Há 200 anos, em 8 abril de 1824, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo da fragata Marie Théreze, que havia zarpado do porto de Toulon, na França, em fevereiro de 1824, o fotógrafo, desenhista, tipógrafo e naturalista francês Antoine Hercule Romuald Florence (1804 – 1879) (Diário do Rio de Janeiro, 9 de abril de 1824, segunda coluna). Viveu no Brasil entre 1824 e 1879, quando faleceu, em Campinas. Foi, certamente, um dos mais extraordinários estrangeiros que se estabeleceu no país, no século XIX, tendo sido o inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo.
Em 11 de agosto de 2023, o Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, anunciou a aquisição da coleção Cyrillo Hercules Florence, composta por aproximadamente 1.200 itens, que reúne a parte mais importante da obra e dos documentos do Hercule Florence. A coleção estava sob a guarda da família e foi reunida por seu neto, Cyrillo Hercules Florence (1901 – 1995).
Foi no livro de Florence, Livre d´annotations et les premiers matériaux, em 1834, que ele usou pela primeira vez o verbo photographier – cinco anos antes da palavra ser utilizada na Inglaterra, em 1839, por John Frederick William Herschel (1792-1871). Florence deixou uma descrição do procedimento adotado por ele para obter o registro fotográfico, em 1833.
Foi a partir da pesquisa e do teste realizados pelo professor Boris Kossoy (1941-), aos quais se seguiu a publicação de seu livro “1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1980), que Hercule Florence tornou-se conhecido internacionalmente. Convidamos vocês à leitura dos artigos O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo e Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas, já publicados na Brasiliana Fotográfica.
Foi publicado nos Anais do Museu Paulista, de dezembro de 2019, o artigo Revelando Hercule Florence, o Amigo das Artes: análises por fluorescência de raios X. A física Márcia de Almeida Rizzutto, coordenadora do NAP-Faepah, atestou, com a ajuda do método conhecido como fluorescência de raios X por dispersão de energia (ED-XRF) para detectar a presença de elementos químicos, que os manuscritos de Florence descrevem fielmente os processos de produção fotográfica por ele testados em 1833. Segundo Boris Kossoy, “é a comprovação física daquilo que já se sabia do ponto de vista químico”.
Nos dias 23 e 24 de maio de 2023, foi realizado no Instituto Moreira Salles, de São Paulo, o seminário internacional 190 anos dos experimentos fotográficos de Hercule Florence para celebrar o seu pioneirismo na descoberta dos processos fotográficos. Vários temas relacionados a Florence foram abordados durante o evento, mas o principal assunto do encontro foi a divulgação dos resultados das análises físico-químicas realizadas, em 2022, de três objetos do inventor, por meio de uma parceria inédita entre quatro instituições de três continentes: o IMS, o Instituto Hercule Florence (IHF), de São Paulo, Brasil; o Getty Conservation Institute (GCI), de Los Angeles, EUA; e o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, Portugal.
Nota da editora: havia dúvidas em torno da data de nascimento de Hercule Florence – seria 28, 29 de fevereiro ou 9 de março de 1804. O artigo Os nascimentos de Hercule Florence, publicado em de 2022 pelo Instituto Hercule Florence esclarece que a data de nascimento foi 28 de fevereiro de 1804 e a data de batizado 29 de fevereiro de 1804. A data 9 de março foi aventada a partir de um erro de leitura de William Luret, ex-jornalista da Radio Montecarlo. Como os artigos Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas e O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo haviam sido publicados na Brasiliana Fotográfica em 17 de junho de 2015 e em 7 de março 2017, respectivamente, portanto antes das dúvidas em relação à data de nascimento de Florence terem sido dirimidas, constava como data de seu nascimento 29 de fevereiro de 1804, como o próprio havia escrito em seu diário. Segundo Thierry Thomas, historiador belga que se debruçou sobre vida e obra de Florence, o artista pode não ter se enganado. “Hercule, de verdade, não se engana totalmente. Muitas pessoas no passado, consideravam o dia do batismo como o dia de nascimento. Pode ser também que ele só consultou o registro de batismo e não o registro de nascimento”. As correções já foram realizadas e explicadas nos artigos mencionados.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Leia aqui o artigo Hercule Florence e “a arte de inventar”; as mobilizações da memória, de autoria de Maria InezTurazzi, no site Instituto Hercule Florence




