Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

No 21º artigo da série Feministas, graças a Deus, do historiador Nelson Sanjad, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que é, desde o início de 2026, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, vamos conhecer a espetacular trajetória da alemã Emília Snethlage, nascida em 13 de abril de 1868. Foi uma cientista pioneira, que chegou ao Brasil, em 1905, e a primeira mulher diretora do Museu Goeldi, cargo que exerceu entre 1914 e 1921. Em 1926, tornou-se membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências (O Paiz, 28 de outubro de 1926, penúltima coluna).

Suas escolhas foram sempre avançadas: estudou zoologia, quando a entrada de mulheres em universidades era ou proibida ou mal vista; decidiu não casar e veio para um país estrangeiro. Decisões feministas.

 

 

Em 1926, foi uma das signatárias da mensagem em apoio à candidatura de Washington Luis (1869 – 1957) à presidência da República da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, dirigida pela bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976) (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1926, segunda coluna).

Foi convidada para integrar o conselho da União Universitária Feminina, fundada, no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1929, sob a direção da engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001). As outras criadoras ou conselheiras da entidade foram: a engenheira civil Amélia Sapienza (? -19?), Bertha Lutz, a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993),  a professora Heloisa Marinho (1903 – 1994), as médicas Herminia de Assis (? -19?) e Juana Lopes (? -19?), as advogadas Maria Alexandrina Ferreira Chaves (? -19?), Maria Ester Correia Ramalho (? -19?), Myrthes de Campos ( 1875 – 1965) e Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971) (Correio da Manhã, 15 de janeiro de 1929, quinta coluna).

Emília Snethlage faleceu, em Porto Velho, capital de Rondônia, em 25 de novembro de 1929. Trabalhava desde 1922 no Museu Nacional (Correio da Manhã, 28 de novembro de 1929, primeira coluna).

 

 

Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

Nelson Sanjad*

Emília Snethlage (1868-1929) é dessas figuras que causam comoção: sua trajetória ainda surpreende pelas escolhas que tomou ao longo da vida, sobretudo quando decidiu estudar zoologia – em uma época em que o acesso das mulheres à universidade era proibido ou mal visto; quando decidiu não se casar; quando quis trabalhar em um país estrangeiro num ofício dominado por homens – a pesquisa científica; e quando aceitou o desafio de dirigir um museu de história natural, o Museu Goeldi, em 1914, feito que talvez nenhuma outra mulher havia experimentado antes dela.

Como se isso não bastasse, Snethlage, que trocou a Alemanha pelo Brasil aos 37 anos, em 1905, gostava de viajar sozinha ou com apenas um acompanhante pelos rincões do interior do país. Era exímia coletora de aves, sendo responsável pelo acréscimo de muitos milhares de exemplares à coleção ornitológica do Museu Goeldi. E também produziu uma obra científica atualmente considerada fundacional para a ciência brasileira, especialmente para a taxonomia de aves e a biogeografia. No século XX, apenas cinco cientistas (homens), descreveram mais espécies de aves do que ela: os norte- americanos Frank Chapman (1864 – 1945), John Zimmer (1889 – 1957) e Walter Todd (1874 – 1969); o austríaco Carl Hellmayr (1878-1944) e o alemão Hans von Berlepsch (1850 – 1915). Ela foi a única a trabalhar em instituições brasileiras – o Museu Goeldi e o Museu Nacional – e criou 46 nomes de aves válidos atualmente, descritos entre 1906 e 1928. Por fim, foi ela quem delineou uma agenda de investigações que perdura até nossos dias, dedicada à compreensão do papel dos grandes rios na distribuição de espécies de aves pelo território nacional.

Acessando o link para as fotos de Emília Snethlage disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A esta longa lista de qualificativos, podemos acrescentar mais alguns: Emília Snethlage foi a primeira pessoa não-indígena a explorar um interflúvio amazônico, percorrendo a pé, em companhia de sete indígenas Kuruaya, o divisor de águas entre o Xingu e o Tapajós, em 1909. Posteriormente, em 1914, revisitou aquele mesmo povo indígena, e mais os Xipaya, reunindo uma coleção com mais de 150 artefatos. Snethlage inscreveu seu nome na história da antropologia por ter não apenas feito a primeira (e única) coleção etnográfica de ambos os povos, como também por ter sido a primeira mulher a fazer uma etnografia e a coletar em aldeias indígenas na Amazônia. Antes dela, somente a princesa Teresa da Baviera vinculou seu nome a uma coleção etnográfica, mas esta não foi obtida em aldeias e nem junto a indígenas, mas comprada nos mercados das cidades amazônicas por onde viajou na década de 1880.

Esses episódios vêm sendo explorados por pesquisadoras e pesquisadores capturados pela memória de Emília Snethlage. Nos últimos 25 anos, brasileiros e alemães revisitaram publicações, relatórios, cartas, fotografias, desenhos, mapas, coleções e toda sorte de documentos relacionados a Snethlage, com motivações diversas, mas todos movidos – ou comovidos – pela extraordinária vida de Snethlage e pelo imenso legado que ela deixou. A lista é longa, mas faço questão de registrar os nomes (em ordem alfabética) para que o/a leitor/a tenha a dimensão desse recente movimento de construção historiográfica: Aline Ariela Pereira, Beatrix Hoffmann-Ihde, Carla Bedran, Cilene Trindade Rohr, Diana Alberto, Gabriel Ramos Pacheco, Gleice Mere, Leila Mourão Miranda, Lilian Bayma de Amorim, Luiz Felipe Santos, Marcelo de Castro Silva, Marco Crozariol, Matheus Camilo Coelho, Miriam Junghans, Nelson Sanjad, Pablo Borges, Peter Schroeder, Reinhard Michael Arnegger, Rosanne Castelo Branco e possivelmente outros. Esses nomes se uniram a pesquisadores mais antigos, pioneiros no estudo da vida e da obra de Snethlage, como Osvaldo Cunha e Marisa Corrêa.

Já é possível registrar alguns avanços significativos no conhecimento da vida e do legado de Snethlage: Junghans (2009) e Coelho (2026) fizeram  belas análises das viagens e do trabalho de campo da ornitóloga; Hoffmann-Ihde (2015) fez o mais importante estudo das coleções Kuruaya e Xipaya, preservadas no Ethnologisches Museum Berlin; Pereira (2024) seguiu os passos (literalmente) de Snethlage pelo Ceará e revisitou as coleções ornitológicas que ela formou, semelhante ao que Santos e colegas (2024, 2025) fizeram, mas para o caso da Amazônia; Alberto (2022) introduziu Snethlage nos estudos de gênero, enquanto Sanjad (2019) mapeou as relações científicas que ela estabeleceu entre os etnólogos (homens) alemães; por fim, Crozariol (2025) lançou luz sobre as circunstâncias da morte de Snethlage, graças à descoberta de documentos inéditos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, felizmente salvos do grande incêndio de 2018. Vale registrar, ainda, os esforços para divulgar importantes trabalhos de Snethlage, como os seus estudos etnográficos, pouco lidos e quase nunca citados, traduzidos ao português, pela primeira vez, por Michael Arnegger e Nelson Sanjad (Snethlage, 2023a) e por Cilene Rohr e Rosanne Castelo Branco (Snethlage, 2023b). Todas as referências bibliográficas seguem listadas abaixo para a devida orientação do/a leitor/a.

O desenvolvimento da historiografia, na dimensão e com a qualidade aqui demonstrados, só é possível com bons levantamentos documentais e com coleções bem preservadas em museus e arquivos. Com esse horizonte, o Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi, organizou e inventariou toda a documentação produzida e recebida pela instituição entre 1914 e 1921, anos em que Snethlage esteve à frente da direção do museu; e também desenvolveu a Coleção Especial Emília Snethlage, que reúne cartas pessoais conservadas no próprio arquivo do museu e cópias digitais de documentos preservados pela Família Snethlage, residente na Alemanha, e por outras instituições, como o Museum für Naturkunde Berlin, Ethnologisches Museum Berlin, Philipps-Universität Marburg, Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, Natural History Museum London, Staatsarchiv des Kantons Basel-Stadt e Naturhistorisches Museum Wien. Esses documentos vêm sendo reunidos há pelo menos 15 anos por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Miriam Junghans, Rotger Snethlage e Gleice Mere.

Esse enorme conjunto documental dará origem a duas publicações: o livro “Emília Snethlage no Arquivo Guilherme de La Penha”, contendo o Catálogo Descritivo da Gestão Emília Snethlage no Museu Goeldi (1914-1921) e o Catálogo Descritivo da Coleção Especial Emília Snethlage (1907-1924), ambos organizados por Lilian Bayma de Amorim, Pablo Borges e Nelson Sanjad, com previsão de publicação em 2026; e o livro “Emília Snethlage: cartas e inéditos”, contendo a transcrição e tradução das cartas e dos textos inéditos de Snethlage encontrados até o momento, organizados por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Rotger Snethlage e Marco Aurélio Crozariol, com previsão de publicação em 2027.

Essas são notícias alvissareiras para celebrarmos o aniversário de Emília Snethlage neste 13 de abril de 2026, quando se completam 158 anos de seu nascimento – alvissareiras porque os documentos a serem publicados certamente darão ensejo a novos estudos, ampliando ainda mais o conhecimento que dispomos sobre a biografia de Snethlage e a construção de sua obra científica.

Nesta postagem, adiantamos a publicação de algumas fotos preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, devidamente contextualizadas com o auxílio de outros documentos. A primeira delas é o célebre retrato das funcionárias do Museu Goeldi, tirado em março de 1907 por pessoa não identificada. Snethlage aparece de pé, com suas características roupas claras, mangas bufantes e cabelo preso. Ela trabalhava há um ano e meio como assistente de Emílio Goeldi na Seção de Zoologia, tendo sido indicada ao cargo pelo ornitólogo alemão Anton Reichenow (1847-1941), curador do Museum für Naturkunde Berlin, que assegurou sua competência e habilidade nos trabalhos museais (Sanjad, 2010). Quando Goeldi se retirou de volta para a Suíça, em 1907, Snethlage assumiu a chefia da seção e depois, com o falecimento de Jacques Huber (1867-1914), a direção do próprio museu, ali permanecendo até 1921 (com exceção de um breve período em que precisou se afastar em razão da Primeira Guerra Mundial).

 

 

As moças sentadas são Anna de Aragão Carreira (1894-?), à esquerda, e Abigayl Esther de Mattos (1889-1958), à direita. Ambas foram contratadas em 1907, após o secretário José Lobo Pessanha ser demitido e seu salário dividido em dois, sendo uma parte paga para Anna Carreira, como encarregada de confeccionar os rótulos e as etiquetas das coleções, e a outra para Abigayl Mattos, encarregada da secretaria e da biblioteca. As duas moças, uma com 13 e a outra com 18 anos, passaram a desempenhar as mesmas funções que Pessanha, somadas às atividades incessantes de apoio às coleções, mas recebiam apenas a metade do salário do antigo “oficial de secretaria”. A ideia foi apresentada pelo sucessor de Goeldi, Jacques Huber, como uma medida muito inteligente, “permitindo assim obter maior soma de trabalho sem acréscimo notável de despesas” (Huber, 1909, p. 4).

Ainda que esse experimento trabalhista nos soe como um disparate e muito injusto, a iniciativa de Goeldi e Huber foi inovadora para a época. Snethlage foi a primeira funcionária pública do Estado do Pará, logo seguida pelas outras duas, sendo a mais nova (Anna, 13) contratada como “aprendiz”. O Museu Goeldi talvez seja a primeira instituição científica do país onde as mulheres passaram a ocupar funções finalísticas, como Snethlage, e administrativas, incluindo aí um programa de estágio para adolescentes, denominado “Jovens Aprendizes”. A avaliação da experiência de inserir mulheres no ambiente de trabalho, feita por Huber (1909, p. 4), foi bastante positiva:

Felizmente esta experiência, ainda que única no Pará, deu resultados de todo satisfatórios para o Museu, sendo de louvar o zelo e a aplicação com que as ditas funcionárias se houveram no desempenho de suas funções. Provavelmente o nosso Museu é o único na América latina onde o trabalho feminino seja tão largamente aproveitado.

As próximas quatro fotos foram feitas em dezembro de 1908, por pessoa não identificada, mas que certamente carregava uma máquina portátil. Essas fotos fazem parte de um conjunto maior, somando oito negativos de vidro produzidos quando uma chimpanzé chegou no Museu Goeldi. Essa história é muito curiosa: o animal pertencia ao médico Harold Wolferstan Thomas  (1875–1931), chefe da missão da Escola de Medicina Tropical de Liverpool em Manaus. Em 17 de novembro de 1908, ele escreveu a Huber perguntando se ele poderia cuidar da chimpanzé enquanto viajava à Europa. Ela já era adulta, estava cativa há dois anos, era “bem mança e accostumada com gente” [sic]. Dr. Thomas foi prontamente atendido por Huber, mas quem recebeu e cuidou do animal foi Snethlage, responsável pelo zoológico da instituição, e seu assistente preparador, João Batista de Sá (?-1909). São eles que aparecem acolhendo a chimpanzé: na primeira foto, Sá, vergado e segurando um balde (com comida?), dá a outra mão ao animal – que parece estranhar o ambiente. Snethlage está observando a cena logo atrás, com as mãos na cintura. Huber está bem no fundo, de paletó branco e chapéu, mas um de seus filhos quis se aproximar da nova moradora do parque. É o menino que aparece à esquerda, de branco (o outro menino, atrás de Snethlage, não foi identificado).

 

 

Na sequência, a chimpanzé aparece agarrada às grades da jaula dos pequenos felinos. Ela provavelmente emite algum som, enquanto uma jaguatirica a observa atentamente à esquerda. Snethlage, com cabelos bem mais esbranquiçados do que na foto tirada no ano anterior, ainda mantêm distância da chimpanzé, com Sá ao seu lado (cujo corpo é apenas parcialmente visível).

Na próxima foto, a chimpanzé já está junto à jaula dos macacos barrigudos, identificada por uma plaqueta que pende à direita, em cima. Dois deles permanecem empoleirados, enquanto um terceiro desce para ver de perto a visitante. Nesse momento, Snethlage inclina-se, permitindo-nos ver seus longos cabelos arrumados em um coque. Ela toca as costas da chimpanzé, enquanto Sá, do outro lado, parece estar de prontidão para conter o animal. A chimpanzé vira-se para Snethlage – e quase podemos ouvi-la chiar agudamente. A cena é terna e tensa ao mesmo tempo.

Na quarta foto, ainda junto à jaula dos macacos barrigudos, Snethlage e Sá permitem que a chimpanzé suba em uma tábua, talvez para interagir melhor com os macacos, que parecem se movimentar no interior. O balde volta às mãos de Sá, enquanto Snethlage encosta-se no guarda-corpo, dizendo algo para o fotógrafo.

 

 

 

 

 

 

Em 25 de junho de 1909, Dr. Thomas escreve de Liverpool: “How is my chimpazee behaving in the museum?” – e anuncia a sua volta para novembro do mesmo ano. Huber respondeu em agosto, em tom bem humorado: “A chimpanzé fêmea está prosperando em sua nova residência; ela é a principal atração do zoológico e está plenamente consciente de sua importância. Agora, ela está mais forte e mais animada do que nunca.”

Em outra fotografia, podemos ver Snethlage novamente em ação no zoológico do Museu Goeldi, junto a uma equipe de tratadores de animais. Desta vez, eles estão ocupados com uma onça, que aparece amarrada atrás das grades. Dois homens tencionam uma corda, sendo um deles João Batista de Sá, mais próximo à jaula. Snethlage olha a cena, vestida como de costume, mas com chapéu (estava chegando da rua?). É difícil decifrar o que está acontecendo, mas é certamente algo que demanda cuidado e atenção. Além da longa corda tencionada e que se enrola pelo chão, um terceiro homem, ao lado de Sá, puxa uma segunda corda, mais fina e menor, que talvez estivesse contendo as patas traseiras da onça; e um quarto homem, ao lado de Snethlage, também segura uma corda, com um laço na ponta, certamente utilizado no pescoço do animal. Podemos imaginar que uma onça estava chegando no museu, tendo sido transportada completamente amarrada. Os homens parecem estar no processo de desamarrá-la, enquanto a onça rosna e esperneia do lado de dentro.

 

 

Alguns autores já escreveram sobre a intimidade dos funcionários do museu e de suas famílias com os animais residentes no zoológico. A chegada da chimpanzé mobilizou toda a instituição, pois na série de fotos é possível ver os funcionários e familiares que acorreram para testemunhar a entrada do animal no museu. Por sua vez, Suescún Florez e colegas (2018) analisaram o Museu Goeldi como local para a sociabilidade dos funcionários e das suas famílias, chegando a divulgar uma foto dos filhos de Huber brincando dentro do viveiro de jabotis, montando nos animais como se fossem cavalos, enquanto uma tia ri alegremente.

A tese de Alberto (2022) dá ênfase à relação de afeto que Snethlage mantinha com os animais. Apesar de ser exímia caçadora, não hesitando em apertar o gatilho para abater o animal que desejasse, Snethlage cuidava com zelo e carinho dos habitantes do zoológico, convivendo com alguns deles dentro de casa. Por exemplo, em um diário de viagem ao rio Tocantins que ela mandou para a família, na Alemanha, em 1907, Snethlage dá notícias de como encontrou o zoológico ao retornar ao museu:

Estava tudo bem também com a maioria dos bichos; naturalmente, alguns casos de animais mortos, mas nenhum dos mais valiosos. Em compensação, recebemos nesse tempo três onças jovens, sujeitos muito cândidos, de fisionomia simpática e movimentos desengonçados. Ainda tentarei tornar-me amiga delas, embora sejam bem ariscas e pouco afeitas a seres humanos. Encontrei bem espertas as minhas duas corujinhas. A menor transformou-se de lá para cá e está com a aparência tão imponente quanto sua companheira mais velha. Também reencontrei os dois gatos maracajás jovens. Um fica muito tempo no meu quarto e, no começo, deixava as corujas apavoradas, especialmente quando pulava sobre as gaiolas e mostrava sua avidez por restos de carne. Agora, elas já estão mais acostumadas e deixaram o gato um pouco de lado (Sanjad e colegas, 2013, p. 210).

Um desses maracajás ainda vivia em 1912. Em uma carta ao irmão Viktor Snethlage, datada de 18 de julho, Emília conta como o gato a fez relembrar um episódio de infância:

Ontem não houve como eu não me lembrar da história do teu pardal. Precisei deixar meu gato maracajá sozinho em casa por algumas horas e, quando voltei, ele tinha aberto uma gaiola e liquidado um de meus roedores, que eu criava já fazia um ano e meio (um sauiá, não o rato vermelho).  Também isso estava bem perto de acontecer, mesmo que houvesse um roedor só. Claro que não posso pôr a culpa no gato, senão em mim mesma, mas a gaiola estava muito bem trancada.

Temos a sorte de poder conhecer esse gato maracajá, que gostava de assustar corujinhas e apreciava comer sauiás. Ele talvez fosse o mais querido entre os animais silvestres criados por Snethlage entre o seu quarto de dormir e os viveiros do zoológico: por volta de 1907 ou pouco depois, Jacques Huber registrou em uma foto o carinho de Snethlage pelo gato. Eles estão junto à porta dos fundos do pavilhão de exposições, conhecido como Rocinha. Snethlage, sempre de branco e com cabelos amarrados, olha ternamente para o animal em seu colo. A foto comove pelo inusitado da cena: o desejo dela em documentar seu afeto por um animal silvestre, e bem junto ao corpo, como um abraço.

 

 

* Nelson Sanjad é historiador e servidor do Museu Paraense Emílio Goeldi

 

Referências:

ALBERTO, Diana. Emília Snethlage e Heloisa Alberto Torres: gênero, ciência e turismo na Amazônia do século XX. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2022.

COELHO, Matheus Camilo. Ciência em campo: patronato e redes de conhecimento na Amazônia (1894-1918). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2026.

CROZARIOL, Marco Aurélio. O último voo: documentos inéditos relativos ao falecimento e ao espólio de Emília Snethlage, 1868-1929. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, e202501, 2025.

HOFFMANN-IHDE, Beatrix. 100 Jahre Xipaya- und Kuruaya- Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin. Baessler-Archiv, v. 62, p. 45-66, 2015.

HUBER, Jacques. Relatório sobre a marcha do Museu Goeldi no ano de 1907 apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Secretário do Estado da Justiça, Interior e Instrução Pública pelo Dr. J. Huber, Diretor do Museu. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnopgraphia, v. 6, p. 1-21, 1909.

JUNGHANS, Miriam. Avis Rara: a trajetória científica da naturalista alemã Emília Snethlage (1868-1929) no Brasil. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em:

PEREIRA, Aline Ariela. Seguindo os passos de Emilia Snethlage no Ceará (1910 e 1915): uma análise comparativa e atual. Dissertação (Mestrado em Ciência Biológicas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

SANJAD, Nelson. A coruja de minerva: o Museu Paraense entre o Império e a República (1866-1907). Brasília: Instituto Brasileiro de Museus; Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2010.

SANJAD, Nelson. Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século XX. Asclepio, v. 71, n. 2, p273, 2019.

SANJAD, Nelson; SNETHLAGE, Rotger; JUNGHANS, Miriam; OREN, David. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 8, p. 195-221, 2013.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; SANJAD, Nelson; AMORIM, Lilian Bayma. Redes de conhecimento e representações: um estudo das coleções ornitológicas formadas por Emília Snethlage no Museu Paraense Emílio Goeldi entre 1905 e 1921. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 20, p. 131–160, 2024.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; AMORIM, Lilian Bayma. Coleções e redes de intercâmbios na Amazônia do início do século XX: considerações sobre o legado de Emília Snethlage. Boletim do Museu Paraene Emílio Goeldi: Ciências Humanas, v. 20, e20230097, 2025.

SNETHLAGE, Emilia. Sobre a Etnografia dos Xipaya e Kuruaya. Tradução de Reinhard Michael Eugen Arnegger e Nelson Sanjad. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 366-418, 2023a.

SNETHLAGE, Emilia. As  etnias  indígenas do Médio Xingu: em especial a Xipaya e a Kuruaya. Tradução de Cilene Trindade Rohr e Rosanne Castelo Branco. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 423-503, 2023b.

SUESCÚN-FLOREZ, Lilian; SANJAD, Nelson; OKADA, Wanda. Construção do espaço museal: ciência, educação e sociabilidade na gênese do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi (1895-1914). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 26, p. 1-67, 2018.

A descoberta da doença de Chagas

No último mês de maio, a Organização Mundial da Saúde instituiu o dia 14 de abril como Dia Internacional da Doença de Chagas. É a história de sua descoberta pelo médico e jovem pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, contada por Simone Petraglia Kropf, historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, que o portal publica hoje. Segundo Simone: Carlos Chagas expressou de modo exemplar um projeto de ciência e de nação cujos princípios balizam até hoje a Fundação Oswaldo Cruz: a aliança entre excelência acadêmica e compromisso social.

 

A descoberta da doença de Chagas 

Simone Petraglia Kropf *

 

 

Em abril de 1909, os jornais da recém-reformada capital federal anunciavam com orgulho um “grande feito” da ciência brasileira: a descrição, por um mesmo pesquisador, de uma nova doença tropical, do parasito que a causava e do inseto que a transmitia. Na jovem república brasileira, a descoberta foi celebrada como emblema das contribuições inovadoras que o país era capaz de proporcionar à chamada “época de ouro” da medicina tropical européia, marcada por estudos que vinham mudando substancialmente a compreensão das doenças parasitárias transmitidas por vetores.

O autor da “tripla descoberta” era um médico e jovem pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), criado em 1900 como Instituto Soroterápico Federal para produzir soros e vacinas contra uma epidemia de peste bubônica que ameaçava atingir a cidade do Rio de Janeiro. Sob a liderança de Oswaldo Cruz (que havia se notabilizado por comandar as campanhas de saneamento da capital federal no governo de Rodrigues Alves), o também chamado Instituto de Manguinhos vinha ampliando suas atividades de modo a se tornar um centro de excelência na pesquisa e no ensino em microbiologia e medicina tropical.

Acessando o link para as fotografias relativas a Carlos Chagas e à doença de Chagas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Carlos Chagas, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1903, era um especialista em malária, tema de sua tese de doutoramento (para a conclusão do curso médico) que desenvolveu sob a orientação de Oswaldo Cruz em Manguinhos. O caminho que o levou à descoberta da doença que leva seu nome está diretamente ligado à sua trajetória como pesquisador no campo da medicina tropical. Em junho de 1907, ele foi designado por Oswaldo Cruz, diretor da saúde pública federal, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. Aquela era uma obra emblemática do projeto de modernização republicana. Enquanto coordenava a campanha de profilaxia na pequena cidade de Lassance, onde se construía uma estação da ferrovia, Chagas costumava coletar espécies da fauna brasileira, motivado por seu crescente interesse pela entomologia e pela protozoologia. Por intermédio do chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, tomou conhecimento de um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido vulgarmente como barbeiro pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Esses triatomíneos eram abundantes nas casas de pau-a-pique da região típicas da população pobre das áreas rurais.

 

 

Sabendo da importância dos insetos sugadores de sangue como transmissores de doenças parasitárias, Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou neles um protozoário. Por não dispor em Lassance de condições experimentais para avançar neste estudo, enviou alguns insetos a Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Depois de experiências com saguis criados em laboratório, Chagas concluiu que se tratava de uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre. As doenças causadas por tripanossomas (como a tripanossomíase africana ou doença do sono) eram temas de grande interesse na medicina tropical européia, impulsionada pelo empreendimento colonialista.

De volta a Lassance, Chagas realizou exames de sangue nos moradores e, no dia 14 de abril de 1909, encontrou o Trypanosoma cruzi no sangue de uma criança febril, chamada Berenice. Em nota enviada ao Brasil Médico, uma das principais revistas médicas do país, anunciou a descoberta, que seria também comunicada mediante publicações em revistas estrangeiras. A imprensa daria destaque ao episódio e o próprio Oswaldo Cruz apresentaria a descoberta na Academia Nacional de Medicina.

 

 

Os estudos sobre a nova doença ganharam centralidade na pauta de pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz e mobilizaram vários cientistas, sob a condução de Chagas, que passou a assumir posições importantes na instituição, da qual viria a tornar-se diretor em 1917 por ocasião do falecimento de Oswaldo Cruz. Chagas se tornaria igualmente reconhecido pela comunidade científica internacional, recebendo inúmeros prêmios e sendo indicado ao Nobel de medicina em 1913 e 1921.

Além de sua importância para a agenda científica, a doença de Chagas tornou-se, desde o início, um tema de destaque nos debates políticos sobre os problemas e rumos da nação brasileira. Carlos Chagas afirmava que aquela era uma descoberta que descortinava não apenas uma nova enfermidade e um novo problema de saúde pública, mas um Brasil até então desconhecido e abandonado: o Brasil dos sertões. Segundo ele, o tão propalado “atraso” do país era consequência não do clima tropical ou da composição racial de sua população, como muitos defendiam, mas das doenças endêmicas que assolavam as populações rurais. Nesse sentido, a “nova doença” se fazia um emblema da capacidade da ciência de, ao identificar e estudar tais problemas, indicar os caminhos concretos para superá-los e promover o tão ansiado ingresso do país no “rol das nações civilizadas”.

Chagas se tornou uma liderança do movimento em prol do saneamento rural do Brasil, que, a partir de meados da década de 1910, reuniria médicos, cientistas, intelectuais e políticos em torno da reivindicação de que o Estado ampliasse sua capacidade de implementar políticas e serviços de saúde pública, tendo em vista sobretudo atender as populações das áreas rurais. Tal bandeira seria empunhada por Chagas tanto como diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública quanto em sua atuação com professor da cadeira de medicina tropical, no âmbito da qual defendia com veemência a importância do estudo e do enfrentamento das endemias ruais, que chamava de as “doenças do Brasil”.

 

 

Como cientista, gestor e professor, Carlos Chagas expressou de modo exemplar um projeto de ciência e de nação cujos princípios balizam até hoje a Fundação Oswaldo Cruz: a aliança entre excelência acadêmica e compromisso social.

Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde instituiu o dia 14 de abril como Dia Internacional da Doença de Chagas. Ao dar visibilidade e chamar a atenção para a importância das chamadas doenças negligenciadas (e, sobretudo, das pessoas por elas afetadas), esta é uma homenagem que nos leva a refletir sobre a atualização do legado deste cientista, expresso na própria Constituição Federal de 1988: “saúde como direito de todos e dever do Estado”. Ao celebrarmos os 110 anos da descoberta da doença de Chagas, a defesa veemente da ciência, da saúde pública, da educação e da democracia é o que deve nos unir em nome da memória e das lutas dos que construíram esta história.

 

Para saber mais:

 

BENCHIMOL, Jaime L. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e as doenças do Brasil. In: HOCHMAN, Gilberto; LIMA, Nísia Trindade. Médicos intérpretes do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2015, p. 194-222.

KROPF, Simone P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009.

KROPF, Simone P.; LACERDA, Aline. Carlos Chagas, um cientista do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009 (edição bilíngue).

KROPF, Simone P. SÁ, Magali R. The discovery of Trypanosoma cruzi and Chagas disease (1908-1909): tropical medicine in Brazil. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento, p.13 -34, 2009.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923). História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento 1, p.205-227, 2009.

 

*Simone Petraglia Kropf é historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da COC.

 

Breve cronologia de Carlos Chagas (1878 – 1934)

Andrea C. T. Wanderley

 

 

1878 - Nascimento de Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, em 9 de julho, na Fazenda do Bom Retiro, a cerca de 20 quilômetros de Oliveira, cidade mineira. Era filho de José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro.

 

 

1883 - Ficou órfão de pai.

1887 – Foi matriculado no Colégio São Luís, um dos mais importantes estabelecimentos de ensino do Brasil no século XIX, dirigido por jesuítas em Itu, interior de São Paulo.

1888 – Em maio, informado que escravos recém-libertados estariam depredando fazendas, Carlos Chagas fugiu do colégio e foi ao encontro de sua mãe. A indisciplina causou sua expulsão do São Luís. Foi então transferido para o Ginásio São Francisco, em São João del-Rei, Minas Gerais.

1895 / 1897 - Sua mãe decidiu que ele deveria estudar Engenharia e Chagas ingressou no curso preparatório da Escola de Minas de Ouro Preto. Foi reprovado e voltou para Oliveira. Com a ajuda de seu tio médico, o tio Calito, conseguiu convencer sua mãe, e mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

1897 – Em 13 de abril, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Dois professores foram muito importantes durante sua formação acadêmica: Miguel Couto (1865-1934), de quem se tornou amigo pessoal; e Francisco Fajardo (1864-1906), pioneiro da microbiologia no Brasil, em cujo laboratório, na Santa Casa de Misericórdia, Chagas iniciou-se nas pesquisas sobre a malária.

1901 – Íris Lobo (1882 – 1950), futura esposa de Carlos Chagas, foi uma das portadoras de listas para arrecadação de fundos para a celebração de uma missa – iniciativa dos alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro –  em memória das vítimas de um episódio de violência policial na cidade durante manifestação popular contra o aumento de preço de passagens de bondes (Jornal do Brasil, 20 de junho de 1901, quinta coluna; e Jornal do Brasil, 21 de junho de 1901, primeira coluna).

Chagas foi um dos estudantes de Medicina que se envolveu na campanha de obtenção de recursos para a construção de uma estátua em homenagem ao recém-falecido médico baiano Francisco de Castro (1857 – 1901) (O Paiz, 22 de outubro, quarta coluna).

1902 – Para elaborar sua tese de doutoramento, indispensável para a conclusão do curso médico, passou a frequentar a Instituto Soroterápico Federal – também conhecido como Instituto de Manguinhos -, sob a orientação de seu diretor, o médico Oswaldo Cruz (1872 – 1917).

Como presidente do Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro fez a apresentação da primeira revista da associação (Brazil-Medico, 1º de agosto de 1902O Paiz, 12 de setembro de 1902, penúltima coluna).

Com frases entusiásticas, Carlos Chagas fez uma apologia aos méritos do professor e médico alemão Rudolf Virchow (1821 -1902), recém-falecido, durante uma sessão solene promovida pelo Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro, na biblioteca do Hospital de Misericórdia (Brazil-Medico, 1º de setembro de 1902).

Era um dos doutorandos de 1902 da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Uma curiosidade: havia apenas uma mulher entre os doutorandos, Evarista de Sá Peixoto (O Malho, 10 de janeiro de 1903).

 

 

1903 - Defendeu, em 12 de maio, a tese Estudos hematológicos no impaludismo. Foi aprovado e, dois dias depois, colou grau de doutor em Medicina na Faculdade do Rio de Janeiro.

Oswaldo Cruz o convidou para trabalhar em Manguinhos, mas por sentir-se atraído pela prática da clínica médica, Chagas recusou o convite.

1904 - Em crítica publicada sobre a tese Estudos hematológicos no impaludismo, considerada brilhante, Chagas foi referido como um cientista a que o futuro não negará as glórias a que vem fazendo direito (Brazil-Medico, 1º de janeiro de 1904).

Em março, foi nomeado médico da Diretoria Geral de Saúde Pública e foi trabalhar no Hospital de Jurujuba, em Niterói (RJ), onde pacientes com suspeita de peste bubônica que chegavam em navios eram colocados em quarentena e sob cuidados médicos (Almanak Laemmert, 1905).

Trabalhava no Instituto Soroterápico Federal com Antônio Cardoso Fontes (1879 – 1943), Ezequiel Dias (1880 – 1922), Henrique de Figueiredo Vasconcellos (1873 – 1948) e Henrique da Rocha Lima (1879 – 1956) (Almanak Laemmert, 1905).

Seu nome constava na lista de médicos do Hospital São Sebastião, dirigido por Carlos Pinto Seidl e localizado na Praia do Retiro Saudoso, nº 27, Ponta do Caju (Almanak Lammert de 1905).

Instalação de seu consultório particular na rua da Assembléia, no centro do Rio de Janeiro.

Casou-se com Íris Lobo (1882 – 1950 ), filha do senador mineiro e presidente do Banco de Crédito Real de Minas, Fernando Lobo Leite Pereira (1851-1918), que conheceu por intermédio de seu antigo professor e amigo Miguel Couto que, assim como seu grande amigo, o médico Luiz Almada Horta, foi seu padrinho de casamento (O Pharol, 23 de julho de 1904, quarta coluna).

 

 

1905 - Em 10 de agosto, nascimento do primeiro filho de Chagas e Íris, o futuro cientista e médico Evandro Chagas (1905 – 1940). Na edição de 7 de outubro da revista O Malho, foi publicado o poema Mãe que Violeta Carneiro de Melo dedicou a Íris.

A Companhia Docas de Santos solicitou a Oswaldo Cruz, diretor geral de Saúde Pública, providências para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores que construíam uma hidrelétrica em Itatinga, São Paulo. Carlos Chagas foi comissionado para coordenar a campanha.

1906 - Viajou para Juiz de Fora, em Minas Gerais, com o médico Alcides Godoy (1880 – 1950) e com outros para executar os testes finais da vacina da manqueira.

1907 - Ele e o sanitarista e médico baiano Arthur Neiva (1880 – 1943) foram enviados por Oswaldo Cruz a Xerém, na Baixada Fluminense, para combater uma epidemia de malária (O Paiz, 14 de maio de 1907, terceira coluna; O Paiz, 1º de julho de 1908).

O primeiro busto oficial de Pasteur, há bem pouco chegado ao Brasil, é hoje propriedade do dr. Carlos Chagas, ilustrado e esperançoso bacteriologista da diretoria de saúde, por delicada e significativa oferta eminente e operosíssimo dr Sampaio Correia, atual inspetor geral de Obras Públicas…gratidão que traduz pelos inestimáveis serviços prestados por Carlos Chagas (O Paiz, 17 de junho de 1907. segunda coluna).

Carlos Chagas estava presente à inauguração do Instituto Soroterápico de Belo Horizonte, filial de Manguinhos, sob a direção de Ezequiel Dias (1880 – 1922), seu colega de turma na Faculdade de Medicina (1880 – 1922) (O Paiz, 4 de agosto de 1907, segunda coluna).

1907/1908 – Em 6 de junho de 1907, Chagas partiu para o norte de Minas Gerais, em uma terceira campanha contra a malária com o médico Belisário Penna (1868-1939), também da Diretoria Geral de Saúde Pública, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora (O Paiz, 7 de junho de 1907, quinta coluna).

 

 

Aquela era uma obra emblemática do projeto de modernização republicana. Chagas costumava coletar espécies da fauna brasileira e, pelo chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, tomou conhecimento de um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido como barbeiro pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Esses percevejos eram muito comuns nas casas de pau-a-pique da região – habitações típicas da população pobre das áreas rurais. Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou neles um protozoário. Por não dispor em Lassance de condições experimentais para avançar neste estudo, enviou alguns insetos a Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Depois de experiências com saguis criados em laboratório, Chagas concluiu que se tratava de uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre.

 

 

1908 - Nomeação de Carlos Chagas como pesquisador assistente do Instituto Oswaldo Cruz, em 20 de março. Eram também assistentes Alcides Godoy  (1880 – 1950), Antônio Cardoso Fontes (1879 – 1943), Arthur Neiva (1880 – 1943), Ezequiel Dias (1880 – 1922) e Henrique Aragão (1879 – 1956). Os chefes de serviço eram Henrique de Figueiredo Vasconcellos (1873 – 1948) e Henrique da Rocha Lima (1879 – 1956) (Almanak Laemmert, 1909).

Em 17 de dezembro, redigiu a nota-prévia anunciando a descoberta do Trypanosoma cruzi, publicada na revista alemã Archiv für Schiffs-und Tropen-Hygiene, em 1909.

1909 – De volta a Lassance, Chagas realizou exames de sangue nos moradores e, no dia 14 de abril de 1909, encontrou o Trypanosoma cruzi no sangue de uma criança febril, chamada Berenice. Anunciou a descoberta em nota publicada em uma das principais revistas médicas do Brasil, o Brazil-Medico, de 22 de abril de 1909 (O Paiz, 22 de maio de 1909, segunda coluna).

 

 

Em 22 de abril, Oswaldo Cruz anunciou formalmente à Academia Nacional de Medicina a descoberta por Carlos Chagas da doença de Chagas. Estavam presentes à sessão, concorridísima, o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), futuro presidente do Brasil; e os generais Luiz Mendes de Morais (1850 – 1914) e Antônio Geraldo de Souza Aguiar (? – 1915) (O Paiz, 23 de abril de 1908, quarta coluna; e O Paiz, 3 de maio de 1909).

Na Revista Syniatica, publicação de um artigo de Carlos Chagas sobre sua descoberta do Trypanosoma cruzi (O Paiz, 26 de maio de 1909, última coluna).

Tornou-se membro da Sociedade de Medicina da Bahia e da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

1910 - Em 1º de junho, foi nomeado chefe de serviço do Instituto Oswaldo Cruz.

Em 12 de setembro, nascimento do segundo filho de Chagas e Íris, o futuro médico, cientista e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Chagas Filho (1910 – 2000).

Foi nomeado membro titular da Academia Brasileira de Medicina (ABM), em 26 de outubro, quando fez uma conferência sobre o Trypanosoma cruzi. Como não havia vagas na época, sua admissão foi aceita em caráter de excepcionalidade (O Paiz, 27 de outubro de 1910, terceira coluna; e O Paiz, 31 de outubro de 1910, quarta coluna). É o patrono da cadeira nº 86 e foi saudado por Miguel da Silva Perreira (1897 – 1918), na ocasião, presidente da ABM.

 

 

1911 – A Doença de Chagas despertou grande interesse durante a Exposição Internacional de Higiene e Demografia, em Dresden, na Alemanha. O filme Chagas em Lassance, de 9 minutos, foi exibido por Oswaldo Cruz durante o evento. O pavilhão do Brasil, único país das Américas a construir um estande próprio no evento, foi inaugurado em 15 de junho (O Paiz, 16 de junho de 1911, quinta coluna). Segundo o historiador Eduardo Thielen, que escreveu a dissertação Imagens da saúde no Brasil – A fotografia na institucionalização da saúde pública, o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, conhecido como J. Pinto (1884 – 1951) teria sido possivelmente o autor do primeiro filme científico feito no Brasil, justamente Chagas em Lassance (Agência Fiocruz, 15 de agosto de 2008). J. Pinto produziu um expressivo número de fotografias do acervo da Fundação Oswaldo Cruz : milhares de imagens, documentando os trabalhos científicos, os primeiros prédios e as transformações urbanas da região onde seria construído o centro de pesquisa, ensino e produção de medicamentos.

Na Academia Brasileira de Medicina, realização de uma palestra de Chagas sobre a doença de Chagas (O Século, 5 de agosto de 1911, segunda coluna; e O Malho, 12 de agosto de 1911).

 

 

Na mesma edição de O Malho em que foi publicada a foto acima, a revista fez uma sátira aos políticos usando a descoberta de Chagas (O Malho, 12 de agosto de 1911).

 

 

Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1878 – 1934), produzido na Photographia Guimarães, do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) (A Noite, 8 de agosto de 1911).

1912 – Recebeu o Prêmio Schaudinn, pelo Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, na Alemanha (O Século, 29 de junho de 1912, quarta coluna).

1912 / 1913 -  Carlos Chagas, Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) realizaram uma expedição para avaliar as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha através dos rios Solimões, Juruá, Purus, Acre, Iaco, Negro e o baixo rio Branco, em expedição requisitada pela Superintendência da Defesa da Borracha. Em relatório ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, foi ressaltada a situação de abandono médico e social em que viviam as populações amazônicas e enfatizada a necessidade de medidas sanitárias para a viabilização do desenvolvimento econômico da região (O Paiz, 5 de maio de 1913, última coluna).

 

 

1913 - Carlos Chagas foi, pela primeira vez, indicado ao Nobel de Medicina. O vencedor foi o francês Charles Robert Richet (1850 – 1935), que descreveu a anafilaxia. A indicação foi feita pelo médico baiano Manuel Augusto Pirajá da Silva (1873 – 1961), professor de parasitologia na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia e responsável por ter identificado, em 1908, o verme adulto do Schistosoma mansoni.

No Palácio Monroe, durante a Exposição Nacional da Borracha, Carlos Chagas fez uma conferência sobre as condições médico-sanitárias na Amazônia (O Paiz, 13 de outubro de 1913O Paiz, 25 de outubro de 1913).

O governador de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão (1858 – 1931), e sua comitiva visitaram o Hospital de Lassance para conhecer os estudos do mal de Chagas e foram recebido por Carlos Chagas e seus auxiliares (O Paiz, 10 de novembro de 1913, segunda coluna).

1915 – Publicação no periódico La Prensa Médica Argentina de um trabalho do microbiologista austríaco e diretor do Instituto Bacteriológico de Buenos Aires, Rudolf Kraus (1868-1932), de Carlos F. Maggio e de Francisco Rosenbusch (1887 – 1969) questionando os enunciados de Chagas sobre a correlação entre o bócio e a doença de Chagas.

1916 – Carlos Chagas participou do  Primeiro Congresso Médico Argentino, realizado em Buenos Aires, inaugurado em 17 de  setembro e encerrado em 24 de setembro (A Época, 11 de setembro de 1916, terceira coluna; A Época, 18 de setembro de 1916, quinta coluna; e O Paiz, 25 de setembro de 1916, segunda coluna). Poucos dias antes da abertura do congresso, esteve no Instituto Bacteriológico de Buenos Aires, onde foi recebido por Rudolf Kraus (O Paiz, 13 de setembro de 1916, última coluna). Esteve presente também à inauguração da Sociedade de Higiene, Microbiologia e Patologia, no Instituto Bacteriológico de Buenos Aires (O Paiz, 20 de setembro de 1916, última coluna). Na Universidade de Medicina de Buenos Aires, Chagas fez uma conferência sobre a doença de Chagas (O Paiz, 21 de setembro de 1916, quarta coluna).

Tornou-se membro da Sociedade Brasileira de Ciências, posteriormente denominada Academia Brasileira de Ciências.

1917 - Com o falecimento de Oswaldo Cruz (O Paiz, 13 de fevereiro de 1917), Chagas foi nomeado diretor de Manguinhos, em 14 de fevereiro (O Paiz, 15 de fevereiro de 1917, quinta coluna). No campo da pesquisa, sua administração privilegiou a investigação das causas e dos aspectos epidemiológicos e clínicos das endemias rurais. Foi responsável também pela criação de seções científicas, definidas por áreas de conhecimento, com as quais pretendia estabelecer uma divisão de trabalho mais nítida no Instituto. Na área de ensino, ampliou o programa dos Cursos de Aplicação do Instituto. Quanto à área de produção, Chagas diversificou a pauta de medicamentos e produtos biológicos fabricados em Manguinhos – alguns desenvolvidos pelos próprios pesquisadores – e estimulou a sua comercialização, fortalecendo a renda da instituição. A partir de 1920, o Instituto assumiu também a responsabilidade pelo controle da qualidade dos produtos utilizados na medicina humana no país, nacionais ou importados.

1918 – Em Manguinhos, organizou o Serviço de Medicamentos Oficiais, criado por decreto federal com o objetivo de produzir e fornecer, gratuitamente ou a preços subsidiados, a quinina (profilático e terapêutico para a malária) e outros medicamentos.

Inaugurou, em outubro, o Hospital Oswaldo Cruz, nas dependências do Instituto Oswaldo Cruz,  destinado à internação de portadores de doenças infecciosas e também à pesquisa clínica sobre tais enfermidades (A Noite, 15 de agosto de 1918, quarta colunaJornal do Brasil, 9 de outubro de 1918, última coluna; e Gazeta de Notícias, 28 de março de 1919). Em 1942, passaria a ser chamado de Hospital Evandro Chagas (Diário de Notícias, 13 de novembro de 1942, quinta coluna).

Foi o responsável pela coordenação dos serviços de atendimento hospitalar e de socorro domiciliar durante a epidemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro. Ele e o médico Fernando de Magalhães (1878 – 1944) recusaram qualquer tipo de remuneração pelo trabalho realizado (O Paiz, 20 de outubro de 1918, quinta coluna, O Paiz, 22 de outubro de 1918, última coluna; O Paiz, 23 de outubroO Paiz, 15 de novembro de 1918, primeira colunaO Paiz, 17 de novembro de 1918, terceira coluna).

1919 – Em 4 de outubro, tomou posse, tendo sido nomeado pelo presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), na Diretoria Geral de Saúde Pública, que passou a chamar-se, em janeiro do ano seguinte, Departamento Nacional de Saúde Pública. Durante sua gestão, até 1926, o novo órgão foi responsável, mediante convênio com os estados, pela ampliação e criação de serviços de saúde no interior do país, com especial foco na profilaxia e no combate às endemias rurais. Implementou também medidas relativas à higiene pública criando um extenso Código Sanitário, responsável pela organização e modernização da legislação sanitária no Brasil (O Paiz, 5 de outubro de 1919, primeira coluna).

Alguns médicos brasileiros questionaram a definição clínica da doença de Chagas e, sobretudo, a importância social da tripanossomíase americana.

Carlos Chagas tornou-se membro da Sociedade Americana de Medicina Tropical.

1920 - Tornou-se Membro do Conselho Médico da Liga das Sociedades da Cruz Vermelha e Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália.

Carlos Chagas e seus assistentes receberam os reis da Bélgica, Alberto I (1875 – 1934) e Elizabeth (1876 – 1965), e o presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), no Instituto Oswaldo Cruz (O Paiz, 26 de setembro de 1920).

 

 

1921 - Na Biblioteca Nacional, Chagas proferiu a conferência sobre A nova orientação dos serviços sanitários no Brasil (Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1921, sexta coluna).

Em 23 de junho, tornou-se o primeiro brasileiro nomeado Doutor Honoris Causa, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Nesse ano não houve vencedor na categoria Medicina do Prêmio Nobel. Chagas havia sido indicado à láurea por Hilário de Gouvêia (1843-1923), professor de oftalmologia e otorrinolaringologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1922 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Buenos Aires.

Teve início, na Academia Nacional de Medicina uma acirrada polêmica em torno da definição clínica da doença de Chagas e, sobretudo, da importância social da tripanossomíase americana Os críticos de Chagas, liderados por Julio Afrânio Peixoto (1876-1947), catedrático de higiene da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, afirmavam que a doença não seria um flagelo nacional já que, segundo eles, sua ocorrência era restrita à região de Lassance. Também questionaram a patogenicidade do Trypanosoma cruzi e a autoria de sua descoberta, que, segundo alguns, caberia não a Chagas mas a Oswaldo Cruz (O Paiz, 21 de dezembro de 1922, primeira coluna).

1923 – Tornou-se presidente da Sociedade Brasileira de Higiene, fundada no ano anterior (O Jornal, 29 de setembro de 1921, quinta coluna; O Jornal, 22 de dezembro de 1922, quarta coluna; e O Jornal, 11 de janeiro de 1923, segunda coluna).

Na Europa participou da sessão de abertura dos trabalhos do Comitê de Saúde das Nações Unidas, do qual era membro. Na ocasião, foi convidado para integrar a equipe encarregada pela elaboração das bases da Organização Permanente de Higiene Internacional.  Posteriormente, participou como chefe da comissão brasileira na Conferência Comemorativa sobre o Centenário de Louis Pasteur, realizado em Paris e em Estrasburgo. Ganhou o Prêmio Hors-Concours (O Jornal, 31 de maio de 1923, segunda coluna; e Correio da Manhã, 21 de agosto de 1923).

Foi agraciado com os títulos de Comendador da Coroa da Bélgica e de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França.

Promoveu a criação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura e a fundação da Sociedade de Biologia do Rio de Janeiro, filiada à Sociedade de Biologia de Paris.

Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da Patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só ocorrido anteriormente pela Fornicída Matarazzo.

Com discursos dos médicos Clementino Fraga (1880 – 1971) e Parreiras Horta (1884 – 1961), realização de uma sessão em torno da Moléstia de Chagas (O Paiz, 23 de novembro de 1923, quarta coluna). O parecer oficial da Academia Nacional de Medicina em relação à polêmica envolvendo a Doença de Chagas reiterou os méritos de Carlos Chagas porém não se posicionou quanto à questão da definição clínica e da extensão geográfica da enfermidade. Em 6 de dezembro, Chagas proferiu uma conferência na Academia, quando defendeu suas convicções e rebateu o falso nacionalismo que pretendia encobrir o mal e impedir seu estudo. Foi ovacionado (O Paiz, 1º de dezembro de 1923, quinta colunaO Jornal, 7 de dezembro de 1923; O Paiz, 7 de dezembro de 1923, sexta coluna).

 

 

Pelo Decreto nº 16.300 de 31 de dezembro de 1923 e por iniciativa de Carlos Chagas, foi criada a Escola de Enfermagem Anna Nery, desdobramento do Serviço de Enfermagem Sanitária, que ele havia criado com o apoio da Fundação Rockefeller. Assim foi introduzido o ensino profissionalizante de enfermagem no Brasil.

1924 - Participou do 2º Congresso Brasileiro de Higiene, em Belo Horizonte (O Jornal, 27 de novembro de 1924, quinta coluna).

Tornou-se membro da Societas ad Artes Medicas in India Orientali Neerlandica e membro correspondente da Academia Médica de Roma.

1925 – Tornou-se membro correspondente da Real Academia Nacional de Medicina da Espanha e também Comendador da Ordem Civil de Alfonso XII, rei de Espanha.

Recebeu o Prêmio Kümmel, conferido pela Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo.

Foi nomeado professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, para a então criada cátedra de Medicina Tropical, estabelecendo as bases para o estudo desta área no Brasil (O Jornal, 26 de abril de 1925, última coluna).

Recebeu o cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955) durante sua visita ao Rio de Janeiro (O Paiz, 9 de maio de 1925, primeira coluna).

 

 

Sua contribuição para os estudos e a profilaxia da malária foi reconhecida no I Congresso Internacional de Paludismo, realizado em Roma (Jornal do Brasil, 9 de setembro de 1925, quarta coluna). Passou alguns dias em Paris onde foi homenageado pelo diretor do Instituto Pasteur, Albert Calmette (1863 – 1933), e pelo embaixador do Brasil, Luiz Martins de Souza Dantas (1876 – 1954) (Jornal do Brasil, 3 de novembro, sexta coluna).

1926 - Organizou o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, ministrado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz como especialização na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 3 de maio de 1926, quarta coluna).

Proferiu a aula inaugural da cadeira de Medicina Tropical na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, em 14 de setembro, na qual destacou a importância do estudo das doenças tropicais na formação médica, tendo em vista o enfrentamento dos problemas da saúde pública brasileira, sobretudo as endemias rurais.

Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Paris (O Paiz, 7 de novembro, quarta coluna).

Deixou a direção do Departamento Nacional de Saúde Pública, em novembro, quando terminou o mandato do presidente Arthur Bernardes (1875-1955). Seu sucessor no cargo foi Clementino Fraga (1880-1971) (O Paiz, 20 de novembro de 1926, segunda coluna).

Foi agraciado com o título de Comendador da Ordem de Isabel, a Católica, Espanha

Tornou-se membro da Academia Imperial Alemã de Pesquisas Naturais de Halle e membro honorário da Academia de Medicina de Nova York.

1928 – Em 30 de maio, foi eleito membro titular da Sociedade Real de Medicina Tropical e Higiene de Londres.

Abaixo, na cabeceira da esquerda, Carlos Chagas presidindo uma ssessão da Sociedade de Biologia do Rio de Janeiro.

 

 

 

1929 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina de Lima e Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia.

Presidiu a IV Conferência Pan-americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada no Rio de Janeiro entre 30 de junho e 30 de julho.

Chagas recepcionou em Manguinhos um grupo de cirurgiões norte-americanos.

 

 

 

1930 - Tornou-se membro da Sociedade de Biologia de Buenos Aires

1931 – Tornou-se membro correspondente da Academia de Medicina de Paris.

1934 – Tornou-se Doutor Honoris Causa da Universidade Livre de Bruxelas.

Inauguração do Centro Internacional de Leprologia, com sede no Instituto de Manguinhos, idealizado e dirigido por ele (Correio da Manhã, 4 de fevereiro de 1934 e O Jornal, 14 de junho de 1934, terceira coluna).

Carlos Chagas faleceu em 8 de novembro, no Rio de Janeiro, de infarto (Jornal do Brasil, 9 de novembro de 1934). Na direção de Manguinhos, foi sucedido por Antonio Cardoso Fontes (1879-1943), que havia sido seu colega na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (O Jornal, 6 de janeiro de 1935, terceira coluna).

 

 

Realização na Academia de Medicina de uma sessão em sua homenagem (O Jornal, 15 de dezembro de 1934).

 

Assista aqui: Carlos Chagas – Ciência em gotas, realizado pela Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, com a consultoria de Simone Kropf

 

A elaboração dessa cronologia foi baseada principalmente na Biblioteca Virtual Carlos Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, e na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Contou com a colaboração da historiadora e pesquisadora Simone Petraglia Kropf e da jornalista Cristiane d´Avila, ambas da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CAVALCANTI, Juliana Manzoni. A Trajetória Científica de Rudolf Kraus (1894-1932) entre Europa e América do Sul: Elaboração, produção e circulação de produtos biológicos. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, Rio de Janeiro, 2013. 284 f.

CHAGAS, Carlos, Filho. Meu pai. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, 1993

Fundação Oswaldo Cruz – Biblioteca Virtual Carlos Chagas

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e as doenças do Brasil. In: HOCHMAN, Gilberto; LIMA, Nísia Trindade. Médicos intérpretes do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2015, p. 194-222.

KROPF, Simone P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009.

KROPF, Simone P.; LACERDA, Aline. Carlos Chagas, um cientista do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009 (edição bilíngue).

KROPF, Simone P. SÁ, Magali R. The discovery of Trypanosoma cruzi and Chagas disease (1908-1909): tropical medicine in BrazilHistória, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento, p.13 -34, 2009.

KROPF, Simone P. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923). História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v.16, suplemento 1, p.205-227, 2009.

LEWINSOHN, Rachel. Carlos Chagas (1879-1934): a descoberta do tripanossoma cruzi e da tripanossomíase americana (notas da história da doença de Chagas)Transactions of The Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, Volume 73, Edição 5, págs 513-523, 1979.

PITELLA, José Eymard Homem. O processo de avaliação em ciência e a indicação de Carlos Chagas ao prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, vol 42. nº 1, Uberaba, fevereiro de 2009.

SCLIAR, Moacyr . Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento de ciência no Brasil. São Paulo: Odysseus, 2002

Site da Academia Brasileira de Ciências

Site da Academia Nacional de Medicina

Site da Escola de Enfermagem Ana Nery

Site da Fiocruz Paraná – Instituto Carlos Chagas

Site do CPDOC

Memória das lutas feministas

Claudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

Nas quase 500 fotografias que integram o fundo Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF -, do Arquivo Nacional, evidencia-se a rede formada por mulheres em várias partes do mundo – dos Estados Unidos à Turquia, da Argentina à República Tcheca – na luta por seus direitos, por trabalho, educação, mas, sobretudo, por representatividade política através do voto.

A estas imagens que informam sobre congressos, assembleias, alistamentos, encontros de caráter político e tantas iniciativas voltadas para o universo feminino somam-se retratos daquelas que romperam com os papéis reservados a elas, sobretudo, nos anos 1920 a 1940. São aviadoras: Ruth Rowland Nichols e Jean Gardner Batten; juízas de paz como Mabel Moir-Byres; as cientistas Marie Curie e Bertha Lutz; engenheiras como Carmen Portinho; políticas como Frances Coralie Perkins, secretária do Trabalho nos Estados Unidos, de 1933 a 1945, e a principal arquiteta do New Deal. Entre as brasileiras, destacam-se, ainda, as fotografias das primeiras eleitoras como Esther Caldas, no estado de Alagoas, e das mulheres eleitas, a começar por Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América do Sul.

Acessando o link para as fotografias de memórias das lutas feministas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Ao posar no avião, um meio de transporte ainda recente, marcado pelo risco, a velocidade, a altitude, durante campanha pelo alistamento feminino, em 1928, no Rio Grande do Norte, Bertha Lutz evidencia a ousadia, um dos ingredientes que marcam a luta pelos direitos das mulheres e o papel da Federação pelo Progresso Feminino que ela havia fundado em 1922 **. Em 1928, ao homenagear Carrie Chapman Catt, primeira presidente da IWSA – International Woman Suffrage Alliance, criada em 1904, em um impresso em língua inglesa, a organização reconhecia dever sua existência a Chapman, reproduzindo ali o escudo da República brasileira e o avião com os dizeres “voto feminino”.[1]

 

 

O nascimento da FBPF, precedida pela Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, criada pela cientista Bertha Lutz, em 1919, era declaradamente vinculado ao movimento sufragista internacional, principal tendência do feminismo no início do século XX, entre as demais reivindicações de igualdade e independência. A partir dali, seriam promovidos diversos encontros, seguindo a tendência da belle époque, como o Congresso Internacional Feminista de 1922 no Rio de Janeiro, ao qual compareceu Carrie Chapman, ou o IX Congresso da Aliança Internacional Feminista, no ano seguinte, realizado em Roma.

 

 

O internacionalismo feminista está presente nessas fotografias, em diálogo com os encontros nacionais que, ao final dos anos 1920 e nos anos 1930, se sucedem, incluindo aqueles com o presidente Getulio Vargas. Este último ocorreu durante o III Congresso Nacional Feminista no Rio de Janeiro quando Bertha Lutz já ocupava a vaga de deputada federal na vaga deixada pelo titular. Vista em retrospecto, a recepção no Catete ordena a marcha dos acontecimentos a partir da Revolução de 1930 de cujos líderes as integrantes da FBPF, sobretudo cariocas, haveriam de se aproximar.

 

 

O grupo sorridente de 1931 é formado pelas delegadas ao II Congresso Internacional Feminista. Reunidas na praia deserta e invernal do Recreio dos Bandeirantes, registra entre suas fileiras Carmem Portinho, uma das fundadoras e vice-presidente da Federação. O evento teve em suas sessões uma representante do governo nomeada por decreto. No ano seguinte o novo código eleitoral estendeu o direito de voto às brasileiras.

 

 

Uma das fotografias mais representativas das lutas feministas e do espaço ocupado pelas mulheres na política nas primeiras décadas do século XX faz parte desta amostra de imagens. Nela, temos Maria José Salgado Lages, primeira deputada eleita pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, circundada por deputados, todos eles homens, após a cerimônia de posse em Maceió, em 1935. Elegantemente vestida para os padrões da época – conforme a moda europeia de vestidos mais longos, retos, com pregas até o meio da perna e tecidos encorpados e escuros, adequados à crise econômica dos anos 1930, Maria José não se furta, em meio à austeridade que faz da sua indumentária quase uma versão feminina dos ternos, a escolher bolsa e luvas brancas, cor também utilizada para os detalhes da parte superior do vestido. Frescor e juventude num visual sério, conforme pedia a solenidade da ocasião.

 

 

Àquela época, a deputada, também conhecida como Lily Lages, nascida em Maceió, havia trilhado um caminho bastante rico para uma moça de 28 anos: estudou em Olinda, em escola fundada por beneditinas alemãs; formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia (1931), enfrentando a oposição do pai; foi a única mulher a pertencer ao Grêmio Literário Guimarães Passos, onde tomou posse em 1931; fundou a Associação pelo Progresso Feminino, em Alagoas (1932). Antes de se eleger já lutara pela instituição de cursos de puericultura e economia doméstica nos estabelecimentos de ensino secundário, como forma de combater a mortalidade infantil. Longe de uma fragilidade que seu corpo franzino pode expressar, em meio a tantos homens de terno, Maria José e seu sorriso discreto evidenciam que aquele instante era apenas um passo em uma trajetória de conquistas, em meio a batalhas enfrentadas em diferentes campos e há muito tempo.

 

 

 

[1] International Women’s News / Nouvelles Féministes Internationales. Centenary Edition 1904-2004.

 

*Claudia Beatriz Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional e Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

** Esse trecho do texto e a legenda da fotografia abaixo dele foram alterados em 5 de junho de 2019.