Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

 

1890 – Em 2 de setembro, nascimento, no Presídio de Fernando de Noronha, em Pernambuco, de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836- 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929). Na ocasião, seu pai era diretor do presídio (Diário de Pernambuco8 de junho de 1890, primeira coluna13 de julho de 1890, última coluna).

 

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão / Family Search

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search

 

Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902), pai de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho  / Site Family Search

 

 

Era neto de Joaquim José Coelho (1797 – 1860) e de Maria Bernardina de Gusmão (1783 – 1885), barão e baronesa da Vitória.

 

 

 

1902 – Falecimento de seu pai, Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) (A Província (PE), 15 de maio de 1902, quarta coluna).

No Colégio Porto Carrero, no Recife, foi aprovado com distinção na segunda série da aula infantil (A Província (PE), 11 de dezembro de 1902, terceira coluna).

1905 / 1906 Estudava no Colégio Diocesano São José, no Rio de Janeiro (A União, 17 de agosto de 1905, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de dezembro de 1905, quinta colunaCorreio da Manhã, 15 de abril de 1906, terceira coluna).

1911 - Foi nomeado pelo governador do Amazonas, Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853 – 1926), com a permissão do ministro da Guerra, Dantas Barreto (1850 – 1931), auxiliar e fotógrafo da Comissão Amazonense de Limites (Jornal do Commercio (AM), 10 de julho de 1911, primeira coluna).

Chegou no Recife, vindo de Manaus, a bordo do vapor Ceará (A Província (PE), 11 de outubro de 1911, última coluna).

 

 

1913 – Casou-se com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948) e tiveram seis filhos: Pojucan (19 -?), Rômulo (1918 – 1971), Rêmulo (1921 – 1985), Maria Clementina (1928- 2016), Murilo (1929 – 1970) e Alberto (19? – ?).(Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro, de 1913, quarta coluna).

1915 - Era guarda do corpo administrativo da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (Almanak Laemmert, 1915, última coluna).

1918 – Por ordem do ministro da Guerra, José Caetano de Faria (1855 – 1936), o inspetor de alunos Horacio de Gusmão Coelho passou a servir no 1º Distrito de Artilharia de Costa (Jornal do Commercio, 12 de janeiro de 1918, terceira coluna).

1920 - Devido à iminente reabertura da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras (1870 – 1934) pediu que se apresentassem alguns funcionários adidos de instituições subordinadas ao ministério da Guerra, dentre eles Horacio (O Paiz, 13 de fevereiro de 1920, sexta coluna).

Horacio foi identificado como empregado da Light. Teria arrendado o teatro Politheama e sido passado para trás no negócio* (O Paiz, 3 de outubro de 1920, quarta colunaO Jornal, 3 de outubro de 1930, terceira coluna).

1921 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 10 de setembro de 1921, quinta colunaGazeta de Notícias, 10 de setembro de 1921, quarta coluna).

1923 – Identificado como empregado público, pediu ao Ministério da Agricultura privilégio para uma nova armação giratória destinada a diversões públicas. A patente foi concedida* (Jornal do Commercio18 de abril de 1923, quinta coluna5 de junho de 1923, penúltima coluna).

 

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1925 – Ficou ferido em uma explosão em um barracão nos fundos de um prédio na Rua Emerenciana, em São Cristóvão, quando eram manipulados petardos por dinamiteiros (O Imparcial, 6 de maio de 1925, segunda coluna).

Por abandono de emprego, foi exonerado do cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 19 de junho de 1925, penúltima coluna).

1926 – O ministro da Fazenda, Aníbal Freire da Fonseca (1884 – 1970), enviou ao ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho (1861 – 1947) o processo originado pelo requerimento da esposa de Horacio, Maria Emilia Coelho, solicitando o recolhimento das contribuições para o montepio devidas por Horacio, cujo paradeiro era ignorado (Jornal do Commercio, 1º de janeiro de 1926, primeira coluna).

1928 – Ele e sua esposa compareceram à missa de sétimo dia do ex-ministro da Fazenda, Esmeraldino Bandeira (1865 – 1928) (Jornal do Commercio, 12 de abril de 1928, quarta coluna).

1929 – Falecimento de sua mãe, Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929), na residência de Horacio, no Rio de Janeiro (Diário da Manhã (PE), 13 de agosto de 1929, sexta colunaJornal do Recife, 14 de agosto de 1929, última colunaDiário da Manhã (PE), 17 de agosto de 1929, primeira coluna).

1931 – Pelo chefe do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), foi considerado readmitido no cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior, desde 13 de novembro do ano anterior (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do general Xavier de Brito (1866 – 1930) (Correio da Manhã, 10 de abril de 1930, antepenúltima coluna).

1933 – Integrou a comitiva presidencial que viajou para o Norte do país no navio Almirante Jaceguay (Diário de Notícias, 13 de outubro de 1933, sexta coluna).

1934 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro (1891 – 1963), desenhista, cartógrafo da Escola de Estado Maior (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, penúltima coluna).

1935 – Foi posto pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro, à disposição do ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), para atuar como fotógrafo na Comissão de Limites da Seção Sul (Correio de Manhã, 18 de janeiro de 1935, quarta coluna).

1938 – Com o secretário do Interior de Pernambuco, Arthur de Moura, e outras autoridades visitou Fernando de Noronha (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1938, segunda coluna).

1940 - Publicação de uma fotografia de Maria Clementina, filha de Horacio e Maria Emilia (Revista da Semana, 24 de fevereiro de 1940).

1942 – O presidente da República, Getúlio Vargas, assinou um decreto com várias promoções em diversos ministérios. Horacio foi um dos promovidos (Correio da Manhã, 21 de janeiro de 1942, quarta coluna).

1943 – Publicação de fotografias de autoria de Horacio de uma viagem entre Recife e Rio de Janeiro na reportagem Nossa Terra (Revista da Semana, 31 de julho de 1946).

1944/1945 – No relatório das atividades de 1944 apresentado ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, por Roquette-Pinto, diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi informado que a instituição havia dado toda assistência técnica para o manejo e aquisição de câmeras 16mm pelo sr. Horacio Coelho, cinematografista do Ministério da Guerra que seguiu com as forças expedicionárias brasileiras tendo o INCE examinado o material adquirido, fornecido filmes e câmeras para o treinamento do mesmo cinegrafista, que fica assim habilitado a desempenhar toda e qualquer filmagem em operações de guerra (A Noite, 13 de março de 1945, segunda coluna).

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi posto pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), à disposição do marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (A Noite, 7 de junho de 1944, quarta colunaDiário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna).

 

 

Publicação da reportagem Os brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra fuma com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 24 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra está fumando com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 31 de março de 1945).

Publicação da reportagem Senta a Púa avestruz com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

Na reportagem A Batalha de Castelnuevo, publicação da fotografia abaixo (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

 

 

No suplemento de guerra da Revista da Semana, de 5 de maio de 1945, publicação de fotos enviadas especialmente da Itália por Horacio Coelho (Revista da Semana, 5 de maio de 1945).

Publicação da reportagem Visões de uma guerra que passou com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 30 de junho de 1945).

Publicação da reportagem Depois da vitória Veneza com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de julho de 1945).

Publicação da reportagem A volta de nosso correspondente com fotos de autoria de Horacio e do próprio Horacio em frente ao Café Petrarca, em Veneza (Revista da Semana, 7 de setembro de 1945).

Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

 

 

Uma mensagem de Horacio elogiando seus companheiros de imprensa foi lida em um programa de rádio (Jornal do Commercio, 4 de julho, quinta coluna).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna).

 

 

1946 - Fazia parte do quadro de civis permanentes do ministério da Guerra e foi promovido por merecimento na carreira de desenhista (Correio da Manhã, 11 de maio de 1946, sexta coluna).

Com o tenente João Brito Jorge, adjunto da SS Cine da Secretaria Geral de Guerra, foi para Resende filmar as manobras da Escola Militar (Correio da Manhã. 18 de setembro de 1946, segunda coluna).

1947 - Foi um dos correspondentes de guerra que atuaram junto à FEB na Segunda Guerra Mundial convidados pela Embaixada dos Estados Unidos para uma reunião no Serviço Cultural e Informativo dos Estados Unidos da América, quando foi exibido um longa-metragem sobre a atuação dos brasileiros na guerra (Correio da Manhã, 25 de janeiro de 1947, penúltima coluna).

Foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

1948 - Em 24 de fevereiro, falecimento de sua esposa Maria Emilia, a Miluca (Correio da Manhã, 29 de fevereiro de 1948).

 

 

Década de 1950 – Aposentou-se do cargo de cinegrafista na década de 1950.

1958 – Em 8 de maio, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa, quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga (1913 – 1990) e Fernando Stamato (1917 – 1993), dentre outros, também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

1963 -  Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

 

 

 

*A pesquisa não conseguiu confirmar se trata-se do mesmo Horacio ou se é um homônimo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

 

Série “Hotéis do Brasil” VIII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXI – O Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, e o Dia da Literatura Brasileira

Hoje comemora-se o Dia da Literatura Brasileira em homenagem à data de nascimento do cearense José de Alencar (1829-1877),  importante escritor do Romantismo brasileiro, autor de clássicos como O Guarani (1857), Lucíola (1862), Iracema (1865) e Senhora (1875). Sua estátua, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi registrada por Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1897; e por Augusto Malta (1864 – 1957), em 1906. O Dia da Literatura Brasileira seria, a princípio, o tema central deste artigo. Mas, nas fotos do monumento, aparece o Hotel dos Estrangeiros. O artigo passou então a ser também sobre o hotel e a ser o 31º da série O Rio de Janeiro desaparecido e o 8º da série Hotéis do Brasil.

 

 

 

O Hotel dos Estrangeiros* foi inaugurado, provavelmente, em 1849, ano em que foi mencionado pela primeira vez nos jornais da época, e ficava na Rua do Catete, nº 1 (Jornal do Commercio, 8 de maio de 1849, quarta coluna).

 

 

 

Foi demolido em 1951 e em seu lugar, foi construído o edifício Simon Bolivar (A Noite, 16 de abril de 1951, última colunaCorreio da Manhã, 17 de junho de 1951, quarta coluna, A Noite, 26 de junho de 1952, quarta coluna).

 

 

 

 

Breve histórico do Hotel dos Estrangeiros no Catete

 

 

Um dos pioneiros na história da hotelaria carioca, o Hotel dos Estrangeiros era, quando inaugurado, dirigido por Milliet Chesnay, William Coute e Lafourcade pertencia a Francisco Lumau e ficava na confluência das atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo, em frente à atual Praça José de Alencar. Oferecia uma vista magnífica para o mar, e reúne todas as comodidades para banhos (Almanak Laemmert, 1850).

 

 

Ao longo da década de 1850, eram vendidos no hotel ingressos para espetáculos teatrais e esportivos (Diário do Rio, 8 de novembro de 1853, última coluna; Courrier du Brésil, 31 de outubro de 1858, última coluna). Em 1856, pertencia a João Mayall, que plantou as quatro figueiras em frente ao edifício, que encantavam os visitantes e que foram tema do poema As quatro irmãs, de Odete de São Felix Simonsen (Almanak Laemmert, 1856; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950, quarta coluna).

Em torno de 1860, diplomatas norte-americanos passaram a residir no hotel (Revista da Semana, 7 de novembro de 1942, segunda coluna).

Em 1896, foi anunciado que ele havia passado por uma reforma. Tinha instalações bonitas e higiênicas, um bom restaurante e dispensava a seus clientes um tratamento diferenciado.

 

 

“Esse hotel que foi completamente restaurado, situa-se na melhor parte da cidade, recebendo ar e luz por todos os lados, próximo a mais limpa praia da cidade e cercado por um grande jardim. Possui quartos grandes e confortáveis e bem mobilhados, bons chuveiros, e banhos quentes, desinfetantes na água, armários, água potável filtrada pelo sistema Pasteur, bom serviço de mesa, e é considerado o primeiro hotel dessa capital. Possui ainda suntuosos salões, e serviço de mesa esplendido para baquetes. O restaurante e serviços não podem ser superados”.

Tornou-se a moradia de autoridades nacionais, chefes de estado em visita ao Rio de Janeiro e personalidades importantes nacionais e estrangeiras.

 

 

Foi um ponto de importantes reuniões e encontros, tanto de natureza social quanto política. Foi lá que Prudente de Moraes (1841 – 1902), primeiro presidente civil e eleito no Brasil, foi morar com sua família quando veio de São Paulo, em 1894 (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1894, segunda coluna). E também foi lá que nasceu a candidatura do marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) à Presidência da República, cargo que exerceu entre 1910 e 1914.

Foi cenário, em 8 de setembro de 1915, do assassinato do senador José Gomes Pinheiro Machado (1851 – 1915), importante e poderoso político da República Velha. Foi apunhalado por Manso de Paiva (c. 1886 – década de 1960), no saguão do hotel, aonde visitaria o político Rubião Junior (1851-1915), do Partido Republicano Paulista. Suas últimas palavras teriam sido: “Ah, canalha! Apunhalaram-me!” (Careta, 11 de setembro de 1915A Noite, 24 de janeiro de 1934; O Cruzeiro, 8 de julho de 1944).

Meses antes, Pinheiro Machado previra sua própria morte em entrevista ao jornalista João do Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César…”

 

 

Foi noticiado o despejo do hotel em fins de 1949 e, em 5 de abril de 1950, foi requerida por seus credores a decretação de sua falência (Diário da Noite, 14 de dezembro de 1949, segunda coluna;Correio da Manhã, 5 de abril de 1950, sexta coluna; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950). Em setembro do mesmo ano, foi alugado pela Justiça Eleitoral (A Manhã, 9 de setembro de 1950, terceira coluna). Em fevereiro de 1951, foi anunciado um baile de carnaval em suas dependências. Poucos meses depois foi demolido: uma tradição do Rio que mergulha no esquecimento para sempre (Gazeta de Notícias, 17 de dezembro de 1949, última colunaCorreio da Manhã, 18 de janeiro de 1951, quarta coluna).

 

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Dia da Literatura Brasileira

 

Para homenagear o Dia da Literatura Brasileira, como já mencionado o ponto de partida deste artigo, o portal destaca, ainda, três imagens de importantes escritores brasileiros, todos fundadores da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Nabuco (1849-1910), Lucio de Mendonça (1854-1909) e Machado de Assis (1839-1908). As fotografias foram produzidas por Augusto Malta, José Ferreira Guimarães (1841-1924) e por Joaquim Insley Pacheco (1830-1912) com Marc Ferrez, respectivamente. Lembramos aqui que, por escolha de Machado de Assis, José de Alencar é o patrono da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras.

 

 

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A propósito, o Hotel dos Estrangeiros foi citado em dois romances e em um conto de Machado de Assis:

“- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquilizar a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pô-los em ordem”.

Esaú e Jacó (1904)

 

“Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:

- O que é eterno, Iaiá Lindinha?

Ela, suspirando:

- Ingrato! É o amor que te tenho.

Jantei sem remorsos; ao contrário, tranquilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes…”

 

Eterno! (1899) – conto

 

“25 de junho

Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.

Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a ideia da volta, a que aludia frequentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete”.

Memorial de Aires (1908)

 

De acordo com o portal machadodeassis.net:

Segundo o Almanaque Laemmert de 1888, havia dois hotéis com esse nome: um em francês (Hôtel des Étrangers), pertencente a Pedro Lemgruber, que ficava na rua da Assembleia, 54; outro em português (Hotel dos Estrangeiros), pertencente a João Mayall, que ficava “no caminho Velho de Botafogo, em frente ao largo do Catete”, isto é, na confluência da rua Senador Vergueiro com a rua Barão do Flamengo, no bairro do Flamengo, na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em frente à atual praça José de Alencar. O contexto da ficção machadiana sugere que se trata do segundo, que era um estabelecimento de grande prestígio à época.

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo

 

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo, obra do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), foi inaugurado em 1º de maio de 1897, no Largo do Catete, que passou nesta data a se chamar Praça José de Alencar – era anteriormente denominada Praça Ferreira Vianna. Foi o primeiro monumento erguido no Brasil para homenagear um escritor brasileiro e é composto por uma estátua de José de Alencar, quatro relevos e quatro medalhões em bronze, dispostos em uma base octogonal, onde estão gravadas cenas dos romances Iracema, O Gaúcho O Guarani e O Sertanejo, de autoria do homenageado.

Sua inauguração contou com a presença do então presidente da República, Prudente de Moraes, do prefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) e de diversas autoridades e, apesar do sol e imenso calor, a praça e as imediações estavam apinhadas. Sua viúva, filhos, seu irmão, o barão de Alencar (1832 – 1921); e outros familiares também estiveram presentes à cerimônia. Na ocasião, discursaram Ferreira de Araújo (1848 – 1900), fundador da Gazeta de Notícias; os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Bilac (1865 – 1918), além de políticos presentes (Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1897, terceira colunaO Paiz, 2 de maio de 1897, terceira colunaRevista da Semana, 9 de maio de 1942).

 

“Bernardelli deu a José de Alencar (mais conhecido ainda hoje como político do que como romancista) a mais bela e duradoura das consagrações, já agora é possível que a profissão das letras mereça mais respeito, uma vez que o povo está vendo que um homem de letras merece também a homenagem devida aos heróis e aos benfeitores da pátria.

E não seria justo que o nome do escultor não fosse entregue ao aplauso público, ao lado do nome do escritor glorificado.
E que este dia (o primeiro dia em que o governo do meu país dá uma demonstração pública de que deseja honrar a arte e a literatura do Brasil, vindo assistir a essa festa de homens de letras) possa iniciar uma era nova de florescimento intelectual.”
Trecho do discurso de Olavo Bilac

 

A ideia da construção do monumento partiu dos redatores do Monitor Sul Mineiro, da cidade de Campanha, em Minas Gerais, que abriram uma subscrição para esse fim. A família do jornalista Evaristo da Veiga (1799 – 1837) incumbiu a divulgação da ideia à Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1880, segunda coluna). Foram feitos diversos donativos e, em 1º de dezembro de 1894, foi realizado um concerto, no Cassino Fluminense, para arrecadar dinheiro para a construção da estátua (Gazeta de Notícias, 1º de dezembro de 1894).

 

* Não confundir com o Hotel dos Estrangeiros que existiu anteriormente na Rua da Cadeia, 69 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de julho de 1846, terceira coluna).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Almanaque Gaúcho

Aventuras na História

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro : Cia. Editora e Comercial F. Lemos, 1956.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século 1910/1930 – Anos de crise e de criação. São Paulo : Editora Abril, 1980

SILVA, Maria do Carmo Couto da. Escultura e literatura nacional: o monumento a José de Alencar (1897). 

Site Arqueologia Histórica do Rio de Janeiro

WANDERLEY, Andrea C.T. A fundação da Academia Brasileira de Letras  in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

 

 

 

Dia Internacional da Dança

Com uma fotografia de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923) da escultura Dançarina, a Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Internacional da Dança, instituído, em 1982, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a UNESCO.

 

 

A data foi escolhida em homenagem ao nascimento do professor de balé e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810), pioneiro da reflexão teórica sobre o balé, escritor das Cartas sobre a Dança.

 

 

A escultura Dançarina, em mármore de Carrara, foi inaugurada, em 1908, na Praia de Botafogo. É uma réplica de uma obra do escultor francês Paul Darbefeuille (1852-1933). Na década de 1950, foi fotografada no Jardim do Méier, e, em 1960, estava na Avenida Presidente Vargas, em frente à Central do Brasil. Em 1992, foi encontrada no Largo do Tanque, em Jacarepaguá, tendo sido transferida, em janeiro de 1996, para a Praça Leony Mesquita, no mesmo bairro. Em 2023, uma das mãos da escultura foi restaurada pela Secretaria de Conservação do Rio de Janeiro.

 

A DANÇA E A ALMA

Carlos Drummond de Andrade

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.
 
No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.
 
Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…
 
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

 

Lembramos que o Grupo Corpo, uma das mais importantes companhias de balé do Brasil com renome internacional, completa, em 2025, 50 anos de existência.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

Monumentos do Rio

Site Conselho Internacional da Dança

Site Lu Lacerda

O Rio de Janeiro é a nova Capital Mundial do Livro

Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro assume o posto de Capital Mundial do Livro. É a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Atualmente, a língua portuguesa é falada por cerca de 280 milhões de pessoas distribuídas por todos os continentes, sendo o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna. No dia 5 de maio é celebrado o Dia da Língua Portuguesa nas Nações Unidas.

A cerimônia da entrega do título ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (1969-), pelas mãos da prefeita de Estrasburgo, Jeanne Barseghian (1980-) aconteceu no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. Foi realizado um espetáculo musical que narrou a história da língua portuguesa e reverenciou grandes nomes da literatura. A celebração misturou tecnologia, literatura e expressões artísticas populares.

Em sua fala, o prefeito destacou a Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana  Fotográfica e a mais antiga instituição cultural do Brasil, criada por dom João VI (1767 – 1826), em 1810. Possui um acervo de cerca de 9 milhões de itens e foi considerada pela UNESCO como uma das principais bibliotecas nacionais do mundo.

“— É um ano fundamental. O Rio já foi capital de muita coisa. Agora, é capital dos leitores — afirmou Paes. — Temos o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras. Os grandes escritores brasileiros todos passaram por aqui.”.

A escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro foi feita pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura -, que desde 2001 designa uma cidade “que se compromete a realizar atividades com o objetivo de incentivar uma cultura de leitura e difundir os valores da Rede em todas as idades e grupos populacionais, dentro e fora das fronteiras nacionais. Através do programa WBC, a UNESCO reconhece o compromisso de uma cidade em promover livros e fomentar a leitura durante um período de 12 meses (entre um Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, 23 de Abril, e o seguinte), bem como no futuro”.

A Associação Internacional de Editores (IPA), a Federação Europeia e Internacional de Livreiros (EIBF), o Fórum Internacional de Autores (IAF) e a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA) são membros do Comitê Consultivo da Capital Mundial do Livro da UNESCO. Por ter sido escolhida Capital Mundial do Livro, o Rio de Janeiro entra para uma rede de cooperação internacional com as cidades dos anos anteriores.

 

 

A Brasiliana Fotográfica celebra esse evento destacando uma fotografia da sala de trabalho da Seção de Impressos da antiga sede da Biblioteca Nacional, que ficava na Rua do Passeio. A imagem faz parte do Album de vistas da Bibliotheca Nacional, de autoria de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?).

 

 

Pouco se sabe, até o momento, da vida  pessoal de Antonio Luiz Ferreira. Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904. Apesar de sua carreira discreta, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888 como a Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial, em 13 de maio de 1888; e a Missa Campal de 17 de maio de 1888. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e do fascínio causado pela própria presença da câmara fotográfica.

Em 1902, foram publicados dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na Rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

Retrospectiva das cidades que já foram Capital Mundial do Livro

2001 – Madri, Espanha

  2002 – Alexandria, Egito

2003 – Nova Deli, Índia

    2004 – Antuérpia, Bélgica

2005 – Montreal, Canadá

2006 – Turim, Itália

2007 – Bogotá, Colômbia

2008 – Amsterdã, Holanda

2009 – Beirute, Líbano]

2010 – Liubliana, Eslovênia

2011 – Buenos Aires, Argentina

2012 – Erevan, Armênia

2013 – Bangkok, Tailândia

2014 -Port Harcourt, Nigéria

2015 – Incheon, Coreia do Sul

2016 – Breslávia, Polônia

2017 – Conacri, Guné

2018 – Atenas, Grécia

2019 – Xarja, Emirados Árabes Unidos

2020 – Kuala Lumpur, Malásia

2021 – Tbilisi, Geórgia

2022 – Guadalajara, México

2023 – Acra, Gana

2024 – Estrasburgo, França

 

Ao longo do próximo ano, uma extensa programação focada em livros e literatura vai tomar acontecer no Rio de Janeiro. Será ancorada por cinco grandes ações: a Bienal do Livro, a Noite com Livros, o Book Parade Rio 2025, o Rio de Livros e a Academia Editorial Jr.. Haverá também uma inédita edição carioca do Prêmio Jabuti, além da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e outras festas e feiras, como as de Santa Teresa e de Santa Cruz.

A marca, lançada no dia 11 de abril de 2025 em uma cerimônia no Real Gabinete e Leitura , e o slogan do evento foram escolhidos pela Academia Brasileira de Letras. O Rio de Janeiro continua lendo faz referência ao clássico Aquele Abraço, do imortal Gilberto Gil.

 

marca

 

A próxima Capital Mundial do Livro será Rabat, em Marrocos.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Esse artigo foi atualizado em 24 de abril de 2025.

 

Fontes:

Extra, 12 de abril de 2025

O GLOBO, 10 de abril de 2025

O GLOBO, 23 de abril de 2025

Site G1

Site IPA

Site Prefeitura do Rio de Janeiro

Site UNESCO

Dia dos Povos Indígenas: Getúlio Vargas visita a Aldeia Karajá

Hoje é celebrado o Dia dos Povos Indígenas e a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Dia dos Povos Indígenas: Getúlio Vargas visita a Aldeia Karajá, de autoria da historiadora Maria de Fátima Morado, do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal. Em destaque, três imagens da visita de Vargas a uma aldeia Karajá. A adoção da data de 19 de abril pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, seguiu a recomendação feita pelo I Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México, em 1940, para que os países americanos institucionalizassem políticas públicas sobre os direitos e segurança dos povos indígenas.

 

Dia dos Povos Indígenas: Getúlio Vargas visita a Aldeia Karajá

Maria de Fátima Morado*

 

 

Em 19 de abril é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, denominação que foi atualizada a partir da publicação da lei n.º 14.402, de 8 de julho de 2022, em substituição ao decreto-lei nº 5.540, de 2 de junho de 1943, que instituiu o Dia do Índio.

A adoção da data de 19 de abril pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, seguiu a recomendação feita pelo I Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México, em 1940, para que os países americanos institucionalizassem políticas públicas sobre os direitos e segurança dos povos indígenas.

Por casualidade, 19 de abril é o dia do nascimento de Getúlio Vargas que promulgou o decreto seguindo o estímulo de sertanistas e indigenistas, entre eles, Marechal Cândido Rondon. Getúlio Vargas também foi motivado pela política de interiorização do país, a Marcha para o Oeste, programa do Estado Novo (1937-1945), que tinha como objetivo o desenvolvimento e povoamento do interior do Brasil. A campanha do governo de exaltação da integração nacional abarcaria as populações indígenas.

 

 

Getúlio Vargas realizou viagens às regiões norte e central para divulgar a Marcha para o Oeste, e em agosto de 1940, conheceu a aldeia dos índios Karajá, na Ilha do Bananal (TO), sendo o primeiro presidente a visitar uma área indígena.

As fotos dessa visita oficial pertencem à Coleção Getúlio Vargas, acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

 

*Maria de Fátima Morado é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

Museu do Índio / Fundação Nacional do Índio (Funai) http://antigo.museudoindio.gov.br/educativo/pesquisa-escolar/253-o-dia-19-de-abril-e-o-dia-do-indio

Arquivo Nacional. Exposições virtuais. A Marcha para o Oeste: a conquista do Brasil Central (1943-1967) https://exposicoesvirtuais.an.gov.br/index.php/galerias/10-exposicoes/314-a-marcha-para-o-oeste-a-conquista-do-brasil-central.html

Os Brasis e suas memórias. Watau: A trajetória de uma liderança Karajá e o projeto modernista do Estado brasileiro https://osbrasisesuasmemorias.com.br/biografia-watau/

“Brasiliana Fotográfica 10 anos: lentes do passado, construindo o futuro” – Com a palavra, os curadores

A trajetória da Brasiliana Fotográfica, inaugurada em 17 de abril de 2015, será celebrada com a realização do evento Brasiliana Fotográfica 10 anos: lentes do passado, construindo o futuro, no Auditório Machado de Assis, na Fundação Biblioteca Nacional, no dia 16 de abril próximo. Confira no link todas as informações sobre nossa celebração.

No dia 16 de abril de 2025, foi acrescentado ao artigo o link para o vídeo da celebração: 

Brasiliana Fotográfica 10 anos: lentes do passado, construindo o futuro (vídeo do evento)

O portal traz para seus leitores dois artigos escritos pelos curadores da plataforma: Diana dos Santos Ramos, Chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional; e Sérgio Burgi, Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles; além da programação do evento comemorativo do aniversário do portal, que já conta com cerca de 80 milhões de visualizações. Também publicamos três reportagens realizadas sobre nosso portal.

 

brasiliana

 

A Brasiliana Fotográfica, uma plataforma de difusão de conhecimento imagético e textual, contribui para o desenvolvimento da educação e da cultura de nosso país, destacando e valorizando a história da fotografia, a memória e a própria História do Brasil. Foi criado por Flavio Pinheiro e Renato Lessa, na época diretor do Instituto Moreira Salles (IMS) e presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), respectivamente. Foi lançado com 2.393 imagens dessas duas instituições. Atualmente possui em seu acervo fotográfico 11.746 imagens produzidas no século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX provenientes dos acervos de suas duas instituições fundadoras – IMS e FBN – e de mais 12 instituições parceiras. São elas: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, Fiocruz, Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, Museu Aeroespacial, Museu da República e Museu Histórico Nacional.

 

Viva a Brasiliana Fotográfica! Vida longa à Brasiliana Fotográfica!

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Com a palavra, os curadores!

 

Brasiliana Fotográfica: dez anos de imagens que revelam histórias

Diana Ramos*

Com imenso prazer pessoal e profissional, celebro a oportunidade de integrar a equipe que faz da Brasiliana Fotográfica um projeto de sucesso. Como amante da técnica fotográfica e de sua capacidade de eternizar instantes e reconstruir memórias, atuar diretamente no portal representa um desafio estimulante.

Assumir a curadoria das peças que compõem a Brasiliana Fotográfica, como chefe da Divisão de Iconografia da maior instituição de memória iconográfica do país, é uma grande responsabilidade. No entanto, é fundamental destacar que nada se constroi sozinho, especialmente em um projeto dessa magnitude. Como membro do Comitê Consultivo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), ressalto e agradeço a parceria e dedicação dos colegas que fazem a mágica acontecer. A curadoria é apenas uma das bases do portal que conta com a dedicação de equipe técnica altamente qualificada, com uma produção de conteúdo textual exclusiva, com profissionais que atendem e respondem às demandas dos pesquisadores e com os parceiros das outras 12 instituições que se juntaram as fundadoras, Biblioteca Nacional e Instituto Moreira Salles (IMS), nessa empreitada.

A Brasiliana Fotográfica celebra 10 anos de existência, quase tanto tempo quanto a dobradinha na curadoria desempenhada por Joaquim Marçal pela FBN e Sérgio Burgi pelo IMS. Com grande comprometimento, passo a integrar a equipe na função anteriormente desempenhada pelo estimado colega Joaquim Marçal, servidor de carreira da FBN, cujo papel na história da Divisão de Iconografia é inestimável. Seu trabalho foi essencial para o tratamento técnico e a divulgação do acervo fotográfico, destacando-se à frente do projeto que tornou a coleção de documentos fotográficos do Imperador Pedro II amplamente conhecida, não apenas no Brasil, mas também internacionalmente, culminando no reconhecimento como Memória do Mundo pela UNESCO em 2003. Agradeço a Joaquim pelo incentivo e pela confiança ao longo dos anos que partilhou de forma muito generosa todo seu conhecimento e assumo a missão com o respaldo da coordenação que me nomeou parte da atual equipe. Ao lado de Sérgio Burgi, referência na história da conservação fotográfica no Brasil, inicio minha trajetória na curadoria do projeto com quem, certamente, tenho muito a aprender. Ao representar uma instituição bicentenária como a FBN, assumo o desafio pessoal de contribuir para dar maior visibilidade às coleções, estabelecendo novas narrativas e construindo discursos que vão além da história oficial.

O portal pode ser um instrumento poderoso para iluminar personagens anonimizados pela história. Acredito ser possível adotar um olhar decolonial sobre um acervo tão vasto e significativo. O Brasil é um país continental e diverso, e a Brasiliana Fotográfica tem o compromisso de refletir essa multiplicidade. Mais do que resgatar imagens e memórias, o portal permite a construção de novas perspectivas, revelando histórias até então silenciadas e potencializando outras leituras sobre o passado. Ao revisitar esses registros fotográficos sob diferentes lentes, podemos reinterpretar os caminhos percorridos e, assim, expandir as possibilidades de futuro. O desafio é propor narrativas mais inclusivas, abrindo espaço para vozes historicamente marginalizadas e permitindo um entendimento mais plural da formação social e cultural do Brasil.

Que os próximos 10 anos nos tragam ainda mais descobertas e reflexões, expandindo horizontes e reafirmando a importância do portal como um espaço vivo de pesquisa, memória e preservação fotográfica.

 

* Diana Ramos é chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional. Servidora na mesma instituição desde 2006. Graduada em História pela UNIRIO e História da Arte pela UERJ. Pós-graduada em Ensino de História e Ciências Sociais pela UFF e mestre em Memória Social pela UNIRIO. Curadora dos portais Brasiliana Fotográfica e Brasiliana Iconográfica pela FBN.

 

Brasiliana Fotográfica. Os próximos 10 anos

 Sérgio Burgi**

A Brasiliana Fotográfica é um projeto colaborativo construído por diversas instituições do país, com o objetivo de dar acesso a acervos fotográficos históricos, do século XIX e início do século XX.

Ao longo desses últimos dez anos, desde o lançamento conjunto do projeto, em 2015, pela Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles, a plataforma já recebeu a adesão de mais 12 instituições do Brasil e do exterior, atingindo um resultado de mais de 80 milhões de pageviews em acessos direcionados aos mais de 550 artigos publicados regularmente a cada semana e igualmente em acessos e pesquisas nas mais de 11.700 imagens que atualmente compõem este banco de imagens que permite de forma única e singular a pesquisa cruzada entre fotografias icônicas de nossa história, preservadas nos acervos de muitas das mais importantes instituições de memória do país.

Após esta bem sucedida primeira década de atuação e presença da Brasiliana Fotográfica no cenário cultural brasileiro, é preciso agora tanto refletir sobre a importância dessa plataforma para o esforço permanente de difusão da memória fotográfica do país, como também pensar simultaneamente sobre quais caminhos deveremos trilhar ao longo dos próximos dez anos.

O papel da fotografia na escrita da história tem se acentuado ao longo das últimas décadas, em função da compreensão e incorporação cada vez maior nas pesquisas históricas desta fonte primária de informação visual de características muito específicas, baseada na produção de imagens por meio de aparato técnico sobre suportes fotossensíveis.

Desde a primeira metade do século XIX, a fotografia, após o anúncio da daguerreotipia na França, em 1839, foi praticamente adotada em todas as regiões do mundo, construindo-se a partir daquele momento e nas décadas seguintes um legado significativo de imagens produzidas por fotógrafos atuando em inúmeros países. Eles registraram visualmente momentos, locais, assuntos e materialidades as mais diversas ao longo destes quase duzentos anos que nos separam dos primeiros experimentos com o processo fotográfico realizados por pesquisadores pioneiros como Hercule Florence, no Brasil; William Fox Talbot, na Inglaterra; e Joseph Nicéphore Niépce e Louis Jacques Mandé Daguerre, na França.

Imagens que gradualmente encontraram caminhos para a sua incorporação em arquivos públicos e privados e em acervos de instituições de memória, formando assim um amplo legado de informação visual e documental construída dentro de uma nova linguagem e processo. De alguma maneira, isto tanto deu continuidade às diversas formas de representação visual desenvolvidas e construídas pela humanidade ao longo da história, como ao mesmo tempo criou as bases para uma nova e abrangente plataforma integrada de comunicação, criação e documentação. Em especial ao longo do século XX, foi estruturada em torno do registro por aparato de imagens estáticas e em movimento (fotografia, cinema e vídeo) e também de registros sonoros diretos (gravações mecânicas e magnéticas), que nos trouxeram a esse momento atual no século XXI de ampla produção e disseminação de conteúdos digitais em imagem e som através das redes e plataformas atuais.

E é exatamente esse ferramental digital que nos permite hoje realizar pesquisas em diferentes bases de imagens e bancos de dados de informação textual, exemplificados na própria Brasiliana Fotográfica pela pesquisa de imagens na plataforma e no conteúdo semanal publicado integrados a uma intensa pesquisa textual correlata permitida hoje, por exemplo, pela Hemeroteca Digital, plataforma estruturada e disponibilizada ao grande público pela Biblioteca Nacional, que dá acesso aos periódicos publicados no país, ferramenta essencial para a pesquisa histórica e de contextualização de fontes documentais.

São ferramentas atuais avançadas já disponíveis e em intenso uso que nos permitem pensar que, ao longo da próxima década, essa integração de pesquisa baseada nos conteúdos atualmente digitalizados e disponibilizados nos levarão a processos de compreensão e análise desse legado histórico reunido na Brasiliana Fotográfica de forma cada vez mais aprofundada e contextualizada.

Há cinquenta anos, a pesquisa em acervos fotográficos históricos se dava necessariamente de forma bastante manual, baseada em processos de captura de imagens ainda analógicos, sem uma comunicação em rede que permitisse a visualização e comparação de imagens disponíveis nos diversos acervos, o que provocava um trabalho lento de pesquisa e comparação de fontes. O ferramental digital atual revolucionou essa condição de pesquisa e acesso a imagens não só no Brasil como em todo o mundo, incorporando novas possibilidades de acesso através de mecanismos avançados de busca por processos de aprendizado por máquina, incluindo soluções de inteligência artificial.

Cabe, entretanto, compreendermos também aqui o papel essencial e incontornável do pensamento crítico e da pesquisa teórica nesse campo de conhecimento e comunicação. As fotografias são, por natureza, registros visuais que revelam tanto a materialidade de um determinado local em determinado momento, como ao mesmo tempo representam escolhas intencionais daqueles que as produzem e também daqueles que as editam e selecionam para a veiculação e comunicação ampla. São, portanto, instrumentos de documentação e instrumentos de construção seletiva de narrativas, realizadas pelo fotógrafo e/ou pelos editores e gestores de repositórios visuais, seja na imprensa ou também nos arquivos e coleções reunidas e preservadas nas instituições de memória. A cada período da história é, portanto, fundamental que a pesquisa em imagens fotográficas seja sempre estruturada em torno de pesquisas históricas balizadas por leituras críticas que permitam fundamentalmente a recuperação dos contextos e sentidos originais de criação dessas imagens. Somente dessa maneira podemos avançar na compreensão desse legado.

O desafio maior da fotografia e de suas múltiplas possibilidades de interpretação e compreensão reside assim, de fato, em sua devida contextualização, somente possível através da pesquisa histórica e da análise crítica dessas fontes de informação que insistem em nos provocar.

O futuro da Brasiliana Fotográfica nesta próxima década, estará, portanto, a meu ver, fortemente associado ao desafio da construção do conhecimento através da ampliação da compreensão crítica pelo grande público desta fonte de informação representada pela fotografia histórica, com a ajuda de ferramentas contemporâneas que permitam o acesso público e gratuito a um crescente número de imagens e conteúdos mediados, porém sempre associadas à reflexão crítica e à pesquisa rigorosa.

Acreditamos que tanto a natureza colaborativa da plataforma como seu já grande alcance cultural e de público continuarão a ser as forças motrizes a incentivar seu crescimento e adesão por parte de novas instituições e colaboradores no campo da reflexão e pesquisa em imagens.

Vida longa à Brasiliana Fotográfica!

 

**Sergio Burgi é Curador da Brasiliana Fotográfica e Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

 

 

A Brasiliana Fotográfica na mídia*

 

Destacamos aqui, além do artigo publicado em 16 de abril de 2025 em O GLOBO em comemoração a nosso aniversário, as duas matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo e em O GLOBO com chamada na capa cujo tema foi a Brasiliana Fotográfica. A primeira, da Folha de São Paulo, foi publicada em 19 de maio de 2015, um mês após a inauguração do portal e falava da descoberta da presença do escritor Machado de Assis na foto Missa Campal de 17 de maio de 1888, de autoria de Antônio Luiz Ferreira. A foto havia sido o tema do artigo da Brasiliana Fotográfica de 17 de maio de 2015 e a descoberta foi realizada pela pesquisadora e editora do portal, Andrea C.T. Wanderley.

 

 

 

A segunda matéria, publicada no O GLOBO, de 16 de março de 2025, foi sobre a série O Rio de Janeiro desaparecido, na época, com 30 artigos já publicados.

Link para acessar todos os artigos da série: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?page_id=36975

Parabéns para todos os envolvidos na produção de nosso portal! E muito obrigada a nossos leitores para quem todos esse trabalho é realizado! Viva a Brasiliana Fotográfica, que vocês já visualizaram quase 80 milhões de vezes!

 

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Folha de São Paulo, 19 de maio de 2015

 

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Transcrição da reportagem

Pesquisa identifica Machado em foto histórica

Portal Brasiliana Fotográfica localizou o autor de ‘Dom Casmurro’ em missa no Rio da abolição da escravatura

Cerimônia reuniu milhares em 17/5/1888; descoberta indica que escritor estava em palco perto da princesa Isabel

DE SÃO PAULO

A Brasiliana Fotográfica divulgou no último domingo (17) ter descoberto um registro fotográfico inédito de Machado de Assis (1839-1908). O site de fotografias brasileiras do século 19 e do começo do 20 identificou a presença do escritor em uma imagem sobre o fim da escravidão.

Em 17 de maio de 1888, quatro dias depois da assinatura da Lei Áurea, uma missa campal foi celebrada em São Cristóvão, no Rio, em homenagem à abolição da escravatura. Cerca de 30 mil pessoas estiveram presentes.

A missa foi retratada pelo fotógrafo Antonio Luiz Ferreira. De uma posição um pouco acima do nível do chão, ele fez uma tomada panorâmica que contemplou uma larga extensão do Campo de São Cristóvão.

Na imagem se misturaram negros recém-libertos, jornalistas, intelectuais, representantes do império e da igreja. O escritor Lima Barreto, então com sete anos, também esteve na missa.

No canto esquerdo, está a princesa Isabel e seu marido, o conde D’Eu. Agora os pesquisadores da Brasiliana Fotográfica notaram a presença de Machado, próximo ao casal real.

A fotografia da missa, ainda hoje pouco divulgada, integra a coleção do IMS (Instituto Moreira Salles), instituição que, em parceria com a Biblioteca Nacional, abastece a Brasiliana Fotográfica.

A equipe do portal, lançado há um mês, digitalizou a fotografia em alta resolução e se dedicou a examinar os detalhes da cena. O palco em que aparece a princesa Isabel foi ampliado 15 vezes, o que revelou um homem bastante semelhante ao escritor.

Segundo o site, especialistas na obra do autor de “Dom Casmurro”, como Eduardo Assis Duarte e Ubiratan Machado, confirmaram tratar-se realmente de Machado.

É possível ver apenas uma parte do rosto do escritor, atrás de um senhor de barba branca não identificado.

“A foto é uma representação muito importante do contexto da época, e ainda demonstra que Machado estava próximo da questão abolicionista”, diz Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS.

Ao site da Brasiliana Fotográfica, Ubiratan Machado, autor de “Dicionário de Machado de Assis” e um dos principais estudiosos da documentação machadiana, diz que a presença do escritor na missa era “fato até hoje desconhecido pelos biógrafos”.

Machado, contudo, escreveu ao menos duas crônicas sobre a missa, em que satiriza a classe política da época.

Nas primeiras décadas do século 20, Machado, mulato bisneto de escravos alforriados, foi criticado por ser omisso em relação à escravidão. Estudos posteriores, no entanto, mostraram que ele retratou com argúcia as contradições sociais do país no século 19 –a escravidão entre elas.

Desde os anos 1870 Machado escreveu diversas crônicas contra a escravidão na imprensa da época.

“Não bato o martelo de que é o Machado, mas realmente parece muito com ele”, diz Valentim Facioli, professor aposentado da USP, dono da editora Nankin e pesquisador de Machado há 50 anos.

“Se for realmente ele, é mais uma prova para desqualificar as bobagens de que Machado era indiferente à escravidão. Sempre foi um abolicionista, mas à moda dele, sem militar em grupos ou comícios.”

“Parece realmente o Machado daquele período”, diz o inglês John Gledson, outro estudioso do autor.

“Me surpreende que ele estivesse tão perto da princesa. Ele não era exatamente membro da elite, embora já fosse famoso na época.”

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O GLOBO, 16 de março de 2025

Capa o Globo 16 e março e 2025

Destaque na capa para a matéria

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Transcrição da reportagem

Cidade desaparecida: com imagens, site conta a história de lugares que sumiram da paisagem carioca

Prestes a completar dez anos, a Brasiliana Fotográfica reúne parte importante do acervo de 14 instituições, entre as quais a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles

Por

Carmélio Dias

 — Rio de Janeiro

O roteiro pode começar com um terapêutico banho de mar na Praia de Santa Luzia, bem ali no Centro. De lá, segue para o alto do Morro do Castelo, onde a atração é a vista panorâmica em meio a casas simples que evocam a origem da cidade. Na descida, vale uma passada no Mercado Municipal da Praça Quinze para encher a bolsa com frutas da estação. Depois, uma parada para, com a licença das freiras, matar a sede bebendo a água fresca que verte do Chafariz das Saracuras, instalado no pátio do Convento da Ajuda. No entorno, a arquitetura do Conselho Municipal e do Palácio Monroe é um convite ao olhar. Para terminar, aquela esticada no Passeio Público, para um refrescante bate-papo no quiosque Chopp Berrante, que ninguém é de ferro.

Patrimônio na memória

O único problema desse itinerário é que ele não existe mais. Há tempos os pontos destacados — praia, prédios, morro — saíram de cena. São como peças excluídas ou movidas de lugar no imenso quebra-cabeças de uma cidade em constante transformação. Mas resistem, em boa parte, graças ao trabalho de fotógrafos pioneiros na arte de registrar a paisagem em mutação. Prestes a completar dez anos, em abril, o site Brasiliana Fotográfica — que reúne parte importante dos acervos de imagens sob guarda da Fundação Biblioteca Nacional, do Instituto Moreira Salles e de mais 12 instituições — tem se dedicado a propagar essas memórias. Uma das séries publicadas pelo portal é “O Rio de Janeiro Desaparecido”: 30 artigos (até aqui) reúnem fotos e textos que tratam de recolocar no mapa antigos marcos da paisagem carioca.

O Dia do Jornalista e a fundação da Associação Brasileira de Imprensa

A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia do Jornalista e a fundação da Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, destacando imagens de prédios de antigos jornais: do Jornal do Brasil, produzida por um fotógrafo ainda não identificado; do Jornal do Commercio, por Uriel Malta (1910-1994); do O Paiz, por Guilherme Santos (1871-1966); e de A Noite, por Alfredo Krausz (1902-1953). Também foram escolhidas duas fotografias de pessoas lendo jornal, realizadas pelo italiano Vincenzo Pastore (c.1830-1918), em São Paulo, em torno de 1910; um registro de jornaleiros, de autoria de Gomes Junior (18?-19?); e uma imagem da atual sede da ABI, de um fotógrafo ainda não identificado.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de antigos jornais brasileiros e de pessoas lendo jornal disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

O jornalismo é um bem público essencial e ele só é feito com o trabalho dos jornalistas, cujo ofício é primordial para a garantia da democracia. Em tempos de disseminação cada vez mais crescente de fake news, notícias falsas, no meio digital, a prática dos jornalistas profissionais torna-se ainda mais importante. Segundo um relatório publicado, em março de 2024, pela Organização Não Governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras (RSF) o Brasil carece de uma política de promoção da pluralidade e diversidade jornalística: “Num contexto de recentes ataques ao Estado Democrático de Direito no Brasil, a urgência de assegurar normas e políticas que fortaleçam um jornalismo livre, plural e de confiança é crucial para a própria democracia brasileira”. Segundo divulgado também pela RSF, em 13 de dezembro de 2024, nos últimos 20 anos, “mais de 1,7 mil jornalistas foram assassinados no planeta trabalhando ou em razão de suas funções”. Em 2024, 54 jornalistas foram mortos – duas mulheres e 52 homens.

 

 

 Breve história do Dia do Jornalista

 

jornalista

 

O Dia do Jornalista foi instituído oficialmente, no Brasil, pela Associação Brasileira de Imprensa, em 1931, em homenagem ao jornalista e médico Giovanni Battista Líbero Badaró (1798-1830), morto por inimigos políticos em  novembro de 1830, em São Paulo (Astrea, 11 de dezembro de 1930, segunda colunaO Farol Paulistano, 23 de dezembro de 1830, primeira coluna). Criador do jornal Observatório Constitucional, Badaró fazia oposição ao governo de dom Pedro I (1798-1834), que constantemente censurava sua publicação. O assassinato de Badaró contribuiu para acirrar a crise constitucional que levou à abdicação de Pedro I, no dia 7 de abril de 1831.

 

4 Badaro morte t

 

A ABI, fundada em 7 de abril de 1908, foi idealizada por Gustavo de Lacerda (1854-1909) e “seu principal objetivo era assegurar à classe jornalística os direitos assistenciais e tornar-se um centro poderoso de ação”. Após ocupar diversos lugares, dentre eles uma sala na sede do jornal O Paiz, sua atual sede, na Rua Araújo Porto Alegre, no Centro do Rio de Janeiro, foi construída entre 1936 e 1939, durante a presidência de Herbert Moses (1884-1972), que esteve à frente da ABI, entre 1931 e 1964. O prédio da ABI, projeto dos irmãos Marcelo (1908-1964) e Milton Roberto (1914-1953), é um marco na história da arquitetura brasileira.

 

 

Uma curiosidade: a primeira banca de jornais e revistas do Rio de Janeiro foi inaugurada, em 1929, na esquina da Rua Sete de Setembro com a Avenida Rio Branco.

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

Aventuras na História, 12 de outubro de 2019

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Pereira, Claudio Calovi. Os irmãos Roberto e o edifício da A.B.I.: uma história da modernidade arquitetônica brasileira.

Portal Associação Brasileira de Imprensa

Portal MultiRio

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VI – O “Balança-mas-não-cai” por Cássio Loredano

Pela terceira vez o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreve para a Brasiliana Fotográfica. Desta vez, o assunto do sexto artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica é o prédio “Balança-mas-não-cai”. Cássio conta um pouco da história do emblemático complexo de três edifícios localizado, na Avenida Presidente Vargas, inaugurada no Centro do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1944 (Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944). Também estão destacadas imagens de igrejas que foram demolidas para a construção da avenida. O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro, foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS).

O “Balança-mas-não-cai” por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 São três aqueles prédios da avenida Presidente Vargas, no Rio, que a cidade se acostumou a ver como único e a que deu apelido no singular: “Balança”, na intimidade; por extenso, “Balança-mas-não-cai”. São esses siameses os edifícios Prefeito Frontin, Maipú e Onze de Junho. Existem na coleção Diários Associados do acervo do Instituto Moreira Salles ao menos três imagens mostrando que o conjunto formado pela pequena quadra entre a avenida e as ruas Santana, Gustavo Barroso e Frederico Silva subiu um terço de cada vez, três fotos que comunicam a quem as vê uma sensação esquisita de desconforto: como assim aquilo não ter sido desde sempre uma coisa só?

A foto em que aparece apenas um dos prédios, o Prefeito Frontin, é do desfile militar que acontece todo 7 de setembro, neste caso o de 1947.

 

 

E as que mostram já dois, faltando ainda o Maipú no meio, são as duas de 1951; uma do Carnaval e a outra de pouco depois, em maio, com uma formação de cadetes da Aeronáutica alinhada tendo às costas o Campo de Santana, portanto de frente para o palácio Duque de Caxias, atual comando militar do leste.

 

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Carnaval 1951, c. fevereiro de 1951. Praça Onze, Rio de Janeiro /  O Jornal,  4 de fevereiro de 1951

 

Aviação - Exame de admissão para Aeronáutica, maio de 1951. Centro, Rio de Janeiro

Aviação – Exame de admissão para Aeronáutica, maio de 1951. Centro, Rio de Janeiro / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

A avenida Presidente Vargas foi aberta na administração do prefeito Henrique Dodsworth, entre 1941 e 1944, arrasando tudo o que estava entre as velhas ruas de São Pedro e do Sabão e, mais adiante, entre Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, ao longo do canal do Mangue. Foram vitimados nesse percurso parte do Campo de Santana e a praça Onze de Junho e os largos de São Domingos e do Capim, os três últimos completamente apagados da cartografia. E – aqui já criminosamente – as igrejas do Bom Jesus do Calvário, São Domingos e sobretudo a jóia de inexcedível beleza e importância arquitetônica que era a de São Pedro dos Clérigos.

 

 

 

 

Para os paredões que se projetou construir ao longo do novo corredor, estabeleceu-se o gabarito de 22 andares para edifícios de lojas e sobrelojas bem recuadas em relação às fachadas superiores apoiadas sobre pilotis. Critérios observados à risca também pelo “Balança”.
 
Transferida a capital da República para o planalto central apenas dezesseis anos depois de aberta a avenida, teve início o gradual esvaziamento funcional e econômico do Rio. Arrefeceu o inicial entusiasmo incorporador, que só teve fôlego, do lado ímpar, da Candelária até a esquina da rua Uruguaiana, e, do par, até pouco depois da avenida Passos. De forma que o “Balança”, residencial, erguido muito mais longe, ficou completamente isolado de seus primos-ricos de escritórios do começo da avenida. E próximo demais da zona do meretrício do canal do Mangue. Isolamento aquele e proximidade esta as razões de ir sendo então parcialmente ocupado por agentes do lenocínio e do tráfico ilegal de drogas, com os delitos de que essas atividades costumam se fazer acompanhar.
 
Daí o apelido. “Balança-mas-não-cai” foi um programa humorístico semanal de Haroldo Barbosa e Max Nunes na Rádio Nacional, entre 1950 e 1967. Divertia a audiência com piadas sobre a convivência caótica nesses cortiços modernos surgidos com a verticalização urbana.

 

 

Ultimamente, iniciou-se uma lenta retomada imobiliária da avenida, agora já não mais tomando conhecimento do gabarito original. Chegou o Sambódromo, chegaram oito novos edifícios, entre eles o dos Correios, o Arquivo da Cidade e o “Piranhão”, centro administrativo da prefeitura. Chegaram o metrô Estácio e Cidade Nova. Povoaram-se as ruas, encheram-se de comércio e casas de pasto onde aquele formigueiro de funcionários tem que almoçar. Tudo ficou mais caro, aluguéis, por exemplo, fator este que também espanta a turma que vive de expedientes menos rendosos. O “Balança” está menos isolado e um tanto mais seguro. Os aluguéis no Prefeito Frontin oscilam entre R$1.500 e R$2.000 em andar mais alto, condomínio a R$450. No 4º andar esteve um apartamento à venda por R$270 mil e outro no 13º  por R$450 mil. No Maipú é tudo mais em conta. No Onze de Junho, mais silencioso ao ser de fundos, um quarto-e-sala está na base de R$1.200 o aluguel, e R$1.500 um 2-quartos, condomínio a R$540.

 

* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.

Assista aqui a entrevista que o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, fez com Cássio Loredano, em 24 de setembro de 2024, a 41ª edição dos Depoimentos Cariocas, a série que vem registrando as memórias e reflexões de cariocas sobre o Rio de Janeiro. Foi gravada no apartamento de Cássio, no bairro de Laranjeiras, e foi conduzida pelo Coordenador de Promoção Cultural do Arquivo, Pedro Paulo Malta, com participações especiais do jornalista Álvaro Costa e Silva, do professor e crítico de arte Luiz Camillo Osorio e do cartunista Miguel Paiva.