Hoje publicamos o artigo “Vapor, ferro e álcool: 120 anos da Cooperativa Alcoólica da Bahia”, escrito por Diana Santos, uma das curadoras da Brasiliana Fotográfica. Com a análise do conjunto de 11 fotografias da empresa preservadas no acervo da Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal, a imagem da Bahia das primeiras décadas do século XX, normalmente associada a uma economia fortemente ligada a estruturas agrárias tradicionais, revela-se outra: a de uma economia que incorporava as tecnologias industriais ao setor açucareiro. “O xarope dos velhos engenhos transformava-se em álcool industrial”. A Cooperativa Alcoólica da Bahia foi fundada, em 1906, na cidade de Santo Amaro, uma iniciativa do Sindicato Açucareiro da Bahia, reunindo proprietários de engenhos e usinas da região e o Banco Comercial da Bahia. Foi premiada na Exposição Nacional de 1908 e também na Exposição Internacional de Bruxelas, em 1910. Suas atividades foram encerradas em 1935, quando seu valioso maquinário foi desligado.
Hoje é celebrado o Dia Nacional do Futebol e, coincidentemente, será disputada a final da Copa do Mundo de 2026, entre as seleções da Argentina e da Espanha, no MetLife Stadium, localizado na cidade de East Rutherford, no estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Com uma seleção de imagens de estádios de times de futebol, a Brasiliana Fotográfica homenageia a data, que foi instituída pela Confederação Brasileira de Desportos, em 1976. Os registros pertencem às instituições fundadoras do portal, que são a Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles; e às seguintes instituições parceiras: o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha e o Museu Aeroespacial. São fotografias aéreas, uma delas de autoria de S.H. Holland (1883 – 1936), além de registros realizados pelo fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) e por seu filho Uriel (1910 – 1994). A data do Dia Nacional do Futebol foi escolhida porque o Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900, é o mais antigo time de futebol brasileiro em atividade.
A trajetória da conquista do voto feminino no Brasil, um marco fundamental na história da democratização do país, começou ainda no século XIX e tornou-se o principal tema do feminismo nas primeiras décadas do século XX. Neste momento, em pleno século XXI, inacreditavelmente, questiona-se o direito das mulheres ao voto! Portanto, a Brasiliana Fotográfica republica o 13º artigo da série “Feministas, graças a Deus”, “E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!”, que conta um pouco da história desta grande, inquestionável e inegociável conquista, além de homenagear algumas feministas fundamentais na história do movimento pela emancipação feminina, defensoras dedicadas e aguerridas dos direitos das mulheres. Lembramos que a série “Feministas, graças a Deus!” já tem 21 artigos publicados, todos reunidos na primeira página de nosso portal, e convidamos nossos leitores a lê-los, relê-los e a divulgá-los.
1890 – Em 2 de setembro, nascimento, no Presídio de Fernando de Noronha, em Pernambuco, de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836- 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929). Na ocasião, seu pai era diretor do presídio (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1890, primeira coluna; 13 de julho de 1890, última coluna).
Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search
Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902), pai de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search
1911- Foi nomeado pelo governador do Amazonas, Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853 – 1926), com a permissão do ministro da Guerra, Dantas Barreto (1850 – 1931), auxiliar e fotógrafo da Comissão Amazonense de Limites (Jornal do Commercio (AM), 10 de julho de 1911, primeira coluna).
1913 – Casou-se com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948) e tiveram seis filhos: Pojucan (19 -?), Rômulo (1918 – 1971), Rêmulo (1921 – 1985), Maria Clementina (1928- 2016), Murilo (1929 – 1970) e Alberto (19? – ?).(Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro, de 1913, quarta coluna).
1918 – Por ordem do ministro da Guerra, José Caetano de Faria (1855 – 1936), o inspetor de alunos Horacio de Gusmão Coelho passou a servir no 1º Distrito de Artilharia de Costa (Jornal do Commercio, 12 de janeiro de 1918, terceira coluna).
1920- Devido à iminente reabertura da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras (1870 – 1934) pediu que se apresentassem alguns funcionários adidos de instituições subordinadas ao ministério da Guerra, dentre eles Horacio (O Paiz, 13 de fevereiro de 1920, sexta coluna).
1925 – Ficou ferido em uma explosão em um barracão nos fundos de um prédio na Rua Emerenciana, em São Cristóvão, quando eram manipulados petardos por dinamiteiros (O Imparcial, 6 de maio de 1925, segunda coluna).
1926 – O ministro da Fazenda, Aníbal Freire da Fonseca (1884 – 1970), enviou ao ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho (1861 – 1947) o processo originado pelo requerimento da esposa de Horacio, Maria Emilia Coelho, solicitando o recolhimento das contribuições para o montepio devidas por Horacio, cujo paradeiro era ignorado (Jornal do Commercio, 1º de janeiro de 1926, primeira coluna).
1931 – Pelo chefe do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), foi considerado readmitido no cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior, desde 13 de novembro do ano anterior (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1931, primeira coluna).
1935 – Foi posto pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro, à disposição do ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), para atuar como fotógrafo na Comissão de Limites da Seção Sul (Correio de Manhã, 18 de janeiro de 1935, quarta coluna).
1943 – Publicação de fotografias de autoria de Horacio de uma viagem entre Recife e Rio de Janeiro na reportagem Nossa Terra (Revista da Semana, 31 de julho de 1946).
1944/1945 – No relatório das atividades de 1944 apresentado ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, por Roquette-Pinto, diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi informado que a instituição havia dado toda assistência técnica para o manejo e aquisição de câmeras 16mm pelo sr. Horacio Coelho, cinematografista do Ministério da Guerra que seguiu com as forças expedicionárias brasileiras tendo o INCE examinado o material adquirido, fornecido filmes e câmeras para o treinamento do mesmo cinegrafista, que fica assim habilitado a desempenhar toda e qualquer filmagem em operações de guerra (A Noite, 13 de março de 1945, segunda coluna).
Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi posto pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), à disposição do marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (A Noite, 7 de junho de 1944, quarta coluna; Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna).
No suplemento de guerra da Revista da Semana, de 5 de maio de 1945, publicação de fotos enviadas especialmente da Itália por Horacio Coelho (Revista da Semana, 5 de maio de 1945).
Publicação da reportagemDepois da vitória e Veneza com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de julho de 1945).
Publicação da reportagem A volta de nosso correspondente com fotos de autoria de Horacio e do próprio Horacio em frente ao Café Petrarca, em Veneza (Revista da Semana, 7 de setembro de 1945).
Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).
1947- Foi um dos correspondentes de guerra que atuaram junto à FEB na Segunda Guerra Mundial convidados pela Embaixada dos Estados Unidos para uma reunião no Serviço Cultural e Informativo dos Estados Unidos da América, quando foi exibido um longa-metragem sobre a atuação dos brasileiros na guerra (Correio da Manhã, 25 de janeiro de 1947, penúltima coluna).
Década de 1950 – Aposentou-se do cargo de cinegrafista na década de 1950.
1958 – Em 8 de maio, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa, quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga (1913 – 1990) e Fernando Stamato (1917 – 1993), dentre outros, também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).
Hoje comemora-se o Dia da Literatura Brasileira em homenagem à data de nascimento do cearense José de Alencar (1829-1877), importante escritor do Romantismo brasileiro, autor de clássicos como O Guarani (1857), Lucíola (1862), Iracema (1865) e Senhora (1875). Sua estátua, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi registrada por Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1897; e por Augusto Malta (1864 – 1957), em 1906. O Dia da Literatura Brasileira seria, a princípio, o tema central deste artigo. Mas, nas fotos do monumento, aparece o Hotel dos Estrangeiros. O artigo passou então a ser também sobre o hotel e a ser o 31º da série O Rio de Janeiro desaparecido e o 8º da série Hotéis do Brasil.
O Hotel dos Estrangeiros* foi inaugurado, provavelmente, em 1849, ano em que foi mencionado pela primeira vez nos jornais da época, e ficava na Rua do Catete, nº 1 (Jornal do Commercio, 8 de maio de 1849, quarta coluna).
Um dos pioneiros na história da hotelaria carioca, o Hotel dos Estrangeiros era, quando inaugurado, dirigido por Milliet Chesnay, William Coute e Lafourcade pertencia a Francisco Lumau e ficava na confluência das atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo, em frente à atual Praça José de Alencar. Oferecia uma vista magnífica para o mar, e reúne todas as comodidades para banhos (Almanak Laemmert, 1850).
Em 1896, foi anunciado que ele havia passado por uma reforma. Tinha instalações bonitas e higiênicas, um bom restaurante e dispensava a seus clientes um tratamento diferenciado.
“Esse hotel que foi completamente restaurado, situa-se na melhor parte da cidade, recebendo ar e luz por todos os lados, próximo a mais limpa praia da cidade e cercado por um grande jardim. Possui quartos grandes e confortáveis e bem mobilhados, bons chuveiros, e banhos quentes, desinfetantes na água, armários, água potável filtrada pelo sistema Pasteur, bom serviço de mesa, e é considerado o primeiro hotel dessa capital. Possui ainda suntuosos salões, e serviço de mesa esplendido para baquetes. O restaurante e serviços não podem ser superados”.
Tornou-se a moradia de autoridades nacionais, chefes de estado em visita ao Rio de Janeiro e personalidades importantes nacionais e estrangeiras.
Foi um ponto de importantes reuniões e encontros, tanto de natureza social quanto política. Foi lá que Prudente de Moraes (1841 – 1902), primeiro presidente civil e eleito no Brasil, foi morar com sua família quando veio de São Paulo, em 1894 (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1894, segunda coluna). E também foi lá que nasceu a candidatura do marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) à Presidência da República, cargo que exerceu entre 1910 e 1914.
Foi cenário, em 8 de setembro de 1915, do assassinato do senador José Gomes Pinheiro Machado (1851 – 1915), importante e poderoso político da República Velha. Foi apunhalado por Manso de Paiva (c. 1886 – década de 1960), no saguão do hotel, aonde visitaria o político Rubião Junior (1851-1915), do Partido Republicano Paulista. Suas últimas palavras teriam sido: “Ah, canalha! Apunhalaram-me!” (Careta, 11 de setembro de 1915; A Noite, 24 de janeiro de 1934; O Cruzeiro, 8 de julho de 1944).
Meses antes, Pinheiro Machado previra sua própria morte em entrevista ao jornalista João do Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César…”
Para homenagear o Dia da Literatura Brasileira, como já mencionado o ponto de partida deste artigo, o portal destaca, ainda, três imagens de importantes escritores brasileiros, todos fundadores da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Nabuco (1849-1910), Lucio de Mendonça (1854-1909) e Machado de Assis (1839-1908). As fotografias foram produzidas por Augusto Malta, José Ferreira Guimarães (1841-1924) e por Joaquim Insley Pacheco (1830-1912) com Marc Ferrez, respectivamente. Lembramos aqui que, por escolha de Machado de Assis, José de Alencar é o patrono da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras.
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A propósito, o Hotel dos Estrangeiros foi citado em dois romances e em um conto de Machado de Assis:
“- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquilizar a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pô-los em ordem”.
Esaú e Jacó (1904)
“Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:
- O que é eterno, Iaiá Lindinha?
Ela, suspirando:
- Ingrato! É o amor que te tenho.
Jantei sem remorsos; ao contrário, tranquilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes…”
Eterno! (1899) – conto
“25 de junho
Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.
Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a ideia da volta, a que aludia frequentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete”.
Segundo o Almanaque Laemmert de 1888, havia dois hotéis com esse nome: um em francês (Hôtel des Étrangers), pertencente a Pedro Lemgruber, que ficava na rua da Assembleia, 54; outro em português (Hotel dos Estrangeiros), pertencente a João Mayall, que ficava “no caminho Velho de Botafogo, em frente ao largo do Catete”, isto é, na confluência da rua Senador Vergueiro com a rua Barão do Flamengo, no bairro do Flamengo, na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em frente à atual praça José de Alencar. O contexto da ficção machadiana sugere que se trata do segundo, que era um estabelecimento de grande prestígio à época.
O monumento a José de Alencar, no Flamengo,obra do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), foi inaugurado em 1º de maio de 1897, no Largo do Catete, que passou nesta data a se chamar Praça José de Alencar – era anteriormente denominada Praça Ferreira Vianna. Foi o primeiro monumento erguido no Brasil para homenagear um escritor brasileiro e é composto por uma estátua de José de Alencar, quatro relevos e quatro medalhões em bronze, dispostos em uma base octogonal, onde estão gravadas cenas dos romances Iracema, O GaúchoO Guarani e O Sertanejo, de autoria do homenageado.
Sua inauguração contou com a presença do então presidente da República, Prudente de Moraes, do prefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) e de diversas autoridades e, apesar do sol e imenso calor, a praça e as imediações estavam apinhadas. Sua viúva, filhos, seu irmão, o barão de Alencar (1832 – 1921); e outros familiares também estiveram presentes à cerimônia. Na ocasião, discursaram Ferreira de Araújo (1848 – 1900), fundador da Gazeta de Notícias; os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Bilac (1865 – 1918), além de políticos presentes (Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1897, terceira coluna; O Paiz, 2 de maio de 1897, terceira coluna; Revista da Semana, 9 de maio de 1942).
“Bernardelli deu a José de Alencar (mais conhecido ainda hoje como político do que como romancista) a mais bela e duradoura das consagrações, já agora é possível que a profissão das letras mereça mais respeito, uma vez que o povo está vendo que um homem de letras merece também a homenagem devida aos heróis e aos benfeitores da pátria.
E não seria justo que o nome do escultor não fosse entregue ao aplauso público, ao lado do nome do escritor glorificado.
E que este dia (o primeiro dia em que o governo do meu país dá uma demonstração pública de que deseja honrar a arte e a literatura do Brasil, vindo assistir a essa festa de homens de letras) possa iniciar uma era nova de florescimento intelectual.”
Trecho do discurso de Olavo Bilac
A ideia da construção do monumento partiu dos redatores do Monitor Sul Mineiro, da cidade de Campanha, em Minas Gerais, que abriram uma subscrição para esse fim. A família do jornalista Evaristo da Veiga (1799 – 1837) incumbiu a divulgação da ideia à Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1880, segunda coluna). Foram feitos diversos donativos e, em 1º de dezembro de 1894, foi realizado um concerto, no Cassino Fluminense, para arrecadar dinheiro para a construção da estátua (Gazeta de Notícias, 1º de dezembro de 1894).
Com uma fotografia de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923) da escultura Dançarina, a Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Internacional da Dança, instituído, em 1982, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a UNESCO.
A data foi escolhida em homenagem ao nascimento do professor de balé e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810), pioneiro da reflexão teórica sobre o balé, escritor das Cartas sobre a Dança.
A escultura Dançarina, em mármore de Carrara, foi inaugurada, em 1908, na Praia de Botafogo. É uma réplica de uma obra do escultor francês Paul Darbefeuille (1852-1933). Na década de 1950, foi fotografada no Jardim do Méier, e, em 1960, estava na Avenida Presidente Vargas, em frente à Central do Brasil. Em 1992, foi encontrada no Largo do Tanque, em Jacarepaguá, tendo sido transferida, em janeiro de 1996, para a Praça Leony Mesquita, no mesmo bairro. Em 2023, uma das mãos da escultura foi restaurada pela Secretaria de Conservação do Rio de Janeiro.
A DANÇA E A ALMA
Carlos Drummond de Andrade
A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.
No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.
Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.
Lembramos que o Grupo Corpo, uma das mais importantes companhias de balé do Brasil com renome internacional, completa, em 2025, 50 anos de existência.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.
Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro assume o posto de Capital Mundial do Livro. É a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Atualmente, a língua portuguesa é falada por cerca de 280 milhões de pessoas distribuídas por todos os continentes, sendo o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna. No dia 5 de maio é celebrado o Dia da Língua Portuguesa nas Nações Unidas.
A cerimônia da entrega do título ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (1969-), pelas mãos da prefeita de Estrasburgo, Jeanne Barseghian (1980-) aconteceu no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. Foi realizado um espetáculo musical que narrou a história da língua portuguesa e reverenciou grandes nomes da literatura. A celebração misturou tecnologia, literatura e expressões artísticas populares.
Em sua fala, o prefeito destacou a Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica e a mais antiga instituição cultural do Brasil, criada por dom João VI (1767 – 1826), em 1810. Possui um acervo de cerca de 9 milhões de itens e foi considerada pela UNESCO como uma das principais bibliotecas nacionais do mundo.
“— É um ano fundamental. O Rio já foi capital de muita coisa. Agora, é capital dos leitores — afirmou Paes. — Temos o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras. Os grandes escritores brasileiros todos passaram por aqui.”.
A escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro foi feita pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura -, que desde 2001 designa uma cidade “que se compromete a realizar atividades com o objetivo de incentivar uma cultura de leitura e difundir os valores da Rede em todas as idades e grupos populacionais, dentro e fora das fronteiras nacionais. Através do programa WBC, a UNESCO reconhece o compromisso de uma cidade em promover livros e fomentar a leitura durante um período de 12 meses (entre um Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, 23 de Abril, e o seguinte), bem como no futuro”.
A Associação Internacional de Editores (IPA), a Federação Europeia e Internacional de Livreiros (EIBF), o Fórum Internacional de Autores (IAF) e a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA) são membros do Comitê Consultivo da Capital Mundial do Livro da UNESCO. Por ter sido escolhida Capital Mundial do Livro, o Rio de Janeiro entra para uma rede de cooperação internacional com as cidades dos anos anteriores.
A Brasiliana Fotográfica celebra esse evento destacando uma fotografia da sala de trabalho da Seção de Impressos da antiga sede da Biblioteca Nacional, que ficava na Rua do Passeio. A imagem faz parte do Album de vistas da Bibliotheca Nacional, de autoria de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?).
Pouco se sabe, até o momento, da vida pessoal de Antonio Luiz Ferreira. Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904. Apesar de sua carreira discreta, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888 como a Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial, em 13 de maio de 1888; e a Missa Campal de 17 de maio de 1888. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e do fascínio causado pela própria presença da câmara fotográfica.
Em 1902, foram publicados dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na Rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.
Retrospectiva das cidades que já foram Capital Mundial do Livro
2001 – Madri, Espanha
2002 – Alexandria, Egito
2003 – Nova Deli, Índia
2004 – Antuérpia, Bélgica
2005 – Montreal, Canadá
2006 – Turim, Itália
2007 – Bogotá, Colômbia
2008 – Amsterdã, Holanda
2009 – Beirute, Líbano]
2010 – Liubliana, Eslovênia
2011 – Buenos Aires, Argentina
2012 – Erevan, Armênia
2013 – Bangkok, Tailândia
2014 -Port Harcourt, Nigéria
2015 – Incheon, Coreia do Sul
2016 – Breslávia, Polônia
2017 – Conacri, Guné
2018 – Atenas, Grécia
2019 – Xarja, Emirados Árabes Unidos
2020 – Kuala Lumpur, Malásia
2021 – Tbilisi, Geórgia
2022 – Guadalajara, México
2023 – Acra, Gana
2024 – Estrasburgo, França
Ao longo do próximo ano, uma extensa programação focada em livros e literatura vai tomar acontecer no Rio de Janeiro. Será ancorada por cinco grandes ações: a Bienal do Livro, a Noite com Livros, o Book Parade Rio 2025, o Rio de Livros e a Academia Editorial Jr.. Haverá também uma inédita edição carioca do Prêmio Jabuti, além da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e outras festas e feiras, como as de Santa Teresa e de Santa Cruz.
A marca, lançada no dia 11 de abril de 2025 em uma cerimônia no Real Gabinete e Leitura , e o slogan do evento foram escolhidos pela Academia Brasileira de Letras. O Rio de Janeiro continua lendo faz referência ao clássico Aquele Abraço, do imortal Gilberto Gil.
A próxima Capital Mundial do Livro será Rabat, em Marrocos.
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Esse artigo foi atualizado em 24 de abril de 2025.
Hoje é celebrado o Dia dos Povos Indígenas e a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Dia dos Povos Indígenas: Getúlio Vargas visita a Aldeia Karajá, de autoria da historiadora Maria de Fátima Morado, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal. Em destaque, três imagens da visita de Vargas a uma aldeia Karajá. A adoção da data de 19 de abril pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, seguiu a recomendação feita pelo I Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México, em 1940, para que os países americanos institucionalizassem políticas públicas sobre os direitos e segurança dos povos indígenas.
Dia dos Povos Indígenas: Getúlio Vargas visita a Aldeia Karajá
Em 19 de abril é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, denominação que foi atualizada a partir da publicação da lei n.º 14.402, de 8 de julho de 2022, em substituição ao decreto-lei nº 5.540, de 2 de junho de 1943, que instituiu o Dia do Índio.
A adoção da data de 19 de abril pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, seguiu a recomendação feita pelo I Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México, em 1940, para que os países americanos institucionalizassem políticas públicas sobre os direitos e segurança dos povos indígenas.
Por casualidade, 19 de abril é o dia do nascimento de Getúlio Vargas que promulgou o decreto seguindo o estímulo de sertanistas e indigenistas, entre eles, Marechal Cândido Rondon. Getúlio Vargas também foi motivado pela política de interiorização do país, a Marcha para o Oeste, programa do Estado Novo (1937-1945), que tinha como objetivo o desenvolvimento e povoamento do interior do Brasil. A campanha do governo de exaltação da integração nacional abarcaria as populações indígenas.
Getúlio Vargas realizou viagens às regiões norte e central para divulgar a Marcha para o Oeste, e em agosto de 1940, conheceu a aldeia dos índios Karajá, na Ilha do Bananal (TO), sendo o primeiro presidente a visitar uma área indígena.
As fotos dessa visita oficial pertencem à Coleção Getúlio Vargas, acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.
A trajetória da Brasiliana Fotográfica, inaugurada em 17 de abril de 2015, será celebrada com a realização do evento Brasiliana Fotográfica 10 anos: lentes do passado, construindo o futuro, no Auditório Machado de Assis, na Fundação Biblioteca Nacional, no dia 16 de abril próximo. Confira no link todas as informações sobre nossa celebração.
No dia 16 de abril de 2025, foi acrescentado ao artigo o linkpara o vídeo da celebração:
O portal traz para seus leitores dois artigos escritos pelos curadores da plataforma: Diana dos Santos Ramos, Chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional; e Sérgio Burgi, Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles; além da programação do evento comemorativo do aniversário do portal, que já conta com cerca de 80 milhões de visualizações. Também publicamos três reportagens realizadas sobre nosso portal.
A Brasiliana Fotográfica, uma plataforma de difusão de conhecimento imagético e textual, contribui para o desenvolvimento da educação e da cultura de nosso país, destacando e valorizando a história da fotografia, a memória e a própria História do Brasil. Foi criado por Flavio Pinheiro e Renato Lessa, na época diretor do Instituto Moreira Salles (IMS) e presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), respectivamente. Foi lançado com 2.393 imagens dessas duas instituições. Atualmente possui em seu acervo fotográfico 11.746 imagens produzidas no século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX provenientes dos acervos de suas duas instituições fundadoras – IMS e FBN – e de mais 12 instituições parceiras. São elas: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, Fiocruz, Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, Museu Aeroespacial, Museu da República e Museu Histórico Nacional.
Viva a Brasiliana Fotográfica! Vida longa à Brasiliana Fotográfica!
Brasiliana Fotográfica: dez anos de imagens que revelam histórias
Diana Ramos*
Com imenso prazer pessoal e profissional, celebro a oportunidade de integrar a equipe que faz da Brasiliana Fotográfica um projeto de sucesso. Como amante da técnica fotográfica e de sua capacidade de eternizar instantes e reconstruir memórias, atuar diretamente no portal representa um desafio estimulante.
Assumir a curadoria das peças que compõem a Brasiliana Fotográfica, como chefe da Divisão de Iconografia da maior instituição de memória iconográfica do país, é uma grande responsabilidade. No entanto, é fundamental destacar que nada se constroi sozinho, especialmente em um projeto dessa magnitude. Como membro do Comitê Consultivo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), ressalto e agradeço a parceria e dedicação dos colegas que fazem a mágica acontecer. A curadoria é apenas uma das bases do portal que conta com a dedicação de equipe técnica altamente qualificada, com uma produção de conteúdo textual exclusiva, com profissionais que atendem e respondem às demandas dos pesquisadores e com os parceiros das outras 12 instituições que se juntaram as fundadoras, Biblioteca Nacional e Instituto Moreira Salles (IMS), nessa empreitada.
A Brasiliana Fotográfica celebra 10 anos de existência, quase tanto tempo quanto a dobradinha na curadoria desempenhada por Joaquim Marçal pela FBN e Sérgio Burgi pelo IMS. Com grande comprometimento, passo a integrar a equipe na função anteriormente desempenhada pelo estimado colega Joaquim Marçal, servidor de carreira da FBN, cujo papel na história da Divisão de Iconografia é inestimável. Seu trabalho foi essencial para o tratamento técnico e a divulgação do acervo fotográfico, destacando-se à frente do projeto que tornou a coleção de documentos fotográficos do Imperador Pedro II amplamente conhecida, não apenas no Brasil, mas também internacionalmente, culminando no reconhecimento como Memória do Mundo pela UNESCO em 2003. Agradeço a Joaquim pelo incentivo e pela confiança ao longo dos anos que partilhou de forma muito generosa todo seu conhecimento e assumo a missão com o respaldo da coordenação que me nomeou parte da atual equipe. Ao lado de Sérgio Burgi, referência na história da conservação fotográfica no Brasil, inicio minha trajetória na curadoria do projeto com quem, certamente, tenho muito a aprender. Ao representar uma instituição bicentenária como a FBN, assumo o desafio pessoal de contribuir para dar maior visibilidade às coleções, estabelecendo novas narrativas e construindo discursos que vão além da história oficial.
O portal pode ser um instrumento poderoso para iluminar personagens anonimizados pela história. Acredito ser possível adotar um olhar decolonial sobre um acervo tão vasto e significativo. O Brasil é um país continental e diverso, e a Brasiliana Fotográfica tem o compromisso de refletir essa multiplicidade. Mais do que resgatar imagens e memórias, o portal permite a construção de novas perspectivas, revelando histórias até então silenciadas e potencializando outras leituras sobre o passado. Ao revisitar esses registros fotográficos sob diferentes lentes, podemos reinterpretar os caminhos percorridos e, assim, expandir as possibilidades de futuro. O desafio é propor narrativas mais inclusivas, abrindo espaço para vozes historicamente marginalizadas e permitindo um entendimento mais plural da formação social e cultural do Brasil.
Que os próximos 10 anos nos tragam ainda mais descobertas e reflexões, expandindo horizontes e reafirmando a importância do portal como um espaço vivo de pesquisa, memória e preservação fotográfica.
* Diana Ramos é chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional. Servidora na mesma instituição desde 2006. Graduada em História pela UNIRIO e História da Arte pela UERJ. Pós-graduada em Ensino de História e Ciências Sociais pela UFF e mestre em Memória Social pela UNIRIO. Curadora dos portais Brasiliana Fotográfica e Brasiliana Iconográfica pela FBN.
Brasiliana Fotográfica. Os próximos 10 anos
Sérgio Burgi**
A Brasiliana Fotográfica é um projeto colaborativo construído por diversas instituições do país, com o objetivo de dar acesso a acervos fotográficos históricos, do século XIX e início do século XX.
Ao longo desses últimos dez anos, desde o lançamento conjunto do projeto, em 2015, pela Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles, a plataforma já recebeu a adesão de mais 12 instituições do Brasil e do exterior, atingindo um resultado de mais de 80 milhões de pageviews em acessos direcionados aos mais de 550 artigos publicados regularmente a cada semana e igualmente em acessos e pesquisas nas mais de 11.700 imagens que atualmente compõem este banco de imagens que permite de forma única e singular a pesquisa cruzada entre fotografias icônicas de nossa história, preservadas nos acervos de muitas das mais importantes instituições de memória do país.
Após esta bem sucedida primeira década de atuação e presença da Brasiliana Fotográfica no cenário cultural brasileiro, é preciso agora tanto refletir sobre a importância dessa plataforma para o esforço permanente de difusão da memória fotográfica do país, como também pensar simultaneamente sobre quais caminhos deveremos trilhar ao longo dos próximos dez anos.
O papel da fotografia na escrita da história tem se acentuado ao longo das últimas décadas, em função da compreensão e incorporação cada vez maior nas pesquisas históricas desta fonte primária de informação visual de características muito específicas, baseada na produção de imagens por meio de aparato técnico sobre suportes fotossensíveis.
Desde a primeira metade do século XIX, a fotografia, após o anúncio da daguerreotipia na França, em 1839, foi praticamente adotada em todas as regiões do mundo, construindo-se a partir daquele momento e nas décadas seguintes um legado significativo de imagens produzidas por fotógrafos atuando em inúmeros países. Eles registraram visualmente momentos, locais, assuntos e materialidades as mais diversas ao longo destes quase duzentos anos que nos separam dos primeiros experimentos com o processo fotográfico realizados por pesquisadores pioneiros como Hercule Florence, no Brasil; William Fox Talbot, na Inglaterra; e Joseph Nicéphore Niépce e Louis Jacques Mandé Daguerre, na França.
Imagens que gradualmente encontraram caminhos para a sua incorporação em arquivos públicos e privados e em acervos de instituições de memória, formando assim um amplo legado de informação visual e documental construída dentro de uma nova linguagem e processo. De alguma maneira, isto tanto deu continuidade às diversas formas de representação visual desenvolvidas e construídas pela humanidade ao longo da história, como ao mesmo tempo criou as bases para uma nova e abrangente plataforma integrada de comunicação, criação e documentação. Em especial ao longo do século XX, foi estruturada em torno do registro por aparato de imagens estáticas e em movimento (fotografia, cinema e vídeo) e também de registros sonoros diretos (gravações mecânicas e magnéticas), que nos trouxeram a esse momento atual no século XXI de ampla produção e disseminação de conteúdos digitais em imagem e som através das redes e plataformas atuais.
E é exatamente esse ferramental digital que nos permite hoje realizar pesquisas em diferentes bases de imagens e bancos de dados de informação textual, exemplificados na própria Brasiliana Fotográfica pela pesquisa de imagens na plataforma e no conteúdo semanal publicado integrados a uma intensa pesquisa textual correlata permitida hoje, por exemplo, pela Hemeroteca Digital, plataforma estruturada e disponibilizada ao grande público pela Biblioteca Nacional, que dá acesso aos periódicos publicados no país, ferramenta essencial para a pesquisa histórica e de contextualização de fontes documentais.
São ferramentas atuais avançadas já disponíveis e em intenso uso que nos permitem pensar que, ao longo da próxima década, essa integração de pesquisa baseada nos conteúdos atualmente digitalizados e disponibilizados nos levarão a processos de compreensão e análise desse legado histórico reunido na Brasiliana Fotográfica de forma cada vez mais aprofundada e contextualizada.
Há cinquenta anos, a pesquisa em acervos fotográficos históricos se dava necessariamente de forma bastante manual, baseada em processos de captura de imagens ainda analógicos, sem uma comunicação em rede que permitisse a visualização e comparação de imagens disponíveis nos diversos acervos, o que provocava um trabalho lento de pesquisa e comparação de fontes. O ferramental digital atual revolucionou essa condição de pesquisa e acesso a imagens não só no Brasil como em todo o mundo, incorporando novas possibilidades de acesso através de mecanismos avançados de busca por processos de aprendizado por máquina, incluindo soluções de inteligência artificial.
Cabe, entretanto, compreendermos também aqui o papel essencial e incontornável do pensamento crítico e da pesquisa teórica nesse campo de conhecimento e comunicação. As fotografias são, por natureza, registros visuais que revelam tanto a materialidade de um determinado local em determinado momento, como ao mesmo tempo representam escolhas intencionais daqueles que as produzem e também daqueles que as editam e selecionam para a veiculação e comunicação ampla. São, portanto, instrumentos de documentação e instrumentos de construção seletiva de narrativas, realizadas pelo fotógrafo e/ou pelos editores e gestores de repositórios visuais, seja na imprensa ou também nos arquivos e coleções reunidas e preservadas nas instituições de memória. A cada período da história é, portanto, fundamental que a pesquisa em imagens fotográficas seja sempre estruturada em torno de pesquisas históricas balizadas por leituras críticas que permitam fundamentalmente a recuperação dos contextos e sentidos originais de criação dessas imagens. Somente dessa maneira podemos avançar na compreensão desse legado.
O desafio maior da fotografia e de suas múltiplas possibilidades de interpretação e compreensão reside assim, de fato, em sua devida contextualização, somente possível através da pesquisa histórica e da análise crítica dessas fontes de informação que insistem em nos provocar.
O futuro da Brasiliana Fotográfica nesta próxima década, estará, portanto, a meu ver, fortemente associado ao desafio da construção do conhecimento através da ampliação da compreensão crítica pelo grande público desta fonte de informação representada pela fotografia histórica, com a ajuda de ferramentas contemporâneas que permitam o acesso público e gratuito a um crescente número de imagens e conteúdos mediados, porém sempre associadas à reflexão crítica e à pesquisa rigorosa.
Acreditamos que tanto a natureza colaborativa da plataforma como seu já grande alcance cultural e de público continuarão a ser as forças motrizes a incentivar seu crescimento e adesão por parte de novas instituições e colaboradores no campo da reflexão e pesquisa em imagens.
Vida longa à Brasiliana Fotográfica!
**Sergio Burgi é Curador da Brasiliana Fotográfica e Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles.
Destacamos aqui, além do artigo publicado em 16 de abril de 2025 em O GLOBO em comemoração a nosso aniversário, as duas matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo e em O GLOBO com chamada na capa cujo tema foi a Brasiliana Fotográfica. A primeira, da Folha de São Paulo, foi publicada em 19 de maio de 2015, um mês após a inauguração do portal e falava da descoberta da presença do escritor Machado de Assis na foto Missa Campal de 17 de maio de 1888, de autoria de Antônio Luiz Ferreira. A foto havia sido o tema do artigo da Brasiliana Fotográfica de 17 de maio de 2015 e a descoberta foi realizada pela pesquisadora e editora do portal, Andrea C.T. Wanderley.
A segunda matéria, publicada no O GLOBO, de 16 de março de 2025, foi sobre a série O Rio de Janeiro desaparecido, na época, com 30 artigos já publicados.
Link para acessar todos os artigos da série: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?page_id=36975
Parabéns para todos os envolvidos na produção de nosso portal! E muito obrigada a nossos leitores para quem todos esse trabalho é realizado! Viva a Brasiliana Fotográfica, que vocês já visualizaram quase 80 milhões de vezes!
Portal Brasiliana Fotográfica localizou o autor de ‘Dom Casmurro’ em missa no Rio da abolição da escravatura
Cerimônia reuniu milhares em 17/5/1888; descoberta indica que escritor estava em palco perto da princesa Isabel
DE SÃO PAULO
A Brasiliana Fotográfica divulgou no último domingo (17) ter descoberto um registro fotográfico inédito de Machado de Assis (1839-1908). O site de fotografias brasileiras do século 19 e do começo do 20 identificou a presença do escritor em uma imagem sobre o fim da escravidão.
Em 17 de maio de 1888, quatro dias depois da assinatura da Lei Áurea, uma missa campal foi celebrada em São Cristóvão, no Rio, em homenagem à abolição da escravatura. Cerca de 30 mil pessoas estiveram presentes.
A missa foi retratada pelo fotógrafo Antonio Luiz Ferreira. De uma posição um pouco acima do nível do chão, ele fez uma tomada panorâmica que contemplou uma larga extensão do Campo de São Cristóvão.
Na imagem se misturaram negros recém-libertos, jornalistas, intelectuais, representantes do império e da igreja. O escritor Lima Barreto, então com sete anos, também esteve na missa.
No canto esquerdo, está a princesa Isabel e seu marido, o conde D’Eu. Agora os pesquisadores da Brasiliana Fotográfica notaram a presença de Machado, próximo ao casal real.
A fotografia da missa, ainda hoje pouco divulgada, integra a coleção do IMS (Instituto Moreira Salles), instituição que, em parceria com a Biblioteca Nacional, abastece a Brasiliana Fotográfica.
A equipe do portal, lançado há um mês, digitalizou a fotografia em alta resolução e se dedicou a examinar os detalhes da cena. O palco em que aparece a princesa Isabel foi ampliado 15 vezes, o que revelou um homem bastante semelhante ao escritor.
Segundo o site, especialistas na obra do autor de “Dom Casmurro”, como Eduardo Assis Duarte e Ubiratan Machado, confirmaram tratar-se realmente de Machado.
É possível ver apenas uma parte do rosto do escritor, atrás de um senhor de barba branca não identificado.
“A foto é uma representação muito importante do contexto da época, e ainda demonstra que Machado estava próximo da questão abolicionista”, diz Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS.
Ao site da Brasiliana Fotográfica, Ubiratan Machado, autor de “Dicionário de Machado de Assis” e um dos principais estudiosos da documentação machadiana, diz que a presença do escritor na missa era “fato até hoje desconhecido pelos biógrafos”.
Machado, contudo, escreveu ao menos duas crônicas sobre a missa, em que satiriza a classe política da época.
Nas primeiras décadas do século 20, Machado, mulato bisneto de escravos alforriados, foi criticado por ser omisso em relação à escravidão. Estudos posteriores, no entanto, mostraram que ele retratou com argúcia as contradições sociais do país no século 19 –a escravidão entre elas.
Desde os anos 1870 Machado escreveu diversas crônicas contra a escravidão na imprensa da época.
“Não bato o martelo de que é o Machado, mas realmente parece muito com ele”, diz Valentim Facioli, professor aposentado da USP, dono da editora Nankin e pesquisador de Machado há 50 anos.
“Se for realmente ele, é mais uma prova para desqualificar as bobagens de que Machado era indiferente à escravidão. Sempre foi um abolicionista, mas à moda dele, sem militar em grupos ou comícios.”
“Parece realmente o Machado daquele período”, diz o inglês John Gledson, outro estudioso do autor.
“Me surpreende que ele estivesse tão perto da princesa. Ele não era exatamente membro da elite, embora já fosse famoso na época.”
Cidade desaparecida: com imagens, site conta a história de lugares que sumiram da paisagem carioca
Prestes a completar dez anos, a Brasiliana Fotográfica reúne parte importante do acervo de 14 instituições, entre as quais a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles
O roteiro pode começar com um terapêutico banho de mar na Praia de Santa Luzia, bem ali no Centro. De lá, segue para o alto do Morro do Castelo, onde a atração é a vista panorâmica em meio a casas simples que evocam a origem da cidade. Na descida, vale uma passada no Mercado Municipal da Praça Quinze para encher a bolsa com frutas da estação. Depois, uma parada para, com a licença das freiras, matar a sede bebendo a água fresca que verte do Chafariz das Saracuras, instalado no pátio do Convento da Ajuda. No entorno, a arquitetura do Conselho Municipal e do Palácio Monroe é um convite ao olhar. Para terminar, aquela esticada no Passeio Público, para um refrescante bate-papo no quiosque Chopp Berrante, que ninguém é de ferro.
Patrimônio na memória
O único problema desse itinerário é que ele não existe mais. Há tempos os pontos destacados — praia, prédios, morro — saíram de cena. São como peças excluídas ou movidas de lugar no imenso quebra-cabeças de uma cidade em constante transformação. Mas resistem, em boa parte, graças ao trabalho de fotógrafos pioneiros na arte de registrar a paisagem em mutação. Prestes a completar dez anos, em abril, o site Brasiliana Fotográfica — que reúne parte importante dos acervos de imagens sob guarda da Fundação Biblioteca Nacional, do Instituto Moreira Salles e de mais 12 instituições — tem se dedicado a propagar essas memórias. Uma das séries publicadas pelo portal é “O Rio de Janeiro Desaparecido”: 30 artigos (até aqui) reúnem fotos e textos que tratam de recolocar no mapa antigos marcos da paisagem carioca.
Resquícios de uma cidade desaparecida
— Esta série foi curiosa porque, na verdade, se impôs como tema. Eu já tinha escrito oito artigos sobre prédios demolidos na cidade, e parceiros nossos tinham escrito outros três. Quer dizer, já existiam 11 artigos que tinham esse tema em comum: a destruição, a demolição. Identificamos que havia um padrão ali. Só a partir do 12º artigo é que comecei a pensar como série. Ela se formou antes de eu formar a ideia de fazer a série — lembra Andrea Wanderley, editora e pesquisadora do Brasiliana Fotográfica.
No rastro da história
A Praia de Santa Luzia — ponto do roteiro imaginário que abre este texto — foi retratada no 15º episódio da série. O balneário, que ficava rente à igreja de mesmo nome — hoje afastada do mar por aterros —, começou a desaparecer da paisagem em 1922 com o desmonte do Morro do Castelo e o surgimento, em seu lugar, da Esplanada do Castelo. A praia sumiu de vez na década seguinte. No artigo a respeito, a Brasiliana Fotográfica reproduz trecho de matéria publicada pelo GLOBO — que completa 100 anos em 2025 — no dia 12 de janeiro de 1931 no qual se lê, no português da época, que “a antiga praia de Santa Luzia, quasi desapparecida com as remodelações feitas depois do aterro de parte da bahia, foi substituída, na affluência dos banhos de mar, pela actual praia das Virtudes”.
A antiga praia foi bem frequentada e muito fotografada. Pelo artigo é possível acessar registros dela feitos por Georges Leuzinger (1813-1892), Augusto Malta (1864-1957), Juan Gutierrez (1860-1897), Revert Henrique Klumb (1826-1886) e Marc Ferrez (1843-1923), uma turma da pesada cujo trabalho é recorrente na série e no acervo reunido pela Brasiliana.
Fachada da Academia Imperial de Belas Artes, no Jardim Botânico — Foto: Márcia Foletto
Ferrez, por exemplo, é o autor da foto que ilustra o artigo sobre a antiga Academia Imperial de Belas Artes, surgida no bojo da missão artística francesa. Inaugurado em 1826, onde hoje fica a Travessa das Belas Artes, no Centro, o prédio foi demolido em 1938. No local hoje há um estacionamento com entrada pela Avenida Passos. A ainda incipiente preocupação com preservação de marcos da história do país — o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, antecessor do Iphan, fora criado naquele mesmo ano — motivou a decisão de preservar a fachada em estilo neoclássico do edifício. A solução encontrada foi desmontar a estrutura e reerguê-la dentro do Jardim Botânico, na extremidade da Aleia das Palmeiras Imperiais junto à Rua Pacheco Leão. Um típico exemplar do Rio que desapareceu do seu lugar original, mas continua disponível para visitação, o pórtico é uma das dez atrações da Trilha do Patrimônio, um dos circuitos de visita guiada do parque.
Fachada da Academia Imperial de Belas Artes, em seu lugar original, no Centro — Foto: Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles
— Não sabemos exatamente como foi a decisão de colocar a fachada naquele lugar, mas acho que foi a decisão correta. Ela se encaixa perfeitamente ali, conduz o nosso olhar para aquele lugar e está perfeitamente integrada à paisagem — diz Lea Carvalho, arquiteta, doutora em museologia e patrimônio e uma das criadoras da trilha, em 2021.
Ao lado da vegetação de grande porte que a circunda, a fachada da Academia Imperial parece encolher, mas basta chegar perto para ter a real dimensão da construção. Estão ali todos os detalhes que podem ser observados na foto de Marc Ferrez. As colunas, que dialogam bem com os troncos das palmeiras em frente, os relevos laterais, a quadriga no alto, o portão de ferro e, no centro, uma pequena figura alada com o lado direito coberto pelo que parece ser uma casa de marimbondos que, curiosamente, emula o formato de uma asa e parece completar a escultura.
Saracuras secas
O chafariz do século XVIII foi para a Praça General Osório: em manutenção — Foto: Márcia Foletto
Outro resquício desse Rio que sumiu é o Chafariz das Saracuras. Este ainda mais acessível. A peça de fins do século XVIII, atribuída ao Mestre Valentim e tombada pelo Iphan, foi desmontada por ocasião da demolição do centenário Convento da Ajuda, onde hoje fica a Cinelândia, entre 1911 e 1912, e levada para a Praça General Osório, em Ipanema, onde está até hoje. A fonte resistiu ao desaparecimento, mas as saracuras e os cágados de metal de sua ornamentação sumiram com o tempo. Furtadas, foram substituídas por réplicas.
A obra atribuída a Mestre Valentim em seu lugar original, o Convento da Ajuda — Foto: Augusto Malta/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles
Em 2022, o bem e a praça passaram por reformas. A água voltou a jorrar dos bicos das novas saracuras. Durou pouco. Atualmente a fonte está seca, com uma placa indicando que passa por obras. De acordo com a Secretaria municipal de Conservação e Serviços Públicos, o chafariz estava em funcionamento até janeiro deste ano e “passa por manutenção da bomba e de equipamentos elétricos” que deve ser concluída na primeira quinzena de abril.
Já do antigo prédio do Conselho Municipal, que ficava exatamente ao lado do Convento da Ajuda, nada restou. Construído em 1871 para abrigar o Colégio São José, o edifício em estilo manuelino, incomum por essas bandas, veio abaixo em 1918 para dar lugar ao Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal.
Antigo prédio do Colégio São José e depois do Conselho Municipal — Foto: Augusto Malta/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles
O Palácio Pedro Ernesto substituiu o antigo edifício do Conselho — Foto: Guito Moreto
Dos artigos da Brasiliana, surgem imagens pouco conhecidas como a da primeira das sete sedes que a prefeitura do Rio já teve. Ficava em um palacete junto ao Campo de Santana, mais ou menos onde hoje funciona a Biblioteca Parque Estadual. O prédio foi um dos muitos demolidos para a abertura da Avenida Presidente Vargas na década de 1940.
Palacete que foi a primeira sede da Prefeitura do Rio, no Campo de Santana — Foto: Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles
O mesmo destino teve a lendária Praça Onze, atravessada pela nova via. Outro prédio emblemático — e pouco lembrado — é a bonita gare original da estrada de Ferro Central do Brasil, igualmente demolida para dar espaço às pistas largas da nova avenida. Em seu lugar foi erguido o prédio em estilo art déco que conhecemos hoje e que, verdade seja dita, já pode ser rotulado como icônico.
A antiga gare da Central do Brasil — Foto: Marc Ferrez / Convênio Leibniz-Institut für Länderkunde, Leipzig / Acervo Instituto Moreira Salles
— Algumas coisas foram perdidas, e outras ainda vão se perder, isso é parte do processo. Isso é mais forte no Rio do que em outras cidades. Talvez por ter sido capital, a gente pisou no acelerador em busca de uma certa modernidade desde muito cedo. Foram muitas as transformações vividas pela cidade em sua história — reflete o arquiteto e urbanista Washington Fajardo.
O antigo Mercado Municipal da Praça Quinze, destruído após a abertura da Perimetral, que também já não existe mais — Foto: Arquivo/O Globo
Fajardo lembra que a demolição da Perimetral — destaque contemporâneo da série da Brasiliana — devolveu à cidade áreas históricas que estavam descaracterizadas, como a Praça Mauá. O extenso viaduto, aliás, foi responsável pela demolição do Mercado Municipal da Praça Quinze. Em 1958, a via cortou no meio o antigo entreposto inaugurado em 1907. Das suas quatro torres octogonais, apenas uma ficou de pé. Nela funciona há anos o restaurante Albamar. A perimetral já não existe mais, mas a estrutura segue de pé como a lembrar de um Rio que se perdeu no tempo.
— Resgatar a memória é importante para criar e preservar nossa identidade cultural. Inclusive ajuda, acredito, a evitar a repetição de equívocos cometidos no passado e a provocar reflexões e, quem sabe, ações — observa Andrea Wanderley.
O pitoresco Chopp Berrante, no Passeio Público — Foto: Augusto Malta/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles
A Brasiliana Fotográfica já publicou 551 artigos a partir das imagens disponíveis. Juntos, eles caminham para bater a marca de 80 milhões de visualizações. Os próximos capítulos da série “O Rio de Janeiro Desaparecido” serão publicados em maio: o 31º, sobre o Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, e o 32º, sobre o prédio da Imprensa Nacional.
O site reúne imagens de outras instituições, além da FBN e do IMS: Arquivo Geral da Cidade do Rio, Arquivo Nacional, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, CPDOC – FGV, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, Museu Aeroespacial, Museu da República e Museu Histórico Nacional.
A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia do Jornalista e a fundação da Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, destacando imagens de prédios de antigos jornais: do Jornal do Brasil, produzida por um fotógrafo ainda não identificado; do Jornal do Commercio, por Uriel Malta (1910-1994); do O Paiz, por Guilherme Santos (1871-1966); e de A Noite, por Alfredo Krausz (1902-1953). Também foram escolhidas duas fotografias de pessoas lendo jornal, realizadas pelo italiano Vincenzo Pastore (c.1830-1918), em São Paulo, em torno de 1910; um registro de jornaleiros, de autoria de Gomes Junior (18?-19?); e uma imagem da atual sede da ABI, de um fotógrafo ainda não identificado.
O jornalismo é um bem público essencial e ele só é feito com o trabalho dos jornalistas, cujo ofício é primordial para a garantia da democracia. Em tempos de disseminação cada vez mais crescente de fake news, notícias falsas, no meio digital, a prática dos jornalistas profissionais torna-se ainda mais importante. Segundo um relatório publicado, em março de 2024, pela Organização Não Governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras (RSF) o Brasil carece de uma política de promoção da pluralidade e diversidade jornalística: “Num contexto de recentes ataques ao Estado Democrático de Direito no Brasil, a urgência de assegurar normas e políticas que fortaleçam um jornalismo livre, plural e de confiança é crucial para a própria democracia brasileira”. Segundo divulgado também pela RSF, em 13 de dezembro de 2024, nos últimos 20 anos, “mais de 1,7 mil jornalistas foram assassinados no planeta trabalhando ou em razão de suas funções”. Em 2024, 54 jornalistas foram mortos – duas mulheres e 52 homens.
O Dia do Jornalista foi instituído oficialmente, no Brasil, pela Associação Brasileira de Imprensa, em 1931, em homenagem ao jornalista e médico Giovanni Battista Líbero Badaró (1798-1830), morto por inimigos políticos em novembro de 1830, em São Paulo (Astrea, 11 de dezembro de 1930, segunda coluna; O Farol Paulistano, 23 de dezembro de 1830, primeira coluna). Criador do jornal Observatório Constitucional, Badaró fazia oposição ao governo de dom Pedro I (1798-1834), que constantemente censurava sua publicação. O assassinato de Badaró contribuiu para acirrar a crise constitucional que levou à abdicação de Pedro I, no dia 7 de abril de 1831.
A ABI, fundada em 7 de abril de 1908, foi idealizada por Gustavo de Lacerda (1854-1909) e “seu principal objetivo era assegurar à classe jornalística os direitos assistenciais e tornar-se um centro poderoso de ação”. Após ocupar diversos lugares, dentre eles uma sala na sede do jornal O Paiz, sua atual sede, na Rua Araújo Porto Alegre, no Centro do Rio de Janeiro, foi construída entre 1936 e 1939, durante a presidência de Herbert Moses (1884-1972), que esteve à frente da ABI, entre 1931 e 1964. O prédio da ABI, projeto dos irmãos Marcelo (1908-1964) e Milton Roberto (1914-1953), é um marco na história da arquitetura brasileira.
Uma curiosidade: a primeira banca de jornais e revistas do Rio de Janeiro foi inaugurada, em 1929, na esquina da Rua Sete de Setembro com a Avenida Rio Branco.
Pela terceira vez o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreve para a Brasiliana Fotográfica. Desta vez, o assunto do sexto artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica é o prédio “Balança-mas-não-cai”. Cássio conta um pouco da história do emblemático complexo de três edifícios localizado, na Avenida Presidente Vargas, inaugurada no Centro do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1944 (Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944). Também estão destacadas imagens de igrejas que foram demolidas para a construção da avenida. O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro, foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS).
O “Balança-mas-não-cai” por Cássio Loredano
Cássio Loredano*
São três aqueles prédios da avenida Presidente Vargas, no Rio, que a cidade se acostumou a ver como único e a que deu apelido no singular: “Balança”, na intimidade; por extenso, “Balança-mas-não-cai”. São esses siameses os edifícios Prefeito Frontin, Maipú e Onze de Junho. Existem na coleção DiáriosAssociados do acervo do Instituto Moreira Salles ao menos três imagens mostrando que o conjunto formado pela pequena quadra entre a avenida e as ruas Santana, Gustavo Barroso e Frederico Silva subiu um terço de cada vez, três fotos que comunicam a quem as vê uma sensação esquisita de desconforto: como assim aquilo não ter sido desde sempre uma coisa só?
A foto em que aparece apenas um dos prédios, o Prefeito Frontin, é do desfile militar que acontece todo 7 de setembro, neste caso o de 1947.
E as que mostram já dois, faltando ainda o Maipú no meio, são as duas de 1951; uma do Carnaval e a outra de pouco depois, em maio, com uma formação de cadetes da Aeronáutica alinhada tendo às costas o Campo de Santana, portanto de frente para o palácio Duque de Caxias, atual comando militar do leste.
Carnaval 1951, c. fevereiro de 1951. Praça Onze, Rio de Janeiro / O Jornal, 4 de fevereiro de 1951
Aviação – Exame de admissão para Aeronáutica, maio de 1951. Centro, Rio de Janeiro / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS
A avenida Presidente Vargas foi aberta na administração do prefeito Henrique Dodsworth, entre 1941 e 1944, arrasando tudo o que estava entre as velhas ruas de São Pedro e do Sabão e, mais adiante, entre Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, ao longo do canal do Mangue. Foram vitimados nesse percurso parte do Campo de Santana e a praça Onze de Junho e os largos de São Domingos e do Capim, os três últimos completamente apagados da cartografia. E – aqui já criminosamente – as igrejas do Bom Jesus do Calvário, São Domingos e sobretudo a jóia de inexcedível beleza e importância arquitetônica que era a de São Pedro dos Clérigos.
Para os paredões que se projetou construir ao longo do novo corredor, estabeleceu-se o gabarito de 22 andares para edifícios de lojas e sobrelojas bem recuadas em relação às fachadas superiores apoiadas sobre pilotis. Critérios observados à risca também pelo “Balança”.
Transferida a capital da República para o planalto central apenas dezesseis anos depois de aberta a avenida, teve início o gradual esvaziamento funcional e econômico do Rio. Arrefeceu o inicial entusiasmo incorporador, que só teve fôlego, do lado ímpar, da Candelária até a esquina da rua Uruguaiana, e, do par, até pouco depois da avenida Passos. De forma que o “Balança”, residencial, erguido muito mais longe, ficou completamente isolado de seus primos-ricos de escritórios do começo da avenida. E próximo demais da zona do meretrício do canal do Mangue. Isolamento aquele e proximidade esta as razões de ir sendo então parcialmente ocupado por agentes do lenocínio e do tráfico ilegal de drogas, com os delitos de que essas atividades costumam se fazer acompanhar.
Daí o apelido. “Balança-mas-não-cai” foi um programa humorístico semanal de Haroldo Barbosa e Max Nunes na Rádio Nacional, entre 1950 e 1967. Divertia a audiência com piadas sobre a convivência caótica nesses cortiços modernos surgidos com a verticalização urbana.
Ultimamente, iniciou-se uma lenta retomada imobiliária da avenida, agora já não mais tomando conhecimento do gabarito original. Chegou o Sambódromo, chegaram oito novos edifícios, entre eles o dos Correios, o Arquivo da Cidade e o “Piranhão”, centro administrativo da prefeitura. Chegaram o metrô Estácio e Cidade Nova. Povoaram-se as ruas, encheram-se de comércio e casas de pasto onde aquele formigueiro de funcionários tem que almoçar. Tudo ficou mais caro, aluguéis, por exemplo, fator este que também espanta a turma que vive de expedientes menos rendosos. O “Balança” está menos isolado e um tanto mais seguro. Os aluguéis no Prefeito Frontin oscilam entre R$1.500 e R$2.000 em andar mais alto, condomínio a R$450. No 4º andar esteve um apartamento à venda por R$270 mil e outro no 13º por R$450 mil. No Maipú é tudo mais em conta. No Onze de Junho, mais silencioso ao ser de fundos, um quarto-e-sala está na base de R$1.200 o aluguel, e R$1.500 um 2-quartos, condomínio a R$540.
* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.
Assista aqui a entrevista que o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, fez com Cássio Loredano, em 24 de setembro de 2024, a 41ª edição dos Depoimentos Cariocas, a série que vem registrando as memórias e reflexões de cariocas sobre o Rio de Janeiro. Foi gravada no apartamento de Cássio, no bairro de Laranjeiras, e foi conduzida pelo Coordenador de Promoção Cultural do Arquivo, Pedro Paulo Malta, com participações especiais do jornalista Álvaro Costa e Silva, do professor e crítico de arte Luiz Camillo Osorio e do cartunista Miguel Paiva.
Marc Ferrez (1843-1923), brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX, fotografou o Túnel da Rua Alice ou do Rio Comprido -Laranjeiras, aberto em 1887, que liga os dois bairros através do Morro dos Prazeres. Até as inaugurações do túneis Santa Bárbara, em 1962, e Rebouças, em 1967, era a única via disponível para as pessoas que quisessem transitar entre as zonas Norte e Sul da cidade sem passar pelo Centro. É o túnel mais antigo do Rio de Janeiro*.
O contrato para a construção do Túnel da Rua Alice foi celebrado entre a Câmara Municipal da cidade e a Companhia do Túnel e Ferro-Carril Rio Comprido e Laranjeiras, em 27 de outubro de 1886. Em 10 de fevereiro de 1887, foram abertas as propostas recebidas pela referida empresa para sua perfuração e construção. Seus fundadores – o Barão de Canindé, Malvino da Silva Reis, o já citado Eduardo Klingelhoefer e Manoel Ferreira Fernandes Bravo – foram eleitos presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro da companhia, respectivamente. A proposta escolhida, por ser a mais barata, foi a dos senhores Samuel Thompson e Charles Smith.
No início da década de 50, ainda sob a administração do prefeito Ângelo Mendes de Moraes (1894-1990), foram iniciadas as obras de ampliação e remodelamento do túnel. A galeria passou a ter 220 metros de comprimento por 10 de largura, foram realizadas a impermeabilização e revestimento da abóboda, construção dos pórticos, pavimentação das pistas e colocação de tubulações especiais d´água. Os melhoramentos fora entregues à população, em 7 de setembro de 1952, já na gestão do prefeito João Carlos Vital (1900-1984) (Revista Municipal de Engenharia, julho/setembro de 1950, primeira coluna; Diário de Notícias, 1º de novembro de 1951, primeira coluna; 6 de setembro de 1952, primeira coluna).
*Já existia o Túnel da Marítima ou Túnel da Gamboa, inaugurado, em 1879, perfurado sob o Morro da Providência, que ligava a Central do Brasil à área portuária da Gamboa. Tinha 315 metros de extensão, mas era utilizado apenas para embarque e desembarque de carga. Foi desativado em 1995. Sua galeria foi reformada e, em 2017, passou a ser usado pela linha 2 do VLT sentido Praça XV-Região Portuária.
Neste ano de 2025, quando comemora-se em 2 de dezembro os 200 anos de nascimento de dom Pedro II (1825 – 1891) que, dentre outros interesses, era um grande entusiasta da fotografia, tendo atuado decisivamente para seu desenvolvimento no Brasil, destacamos uma crônica de 1867, em que o escritor Machado de Assis (1839-1908), então com 27 anos, elogiou o imperador, declarando sua admiração pelo monarca.
Neste artigo, a Brasiliana Fotográfica destaca duas imagens, uma do rei e outra do literato, produzidas pelo fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (1830-1912), um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX. No fim dos anos 1840, já estava em Fortaleza, onde teve contato com a fotografia com o daguerreotipista e mágico irlandês Frederick Walter (1811 – 18?), que tornou-se seu mestre. Em 1855, já estava estabelecido no Rio de Janeiro e nesse mesmo ano fotografou o imperador Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e a filha do casal, princesa Leopoldina, na Quinta da Boa Vista. Foi noticiado que havia sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1857 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856; Diário do Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1857).
Voltando a Machado de Assis. Declarou em sua crônica a respeito de dom Pedro II:
“… gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios”.
A crônica foi publicada no dia 5 de março de 1897, no Diário do Rio de Janeiro, na coluna “Folhetim”, e Machado a assinou com o pseudônimo Job – criado, em 1865, para a assinatura de contos destinados ao Jornal das Famílias. Em forma de correspondência, era endereçada à Opinião Pública.
Dizem alguns que V. Excia. não existe; outros afirmam o contrário. Mas estes são em maior número, e a força do número, que é a suprema razão moderna, resolve as dúvidas que eu porventura possa ter. Creio que V. Excia. existe, em que pese aos mofinos caluniadores de V. Excia. Se não existisse, como se falaria tanto em seu nome, na tribuna, na imprensa, nos meetings, na praça do comércio, na rua do Ouvidor? Das criações fabulosas não se fala com tanta insistência e generalidade, salvo se houvesse uma conspiração para asseverar aquilo que não é, e isto repugna-me acreditar. Também por muito tempo se duvidou da existência de Mr. Hume, aquele célebre mágico que transformava os ovos em carvão, mas, se bem me lembro, apareceu um dia o dito mágico, e daí em diante ninguém mais duvidou dele. O mesmo há de acontecer com o judeu errante, de quem falam todos, e que eu creio que existe, sem ser a cholera-morbos, e que há de aparecer mais dia menos dia, tenho essa esperança. É a maioria da gente que tem razão, e quando falo em maioria suponho ter produzido um desses argumentos invulneráveis, até mesmo no calcanhar, apesar de quanto possa ter dito o visconde de Albuquerque. Assentado isto, receba V. Excia. esta carta que é a primeira da série com que eu pretendo estrear na imprensa. É costume entre a gente trocar os bilhetes de visita a primeira vez que se encontra. Na Europa, ao menos, é tão necessário trazer um maço de bilhetes, como trazer um lenço. V. Excia. terá desejo de saber quem sou. Di-lo-ei em poucas palavras.
Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões fracas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira. Não sou alto nem baixo; estou entre Thiers e Dumas, entre o finado marquês de Abrantes e o visconde de Camaragibe. Cito os dois para dar cor local à compa- ração, e ficar logo às boas com a crítica literária. Além disso, há um ponto de contato entre o orador francês e o orador brasileiro; ambos obtiveram um apelido quase idêntico pela semelhança da eloqüência parlamentar. Onde não há nenhum ponto de contato é entre os outros dois: nem o Sr. Camaragibe faz romances, nem Alexandre Dumas faz política, e creio que ambos se dão bem com esta abstenção. Não sou votante nem eleitor, o que me priva da visita de algumas pessoas de consideração em certos dias, gozando, aliás, da estima deles no resto do ano, o que me é sobremaneira agradável. Ao mesmo tempo poupo-me às lutas da igreja e às corrupções da sacristia.
Não privo com as musas, mas gosto delas. Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. Ao domingo leio as Santas Escrituras; os outros dias são divididos por meia dúzia de poetas e prosadores da minha predileção; consagro a sexta-feira à Constituição do Brasil e o sábado aos manuscritos que me dão para ler. Quer tudo isto dizer que à sexta-feira admiro os nossos maiores, e ao sábado durmo a sono solto. No tempo das câmaras leio com freqüência o padre Vieira e o padre Bernardes, dois grandes mestres. Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a republica de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou.. Não freqüento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios. Aqui estão os principais traços da minha pessoa. Não direi a V. Excia. se tomo sorvetes nem se fumo charutos de Havana; são ridiculezas que não devem entrar no espírito da opinião pública.
Agora que me conhece, perguntará V. Excia. por que motivo esta primeira carta é dirigida à sua pessoa, e que lhe quero dizer com esta dedicatória. Nada mais simples. Entrando numa sala, cumprimenta-se logo a dona de casa; entrando na imprensa, dirijo-me a V. Excia. que é a dona dela, segundo dizem as gazetas, e eu creio no que as gazetas dizem. Consinta V. Excia. que eu não lhe faça corte. De todas as pessoas deste mundo é V. Excia. a mais cortejada desde que um italiano escreveu estas celebres palavras: — de l’opinione, regina del mondo, talvez para contrabalançar o título que as ladainhas da Igreja dão à Virgem Maria, regina angelorum. Não será V. Excia. igual à Virgem Maria, mas creio poder compará-la a Santa Bárbara, e realmente é uma Santa Bárbara, que a maior parte da gente invoca na hora do temporal e esquece na hora da bonança. Eu serei o mesmo em todas as fases do tempo, e se vier a cortejá-la algum dia, será em silêncio, silentium loquens, como dizia S. Jerônimo, outro advogado contra as borrascas. Terá V. Excia. a indiscrição de pedir-me um programa? Acho que este uso parlamentar não pode ter aceitação nos domínios da musa epistolar, que é toda incerta, caprichosa, fugitiva. Demais, sei eu acaso o que há de acontecer amanhã? Posso criar uma norma aos acontecimentos? Deixe que os dias passem, e o sucessor com ele, os sucessos imprevistos, as coisas inesperadas, e a respeito de todos direi francamente a minha opinião.
Ou, se quiser absolutamente um programa, dir-lhe-ei que prometo escrever com pena e tinta todas as minhas cartas, imitando deste modo o programa daquele ministério que consistia em executar as leis e economizar os dinheiros públicos. Profunda política que toda a gente compreendeu de um lance. Perdoe-me V. Excia., creio que V. Excia. apoiou esse ministério; ao menos assim dizem os amigos dele; e creio que também lhe fez oposição; ao menos, diziam-no os parlamentares oposicionistas. Coisas de V. Excia. É nisto que ninguém pode vencê-la. O dom de ubiqüidade é V. Excia. quem o tem de uma maneira prodigiosa. Agora, por exemplo, não anda V. Excia. de um lado trajando sedas e agitando guizos, alegre e descuidada, pulando uma valsa de Strauss, dando a mão à tísica dos pulmões e à tísica das algibeiras, e de outro lado envergando uma casaca preta, e distribuindo pelos candidatos políticos a palma eleitoral? Ajuizada e louca, grave e risonha, entre uma urna e um cálice de champanhe, na esquerda o tirso da bacante, na direita o estilo do escritor, olhar de Cícero, calva de Anacreonte, eis aí V. Excia., a quem todos adoram, os velhos e os mancebos, os boêmios e os candidatos.
A verdade é que V. Excia. tem às vezes caprichos singulares; gosta da cor vermelha, e a pretexto de eleição, inspira não sei que maus ímpetos ao leão popular, que a tudo investe e tudo desfaz. Nessas ocasiões V. Excia. não tem cetro, como rainha que é, tem um cacete, que é um teorema infalível. Mas nem assim perde o caráter de opinião: é esse o parecer dos seus escolhidos. Enfim, são ímpetos. O pior é quando, em vez de ímpetos, apenas se emprega o meio da corrupção das urnas, da sedução do votante, da intervenção do fósforo, — pasmoso invento que eu coloco entre a obra de Fulton e a obra de Gusmão, vulgo Montgolfier. Isso é que é pior. Francamente, eu creio que V. Excia. desconhece todos esses meios, e os condena, e se acaso os sofre é por honra da firma. Em todo caso, por que não protesta V. Excia.? É deste silêncio que algumas pessoas tiram a conclusão de que V. Excia. não existe. É amanhã que V. Excia. tem de escolher definitivamente os deputados; começam duas quaresmas, uma religiosa, outra política. Amanhã os católicos e os candidatos vão receber a cinza, e todos recebem a cinza, — ainda os que não forem eleitos, — uns na testa, outros nos olhos. Alegrias e decepções, dores e flores, todas as exaltações, todos os abatimentos, todos os contrastes. Eu creio que há em todo o império uma soma de políticos capaz de formar cinco ou seis câmaras. É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas secções: políticos por vocação, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V. Excia. em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país. Mande-nos V. Excia. uma câmara inteligente, generosa, honesta, sinceramente dedicada aos interesses públicos, uma câmara que ponha de parte as subtilezas e os sofismas, e entre de frente nas magnas questões do dia, que são as grandes necessidades do futuro, de que depende a grandeza, ia quase dizer a existência do corpo social.
Mas eu que falo assim obscuro e rude, quem sou eu para dar conselhos à opinião, regina del mondo? Perdoe-me V. Excia. É natural nos homens, e eu sou homem, homo sum. Ao menos veja nisto a minha boa vontade e o grande amor que lhe tenho. Creio que esta carta vai longa; tenho-lhe roubado demasiado tempo. Vou pôr aqui o ponto final, e recolher-me ao silêncio, a fim de pensar nos diversos assuntos com que me hei de ocupar, se Deus me der vida e saúde. Devia ir vê-la hoje divertindo-se e pulando, mas não posso. Consagro o dia de hoje a S. Francisco de Salles, apropriado à estação de penitência que começa amanhã. Preparo assim o meu espírito à meditação. Além de que, o bom do Santo é um dos melhores amigos que a gente pode ter: não fala mal nem dá conselhos inúteis. Se V. Excia. cuida que é um homem de carne e osso, engana-se; é um maço de folhas de papel metidos numa capa de couro; mas dentro do couro e do papel fulge e palpita uma bela alma.
JOB
A segunda crônica foi publicada no mesmo jornal e na mesma coluna, uma semana depois, em 12 de março. Também em forma de correspondência, era endereçada a Hetaira, termo grego para as prostitutas requintadas da Grécia Antiga. Foi sua última crônica publicada no Diário do Rio de Janeiro.
Na década anterior, em 6 de novembro de 1859, na primeira página da revista semanal O Espelho, cujos textos de capa eram usualmente de autoria de Machado, foi publicada uma biografia não assinada de dom Pedro II. A descoberta deste texto e a possibilidade de sua autoria ser de Machado foi abordada pela pesquisadora Cristiane Garcia Teixeira (1985-), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em sua tese de mestrado, de 2016, intitulada Um projeto de revista n’O Espelho: literatura, modas, indústria e artes (1859-1860).
Segundo Cristiane, “Machado de Assis tinha vinte anos de idade quando começou a escrever nesta revista. Ele foi o colaborador mais assíduo, escreveu 38 textos em apenas quatro meses“. O Espelho circulou entre setembro de 1859 e janeiro de 1860, totalizando 19 números.
Sobre a possibilidade de Machado ser o autor do texto sobre o imperador, a pesquisadora escreveu em sua tese:
… O argumento se sustenta da seguinte maneira; na edição número seis, publicada no dia nove de outubro, na rubrica Notícias á mão – sem menção de autor – uma nota informou: “Brevemente encetaremos a publicação de uma–Galeria Dramática – biografias e um retrato correspondente. O fotógrafo é o Sr. Gaspar Guimarães, e o biógrafo é o Sr. Machado de Assis”. Em nenhum dos números posteriores (sete, oito e nove), foram publicadas biografias ou apareceu alguma menção ao retrato. Apenas no número dez apareceu este esboço biográfico de D. Pedro II. O texto, por sua vez, ocupou um espaço geográfico na revista que foi comum a publicação de textos de Machado de Assis ou Francisco Eleutério de Sousa; a primeira página e o primeiro artigo. Era o “abre alas” da revista…Portanto, este texto biográfico, pode vir a ser um texto ainda desconhecido do literato tão aclamado pela crítica brasileira. Ademais, o biógrafo absteve-se de falar em política, no esboço biográfico, justificando que “As conveniências impõem-se esta falta, ou antes o cálculo impõe-nos esse silêncio”.
Abaixo, um trecho do esboço biográfico de Pedro II publicado em O Espelho:
“Duas nobres qualidades têm o imperador, que sempre acompanharão a sua memória: a da fé evangélica e a do amor pelo seu país, que o faz nivelar-se com o mais humilde de seus cidadãos. Além destas qualidades de um coração bem formado e educado nos são principio da moral e da religião, o monarca brasileiro presa-se de ser o cultor e amante protetor das letras pátrias. Em diversas associações entre nós fundadas todos o vêem representado no seu nome, nos donativos que faz a bem de sua prosperidade, e mesmo quando pode dispor de algumas horas de sua afadigada vida, ainda todos o veem animar com a sua presença as reuniões literárias dos nossos jovens estudiosos. É que o imperador reconhece, e mui bem, que sobre a ilustração assenta-se a moralidade de um povo, o seu adiantamento, a sua civilização; e sendo a mocidade o esteio do futuro, cumpre prepará-la de modo que as esperanças hoje sonhadas possam ser uma realidade nos dias que hão de vir”.