A Brasiliana Fotográfica despede-se de 2025 publicando um artigo que homenageia a educação, fator poderoso para a formação de pessoas com pensamento crítico e aptas a contribuir para a construção de um país mais justo e próspero. Com fotografias provenientes do acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco, uma das instituições parceiras do portal, e produzidas pelos fotógrafos Manoel Tondella (1861 – 1921) e João José de Oliveira (18? – 19?), sócios na Photographia Popular, destacamos os 200 anos do Ginásio Pernambucano, no Recife, a mais antiga escola em funcionamento no Brasil e patrimônio simbólico de Pernambuco. Brasileiros ilustres estudaram lá, dentre eles os escritores Ariano Suassuna (1927 – 2014) e Clarice Lispector (1920 – 1977), o professor e cientista social Josué de Castro (1908 – 1973), o grande líder abolicionista Joaquim Nabuco (1849 – 1910), o jornalista Assis Chateaubriand (1892 – 1968), o economista Celso Furtado (1920 – 2004) e o presidente da República, Epitácio Pessoa (1865 – 1942). Pioneira, a escola foi a primeira a implementar, no Brasil, o ensino integral, em 2004.
Manoel Tondella, de ascendência portuguesa, foi um dos mais importantes fotógrafos de Pernambuco da segunda metade do século XIX, período a partir do qual Recife tornou-se referência histórica para a fotografia no Brasil. Documentou em imagens as transformações da cidade, entre os anos 1890 e as duas primeiras décadas do século XX.
O Ginásio Pernambucano localiza-se na rua da Aurora, às margens do rio Capibaribe, onde ficam outros prédios importantes como o da Assembleia Legislativa de Pernambuco, que aparece nas três fotos publicadas neste artigo; o Cinema São Luiz e o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, dentre outros.
Foi fundado como Liceu Provincial de Pernambuco, em 1º de setembro de 1825, logo após a Confederação do Equador, a partir de um decreto do então presidente da província, José Carlos Mayrink da Silva Ferrão (1771 – 1846), responsável pela transferência da capital de Pernambuco de Olinda para Recife. Funcionava no Convento do Carmo. Seu primeiro diretor foi o religioso, jornalista e deputado Miguel do Sacramento Lopes Gama (1793 – 1852), conhecido como Padre Carapuceiro. Foi a primeira instituição criada em Pernambuco especificamente para o ensino secundário.
O Liceu Pernambucano era estruturado em um curso literário, composto pelas cadeiras de geometria, retórica, filosofia, racional e moral, latim e desenho. Além de ser uma escola, era fiscalizador do ensino público e privado da província. Exerceu essa última atribuição até 1851.
O estabelecimento mudou algumas vezes de local nas décadas de 1840 e 1850 – rua dos Pires, prédio da Alfândega e prédio onde funcionava a Companhia dos Operários Engajados, casa de sessões do júri, rua da Praia e rua do Hospício. Em 1842, passou a chamar-se Ginásio Provincial de Pernambuco.
Em 1855, uma lei transformou o Liceu em internato de educação pública e de instrução secundária com o nome de Ginásio Pernambucano. Realizou-se uma profunda reforma pedagógica inspirada no Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro.
O Ginásio Pernambucano foi inaugurado, na rua do Hospício, em 7 de setembro de 1855, por José Bento da Cunha e Figueiredo (1808 – 1891), governador de Pernambuco, e demais autoridades civis e eclesiásticas, onde funcionou até 1866 (Correio Mercantil, 21 de setembro de 1855, primeira coluna).
Uma nova sede, na histórica rua da Aurora, começou a ser construída, também em 1855. O projeto do edifício neoclássico, um dos marcos arquitetônicos da cidade, foi do engenheiro recifense José Mamede Alves Ferreira (1820 – 1865), então chefe da Repartição de Obras Públicas do Estado, e autor de outros projetos importantes como o da Casa de Detenção do Recife, do Cemitério de Santo Amaro e do casario da rua da Aurora.

José Mamede Alves Ferreira (1820 – 1865) / José Mamede Alves Ferreira Sua Vida – Sua Obra 1820 – 1865
A pedra fundamental da nova sede foi lançada em 15 de agosto de 1855 (Diário de Pernambuco, 22 de março de 1855, primeira coluna; 17 de agosto de 1855, última coluna). Várias loterias foram realizadas em prol do Ginásio Pernambucano ao longo deste ano (Diário de Pernambuco, 23 de agosto de 1855).
Diário de Pernambuco, 17 de agosto de 1855, última coluna
O Ginásio Pernambucano recebeu a visita de dom Pedro II (1825 – 1891), em 9 e em 14 de dezembro de 1859. O museu do ginásio e seu criador, o naturalista Louis Jacques Brunet (1811 – c. 1877), taxidermista e professor de Ciências Naturais, foram os principais interesses do imperador, que escreveu em seu diário:
“A tarde fui ao gabinete de história natural arranjado pelo Brunet no Ginásio e depois de o examinar com atenção, tendo observado peixes fósseis em incrustações calcáreas muito curiosas apanhadas nos sertões do Norte do Brasil, creio que na Serra do Araripe e um quadrúpede entre o macaco e os carneiros chamado no rótulo Kincajú paraná, que só se encontra no sertão desta Província, informei-me do resultado das explorações do Brunet dizendo-me ele que da primeira vez fora só encarregado de explorar pontos próprios para açudes no interior da Paraíba e da segunda da coleta das diversas terras, que chegando no Recife o Presidente (ilegível) mandou deitar no aterro do cais por de traz do Palácio, não lhe abonando as despesas da condução; ficou de levar-me e eu verei a exatidão do que ele me referiu”.
Lembramos aqui que o Ginásio Pernambucano possui o único museu escolar de Pernambuco, o Museu Luiz Jacques Brunet, criado pelo naturalista Louis Jacques Brunet (1811 – c.1877)*, que conta com um acervo de mais de quatro mil objetos.
Finalmente, em 1866, o Ginásio Pernambucano foi instalado em sua nova sede.
Na década de 1890, recebeu o nome de Instituto Benjamim Constant e, nos anos 1940, passou a chamar-se Colégio Pernambucano e Colégio Estadual de Pernambuco. Por um decreto de 31 de dezembro de 1974, do governador Eraldo Gueiros Leite (1912 – 1983), voltou à denominação de Ginásio Pernambucano. Foi também em 1974, que o colégio tornou-se o embrião do ensino médio integral no Brasil.
Em 1984, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan (Sphan Pro Memória Boletim, março e abril de 1984).
Em 2012, a comunidade escolar ganhou uma nova sede, situada na avenida Cruz Cabugá, no Bairro de Santo Amaro. Em 2020, o Ginásio Pernambucano foi transformado em Escola Técnica Estadual Ginásio Pernambucano.
Em 2025, quando comemora seus 200 anos, após anos sem reformas estruturais, o Ginásio Pernambucano passa por uma restauração orçada em 7 milhões de reais, já autorizada pelo governo estadual. Conta com 720 alunos do ensino médio distribuídos em 17 turmas.
* Foi durante uma de suas expedições científicas pelo Nordeste do Brasil, em 1852, quando passou pela cidade de Areia, na Paraíba, que Brunet se impressionou com o talento precoce de um menino de 9 anos, Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843 – 1905), que se tornou um dos maiores pintores brasileiros do século XIX, autor do famoso quadro Independência ou Morte, então com 9 anos, que contratou como desenhista assistente da expedição. Em 1854, por intermédio de um pedido de Brunet ao presidente da Paraíba do Norte, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque (1821 – 1868) e ao seu sucessor, Flávio Clementino da Silva Freire (1816 – 1900) que ajudassem o jovem que não tinha recursos financeiros para estudar . A presidência encaminhou o caso ao Ministério do Império que levou ao Imperador Pedro II, que permitiu o seu ingresso na Imperial Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Pedro Américo e Brunet se corresponderam até a morte do pintor.
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
ALBUQUERQUE, Cleonir Xavier de; ACIOLI, Vera Lúcia Costa. José Mamede Alves Ferreira Sua Vida – Sua Obra 1820 – 1865. Pernambuco : Secretaria de Turismo Cultura e Esportes do Governo do Estado de Pernambuco, 1985.
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Ginásio Pernambucano, por Carlos Bezerra Cavalcanti in Jornal O Poder, 7 de junho de 2025.
GONZALES, Rômulo José Benitez de Freitas. A musealização de coleções de ensino no século XIX: o caso do Ginásio Pernambucano. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001 Orientadora: Professora Doutora Priscila Faulhaber Barbosa. UNIRIO/MAST – RJ, 03 de junho de 2022.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
MONTENEGRO, Olívio. Memórias do Ginásio Pernambucano. Recife: Assembleia Legislativa de Pernambuco, 1979.
Portal Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco
Revista Exame, 1º de dezembro de 2025
WANDERLEY, Andrea C.T. Cronologia de Manoel Tondella in Brasiliana Fotográfica, 6 de janeiro de 2021.















