Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VIII – O Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, fotografado por Angelo Regato e por fotógrafos ainda não identificados

Com imagens do Estádio do Maracanã do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, conjunto de fotos incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles, o portal publica o oitavo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, celebrando os 76 anos de uma das arenas esportivas mais icônicas do planeta, um templo do futebol mundial, símbolo de uma das grandes paixões nacionais, patrimônio cultural brasileiro e orgulho dos cariocas. Foi construída para a Copa de 1950.

 

 

Os registros são de autoria de fotógrafos ainda não identificados e do italiano Angelo Regato (1912 – 1993), que ficou conhecido como um dos primeiros fotojornalistas a usar uma teleobjetiva no Brasil, provavelmente o primeiro. Chefiou o Departamento de Fotografia dos Diários Associados de 1952 até 1975, quando se aposentou, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio. Sobre ele, publicamos um breve perfil e uma cronologia, a 72ª da seção Cronologia de Fotógrafos, da Brasiliana Fotográfica. Selecionamos também imagens aéreas do Maracanã do acervo do Museu Aeroespacial, uma das instituições parceiras do portal. Mostram o estádio, carinhosamente apelidado de Maraca, ainda sendo construído, em 1949, e também do ano de sua inauguração, ocorrida em 16 de junho de 1950. Vida longa ao Maraca!

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Estádio do Maracanã pertencente ao acervo da Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi marcou o primeiro gol do Maracanã e Pelé marcou seu milésimo gol no estádio

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi foi o autor do primeiro gol marcado no Maracanã e Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira e também seu milésimo gol no estádio / Pasmado, 3 de junho de 2026

 

A partir de algumas fotografias exibidas neste artigo, mais uma vez pode-se constatar que as hemerotecas digitais, no caso a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, são ferramentas de pesquisa poderosas e indispensáveis, principalmente na busca de registros históricos nos periódicos. Porém, devido a velhos sistemas de impressão, as imagens ficam prejudicadas. Daí a importância da conservação dos acervos fotográficos originais, que nenhuma hemeroteca conserva com a mesma nitidez. 

 

 

 

 

Em 1946, o Brasil foi escolhido pela FIFA como sede da Copa do Mundo de 1950 e precisava de um grande estádio para receber os jogos. A construção do Maracanã foi muito criticada pelo então vibrante e emergente orador e vereador pela União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda (1914 – 1977), devido aos gastos e à localização escolhida para o estádio, defendendo que fosse edificado em Jacarepaguá. O compositor Ary Barroso (1903 – 1964), já consagrado internacionalmente, então vereador no Rio de Janeiro, também pela UDN, e defensor da construção do estádio no terreno do antigo Derby Club, na Tijuca, encomendou ao Ibope uma pesquisa de opinião para que a população escolhesse entre os dois locais. O instituto fez a pesquisa durante jogos dos principais clubes de futebol cariocas. Resultado: 56,8% dos entrevistados escolheram o Derby Club e 9,7%, Jacarepaguá; 6,9% sugeriram outras regiões como Centro, Gávea, Quinta da Boavista e Cascadura. Além disso, 79,2% achavam necessária a construção de um estádio para a cidade e 53,6% se dispunham a arcar com algum ônus tributário para que a prefeitura financiasse a obra. O poeta venceu o tribuno!

A pedra fundamental do Estádio do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948. O coronel Herculano Gomes (1899 – 1963) presidia a Comissão de Construção do Estádio Municipal. Seus arquitetos eram Antonio Dias Carneiro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Rafael Galvão.  E seus engenheiros estruturais, Alberto Rodrigues da Costa, Antonio Alves Noronha, Paulo Fragoso e Sergio Matos de Souza (O Jornal, 21 de janeiro de 1948).

 

 

 

 

Em junho de 1948, Angelo Regato registrou o local onde seria erguido o Maracanã e as obras ainda não haviam sido iniciadas.

 

 

 

 

O maior estádio do mundo* começou a ser erguido em 17 de agosto de 1948, cerca de sete meses após o lançamento de sua pedra fundamental (Diário da Noite, 17 de agosto de 1948, terceira coluna). No inicio das obras, havia 1.500 homens trabalhando. Nos últimos meses eram 3.000 operários. “A arquitetura de formato oval mede 317 metros no eixo maior e 279 metros no menor. A altura do estádio corresponde a um prédio de seis andares. Os ferros utilizados dariam volta e meia no planeta; foram 500 mil sacos de cimento, 60.000 m2 de pedras e 45.000 m2 de areia” (Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003).

 

 

O Maracanã foi inaugurado com a presença do então presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), de todos os seus ministros, do prefeito do Rio de Janeiro, o general Ângelo Mendes de Moraes (1894 – 1990), e de várias outras autoridades. Foi abençoado pelo cardeal dom Jaime Câmara (1894 – 1971). Tornou-se o maior estádio de futebol do mundo, com capacidade técnica para cerca de 155.000 a 200.000 pessoas, superando o Hampden Park, na Escócia. Atualmente, o Maracanã é o 25º – hoje só pode abrigar oficialmente 94 751 pessoas. O maior do mundo é o Estádio Rungrado Primeiro de Maio (114.000 lugares), na Coreia do Norte, inaugurado em 1º de maio de 1989 (Diário da Noite, 16 de junho de 1950; Site Lance).

 

 

 

Sobre a grandiosidade da obra titânica, a maior construção em concreto armado até então realizada, com capacidade para mais de 150 mil pessoas, José Lins do Rego (1901 – 1957) escreveu:

 

 

No dia seguinte à inauguração, foi realizado um jogo entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os paulistas venceram por 3 a 1, mas foi o carioca Didi (1928 – 2001), do Fluminense, que marcou o primeiro gol no estádio (O Jornal, 18 de junho de 1950).

 

 

Poucos dias depois, foi o palco da abertura da Copa do Mundo de 1950, em 24 de junho, quando a seleção brasileira goleou a mexicana por 4 a 0 (Diário da Noite 24 de junho de 1950 e 26 de junho de 1950). E também foi o cenário da final docampeonato, em 16 de julho, que ficou conhecida como Maracanaçoquando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 a 1. Foi, como escreveu Nelson Rodrigues (1912 – 1980), a nossa Hiroshima: “Uma humilhação jamais cicatrizada, que ainda pinga sangue”. O Maracanã, com quase 200 mil pessoas, oficialmente 199.584, até hoje recorde de espectadores em um jogo de futebol, ficou em silêncio. Foi uma verdadeira tragédia esportiva nacional. Antonio Olinto (1919 – 2009), José Lins do Rego e Vargas Neto (1903 – 1977) publicaram crônicas sobre a derrota no Jornal dos Sports, de 18 de julho de 1950.

 

A Derrota

José Lins do Rego

“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse de enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu o coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagada. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. Não dormi, senti-me alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota”.

 

Sobre o assunto, o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreveu o artigo Tempo e placar do Maracanaço, na seção “Por dentro dos acervos”, do Instituto Moreira Salles, de 13 de julho de 2020. Nele publicou “três instantâneos metidos numa das dezenas de pastas do assunto ‘futebol’ no arquivo fotográfico dos Diários Associados no Rio, atualmente incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles. E aqui se publicam pela primeira vez”. Eram os placares da terrível derrota.

 

“E aí está. Às 4:15 está Brasil 1 a 0, Friaça marcara a 1 minuto e meio do segundo tempo. 

 

 

Aos 20, Schiaffino empatou, placar às 4:29.

 

 

E três minutos depois Ghiggia tinha posto o 2 lá em cima. Fazendo o que se orgulhava de só ele, Frank Sinatra e João Paulo II terem conseguido: calar o estádio que vaiava até minuto de silêncio”.

Cássio Loredano

 

Cerca de oito anos depois, às vésperas do Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Nélson Rodrigues, em uma crônica publicada na Manchete Esportiva de 31 de maio de 1958, referiu-se à derrota de 1950 e declarou: …desde 50, nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. Foi também nesta crônica que criou a expressão complexo de vira-latas.

As seleções brasileira e uruguaia voltaram a se enfrentar numa Copa do Mundo, desta vez no México, em 17 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, em um dos jogos da semifinal do campeonato. O Brasil venceu de 3 a 1  e os gols foram marcados por Clodoaldo (1949-), Jairzinho (1944-) e Rivelino (1946-). Pelo Uruguai, Luis Cubilla (1940 – 2013).  O Brasil eliminou o Uruguai  e superou o fantasma de 1950.

 

 

Continuando a história do Maracanã…

 

Em 1966, o nome oficial do Maracanã passou a ser Estádio Jornalista Mário Filho, a partir de um projeto apresentado pelo deputado Jamil Haddad (1926-2009) e subscrito pelo deputado Raul Brunini (1919 – 2009); aprovado em 27 de setembro de 1966, poucos dias após o falecimento de Mário Filho (1908 – 1966), em 16 de setembro. Mário Filho foi um dos maiores apoiadores da construção do Maracanã e a ideia do novo nome para o estádio foi de Waldir Amaral (1926–1997), um dos maiores locutores esportivos do rádio brasileiro (Jornal dos Sports20 de setembro de 196628 de setembro de 1966). Em 8 de abril de 2021, o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (1979 -), tornou público o veto à lei que mudava o nome do Estádio do Maracanã. Com isso, o projeto que pretendia alterar o nome oficial de Estádio Jornalista Mário Filho para Rei Pelé foi arquivado.  A decisão de mudança havia sido tomada em março deste ano pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e o pedido de desistência foi feito pelo então presidente da Casa, André Ceciliano (1968-), um dos idealizadores do projeto que tinha como intuito, segundo ele, homenagear Pelé (1940 -2022) em vida (Portal dos Jornalistas, 9 de abril de 2021).

 

 

Maraca também foi a sede da final da Copa do Mundo de 2014, das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, quando em seus gramado a seleção brasileira de futebol conquistou o ouro olímpico derrotando a Alemanha nos pênaltis. Sediou campeonatos estaduais, a Copa Rio, Mundiais de Clubes. Foi no Maracanã que Mané Garrincha (1933 – 1983) consagrou-se com a camisa do Botafogo e da seleção brasileira, tendo feito lá seu jogo de despedida em 19 de dezembro 1973. Foi no seu gramado que Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira em 7 de julho de 1957, na derrota por 2 a 1 para a Argentina, pela Copa Roca; e também seu milésimo gol, em  19 de novembro de 1969, durante a vitória do Santos por 2 a 1 contra o Vasco, pela Taça de Prata.

Foi também palco de grandes shows como o dos cantores Frank Sinatra (1915 – 1998), em janeiro de 1980; e Paul McCartney (1942-), em abril de 1990 e em dezembro de 2023; e das cantoras Tina Turner (1939 – 2023), em janeiro de 1998; Madonna (1958 -), em novembro de 1993 e em dezembro de 2008; e Ivete Sangalo (1972 -), em dezembro de 2006. Além disso, o papa João Paulo II rezou missas no estádio em julho de 1980 e em outubro de 1987; e o estádio sediou o festival de música Rock in Rio II, em janeiro de 1991.

Alguns importantes eventos esportivos não futebolísticos aconteceram lá. Um deles, em 23 de outubro de 1951, com a presença do vice-presidente Café Filho (1899 – 1970), quando foi realizado um duelo de artes marciais entre o brasileiro Hélio Gracie (1913 – 2009), lutador de jiu-jitsu; e o judoca japonês Masahiko Kimura (1917 – 1993), vencedor do combate (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1951).

 

 

Em 2000, nas comemorações de seus 50 anos, o Maracanã ganhou uma Calçada da Fama com as marcas dos pés de vários jogadores como Romário (1966 -), Ronaldo Fenômeno (1976 -) e Zico (1953 -).

O estádio deixou de ser o maior do mundo com as obras para os Jogos Pan-americanos de 2007, quando o campo foi rebaixado e o setor conhecido como Geral foi eliminado – era o espaço mais democrático e popular do futebol. A maior reforma realizada no Maracanã ocorreu entre 2010 e 2013 para adequar o estádio para a Copa de 2014 dentro do padrão Fifa. Tornou-se mais confortável, mas para muitos perdeu sua identidade histórica, que fazia dele uma arena única e especial. Para os Jogos Olímpicos de 2016, foram realizadas novas intervenções para adequar o estádios às cerimônias de abertura e encerramento do evento (Valor Econômico, 8 de outubro de 2012Site OneFootball).

 

 

 

Brevíssimo perfil do fotojornalista Angelo Regato (1912 – 1993)

 

Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho dos fotógrafos da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar.

 

 

Em 1935, Regato passou a trabalhar também no jornal A Nota. Em 1938, foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados e foi, como já mencionado, chefe do Departamento de Fotografia do referido conglomerado de mídiade 1952 até 1975.

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

Participou de diversas coberturas de eventos importantes da história do Brasil como a já mencionada Revolução de 1930, a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira com o fim da Segunda Guerra Mundial e a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Registrou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1944; e, de 1936 a 1939, acompanhou o presidente Getúlio Vargas em uma peregrinação pelo país. Acompanhou também Assis Chateaubriand (1892 – 1968), fundador e dono dos Diários Associados, em diversas viagens pelo Brasil.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

Passou a morar no Méier em 1949. Nesta época, o futuro e importante colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.

É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

Em 1956, foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

Foi ele que levou Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado da Bahia ao Rio de Janeiro, em 1957, até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

Em 1968, era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

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Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (19? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere do Rio de Janeiro (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

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Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Uma curiosidade: Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

Regato devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou trabalhando como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

Em 1982, foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

regato

 

Para aqueles que quisessem se aproximar do mundo da fotografia, Regato deu o seguinte conselho:

“A pessoa deve aguçar a sensibilidade. É preciso que ela seja paciente e criativa”.

 

Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna; Boletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

Em uma de suas colunas, o jornalista Armando Nogueira escreveu:

 “Faço um saudoso parêntese pra relembrar, com ternura, o velho Angelo Regato. Era um mestre. Morreu sem jamais ter perdido um flagrante de um gol num clique de sua fiel speed graf”.

Tribuna da Imprensa, 26 de junho de 1996

 

Acesse aqui a Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

*Atualmente o maior estádio do mundo é o Estádio Primeiro de Maio Rungradolocalizado em Pyongyang, na Coreia do Norte, com capacidade para 150 000 espectadores.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: EdUNESP, 2004.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003

MÁXIMO, João. Maracanã: meio século de paixão. Rio de Janeiro: DBA, 2000.

O GLOBO, 30 de setembro de 1987.

Portal Maracanã

NELSON, Rodrigues. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

Revista Superinteressante

SIMAS, Luiz Antônio. Maracanã: quando a cidade era terreiro. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2021.

Site Arfoc Rio

Site Lance

Site Os Divergentes