Vapor, ferro e álcool: 120 anos da Cooperativa Alcoólica da Bahia. Um retrato fotográfico da industrialização baiana
Diana Santos*
Quando se pensa na Bahia das primeiras décadas do século XX, é comum imaginar engenhos, canaviais e uma economia ainda fortemente ligada a estruturas agrárias tradicionais. As fotografias da Cooperativa Alcoólica da Bahia, preservadas no acervo da Fundação Biblioteca Nacional, entretanto, revelam outra paisagem: um universo de chaminés, caldeiras, correias de transmissão, oficinas mecânicas e trabalhadores especializados que testemunham a rápida incorporação de tecnologias industriais ao setor açucareiro. O xarope dos velhos engenhos transformava-se em álcool industrial.
Fundada em 1906, na cidade de Santo Amaro, coração da zona açucareira baiana, a Cooperativa surgiu como iniciativa do Sindicato Açucareiro da Bahia, reunindo proprietários de engenhos e usinas da região e o Banco Comercial da Bahia. A empresa tornou-se uma das mais modernas destilarias do país, equipada com maquinário francês e inglês, geradores de eletricidade e sistemas de refrigeração. A usina alcançou uma produção diária de milhares de litros de álcool e de aguardente. Desenvolveu fortemente o espírito industrial, constituindo-se em um dos principais expoentes da modernização industrial baiana do início do século XX.
O conjunto de 11 fotografias apresenta diferentes dimensões desse empreendimento. As imagens externas registram os edifícios administrativos e industriais, revelando uma arquitetura funcional, marcada pela simplicidade das construções e pela presença dominante da chaminé, símbolo da industrialização. Em uma das vistas, a torre da fábrica ergue-se acima das demais edificações, antecipando visualmente a escala do maquinário encontrado no interior da usina.
Outras fotografias conduzem o observador para dentro do complexo industrial. Tanques, colunas de destilação, tubulações e estruturas metálicas ocupam quase toda a composição, enquanto figuras humanas aparecem reduzidas diante da monumentalidade das máquinas. A opção do fotógrafo por enquadramentos frontais e simétricos reforça a ideia de ordem, eficiência e controle técnico — valores frequentemente associados ao discurso do progresso industrial naquele período.
Particularmente expressiva é a imagem do escritório da administração. Nela, alguns homens posam em torno de uma mesa de trabalho, cercados por móveis, relógios e instrumentos que remetem à organização burocrática necessária para gerir um empreendimento de grande porte. A fotografia complementa a narrativa técnica da fábrica ao evidenciar que a modernidade industrial dependia não apenas de máquinas, mas também de novas formas de administração e controle.
As oficinas e a tanoaria revelam outro aspecto fundamental da Cooperativa: sua capacidade de manter uma infraestrutura própria para reparos e produção de vasilhames. Nas imagens, barris em diferentes estágios de fabricação dividem espaço com ferramentas, peças mecânicas e operários, registrando atividades indispensáveis para o armazenamento e transporte dos produtos. Esses ambientes mostram que a usina funcionava como um complexo produtivo integrado, onde o trabalho da madeira, do metal e da química industrial coexistiam em um mesmo espaço.
Além do conteúdo histórico, as fotografias possuem significativo valor documental enquanto objetos materiais. Impressas em gelatina de prata e montadas individualmente em cartões ornamentados, seguem um padrão comum aos álbuns institucionais e empresariais do início do século XX, concebidos para demonstrar prosperidade, eficiência e capacidade tecnológica. Mais do que simples registros, eram instrumentos de representação corporativa destinados a divulgar uma imagem de modernidade e progresso.
Esse conjunto, de autoria desconhecida, foi doado à Biblioteca Nacional pelo Dr. Armando Fragoso, em agosto de 1937, juntamente com outros documentos fotográficos relacionados à Bahia. Os títulos das imagens foram transcritos de anotações manuscritas registradas no verso dos cartões originais.
Premiada na Exposição Nacional de 1908 e também na Exposição Internacional de Bruxelas, em 1910, a Cooperativa Alcoólica da Bahia buscava afirmar-se como símbolo do desenvolvimento econômico regional. A grandiosa destilaria teve suas atividades encerradas em 1935, quando seu valioso maquinário foi desligado. Mais tarde, suas instalações seriam ressignificadas pela indústria no Recôncavo Baiano.
Essas fotografias preservam não apenas a memória de uma empresa, mas também os vestígios visuais de uma transformação econômica que alterou profundamente a paisagem do Recôncavo Baiano. Ao observar cada detalhe — das construções aos trabalhadores, das caldeiras aos barris — o visitante encontra um retrato singular do momento em que a tradição açucareira baiana passou a dialogar com a engenharia, a eletricidade e a indústria moderna.
Sobre as fontes:
Premiações e outros registros das atividades da Cooperativa e de seus gerentes mais proeminentes da firma Magalhães & Cia. foram recuperados nos periódicos disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira. As primeiras notícias tratam das premiações obtidas na Exposição Nacional de 1908, registradas no Almanak Laemmert, enquanto as mais recentes datam do início da década de 1940, quando as instalações da antiga Cooperativa Alcoólica da Bahia já se encontravam sob a administração do Instituto do Açúcar e do Álcool.
O livro Impressões do Brazil no Seculo Vinte (originalmente intitulado Impressions of Brazil in the Twentieth Century), um volume monumental de 1.080 páginas publicado em 1913 e impresso na Inglaterra pela Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd. oferece um panorama detalhado das condições socioeconômicas do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A obra constitui fonte indispensável para a contextualização histórica da Cooperativa Alcoólica da Bahia, fornecendo os detalhes técnicos e administrativos da empresa que permitem compreender a dimensão e a modernidade dos documentos fotográficos aqui apresentados.
*Diana Ramos é curadora do portal Brasiliana Fotográfica e Chefe da Seção de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional.
Fontes:
LLOYD, Reginald (dir.). Impressões do Brazil no seculo vinte: sua historia, seu povo, commercio, industrias e recursos. Londres: Lloyd’s Greater Britain Publishing Company Limited, 1913. p. 893.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:
A ILLUSTRAÇÃO BRAZILEIRA. Rio de Janeiro: Sociedade Anonyma O Malho, ano 4, n. 34, jun. 1923. p. 188.
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/107468/7555
ALMANAK LAEMMERT: administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Companhia Typographica do Brazil, 1909. nº 66, p. 2350-2373.
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/313394/38991
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/313394/38995
A NOITE. Rio de Janeiro: [s.n.], ano 18, n. 6.018, 20 ago. 1928. p. 8.
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/348970_02/23552
BRASIL AÇUCAREIRO. Rio de Janeiro: O Instituto, ano 1, n. 17, 5 ago. 1933. p. 38-39.
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/002534/688
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Recife: Diário de Pernambuco, ano 99, n. 61, 15 mar. 1923. p. 5.
http://memoria.bn.gov.br/DocReader/029033_10/8579
DIARIO DO PIAUHY: orgão official dos poderes do estado. Teresina: [s.n.], ano 1, n. 32, 1911. p. 2.

