao final do trabalho acerca da situação da educação no país, entregou ao governador um minucioso relatório, o qual, um ano depois, foi publicado com o título de Impressões e Notas (Jornal do Brasil, 14 de janeiro de 1925, quarta colunaDiário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1925, terceira coluna).

Publicação de seu artigo, A Mulher pernambucana (Diário de Pernambuco, 7 de novembro de 1925).

Escrevia para o periódico Vida Feminina.

1926 - Publicação de um artigo acerca do trabalho realizado por Edwiges em comissão do governo de Pernambuco sobre as escolas domésticas e as escolas profissionais do Brasil (Jornal Pequeno, 18 de maio de 1926, última coluna)

Publicação de um artigo de sua autoria sobre a declamadora Angela Vargas (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1926, primeira coluna).

1927 – Era catedrática da Escola Normal e foi a letrista do hino comemorativo do centenário do Ensino Primário no Brasil – foi musicado pela professora Maria do Carmo Santos Barbosa. O hino foi cantado durante uma sessão magna realizada no Theatro de Santa Isabel e presidida pelo governador Estácio Coimbra (1872-1937) em comemoração à efeméride (Jornal do Recife, 15 de outubro de 1927, primeira coluna; O Paiz, 29 de outubro de 1927, última coluna).

Visitou a redação do Jornal do Recife com a poetisa potiguar Palmyra Wanderley (1894-1978) que iria ler, no dia 10 de dezembro, na Academia Pernambucana de Letras, versos de seu livro Roseira Brava (Jornal do Recife, 2 de dezembro de 1927, quarta coluna).

 

 

1928 - Foi publicada uma declaração de Edwiges sobre a Academia Pernambucana de Letras, integrando a série de reportagens A casa de Bento Teyxeyra Pinto (Diário da Manhã (PE), 22 de janeiro de 1928).

 

 

Foi entrevistada sobre a questão do voto feminino (Diário da Manhã, 28 de março de 1928, sexta coluna).

1929 – Foi eleita a oradora da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1929, última coluna).

Assinou um artigo sobre o feminismo publicado na revista A dona de casa, dirigida por Cândida de Brito (Jornal do Brasil, 22 de março de 1929, terceira coluna).

Na Revista da Academia Pernambucana de Letras, publicação de um artigo de Edwiges (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1929, segunda coluna).

1931 - Em junho, ela, a médica Paulina Waisman e a pintora Georgina Barbosa Vianna participaram como delegadas de Pernambuco do II Congresso Internacional Feminista, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, entre 20 e 30 de junho. Edwiges e Georgina chegaram à cidade no dia 18, a bordo do navio Raul Soares. Foram recebidas por representantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, presidido por Bertha Lutz, e da União Universitária Feminina, presidida por Carmen Portinho (1903-2001). Na época, Edwiges era professora de português e história, na Escola Normal do Recife, além de vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Correio da Manhã, 19 de junho de 1931, primeira coluna).

Os temas do evento foram educação feminina, proteção às mães e à infância, trabalho feminino, direitos das mulheres e estreitamento das relações pan-americanas e internacionais (Correio da Manhã, 5 de março de 1931, primeira colunaJornal do Brasil, 19 de junho de 1931O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira coluna; Diário de Notícias, 20 de junho de 1931Correio da Manhã, 26 de junho de 1931O Malho, 27 de junho de 1931;  Revista da Semana, 27 de junho de 1931 Correio da Manhã, 1º de julho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931).

Destacam-se aqui as delegadas das representações estaduais: Amazonas – Emilia Galvão e Cassilda Araujo Lima; Pará – Marina Lamarão Cardoso, Noemia de Rego Lins, Glória Silva e Maria Aurora Pegado Beltrão; Maranhão – Mariana Gurjão, Cristina Vinhais; Piauí – Nazareth Pires Ferreira; Ceará – Henriqueta Galena, Adilia Moraes e Carmem Castelo Branco; Rio Grande do Norte – Maria Eugenia Celso e Julia de Medeiros; Paraíba do Norte – Rosalina Coelho Lisboa; Pernambuco – Edwiges de Sá Pereira, Georgina Barbosa Vianna e Paulina Waismann; Alagoas – Almerinda Farias Gama; Sergipe – Sra. Maria Rita Soares de Andrade, Carlota Camargo do Nascimento; Bahia – Edith Mendes da Gama e Abreu, dra. Hermelinda Paes, Lili Tosta, dra. Francisca Praguer Froés, Alice Kelsche de Aguiar, Celeste Cerqueira; Espírito Santo – Anna Borges Ferreira; Estado do Rio de Janeiro – Antonieta de Souza Braga, Murilla Torres, Yolanda Torres, Dulce Horta Esteves Lagoeira, Maria Rosa Ribeiro; Estado de São Paulo – Helena Gordo; Julia Algodoal, Clotilde Kleber, dr. Horácio Silveira, Alice de Toledo Tibiriça e outras: Paraná – Martha da Silva Gomes; Santa Catarina – Alice Pinheiro Coimbra; Rio Grande do Sul – Ascylia Correia Rodrigues, Acy Coelho e Ilka Labarthe; Minas Gerais – Ignácia Guimarães, dra. Alzira Reis Vieira Ferreira, Maria Esther Ramalho, Eunice Weaver; Goiás – Dra. Rosita Godinho de Oliveira Bello; Mato Grosso – Branca Portinho.

O discurso de abertura do evento foi pronunciado pela escritora Julia Lopes de Almeida (1862-1934). Durante o encontro, Edwiges proferiu o discurso Pela Mulher, para a Mulher, que defendia uma nova concepção de ensino para a mulher. Dividiu a população feminina em três categorias: mulheres que não precisavam trabalhar, mulheres que sabiam e precisavam trabalhar e, finalmente, as mulheres que não sabiam e precisavam trabalhar. Os dois primeiros grupos deveriam, segundo ela, se unir para que o terceiro grupo fosse auxiliado (Jornal do Brasil, 15 de julho de 1931, sexta coluna).

Foi entrevistada e declarou que “o feminismo é uma evolução natural dos tempos. Como todas as forças vivas da natureza, a mulher não poderia estacionar nas fronteiras do passado, montando guarda aos velhos preconceitos que lhe tolhiam a faculdade de pensar e agir“(Diário da Noite, 22 de junho de 1931, primeira coluna).

 

 

Dentro da programação do congresso, participou de uma missa campal com a presença da primeira-dama, Darcy Vargas (1895-1968), e de todas as delegadas do evento, realizada no terreno da igreja do Sagrado Coração de Jesus. No mesmo dia foi inaugurada a exposição anexa ao congresso, no Automóvel Club. Participou também da sessão de congraçamento presidido por Bertha Lutz, quando falou sobre a filosofia do momento feminista (Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1931, quinta coluna; Diário de Notícias, 1º de julho de 1931, primeira coluna).

Foi publicada uma entrevista com Edwiges (Jornal do Brasil, 1º de julho de 1931, terceira coluna).

Foi convidada pela escritora e feminista Martha de Holanda (1903-1950) para ser a presidente de honra da Cruzada Feminista Brasileira, fundada e presidida por Martha, mas não aceitou o cargo. Sobre Martha de Hollanda, Luciene de Freitas, autora de sua biografia “Uma guerreira no tempo – Um resgate de uma época, Martha de Hollanda e Delírio do Nada” (2003), escreveu:

“Ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Contestava o ensino, contestava as roupas, usava vestidos sem manga e curtos, sem meia, fumava, bebia, tinha amizades com homens e fazia saraus com intelectuais. Eram coisas que chocavam naquela época. Tanto que essa liberdade rendeu um falatório sobre ela na cidade”

 

 

Em 10 de novembro, no Clube Internacional do Recife, Odila Porto da Silveira, representante da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, deu posse à primeira diretoria da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino. Edwiges foi a primeira presidente desta associação, cargo que exerceu até 1935. Personalidades da sociedade pernambucana, assim como autoridades estaduais e federais, representantes da imprensa e de diversas corporações prestigiaram o evento (Jornal Pequeno, 10 de novembro de 1931, primeira colunaJornal do Recife, 11 de novembro de 1931, primeira coluna). Neste primeiro biênio da associação, a vice-presidente era a professora Noemia Ferreira Xavier, e a segunda vice-presidente era a também professora e irmã de Edwiges, Anna Sá Pereira da Silva Almeida. A secretária-geral era Maria de Lourdes Souza Leão, a tesoureira, Santina Monteiro; e a consultora jurídica era Ida Souto Uchôa (Jornal Pequeno, 7 de agosto de 1931, quinta coluna).

 

 

A ideia de criação da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino surgiu em reuniões de um grupo de pernambucanas que defendia a maior inclusão feminina na sociedade. Várias destas reuniões aconteceram na casa de Edwiges (Jornal do Recife, 20 de junho de 1931, primeira coluna). A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino apoiava fortemente os princípios católicos. Ao longo de sua existência, até fins da década de 1930, a associação, devido à forte influência de Edwiges, teve como prioridade a questão da educação da mulher. Investiu na criação da Escola de Oportunidades cuja principal meta era disponibilizar cursos como correspondência, datilografia e línguas às jovens de todas as classes sociais do Estado.

A coluna “Palestras Femininas”, do Diário de Notícias, homenageou Edwiges com a publicação do poema Dúvida, da escritora pernambucana (Diário de Notícias, 5 de julho de 1931, primeira coluna).

1932 – Sua tese Pela Mulher, para a Mulher foi publicada como de livro.

Ainda era a vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Fon-Fon, 5 de março de 1932, primeira coluna).

Foi eleita segunda secretária da diretoria da Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 1º de abril de 1932, última coluna).

No Clube Internacional, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu um evento para comemorar o Dia das Mães. Pela primeira vez a efeméride foi comemorada no Brasil de acordo com um decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1932, quarta coluna).

 

 

A oficialização do Dia das Mães no Brasil foi uma conquista da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que durante o II Congresso Internacional Feminista, realizado em junho de 1931, no Rio de Janeiro, designou uma comissão que fez a solicitação ao presidente Vargas. Ele assinou o Decreto 21.366, em 5 de maio de 1932, estabelecendo o segundo domingo de maio como a data comemorativa dedicada às mães.

 

 

1933 - Publicação do artigo Pela mulher, de sua autoria (Diário de Notícias, 20 de fevereiro de 1933, penúltima coluna).

Foi eleita vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1933, quarta coluna).

A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, sob a presidência de Edwiges, enviou a artista plástica e feminista Georgina Barbosa Vianna como representante da associação na Convenção Eleitoral Feminina, no Rio de Janeiro, com propostas de inclusão no texto constitucional de obras contra as secas, recusa ao serviço militar obrigatório para mulheres e apoio ao ideário católico (Diário de Pernambuco, 30 de março de 1933, primeira coluna).

Edwiges e Martha de Hollanda conseguiram o direito de votar e também de serem votadas. Em uma enquete promovida pelo Diário de Pernambuco, Edwiges foi apontada como uma excelente candidata pela pintora e feminista Emília Barbosa Viana Marchesini, por Edna Leite Gueiros, redatora da “Página Feminina” do Jornal do Commercio; por representantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, e por Ana Campos, catedrática da Escola Normal. Em, 30 de abril, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino fez uma publicação indicando Edwiges ao eleitorado (Diário de Pernambuco26 de janeiro de 1933, quarta coluna27 de janeiro de 1933, penúltima coluna;  29 de janeiro de 1933, penúltima coluna1º de fevereiro de 1933, penúltima coluna; 30 de abril de 1933, quarta coluna30 de abril de 1933, terceira coluna30 de abril de 1933, última coluna).

 

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Foi publicada uma entrevista com Edwiges e quanto à questão do divórcio, no Diário de Pernambuco, de 30 de março de 1933, ela afirmou:

“Somos católicos e não compreendemos as reivindicações femininas fora desses princípios. Somos pela indissolubilidade do matrimônio como condição máxima de garantia de família, da estabilidade do lar, da moral social, enfim. Mas, não basta impedir que o divórcio se instale em nossa lei magna; é o no código civil, quando se regular a sociedade conjugal que todo o cuidado se impõe. Combater o divórcio e deixar subsistindo na legislação civil e nos costumes as causas principais que o provocam é obra incompleta. Combatamos o mal do organismo social, ele está muito na indiferença com que consideramos e que de grosseiro temos herdado ou contagiado de raças diversas, vinculadas a nossa e má importação de práticas dissolventes de civilizações requintadamente epicuristas. Na época atual o espírito de sacrifício, o apelo a passividade e a resignação, afiguram-se de natureza e resultados muito precários”.

Martha, sem partido, e Edwiges, pelo Partido Economista de Pernambuco, foram candidatas a deputadas constituintes por Pernambuco, em 3 de maio, mas não se elegeram.

 

 

Publicação de seu poema Pernambuco (Brasil Feminino, maio de 1933).

Devido à reforma do Ensino Normal em Pernambuco, ela e mais três professoras catedráticas da Escola Normal foram postas em disponibilidade (A Província (PE), 16 de maio de 1933, quinta coluna).

Foi reeleita presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino para o biênio de 1933 a 1935 (Jornal Pequeno, 1º de agosto de 1933, primeira coluna).

1934 – Na reunião semanal da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, foi uma das escolhidas para o serviço direto junto à Constituinte (O Paiz, 22 de março de 1934, quinta coluna; O Paiz, 2 de maio de 1934, quinta coluna).

Publicação de uma entrevista com Edwiges sobre os rumos do feminismo no Brasil e das propostas à Constituição (Jornal do Recife, 22 de junho de 1934, primeira coluna).

Na Rádio Clube Recife, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu uma hora de arte para comemorar as vitórias alcançadas pela mulher na nova Constituição do país. O evento foi aberto por Edwiges (Jornal do Recife, 22 de julho de 1934, primeira coluna).

Foi admitida na Associação de Imprensa de Pernambuco como sócia colaboradora (Diário de Pernambuco, 15 de setembro de 1934, segunda coluna)

Falecimento de seu irmão, o desembargador Virgílio de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 22 de setembro de 1934, terceira coluna).

Publicação de seu artigo intitulado Natal (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1934, penúltima coluna).

Integrou o júri do Concurso Feminino promovido pelo Diário de Pernambuco. Os trabalhos foram divididos nas categorias puramente literários e de interesse educativo e social (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1934, terceira coluna).

1935 – Foi sucedida por Emília Barbosa Viana Marchesini na presidência da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, tornando-se sua presidente honorária.

Publicação do artigo A Arte de Conversar, de sua autoria (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1935).

Publicação do artigo Dia das Mães, de sua autoria (Jornal Pequeno, 11 de maio de 1935, segunda coluna).

Proferiu a palestra de abertura da Semana do Livro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1935, penúltima coluna).

1936 – Era a segunda vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 30 de junho de 1936, quarta coluna).

Discursou durante a visita da escritora Carolina Nabuco (1890-1981) à Academia Pernambucana de Letras (Jornal Pequeno, 6 de novembro de 1936, quarta coluna).

1937 – Recebeu 39 votos no plebiscito promovido pela revista O Malho para saber quem seriam as mulheres que mereceriam ingressar na Academia Brasileira de Letras. As cinco primeiras colocadas foram Maria Eugênia Celso (1886-1963), Gilka Machado (1893-1980), Alba Canizares (1893-1944), Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896-1971) e Henriqueta Lisboa (1901-1985) (O Malho, 14 de janeiro de 1937, quarta coluna).

Foi eleita para integrar a comissão da Revista da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 28 de março de 1937, última coluna).

Foi uma das eleitoras do concurso Príncipe dos Poetas Brasileiros promovido pela revista Fon-Fon (Fon-Fon, 24 de abril de 1937, segunda coluna).

Ela e outras integrantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino estiveram presentes à inauguração da Escola de Enfermagem de Olinda, fundada sob os auspícios da associação (Diário de Pernambuco, 17 de agosto de 1937, penúltima coluna).

Foi uma das palestrantes da 7ª Semana Anti-Alcoólica (Jornal do Recife, 30 de outubro de 1937, última coluna).

Em 22 de dezembro, foi instalado o Estado Novo que, de acordo com o Decreto-lei n. 37, de 02 de dezembro de 1937, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), proibia a existência de partidos políticos e organizações civis.

1938 – Esteve presente à cerimônia da entrega solene da Escola de Enfermagem de Olinda à prefeitura da cidade (Diário de Pernambuco, de 1938, segunda coluna).

1940 – Foi a autora da letra do Hino Escolar João Barbalho, musicado pela também professora Maria do Carmo Santos Barbosa (Diário da Manhã, 24 de outubro de 1940, quinta coluna).

1945 – Publicou o livro Um passado que não morre, uma homenagem póstuma ao historiador João Baptista Regueira Costa (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1952, terceira coluna).

Proferiu, na Academia Pernambucana de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. Na introdução deste trabalho escreveu sobre sua motivação para escrevê-lo: como “única mulher membro deste sodalício, competia-me, por vários motivos, a explanação do assunto, que em mim se integra por uma longa fase de cátedra e de suas afinidades sociais” .

1946 - Foi uma das colaboradoras da primeira edição da revista Capibaribe, dirigida por Jorge Medeiros de Souza (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1946, terceira coluna).

Tomou posse como uma das integrantes do Conselho Consultivo da filial pernambucana da Liga Internacional Mulheres, fundada no Recife (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1946, segunda coluna; Jornal do Brasil, 1° de setembro de 1946, primeira coluna).

Foi publicada na edição de dezembro da Revista da Academia Brasileira de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. O texto integrou uma série de 28 conferências organizada pela Academia Pernambucana de Letras (Revista Brasileira, dezembro de 1946).

1947 – Foi recebida na Federação das Academias de Letras no Brasil, no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1° de outubro de 1947, segunda coluna).

1948 – Fez uma visita de despedida à Federação das Academias de Letras no Brasil (Jornal do Brasil, 3 de fevereiro de 1948, terceira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eurico de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 31 de maio de 1948, penúltima coluna).

Seu apoio ao envio de uma mensagem de solidariedade da Academia Pernambucana de Letras ao Salão de Poesia escandalizou o acadêmico Mário Melo (1884-1959), que combatia a poesia moderna (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1948, primeira coluna).

1951 - Participou de um almoço, no restaurante Torre de Londres, em homenagem à escritora Maria das Graças dos Santos Leite pela publicação do livro Alma em vigília (Jornal Pequeno, 24 de agosto de 1951, quarta coluna).

1952 - Falecimento de sua irmã, Fredovinda, funcionária aposentada do Tribunal de Justiça (Diário de Pernambuco, 23 de abril de 1952, primeira coluna).

Colaborou na terceira edição da Revista Pernambucana, dirigida por Getúlio Amaral e Olympio Fernandes (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1952, terceira coluna).

1953 – Escreveu um artigo sobre a poetisa baiana Ilka Sanchez (1922-?) (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1953, sexta coluna).

Escreveu o artigo Austro Costa (Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1953, quinta coluna).

1954 - Escreveu o artigo “Rosa de Pedra”: poesias de Zila Mamede (Diário de Pernambuco, 28 de fevereiro de 1954, sexta coluna).

Escreveu o artigo Imagens e Sombras sobre o novo livro do poeta Costa Rego Junior (Diário de Pernambuco, 4 de abril de 1954, última coluna).

Publicação do artigo Poesia, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1954, quinta coluna).

Na colunaVida religiosa”, publicação do artigo Obra Social de Grande Vulto, de sua autoria, sobre o Centro Social Nossa Senhora da Soledade (Diário de Pernambuco, 18 de setembro de 1954, sexta coluna).

1955 – Publicação de seu poema Saudade, dedicado à poetisa Maria das Graças Santos Leite (Diário de Pernambuco, 8 de julho de 1955, quarta coluna).

1956 - Publicação do artigo Cartas, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 21 e 22 de abril de 1956, última coluna).

Publicação do artigo Poesias de Pierre Luz, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1956, sexta coluna)

1958 - Faleceu, em 14 de agosto, em sua casa, no bairro do Espinheiro, no Recife, vítima de uma trombose cerebral (Diário de Pernambuco, 15 de agosto de 1958, penúltima coluna). Nunca se casou nem teve filhos, mas sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, em um depoimento de 2010, revelou que Edwiges se arrependia de não ter sido mãe solteira (Revista Brasileira, abril maio, junho de 2020, página 69) .

 

 

 

 

Foi homenageada na Academia Pernambucana de Letras e a professora, educadora e escritora Dulce Chacon (1906-1982) pronunciou um discurso intitulado Edwiges de Sá Pereira – Escritora, acadêmica e professora, no qual dissertou sobre o respeito e carinho que a homenageada tinha para com os membros da referida agremiação, e em seguida, traçou um perfil de sua vida e obra. No ano seguinte, o discurso foi reunido em plaquette (Diário de Pernambuco, 28 de setembro de 1958, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 18 de janeiro de 1959, quarta coluna).

 

 

1960 – Publicação, por iniciativa de sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, de seu livro Horas inúteis, uma reunião de poemas escritos por ela, com prefácio do escritor e imortal da Academia Pernambucana de Letras, Jordão Emerenciano (1919-1972). O livro é composto por 53 poemas, alguns inéditos e outros que já haviam sido publicados em periódicos. No prefácio desta publicação póstuma, o professor Jordão Emereciano, fez breves considerações sobre a personalidade da autora, da sua importância para a história da Academia Pernambucana de Letras e sobre o valor desta publicação para o campo literário do estado. Para ele, este livro, era “um pouco a síntese de tudo isto porque os seus sonetos e poemas contêm os reflexos de sua atividade variada e diversificada e a motivação de toda uma vida que teve também os seus dias de luta e de sonho, de ideal e de poesia” (Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16 ).

A seguir, um trecho do prefácio:

 

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Publicação de seu poema Capitólio, onde se evidenciava sua formação parnasiana.

“Hás de viver eternamente, ó verso, / Nos velhos moldes: no esplendor que anima / A luz no movimento do Universo! / O amor na lei da Natureza oprima! // Quando não mais surgisse um som disperso / Do hemisfério, da métrica e da rima, / Sobram-te louros de um parnaso terso: / Nunca a seara dos Gênios se dizima! // Não medra o esforço do que finge odiar-te. / Qual haverá que um dardo acerte dentre / Os que desdenham teu prestigio de arte? // Qual haverá que um poema legue, ovante, / Ao mundo, e o mundo o leia e se concentre / Como se lê Camões, Homero, Dante?!”

Dulce Chacon foi eleita para ocupar a vaga de Edwiges na Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 26 de novembro de 1959, terceira coluna).

1979 - Em seu livro de memórias, intitulado Medo de Criança (1979), Dulce Chacon revelou: “Tenho estado a pensar nos belos livros que Edwiges de Sá Pereira deixou reunidos, já datilografados, prontos para a impressão. Nos derradeiros anos, ver os seus três livros em letra de forma constituiu para ela o maior desejo” (Chacon, 1979:265). Os livros que a autora se refere, são: Eva MilitanteJóia de Turco Horas Inúteis. Sobre Eva militante, Dulce comentou que Edwiges havia feito uma análise de alguns aspectos dos problemas enfrentados pela mulher brasileira “no lar ou nas atividades externas, nas profissões liberais, ou na burocracia, aviadora, magistrada, prefeita, deputada, escrivã, professora”. Ainda segundo Chacon, no livro Jóia de Turco, Edwiges havia reunido algumas de suas crônicas sobre acontecimentos nacionais e internacionais, já publicadas em jornais, “inspiradas no noticiário e nos telegramas, nas conversas de rua e na leitura de livros, tirando-os da sombra ou de um recanto do passado para dar-lhe vida, movimento, graça, sentido poético e conteúdo humano”.

 

**Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AMARAL, Walter Valdevino do. Edwiges de Sá Pereira: Uma voz pernambucana no Segundo Congresso Internacional Feminista (Rio de Janeiro, 1931), 2017.

AMARAL, Walter Valdevino do. “Um passado que não morre”: traços biográficos de Edwiges de Sá Pereira. Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16.

AMARAL, Walter Valdevino do; RIBEIRO, Emanuela Souza. Edwiges de Sá Pereira: um breve olhar sobre a poesia feminina pernambucana, 2009.

BARBOSA, Izabelle Lúcia de Oliveira. Os movimentos feministas pernambucanos e o debate em torno do divórcio (1926-1937). XVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, Santa Catarina, 2015.

BNDigital

CAMPOS, Andrea Almeida Campos. Edwiges de Sá Pereira: Uma feminista vitoriana na primeira metade do século XX in Revista Brasileira, abril, maio, junho de 2020, página 59.

CAMPOS, Zuleica Dantas Pereira. Edwiges de Sá Pereira: um discurso para e pela mulher. In: I COLÓQUIO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA. GT12: Gênero, Sociabilidades e Sensibilidades. Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), 1º, 2008. Anais […]. Campina Grande – PB, 2008.

COSTRUBAL, Deivid Aparecido. Para além do sufragismo: A contribuição de Júlia Lopes de Almeida à história do feminismo no Brasil (1892-1934). Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em História (Área de conhecimento: História e Sociedade), 2017.

FAGUNDES, Emelly Sueny Fekete. Uma das faces do feminismo em Pernambuco: Transgressões e permanências na trajetória da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (1931-1937).  2018. 181 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

NASCIMENTO, Alcileide Cabral do. O bonde do desejo: o Movimento Feminista no Recife e o debate em torno do sexismo (1927-1931). Rev. Estud. Fem. 21 (1) • Abr 2013.

PEDROSA, Cida. A Eva militante e todas as horas úteis para a mulher e pela mulher. Revista Hexágono, 2020.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

SILVA, Martia Angélica Pedrosa de Lima. Entre engajamentos e manifestos: a inserção de Edwiges de Sá Pereira nos espaços públicos do Recife (1920-1935). Seminário Internacional Fazendo Gênero, Florianópolis, Santa Catarina, 2017.

Site Academia Pernambucana de Letras

Site Tribunal Eleitoral de Pernambuco

VAINSSENCHER, Semira Adler. Edwiges de Sá Pereira.

No Dia Nacional do Samba, uma homenagem ao gênero musical icônico do Brasil e a Donga, um dos compositores de “Pelo telefone”

Com uma fotografia do conjunto “Batutas”, considerado o primeiro grupo de música popular brasileira a alcançar projeção internacional,  a Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Nacional do Samba. Havia entre os integrantes dos “Batutas” vários expoentes, dentre eles Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, um dos autores daquele que ficou consagrado como o primeiro samba da história, Pelo telefone, registrado em 27 de novembro de 1916. O samba é o gênero musical icônico do Brasil e,  segundo Nélson Sargento (1924-2021), é um bonito modo de viver. Em 2005, a Unesco reconheceu o samba de roda como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

 

 

Em 9 de outubro de 2007, o samba tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) conferiu registro oficial, no Livro de Registro das Formas de Expressão, às matrizes do samba do Rio de Janeiro: samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo. O pedido de registro foi feito por Nilcemar Nogueira, presidente do Centro Cultural Cartola com apoio da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Nilcemar é neta do compositor Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980).

No ano de 2023, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro foram contempladas com a Lei nº 14.567 de 4 de maio de 2023, sancionada pelo Presidente da República em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva, em conjunto com os ministros Margareth Menezes da Purificação Costa, Flávio Dino de Castro e Costa e Anielle Francisco da Silva. Elas e seus desfiles foram reconhecidos assim como as suas músicas, suas práticas e suas tradições como manifestações da cultura nacional, competindo ao poder público a garantia da livre atividade das Escolas de Samba e a realização de seus desfiles carnavalescos.

 

Breve história do Dia Nacional do Samba

 

 

No Palácio Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, entre 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962 foi realizado o I Congresso Nacional do Samba, presidido pelo historiador e folclorista baiano Edison Carneiro (1912-1972). O evento foi patrocinado pela Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES), pela Associação Brasileira das Escolas de Samba (ABES), pela Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, pelo Conselho Nacional de Cultura e pela Ordem dos Músicos do Brasil. Seus vice-presidentes foram Ari Barroso (1903-1964), Araci de Almeida (1914-1988), Almirante (1908-1980), José Siqueira (1907-1985), Pascoal Carlos Magno (1906-1980), Paulo Lamarão, presidente da CBES; e Servan Heitor de Carvalho, presidente da ABES. Jota Efegê (1902-1987) foi seu secretário-geral. Do Congresso resultou a Carta do Samba, elaborada por Edison Carneiro (Diário de Notícias, 29 de novembro de 1962, terceira coluna; 2 de dezembro de 1962, primeira coluna).

 

 

“Esta carta, que tive a incumbência de redigir, representa um esforço por coordenar medidas práticas e de fácil execução para preservar as características tradicionais do samba sem, entretanto, lhe negar ou tirar espontaneidade e perspectivas de progresso. O Congresso do Samba valeu por uma tomada de consciência: aceitamos a evolução normal do samba como expressão das alegrias e das tristezas populares; desejamos criar condições para que essa evolução se processe com naturalidade, como reflexo real da nossa vida e dos nossos costumes; mas também reconhecemos os perigos que cercam essa evolução, tentando encontrar modos e maneiras de neutralizá-los. Não vibrou por um momento sequer a nota saudosista. Tivemos em mente assegurar ao samba o direito de continuar como expressão legítima dos sentimentos de nossa gente”.

 

No dia do encerramento do Congresso, 2 de dezembro de 1962, foi noticiada a criação do Dia do Samba, que seria comemorado anualmente neste dia de acordo com resolução da Assembleia Legislativa (Diário Carioca , 2 de dezembro de 1962, segunda coluna).

 

 

A resolução estava no Projeto de Lei n° 681, de 19 de novembro de 1962 e de autoria do deputado Frota Aguiar (1901-1996), publicado no Diário da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara do dia 20 de novembro de 1962 que em seu artigo 1° dispunha: “Fica o dia 2 de dezembro oficialmente considerado como o Dia do Samba”. Porém o projeto foi vetado pelo então governador Carlos Lacerda (1914-1977). Segundo ele, não haveria razão “para considerar outro Dia do Samba além dos três já dedicados à nossa festa popular, em que ele é exaltado espontaneamente pelo povo, sem a interferência do Poder Público”. O veto foi posteriormente rejeitado pelo Plenário, com o voto de vinte e nove deputados, transformando-se na Lei n° 554, de 27 de julho de 1964, que foi assinada no dia 29 de julho do mesmo ano pelo deputado Victorino James (1924-1997), presidente da Assembleia, e publicada no Diário Oficial do Estado da Guanabara, no dia 7 de agosto de 1964.

O vereador soteropolitano Luiz Monteiro da Costa apresentou, na Câmara Municipal de Salvador, em 3 de outubro de 1963, o projeto de lei n° 164/63, que “institui o Dia do Samba, manda preservar as características da música popular e dá outras providências”. Em seu projeto, o vereador mencionou explicitamente, em seu artigo 2°, o Primeiro Congresso Nacional do Samba e a respectiva Carta do Samba nele aprovada. O projeto foi transformado na Lei n° 1.543/63 no dia 18 de novembro de 1963, data de sua assinatura pelo Prefeito de Salvador Virgildásio de Senna (1923-) (Jornal do Brasil, 13 de novembro de 1963, segunda coluna).

Com os anos, passou a ser chamado de Dia Nacional do Samba.

 

Um pouco da história de Donga e do samba Pelo telefone

 

 

“O ritmo caracteriza um povo. Quando o homem primitivo quis se acompanhar, bateu palmas. As mãos foram, portanto, um dos primeiros instrumentos musicais. Mas como a humanidade é folgada e não quer se machucar, começou a sacrificar os animais, para tirar o couro. Surgiu o pandeiro. E veio o samba. E surgiu o brasileiro, povo que lê música com mais velocidade do que qualquer outro no mundo, porque já nasce se mexendo muito, com ritmo, agitadinho, e depois vira capoeira até no enxergar”.

Donga (1966)

 

Entre a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a comunidade afrodescendente se reunia na região batizada por Heitor dos Prazeres (1898-1966) de Pequena África para praticar religiões de matriz africana e cantar sambas. A área começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho, que foi totalmente remodelada nos anos 1940 para a abertura da avenida Presidente Vargas. Foi  lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira.

O carioca Donga nasceu em 5 de abril de 1890 e era filho do pedreiro construtor Pedro Joaquim Maria, que tocava bombardino nas horas vagas; e de Amélia Silvana de Araújo, uma das tias baianas da Pequena África, que gostava de cantar modinhas e promovia inúmeras festas e reuniões de samba. Sua mãe era irmã-de-santo da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, no terreiro de João Alabá, um dos principais babalorixás do candomblé  no Rio de Janeiro. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana (1887-1974), e, principalmente, a de Tia Ciata foram espaços fundamentais da música popular carioca e eram frequentados por Donga, Pixinguinha (1897 – 1973) e João da Baiana.

Foi na casa de Tia Ciata, onde havia um terreiro de candomblé clandestino e onde os bambas do samba se encontravam, que o primeiro samba, registrado e gravado como tal, Pelo telefone, foi composto por Donga e Mauro de Almeida (1882 – 1956), em 1916. Donga entregou no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional uma petição de registro para a música em 6 de novembro de 1916. A partitura manuscrita para piano, realizada por Pixinguinha, estava dedicada aos carnavalescos Mauro de Almeida, o Peru e a Norberto Amaral, o Morcego.

 

 

Dez dias depois, Donga anexou à petição um atestado afirmando que Pelo telephone havia sido executado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916, no Cine-Teatro Velho. O registro da obra foi efetuado pela Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, com o número 3.295. A iniciativa de Donga foi pioneira e o registro da música foi um marco na história da música popular brasileira. Pelo Telefone foi lançado pela Odeon e foi um sucesso no carnaval de 1917.

Existe uma polêmica em torno de sua autoria: foi registrado por Donga, mas teria sido uma criação coletiva. Houve uma troca de petardos musicais entre Sinhô (1888 – 1930), que estaria presente na casa de Tia Ciata quando o samba foi composto e a turma de Donga, dentre eles João da Baiana e Pixinguinha. Outra polêmica envolve o fato de ter sido mesmo o primeiro samba ou se foi o primeiro samba a fazer sucesso, já que alguns autores alegam que antes foram compostos os sambas Em casa da baiana, de 1911; e A viola está magoada, de 1914. Há ainda que conteste que a música seja de fato um samba.

Acesse aqui o programa da Rádio Batuta Como e por que nascem as canções Pelo telefone, apresentado por João Máximo en  editado e sonorizado por Filipe Di Castro (5 de março de 2024)

 

 

Segundo o jornalista, escritor e historiador da música Rodrigo Faour (1972-): “Ele entendeu que precisava fazer da gravação de Pelo telefone um acontecimento. Então planejou tudo muito bem. Pegou os versos de improviso e motivos folclóricos dessa canção e pediu que um jornalista prestigiado, Mauro de Almeida os organizasse, e foi até a Biblioteca Nacional registrá-lo.” Ainda segundo Faour, seu “trunfo maior foi chamar a atenção para este novo gênero musical“. O samba “rapidamente contagiou a todos e a música caiu na boca do povo”.

Em 1954, o fotógrafo, cineasta, empresário, professor e galerista húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas (1924-2011) fotografou as celebrações do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo e com uma filmadora Kodak 16mm, de corda, registrou em preto e branco, durante cerca de seis minutos, um show de Alfredinho Flautim (1884-1958), Almirante (1908 -1980), Benedito Lacerda (1903-1958), Donga, Jacob Palmieri (?-19?), João da Baiana e Pixinguinha, realizado no Parque do Ibirapuera, em 25 de abril. Mas não havia tomada de som. O filme ficou perdido por cerca de 50 anos – Farkas, por acaso, o encontrou. Marcelo Nastari, na época assistente de Coordenação do Instituto Moreira Salles, identificou as músicas que o grupo executava, Ele e eu e Patrão prenda seu gado e, em janeiro de 2004, o material foi sonorizado pelo Instituto Moreira Salles e pela Cia de Áudio e Imagem. As imagens sonorizadas podem ser vistas no documentário Pixinguinha e a velha guarda do samba (1954-2006), dirigido por ele e pelo cineasta e biólogo Ricardo Dias (O Estado de São Paulo, 25 de abril de 1954, página 17, primeira coluna).

 

 

Assista aqui o documentário Pixinguinha e a velha guarda do samba (1954-2006).

Alguns dos maiores sucessos de Donga foram Amigo Do Povo (Donga), Canção Das Infelizes (Donga / Luiz Peixoto), Benedito No Choro (Donga), Patrão Prenda Seu Gado (Donga / João da Bahiana / Pixinguinha), Vertigem (Donga), Seu Mané Luiz (Donga), Cinco de Julho (Donga), Ranchinho Desfeito (Castro e Souza / Donga), Ligia, Teus Olhos Dizem Tudo (Donga), Pelo Telefone (Donga / Mauro de Almeida) e Quando Uma Estrela Sorri (David Nasser / Donga / Villa-Lobos).

 

A Música de Donga

 

Donga  foi casado com a cantora e soprano carioca Zaíra de Oliveira (1900-1951) entre 1932 até a morte dela, em 15 de agosto de 1951.

 

 

Zaíra teve formação clássica e interpretou compositores como Donga, João da Baiana e Pixinguinha. Gravou temas de matriz africana e como professora do Colégio Orsina da Fonseca deu aulas, por exemplo, para dona Ivone Lara (1921-2018).

 

 

Ela estudou no Instituto Nacional de Música e, no final de 1921, quando completou o curso, com distinção, recebeu a Medalha de Ouro, o que permitiu que ela concorresse em um concurso cujo prêmio seria uma viagem à Europa com uma bolsa de estudos para aprimoramento em canto lírico. Em 30 de dezembro de 1921, ela conquistou por unanimidade de votos da comissão julgadora o primeiro prêmio do concurso. A aluna Emery de Carvalho e Souza também recebeu um primeiro prêmio (Correio da Manhã, de 31 de dezembro de 1921, sexta coluna). Porém Zaíra não recebeu o prêmio conquistado. Segundo a crônica Soprano Zaíra de Oliveira, A Marian Anderson do Brasil, de autoria de Jota Efegê, publicada em O Globo, de 29 de agosto de 1977, o motivo de não ter viajado à Europa teria sido o fato dela ser negra. 

 

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O GLOBO, 29 de agosto de 1977

 

Tiveram uma filha, a pesquisadora Lygia de Oliveira Santos (1934-), que se dedicou à pesquisa da cultura brasileira, principalmente no campo da música popular ligada ao samba.

 

 

“Meu pai não tinha o terceiro ano primário, mas era uma pessoa de uma vivência muito grande, era muito sagaz, muito inteligente, lia demais e tinha uma visão segura das coisas. Trabalhava no Supremo Tribunal Federal, na 1.a Vara da Fazenda Pública, e sempre viveu do seu modesto ordenado e dos magros dividendos dos direitos autorais. O nome dele era Ernesto dos Santos mas,  felizmente, está na história musical do nosso país com o seu apelido: Donga. Apelido, aliás, que meus amigos incorporaram ao meu nome. Para eles eu sou a Lygia filha do Donga, o que muito me orgulha”.

Depoimento de Lygia publicado no livro Fala, Crioulo (1982)

 

Oficial de Justiça aposentado, Donga faleceu doente e quase cego, no Retiro dos Artistas, em 25 de agosto de 1974, assistido por sua segunda esposa, Maria das Dores Santos Conceição (1911-2014), a Vó Maria, que gravou seu primeiro disco com 91 anos. Estavam casados desde 1953 (Jornal do Brasil, 26 de agosto de 1974, quinta colunaManchete, 14 de setembro de 1974).

 

 

Em 6 de abril de 2023, foi fundado o Instituto Donga na residência da família Santos, que fica no Maracanã, zona norte do Rio, antiga Aldeia Campista, onde Donga nasceu e viveu a maior parte de seus 84 anos de vida. O acervo reúne 311 itens entre matérias de jornais, fotos, partituras, letras de música e anotações feitas pelo próprio Donga (Folha de São Paulo, 21 de abril de 2023).

 

Acesse aqui a matéria que o Canal Futura realizou sobre o samba Pelo Telefone.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Almanaque do Samba

BASTOS, Rafael José de Menezes. Les Batutas, 1922: uma antropologia da noite parisienseRevista Brasileira de Ciências Sociais – vol. 20 nº 58 , munho de 2005.

BIANCHI, Leonor. Nós somos batutasRevista do Choro, 1º de dezembro de 2019.

BRAGA, Sebastião. O lendário Pixinguinha. Niterói, RJ : Muiraquitã, 1997.

BULCÃO, Clóvis. Os Guinle: a história de uma dinastia. Rio de Janeiro : Intrínseca, 2015.

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (Brasil). Carta do samba / texto de Edison Carneiro / prefácio de Marcia Sant’Anna. — Rio de Janeiro : IPHAN, CNFCP, 2012.

COSTA, Haroldo. Fala, Crioulo. Rio de Janeiro: Record, 1982.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

DUQUE. O maxixe em Paris e em Nova York in O Cruzeiro, 7 de julho de 1934.

FERNANDES, Antonio Barroso (org.). As vozes desassombradas do museu: Pixinguinha, Donga  e João da Baiana. Rio de Janeiro : Museu da Imagem e do Som, 1970, vol. 1.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LACERDA. Isomar. Nós somos Batutas. Rio de Janeiro : Flor Amorosa Editora, 2019.

MARCONDES, Marcos Antônio (org.). Enciclopédia da música brasileira: popular, erudita e folclórica. São Paulo : Art Editora, 1998.

MARTINS, Luiza Mara Braga. Os Oito Batutas. Rio de Janeiro : UFRJ, 2014.

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro : Funarte, 1983.

NETO, Lira. Uma História do Samba: Volume 1 ( As origens). 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Portal IPHAN

RANGEL, Lúcio. Samba, jazz & outras notas; organização, apresentação e notas Sérgio Augusto. Rio de Janeiro ; Agir, 2007.

RANGEL, Lúcio.  Sambistas e chorões. São Paulo : IMS. Reedição, 2014.

SILVA, Wilton C. L. A Carta do Samba (1962), um grito de alerta do nacional popular. Encontro de estudos multidisciplinares em cultura, 2024.

SIMAS, Luiz Antônio; LOPES, Nei. Dicionário de História Social do Samba. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2015.

Site Biblioteca Nacional

Site Câmara dos Deputados

Site Casa da Tia Ciata

Site Centro de Documentação e Memória da UNESP

Site DW

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Museu da Pessoa

Site Museu do Samba

Site Musica Brasilis

Site Rádio Batuta

TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIX – O cabaré e restaurante “Mère Louise” e o Casino Balneario Atlantico

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864-1957), por Torres (18?-19?) e pela Escola de Aeronáutica Militar, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do restaurante e cabaré Mère Louise, que existiu entre os primeiros anos do século XX e 1934, quando foi demolido para dar lugar ao Casino Balneario Atlantico, inaugurado, em 1935, e demolido na década de 1970. Ficavam na Avenida Atlântica, na altura do Posto 6 e são o assunto do 29º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido. As duas construções marcaram a história do Rio de Janeiro de antigamente.

 

Acessando o link para as fotografias deste artigo produzidas por Augusto Malta, pela Escola de Aeronáutica Militar e por Torres disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Na esquina da rua da Igrejinha de Copacabana, atual Rua Francisco Otaviano, com a Avenida Atlântica, no Posto 6, em Copacabana, conhecido como o cantinho da alegria, onde os pescadores se misturavam aos romeiros que iam a já mencionada igrejinha, havia uma casa cujo dono era, pelo menos desde 1902, Edmundo Bittencourt (1886 – 1943), proprietário do jornal Correio da Manhã. Ele a alugou para a francesa Mme. Louise Chabas, (1843 – 1918), que abriu o restaurante Mère Louise, em torno de 1903, conforme noticiado pelo semanário Rua do Ouvidor, de 10 de janeiro de 1903. Foi muito elogiado por sua gastronomia. Na referida edição era sugerido: um passeio a Copacabana e comer no restaurante de Mme . Louise Chabas, perto da igrejinha, dirigido pelo sr. August Castella onde encontrarão boas iguarias e preços cômodos. Era também um hotel.

 

 

O restaurante de Mme. Chabas passou a ser, em 1907,  também o cabaré Mère Louise, que se tornou um dos cabarés mais famosos do Brasil, à maneira do de Montmartre, em Paris, onde quem saiba fazer algo sobe ao palco e… faz o que sabe!”.  Segundo o escritor Ruy Castro (1948-), no livro A Noite do Meu Bem, o estabelecimento funcionava ao estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de ‘amigas’ ou admiradoras. Ainda segundo Castro: Louise conhecia a todos pelo nome e ia de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural que, em emergências, ela cedesse – pela escorchante diária de 6 mil-réis – discretos aposentos nos fundos para quem precisasse ‘repousar‘.

 

 

 

Mme. Chabas vendeu o estabelecimento, em torno de 1911, para a Companhia Cervejaria Brahma e continuou funcionando como Mère Louise, onde era oferecido não somente roleta a dez tostões, mas colos e pernas nuas como atrativo estonteante e embriagador de muita alma nova que se corrompe, de muito talento em flor que se esteriliza, de muita promissora atividade que se estiola (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1911, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 22 de novembro de 1911, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 15 de junho de 2014, penúltima coluna). Ela teria então pago suas dívidas com o dinheiro da venda e anunciado que se recolheria ao Asilo da Velhice Desamparada (Fon-Fon, 26 de abril de 1913, segunda coluna; e 3 de maio de 1913). Em 1913, trabalhava no Beco das Carmelitas (O Paiz, 2 de outubro de 1913, penúltima coluna)Em 1914, foi anunciado que ela dirigiria o Recreio Ipanema, uma casa no estilo da antiga Igrejinha no fim da linha de Ipanema (Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1914, última coluna). Foi noticiado que ela estava doente, agonizando. Na mesma reportagem, foi revelado seu verdadeiro nome: Benoit Dubieff. Na época, além do restaurante de Ipanema, possuía duas propriedades na rua Santa Clara (Correio da Manhã, 12 de novembro de 1914, quarta coluna). Neste mesmo ano, foi acionada por Joseph Espoleli, com quem havia sido casada por cerca de três meses, entre 4 de dezembro de 1905 e 7 de março de 1906, que alegava que Mme. Chabas havia vendido o Mère Louise, que não pertenceria a ela, mas aos dois (Correio da Manhã, 26 de junho de 1914, primeira coluna).

 

 

Em 1917, dirigia o Café Belevue e um hotel no Leme (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1917, última coluna; A Noite, 2 de maio de 1917, terceira coluna). Faleceu, pobre, em 19 de maio de 1918 e foi sepultada no dia seguinte, no Cemitério São Joao Batista (A Noite, 19 de maio de 1918, última colunaGazeta de Notícias, 20 de maio de 1918, quarta coluna; Correio da Manhã, 20 de maio de 1918, terceira coluna).

Voltando ao Mère Louise. No Carnaval de 1914, gentis senhoritas promoveram batalhas noturnas de confete e lança-perfume em frente ao restaurante. Nos fins de tarde, um aviador francês, Lucien Deneau, iniciava as batalhas de seu Bleriot. O hangar do aviador ficava em frente ao Mère Louise (O Paiz, 17 de julho de 1913, última colunaA Noite, 7 de fevereiro de 1914, primeira coluna).

Na tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte contra as forças do governo de Epitácio Pessoa — os “18 do Forte” —, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás, tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro e chapéu-chile — o único civil da foto —, na primeira fila. Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha agora um mártir (CASTRO, Ruy, 2015).

Em 1930, o Mère Louise ou Restaurante Igrejinha estava decadente, tendo sido cenário de assassinato, morte suspeita, tentativa de suicídio e outros episódios de violência. Uma curiosidade: era com a comida do Mère Louise que o então ex-presidente Washington Luís (1869 – 1957), deposto e preso no Forte de Copacabana devido à Revolução de 30, se alimentava. Em 1931, o Mère Louise quase foi fechado por autoridades do 30° distrito. No mesmo ano, em setembro, o juiz da Primeira Vara Cível deferiu o requerimento de leilão dos bens da massa falida de José Caulino, o restaurante e bar Igrejinha (Mère Louise). Foi demolido em 1934 (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1904, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de abril de 1907, segunda colunaJornal do Brasil, 15 de julho de 1907, oitava coluna; O Jornal, 6 de fevereiro de 1930, sexta coluna; O Jornal, 11 de março de 1930, sexta coluna; O Jornal, 30 de outubro de 1930, penúltima colunaO Jornal, 16 de novembro de 1930, segunda coluna; O Jornal, 3 de dezembro de 1930, penúltima colunaA Batalha, 27 de janeiro de 1931, primeira coluna; A Batalha, 28 de maio de 1931 penúltima coluna; O Jornal, 17 de junho de 1931, primeira colunaA Batalha, 26 de setembro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 1° de fevereiro de 1934, sexta coluna).

 

Em seu lugar, foi inaugurado, em 20 de março de 1935, o Casino Balneario Atlantico, belo prédio em estilo art decó. Anunciado como o Palácio encantado do Posto VI. Sonho maravilhoso dos contos de Sherehazade, viria a preencher uma lacuna existente na mais bela praia do mundo: Copacabana. Foi construído pela Comp. Melhoramentos e Construcções e seu proprietário era Alberto Quatrini Bianchi  (1892 – 19?).

 

 

Antes da inauguração oficial, foi realizado no cassino um baile de carnaval, em 23 de fevereiro de 1935 (Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1935; Correio da Manhã, 19 de março de 1935, sétima colunaA Noite, 21 de março de 1935, quarta colunaBeira-Mar, 30 de março de 1935; Fon-Fon, 9 de abril e 13 de abril de 1935).

O baile inaugural do Casino Balneario Atlantico foi a nota carnavalesca de sabbado passado. Todo o Rio elegante compareceu, por assim dizer, á festa sumptuosa que mobilizou os círculos sociaes da metrópole para o primeiro grande baile do Carnaval de 1935. Luxo. Alegria. Deslumbramento. Delírio. Nos salões do novo centro da elegância, em Copacabana, decorados pelos 96 artistas Gilberto Trompowisky e Luiz de Barros, movimentaram-se as figuras mais expressivas do nosso mundanismo. Focaliza esta pagina alguns detalhes photographicos da grande festa do Casino Balneario Atlantico, que annuncia para os quatro dias de Carnaval outros bailes igualmente sumptuosos (Fon-Fon, 9 de março de 1935).

 

 

 

Com o Cassino Copacabana Palace, oficialmente denominado Copacabana Casino-Theatro, inaugurado em 1932; e o Cassino da Urca – Casino Balneário da Urca -, inaugurado em 1933, formava o Trio de Luxo das casa de jogos do Rio de Janeiro  Neles circulavam jogadores, artistas brasileiros e estrangeiros, políticos e personalidades ilustres da sociedade.

 

 

 

 

No mesmo ano de sua inauguração, 1935, o Cine-Varieté, no Casino Balneário Atlântico, passou a receber o público, tornando-se um dos mais chiques e elegantes locais da Avenida Atlântica. Apresentava produções internacionais e nacionais e realizava matinés infantis. Aos domingos eram distribuídos brinquedos para as crianças (Beira-Mar, 9 de novembro de 1935).

 

Beira-Mar, de 1935

 

O presidente Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) através do Decreto-Lei 9.215 proibiu o  jogo no Brasil, em 30 de abril de 1946, e os cassinos fecharam suas portas.  O Botafogo Futebol e Regatas inaugurou onde havia funcionado o Casino Balneario Atlantico, seu Departamento do Posto 6, em 25 de janeiro de 1947. Funcionava também no antigo cassino uma boate e salões do Dinner Club (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1947, segunda colunaCorreio da Manhã, 12 de fevereiro de 1947, sexta coluna; Correio da Manhã, 9 de maio de 1947, quarta coluna).

Em 1955, a TV Rio foi inaugurada onde antes funcionava o Casino Atlântico (Tribuna da Imprensa, 1° de fevereiro de 1955, sétima coluna; Tribuna da Imprensa, 13 de julho de 1955, quarta colunaCorreio da Manhã, 4 de maio de 1956, primeira coluna). Por ter criado na população o hábito de ver televisão, a emissora foi carinhosamente apelidada de A Carioquinha.

 

 

No início da década de 1970 foi despejada e o Casino Atlantico voltou à posse de seus antigos proprietários, a família Bittencourt (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1970, quinta coluna).

Em setembro de 1971, na maior transação imobiliária realizada no Rio, o quarteirão onde ficava o antigo Cassino foi vendido à firma H. C. Cordeiro Guerra (Jornal do Brasil, 4 de setembro de 1971, sexta coluna).

 

 

Em 1972, o prédio foi demolido e, em 1974, foi lançado o Shopping Cassino Atlântico e um hotel (Jornal do Brasil, 17 de março de 1972Jornal do Brasil, 21 de abril de 1974Jornal do Brasil, 2 de maio de 1974).

 

 

O Shopping Cassino Atlântico segue em funcionamento. O Hotel Rio Palace foi inaugurado, em 1979, e, no dia 22 de janeiro de 1980, o célebre cantor norte-americano Frank Sinatra (1915-1998) realizou no hotel seu primeiro show no Rio de Janeiro para o lançamento oficial do prédio. Foi uma apresentação para 600 pessoas.

Entre 1996 e 2017, foi arrendado pelo Grupo Accor, dono da marca Sofitel. Um retrofit, iniciado em 2017, mudou totalmente seu interior e o Hotel Fairmont Copacabana substituiu o Sofitel, tendo sido aberto em 5 de agosto de 2019.

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Associação de Moradores de Copacabana

CABRAL, Sérgio. No tempo de Ary Barroso. São Paulo : Lazuli Editora, 2016.

CASTRO, Ruy. A noite do meu bem. São Paulo : Companhia das Letras, 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro ; Mauad X, 2019.

Site Museu da TV

Site Os Divergentes

Site Posto Seis

VIEIRA, Antônio Tostes Baetas. Os cassinos trio de luxo do Rio de Janeiro: Atlântico, Copacabana e UrcaDissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Memória Social, novembro de 2013.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 23 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

Série “Feministas, graças a Deus!” XIX – A aviadora Anésia Pinheiro Machado (1904-1999)

Com fotos de uma das pioneiras da aviação brasileira, a feminista Anésia Pinheiro Machado (1904-1999), a Brasiliana Fotográfica publica o 19º artigo da série Feministas, graças a Deus e comemora o Dia do Aviador, estabelecido pela Lei n° 218, de 4 de julho de 1936, e celebrado hoje em homenagem à data em que, em 1906, Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), conhecido como o “Pai da Aviação”, realizou o primeiro voo do 14-Bis no Campo de Bagatelle, na França. Anésia recebeu seu brevê, a permissão para pilotar aeronaves, em 9 de abril de 1922, com apenas 18 anos. As duas imagens da aviadora destacadas do acervo do portal pertencem ao Museu Aeroespacial, uma de nossas instituições parceiras. Uma delas é do dia 8 de setembro de 1922 e, a outra, de 4 de junho de 1940.

 

 

“O meu desejo de voar talvez seja fruto do meu anseio, sempre cada vez mais intenso, de me elevar, de sair da banalidade do viver comum. E o incontido ímpeto de minha alma, que me impulsiona e me leva a procurar as emoções mais fortes do voo. A vida corriqueira não me satisfaz; ando sempre em busca de alguma coisa nova. E essa faceta de minha personalidade que dirão inconstante, que fez com que eu me dedicasse à aviação”.

Anésia Pinheiro Machado nasceu em 5 de junho de 1904, em Itapetininga, em São Paulo. Cursou a faculdade de Farmácia e trabalhou no Diário de Itapetininga. Foi durante a Festa do Divino, na Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, em 1920, em sua cidade natal, que Anésia viu um avião pela primeira vez e se apaixonou pela aviação. Mudou-se para São Paulo, aos 17 anos, e iniciou o curso de pilotagem, tendo como instrutor o piloto alemão Fritz Roesler. Ela e Thereza de Marzo (1903-1986) realizaram seus voos solos no mesmo dia, 17 de março de 1922.

Mas Teresa recebeu o brevê número 76, em 8 de abril, e Anésia, no dia seguinte, recebeu o brevê 77 da Federação Aeronáutica Internacional. Foram examinadas por Luiz Ferreira Guimarães e Delamare Garcia, da comissão do Aero Club Brasileiro  (O Paiz, 11 de abril de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Em 23 de abril de 1922, tornou-se a primeira mulher a realizar um voo com passageiro. Foi também a primeira brasileira a realizar um voo acrobático. E, em 18 de maio de 1922, pilotando um Caudron G3, conquistou o recorde feminino de voo em altitude até então,  alcançando 94.124 metros.

 

Em 10 de junho, voou de São Paulo a Santos na companhia de seu mecânico e de Paulo Duarte, redator de O Estado de São Paulo (O Paiz, 11 de junho de 1922, quarta coluna).

Em 8 de julho, participou, no prado da Mooca, em São Paulo, da homenagem promovida pelo Aero Club aos aviadores portugueses Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), que haviam feito a primeira travessia aérea do Atlântico Sul entre 30 de março e 17 de junho de 1922. Anésia ficou em terceiro lugar, depois de Edu Chaves (1887-1975) e Steckmann (?-?), na prova de velocidade realizada durante o evento (O Paiz, 9 de julho de 1922, quarta coluna).

Na ocasião da comemoração do Centenário da Independência, no avião monomotor Caudron G3, Anésia iniciou o voo no qual cruzou 442 quilômetros que separam São Paulo e o Rio de Janeiro. Partiu do Campo de Higianópolis, em 5 de setembro, tendo pousado em Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro e Pinheiro. Seu destino final foi o Campo dos Afonsos, onde chegou no dia 8 de setembro (O Paiz, 1° de janeiro de 1922, sexta colunaO Paiz, 26 de abril de 1922, penúltima coluna; O Paiz, 29 de agosto de 1922, quarta coluna; O Paiz, 5 de setembro de 1922, quinta coluna; O Paiz, 6 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 7 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 8 e 9 de setembro de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Foi a primeira mulher a realizar a façanha, que teve muita visibilidade, e usou o fato para divulgar o movimento feminista. Recebeu um bilhete de Santos Dumont parabenizando-a por seu voo. Junto com o bilhete, ele enviou uma réplica da medalha de São Bento que havia recebido da Princesa Isabel (1846 -1921) e que Anésia levou consigo por toda a sua vida.

 

No artigo A relíquia, o autor reclamou da ausência de uma homenagem às mulheres durante a comemoração do centenário da independência e propôs que o avião em que Anésia havia realizado o voo entre São Paulo e Rio fosse adquirido e elevado à condição de relíquia (O Paiz, 13 de setembro de 1922´, quarta coluna).

Foi homenageada no Theatro São Pedro, na apresentação da peça Amor à terra, de Octavio Rangel (O Paiz, 19 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Em 27 de setembro, visitou a Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas. No dia seguinte, o Conselho Municipal aprovou uma premiação em dinheiro para ela (O Paiz, 28 de setembro de 1922, quarta colunaO Paiz, 29 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Ainda no mesmo ano, como delegada da Liga Paulista pelo Progresso Feminino participou do I Congresso Feminista Internacional, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, entre 19 e 23 de dezembro, no edifício Silogeu, do Instituto dos Advogados, no centro do Rio de Janeiro, e em Petrópolis.

 

 

Participou da Revolução de 1924, motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Os rebeldes, sob a liderança do general Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949), pretendiam derrubar o governo de Artur Bernardes (1875 – 1955), instituir o voto secreto, fazer mudanças no ensino público e realizar reformas sociais. A rebelião eclodiu, em 5 de julho de 1924, e durou 23 dias. Os rebeldes foram derrotados pelas tropas legalistas do governo federal. Uma das missões de Anésia foi sobrevoar as tropas legalistas e o encouraçado Minas Gerais, jogando flores e panfletos nos quais estava escrito “E se fosse uma bomba?”. Por isso foi proibida de voar até 1939, quando retomou suas atividades. Neste ínterim voltou ao jornalismo e manteve uma coluna sobre aviação no jornal O Paiz. Também trabalhou como jornalista no Departamento de Imprensa e Propaganda e na Assembleia Legislativa (Correio Paulistano, 12 de setembro de 1924, sexta coluna; Correio Paulistano, 1º de janeiro de 1925, penúltima coluna).

Foi publicada uma entrevista com ela na revista Paratodos, de março de 1926.

Em 1940, recebeu do Departamento de Aviação Civil a licença de piloto privado e comercial, em julho e em agosto, respectivamente. No mesmo ano, participou do Campeonato da Semana da Asa e ficou na quinta colocação na prova Cruzeiro do Sul e, na de acrobacia aérea, a quarta coloção.

Ainda nos primeiros anos da década de 40 foi habilitada como instrutora de voo e piloto de voo por instrumentos.

 

 

Sua perícia na execução de acrobacias aéreas, no campo de Manguinhos, onde havia um curso de pilotagem mantido pelo Aero Club Brasileiro, impressionou Mrs. Ulysses Grant McQueen, presidente da Women´s International Association of Aeronautics dos Estados Unidos, durante sua viagem ao Rio de Janeiro. Na ocasião, Anésia manifestou sua insatisfação em relação à diferença das oportunidades dadas aos aviadores homens, sempre muito mais estimulados do que as aviadoras (A Noite, 15 de maio de 1940).

 

 

No livro Frontier by air (1942), a escritora e jornalista Alice Roger Hager (1894-1969) deixou registrado que “Anésia é a melhor piloto do país, não havia dúvidas sobre sua habilidade. Quando fomos ao Aeroclube ela pegou um pequeno Bucher e superou qualquer piloto acrobático que eu já vi”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, foi convidada pela Federal Aviation Administration para realizar um curso avançado de aviação nos Estados Unidos.

 

 

Entre 1944 e 1948, trabalhou como  piloto e instrutora de voo na Panair do Brasil, e no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, da Força Aérea Brasileira.

 

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Anésia, em 1948, com Donald Dionne, instrutor chefe da Pan American Airways / Instituto Smithsonion , EUA

 

Em 1951,  voou de Nova York para o Rio de Janeiro tornando-se a primeira mulher a pilotar um voo transcontinental, quando percorreu mais de 17 mil quilômetros entre Nova York e Rio de Janeiro em um avião Kian-Navion Super 260. No mesmo ano, atravessou a Cordilheira dos Andes voando de Santiago do Chile a Mendoza, na Argentina.

Em 1954, durante a Conferência de Istambul, foi reconhecida pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI), como Decana Mundial da Aviação Feminina, por ser a detentora do brevê mais antigo do mundo ainda em atividade de voo. Na ocasião recebeu o diploma Paul Tissandier.

No ano em que foi celebrado os 50 anos do primeiro voo de avião de Santos Dumont, 1956, Anésia começou uma campanha de difusão do nome do aviador pelo mundo. Conseguiu que uma réplica do avião 14-Bis e do dirigível de Santos Dumont fossem doados ao Museu de Aviação Smithsonion, em Washington. Também lutou para que o nome de Santos Dumont fosse dado a uma das crateras da Lua, nomeada pela União Astronômica Internacional (IAU) em 20 de julho de 1973, data do centenário de nascimento do aviador. A cratera Santos Dumont está localizada nas imediações do lugar onde pousou a nave espacial Apollo 15, em 1971, que executou a primeira missão de caráter eminentemente científico e a primeira que utilizou o jipe lunar. A decisão foi aprovada durante a a 15ª Assembleia Geral da União Aeronáutica Internacional, realizada na Austrália, em agosto de 1973 (O Estado de Mato Grosso, 12 de agosto de 1973).

Ao longo de sua vida, foi condecorada com 19 medalhas nacionais e sete internacionais, dentre elas a Edward Warner, a mais alta distinção da Organização da Aviação Civil Internacional, que recebeu em 1989 por seu pioneirismo e por sua participação no desenvolvimento da aviação civil na América Latina. Era uma das integrantes do Ninety-Nines: Organização Internacional de Mulheres Pilotos, também conhecida como The 99s ou As 99, uma organização internacional voltada para pilotos do sexo feminino. Foi fundada em 1929 por um grupo de mulheres aviadoras sob a liderança de Amelia Earhart (1897-1937), pioneira da aviação dos Estados Unidos.

Anésia faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1999, no Hospital do Galeão (Jornal do Brasil, 11 de junho de 1999). Seu corpo foi cremado e suas cinzas estão em uma urna que faz parte do acervo do Museu de Cambangu em Santos Dumont, cidade de Minas Gerais.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Mulheres na aviação – Embraer

Portal G1

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site Marcos Palhares

Site Ministério da Defesa Força Aérea Brasileira

Site Museu Aeroespacial

Site Organização da Aviação Civil Internacional

Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo

A ideia da realização deste artigo foi de Roberta Mociaro Zanatta, Supervisora do Núcleo de Catalogação do Instituto Moreira Salles e uma das gestoras da Brasiliana Fotográfica, quando o doutor em Design, Fabio Mariano Cruz Pereira, achou a fotografia “Rua Direita”, produzida por Frédéric Manuel (1868-1961), no acervo da Brasiliana Fotográfica e pediu autorização para utilizá-la em uma publicação que ele havia escrito em conjunto com as docentes Priscila Lena Farias (FAU USP, Brasil) e Emanuela Bonini Lessing (Università IUAV di Venezia, Itália). Entrei em contato com Fabio e combinamos o tema que resultou no texto, escrito por ele, “Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo”, com destaque para a referida imagem, pertencente à Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal. Publicação, ao final do artigo, de um brevíssimo perfil do francês Frédéric Manuel, autor da foto, escrito por Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal.

Luzes da impressão

Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo

Fabio Mariano Cruz Pereira*

 

 

 

Em 1906, a Rua Direita, uma das mais importantes do centro histórico da cidade de São Paulo, foi capturada pelo fotógrafo Frédéric Manuel (1868-1961) em uma chapa seca de gelatina e prata. A captura retrata o lado de numeração par da rua, na direção da igreja de Santo Antônio, que ainda hoje se encontra de frente para a atual Praça do Patriarca José Bonifácio. A captura foi realizada nas imediações do escritório[1] da antiga Tipografia Duprat & Cia, na altura do então número 14, e que se apresenta em primeiro plano.[2]

São poucas as fontes de informações a respeito de Frédéric Manuel em São Paulo. O historiador Eric Lemos recuperou alguns dados a respeito desse imigrante francês que produziu imagens seriadas pelo interior paulista no início do século XX, fornecendo conteúdo para a produção de impressos como o Guia Levi (que aparece anotado sobre a fotografia da Rua Direita).

“Transitando entre a pintura e a fotografia, Frédéric Manuel, francês nascido em Paris, chegou ao Brasil durante a década de 1890, estabelecendo-se no Rio de Janeiro para atuar na Companhia Photographica Brazileira de Juan Gutierrez. Transferiu-se posteriormente para São Paulo, onde trabalhou no Estabelecimento Gráfico V. Steidel, manteve ateliê fotográfico na antiga rua Olinda (atual rua João Guimarães Rosa), na Consolação, e permaneceu como fotógrafo do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo até 1940″ (Lemos, 2022,  p. 60).

A Tipografia Duprat & Cia faz parte do levantamento realizado pela equipe de pesquisa ligada ao projeto Tipografia Paulistana, coordenado pela Docente Priscila Farias, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP).[3] Tal projeto tem ajudado a coletar sistematicamente informações preciosas sobre as oficinas tipográficas que existiram entre 1827 e 1927 – período que corresponde aos primeiros cem anos de impressão na cidade.

A Tipografia Duprat & Cia teve seu início em 1902, depois de suceder ao estabelecimento gráfico da Companhia Industrial de São Paulo que era uma sociedade anônima que atuava em vários ramos da indústria, desde a fabricação de fósforos no bairro da Vila Mariana, compra e venda de terrenos na capital e em Santo Amaro, administração e financiamento de estabelecimentos industriais, construção de imóveis de habitação, estradas de ferro, usinas etc., passando também pela produção de impressos.

A Tipografia da Companhia Industrial de São Paulo vinha de uma sucessão ainda mais antiga, quando adquiriu, por volta de 1890, o material tipográfico da antiga oficina Ao Livro Verde, de Jorge Seckler, que por sua vez foi um importante impressor alemão estabelecido em São Paulo no século XIX e que havia adquirido, por volta de 1862, a oficina de encadernação de Hermann Knoesel. Seckler foi o responsável por produzir impressos importantes que circularam na São Paulo oitocentista, entre eles a longeva série de almanaques comerciais paulistas,[4] hoje dispersos em diferentes instituições arquivísticas, coleções particulares e bibliotecas de obras raras.[5]

Detenho-me um pouco mais sobre a interessante sucessão de oficinas tipográficas, fenômeno que envolvia não apenas o fortalecimento das redes de contato entre os capitalistas do período como também, do ponto de vista material, a transferência e continuidade de diversos estilos de letra adquiridos e mantidos por diferentes gráficos ao longo dos anos. São exemplos a Typographia Pauperio que deu origem à Cardozo, Filho & Motta; a Espindola, Siqueira & Cia, que deu origem à Typographia Siqueira e à Casa Espindola; e também a M. L. Bühnaeds & Cia que deu origem à Weiszflog Irmãos.

As três sucessões ocorridas desde o antigo encadernador Hermann Knoesel, passando por Jorge Seckler, e depois a Companhia Industrial de São Paulo, até finalmente culminar na formação da Duprat & Cia, remontam a uma história de quase meio século. A busca por um passado glorioso, validado pela experiência de antigos mestres tipógrafos e encadernadores na cidade, parece ter motivado os proprietários da Duprat & Cia a se orgulhar de um passado ao qual acreditavam pertencer, a ponto de se identificarem em seus impressos (e também na fachada de sua oficina na Rua 25 de Março) como uma “Casa fundada em 1850” em pleno início do século XX. Esse legado que os irmãos Duprat não hesitavam enaltecer, certamente tinha que ver com os estilos de letra que atravessaram décadas através do papel e da solidez metálica dos tipos, garantindo uma certa aparência a impressos produzidos por diferentes empresas.

Gostaria de convidar o leitor a fixar, por um momento, o olhar na fotografia de Frédéric Manuel para então forçar a imaginação a fim de se colocar em uma época onde não se podia consultar as notícias em um smartphone. Não havia websites ou redes sociais; aliás, a luz elétrica ainda era uma novidade. Quase ninguém possuía carro ou telefone. E também não era possível morar tão longe do ambiente de trabalho, pois os sistemas de transporte público eram limitados e operavam em uma escala muito menor em relação àquela que nos habituamos nos contextos mais recentes. Imaginando-se nessa época, é fácil compreender a importância dos serviços criados para atender às necessidades de comunicação. Os correios eram mais que um serviço de remessa de documentos, eram, pois, um meio de comunicação pessoal cujas mensagens podiam levar dias para alcançar o receptor – sem contar que boa parte da população não sabia ler e escrever, e ainda não havia sido inventada a mensagem de áudio.

É nesse contexto em que as antigas oficinas tipográficas atuavam, fornecendo impressos que circulavam nos mais diversos espaços sociais, facilitando que as notícias chegassem a quem de direito e permitindo que as letras impressas tivessem os destinos mais inesperados. Comunicar novas regras em uma cidade que, ainda tão provinciana, buscava consolidar os interesses de uma recém-instaurada república, reclamava um sistema robusto e eficiente de comunicação local. Não foi, portanto, à toa que as oficinas tipográficas se espalharam em números vultosos pela cidade de São Paulo a partir da última década do século XIX (Pereira e Farias, 2021, p. 28).

Quando Frédéric Manuel flagrou o aspecto da famosa Rua Direita, a Duprat & Cia contava com apenas quatro anos de atividade. Seus proprietários eram os irmãos Duprat, naturais de Recife (PE). Um deles, Alfredo, foi o responsável pela assinatura, em 31 de março de 1902, que selou o registro da nova empresa frente à prefeitura[6]; o segundo irmão, Raymundo, também conhecido como Barão de Duprat (1863-1926), foi ninguém menos que um destacado vereador de São Paulo e, alguns anos depois, o segundo prefeito da cidade (entre 1911 e 1914), e que já havia trabalhado como contador na antiga Companhia Industrial de São Paulo – dona da tipografia que a Duprat & Cia veio a suceder. O leitor atento irá presumir facilmente que, para os irmãos Duprat, o investimento no setor gráfico se ancorava em alicerces sólidos, desde aqueles nobiliárquicos às influências de ordem política. Não à toa a Duprat & Cia existiu por cerca de 35 anos. Ao longo desse período, podemos destacar ao menos dois momentos muito importantes. O primeiro aconteceu provavelmente em meados dos anos 1910, quando a empresa buscou um novo reposicionamento no centro comercial de São Paulo, mudando seu escritório para uma região mais próxima da Igreja da Sé (mas ainda na Rua Direita). Naquele momento, a oficina já dispunha de um imponente edifício instalado em frente à região alagadiça da 25 de Março, onde operavam modernas máquinas elétricas. Propuseram, então, um nome comercial: inicialmente “Companhia Graphica Paulista Duprat”, e, posteriormente, Casa Duprat, grafia que se manteria pelo menos até o início da década de 1930. O segundo momento importante se deu após a morte de Raymundo Duprat em 1926, quando, alguns anos depois, a empresa anunciou sua união com a Casa Mayença, dos irmãos Paternostro, ocorrida provavelmente por volta de 1929. A falência definitiva da empresa seria decretada apenas em 1937, sob a firma societária Duprat & Filhos, e quando instalada no número 28 da Rua de São Bento.[7]

O estudo de estabelecimentos comerciais e fabris por meio de fotografias antigas se insere em uma prática de pesquisa que se utiliza do testemunho fotográfico como fonte primária. Posso citar alguns exemplos interessantes. Um deles é o trabalho do historiador Carlos José Ferreira dos Santos, que, através do exame de registros fotográficos antigos, identificou a presença significativa de carroceiros atuantes na cidade de São Paulo nos primeiros anos do período republicano (Santos, 2008: 139). Outro trabalho interessante é o da professora de sociologia Fraya Frehse, quando, a partir do contato com os registros fotográficos de Militão de Azevedo, realizados no século XIX, deteve-se nas características de animais, veículos e agentes sociais integrados ao ambiente urbano daquela época. Segundo a autora, as fotografias podem ser consideradas “documentos visuais de um imaginário específico de época, do qual o fotógrafo é, sem saber, porta-voz” (Frehse, p. 54).

Por meio do contato com a produção fotográfica realizada no início do século XX, podemos reconhecer a presença de diversas empresas de impressão espalhadas pela cidade de São Paulo, seus endereços, porte físico, relação com o entorno imediato, movimentação de possíveis clientes etc., quase sempre identificadas pelos letreiros que foram instalados em suas fachadas. A escala desses letreiros é curiosa, pois, em muitos casos, como no exemplo da foto em questão, o letreiro se apresenta em uma dimensão mais indicada para longas distâncias. Apesar da Rua Direita não ser muito larga e tampouco estar inserida em posição mais alta em relação às demais ruas, o tamanho do letreiro da oficina parece resultar de uma escolha mais retórica que efetivamente funcional.

O fato de oficinas como a Duprat & Cia instalarem, em suas fachadas, letreiros de grande escala nos revela pelo menos duas coisas importantes sobre a época: a primeira delas é que havia quem fizesse letreiros em grande escala – profissionais ainda pouco conhecidos dos estudos sobre a história dos ofícios urbanos; a segunda é que havia algum interesse em se comunicar com ruas mais distantes, muitas vezes para além do centro comercial, sugerindo que o endereço físico das tipografias eram determinantes nas relações comerciais estabelecidas no campo gráfico local, isto é, o espaço das oficinas tipográficas exercia uma função agregadora, reunindo impressores, artistas, clientes, fornecedores, carroceiros etc.

As antigas oficinas tipográficas brasileiras são ainda pouco conhecidas em nossa história. Embora muito do que elas tenham produzido ainda circule entre nós (em sua maioria livros), restaram poucas informações sobre essas empresas, suas formas de identificação e principalmente sobre os operários que elas contratavam. São parte de um grupo de empresas cuja atividade principal se tornou obsoleta devido à eficiência de outros sistemas produtivos que surgiram ao longo do tempo. Salvo algumas exceções de oficinas que ainda operam de modo didático ou experimental com vistas à revalorização da tipografia como sistema de composição e impressão de textos e imagens.[8]

Gostaria de encerrar esse breve ensaio ressaltando a importância das coleções fotográficas para um melhor entendimento sobre o nosso passado. A Brasiliana Fotográfica desenvolve um trabalho notável para a pesquisa histórica no Brasil, ao lidar com o desafio diário de preservar e difundir registros do passado. Iniciativas como essa permitem a produção de conhecimento tanto a partir da fotografia quanto sobre a fotografia e merecem a nossa mais sincera admiração.

 

[1] Era comum que as tipografias do período tivessem dois endereços: o do “escritório de representação” (às vezes denominado “loja”), geralmente instalado no centro comercial; e o da “oficina” (ou “depósito”), geralmente instalada em uma região mais afastada do centro comercial, onde normalmente eram realizadas as atividades de composição e impressão.

[2] O mesmo prédio aparece em outra fotografia, de autoria desconhecida, também sob a custódia da Brasiliana Fotográfica, com a informação de que o conjunto arquitetônico fora demolido em 1909. Ver: http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=87209.

[3] Ver: https://fau.usp.br/tipografiapaulistana/

[4] A oficina de Jorge Seckler também foi a responsável pela impressão, em 1890, dos Estatutos da Companhia Industrial de São Paulo – empresa que, no mesmo ano, a sucedeu (Companhia Industrial de S. Paulo, 1890). Tal estatuto encontra-se arquivado no depósito relacionado ao 1º Cartório de Notas de São Paulo, custodiado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, cx. 10309, nº 342.

[5] Para mais informações sobre Jorge Seckler, ver: Farias e Onoda (2015).

[6] Como registrado na página 1.545 do livro Responsabilidades de Oficinas Tipográficas (1899-1907), vol. II, custodiado pelo Arquivo Histórico Municipal de São Paulo.

[7] As informações sobre os últimos anos da Duprat & C. foram recuperadas de antigas edições do Correio Paulistano: 18 mai 1926 (p. 4); 26 fev 1929 (12); 10 jun 1930 (p. 5); 14 dez 1937 (p. 13).

[8] Algumas dessas iniciativas estão relatadas em pelo menos duas importantes publicações. A primeira é o ensaio que nos traz uma reflexão sobre os interesses atuais na antiga tipografia, tendo como foco o contexto italiano (Lessing, Bulegato e Farias, 2019), a segunda é o livro organizado pelas professoras Ana Utsch e Marina Gravier com relatos que discutem diferentes iniciativas de preservação do que poderíamos chamar de “patrimônio gráfico” tendo como foco os países latino-americanos (Utsch e Gravier, 2019).

 

* Fabio Mariano Cruz Pereira é doutor em Design pela Universidade de São Paulo, Brasil, e pela Universitá IUAV de Veneza, Itália. É designer gráfico e pesquisador do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

 

 Referências:

COMPANHIA INDUSTRIAL DE S. PAULO. Estatutos da Companhia Industrial de São Paulo. São Paulo: Typographia a Vapor de Jorge Seckler & Comp., 1890.

CORREIO PAULISTANO. Edições de: 18 mai 1926 (p. 4); 26 fev 1929 (12); 10 jun 1930 (p. 5); 14 dez 1937 (p. 13). Biblioteca Nacional Digital. Disponíveis em: https://memoria.bn.gov.br/hdb/periodico.aspx. Acessos em 11 jul 2024.

FARIAS, P. L.; ONODA, M. A.; Letras toscanas no repertório tipográfico de Jorge Seckler (1883-1895). In: SPINILLO, C. G.; FADEL, L. M.; SOUTO, V. T.; SILVA, T. B. P.; CAMARA, R. J. (Eds). Anais do 7º Congresso Internacional de Design da Informação | CIDI 2015 [Blucher Design Proceedings, num.2, vol.2]. São Paulo: Blucher, 2015.

FREHSE, Fraya. O começo do fim da São Paulo caipira. In: FERNANDES JUNIOR, Rubens; BARBUY, Heloisa; FREHSE, Fraya. Militão Augusto de Azevedo. São Paulo: Cosac Naify, p. 50-73, 2012.

LEMOS, Eric Danzi. Artífices da paisagem. In: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes; NASCIMENTO, Ana Paula. Mundos do trabalho. Coleção Museu do Ipiranga, vol. 4. São Paulo: Edusp, p. 58-63, 2022.

LESSING, Emanuela Bonini; BULEGATO, Fiorella; FARIAS, Priscila Lena. La tipografia come new craft: riflessioni storiche e pratiche di riattualizzazione. MD Journal, vol. 7, p. 146-159, 2019.

PEREIRA, Fabio Mariano Cruz; FARIAS, Priscila Lena. Anúncios de oficinas tipográficas paulistanas (1900-1930). Infodesign, vol. 18, n. 2, p. 27-36, 2021.

SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza: 1890-1915. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.

UTSCH, Ana; GRAVIER, Marina Garone (Orgs). Encontros em torno de tipos e livros. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2019.

 

Frédéric Manuel (1868 – 1961)

Andrea C. T. Wanderley*

As fotografias paulistanas do francês Frédéric Manuel (1868 – 1961), sobre quem há ainda pouquíssima informação, foram realizadas, em 1906, para Menotti Levi (18? – 19?), editor do Guia Levi, publicado, em São Paulo, de 1899 a meados até 1984 (Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1900, penúltima colunaA Notícia (RJ), 27 e 28 de agosto de 1906, segunda coluna), cuja utilidade já está comprovada pela aceitação que o público lhe dispensa (Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1905, penúltima coluna). O Guia Levi era uma publicação mensal de horários de trens, de bondes e outras informações úteis (Correio Paulistano, 8 de agosto de 1908, penúltima coluna), Uma curiosidade: o grande arquiteto e urbanista paulistano Rino di Menotti Levi (1901 – 1965) é filho de Menotti Levi.

 

Acessando o link para as fotografias de São Paulo produzidas por Frédéric Manuel, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

*Andrea C. T. Wanderley é pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” IV – Os 100 anos dos Diários Associados

Hoje os Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, completam 100 anos. Foi em 2 de outubro de 1924 que O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários foi comprado pelo empresário paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968).

 

 

O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o já mencionado O Jornal; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931.

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo dos Diários Associados pertencentes ao Instituto Moreira Salles e de dois registros de Assis Chateaubriand que pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados

 

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, comprou, em 2 de outubro de 1924, O Jornal, fundado em 17 de junho de 1919, por Renato Toledo Lopes e um grupo de dissidentes do Jornal do Commercio. Seu nome, O Jornal, foi uma provocação: era assim que o Jornal do Commercio era chamado internamente. O Jornal tornou-se o primeiro veículo de comunicação dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados da história da imprensa brasileira (O Jornal, 2 de outubro de 1924, primeira coluna).

 

 

Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários. Também mudou a diagramação, reorganizando a paginação gráfica e as técnicas de ilustração.

Seus primeiros diretores foram A. Cruz Santos e o próprio Chateaubriand. Sabóia de Medeiros (18?-19?) era o redator-chefe, mas foi logo substituído por Austregésilo de Athayde (1898-1993), grande amigo de Chatô, que permaneceu por toda sua vida nos DA. O ex-presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), era o presidente da empresa e Alfredo Pujol (1865-1930) e Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), seus diretores. Entre os colaboradores do matutino estavam Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) (1893-1983), Capistrano de Abreu (1853-1927), Pandiá Calógeras (1870-1934), Humberto de Campos (1886-1934), Paulo de Castro Maya (1895-1928), Carlos de Laet (1847-1927) e Ferdinando Laboriau (1893-1928). Na área internacional, colaboravam  Ruddyard Kipling (1865-1936), prêmio Nobel de Literatura; o ex-premier francês Raymond Poincaré (1860-1934), e o também ex-premier britânico Lloyd George (1863-1945).

 

 

Fechou suas portas, em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz (1938 – 2022) foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993). Chegava ao fim o órgão pioneiro e líder dos Diários Associados (RJ).

 

Diários Associados – acervos fotográficos no Instituto Moreira Salles

 

 Agência Meridional de Notícias (1931 – ) 

A Agência Meridional de Notícias foi fundada em agosto de 1931 e foi a primeira agência de notícias do Brasil. O principal objetivo de Chateaubriand era otimizar e racionalizar entre os jornais de seu conglomerado o intercâmbio de textos e fotos. Seria mais barato que as notícias das editorias nacional, de economia e internacional tivesses tanto sua produção tanto centralizada como compartilhada. Assim, os jornais se ocupariam da cobertura local. Ainda em 1931, Chateaubriand comprou o Diário de Pernambuco (Recife), o mais antigo jornal brasileiro em circulação; e fundou o Diário da Tarde (Belo Horizonte). Na ocasião, já faziam parte dos Diários Associados o Diário da Noite (edições Rio e SP)Diário de Notícias (Porto Alegre),  o Diário de S. Paulo, Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Jornal (Rio de Janeiro). Chateaubriand também já era proprietário das revistas A Cigarra O Cruzeiro e das juvenis Detetive O Guri. Foi pela Agência Meridional que o repórter Joel Silveira (1918 – 2007) foi enviado para cobrir a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial com a seguinte recomendação de Chateaubriand, que se tornou famosa: “Mas não me morra, seu Joel! Repórter é pra mandar matéria, não pra morrer!Em 2007, a Agência Meridional passou a usar nome de D.A. Press. 

Diário da Noite (RJ) (1929 – 1973) 

Em 5 de outubro de 1929, lançamento do Diário da Noite, do Rio de Janeiro, que, feito em duas semanas, no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. Complementava o matutino O Jornal, também de Assis Chateaubriand e tinha duas edições diárias, a primeira saía às 15h. Era dirigido por Chateaubriand, Cumplido de Sant´Anna e Frederico Barata. Apresentava-se como um membro da vanguarda do movimento liberal. Opunha-se ao regime oligárquico da República Velha e defendia a Aliança Liberal. Foi nesse jornal que Nelson Rodrigues escreveu folhetins usando o pseudônimo de Susana Flag. Teve como colaborares Antônio Maria (1921 – 1964), Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta e o humorista Aparício Torelly (1895 – 1971), dentre outros. Circulou até junho de 1973.

 

Jornal do Commercio (RJ) (1827 – 2016) 

Assis Chateaubriand comprou o Jornal do Commercio de San Tiago Dantas, em 2 de abril de 1959. Instalado na rua Sacadura Cabral nº 103, passou a ser dirigido por Carlos Rizzini, e voltou à linha editorial conservadora, enfatizando o noticiário econômico, dirigido aos empresários do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio havia sido fundado em 31 de agosto de 1827, pelo tipógrafo e livreiro francês Pierre Plancher (1779 – 1844). Sua primeira edição, com quatro páginas, circulou no Rio de Janeiro em 1º de outubro do mesmo ano. No dia 29 de abril de 2016, foi para as ruas a sua última edição. Era o segundo periódico diário mais antigo do Brasil, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1925. Seu presidente era Mauricio Dinepi (1953 – 2025).

 

O Jornal (1919 – 1974)

Em 1924, Assis Chateaubriand comprou O Jornal, fundado em 1919o primeiro elo e o órgão líder da cadeia dos Diários Associados. Nele, Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários – como em sua diagramação – reorganizando a paginação gráfica, do colunismo e das técnicas de ilustração. Fechou suas portas em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde. Chegava ao fim o órgão líder dos Diários Associados.

 

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica com fotografias do acervo dos Diários Associados

Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 30 de maio de 2018.

 

 

 

A Casa dos Artistas nos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 26 de agosto de 2019.

 

 

 

O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 3 de fevereiro de 2023.

 

 

Brevíssimo perfil de Assis Chateaubriand e dos Diários Associados

 

A imprensa brasileira pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Assis Chateaubriand. Conhecido como Chatô e nascido em 4 de outubro de 1892, em Umbuzeiro, tornou-se um magnata das comunicações no Brasil. Foi considerado o Cidadão Kane brasileiro, uma alusão ao filme homônimo de Orson Welles (1915-1985), supostamente baseado na vida do empresário norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), criador de uma enorme rede de jornais em seu país.

Chateaubriand foi uma personalidade polêmica e controversa e um dos mais poderosos e influentes homens públicos da história do país. Em seu auge, os Diários Associados chegaram a ter mais de cem jornais, emissoras de televisão e rádio, revistas e agência telegráfica. Um verdadeiro império de mídia.

Além de jornalista, Chatô foi advogado, embaixador, escritor, mecenas e político. Em 30 de dezembro de 1954, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Getúlio Vargas (1882-1954).  Tomou posse em 27 de agosto de 1955.

 

 

Uma das revistas do império de Chateaubriand, a O Cruzeiro, foi muito importante na história da fotografia no Brasil, tendo dignificado a profissão de repórter fotográfico. Foi publicada pela primeira vez, em 10 de novembro de 1928, e, entre as décadas de 40 e 50, pela utilização de fotografias, enfatizando o fotojornalismo, e por seu conteúdo e projeto gráfico arrojados, representou uma revolução no mercado editorial brasileiro. Seu primeiro diretor foi Carlos Malheiros Dias (1875 – 1941), sucedido por Antônio Accioly Neto (1906-2001) e José Amádio (1923-1992). Dentre importantes fotógrafos que atuaram na revista, destacamos Flávio Damm (1928-2020), Henri Ballot (1921-1997), Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Luciano Carneiro (1926 – 1959) e Peter Scheier (1908-1979). Em julho de 1975, a revista deixou de circular.

 

 

Chatô fundou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), inaugurado em 2 de outubro de 1947. O  crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999), parceiro de Chateaubriand na criação do museu, assumiu sua direção, cargo que ocupou até 1990. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas por Pietro e adquiridas a partir de doações. O museu foi instalado, inicialmente, no prédio,  na época ainda não finalizado, que abrigaria a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

 

 

Em 7 de novembro de 1968, o MASP foi transferido para a Avenida Paulista, sua sede atual, projeto arquitetônico arrojado da romana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), casada com Pietro desde 1946, ano em que vieram para o Brasil. O MASP possui o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério sul. A coleção do museu reúne mais de 11 mil obras, incluindo esculturas, fotografias, objetos, pinturas e vestuários de diversos períodos, abrangendo a produção africana, asiática, europeia e das Américas.

 

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O MASP por Hans Gunter Flieg (1923-2024), 1968 / Acervo IMS

 

Chatô foi também o responsável pela chegada da televisão ao Brasil quando, em 18 de setembro de 1950, inaugurou a primeira emissora de TV do país, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, no chamado Palácio do Rádio. Participaram da cerimônia o próprio Chateaubriand, o bispo Dom Paulo Rollim Loureiro (1908 – 1975)  e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975). À noite, numa festa no Automóvel Clube, autoridades e convidados assistiram à primeira transmissão. Existiam menos de mil aparelhos receptores de TV. Com apenas três câmeras e com profissionais como Cassiano Gabus Mendes (1927 – 1993), Homero Silva (1918-1981), Walter Avancini (1935-2001) e Walter Forster (1917-1996), começava a história da TV brasileira. A TV Tupi saiu do ar em 17 de julho de 1980.

 

World Tv: TV Tupi. A Pioneira!

 

A TV Pioneira do Brasil - A História da Tupi

Assista aqui a primeira vinheta da TV Tupi 

 

Ao longo da década de 50, Chateaubriand foi senador da República pela Paraíba e pelo Maranhão. Em 1957,  renunciou ao cargo porque foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) embaixador do Brasil na Inglaterra. Porém ficava mais tempo no Brasil do que na Inglaterra, fato muito criticado por diplomatas de carreira e também pelos jornais que faziam oposição a ele.  O posto era exercido de fato pelo diplomata Antônio Castello Branco (1916-2001).

 

 

Em 26 de setembro de 1959, Chateaubriand assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do controle acionário dos Diários e Emissoras Associados, então o maior império de comunicações da América Latina. Estava criado o Condomínio Acionário Diários e Rádios Associados. Na época, o conglomerado era composto pelas duas revistas mais importantes do país dirigidas a adultos, 12 revistas infantis, dezenas de jornais, 28 estações de rádio, seis estações de televisão, agências de notícias e agências de propaganda (O Jornal, 27 de setembro de 1959, primeira coluna).

Em fevereiro de 1960, Chatô foi levado para a Clínica Doutor Eiras, sob suspeita de enfarte. Foi atendido por um jovem médico que chamou o neurocirurgião Abrahão Ackerman, um dos donos do hospital. Após examiná-lo, constatou que Chateaubriand havia sofrido uma trombose cerebral dupla e que não iria sobreviver (O Jornal, 25 de fevereiro de 1960, primeira coluna; O Cruzeiro, 9 de abril de 1960). Ficou hospitalizado até fim de agosto de 1960 e viveu mais 8 anos (O Jornal, 4 de setembro de 1960, última coluna). Comunicava-se por balbucios e usava uma máquina de escrever adaptada. Continuou, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. O primeiro após a doença, Compromisso de Sangue, foi publicado em O Jornal de 4 de setembro de 1960.

 

 

 

Em julho de 1962, doou os 51% restantes das ações e quotas que possuía dos Diários e Emissoras Associados aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%. Seus filhos foram excluídos desta segunda partilha.

Teve um colapso cardíaco e faleceu, em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, em 4 de abril de 1968. Foi velado, no saguão do prédio dos Diários Associados em São Paulo (O Jornal, 5 de abril e 6 de abril de 1968). Pietro Maria Bardi mandou colocar telas do MASP em torno do caixão de Chatô. Também escreveu o artigo Chateaubriand fundador de museus, publicado em O Cruzeiro de 20 de abril de 1968. O sepultamento do Velho Capitão, título criado para ele pelo repórter David Nasser (1917-1980)foi realizado, no dia 6 de abril, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Calmon (1916-1999), que era vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estreia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil) (CPDOC).

Foi também na década de 60, que o império formado por Chateaubriand começou a decair. Após sua morte, deflagrou-se uma crise nos Diários Associados entre João Calmon e um de seus filhos, Gilberto Chateaubriand (1925-2022), devido a divergências relativas aos rumos da empresa. Desde maio de 2023, o Condomínio Acionário dos Diários Associados é presidido pelo jornalista Josemar Gimenez (1964-).

Acesse aqui a edição de O Cruzeiro, de 20 de abril de 1968, com uma homenagem a Assis Chateaubriand.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: História dos Diários Associados. Brasília : DF. Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 10 de maio de 2023

MORAIS, Fernando. Chatô – O Rei do Brasil. Cia das Letras: São Paulo, 1994.

O Jornal, órgão líder dos Diários Associados / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria, 2007 (Cadernos da Comunicação Série Memória – vol 18).

Revista da USP

Site Academia Brasileira de Letras

Site CPDOC 

Site Diários Associados

Site São Paulo infoco

Veja, 3 de agosto de 1994

O embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960)

O embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960) 

Pedro Quinteiro Uberti sob a supervisão de Adelina Novaes e Cruz* 

 

Gaúcho da fronteira, nascido em Alegrete, em 1894, Oswaldo Aranha teve ascendente trajetória na política local até se consolidar como uma das lideranças da Aliança Liberal e do movimento que levou Getulio Vargas ao Catete. Como ministro da Justiça e Assuntos Internos e ministro da Fazenda, contribuiu ativamente na reconfiguração institucional do Estado brasileiro, iniciada com o governo provisório de Vargas.

Notabilizou-se como personagem vinculado à condução da política externa brasileira. A historiografia destaca dois grandes momentos da vida política de Aranha, para além de seu envolvimento com a Revolução de 1930. O primeiro, entre 1938 e 1944, diz respeito ao período em que serviu como chanceler do Estado Novo, sendo apontado como um dos principais responsáveis pelo apoio prestado pelo Brasil ao esforço de guerra dos Aliados. O segundo, entre 1947 e 1948, marca o momento em que Aranha presidiu a Assembleia Geral das Nações Unidas, tendo seu nome vinculado à criação do Estado de Israel e à tradição, segundo a qual, o discurso brasileiro deve ser aquele que inaugura os encontros da Assembleia.

Antes disso, no entanto, Aranha já havia deixado sua marca na diplomacia brasileira. Entre 1934, quando se desvincula do Ministério da Fazenda, e 1937, quando é decretado o Estado Novo, o político gaúcho serviu como embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

 

Acessando o link para as imagens de Oswaldo Cruz do acervo do FGV-CPDOC e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Primeiras Impressões

 

A missão de Aranha começa a bordo do Augustus, navio que o levou a Gênova. A escala na Europa, antes de seguir viagem aos Estados Unidos, marcou a percepção de Aranha em relação ao futuro das relações internacionais. Em carta escrita a Getulio, em setembro de 1934, aborda criticamente o militarismo de governantes como Benito Mussolini, indicando a iminência de um novo conflito entre as potências europeias. Pondera que:

a Europa está, meu caro, em estado potencial de guerra. Os exércitos e as esquadras não se defrontam, mas ameaçam-se. […] Os instintos estão arrepiados, como o de feras ameaçadas ou agressivas. […] Ninguém sabe como e de onde virá. Mas creio, não há ninguém que não sinta a sua proximidade. […] A Europa está dominada por uma tropilha de grandes loucos que encerram em seus punhos a sorte do mundo” (GV c 1934.09.07).

 

 

É notável o contraste das perspectivas de Aranha em relação à Europa e aos Estados Unidos. Já em solo estadunidense, exulta o progresso material do país. Em outra carta a Vargas, de novembro de 1934, ameniza os efeitos da crise financeira de 1929, apontando que “este país tem mais riquezas do que todo o resto do mundo. O orçamento de uma cidade como Chicago é maior que o da Itália. O de Nova York várias vezes o nosso. O número de automóveis numa cidade média aqui é maior do que o de todo o Brasil!” (GV c 1934.11.02).

 

Primeiras Movimentações

 

As primeiras movimentações diplomáticas de Aranha demonstram a preocupação do novo embaixador em melhorar as relações entre Brasil e Estados Unidos. O pessimismo em relação à Europa e o fascínio em relação à economia estadunidense foram acompanhados por uma calorosa recepção nos círculos políticos de Washington. Aranha percebia uma boa vontade das autoridades de Washington em relação ao Brasil. “Só posso atribuir essa amabilidade ao desejo que notei no presidente Roosevelt, durante a conversa de alguns minutos que se seguiu à apresentação de credenciais, de estreitar sempre as íntimas relações com o Brasil”, relataria Aranha ao Itamaraty após a apresentação de suas credenciais como embaixador a Roosevelt, em outubro de 1934 (ARAÚJO, 1996, p. 113).

 

 

O andamento da missão seria, portanto, facilitada, na visão de Aranha, pela situação internacional. Com a Europa na iminência de um conflito e com o recrudescimento das disputas imperialistas entre as potências, incluindo a expansão japonesa no sudeste asiático e no Pacífico, os Estados Unidos, segundo Aranha, se voltariam cada vez mais para a América Latina, em especial para o Brasil. Deveria o governo Vargas, portanto, aproveitar essa oportunidade para atingir os objetivos da política externa brasileira.

Condição necessária ao estreitamento de relações entre os dois países era, no entanto, a restruturação da representação brasileira nos Estados Unidos. Isso significou o envolvimento de Aranha na instalação da embaixada em uma mansão comprada, em agosto de 1934, por Ciro Freitas-Valle, seu primo e diplomata, a mando do Itamaraty. Segundo o embaixador “encontramos, aqui, no país onde está metade do nosso comércio, todos os funcionários amontoados em três salinhas, sem mobiliário, sem nada. Vamos ficar, hoje, com uma instalação perfeita e capaz de atender às nossas fatais necessidades futuras” (GV c 1935.03.25).

 

 

 

Uma Atuação Multifacetada 

 

É possível encontrar no triênio em que Aranha serviu como embaixador, uma série de episódios que demonstra uma atuação diplomática multifacetada, conduzida por um diplomata muito bem conectado com diferentes setores da sociedade estadunidense. Logo nos primeiros meses de missão, Aranha conduziria em Washington as negociações em torno do tratado comercial que estava sendo costurado entre Brasil e Estados Unidos enquanto, constantemente, protestava a Vargas contra o estreitamento dos laços comerciais entre Brasil e Alemanha sob a modalidade que ficou conhecida como comércio compensado. Aranha acompanharia o ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa, na assinatura do tratado junto a Roosevelt, firmado em 2 de fevereiro de 1935.

 

 

 

 

 

Aranha ainda receberia outro ministro brasileiro em Washington. João Marques dos Reis, ministro da Viação e Obras Públicas havia sido designado por Getulio para participar da 3ª  Conferência Mundial de Energia, entre setembro e outubro de 1936. Segundo o embaixador, a visita do ministro seria facilitada pela boa vontade do governo estadunidense em procurar “favorecer negócios no Brasil” (GV c 1936.10.21).

 

 

O estabelecimento de boas relações com autoridades do governo estadunidense foi um dos maiores sucessos da missão de Aranha. Não à toa, durante o triênio em que serviu em Washington, Aranha foi o embaixador estrangeiro mais recebido por Roosevelt (OLIVEIRA, in LIMA; ALMEIDA; FARIAS, 2017, p. 103). Antes mesmo de Aranha embarcar para os Estados Unidos, Roosevelt já havia sido informado que Aranha era “o iniciador do atual movimento do Brasil de se afastar um pouco da Europa e se aliar com os Estados Unidos” (HILTON, 1994, p. 202). Destaca-se, ainda, a figura de Sumner Welles, referência no Departamento de Estado em assuntos relacionados à América Latina, com quem Aranha estabeleceu íntimas relações.

 

 

 

 

Para além dos círculos oficiais de poder, Aranha empreendeu esforços no sentido de fazer o Brasil ser ouvido por distintas camadas da sociedade estadunidense. Seja viajando pelo país, como na ocasião da Feira Mundial de Chicago, em outubro de 1935, seja em contato constante com jornalistas e empresários, Aranha defendia a ideia de que “devemos procurar ser conhecidos do povo para melhor contarmos com o governo dos Estados Unidos” (GV c 1937.09.09).

 

 

 

 

 

 

 

Essa aproximação, advogada por Aranha, não se restringia apenas ao âmbito bilateral. Logo no início da missão, alertou Vargas sobre a ascensão da Política da Boa Vizinhança. Segundo o embaixador, a busca dos Estados Unidos em melhorar suas relações com os demais países americanos poderia colocar em xeque o tratamento especial que era dispensado ao Brasil. Nesse sentido, as conferências e encontros multilaterais deveriam servir de palco para o Brasil reafirmar sua posição como parceiro estratégico dos Estados Unidos no continente.

Foi exatamente o que o embaixador buscou alcançar na Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz, realizada em Buenos Aires, em 1936. Desde o momento em que Roosevelt veiculou a ideia da realização da Conferência, Aranha buscou costurar a posição entre Brasil e Estados Unidos a partir da coordenação de demandas entre a Casa Branca e o Catete, mesmo que isso significasse o desgaste na relação com Macedo Soares, seu superior na hierarquia institucional do Itamaraty. Sua atuação na Conferência lhe rendeu editoriais dos mais favoráveis na imprensa estadunidense, ao buscar o consenso entre as partes a despeito da oposição argentina aos termos do Projeto de Convenção Sobre Manutenção, Garantia e Restabelecimento da Paz.

 

 

 

 

 

 

Aranha buscava nutrir nos Estados Unidos a simpatia pelo Brasil, mas suas constantes súplicas não convenceram Getulio de visitar o país norte-americano. Conseguiu, entretanto, influenciar na visita de dois de seus filhos, Getulio e Alzira, e sua esposa, Darcy. Alzira permaneceu mais de um semestre com a família Aranha nos Estados Unidos, entre o final de 1935 e meados de 1936, período durante o qual realizou longas viagens na companhia de Luiza Zilda Aranha (Zazi) e Delminda Gudolle Aranha (Dedei) – filhas do embaixador – e Delminda Gudolle Aranha (Vindinha) – esposa do embaixador. Getulinho, como era chamado por Aranha, e Darcy encontraram Alzira e família Aranha em março de 1936. Após insistência de Aranha, Getulinho permaneceu nos Estados Unidos pelo resto do ano desenvolvendo seus estudos de inglês e química. O périplo da família Vargas nos Estados Unidos, na companhia de Aranha, serviu como ferramenta diplomática, na medida em que foram organizados encontros com empresários e jornalistas estadunidenses, além de uma conferência com Roosevelt e a primeira-dama, Eleanor.

 

 

 

 

 

 

O Fim da Missão

 

Decretado o Estado Novo em novembro de 1937, Oswaldo Aranha abdica do cargo de embaixador, alegando ter perdido sua credibilidade junto ao governo estadunidense por ter sido pego de surpresa pelo golpe. Permaneceria nos Estados Unidos até dezembro, num esforço de amenizar as críticas da imprensa sobre a ruptura institucional em curso no Brasil. Seus relatórios a Vargas demonstram como o governo estadunidense não alterou sua posição em relação à parceria que vinha sido construída entre os dois países. Em dezembro de 1937, o navio Western Prince atracaria em águas brasileiras trazendo o embaixador e sua família, pondo fim à experiência diplomática inaugural daquele que viria ser chanceler em um dos períodos mais conturbados da política externa brasileira.

 

 

 

*Pedro Quinteiro Uberti é aluno do Mestrado Acadêmico em História, Política e Bens Culturais FGV/CPDOC e Adelina Novaes e Cruz é Pesquisadora do FGV CPDOC.

 

FONTES:

Arquivo Pessoal de Alzira Vargas do Amaral Peixoto (FGV CPDOC). Disponível em: <https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo-pessoal?fun=AVAP&tud=AVI&tit=&ftit=2&de=1934&ate=1937&assun=&fassun=0&aut=&faut=0&ser=&loc=&tav=8+9+10&itens=30>.

Arquivo Pessoal de Getulio Vargas (FGV CPDOC). Disponível em: <https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=CorrespGV2>.

Arquivo Pessoal de Oswaldo Aranha (FGV CPDOC). Disponível em: <https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo-pessoal?fun=OA&tud=AVI&tit=&ftit=2&de=1934&ate=1937&assun=&fassun=0&aut=&faut=0&ser=&loc=&tav=8+9+10&itens=30>.

CAMARGO, Aspásia; ARAÚJO, João Hermes Pereira de; SIMONSEN, Mário Henrique. Oswaldo Aranha: a estrela da revolução. São Paulo: Mandarim, 1996.

HILTON, Stanley. Oswaldo Aranha: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1994.

LIMA, Sérgio Eduardo Moreira; ALMEIDA, Paulo Roberto de; FARIAS, Rogério de Souza (org.). Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2017. 2 v. (Coleção Política Externa Brasileira).

 

Série “Conflitos” VIII – Os efeitos da Revolta Paulista de 1924 pelas lentes de Gustavo Prugner (1884 – 1931)

Para marcar o centenário da Revolta Paulista de 1924, a Brasiliana Fotográfica destaca registros produzidos pelo fotógrafo Gustavo Prugner (1884 – 1931) sobre os efeitos da rebelião na cidade. Pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles (IMS), uma das instituições fundadoras do portal. Também conhecida como a Revolução Esquecida, foi a segunda revolta tenentista e o mais grave conflito bélico ocorrido, até hoje, na cidade de São Paulo. Também publicamos hoje a Cronologia de Gustavo Prugner, a 68ª produzida pelo portal.

É possível conferir algumas destas fotografias de Prugner na base de dados do Acervo IMS online: https://acervos.ims.com.br. Lá estão disponíveis mais de 9.200 imagens em domínio público, com download liberado e gratuito. Ao usá-las para qualquer finalidade, basta citar o nome do fotógrafo e o acervo de origem.

 

 

Pouco de sabe sobre o fotógrafo Prugner. Ele nasceu em 5 de julho de 1884, em São Bernardo do Campo, e, no início do século XX, ganhou uma das câmeras fotográficas distribuídas em uma ação promocional da loja de artigos fotográficos de Guilherme Wessel (1862 – 1940), pai do empreendedor Conrado Wessel (1891 – 1993). Prugner havia estudado na Escola Alemã com Guilherme. Curiosamente, a vida de Conrado Wessel foi fortemente impactada pela rebelião de 1924: devido ao violento conflito urbano, faltou papel importado para os fotógrafos que atuavam, principalmente, no Jardim da Luz, e eles passaram a comprar de Wessel. Quando a rebelião terminou, o fornecimento de papel importado foi restabelecido, mas Conrado já havia conquistado uma clientela fiel. Sua empresa começou a prosperar.

 

Acessando o link para as imagens produzidas por Gustavo Prugner sobre os efeitos da Revolução de 1924 em São Paulo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Voltando a Prugner. Com a obtenção da câmera, passou a trabalhar como fotógrafo e laboratorista. Foi também, em São Paulo, assim como o alemão Theodor Preising (1883 – 1962) e o suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), um importante editor de cartões-postais, uma forma de circulação de imagens que, desde meados do século XIX, contribuiu para popularizar a fotografia. Prugner organizava álbuns a partir de fotos de sua autoria e de outros fotógrafos. Suas imagens eram marcadas pelas iniciais GP. Foram publicadas em revistas ilustradas como a Careta e a Revista da Semana e também em jornais, porém nem sempre sua autoria era identificada.

Gustavo Prugner foi o autor de um dos mais importantes conjuntos de fotografias sobre o conflito de 1924. Fotografou a destruição causada pelos bombardeios terrificantes realizados pelas tropas leais ao presidente da República, Artur Bernardes  (1875 – 1955), sobre São Paulo – única cidade brasileira já bombardeada por um ataque aéreo.

“As vítimas civis passaram de dois milheiros, quase todas estraçalhadas de modo horroroso por estilhaços de granada. O  número de prédios destruídos ou simplesmente estragados subiu aos milhares. Dia e noite os canhões legalistas despejavam metralha às tontas, sem o menor objetivo militar […]. Havia lá dentro 3 mil rebeldes disseminados no seio de uma massa de 800 mil civis. O mais rudimentar cálculo faria ver que, por força do bombardeiro às tontas, seria mister massacrar 270 civis para dar cabo de um revoltoso”

Monteiro Lobato (1882 – 1948), trecho de O bombardeio de São Paulo

 

 

As fotos de Prugner mostravam trincheiras improvisadas, prédios arruinados, ruas, fachadas de casas, animais mortos e incêndios. Os bairros mais atingidos foram Belenzinho, Brás, Cambuci, Centro, Ipiranga, Mooca e Vila Mariana. Os registros de Prugner, focados nos efeitos da revolta no cotidiano dos moradores dos bairros mais afetados pela guerra, tiveram grande sucesso comercial.

 

 

Faleceu, em 4 de dezembro de 1931, em São Paulo.  Seus filhos com Lina Hagemann (1889 – 1981), com quem foi casado, Edgar (1911 – 1984) e Mário (1912 – 1993), continuaram a editar cartões-postais até 1936, quando passaram a trabalhar em tempo integral na primeira fábrica de papel fotográfico da América Latina, a Fábrica Privilegiada de Papéis Fotográficos Wessel, criada, em 1921, e que utilizava tecnologia e patente próprias, cujo proprietário era o já mencionado pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993). Prugner foi casado com Lina Hagemann (1889 – 1981).

Acesse aqui a Cronologia de Gustavo Prugner (1884 – 1931).

 

Brevíssimo resumo da Revolta Paulista de 1924

 

A Revolta Paulista de 1924 foi motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Os rebeldes, sob a liderança do general Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949), pretendiam derrubar o governo de Artur Bernardes (1875 – 1955), instituir o voto secreto, fazer mudanças no ensino público e realizar reformas sociais. A rebelião eclodiu, em 5 de julho de 1924, justamente dois anos após a primeira revolta tenentista, a Revolta do Forte de Copacabana, ocorrida no Rio de Janeiro.

Os 23 dias da Revolta Paulista de 1924, que contou com a participação de vários tenentes, dentre eles Juarez Távora (1898 – 1975) e Eduardo Gomes (1896 – 1981), tiveram como saldo 503 mortos e cerca de 5 mil feridos. O número de desabrigados passou de 20 mil e, aproximadamente, dois mil edifícios foram destruídos. Os rebeldes, derrotados pelas tropas legalistas do governo federal, fugiram de São Paulo e foram para Santa Catarina e para o Paraná. Os tenentistas juntaram-se à Coluna Prestes, sob a liderança de Luís Carlos Prestes (1898 – 1990), e começaram a marcha que seguiu pelo interior do Brasil propondo reformas e atacando a República Velha.

 

 

Veja outras fotos da Revolta de 1924, em São Paulo, publicadas da página 15 a 22 da Revista da Semana de 9 de agosto de 1924 e da página 19 a 27 da Revista da Semana de 16 de agosto de 1924 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

Blog da BBM

GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos. Lembranças de São Paulo: a capital paulista nos cartões postais e nos álbuns de lembranças. São Paulo : Estúdios Flash Produções Gráficas, 1999.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Luzes e sobras da metrópole: um século de fotografia em São Paulo (1850 – 1950) in PORTA, Paula (org) História da Cidade de São Paulo: A cidade no Império. São Paulo : Paz e Terra, 2004.

LEMOS, Eric Danzil. Fotografia profissional, arquivo e circulação: a produção de Theodor Preising em São Paulo (1920 – 1940). Universidade de São Paulo, 2016.

LOBATO, Monteiro. O bombardeio de São Paulo. Obras Completas, vol. 6. São Paulo : Editora Brasiliense, 1946.

O Estado de São Paulo

Schiavinatto, Iara. Séries Fotográficas narram um evento: 1924/São Paulo. Revista Stadium, número 8, 2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural 

Site Family Search

Site IMS

Site Itú

WANDERLEY, Andrea C. T. Aspectos de Poços de Caldas impressos no papel fotográfico fabricado pelo pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993) in Brasiliana Fotográfica, 7 de abril de 2022

ZERWES, Erica. Suvenires da destruição: a Revolução de 1924 por Barros Lobo e Gustavo Prugner in Conflitos: fotografia e violência política no Brasil, 1889 -1964. Rio de Janeiro : Instituto Moreira Salles, 2017.

 

Cronologia de Gustavo Prugner (1884 – 1931)

Cronologia de Gustavo Prugner (1884 – 1931)

 

 

1884 – Gustavo Prugner nasceu em 5 de julho de 1884, em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

1889 –  Em Joinville, Santa Catarina, em 18 de outubro de 1889, nascimento de Lina Hagemann (1889 – 1981), sua futura esposa.

Início do século XX – Prugner tornou-se fotógrafo e laboratorista quando ganhou uma das câmeras 13 x 18 cm distribuídas em uma ação promocional da loja de artigos fotográficos de Guilherme Wessel (1862 -1940), pai do inventor e empreendedor Conrado Wessel (1891 – 1993). Guilherme foi colega de Prugner na Escola Alemã.

Em São Paulo, Prugner foi, assim como o alemão Theodor Preising (1883 – 1962) e o suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), um importante editor de cartões-postais, uma forma de circulação de imagens que, desde meados do século XIX, contribuiu para popularizar a fotografia. Organizava álbuns a partir de fotos de sua autoria e de outros fotógrafos. Suas imagens eram marcadas pelas iniciais GP. Foram publicadas em revistas ilustradas como a Careta e a Revista da Semana e também em jornais, porém nem sempre com sua autoria identificada.

1906 – Foi eleito segundo tesoureiro da primeira diretoria do Club Quatro de Agosto, fundado em São Bernardo do Campo (Correio Paulistano, 15 de agosto de 1906, segunda coluna).

1911 – Em 7 de fevereiro,  nascimento de Edgar (1911 – 1984), seu primeiro filho com Lina Hagemann (1889 – 1981).

1912 -  Em 26 de abril, nascimento de seu segundo filho com Lina Hagemann, Mário (1912 – 1993).

1924 – Foi o autor de um dos mais importantes conjuntos de fotografias sobre a Revolta Paulista de 1924, iniciada em 5 de julho de 1924, dia em que ele completava 40 anos. Fotografou a destruição causada pelos bombardeios terrificantes realizados pelas tropas leais ao presidente da República, Artur Bernardes  (1875 – 1955), sobre São Paulo – única cidade brasileira já bombardeada por um ataque aéreo. Os bairros mais atingidos foram Belenzinho, Brás, Cambuci, Centro, Ipiranga, Mooca e Vila Mariana. As fotos de Prugner mostravam trincheiras improvisadas, prédios arruinados, ruas, fachadas de casas e incêndios. Seus registros, focados nos efeitos da revolta no cotidiano dos moradores dos bairros mais afetados pela guerra, tiveram grande sucesso comercial.

1925/1928 – Entre esses anos, Prugner produziu um álbum de fotografias, que se encontra na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, retratando o centro de São Paulo e seus bairros limítrofes.

1931 - Gustavo Prugner faleceu, em 4 de dezembro de 1931, em São Paulo.

1936 - Edgar e Mário, seus filhos, continuaram a editar cartões-postais até 1936, quando passaram a trabalhar em tempo integral na primeira fábrica de papel fotográfico da América Latina, a Fábrica Privilegiada de Papéis Fotográficos Wessel, criada em 1921, e que utilizava tecnologia e patente próprias, cujo proprietário era o pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993). 

1981 – Falecimento de Lina Hagemann (1889 – 1981), em 22 de julho de 1981, em Joinville, Santa Catarina.

1984 – Falecimento de seu primogênito, Edgar, em 20 de março de 1984, em Joinville, Santa Catarina.

1993 - No Palácio dos Campos Elíseos, em São Paulo, realização da exposição Memórias Paulistanas – Postais, com trabalhos de Prugner e de Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros fotógrafos (Folha de São Paulo, 8 de julho de 1993). O suíço Gaensly foi, como já mencionado, um dos maiores criadores de cartões-postais de São Paulo entre fins do século XIX e a década de 20.

Em 11 de novembro de 1993, falecimento do segundo filho de Gustavo, Mário, em Joinville, Santa Catarina.

2004 –  Fotos de sua autoria integraram a exposição São Paulo 450 Anos: a imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Salles, realizada entre 23 de janeiro e 27 de junho de 2004, no Centro Cultural Fiesp (Enciclopédia Itaú Cultural).

2010 – Entre 25 de janeiro e 21 de março de 2010, fotos de sua autoria foram expostas na mostra São Paulo, terra, alma e memória, em comemoração ao aniversário de São Paulo, no Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, sob a curadoria de Emanuel Araújo (1940 – 2022). Outros fotógrafos que integraram a mostra foram Guilherme Gaensly (1843 – 1928), Theodor Preising (1883 – 1962) e Valério Vieira (1862 – 1941)  (O Estado de São Paulo, 19 de março de 2010).

2017 /2018 – Fotos produzidas por Prugner sobre a Revolta Paulista de 1924 fizeram parte da exposição Conflitos: fotografia e violência política no Brasil 1889-1964, realizada no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, entre 25 de novembro de 2017 e 25 de fevereiro de 2018; e, no IMS-SP, entre 8 de maio e 29 de julho de 2018e do livro homônimo, lançado em 14 de dezembro de 2017, no auditório do IMS-Rio.

“Com um panorama de imagens de guerras civis, revoltas e outros episódios de confronto envolvendo o Estado brasileiro, “Conflitos” aborda o papel das imagens fotográficas nesses eventos, seu uso político e suas formas de circulação. São trabalhos de autores conhecidos, como Juan Gutierrez e Flávio de Barros, e de inúmeros anônimos, amadores ou profissionais, nos mais diversos suportes, montando um painel heterogêneo sobre as práticas fotográficas no Brasil ” (IMS).

2019 -  Entre 26 de outubro de 2019 e 15 de março de 2020, realização, na Casa da Imagem, em São Paulo, da exposição Sob ataque, idealizada pelo Coletivo Garapa, realizada com apoio do Edital de Apoio à Criação e Exposição Fotográfica da Secretaria Municipal de Cultura que reuniu 24 imagens de diferentes acervos. Uma das imagens de destaque da mostra foi a dos estragos que uma explosão havia feito em uma casa na rua Helvetia, n°2 , de autoria de Prugner (Guia das Artes).

 

 

“O trabalho explora as tensões históricas que se acumulam e transformam a paisagem da zona central de São Paulo a partir de uma fotografia feita por Gustavo Prugner por ocasião da Revolução de 1924″  (Site Garapa).

2022 - Entre 18 de março e 18 de maio de 2022, realização da exposição Sob Ataque, no Instituto Pavão Cultural em Campinas (campinas.com.br).

Em 3 de junho de 2022, a mostra foi inaugurada no Centro Cultural da Vila, em Ilhabela (SP) (Tribuna do Povo, 30de maio de 2022).