E o grande escritor Machado de Assis elogia o imperador Pedro II

Neste ano de 2025, quando comemora-se em 2 de dezembro os 200 anos de nascimento de dom Pedro II (1825 – 1891) que, dentre outros interesses, era um grande entusiasta da fotografia, tendo atuado decisivamente para seu desenvolvimento no Brasil, destacamos uma crônica de 1867, em que o escritor Machado de Assis (1839-1908), então com 27 anos, elogiou o imperador, declarando sua admiração pelo monarca.

Neste artigo, a Brasiliana Fotográfica destaca duas imagens, uma do rei e outra do literato, produzidas pelo fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (1830-1912), um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX. No fim dos anos 1840, já estava em Fortaleza, onde teve contato com a fotografia com o daguerreotipista e mágico irlandês Frederick Walter (1811 – 18?), que tornou-se seu mestre. Em 1855, já estava estabelecido no Rio de Janeiro e nesse mesmo ano fotografou o imperador Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e a filha do casal, princesa Leopoldina, na Quinta da Boa Vista. Foi noticiado que havia sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1857 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856Diário do Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1857).

 

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Voltando a Machado de Assis. Declarou em sua crônica a respeito de dom Pedro II:

“… gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios”.

 

 

A crônica foi publicada no dia 5 de março de 1897, no Diário do Rio de Janeiro, na coluna “Folhetim”, e Machado a assinou com o pseudônimo Job – criado, em 1865, para a assinatura de contos destinados ao Jornal das Famílias. Em forma de correspondência, era endereçada à Opinião Pública.

 

 

Foi a primeira de duas crônicas intituladas Cartas Fluminenses.

 

 

Abaixo, a transcrição:

CARTAS FLUMINENSES

 À OPINIÃO PÚBLICA

5 DE MARÇO DE 1867.

Dizem alguns que V. Excia. não existe; outros afirmam o contrário. Mas estes são em maior número, e a força do número, que é a suprema razão moderna, resolve as dúvidas que eu porventura possa ter. Creio que V. Excia. existe, em que pese aos mofinos caluniadores de V. Excia. Se não existisse, como se falaria tanto em seu nome, na tribuna, na imprensa, nos meetings, na praça do comércio, na rua do Ouvidor? Das criações fabulosas não se fala com tanta insistência e generalidade, salvo se houvesse uma conspiração para asseverar aquilo que não é, e isto repugna-me acreditar. Também por muito tempo se duvidou da existência de Mr. Hume, aquele célebre mágico que transformava os ovos em carvão, mas, se bem me lembro, apareceu um dia o dito mágico, e daí em diante ninguém mais duvidou dele. O mesmo há de acontecer com o judeu errante, de quem falam todos, e que eu creio que existe, sem ser a cholera-morbos, e que há de aparecer mais dia menos dia, tenho essa esperança. É a maioria da gente que tem razão, e quando falo em maioria suponho ter produzido um desses argumentos invulneráveis, até mesmo no calcanhar, apesar de quanto possa ter dito o visconde de Albuquerque. Assentado isto, receba V. Excia. esta carta que é a primeira da série com que eu pretendo estrear na imprensa. É costume entre a gente trocar os bilhetes de visita a primeira vez que se encontra. Na Europa, ao menos, é tão necessário trazer um maço de bilhetes, como trazer um lenço. V. Excia. terá desejo de saber quem sou. Di-lo-ei em poucas palavras.

Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões fracas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira. Não sou alto nem baixo; estou entre Thiers e Dumas, entre o finado marquês de Abrantes e o visconde de Camaragibe. Cito os dois para dar cor local à compa- ração, e ficar logo às boas com a crítica literária. Além disso, há um ponto de contato entre o orador francês e o orador brasileiro; ambos obtiveram um apelido quase idêntico pela semelhança da eloqüência parlamentar. Onde não há nenhum ponto de contato é entre os outros dois: nem o Sr. Camaragibe faz romances, nem Alexandre Dumas faz política, e creio que ambos se dão bem com esta abstenção. Não sou votante nem eleitor, o que me priva da visita de algumas pessoas de consideração em certos dias, gozando, aliás, da estima deles no resto do ano, o que me é sobremaneira agradável. Ao mesmo tempo poupo-me às lutas da igreja e às corrupções da sacristia.

Não privo com as musas, mas gosto delas. Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. Ao domingo leio as Santas Escrituras; os outros dias são divididos por meia dúzia de poetas e prosadores da minha predileção; consagro a sexta-feira à Constituição do Brasil e o sábado aos manuscritos que me dão para ler. Quer tudo isto dizer que à sexta-feira admiro os nossos maiores, e ao sábado durmo a sono solto. No tempo das câmaras leio com freqüência o padre Vieira e o padre Bernardes, dois grandes mestres. Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a republica de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou.. Não freqüento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios. Aqui estão os principais traços da minha pessoa. Não direi a V. Excia. se tomo sorvetes nem se fumo charutos de Havana; são ridiculezas que não devem entrar no espírito da opinião pública.

Agora que me conhece, perguntará V. Excia. por que motivo esta primeira carta é dirigida à sua pessoa, e que lhe quero dizer com esta dedicatória. Nada mais simples. Entrando numa sala, cumprimenta-se logo a dona de casa; entrando na imprensa, dirijo-me a V. Excia. que é a dona dela, segundo dizem as gazetas, e eu creio no que as gazetas dizem. Consinta V. Excia. que eu não lhe faça corte. De todas as pessoas deste mundo é V. Excia. a mais cortejada desde que um italiano escreveu estas celebres palavras: — de l’opinione, regina del mondo, talvez para contrabalançar o título que as ladainhas da Igreja dão à Virgem Maria, regina angelorum. Não será V. Excia. igual à Virgem Maria, mas creio poder compará-la a Santa Bárbara, e realmente é uma Santa Bárbara, que a maior parte da gente invoca na hora do temporal e esquece na hora da bonança. Eu serei o mesmo em todas as fases do tempo, e se vier a cortejá-la algum dia, será em silêncio, silentium loquens, como dizia S. Jerônimo, outro advogado contra as borrascas. Terá V. Excia. a indiscrição de pedir-me um programa? Acho que este uso parlamentar não pode ter aceitação nos domínios da musa epistolar, que é toda incerta, caprichosa, fugitiva. Demais, sei eu acaso o que há de acontecer amanhã? Posso criar uma norma aos acontecimentos? Deixe que os dias passem, e o sucessor com ele, os sucessos imprevistos, as coisas inesperadas, e a respeito de todos direi francamente a minha opinião.

Ou, se quiser absolutamente um programa, dir-lhe-ei que prometo escrever com pena e tinta todas as minhas cartas, imitando deste modo o programa daquele ministério que consistia em executar as leis e economizar os dinheiros públicos. Profunda política que toda a gente compreendeu de um lance. Perdoe-me V. Excia., creio que V. Excia. apoiou esse ministério; ao menos assim dizem os amigos dele; e creio que também lhe fez oposição; ao menos, diziam-no os parlamentares oposicionistas. Coisas de V. Excia. É nisto que ninguém pode vencê-la. O dom de ubiqüidade é V. Excia. quem o tem de uma maneira prodigiosa. Agora, por exemplo, não anda V. Excia. de um lado trajando sedas e agitando guizos, alegre e descuidada, pulando uma valsa de Strauss, dando a mão à tísica dos pulmões e à tísica das algibeiras, e de outro lado envergando uma casaca preta, e distribuindo pelos candidatos políticos a palma eleitoral? Ajuizada e louca, grave e risonha, entre uma urna e um cálice de champanhe, na esquerda o tirso da bacante, na direita o estilo do escritor, olhar de Cícero, calva de Anacreonte, eis aí V. Excia., a quem todos adoram, os velhos e os mancebos, os boêmios e os candidatos.

A verdade é que V. Excia. tem às vezes caprichos singulares; gosta da cor vermelha, e a pretexto de eleição, inspira não sei que maus ímpetos ao leão popular, que a tudo investe e tudo desfaz. Nessas ocasiões V. Excia. não tem cetro, como rainha que é, tem um cacete, que é um teorema infalível. Mas nem assim perde o caráter de opinião: é esse o parecer dos seus escolhidos. Enfim, são ímpetos. O pior é quando, em vez de ímpetos, apenas se emprega o meio da corrupção das urnas, da sedução do votante, da intervenção do fósforo, — pasmoso invento que eu coloco entre a obra de Fulton e a obra de Gusmão, vulgo Montgolfier. Isso é que é pior. Francamente, eu creio que V. Excia. desconhece todos esses meios, e os condena, e se acaso os sofre é por honra da firma. Em todo caso, por que não protesta V. Excia.? É deste silêncio que algumas pessoas tiram a conclusão de que V. Excia. não existe. É amanhã que V. Excia. tem de escolher definitivamente os deputados; começam duas quaresmas, uma religiosa, outra política. Amanhã os católicos e os candidatos vão receber a cinza, e todos recebem a cinza, — ainda os que não forem eleitos, — uns na testa, outros nos olhos. Alegrias e decepções, dores e flores, todas as exaltações, todos os abatimentos, todos os contrastes. Eu creio que há em todo o império uma soma de políticos capaz de formar cinco ou seis câmaras. É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas secções: políticos por vocação, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V. Excia. em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país. Mande-nos V. Excia. uma câmara inteligente, generosa, honesta, sinceramente dedicada aos interesses públicos, uma câmara que ponha de parte as subtilezas e os sofismas, e entre de frente nas magnas questões do dia, que são as grandes necessidades do futuro, de que depende a grandeza, ia quase dizer a existência do corpo social.

Mas eu que falo assim obscuro e rude, quem sou eu para dar conselhos à opinião, regina del mondo? Perdoe-me V. Excia. É natural nos homens, e eu sou homem, homo sum. Ao menos veja nisto a minha boa vontade e o grande amor que lhe tenho. Creio que esta carta vai longa; tenho-lhe roubado demasiado tempo. Vou pôr aqui o ponto final, e recolher-me ao silêncio, a fim de pensar nos diversos assuntos com que me hei de ocupar, se Deus me der vida e saúde. Devia ir vê-la hoje divertindo-se e pulando, mas não posso. Consagro o dia de hoje a S. Francisco de Salles, apropriado à estação de penitência que começa amanhã. Preparo assim o meu espírito à meditação. Além de que, o bom do Santo é um dos melhores amigos que a gente pode ter: não fala mal nem dá conselhos inúteis. Se V. Excia. cuida que é um homem de carne e osso, engana-se; é um maço de folhas de papel metidos numa capa de couro; mas dentro do couro e do papel fulge e palpita uma bela alma.

JOB

A segunda crônica foi publicada no mesmo jornal e na mesma coluna, uma semana depois, em 12 de março. Também em forma de correspondência, era endereçada a Hetaira, termo grego para as prostitutas requintadas da Grécia Antiga. Foi sua última crônica publicada no Diário do Rio de Janeiro.

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Na década anterior, em 6 de novembro de 1859, na primeira página da revista semanal O Espelho, cujos textos de capa eram usualmente de autoria de Machado, foi publicada uma biografia não assinada de dom Pedro II. A descoberta deste texto e a possibilidade de sua autoria ser de Machado foi abordada pela pesquisadora Cristiane Garcia Teixeira (1985-), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em sua tese de mestrado, de 2016, intitulada Um projeto de revista n’O Espelho: literatura, modas, indústria e artes (1859-1860).

 

 

Segundo Cristiane, “Machado de Assis tinha vinte anos de idade quando começou a escrever nesta revista. Ele foi o colaborador mais assíduo, escreveu 38 textos em apenas quatro meses“. O Espelho circulou entre setembro de 1859 e janeiro de 1860, totalizando 19 números.

Sobre a possibilidade de Machado ser o autor do texto sobre o imperador, a pesquisadora escreveu em sua tese:

O argumento se sustenta da seguinte maneira; na edição número seis, publicada no dia nove de outubro, na rubrica Notícias á mão – sem menção de autor – uma nota informou: “Brevemente encetaremos a publicação de uma–Galeria Dramática – biografias e um retrato correspondente. O fotógrafo é o Sr. Gaspar Guimarães, e o biógrafo é o Sr. Machado de Assis”. Em nenhum dos números posteriores (sete, oito e nove), foram publicadas biografias ou apareceu alguma menção ao retrato. Apenas no número dez apareceu este esboço biográfico de D. Pedro II. O texto, por sua vez, ocupou um espaço geográfico na revista que foi comum a publicação de textos de Machado de Assis ou Francisco Eleutério de Sousa; a primeira página e o primeiro artigo. Era o “abre alas” da revistaPortanto, este texto biográfico, pode vir a ser um texto ainda desconhecido do literato tão aclamado pela crítica brasileira. Ademais, o biógrafo absteve-se de falar em política, no esboço biográfico, justificando que “As conveniências impõem-se esta falta, ou antes o cálculo impõe-nos esse silêncio”.

 

Abaixo, um trecho do esboço biográfico de Pedro II publicado em O Espelho:

“Duas nobres qualidades têm o imperador, que sempre acompanharão a sua memória: a da fé evangélica e a do amor pelo seu país, que o faz nivelar-se com o mais humilde de seus cidadãos. Além destas qualidades de um coração bem formado e educado nos são principio da moral e da religião, o monarca brasileiro presa-se de ser o cultor e amante protetor das letras pátrias. Em diversas associações entre nós fundadas todos o vêem representado no seu nome, nos donativos que faz a bem de sua prosperidade, e mesmo quando pode dispor de algumas horas de sua afadigada vida, ainda todos o veem animar com a sua presença as reuniões literárias dos nossos jovens estudiosos. É que o imperador reconhece, e mui bem, que sobre a ilustração assenta-se a moralidade de um povo, o seu adiantamento, a sua civilização; e sendo a mocidade o esteio do futuro, cumpre prepará-la de modo que as esperanças hoje sonhadas possam ser uma realidade nos dias que hão de vir”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Folha de São Paulo, 17 de setembro de 2020

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOREIRA, Éric. Machado de Assis escreveu texto sobre D. Pedro II?. Aventuras na História, 23 de fevereiro de 2025

O GLOBO, 17 de setembro de 2020

Site Sábado

Site UFSC

WANDERLEY, Andrea. O retratista português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 14 de outubro de 1912)in Brasiliana Fotográfica, 14 de outubro de 2016.