O Monumento do Ipiranga por Guilherme Gaensly

Com uma imagem realizada pelo fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), por volta de 1902, a Brasiliana Fotográfica destaca o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, que desde final do século XIX abriga o Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista na cidade de São Paulo, que completa 130 anos. O registro pertence ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

Gaensly foi o autor de importantes registros de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte. Na ocasião, a presença da Light representava a modernização da área urbana e dos serviços da cidade. Apesar de nunca ter sido o fotógrafo oficial de São Paulo, como foi Augusto Malta (1864 – 1957) no Rio de Janeiro, Gaensly foi o autor de uma abrangente obra sobre a capital paulista nas primeiras décadas do século XX, o que o coloca nessa posição.

Ele e Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) são considerados os fotógrafos que mais cultuaram São Paulo. Gaensly fotografou a cidade em plena transição para a modernidade, tendo registrado todos os aspectos urbanos da nova metrópole que surgia. Registrou a inauguração dos bondes elétricos que substituíram as carroças, o Jardim da Luz, a agitação do comércio na região do entorno da Praça da Sé, o crescimento da avenida Paulista, além do Museu do Ipiranga, palacetes, chácaras, edifícios públicos, igrejas, escolas, teatros e hospitais. Essas vistas de São Paulo foram comercializadas em álbuns impressos na Suíça a partir de fotografias em papel albuminado e de colotipias. Fotografou também a chegada de imigrantes italianos em Santos e em São Paulo. Dentre os prêmios que recebeu, está uma medalha de prata conquistada na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904.

 

Breve histórico do Museu do Ipiranga ou Museu Paulista da Universidade de São Paulo

 

O arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915), segundo o próprio indicado por Ignacio da Gama Cochrane (1836 – 1912), superintendente de obras públicas da Província de São Paulo, foi contratado, em 1882, pela Comissão Provincial do Monumento do Ipiranga para realizar o projeto de um monumento-edifício no local onde aconteceu o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Sua escolha foi criticada pelo fato dele ser estrangeiro. Em 10 de dezembro de 1882, com a presença do governador de São Paulo, Francisco de Carvalho Soares Brandão(1839 – 1899), e de outras autoridades foi colocada a primeira pedra do monumento (Correio Paulistano, 11 de dezembro 1882, segunda coluna). Foi executado pelo mestre de obras Luigi Pucci (18? -?), também italiano. O edifício, localizado dentro do complexo do Parque Independência, foi construído entre 1885 e 1890. Em estilo eclético, tem 123 metros de comprimento e 16 metros de profundidade com muitos elementos decorativos e ornamentais. A técnica empregada, uma novidade na época, foi a da alvenaria de tijolos cerâmicos.  Em São Paulo ainda predominavam as técnicas vernaculares, de construção em taipa. O edifício é tombado pelo patrimônio histórico municipal, estadual e federal.

 

 

As obras encerraram-se em 1890 (Correio Paulistano, 24 de junho de 1890, segunda coluna). Houve a possibilidade de abrigar uma escola pública, mas, em 1892 foi decidido que o Museu do Estado, criado em 1890, seria transferido para o Edifício-Monumento.

Em 1893, instituiu-se o Museu Paulista, que foi inaugurado em 7 de setembro de 1895, no Monumento do Ipiranga  (Correio Paulistano, 8 de setembro de 1895, quinta coluna). Possui um acervo de mais de 125 mil unidades, entre objetos, iconografia e documentação textual, do século XVII até meados do século XX.

 

 

Assim as trajetórias do museu público mais antigo de São Paulo e do Monumento do Ipiranga se encontraram e, desde então, ele ficou conhecido como Museu do Ipiranga. O primeiro diretor do museu foi o zoólogo teuto-brasileiro Hermann von Ihering (1850 – 1930) e seu acervo originou-se na coleção particular do coronel Joaquim Sertório (18? – 1905). Em 1963, o Museu Paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo.

O Museu do Ipiranga foi fechado para o público, em 2013, devido a suas péssimas condições físicas e estruturais. Em 2019, foi iniciada as obras de sua reforma, cujo custo foi estimado em 235 milhões de reais. Sua área construída foi dobrada e, a área expositiva, triplicada. O Jardim Francês e suas fontes foram recuperados. Foi reinaugurado em 7 de setembro de 2022, quando foi comemorado o bicentenário da Independência do Brasil. No dia seguinte, foi aberto ao público.

Uma das obras mais conhecidas de seu acervo é o quadro Independência ou Morte, pintado pelo artista Pedro Américo, em 1888.

 

 

Breve perfil de Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915)

 

 

Bezzi formou-se engenheiro, em Turim, onde nasceu em 18 de janeiro de 1844. Foi voluntário, nas campanhas de Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882) para a unificação italiana. Também serviu como oficial do regimento de cavalaria do exército regular, comandado pelo Duque D’Aosta (1845 – 1890), tendo se destacado na Batalha de Custosa contra os austríacos. Foi ferido em combate diversas vezes e foi condecorado com medalhas pelas campanhas da Itália de 1860-1861-1866. Foi condecorado por bravura com uma medalha de prata. Em 1868, viajou para o Uruguai e Argentina.

Seu primeiro projeto no Brasil, para onde veio, na década de 1870, foi o edifício da alfândega de Fortaleza, realizado a pedido do governo imperial, em 1874 (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1874, primeira coluna; Jornal do Commercio, 19 de julho de 1877, quarta colunaA Constituição (CE), 20 de novembro de 1874, penúltima coluna). Começou a trabalhar como engenheiro-arquiteto no Rio de Janeiro, onde, inicialmente, ficou hospedado na casa do Visconde do Rio Branco (1819 – 1880). Casou-se, em 26 de janeiro de 1876,  com Dona Francisca Nogueira da Gama Carneiro de Bellens, de uma nobre família brasileira (Diário do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1876, quinta coluna). A partir dessas relações entrou para o círculo íntimo do imperador Pedro II (1825 – 1891). O casal residia na Rua Bambina, em Botafogo.

Em 1876, foi designado para fiscalizar as obras da ponte da alfândega de Belém do Pará (A Constituição (PA), 19 de agosto de 1876, última coluna).

Na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na Sala Gabriel Soares, foram expostos produtos da arte plumária brasileira, adornos, tecidos e vestes de muitas tribos do Brasil, além das coleções arqueolíticas do Museu Nacional, de Amália Machado Cavalcanti de Albuquerque e dos senhores  Joaquim Monteiro Caminhoá (1836 – 1896), João Barbosa Rodrigues (1842 – 1909) e Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) (A Constituição (PA), 16 de agosto de 1882, terceira coluna). A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes.

Ainda em 1882, a Comissão para o Monumento à Independência Brasileira, futuro Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista, cujo projeto vencedor foi o de Bezzi, o qualificou como arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico (Correio Paulistano, 11 de dezembro de 1882, terceira coluna). Em 1883, Bezzi passou a residir em São Paulo, na Rua do Senador Florencio de Abreu, 43 (Correio Paulistano, 6 de julho de 1883, última coluna). Também em São Paulo projetou o ajardinamento da Praça da República, realizado entre 1902 e 1904 (Arquivo Histórico de São Paulo); e o Velódromo de São Paulo, inaugurado na década de 1890.

No Rio de Janeiro, além do Clube Naval, Bezzi projetou diversos prédios e residências, dentre eles o antigo Banco do Comércio, na Rua 1º de Março, e reformou o Edifício Itamarati, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores, tendo construído sua ala esquerda.

Bezzi fundou algumas associações de fundo patriótico ligadas à Itália, dentre elas a Sociedade dos Combatentes Italianos pela unidade e pela independência da Itália, a Societa Veterani e Reduci e a Sociedade União Beneficente. Foi eleito membro honorário do Instituto de Engenheiros Civis de Londres, agraciado como Oficial da Legião de Honra da França e com o Hábito da Ordem Militar de São Maurício e São Lázaro, pelo governo da Itália. Era Comendador da Coroa Italiana e o representante no Brasil da Cruz Vermelha italiana (Jornal do Brasil, 30 de maio de 1915, sexta coluna).

Faleceu em 23 de maio de 1915, no Rio de Janeiro. Residia na Rua Cosme Velho, 57 (O Paiz, 24 de maio de 1915, terceira coluna; Correio da Manhã, de maio de 1915, penúltima coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes

BREFE, Ana Claudia Fonseca. O Museu Paulista – Affonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo : Editora UNESP, 2025.

EMERICH, Denise (autora); DIAS, Fabiano (tradutor). Museu Paulista: 120 anos de história | 120 years of history (PT/ING). São Paulo : Editora Brasileira, 2016.

NERY, Pedro. Arte, pátria e civilização: A formação dos acervos artísticos do Museu Paulista e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1893-1912. Revista Fórum Permanente, dezembro de 2016.

ONO, Rosaria; LIMA, Solange Ferraz. O novo Museu do Ipiranga no Bicentenário da Independência do Brasil. São Paulo, 2022.

Site Arquitetura Italiana no Estado de São Paulo

Site Fflch – Enciclopédia de Antropologia

Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913

Hoje, no Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica destaca a criação da Associação dos Photographos de Imprensa, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil. Foi criada em 28 de outubro de 1913 e entre seus fundadores estavam Augusto Malta (1864 – 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; e Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, produzidas em 1916 – ambos representados no acervo fotográfico do portal e protagonistas de artigos acompanhados de cronologia publicados na Brasiliana Fotográfica. A fotografia abaixo, publicada na revista Fon-Fon, de 1º de novembro de 1913, está assinada por F. Garcia, o presidente da então recém criada associação.

 

 

Na ocasião, fotógrafos de jornais e revistas da então capital federal reuniram-se na casa 106, da Rua São José, criaram a associação e elegeram a seguinte diretoria, que regeria os destinos da entidade por um ano: na presidência, Francisco Garcia; na vice-presidência, Arthur do Carmo; Jayme Ramalho e Benjamin Vernaut, primeiro e segundo secretário, respectivamente; Carlos Chapelin, tesoureiro; e José Teixeira, procurador.

O objetivo da Associação dos Photographos de Imprensa era a união da classe, a assistência em caso de caso de doença, etc (Revista Moderna, 25 de outubro de 1913A Noite, 28 de outubro de 1913, última colunaCorreio da Manhã, 29 de outubro de 1913, quarta colunaO Paiz, 29 de outubro de 1913Fon-Fon, 1º de novembro de 1913).

 

 

Num artigo da Illustração Photographica (SP), de junho de 1919, intitulado Associação dos Photographos de Imprensa, os profissionais da classe foram criticados:

 

 

Tudo indica que a iniciativa não vingou por mais muito tempo porque logo nos primeiros dias de 1929 os fotógrafos de imprensa foram convocados para formar uma associação (A Noite, 3 de janeiro de 1929, segunda coluna).

 

Augusto Malta (1864 – 1957) e Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

Na imagem abaixo, Augusto Malta é o primeiro sentado à direita com sua inequívoca gravata de laço preto. A identificação de Jorge Kfuri, o terceiro, em pé, da esquerda para a direita, foi feita a partir da comparação com uma foto dele publicada na revista Vida Sportiva, de 12 de outubro de 1918.

 

 

 

 

As fotos de Malta foram divulgadas em guias turísticos, cartões-postais, revistas e publicações oficiais. Sua vasta produção fotográfica foi decisiva para a formação da identidade visual da Belle Époque no Rio de Janeiro e para a preservação da memória da cidade. Foi, sem dúvida, um importante incentivador do fotojornalismo no Brasil, tendo fornecido imagens de acontecimentos, pessoas, aspectos urbanos e paisagens para diversas revistas e jornais.

Nas primeiras décadas do século XX, Kfuri trabalhou nos jornais O Século e A Noite e produziu as primeiras fotografias aéreas do Brasil. Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). No ano seguinte, naturalizou-se brasileiro e foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval.

 

Para saber mais sobre a vida destes dois fotógrafos, acesse os seguintes artigos já publicados aqui na Brasiliana Fotográfica:

O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, 10 de julho de 2015

Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2019

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono por Beatriz Kushnir

Destacando uma imagem do Cemitério Israelita de Inhaúma, produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), em 11 de abril de 1934, a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Você quer saber quem somos nós? O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir. Inaugurado em 1o de outubro de 1916, lá encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas. Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer, ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino. As prostitutas judias ficaram conhecidas como “as polacas”.

Você quer saber quem somos nós?

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono

Beatriz Kushnir*

 

 

No dia 11 de abril de 1934, uma quarta-feira, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) (1) registrou um evento no Cemitério Israelita de Inhaúma. Na foto, homens e mulheres diante de uma lápide. Na tradição judaica, algum tempo após o enterramento, há a cerimônia de sua inauguração, com a colocação da pedra e das informações sobre o/a falecido/a. Possivelmente era isto que acontecia ali. Ao que parece, apenas cinco homens compareceram e, assim, não se seguia o rito religioso que exige um minian – um quórum de dez homens judeus adultos, ou seja, com 13 anos ou mais. Isto é um indício de que talvez o grupo não tivesse tantos homens judeus disponíveis.

A curiosidade do fotógrafo demonstra que as atividades naquele espaço despertavam, há muito, o interesse da sociedade carioca. Seguindo preceitos e ritos milenares, os judeus costumam visitar seus mortos no final de semana entre o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Iom Kipur). Os vários cemitérios judeus, em todo o mundo, ficam lotados nesses dias. Mantendo tal costume, Zelda e sua irmã Celina apareceram no Cemitério Israelita de Inhaúma, em 1992, quando as encontrei. Diferentemente dos demais, lá as visitas são raras.

No subúrbio de Inhaúma, colado ao cemitério municipal, encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas (2). Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer (1902 – 1991), ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino.

As polacas, como ficaram conhecidas, estão presentes na letra de Mestre-Sala dos Mares, homenagem de João Bosco (1946-) e Aldir Blanc (1946 – 2020) a João Cândido (1880 – 1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata (1910): “Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens, polacas e por batalhões de mulatas”. No poema Balada do Mangue, de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), publicado em 1946, onde se lê: “Glabras, glúteas cafetinas / Embebidas em jasmim / Jogando cantos felizes / Em perspectivas sem fim. / Cantais maternais hienas / Canções de cefetinizar / Gordas polacas serenas / Sempre prestes a chorar”(3). Nos desenhos de Lasar Segall (1889 – 1957), intitulada Mangue (4), e de Di Cavalcanti (1897 – 1976) (5), e nas fotos de Augusto Malta (6).

 

 

 

 

Há também a música que Moreira da Silva (1902 – 2000) compôs para uma paixão, Estera Gladkowicer (1927 – 1968), uma polaca de origem russa naturalizada brasileira, nascida em 20 de maio de 1907, solteira e que chega ao Brasil em 1927. Estera era a sócia no 65 da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI) e morreu em 1968 por ingestão de barbitúricos. Intitulada Judia Rara, Kid Morengueira declara que “A rosa não se compara/a essa judia rara/criada no meu país/rosa de amor sem espinhos/diz que são meus carinhos/e eu sou um homem feliz/Os olhos dessa judia/cheios de amor e poesia/dorme o mistério da noite/brilha o milagre do dia/A sua boca vermelha/é uma flor singular/e meu desejo uma abelha/em torno dela a bailar” (https://www.youtube.com/watch?v=gXfRBepUV1M).

 

 

Quando encontrei Zelda e Celina ali, em 1992, elas vinham visitar seus mortos: a mãe, a sogra de uma irmã, amigos e amigas. Logo me perguntaram: “ah, você quer saber quem somos nós?”. Mas a quem pertence este espaço e por que está isolado? O Cemitério Israelita de Inhaúma materializa a necessidade que esse grupo teve de retirar de si o manto da marginalidade e da exclusão pela via da solidariedade e da sociabilidade com base na religiosidade. Isto porque, dentro dos preceitos religiosos judaicos as prostitutas são enterradas junto ao muro dos cemitérios, reforçando e demarcando o locus da exclusão e do estigma. A partir da vivência comunal religiosa construída por esse grupo, com a aquisição de um cemitério próprio, estes homens e mulheres puderam manter e reforçar sua identidade judaica.

No Rio de Janeiro, o espaço do cemitério revela números – participação feminina e masculina, existência de filhos – e hierarquias. Assim, foi durante a gestão de 1916 que a ABFRI inaugurou o Cemitério Israelita de Inhaúma, em um terreno na rua Piragibe nº 99, com fundos para o Cemitério Municipal de Inhaúma. O processo de aquisição do terreno remonta a fevereiro de 1912, quando a procuradora Norma Pargament reencaminhou um pedido ao prefeito da Cidade do Rio de Janeiro “(…) para que lhe fosse arrematado ou vendido um terreno junto ao Cemitério de Inhaúma, para nele ser instalado o cemitério da mesma Associação a fim de ali serem internados (sic). todos os seus associados”(7).

Em agosto de 1916, o Diretor Geral de Obras e Viação, José Dias Cupertim, aprovou a obra e, às vésperas do décimo aniversário de fundação da ABFRI, se inaugurou o seu cemitério em 1o de outubro de 1916. Este ato representa e corporifica o objetivo central de uma sociedade dessa natureza: a manutenção de uma identidade étnico-religiosa. Contrariamente ao que se poderia supor, os membros da ABFRI não eram ilustres desconhecidos. Tal qual a curiosidade de Malta em 1934, a inauguração de seu cemitério, em 1916, não passou despercebida na imprensa carioca, sendo noticiada na primeira página do jornal A Noite (8), em uma matéria que reproduz as imagens da época quanto aos imigrantes/cáftens/ prostitutas/judeus.

 

 

A reportagem, não assinada, foi ilustrada com uma foto do campo de Inhaúma cercado por grades e identificado com uma placa com o nome da Associação, expondo seu caráter ainda precário e o que difere muito do que acontecerá nas duas próximas décadas como a imagem do Malta demonstra.

No tom de uma verdadeira crônica policial, o jornal A Noite faz referências aos homens e mulheres ali presentes, seus trajes e costumes. Narrando o que denominava de bizarro, a notícia conta a história da primeira pessoa a ser ali enterrada “(…) de nome Helena. Coube a essa a primeira cova aberta. Helena. [moradora à] rua do Regente, (…) era austríaca, solteira e tinha 33 anos. Faleceu no dia 22 de outubro deixando uma filha “(…) Eva. Esse foi o nome escolhido por suas irmãs de religião. Mas a [criança] foi gerada da união da pecadora com um soldado naval. O soldado não quis que se chamasse Eva a pequena, nome judaico, e sim que se lhe desse Iracema, nome indígena”(9).

A descrição da “festa macabra” realizada pelo jornal misturava em um mesmo caldeirão todas as referências usualmente feitas ao fenômeno do tráfico de escravas brancas e à atuação de parte da comunidade judaica nessa área. Assim, o jornalista refere-se a uma possível cerimônia de inauguração do campo, no qual um carneiro sacrificado foi enterrado, seguindo-se a uma distribuição de doces e bolos e a um leilão de cargos beneméritos da Associação, mediante pagamento que reverteria para a construção das instalações do cemitério. Tais descrições poderiam se aproximar do capturado pelas lentes de Malta, em 1934. Também ali vemos alimentos e bebidas, que talvez se justifiquem pelo difícil acesso ao local naquele momento. O longo deslocamento de ida e volta exigiria a ingestão de um farnel.

Três dias após a publicação do A Noite, o mesmo órgão de imprensa registrou uma resposta do redator-chefe, David J. Perez, do jornal A Columna – órgão da comunidade israelita carioca. Perez escreveu uma nota negando existir qualquer preceito religioso que regesse a inauguração de um cemitério judeu e justificava a existência e atuação de judeus nesse tipo de ofício pela ausência de uma organização comunal na cidade (A Noite, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

O Cemitério Israelita de Inhaúma foi o primeiro cemitério israelita de caráter particular estabelecido na cidade do Rio de Janeiro. Anteriormente, os judeus desta cidade eram enterrados em quadras delimitadas no Cemitério do Caju, São João Batista ou dos Ingleses, segundo os preceitos religiosos judaicos. Dentro destes preceitos, os suicidas e as prostitutas eram enterrados junto ao muro, demarcando e reconfirmando a marca da exclusão. E foi certamente para sair deste lugar que aqueles homens e mulheres se organizaram associativamente a partir de 1906, em um ato pioneiro dentro do processo imigratório de judeus para o Brasil. Portanto, é errônea a visão segundo a qual, “(…) a municipalidade havia cedido à comunidade judaica uma extensa área, no Bairro de Inhaúma, para que fosse lá localizado um cemitério dentro dos preceitos da sua religião. (…) Aconteceu que os judeus da escravatura branca, chamados de ‘impuros’, quando souberam da concessão governamental, conseguiram das autoridades que seus mortos também fossem enterrados no cemitério de Inhaúma. Esse fato fez com que a comunidade, diante da impossibilidade de revogar a ordem, abandonasse o mencionado cemitério e, na impossibilidade de obter uma outra concessão. Dentro do então Distrito Federal. (…) foi instalado um cemitério em Vila Rosaly, atual município de São João de Meriti, então município de Nova Iguaçu” (Malamud, 1988, p. 83-4).

A ABFRI sobreviveu no século 20. Foi dirigida por mulheres que formavam uma irmandade. A última das quatro irmãs superioras foi Rebecca Freedman, a Becca, que faleceu com 103 anos, em 1984, talvez a verdadeira data de encerramento da associação. Ela havia sido eleita presidente por uma gestão de quatro anos, até 1970, porém nunca foi substituída. Após 62 anos de existência, a ABFRI se “exaure”, como me descreveu o seu contador, Sr. O. As rendas já não cobrem as despesas e as mensalidades já não conseguem ser pagas pelos associados. Diferente de suas companheiras e, certamente, não por sua vontade, Becca foi enterrada no Cemitério Comunal do Caju, pela Sociedade Cemitério Comunal, uma entidade israelita que cuidava até 2020 do Cemitério Israelita de Inhaúma. Mesmo com o fim da Associação, esse cemitério ainda recebeu sepultamentos e, na década de 1960, segundo a Comissão de Cemitérios do Rio de Janeiro, sua média anual era de oito enterros. O Livro de Registro dos óbitos dos associados da ABFRI encerra seus dados em outubro de 1967, embora outros cinco sócios tenham sido sepultados até setembro de 1970. Após esse ano, pela ausência de recursos e de pessoal que cuidasse do cemitério, ele fica abandonado.

As tentativas que membros da ABFRI realizam desde a década de 1960 para solucionar a questão chega a um limite e a transferência dos cuidados do cemitério para outra sociedade israelita me foi narrada pelo Sr. O como um processo longo. Anos mais tarde, já no final da década de 1970, a atual sociedade responsável – Sociedade Cemitério Comunal – procurou o Sr. O. Nos anos 2000, a entidade que assumiu o cemitério teve a intenção de usar as áreas livres restantes para outros enterros que não os dos sócios da  ABFRI. Os sócios seriam concentrados em uma área determinada, transladando-se os corpos, o que não é permitido pela religião judaica.

Para que isto não ocorresse, a Prefeitura do Rio tombou o cemitério como um sitio arqueológico (Decreto no 28.463, de 21 de setembro de 2007 e Decreto no 32.993, de 27 de outubro de 2010). Abandonado desde 2020, trancado e impossibilitado de receber visitantes, o espaço pede socorro!

 

* Beatriz Kushnir é Doutora em História/Unicamp. Autora, entre outros, de Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição, as polacas e suas associações de ajuda mútua (Imago). Mantém o blog: http://polacas.blogspot.com

 

(1)  Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeiro Pereira Passos.
(2) Este dado foi retirado do Livro de Registro de Óbitos dos Adultos e Anjos sepultados no Cemitério da Associação
Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – Inhaúma. Esse material foi elaborado por essa entidade e hoje se encontra em um depósito no arquivo da Sociedade Cemitério Comunal – instituição judaica carioca que tomava conta do local até 2020. Esse Livro possui páginas numeradas, 31 até 88, que dão conta do período de 22 de outubro de 1916 até 12 de outubro de 1967.
(3) Vinicius de Moraes, Antologia poética. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2006.
(4) Lasar Segall, (Vilna, 1889 – São Paulo, 1957) foi um pintor, escultor e gravurista judeu nascido no território da atual Lituânia. Álbum de desenhos de Mangue foi realizado entre 1925 e 1928, e inclui texto de Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. A edição de luxo é limitada a 135 exemplares.
(5) Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, ou Di Cavalcanti, (1897–1976), abordou temas brasileiros em suas obras e, em 1929, pintou o quadro Mangue.
(6) Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeito Pereira Passos, instituiu um significativo acervo das transformações da então capital do Brasil.
(7) AGCRJ (Vol.4, p. 598, códice 58-3-22).
(8)“Uma festa Macabra – Os exploradores do judaísmo. Os ‘wizugths’ pagam o seu tributo – O destino de Helena”.
Jornal A Noite, RJ, 30/10/1916, p.1.
(9) Op. cit. Nota 8.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VII – A Orquestra Sinfônica Brasileira – sua fundação e primeiro concerto, em 1940

Destacando duas fotografias do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, o sétimo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica homenageia os 85 anos da fundação e do primeiro concerto realizado pela Orquestra Sinfônica Brasileira, patrimônio cultural brasileiro e importante promotora do acesso à música de concerto em nosso país. É a única orquestra do Brasil que se mantém em permanente atividade há mais de 80 anos, desde sua fundação.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias relativas à Orquestra Sinfônica Brasileira pertencentes ao acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Sob a regência do maestro húngaro Eugen Szenkar (1891 – 1977), seu primeiro diretor artístico, a orquestra apresentou-se no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1940, cinco dias após sua criação. O regente, que ficou à frente da OSB até 1949 (Diário de Notícias, 27 de setembro de 1949, quarta coluna30 de dezembro de 1949), incluiu no repertório de estreia a obra Serenata, do compositor brasileiro, Alberto Nepomuceno (1864 – 1920). As outras peças executadas foram dos compositores alemães Carl Maria von Weber (1786 – 1826), Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), Richard Wagner (1813 – 1883) e do tcheco naturalizado norte-americano Jaromír Wainberg (1896 – 1967) (Diário de Notícias17 de agosto de 1940, sexta coluna; 18 de agosto de 1940, quinta coluna).

Uma das fotografias do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro destacadas neste artigo é de Eugen Szenkar ensaiando a orquestra, que ilustrou uma entrevista do maestro, seis anos após a fundação da OSB (Diário da Noite, 4 de julho de 1946).

 

 

 

 

A outra, uma fotografia publicada pelo Diário da Noite, de 2 de setembro de 1944, é um flagrante da apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira no 6º Concerto para a Juventude, no Cine Teatro Rex, em uma iniciativa conjunta com o Ministério da Educação. O concerto, que integrou as festividades da Semana da Pátria, estava lotado (Diário da Noite, 2 de setembro de 1944, última coluna).

 

 

 

A preservação de um arquivo fotográfico de imprensa é muito importante porque as imagens podem, a partir de recursos tecnológicos como o zoom e a digitalização, terem uma boa visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena. O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, adquirido por Assis Chateaubriand (1892 – 1968) em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Os registros cobrem um período representativo do século XX – de 1915 a 2005.

 

Brevíssima história da Orquestra Sinfônica Brasileira

 

A Orquestra Sinfônica Brasileira foi fundada, em julho de 1940, graças aos esforços do maestro José Siqueira (1907 – 1985), e de outros professores da Escola Nacional de Música: Orlando Frederico, Alfredo Gomes, Antão Soares, Djalma Guimarães, Alberto Lazzoli, Antonio Leopardi, Iberê Gomes Grosso, Nelson Cintra e o capitão Fortunato Nascimento, além de apoiadores como o jornalista Roberto Marinho (Diário de Notícias, 13 de julho de 1940, coluna).

 

O compositor e regente paraivano José Siqueira

O compositor e regente paraibano José Siqueira (1907 – 1985)

 

Como já mencionado, o primeiro concerto realizou-se em 17 de agosto de 1940. Inicialmente, os ensaios da orquestra eram realizados na Sala Leopoldo Miguez, da Escola Nacional de Música.

 

osboglobo16deagostode1940

O GLOBO, 16 de agosto de 1940

 

 

 

Um dos mais importantes críticos de música de seu tempo, o curitibano José Cândido de Andrade Muricy (1895 – 1984), saudou a criação da OSB em uma crônica publicada no Jornal do Commercio, de 21 de julho de 1940, primeira coluna.

De acordo com o site da OSB, sucederam o maestro Eugen Szenkar: o italiano Lamberto Baldi (1895 – 1979), em 1950 (Correio da Manhã, 13 de março de 1950, segunda coluna); o cearense Eleazar de Carvalho (1912 – 1996), em 1952; e o curitibano Alceu Bocchino (1918 -2013), em 1963 (Diário de Notícias, 18 de abril de 1963, segunda coluna).

Em 1943, a OSB ganhou um patrono de peso, o empresário Arnaldo Guinle, que doou uma sede à orquestra, em dois andares do prédio na Avenida Rio Branco, 137, no centro do Rio de Janeiro. Também neste ano foram inaugurados os Concertos para a Juventude, cuja premissa era dar oportunidades a jovens solistas brasileiros. Eram realizados no último domingo do mês. O primeiro concerto aconteceu, em 25 de abril, no Cine Teatro Rex, reunindo cerca de 900 estudantes na platéia (Diário de Notícias, 29 de abril de 1943; A Noite, 12 de setembro de 1943, primeira coluna). Nos anos 1950, a Orquestra gravou seu primeiro LP, com peças de Carlos Gomes (1836 – 1896), Oscar Lorenzo Fernandez (1897 -1948), Francisco Braga (1868 – 1945), Alberto Nepomuceno e Fructuoso Vianna (1896 – 1976). Em 1958, já possuía 18 LPs gravados.

Na inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, a OSB apresentou-se, a convite do governo federal.

OSB foi transformada em fundação, em 1966, ano em que Eleazar de Carvalho reassumiu a orquestra. Ganhou um maior impulso a partir de 1970, graças ao dinamismo de seu novo diretor, o brasileiro de ascendência russa Isaac Karabtchevsky (1934 -), realizando sua primeira turnê para o exterior: apresentou-se na Europa, em 1974. Três anos depois, em 1977, fez uma temporada nos Estados Unidos e no Canadá.

O Projeto Aquarius, criado em 1972, também ajudou a popularizar a OSB, levando a música clássica às camadas mais populares, em concertos na Quinta da Boa Vista. Sua estréia, em 30 de abril de 1972, no Aterro do Flamengo, foi assistida por cerca de 100 mil pessoas. Em 1984, por exemplo, foi realizado o Rock Concerto – iniciativa do Projeto Aquarius, na Praça da Apoteose, com a orquestra e o coro do Theatro Municipal, Barão Vermelho e Blitz. E no centenário do compositor Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959), em 1987, o Projeto Aquarius o homenageou apresentando um grande concerto com a participação de cinco mil vozes.

Ainda sob a regência de Karabtchevsky a OSB causou uma polêmica por ter executado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a obra Rapsódia sobre temas de Chico Buarque, de Lindolfo Gaya (1921 – 1987), uma homenagem a Chico Buarque (1944-). Foi aplaudida por um auditório repleto mas não agradou a todos. O pianista, regente e compositor Francisco Mignone (1897 – 1986) teria dito, no foyer do teatro: É sinal de luto pela música brasileira (Correio da Manhã, 9 de novembro de 1967, quarta colunaDiário de Notícias, 9 de novembro de 1967, segunda coluna; O Jornal, 10 de novembro de 1967, quinta colunaJornal do Brasil, 15 de novembro de 1967, terceira coluna; Jornal do Commercio, 19 de novembro de 1967, terceira coluna).

Karabtchevsky, que foi regente titular da OSB de 1969 a 1996, foi sucedido pelo paulistano Roberto Tibiriçá (1954-), em 1996; pelo israelense-argentino Yeruham Scharovsky (1956-), em 1998; e pelo paulistano Roberto Minczuk (1967-), em 2005, que ocupou o cargo até 2011, quando assumiram os cariocas Fernando Bicudo (1946-) e Pablo Castellar ( 1976-). Desde 2015 a orquestra não tem regente titular (Revista Concerto, 1º de março de 2025).

Em 5 de outubro 1997, durante a missa campal feita pelo papa João Paulo II, no Rio de Janeiro, a OSB tocou Cidade Maravilhosa e foi acompanhada pelo coro de uma plateia de milhares de pessoas.

Em 1999, foi criada a Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem (Tribuna da Imprensa, 31 de agosto de 1999, primeira coluna).

No século XXI, a OSB se apresentou na abertura do Rock in Rio III, no Palco Mundo, para mais de 120 mil pessoas presencialmente, em 2001 (Youtube).

 

OSB na abertura do Rock in Rio, em 2001

OSB na abertura do Rock in Rio, em 2001

 

Neste mesmo ano, realizou uma turnê com concertos ao ar livre nas regiões norte e nordeste do Brasil. No ano seguinte, 2002, tornou-se parceira da Prefeitura do Rio de Janeiro que, em 2003, a convidou para ocupar a Cidade da Música, complexo cultural na Barra da Tijuca. Ainda em 2003, apresentou-se na celebração dos 10 anos da criação do grupo Afroreggae. Em 2006, a Vale juntou-se à Prefeitura do Rio como mantenedores das atividades da OSB. Em 29 de novembro de 2008, apresentou-se com o cantor e compositor Ivan Lins (1945-), na inauguração da 13ª Árvore de Natal, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Em 2009, nasceu a parceria entre a Fundação OSB e o BNDES.

Em 2010, a OSB celebrou seus 70 anos anos com uma série de eventos, dentre eles a reprise de seu primeiro concerto (Jornal do Brasil, 10 de março de 2010). Pelo Projeto Aquarius, apresentou um espetáculo para mais de 100 mil pessoas na Praia de Copacabana (O GLOBO, 29 de maio de 2010).

Os 80 anos da orquestra foram celebrados, em 2020, em plena pandemia do Covid-19. O plano inicial das comemorações previam uma temporada presencial com destaque para músicos brasileiros e música nacional, mas devido à pandemia a programação foi adaptada para o formato digital – concertos em vídeos foram divulgados nas redes sociais (Série Virtual OSB 80).

Algumas de suas séries e projetos criados pela OSB são: Série Vesperal (1977), Música pelo Brasil (1983), Os Pianistas (1991), Concertos Didáticos (1998), Orquestra Para Todos (2004), Série Safira (2007), Orquestra em Movimento (2016) e Conexões Musicais (2017)

Ao longo de sua história a OSB revelou diversos talentos, dentre eles o pianista Arthur Moreira Lima (1940 – 2024), o violinista Henrique Morelenbaum (1931 – 2022) e o pianista Nelson Freire (1944 – 2021), que estreou, com apenas 11 anos, à frente da orquestra nos Concertos para a Juventude, de 1956. Também revelou a pianista Cristina Ortiz (1950-), que venceu o concurso Jovens Solistas do programa Concertos para a Juventude, de 1961; e o violoncelista Antonio Meneses (1957 – 2024). Também recebeu estrelas internacionais como o maestro Kurt Masur (1927 – 2015), e os cantores Luciano Pavarottin(1935 – 2007), José Carreras (1946-) e Placido Domingo (1941-).

A partir do decreto municipal nº 48.727, 9 de abril de 2021, a Orquestra Sinfônica Brasileira passou a ser Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município do Rio de Janeiro

A OSB segue sua vocação democrática, educativa e de excelência artística na direção da popularização da música de concerto e na de transformação social por meio da música. Viva a cultura! Viva a Orquestra Sinfônica Brasileira! Vida longa à Orquestra Sinfônica Brasileira!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo de O GLOBO

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CORREA, Sergio Nepomuceno Alvim. Orquestra Sinfonica Brasileira 1940-2000. FUNARTE, 2004.

 Gazeta do Povo, 7 de abril de 2013

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Orquestra Sinfônica Brasileira 81 Anos 

Site Academia Brasileira de Música

Site Dicionário Cravo Alvim de Música Popular Brasileira

Site Eleazar de Carvalho

Site Orquestra Sinfônica Brasileira

É lançada a pedra fundamental do prédio da Biblioteca Nacional, na então Avenida Central, em 15 de agosto de 1905

Há exatos 120 anos era realizada com grande brilhantismo a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da sede definitiva da Biblioteca Nacional, na então Avenida Central, futura Avenida Rio Branco (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1905, quinta coluna). Estavam presentes no evento, que foi registrado pelo fotógrafo Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), o presidente da República, Rodrigues Alves (1848 – 1919); o ministro do Interior, José Joaquim Seabra (1855 – 1942);  o ministro dos Transportes, Lauro Muller (1863 – 1926); e Manuel Cícero Peregrino da Silva (1866 – 1956), diretor da Biblioteca Nacional entre 1900 e 1924; dentre outras autoridades.

 

 

 

Na ocasião, Peregrino da Silva distribuiu algumas medalhas gravadas pelo artista italiano naturalizado brasileiro Antonio Augusto Girardet (1855 – 1955), o historiador do bronze, com o emblema da Biblioteca Nacional com os dizeres Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro. No verso, lia-se Lançamento da pedra fundamental do novo edifício, 1905. O presidente da República e o ministro do Interior receberam medalhas de ouro. Aos outros ministros, senadores e deputados presentes foram distribuídas medalhas de prata.

 

 

O novo prédio, projetado por Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), que também participou do lançamento da pedra fundamental, foi inaugurado em 29 de outubro de 1910, 100 anos após a fundação da instituição. Souza Aguiar já havia projetado o Palácio Monroe.

 

 

Com cinco andares e 13 mil m² de área interna, o prédio da Biblioteca Nacional mistura elementos do neoclassicismo e da art nouveau. A construção de sua sede definitiva integrou as reformas urbanas empreendidas pelo prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), que visavam a tornar o Rio de Janeiro uma cidade moderna e cosmopolita. Fundada em 29 de outubro de 1810 e aberta ao  público em 1814, a Biblioteca Nacional é a mais antiga instituição cultural do Brasil, considerada pela UNESCO uma das dez maiores bibliotecas nacionais do mundo e também a maior biblioteca da América Latina. É uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Antonio Luiz Ferreira, autor da foto do lançamento da pedra fundamental do prédio da Biblioteca Nacional, em 1905, foi também o autor da imagem da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, e da Missa campal de 17 de maio de 1888.

 

 

 

Foi, em 1902, contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Foram publicados dois álbuns com essas fotos: um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MARÇAL, Joaquim Ferreira de Andrade. Complemento indispensável… in Brasiliana Fotográfica, 29 de outubro de 2015.

Portal da Fundação Biblioteca Nacional

SCHWARCZ, Lilia; COSTA; Angela Marques da; AZEVEDO, Paulo Cesar de. A longa viagem da biblioteca dos reis. São Paulo : Companhia das Letras, 2002.

Site Monumentos do Rio

WANDERLEY, Andrea C. T. Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), fotógrafo das celebrações pela abolição da escravatura em 1888 in Brasiliana Fotográfica, 17 de fevereiro de 2021.

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida, um ícone da “Belle Époque” carioca, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida no Rio de Janeiro, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá*

 

Com registros de Augusto Malta (1864-1957), que foi fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936; do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) e de Marc Ferrez (1843 – 1923), brilhante cronista visual do Rio de Janeiro; o tema de nosso artigo é o Hotel Avenida, um marco arquitetônico e cultural carioca. Uma das fotografias de Marc Ferrez e as duas de Guilherme Santos são estereografias. Este último foi um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes.

 

Thumbnail
Guilherme Santos. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

 

Acessando o link para as fotografias do Hotel Avenida disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Foi projetado pelo baiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá (1838 – 1915) e inaugurado, em julho de 1908 (A Imprensa, 30 de junho, segunda coluna; 2 de julho, segunda coluna), na então recém aberta Avenida Central, posteriormente Avenida Rio Branco.

 

 

Caminhoá, nascido em Santo Amaro da Purificação, em 1838, foi também responsável pelos projetos da Catedral de Petrópolis e da oficina de consertos dos bondes da Companhia de Ferro Carril Jardim Botânico e atual edifício do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Havia estudado arquitetura na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e recebeu, da Assembleia Provincial da Bahia, em 1855, a subvenção de 200 francos mensais para estudar na Europa, onde frequentou a École de Beaux-Arts de Paris e foi aspirante, em 1857, no ateliê do arquiteto francês Louis-Hyppolyte Lebas (1782 – 1862), um dos mais influentes e populares profissionais de seu tempo. Regressou ao Brasil, em 1867. Faleceu em 14 de outubro de 1915 (Jornal do Commercio, 15 de outubro de 1915, última coluna).

 

 

A localização do luxuoso Hotel Avenida, em estilo eclético, ícone da Belle Époque carioca, e a presença de uma estação de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, proprietária do hotel, diante dele, propiciou que ele fosse muito mais do que um estabelecimento de hospedagem: foi o centro de gravidade de eventos sociais e culturais da cidades, dentre eles o carnaval.

 

 

O Hotel Avenida possuía 220 quartos, todos com telefone; restaurante, salão de jogos, água quente, iluminação elétrica e elevadores, tendo sido, na época de sua inauguração, o mais moderno e importante hotel do Brasil e um dos mais belos da América do Sul. Sua fachada frontal tinha 60 metros e cinco pavimentos. A altura do edifício era de quase 23 metros. Ao longo de sua existência hospedou importantes personalidades do cenário nacional e internacional. Abrigava a Galeria Cruzeiro, assim denominada devido a duas passagens em cruz, que ficava no andar térreo do hotel. Repleta de bares,  restaurantes e cafés, dentre eles o Nacional, o Ao Franziskaner (da Brahma), a Leiteria Mineira e o Laranjada Brasil, atraía um público de turistas, artistas e intelectuais. Ocupava uma quadra delimitada pela Avenida Central, o Largo da Carioca, a então denominada Rua de Santo Antônio, atual Bittencourt da Silva; e a Rua São José.

 

 

 

Por imposição do progresso vai abaixo a velha Galeria Cruzeiro. Essa foi a manchete da primeira página do Diário de Notícias, 2 de março de 1957. A demolição do Hotel Avenida começou em outubro de 1957 (A Noite, 25 de setembro de 1957, terceira colunaO Jornal, 15 de outubro de 1957, primeira coluna). Em seu lugar foi construído o Edifício Avenida Central, com 34 andares e o primeiro em estrutura metálica do Rio de Janeiro, inaugurado em 22 de maio de 1961 (Correio da Manhã, 23 de maio de 1961, primeira colunaManchete, 3 de junho de 1961). Foi projetado pelo Escritório Henrique Mindlin, também responsável pelo Shopping dos Antiquários e pelos hotéis Sheraton e Intercontinental.

Com a demolição do Hotel Avenida, começava na cidade uma transição para uma era de modernização e mudanças urbanas – muitos edifícios históricos foram demolidos e substituídos por construções modernas. Para a despedida, o Jornal do Brasil, a Rádio Jornal do Brasil e a Loja Palermo organizaram uma grande manifestação chamada Adeus à Galeria Cruzeiro, mesmo nome da música de autoria de Edel Ney e Aires Viana, cantada por Leny Eversong (1920 – 1984).

Adeus à Galeria Cruzeiro

Você viu, você leu, você ouviu
O comentário que corre pela cidade?
Você viu, você leu, você ouviu
A dolorosa verdade?

É certo que a Galeria Cruzeiro
Vai desaparecer
É a lei do progresso
Que faz a cidade crescer
Praça Onze, Café Nice

(O samba chorou
E a saudade ficou no coração do sambista)

Galeria (Galeria)

Este samba (triste samba)
É o adeus do artista
Adeus Galeria do chopp gelado

Das noites de boemia
Dos carnavais do passado
Adeus Galeria reduto do samba
De Chico, Noel e de tanta gente bamba

Galeria (adeus)
Galeria (adeus)

No dia da festa caia uma forte chuva na cidade mas personalidades importantes como Ademilde Fonseca (1921 – 2012), Altamiro Carrilho (1924 – 2012), Linda Batista (1919 – 1988), Pixinguinha (1897 – 1973), Pato Preto (1928 – 2005), Risadinha (1921 – 1976) e Silvinha Chioso (1938-), dentre outros, compareceram ao evento, que contou também com a participação de bandas militares e agremiações carnavalescas, como o Cordão da Bola Preta. Milhares de pessoas compareceram (Jornal do Brasil24 de novembro de 1957, sexta coluna, 26 de novembro de 1957, capa e página 13).

 

 

No poema A um hotel em demolição, sobre o desaparecimento do Hotel Avenida, seu autor, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), cita o fotógrafo Augusto Malta.

 

 A um hotel em demolição

 (Publicado no livro A vida passada a limpo (1973))

Carlos Drummond de Andrade

Vai, Hotel Avenida,
vai convocar teus hóspedes
no plano de outra vida.
Eras vasto vermelho,
em cada quarto havias
um ardiloso espelho.

Nele se refletia
cada figura em trânsito
e o mais que se não lia
nem mesmo pela frincha
da porta: o que um esconde,
polpa do eu, e guincha
sem se fazer ouvir.
E advindo outras faces
em contínuo devir,
o espelho eram mil máscaras
mineiroflumenpau-
listas, boas, más; caras.

50 anos-imagem
e 50 de catre
50 de engrenagem
noturna e confidente
que nos recolhe a úrica
verdade humildemente.

(Pois eras bem longevo, Hotel, e no teu bojo
o que era nojo se sorria, em pó, contigo.)

O tardo e rubro alexandrino decomposto.

Casais entrelaçados no sussurro
do carvão carioca, bondes fagulhando, políticos
politicando em mornos corredores
estrelas italianas, porteiros em êxtase
cabineiros

em pânico:
por que tanta suntuosidade se encarcera
entre quatro tabiques de comércio?
A bandeja vai tremulargentina:
desejo café geleia matutinos que sei eu.
A mulher estava nua no centro e recebeu-me
com a gravidade própria aos deuses em viagem:
Stellen Sie es auf den Tisch!

Sim, não fui teu quarteiro, nem ao menos
boy em teu sistema de comunicações louça
a serviço da prandial azáfama diurna.
Como é que vivo então os teus arquivos
e te malsinto em mim que nunca estive
em teu registro como estão os mortos
em seus compartimentos numerados?

Represento os amores que não tive
mas em ti se tiveram foice-coice.
Como escorre
escada serra abaixo a lesma
das memórias

de duzentos mil corpos que abrigaste
ficha ficha ficha ficha ficha
fichchchchch.
O 137 está chamando
depressa que o homem vai morrer
é aspirina? padre que ele quer?
Não, se ele mesmo é padre e está rezando
por conta dos pecados deste hotel
e de quaisquer outros hotéis pelo caminho
que passa de um a outro homem, que em nenhum
ponto tem princípio ou desemboque;
e é apenas caminho e sempre sempre
se povoa de gestos e partidas
e chegadas e fugas e quilômetros.
Ele reza ele morre e solitária
uma torneira
pinga
e o chuveiro
chuvilha
e a chama
azul do gás silva no banho
sobre o Largo da Carioca em flor ao sol.

(Entre tapumes não te vejo
roto desventrado poluído
imagino-te ileso emergindo dos sambas dos dobrados da polícia militar, do coro ululante de torcedores do campeonato mundial pelo rádio
a todos oferecendo, Hotel Avenida,
uma palma de cor nunca esbatida.)

Eras o Tempo e presidias
ao febril reconhecimento de dedos
amor sem pouso certo na cidade
à trama dos vigaristas, à esperança
dos empregos, à ferrugem dos governos,
à vida nacional em termos de indivíduo
e a movimentos de massa que vinham espumar
sob a arcada conventual de teus bondes.

Estavas no centro do Brasil,
nostalgias januárias balouçavam
em teu regaço, capangueiros vinham
confiar-te suas pedras, boiadeiros
pastoreavam rebanhos no terraço
e um açúcar de lágrimas caipiras
era ensacado a todo instante em envelopes
(azuis?) nos escaninhos da gerência
e eras tanto café e alguma promissória.

Que professor professa numa alcova
irreal, Direito das Coisas, doutrinando
a baratas que atarefadas não o escutam?
Que flauta insiste na sonatina sem piano
em hora de silêncio regulamentar?
E as manias de moradores antigos
que recebem à noite a visita do prefeito Passos para discutir novas técnicas urbanísticas?

E teus mortos
incomparavelmente mortos de hotel fraudados
na morte familiar a que aspiramos
como a um não morrer morrido;
mortos que é preciso despachar
rápido, não se contagiem lençóis
e guarda-pires
dessa friúra diversa que os circunda
nem haja nunca memória nesta cama
do que não seja vida na Avenida.

Ouves a ladainha em bolhas intestinas?

Balcão de mensageiros imóveis saveiros
banca de jornais para nunca e mais
alvas lavanderias de que restam estrias
bonbonnières onde o papel de prata
faz serenata em boca de mulheres
central telefônica soturnamente afônica
discos lamentação de partidos meniscos
papelariasconversariaschope da Brahma louco de quem ama
e o Bar Nacional pura afetividade
súbito ressuscita Mário de Andrade.

Que fazer do relógio
ou fazer de nós mesmos
sem tempo sem mais ponto
sem contraponto sem medida de extensão
sem sequer necrológio
enquanto em cinza foge o
impaciente bisão

a que ninguém os chifres
sujigou, aflição?
Ele marcava mar-
cavacava cava cava
e eis-nos sós marcados
de todos os falhados
amores recolhidos
relógio que não ouço
e nem me dá ouvidos
robô de puro olfato
a farejar o imenso
país do imóvel tacto
as vias que corria teu comando fecham-se
nas travessas em I
nos vagos pesadelos
nos sombrios dejetos
em que nossos projetos
se estratificaram. A ti não te destroem
como as térmitas papam
livro terra existência.
Eles sim teus ponteiros
vorazes esfarelam
a túnica de Vênus
o de mais o de menos
este verso tatuado
e tudo que hei andado
por te iludir e tudo
que nas arkademias
institutos autárquicos
históricos astutos
se ensina com malícia
sobre o evolver das coisas
ó relógio hoteleiro
deus do cauto mineiro,
silêncio,
pudicícia.
Mas tudo que moeste
hoje de ti se vinga
por artes
de pensada mandinga.
Deglutimos teu vidro
abafando a linguagem
que das próprias estilhas
se afadiga em pulsar
o minuto de espera
quando cessa na tarde
a brisa de esperar.
 
Rangido de criança nascendo.

Por favor, senhor poeta Martins Fontes, recite mais baixo suas odes enquanto minha senhora acaba de parir no quarto de cima, e o poeta velou a voz, mas quando o bebê aflorou ao mundo é o pai que faz poesia saltarilha e pede ao poeta que eleve o diapasão para celebrarem todos, hóspedes, camareiros e pardais, o grato alumbramento.

Anoitecias. Na cruz dos quatro caminhos, lá embaixo, apanhadores, ponteiros, engole-listas de sete prêmios repousavam degustando garapa.

Mujer malvada, yo te mataré! artistas ensaiavam nos quartos? I wil grind your bones to dust, and with your blood and it I’ll make a paste. Bagaço de cana, lá embaixo.
Todo hotel é fluir. Uma corrente
atravessa paredes, carreando o homem,
suas exalações de substância. Todo hotel
é morte, nascer de novo; passagem; se pombos
nele fazem estação, habitam o que não é de ser habitado
mas apenas cortado. As outras casas prendem
e se deixam possuir ou tentam fazê-lo, canhestras.
O espaço procura fixar-se. A vida se espacializa,
modela-se em cristais de sentimento.
A porta se fecha toda santa noite.
Tu não se encerras, não podes. A cada instante
alguém se despede de teus armários infiéis
e os que chegam já trazem a volta na maleta.
220 Fremdenzimmer e te vês sempre vazio
e o espelho reflete outro espelho
o corredor cria outro corredor
homem quando nudez indefinidamente.

 
No centro do Rio de Janeiro
ausência
no curral da manada dos bondes
ausência
no desfile dos sábados
no esfregar no repinicar dos blocos
ausência
nas cavatinas de Palermo
no aboio dos vespertinos
ausência
verme roendo maçã
verme roído por verme
verme autorroído
roer roendo o roer
e a ânsia de acabar, que não espera
o termo veludoso das ruínas
nem a esvoaçante morte de hidrogênio.
Eras solidão tamoia
vir a ser de casa
em vir a ser de cidade onde lagartos
 

Vem, ó velho Malta,
saca-me uma foto
pulvicinza efialta
desse pouso ignoto.

Junta-lhe uns quiosques
mil e novecentos,
nem iaras nem bosques
mas pobres piolhentos.

Põe como legenda
Q u e i j o I t a t i a i a
e o mais que compreenda
condição lacaia.

Que estas vias feias
muito mais que sujas
são tortas cadeias
conchas caramujas

do burro sem rabo
servo que se ignora
e de pobre-diabo
dentro, fome fora.

Velho Malta, please,
bate-me outra chapa:
hotel de marquise
maior que o rio Apa.

Lá do acento etéreo,
Malta, sub-reptício
inda não te fere o
super edifício

que deste chão surge?
Dá-me seu retrato
futuro, pois urge

documentar as sucessivas posses da terra até o juízo final e mesmo depois dele se há como três vezes três confiamos que haja um supremo ofício de registro imobiliário por cima da instantaneidade do homem e da pulverização das galáxias.

Já te lembrei bastante sem que amasse
uma pedra sequer de tuas pedras
mas teu nome — A V E N I D A — caminhava
à frente de meu verso e era mais amplo
e mais formas continha que teus cômodos
(o tempo os degradou e a morte os salva),
e onde abate o alicerce ou foge o instante
estou comprometido para sempre.

Estou comprometido para sempre,
eu que moro e desmoro há tantos anos
o Grande Hotel do Mundo sem gerência

em que nada existindo de concreto
— avenida, avenida — tenazmente
de mim mesmo sou hóspede secreto

Leia aqui a crônica Galeria, de autoria de Rubem Braga (1913 – 1990), publicada no Correio da Manhã, 10 de abril de 1953, sexta coluna.

A Brasiliana Fotográfica agradece ao jornalista e poeta André Luis Câmara (1965-) por sua colaboração na construção deste artigo.

 

*Este artigo foi escrito a partir de uma sugestão de Flávio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, e é dedicado a ele.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

Dicionário de Belas Artes UFBA

Folha do Centro, junho de 1921

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PAIVA, Claudia dos Reis. Abrindo passagem para o futuro: Galeria Pio X. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído, 2018.

PEREIRA, Sonia  Gomes. O Ensino de Arquitetura e a Trajetória dos Alunos Brasileiros na École des Beaux-Arts em Paris no Século XIX. XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, 2002.

Site Discografia Brasileira – IMS

Site Estilos Arquitetônicos

Site Rio de Janeiro Aqui

Site Urbe Carioca

Youtube – Hotel Avenida

Um dos “furos” do jornal O GLOBO, que hoje completa 100 anos – uma fotografia do presidente Washington Luís, deposto, deixando o Palácio Guanabara rumo ao Forte de Copacabana

Para celebrar o centenário do jornal O GLOBO, que foi fundado há exatos 100 anos, em 29 de julho de 1925, por Irineu Marinho (1876-1925), que faleceu pouco depois, em 21 de agosto de 1925, a Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia pertencente à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, uma das instituições parceiras do portal, do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O registro fotográfico foi realizado por Arnaldo Vieira (1904 – 1974) e o tiro de magnésio foi dado por Angelo Regato (1912 – 1993)*. O importante furo jornalístico foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. 

 

 

Foi de fato uma imagem única de um momento relevante da história do Brasil, um marco no fotojornalismo do país. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro.

 

Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme foi conduzido ao Forte de Copacabana onde seencontra preso / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

O título: Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto, saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme, foi conduzido ao Forte de Copacabana onde se encontra preso. A legenda: O automóvel do Palacio Presidencial quando deixava o Guanabara, conduzindo o Sr. Washington Luís, que se vê de mão ao queixo, cabeça pendente, e tendo a sua direita S.E. o Cardeal D. Sebastião Leme  / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

 

O Mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

 

A seguir, o texto publicado em O GLOBO, 25 de outubro de 1930, abaixo da fotografia:

Tivemos a rara felicidade de conseguir, hontem, o instantâneo photographico de um episódio central do movimento pacificador da família brasileira, tomada com grande senso jornalístico e especialmente para o GLOBO. Trata-se do mais precioso flagrante da retirada do Sr. Washington Luis do Palácio Guanabara, já apeado do poder e preso o ex-chefe do governo que, por uma questão de mórbida vaidade e de volúpia despótica atirou o paiz no perigo de uma guerra civil de consequências incalculáveis.

Mas o Exercito Brasileiro foi até onde a disciplina começava a confundir-se com a sua transformação em instrumento de uma defesa pessoal agressiva contra a Nação.  E a Nação logo lhe estendeu os braços na formidável explosão de enthusiasmo e desapego de hontem, ora correndo para as fileiras pacificadoras, ora tomando iniciativas de justiçamento summario, sem excessos de penalidades nem de outros prejuízos além dos que a sua sentença soberana limitava. Ao embate decisivo o autocrata caiu, vendo em torno o vácuo e a solidão porque a dignidade brasileira só o podia cercar das garantias e da indulgência humana que não lhe faltaram até no momento mais extremo.

E eil-o que hai vae vencido em sua megalomania, tão arrogantemente caracterizada até nas suas derradeiras e inúteis atitudes. 

E eil-o  hai vae, no automóvel, sob a guarda do Exercito, abrigado à sombra do manto misericordioso de S Eminência o cardeal Sebastião Leme, a face amparada à  mão esquerda, a fronte pendente como nunca o viramos, remoendo a raiva impotente do desmoronamento.

É um documento historico da mais expressiva eloquencia na sua mudez essa fotografia que o GLOBO estampou, com extraordinario exito, em sua 3ª edição de hontem, rapidamente exgotada, razão pela qual a reproduzimos hoje, á vista da insistência dos pedidos que recebemos neste sentido. É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. Contemple-o o povo e fique elle para sempre como advertência vehemente ao futuro da nacionalidade e à precariedade dos caprichos humanos”.

 

Washington Luís – deposição, exílio e morte

 

“A Revolução de 30 foi um movimento armado, iniciado em 3 de outubro de 1930, com o objetivo imediato de derrubar o governo Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, eleito presidente da República em 1º de março de 1930. O movimento tornou-se vitorioso em 24 de outubro e Getulio Vargas assumiu o cargo de presidente provisório no dia 3 de novembro. As mudanças políticas, sociais e econômicas que tiveram lugar na sociedade brasileira no pós-1930 fizeram com que esse movimento revolucionário fosse considerado o marco inicial da Segunda República no Brasil “.

(Equipe da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, 2023).

 

 

Em 24 de outubro de 1930, os generais Alfredo Malan d’Angrogne (1873 – 1932), Augusto Tasso Fragoso (1869 – 1945) e João de Deus Mena Barreto (1874-1933) entraram no Palácio Guanabara e foram para a sala onde se encontrava o presidente Washington Luís e a alta cúpula do governo. Washington Luís se recusava a sair e só, por volta das 17 horas, com a mediação do cardeal Sebastião Leme (1882 – 1942), consentiu em se retirar, na condição de prisioneiro, pois não havia renunciado. A junta governativa que assumiu o poder, composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo contra-almirante José Isaías de Noronha (1874 – 1966), determinou, sem êxito, que os revolucionários depusessem as armas. Entretanto, apesar de respeitarem a ordem de cessação dos combates, os destacamentos rebeldes continuaram avançando em direção ao Rio de Janeiro, forçando a junta a entregar o poder no dia 3 de novembro a Getúlio Vargas, chefe da revolução vitoriosa (Atlas Histórico do Brasil FGV).

 

 

A bordo do navio Alcântara, Washington Luís partiu do Brasil rumo à Europa, em 20 de novembro de 1930. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Antônio Prado Junior (1880 – 1955), seguiu para a Europa no mesmo navio  (Correio da Manhã, 21 de novembro de 1930). Mais uma vez o O GLOBO conseguiu produzir um trabalho fotográfico classificado pelo próprio jornal como sensacional pelo seu valor e ineditismo. A equipe que fazia a cobertura do evento teve, inclusive, a máquina fotográfica confiscada por um capitão na Fortaleza de São João, mas algumas das chapas sensibilizadas já haviam sido escondidas e foram publicadas ainda no dia 20 de novembro.

 

O GLOBO, 20 de novembro de 1930

O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, segunda edição

 

O presidente deposto viveu na França, na Suíça, em Portugal e nos Estados Unidos. Em 18 de setembro de 1947, retornou ao Brasil, mas não à política (O Jornal, 19 de setembro de 1947O Cruzeiro, 20 de setembro de 1947).

 

 

Foi morar em São Paulo e dedicou-se a estudar História. Foi membro dos institutos Histórico e Geográfico da Bahia, do Ceará e de São Paulo, membro benemérito da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, presidente honorário da Cruz Vermelha Brasileira, integrante da Academia Paulista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Faleceu em São Paulo, no dia 4 de agosto de 1957. Nasceu em Macaé, no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1869. Antes de ser presidente do Brasil, havia sido prefeito, governador e senador de São Paulo, de 1914 a 1919, de 1920 a 1924 e de 1925 a 1926, respectivamente.

 

 O GLOBO

 

 

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 2025

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 1925

 

Para escolher o nome do seu novo jornal, Irineu Marinho promoveu um concurso, cujo resultado foi anunciado em 20 de junho de 1925. Correio da Noite foi o nome mais votado, mas esse título já era patenteado. O segundo nome mais votado, O GLOBO, foi adotado. Como já mencionado, o jornal foi fundado em 29 de julho de 1925.

Após o falecimento de Irineu Marinho, em 21 de agosto de 1925, O GLOBO passou a ser dirigido pelo jornalista Eurycles de Matos (1894-1931), amigo de confiança do fundador. Roberto Marinho era, na época, secretário particular de seu pai e repórter do jornal. Somente assumiu a direção de O GLOBO, em 8 de maio de 1931, três dias após a morte de Eurycles. Ele exerceu o cargo até sua morte, em agosto de 2003.

 

 

 

 

 

*A informação da autoria da foto e do tiro de magnésio consta no Boletim da ABI, outubro de 1974 e no Boletim da ABI, março e abril de 1975, página 7, penúltima coluna. Foi acrescentada neste artigo em 4 de abril de 2026.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Digital de O GLOBO

Arquivo Nacional – Centro de Referência de Acervos Presidenciais

Atlas Histórico do Brasil FGV

Fernandes, Letícia. Era Vargas: Um jovem repórter consegue a foto histórica in O GLOBO, 28 de junho de 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

EQUIPE DA ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS FGV CPDOC. Novos acervos: Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, in Brasiliana Fotográfica, 25  de junho de 2023.

Site FGV CPDOC

Site Memória O GLOBO

A Brasiliana Fotográfica presente na capa da edição comemorativa do centenário do jornal O GLOBO

Reproduzimos o artigo publicado no domingo, 27 de julho de 2025, com chamada na capa, na edição comemorativa dos 100 anos do jornal O GLOBO*, completados dois dias depois, em 29 de julho. Foi escrito pelo jornalista Ruan de Sousa Gabriel a partir de conversas que ele teve comigo, Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica. A matéria traz 10 registros produzidos em 1925, ano de fundação de O GLOBO. Dentre diversas fotografias, Ruan escolheu três de autoria desconhecida, quatro de Augusto Malta (1864 – 1957), uma de Carlos Bippus (? -19?) e uma de Guilherme Santos (1871 – 1966); todas do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. A foto do cientista Albert de Einstein (1879 – 1955) com um grupo é de autoria de J. Pinto (1884 – 1951) e pertence à Fiocruz, uma de nossas instituições parceiras. Aproveitem um belo passeio pelo Rio de Janeiro de 1925! Não esqueçam de usar o zoom e boa viagem ao passado!

 

Veja imagens do Rio de 1925 garimpadas do acervo da Brasiliana Fotográfica

Nos cem anos do GLOBO, ensaio visual apresenta trabalhos de pioneiros da fotografia brasileira, como Augusto Malta, Guilherme Santos, J. Pinto e Carlos Bippus, no ano em que o jornal foi fundado

Por

Ruan de Sousa Gabriel

 — São Paulo

O Rio de Janeiro que viu a primeira edição do GLOBO chegar às bancas em 29 de julho de 1925 era uma jovem metrópole a avançar rapidamente pela trilha da modernidade. Subiam prédios que imitavam a arquitetura parisiense e tentavam (em vão) competir com a exuberância da natureza. Ainda circulavam poucos automóveis pelas ruas, e os cariocas se vestiam com trajes que hoje parecem inapropriados para o calor (não só) do verão. É isso que nos contam as fotos deste ensaio visual, todas datadas do ano de nascimento do GLOBO e garimpadas do acervo da Brasiliana Fotográfica, projeto que, desde 2015, dedica-se a promover os acervos de instituições como o Instituto Moreira Salles e a Biblioteca Nacional.

O ensaio foi confeccionado a partir de indicações de Andrea Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica. Das dez imagens aqui publicadas, nove vieram do acervo do IMS — a única exceção é a foto da visita do físico alemão Albert Einstein ao Instituto Oswaldo Cruz, registada pelo fotógrafo J. Pinto (1884-1951). Na pandemia, a foto viralizou nas redes sociais com informações erradas: disseram que o cenário era o Instituto Butantã, em São Paulo, e incluíram o cientista Oswaldo Cruz (que morrera oito anos antes do clique) na comitiva. A imagem foi cedida ao GLOBO pela Fiocruz.

— O Rio que se vê nessas fotos é o Rio moderno, dos “loucos anos 20”, muito bem descrito no livro do Ruy Castro “Metrópole à beira-mar” — contextualiza Andrea. — Não é o Rio das reformas urbanas do começo do século XX, da gestão do prefeito Pereira Passos, mas é uma cidade que se modernizava.

Pioneirismo

As transformações desse período foram registradas por um time de fotógrafos pioneiros. Entre eles, destaca-se Augusto Malta (1864-1957), autor de quatro das dez magens deste ensaio. Em 1903, o alagoano foi contratado como fotógrafo oficial da Diretoria Geral de Obras e Viação da Prefeitura com a missão de fotografar todas as ruas que teriam seu traçado modificado pelas reformas de Pereira Passos (de quem ele ficou amigo, diga-se). Malta se manteve no emprego por mais de três décadas e fotografou desde grandes eventos, como a inauguração do Cristo Redentor, em 1931, até o dia a dia da cidade: as ruas do Centro, o cais do porto, o mar insistindo em invadir o asfalto…

Contemporâneo de Malta, o baiano J. Pinto (cujo nome completo era Joaquim Pinto da Silva) documentou não só as mudanças na paisagem urbana, mas também o trabalho científico realizado no Instituto Oswaldo Cruz, onde trabalhava.

Carlos Bippus (não se tem certeza sobre suas datas de nascimento e morte) é autor de diversas fotografias que se tornaram cartões-postais da cidade e ilustravam álbuns que eram vendidos a turistas (sua belíssima imagem do luar sob o Cais do Mangue confirma seu talento como fotógrafo paisagista).

Já Guilherme Santos foi um amador e entusiasta da estereoscopia, técnica que consistia em apresentar duas imagens ligeiramente diferentes lado a lado para criar a ilusão de profundidade e dar um caráter “lúdico” à fotografia, diz Andrea Wanderley. Santos recorreu a essa técnica para registrar um desastre automobilístico na Praia de Botafogo — uma metáfora certeira dos perigos da modernidade que seduzia os cariocas de 1925.

 

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Como apareceu no jornal:

 

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Capa de O GLOBO, 27 de julho de 2025

 

 

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Na capa, destaque para o artigo com fotos do acervo da Brasiliana Fotográfica / O GLOBO, 27 de julho de 2025

 

 

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O artigo, Cenário de páginas da história, publicado no Segundo Caderno / O GLOBO,  27 de julho de 2025

 

*Em 14 de abril de 2026, esta edição de O GLOBO foi reconhecida pelo Livro dos Recordes, na categoria “Jornal Comercializado com o maior número de páginas em uma edição única non mundo”. O projeto editorial teve uma escala inédita: ao todo, foram 526 páginas, organizadas em 14 cadernos especiais produzidos pela Redação, além da revista ELA. “Mais do que grandiosa em tamanho, essa edição foi ousada ao reforçar o papel do impresso como uma plataforma premium, de alto impacto, relevante mesmo na era digital e reconhecida por leitores, anunciantes e todo o mercado”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

O Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil

Com uma imagem produzida pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), pertencente ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal conta um pouco da história do Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil. Foi o primeiro templo positivista edificado no mundo conforme indicações e regras estabelecidas pelo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do Positivismo. O prédio, cuja decoração foi realizada por artistas como Décio Villares (1851 – 1931) e Eduardo de Sá (1866 – 1940), é tombado.

 

 

Seus acervos formados por livros, documentos e obras de arte e que contam mais de um século de história brasileira, também são tombados e retratam a força do ideário e da iconografia positivistas na formação da nação republicana brasileira. Parte deles recebeu o selo Memória do Mundo da UNESCO, durante uma cerimônia realizada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2015.

 

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Inaugurado em 1º de janeiro de 1897, na Rua Benjamin Constant, nº 74, na Glória, bairro do Rio de Janeiro, a construção do Templo da Humanidade, realizada entre 1891 e 1896, foi dirigida pelo arquiteto e engenheiro cearense Trajano Saboya Viriato de Medeiros (1865 – 1940), graduado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1886. Foi também responsável pela construção do prédio da Casa Colombo. Casou-se, em 1894, com Olympia Carvalho de Oliveira, sobrinha do filósofo Miguel Lemos (1854 – 1917), fundador da Igreja Positivista no Brasil, que o indicou para ser o responsável pela obra do templo. Na fachada, uma frase remete ao lema Ordem e Progresso da bandeira nacional : O amor por princípio e a ordem por base, o progresso por fim.

 

 

O Positivismo é um método científico, político e sociológico, inspirado no Iluminismo francês, que afirmou a necessidade da ordem e do rigor sociais e políticos para o progresso. Disciplina, rigor e ordem seriam, segundo a doutrina, essenciais para o crescimento moral e social. Os princípios do Positivismo inspiraram a Proclamação da República no Brasil.

“O movimento positivista teve uma atuação importante na vida política brasileira. Desde o final do século 19 os membros da Igreja Positivista do Brasil interferiram assiduamente no debate público clamando pela instauração do regime republicano e pelo fim da escravatura. Após a Proclamação da República a influência do positivismo tornou-se mais direta incidindo em decisões políticas tomadas pelo Governo Provisório e ao longo da República Velha”.

Site Templo da Humanidade

 

 

Miguel Lemos, Raimundo Teixeira Mendes (1855 – 1927) e Benjamin Constant (1836 – 1891) fundaram, em 1876, a Sociedade Positivista Brasileira, de caráter acadêmico e a primeira do Brasil. Miguel Lemos e Teixeira Mendes viajaram juntos para Paris, em 1877, em busca de conhecimentos sobre a doutrina positivista. A religião positivista foi trazida para o Brasil por eles, que trabalharam ativamente na divulgação da “Religião da Humanidade”. Em 1881, Miguel Lemos fundou oficialmente a Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro, da qual tornou-se diretor. Teixeira Mendes era o vice-diretor.

 

 

 

 

Em 1905, Mendes assumiu a liderança da Igreja Positivista do Brasil e a ocupou até sua morte, em 28 de junho de 1927.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Figueiredo, Daniel Caetano de. A família Saboia, junho de 2005.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Revista do Instituto do Ceará

SANTOS, Ricardo Augusto. O funeral de Teixeira Mendes pela lente de Augusto Malta in Brasiliana Fotográfica, 2 de agosto de 2019.

Site CPDOC

Site Inepac

Site Senado

Site Templo da Humanidade

VIANNA, Carlos Negreiros. Trajano de Medeiros: um dos maiores empresários brasileiros de seu tempo, um desconhecido no Ceará até hoje. Revista do Instituto do Ceará, 2015.

 

 

A princesa Leopoldina do Brasil (1847 – 1871)

Com oito fotografias do acervo fotográfico da Biblioteca Nacional e uma do Instituto Moreira Salles, as instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal destaca registros da princesa Leopoldina (1847 – 1871). As duas imagens em que ela está sozinha não têm data precisa e são de autoria de fotógrafos ainda não identificados. As duas em que está com sua irmã, a princesa Isabel  (1846 – 1921), e as três da visita da família real à quinta de Mariano Procópio Lage são de autoria do francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). A do Palácio Leopoldina foi produzida por Klumb com Paul Théodore Robin (18? – 1897). O registro do mausoléu à serenissima Princeza do Brazil e Duqueza de Saxe a Senhora D. Leopoldina de Coburgo e Gotha, produzido no Recife, provavelmente em 1871, é de autoria do fotógrafo pernambucano João Ferreira Villela (18?-?).

Klumb foi um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil e foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Contemporâneo no Recife dos estrangeiros Augusto Stahl (1828 – 1877) e Alberto Henschel (1827 – 1882), João Ferreira Villela (18? – ?) é considerado, até hoje, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos. Sua biografia é ainda bastante desconhecida. Iniciou sua vida profissional como taquígrafo mas foi como retratista e paisagista que se notabilizou. Seu primeiro ateliê, aonde permaneceu de 1855 a 1858, ficava no Aterro da Boa Vista nº 4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) e o português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912). Desse último, Villela afirmava ser o único discípulo. Sempre demonstrou interesse em ter máquinas modernas para a realização dos trabalhos de seu estabelecimento e prometia, como resultado, a perfeição.

 

 

A princesa Leopoldina, a segunda filha de dom Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), nasceu em 13 de julho de 1847. Sua irmã, a princesa Isabel, havia nascido cerca de um ano antes, em 29 de julho de 1946 (Diário do Rio de Janeiro, edição de 30 de julho de 1846, sob o título “Parte official”Diário do Rio de Janeiro, de 14 de julho de 1847, sob o título “O Diário”). Os irmãos das princesas, os príncipes imperiais Afonso Pedro de Bragança (1845 – 1847) e Pedro Afonso de Bragança (1848 – 1850) faleceram precocemente.

 

 

Acessando o link para as fotografias da princesa Leopoldina do Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Entre as duas irmãs aconteceu uma bem sucedida troca de noivos! Gastão de Orleáns (1842 – 1922), o Conde d’Eu, e seu primo, o duque Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota (1845 – 1907) desembarcaram no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1864 e hospedaram-se no paço da cidade (Diário do Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1864, terceira coluna). No Palácio de São Cristóvão, residência da família imperial brasileira conheceram as princesas Isabel e Leopoldina. Os casais previamente idealizados seriam formados por dom Gastão e a princesa Leopoldina, e pelo duque de Saxe e a princesa Isabel. Mas, após alguns dias, devido a afinidades, os casais se rearranjaram. Isabel e Gastão casaram-se em 15 de outubro de 1864, na Capela Imperial, no Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1864). Dois meses depois, em 15 de dezembro, foi realizado o casamento da princesa Leopoldina com o duque de Saxe, também na Capela Imperial (Diário do Rio de Janeiro, de 16 de dezembro de 1864). Na ocasião o duque de Saxe recebeu a grã-cruz de todas as ordens do Império. Leopoldina deixou de ser uma princesa brasileira, tornando-se duquesa de Saxe.

 

 

O casal seguiu, após a cerimônia, para o Palácio Imperial de Petrópolis. Foram, posteriormente, morar em um palacete adquirido em junho de 1865 e batizado como Palácio Leopoldina, vizinho ao Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, onde residia dom Pedro II.

 

 

Passaram a viver entre o Brasil e a Europa, sempre retornando à terra natal para o nascimento de seus filhos Pedro Augusto (1866 – 1934), Augusto Leopoldo (1867 – 1922) e José Fernando (1869 – 1888). O caçula, Luis Gastão (1870 – 1942), nasceu na Áustria.

 

 

 

 

Leopoldina faleceu, com apenas 23 anos, no Palácio Coburg, em Viena, na Áustria, em 7 de fevereiro de 1871, provavelmente de febre tifóide (Diário de Notícias, 7 de março de 1871, primeira coluna).

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Aventuras na História

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

WANDERLEY, Andrea C.T.  A imperatriz Teresa Cristina Maria, a mãe dos brasileiros (Itália, 14/03/1822 – Portugal, 28/12/1889) in Brasiliana Fotográfica, 27 de dezembro de 2016

WANDERLEY, Andrea C.T. Dom Pedro II ( RJ, 2/12/1825 – Paris, 5/12/1891), um entusiasta da fotografia in Brasiliana Fotográfica, 2 de dezembro de 2016

WANDERLEY, Andrea C.T. Princesa Isabel (RJ, 29 de julho de 1846 – Eu,14 de novembro de 1921) in Brasiliana Fotográfica, 21 de julho de 2015

WANDERLEY, Andrea C.T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VII – A morte de Gastão de Orleáns, o conde d´Eu (Neuilly-sur-Seine, 28/04/1842 – Oceano Atlântico 28/08/1922) in Brasiliana Fotográfica, 28 de agosto de 2022