Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VI – O Clube Naval e os arquitetos Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) e Heitor de Mello (1875 – 1920)

A partir de uma imagem produzida pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1910, a Brasiliana Fotográfica vai contar um pouco da história do Clube Naval e traçar um pequeno perfil do arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915), autor do projeto de sua sede atual. É o sexto artigo da série Os arquitetos do Rio de Janeiro. O Clube Naval foi fundado, em 12 de abril de 1884, pelo então capitão de fragata e futuro almirante Luiz Philippe Saldanha da Gama (1846 – 1895), que foi seu primeiro presidente. Sua primeira sede ficava na rua da Misericórdia, nº 35 (Gazeta de Notícias, 20 de março de 1884, primeira colunaGazeta de Notícias, 15 de abril de 1884, segunda coluna).

 

O Globo, 11 de junho de 1984

O GLOBO, 11 de junho de 1984

 

Em 11 de junho de 1900, a sede foi transferida para a Rua D. Manuel, nº 15, na Praça XV, em um terreno que havia sido doado pelo presidente Deodoro da Fonseca (1827 – 1892) (O Paiz, 12 de junho de 1900, quarta coluna).

 

 

Por ocasião da abertura da Avenida Central, hoje Rio Branco, o Governo Federal doou um terreno para a construção da atual sede do Clube Naval. Sua pedra fundamental foi lançada em 1905 e ela foi inaugurada, em 11 de junho de 1910, na Avenida Rio Branco, nº 180, na esquina com a Avenida Almirante Barroso, endereço nobre e tradicional do Centro do Rio de Janeiro. Em estilo neo-clássico, o prédio integra o corredor cultural da cidade e foi tombado definitivamente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, em 18 de novembro de 1987. É, com os prédios do Theatro Municipal, do antigo antigo Supremo Tribunal Federal, do Museu de Belas Artes e da Biblioteca Nacional, uma das edificações, na Avenida Rio Branco, remanescentes do início do século XX.

O engenheiro e arquiteto responsável pela construção do novo edifício do Clube Naval foi Heitor de Mello (1875 – 1920), inicialmente de acordo com a planta projetada pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915) (O Paiz, 14 de fevereiro de 1907, quarta coluna). Heitor já foi tema do artigo Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), publicada no portal em 15 de janeiro de 2024.

 

 

 

Heitor de Mello (18 - 1920) / Arquitetura  no Brasil

Heitor de Mello (1875 – 1920) / Arquitetura no Brasil

 

Ao longo da construção, os dois arquitetos se desentenderam. Bezzo acusou Heitor de alterar seu projeto, do qual seria apenas o empreiteiro. Heitor de Mello respondeu ressaltando que, pelo contrato, além de empreiteiro, ele seria o responsável pela ornamentação da fachada. No artigo da Gazeta de Notícias sobre a inauguração, foi mencionada a realização de um concurso de projetos que teria sido vencido por Heitor (O Paiz, 9 de novembro de 1909O Paiz, 11 de novembro de 1909; Gazeta de Notícias, 11 de junho de 1910).  Helios Seelinger (1878 – 1965) é o autor de pinturas nas paredes do Salão Nobre, decorado em estilo Luis XV. No teto, encontra-se um belo vitral da Casa Formenti.

 

 

 

 

Em 1928, um quinto andar foi acrescido à edificação e, em 1939, o sexto andar foi concluído. Em todos os andares do Club Naval encontram-se obras de arte e um importante acervo de móveis e objetos.

 

Breve perfil de Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915)

 

 

Bezzi formou-se engenheiro, em Turim, onde nasceu em 18 de janeiro de 1844. Foi voluntário, nas campanhas de Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882) para a unificação italiana. Também serviu como oficial do regimento de cavalaria do exército regular, comandado pelo Duque D’Aosta (1845 – 1890), tendo se destacado na Batalha de Custosa contra os austríacos. Foi ferido em combate diversas vezes e foi condecorado com medalhas pelas campanhas da Itália de 1860-1861-1866. Foi condecorado por bravura com uma medalha de prata. Em 1868, viajou para o Uruguai e Argentina.

Seu primeiro projeto no Brasil, para onde veio, na década de 1870, foi o edifício da alfândega de Fortaleza, realizado a pedido do governo imperial, em 1874 (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1874, primeira coluna; Jornal do Commercio, 19 de julho de 1877, quarta coluna; A Constituição (CE), 20 de novembro de 1874, penúltima coluna). Começou a trabalhar como engenheiro-arquiteto no Rio de Janeiro, onde, inicialmente, ficou hospedado na casa do Visconde do Rio Branco (1819 – 1880). Casou-se, em 26 de janeiro de 1876,  com Dona Francisca Nogueira da Gama Carneiro de Bellens, de uma nobre família brasileira (Diário do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1876, quinta coluna). A partir dessas relações entrou para o círculo íntimo do imperador Pedro II. O casal residia na Rua Bambina, em Botafogo.

Em 1876, foi designado para fiscalizar as obras da ponte da alfândega de Belém do Pará (A Constituição (PA), 19 de agosto de 1876, última coluna).

Na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na Sala Gabriel Soares, antropológica e arqueológica, exposição de  produtos da arte plumária brasileira, adornos, tecidos e vestes de muitas tribos do Brasil, além das coleções arqueolíticas do Museu Nacional, de Amália Machado Cavalcanti de Albuquerque e dos senhores  Joaquim Monteiro Caminhoá (1836 – 1896), João Barbosa Rodrigues (1842 – 1909) e Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) (A Constituição (PA), 16 de agosto de 1882, terceira coluna). A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes. O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), autor da imagem do Clube Naval publicada neste artigo, produziu uma série de registros de objetos e aspectos da vida indígena durante a exposição e algumas fotografias de sua autoria, realizadas quando ele integrou a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), chefiada pelo geólogo canadense Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), foram expostas.

Ainda em 1882, a Comissão para o Monumento à Independência Brasileira, futuro Museu Paulista, cujo projeto vencedor foi o de Bezzi, o qualificou como arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico (Correio Paulistano, 11 de dezembro de 1882, terceira coluna). Em 1883, passou a residir em São Paulo, na rua do Senador Florencio de Abreu, 43 (Correio Paulistano, 6 de julho de 1883, última coluna). Também em São Paulo, projetou o ajardinamento da Praça da República, realizado entre 1902 e 1904 (Arquivo Histórico de São Paulo); e o Velódromo de São Paulo, inaugurado na década de 1890.

No Rio de Janeiro, além do Clube Naval, Bezzi projetou diversos prédios e residências, dentre eles o antigo Banco do Comércio, na Rua 1º de Março, e reformou o Edifício Itamarati, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores, tendo construído sua ala esquerda.

Bezzi fundou algumas associações de fundo patriótico ligadas à Itália, dentre elas a Sociedade dos Combatentes Italianos pela unidade e pela independência da Itália, a Societa Veterani e Reduci e a Sociedade União Beneficente. Foi eleito membro honorário do Instituto de Engenheiros Civis de Londres, agraciado como Oficial da Legião de Honra da França e com o Hábito da Ordem Militar de São Maurício e São Lázaro, pelo governo da Itália. Era Comendador da Coroa Italiana e o representante no Brasil da Cruz Vermelha italiana (Jornal do Brasil, 30 de maio de 1915, sexta coluna).

Faleceu em 23 de maio de 1915, no Rio de Janeiro. Residia na Rua Cosme Velho, 57 (O Paiz, 24 de maio de 1915, terceira coluna; Correio da Manhã, de maio de 1915, penúltima coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BRUNA, Paulo. Museu Paulista: um restauro complexo. Sessão Temática: novas fronteiras e novos pactos para pesquisas e projetos situados em áreas de preservação e patrimônio CulturalEncontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Porto Alegre, 25 a 29 de julho de 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ipatrimônio

PARETO JUNIOR, Lindener. O cotidiano em construção: os “práticos licenciados” em São Paulo (1893-1933). 2011. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

Revista do Clube Naval, jan/fev/mar de 2022, nº 401, página 7

SALMONI, Anita; DEBENEDETTI, Emma. Arquitetura Italiana em São Paulo. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Site Arquitetura Italiana no Estado de São Paulo

Site da Enciclopédia Treccani

Site Clube Naval

 

Outros artigos da série Os arquitetos do Rio de Janeiro

 

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” I – Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, de autoria de Cristiane d´Avila – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, publicado em 14 de janeiro de 2021.

Série “Os arquitetos do Rio” II – No Dia Nacional da Saúde, o Desinfetório de Botafogo e um breve perfil do arquiteto português Luiz de Moraes Junior, responsável pelo projeto, de autoria de Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, publicado em 5 de agosto de 2023

Série ”Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 13 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IV – Archimedes Memória (1893 – 1960), o último dos ecléticos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 1º de dezembro de 2023

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXVII  e “Os arquitetos do Rio de Janeiro ” V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 15 de janeiro de  2024

 

 

O Hotel Glória – antes e depois

A Brasiliana Fotográfica destaca dois registros dos bairros da Glória e do Flamengo, no Rio de Janeiro, produzidas pelo fotógrafo Jorge Kfuri (1893 – 1965). As imagens são de 1917 e 1922 e mostram a mesma região: na primeira, vemos o terreno em que seria construído o Hotel Glória e, na segunda, já vemos o edifício concluído. O efeito antes e depois é um dos aspectos mais atraentes, interessantes e poderosos da fotografia, capaz de registrar desde as pequenas às grandes transformações da humanidade – por exemplo, suas paisagens, construções e população.

 

 

 

 

O Hotel Glória, aberto em 15 de agosto de 1922, com uma bênção realizada pelo arcebispo D. Sebastião Leme (O Paiz, 16 de agosto de 1922), foi o primeiro cinco estrelas do Brasil e também o primeiro prédio em concreto armado da América do Sul. Sua construção, motivada pelas festas do primeiro centenário da Independência do Brasil, foi uma iniciativa da firma Rocha Miranda & Filhos.

 

 

Em estilo clássico, o Hotel Glória abrigava um cassino, um teatro, diversos salões de festas, além de 150 quartos. Seus arquitetos foram o francês Joseph Gire ( 1872 – 1933) e o alemão Sylvio Riedlinger. Gire foi responsável por outros importantes prédios cariocas como o do Hotel Copacabana Palace, do Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, e do Palácio das Laranjeiras, em parceria com Armando Silva Telles, dentre outros. Era formado pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris e desembarcou no Rio de Janeiro a convite da abastada e influente família Guinle.

 

 

Em março de 2008, o Glória foi comprado pelo empresário Eike Batista, que anunciou uma grande reforma que o tornaria um seis estrelas, um marco na história da hotelaria do Rio. Seria reaberto como Gloria Palace para a Copa do Mundo de 2014. Porém, com a crise no Grupo EBX, de Eike, a reforma foi paralisada, em 2013. No início de 2016, o hotel passou às mãos do fundo árabe Mubadala, de Abu Dhabi. O Hotel Glória Luxury Residence é um retrofit do Fundo de Investimento Imobiliário Opportunity que está transformando o Hotel Glória em um residencial (2022).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre hotéis

Hotéis do século XIX e do início do século XX no Brasil, publicado em 5 de novembro de 2015 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Copacabana Palace, símbolo do glamour carioca, publicado em 13 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

O Hotel Pharoux por Revert Henrique Klumb, publicado em 15 de junho de 2022, publicado em 13 de agosto de 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023.

O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire, publicado em 13 de agosto de 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

 

Os teatros do Brasil

Na semana em que se comemora o Dia Mundial do Teatro, em 27 de março, a Brasiliana Fotográfica oferece a seus leitores fotografias de teatros brasileiros do século XIX e das primeiras décadas do século XX. São fotografias realizadas por Augusto Malta (1864 – 1957), A. Ribeiro (18? – ?), Augusto Stahl (1828 – 1877), Felipe Augusto Fidanza (1847 – 1903), George Huebner (1862 – 1935), Guilherme Gaensly (1843-1928)Marc Ferrez (1843 – 1923), Moritz Lamberg (18? – ?) e também por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

 

O Instituto Internacional do Teatro (IIT) criou a data em 1961 e, desde o ano seguinte, o Dia Internacional do Teatro é celebrado (Jornal do Brasil, 27 de março de 1962). A comemoração conta com a realização de diversas manifestações teatrais e também com a difusão de uma mensagem, sempre redigida por uma personalidade de renome da cena teatral, convidada pelo IIT. A instituição foi fundada em Praga, em 1948, pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e por personalidades do mundo teatral, durante o I Congresso Mundial do Teatro. O encontro contou com representantes da Áustria, da Bélgica, do Brasil, do Chile, da China, da Tchecoslováquia, da França, da Itália, da Polônia, do Reino Unido, da Suíça e dos Estados Unidos.

 

Acessando o link para as fotografias de teatros brasileiros disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre teatros e cinemas

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXpublicado em 26 de fevereiro de 2016.

A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, publicado em 14 de julho de 2017

Cinema no Brasil – a primeira sessão e um pouco da história do Cinema Odeon, publicado em 8 de julho de 2021

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XII – O Teatro Lírico (Theatro Lyrico), publicado em 16 de setembro de 2021

O Theatro de Santa Isabel, publicado em 28 de outubro de 2021

O Teatro Amazonas (Theatro Amazonas), em Manaus, a “Paris dos Trópicos”, publicado em 28 de dezembro de 2021

O Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, no Dia Mundial do Teatro, publicado em 27 de março de 2023

Dia do Cinema Brasileiro, publicado em 19 de junho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 5 de setembro de 2023

O Theatro da Paz, em Belém do Pará, inaugurado em 15 de fevereiro de 1878, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 15 de fevereiro de 2024