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	<title>Brasiliana Fotográfica &#187; Jeca Tatu</title>
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		<title>Os &#8220;Instantâneos Cruéis&#8221; de Monteiro Lobato</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Nov 2021 17:44:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Andrea Wanderley]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[O contato de Monteiro Lobato com as pesquisas realizadas por cientistas de Manguinhos em suas expedições pelo Brasil, no início do século XX, em especial a viagem feita pelos sanitaristas Belisário Penna e Arthur Neiva, em 1912, impactaram a obra do escritor. Fotografias, batizadas por Lobato de "instantâneos cruéis", que retratavam a fome, a miséria e as doenças do povo brasileiro, faziam parte dessas pesquisas, que influenciaram a mudança da concepção de um de seus famosos personagens, o "Jeca Tatu", e fez com que ele se engajasse numa campanha pelo saneamento do país: "O Jeca não é assim: está assim". O pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fundação Oswaldo Cruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica conta essa história no artigo "Os Instantâneos Cruéis de Monteiro Lobato".]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O contato de Monteiro Lobato (1882 &#8211; 1948) com as pesquisas realizadas por cientistas de Manguinhos em suas <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=8684">cinco expedições científicas pelo Brasil, no início do século XX</a>, em especial a viagem de cerca de sete meses feita pelos sanitaristas <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=12777">Belisário Penna (1868 &#8211; 1939)</a> e Arthur Neiva (1885 &#8211; 1945), em 1912, entre o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul, impactaram a obra do escritor.</p>
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<div style="width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5094" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/5094/IOC_V_ii_0227.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="700" height="494" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5094" target="_blank">José Teixeira. Expedição do Instituto Oswaldo Cruz ao Nordeste e Centro Oeste : acampamento dos membros da expedição, entre eles Belisário Penna e Arthur Neiva (2° e 3° à esquerda), 1912. Piauí / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fotografias produzidas por José Teixeira, fotógrafo da expedição, batizadas por Lobato de <em>instantâneos cruéis</em> em seu artigo <em>O problema do saneamento &#8211; O início da ação</em> (<em>O Estado de São Paulo</em>, 12 de maio de 1918, página 3, terceira coluna <em><strong>(1)</strong></em>), que retratavam a fome, a miséria e as doenças do povo brasileiro, faziam parte dessas pesquisas, que influenciaram a mudança da concepção de um de seus famosos personagens, o <em>Jeca Tatu</em>, e fez com que Lobato se engajasse numa campanha pelo saneamento do país: <em>O Jeca não é assim: está assim &#8211; </em>epígrafe de seu livro<em> Problema Vital,</em> publicado em fins de 1918, reunindo a série de artigos que havia escrito para o jornal <em>O Estado de São Paulo</em> no referido ano. Redefiniu o perfil do <em>Jeca Tatu</em>. Se em seus artigos de 1914 &#8211; <em>Velha Praga</em> e <em>Urupês</em> &#8211; o <em>Jeca</em> era definido a partir de sua natureza racial ou genética, agora eram as péssimas condições de saúde e higiene as causadoras da característica de indolência atribuída ao personagem.</p>
<p>Seu diagnóstico do Brasil havia se modificado, o saneamento das áreas rurais poderia transformar a realidade. A mudança de seu pensamento ancorava-se em sua crença otimista em relação à ciência. O pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fundação Oswaldo Cruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica conta essa história no artigo <em>Os Instantâneos Cruéis de Monteiro Lobato</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_26207" style="width: 375px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://monteirolobato.com/linha-do-tempo/" target="_blank"><img class="size-full wp-image-26207" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/lobatofoto.jpg" alt="Monteiro Lobato / Site monteirolobato.com" width="365" height="359" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://monteirolobato.com/linha-do-tempo/" target="_blank">Monteiro Lobato / Site Monteiro Lobato</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>As fotografias e negativos remanescentes das cinco expedições realizadas entre 1911 e 1913 pelo Insituto Oswaldo Cruz, com aproximadamente 1700 itens, foram produzidos por câmeras grandes, pesadas, que utilizavam negativos de gelatina seca sobre base de vidro no formato 13 x 18 centímetros. Sobre os fotógrafos conhece-se apenas dois, o já citado José Teixeira, que acompanhou a expedição Penna-Neiva, e <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=22230http://">João Stamato (1886-1951)</a>, cinegrafista do Rio de Janeiro´, na década de 1910, que documentou a expedição aos Vales dos Rios São Francisco e Tocantins, em 1911.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="width: 359px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6122" target="_blank"><img class="" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/6122/IOC_V_II_0444.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="349" height="475" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6122" target="_blank">José Teixeira, fotógrafo dos instantâneos cruéis durante a expedição Penna-Neiva, 1912 / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #800000;"><strong><em>Os Instantâneos Cruéis de Monteiro Lobato</em></strong></span></p>
<p style="text-align: center;"> Ricardo Augusto dos Santos*</p>
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<div style="width: 711px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6515" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/6515/BP-06-TP-03-V1-011.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="701" height="505" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6515" target="_blank">José Teixeira. Doentes no sertão &#8211; Expedição Penna-Neiva, 2 de junho de 1912 / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi em 1987 que tomei conhecimento da obra adulta de Monteiro Lobato (1882-1948). Naquele ano, a Casa de Oswaldo Cruz contratou-me para trabalhar no projeto de organização de fontes e publicação do álbum fotográfico<em> </em><a href="https://static.scielo.org/scielobooks/5vx2d/pdf/intituto-9788575413074.pdf"><em>A Ciência a Caminho da Roça</em></a>.</p>
<p>Que fontes eram essas? Tratava-se de um conjunto de imagens realizadas durante <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=19524">cinco expedições científicas efetuadas entre 1911 e 1913</a> pelo Instituto Oswaldo Cruz. Essas viagens produziram relatórios, registros e fotografias, que descreviam as condições de vida nas regiões visitadas. Era esse material que uma equipe organizava, pesquisava e preparava a edição do texto.</p>
<p>Depois das primeiras reuniões com o grupo responsável pela produção do volume, atraído em estudar a ideologia nacionalista, encontrei o livro <em>Problema Vital <strong>(2)</strong>, </em>de Lobato. Publicado, em 1918, essa obra reúne 14 artigos veiculados no jornal <em>O Estado de São Paulo</em> daquele ano. Nestes textos, Lobato comentava sobre os problemas sociais do Brasil. Em determinado trecho, o autor falava de modo enfático sobre as imagens produzidas pelo fotógrafo José Teixeira durante uma dessas expedições científicas, a viagem liderada por Belisário Penna e Arthur Neiva. Segundo Lobato, as fotografias eram <strong><em>instantâneos cruéis</em></strong> que possuiriam força para alterar o diagnóstico do país.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/discover?rpp=10&amp;page=3&amp;query=%22Jos%C3%A9+Teixeira%22&amp;group_by=none&amp;etal=0" target="_blank"><strong>Acessando o link para as fotografias de autoria de José Teixeira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.</strong></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_26195" style="width: 778px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5094" target="_blank"><img class="wp-image-26195 size-large" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/detalhe1-1024x413.jpg" alt="detalhe" width="768" height="310" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5094" target="_blank">Belisário Penna e Arthur Neiva durante expedição científica, em 1912, no Piauí. Detalhe da fotografia de José Teixeira</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas, que <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=13880">cinco viagens foram essas</a>? Entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, Astrogildo Machado (1885 &#8211; 1945) e Antônio Martins (18?-19?), respectivamente pesquisador e farmacêutico do Instituto Oswaldo Cruz, percorreram os vales do São Francisco e do Tocantins com os técnicos da Estrada de Ferro Central do Brasil, responsáveis por estudos para um prolongamento que, a partir de Pirapora, deveria alcançar a cidade de Belém, no Pará.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5102" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/5102/IOC%28AC-E%2911-114%20%281%29.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="702" height="489" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5102" target="_blank">João Stamato. Expedição aos vales dos rios São Francisco e Tocantins. Membros da Expedição, 1911. Vale do Tocantins / Acervo Casa de Oswaldo Cruz / Astrogildo Machado está sentado com as mãos entrelaçadas</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>A serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=13402">Carlos Chagas  (1878-1934)</a>, Antonio Pacheco Leão (1872 – 1931) e <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=13446">João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936)</a> inspecionaram parte da bacia amazônica, no período de outubro de 1912 a março de 1913.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5096" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/5096/IOC_V_II_0330.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="700" height="498" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5096" target="_blank">Expedição do Instituto Oswaldo Cruz ao Amazonas e Acre: Carlos Chagas e Pacheco Leão na Amazônia, 1913. São Gabriel da Cachoeira, Rio Negro, Amazonas / Acervo Casa de Oswaldo Cruz / Carlos Chagas está no centro do grupo e Pacheco Leão está a sua direita</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entre março a outubro de 1912, a serviço da Inspetoria das Obras contra a Seca, três expedições exploraram o Nordeste e o Centro-Oeste do Brasil. Para o Ceará e o norte do Piauí, dirigiram-se <a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=13446">João Pedro de Albuquerque (1874 &#8211; 1934)</a> e José Gomes de Faria (18? &#8211; 1962). Adolfo Lutz (1855 &#8211; 1940) e Astrogildo Machado desceram o Rio São Francisco de Pirapora até Juazeiro, visitando alguns de seus afluentes. Das cinco expedições científicas deste período, a viagem de Arthur Neiva e Belisário Penna foi a mais longa, percorrendo em trens, cavalos e burros, quatro mil quilômetros entre o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul.</p>
<p>Em 1916, o diário da jornada foi publicado no periódico <em>Memórias do Instituto Oswaldo Cruz</em> com as fotos obtidas durante o trajeto. Este documento registrava em detalhes a miséria em que viviam as populações. Em um dos textos reunidos em <em>Problema Vital</em>, Lobato refere-se às fotos da expedição Penna-Neiva, ao falar de idéias capazes de mudar a realidade:</p>
<p><em>“A idéia do saneamento é uma. Bastou que a ciência experimental, após a série de <strong>instantâneos cruéis</strong> que o diário de viagem de Artur Neiva e Belisário Penna lhe pôs diante dos olhos, propalasse a opinião do microscópio, e esta fornecesse à parasitologia elementos para definitivas conclusões, bastou isso para que o problema brasileiro se visse, pela primeira vez, enfocado sob um feixe de luz rutilante. E instantaneamente vimo-la evoluir para o terreno da aplicação prática. E a idéia-força caminha avassaladoramente. Avassaladoramente e consoladora, porque o nosso dilema é este: ou doença ou incapacidade racial. É preferível optarmos pela doença.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Problema Vital.</em> Monteiro Lobato, 1918</p>
<div style="width: 538px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/10268" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/10268/IOC_V_II_0742.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="528" height="727" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/10268" target="_blank">José Teixeira. Mulher com bócio &#8211; Expedição Penna-Neiva, setembro de 1912. Goiás / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>As expedições científicas deixaram marcas profundas no pensamento de seus participantes e, posteriormente, influenciaram os intelectuais que tiveram acesso aos relatórios e às fotografias. Para Lobato, o diário da viagem Penna-Neiva foi um documento revelador dos reais problemas do país. Inclusive, a partir do texto repleto das imagens cruéis, Lobato e um dos personagens criados por ele, o <em>Jeca Tatu,</em> sofreriam uma metamorfose.</p>
<p>O contato de Lobato com o diário provocou uma mudança de perspectiva do escritor a respeito do camponês. Quando surgiu o personagem, em 1914, em pequeno artigo jornalístico, o <em>Jeca Tatu</em> era um retrato pessimista do camponês do Vale do Paraíba. Naquela conjuntura, Lobato estava alinhado com o pensamento dominante na passagem do século XIX para o XX, adotando as teorias cientificistas para refletir a nacionalidade brasileira. Entre os primeiros anos do século, o determinismo biológico era hegemônico no Brasil.</p>
<p>Em 1918, entretanto, Lobato assumiria outro ponto de vista. Certamente, um dos fatores que propiciaram a mudança está no encontro de Lobato com o diário e, especialmente, com os <em>Instantâneos Cruéis</em>. Seu diagnóstico do Brasil foi se alterando. Doravante, o saneamento das áreas rurais poderia transformar a realidade. Como o personagem <em>Jeca</em> se transformou?</p>
<p>Nascido como alegoria do trabalhador rural, em artigo escrito em 1914<em>, Jeca Tatu</em> tornou-se sinônimo de homem do campo. Inclusive, através de sua narrativa, uma empresa de produtos farmacêuticos difundiu um tônico, propagando os seus valores terapêuticos, chegando a circular em milhões de exemplares do folheto <em>Jeca Tatuzinho</em> distribuído colado ao “<em>fortificante</em>”. A presença do símbolo do homem da roça em campanhas de educação higiênica, especialmente as direcionadas ao controle das endemias rurais, ajudou a popularizar os cuidados com a higiene individual e a saúde pública nas primeiras décadas do século.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6124" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/6124/IOC_V_II_0515.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="702" height="481" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6124" target="_blank">José Teixeira. Escola &#8211; Expedição Penna-Neiva. São Raimundo Nonato, PI / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caricatura do caipira brasileiro, o <em>Jeca</em> é um dos mais conhecidos personagens de nossa cultura. De caboclo preguiçoso e indolente à vítima da doença, a trajetória do matuto desenvolvido por Lobato está relacionada ao papel conferido às políticas de saúde pública e educação para o desenvolvimento econômico do país. Trata-se de uma das representações sociais da identidade nacional, em que se articula o retrato doente da sociedade, especialmente dos trabalhadores rurais, à regeneração do povo por meio da ação do Estado.</p>
<p>Portanto, a série de artigos compilados em livro (1918) evidenciam uma mudança de perspectiva do caboclo brasileiro<em>.</em> Naquela altura de sua trajetória, Lobato estava influenciado pelo conjunto de teorias científicas surgidas na Europa. Criado como símbolo do camponês, <em>Jeca Tatu</em> estava ancorado no racismo científico ainda dominante. Para as idéias cientificistas, o clima, a localização geográfica e a raça determinavam a evolução e hierarquia das sociedades humanas.</p>
<p>Lobato denunciava uma corrente de interpretação ufanista dos elementos culturais nacionais, atribuindo ao <em>Jeca</em>, espécie degenerada em sua origem mestiça indígena e portuguesa, e adaptada ao ambiente natural, a responsabilidade pelos problemas do universo rural. Esse primeiro<em> Jeca</em> era incapaz de participação no trabalho do mundo moderno.</p>
<p>Contudo, o enfoque mudaria. Surgiria um segundo <em>Jeca</em>. E o diagnóstico seria outro. Se o determinismo biológico representava um problema grave, uma herança nociva, o saneamento poderia transformar cientificamente a realidade. No livro <em>Problema Vital</em>, encontramos um Lobato entusiasta da microbiologia e parasitologia.</p>
<p>A primeira aparição do <em>Jeca</em> data de novembro de 1914, no texto <em>Velha Praga <strong>(3)</strong></em>, no qual Lobato se insurgia contra as queimadas de roça e descrevia o modo de vida dos camponeses. Nesta obra, aparecem os nomes de <em>Manoel Peroba</em>, <em>Chico Marimbondo</em> e <em>Jeca Tatu</em>.</p>
<p>Porém, segue-se um novo artigo com o título de <em>Urupês <strong>(4)</strong></em>, onde Lobato fornece um panorama do sertanejo e seu modo de vida, em oposição a uma literatura que exaltava romanticamente o homem rural como um guerreiro imbatível. Para Lobato, então fazendeiro no interior paulista, a explicação para a apatia e a incapacidade produtiva do <em>Jeca</em> encontrava-se nas facilidades de sobrevivência proporcionadas pela mandioca, milho e cana:<em> </em></p>
<p><em>“Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Urupês</em>, Lobato(1914)</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6126" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/6126/IOC_V_II_0682.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="702" height="514" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/6126" target="_blank">José Teixeira. Fornecimento de água &#8211; Expedição Penna-Neiva, março de 1912 . Estrada de Ferro Bahia &#8211; São Francisco, BA / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1918, Lobato lançou o livro <em>Urupês <strong>(5)</strong></em>, reunindo contos, incluindo os artigos <em>Velha Praga</em> e <em>Urupês</em>. Nestas páginas militantes, Lobato critica o caboclo modorrento e o ufanismo que identificava o Brasil como um paraíso. No entanto, Lobato estava progressivamente participando da campanha pelo saneamento das áreas rurais. Ele estava em contato com os médicos Arthur Neiva, Belisário Penna, Renato Kehl e demais membros do movimento sanitarista. Assim, nascia um novo <em>Jeca</em>: o <em>Jeca</em> dos artigos reunidos em <em>Problema Vital</em>.</p>
<p>Esse segundo <em>Jeca</em> padecia das mesmas enfermidades, mas após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser apático; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos. Esta narrativa foi publicada com o título de<em> Jeca Tatu. A Ressurreição</em>. Conhecida como <em>Jeca Tatuzinho</em>, chegou a milhões de exemplares através do <em>Almanaque de Produtos Farmacêuticos Fontoura</em>.</p>
<p>Mas, se a personagem mudava, o seu criador também mudaria. Em meados dos anos 40, surgiria um terceiro <em>Jeca</em>: o <em>Zé Brasil</em>. Este <em>Jeca</em> não era preguiçoso. Nem doente, mas um trabalhador explorado. A figura do caipira nacional aparecia pela terceira vez na literatura<em> lobatiana</em>. Neste momento, superando a intolerância em relação ao primeiro <em>Jeca</em> (<em>Velha Praga</em> e <em>Urupês</em>) e o paternalismo presente em relação ao segundo, o <em>Jeca Tatuzinho</em>. Como entendermos a mudança do primeiro para o segundo <em>Jeca</em>? Algumas respostas podem ser buscadas nos já citados artigos publicados em <em>O Estado de S. Paulo </em>e reunidos no <em>Problema Vital</em>, por decisão da Sociedade de Eugenia de São Paulo e da Liga Pró-Saneamento do Brasil.</p>
<p>Se em <em>Urupês</em> e <em>Velha Praga</em> (1914) Lobato atribuía preponderância às teses raciais e climáticas para a pobreza, chegando a culpar o trabalhador do campo por sua condição, nos artigos redigidos quatro anos mais tarde, refletia sobre a questão nacional do saneamento. É através de uma explicação científica que Lobato, preocupado com a reprodução da força de trabalho improdutiva, mudaria a sua concepção do caipira. A ineficiência do <em>Jeca</em> não era devido à inferioridade racial, mas sim um problema sanitário. A epígrafe do livro <em>Problema Vital</em> traduz a ideia: <em>O Jeca não é assim, está assim</em>. O caboclo é pobre porque é doente e assim não produz. A mudança de concepção passava pela crença otimista de Lobato na ciência.</p>
<p>De raça e clima, o problema que inviabilizava a construção da nação deslocou-se para a doença que passou a ser considerada a origem de todos os males.<strong> </strong>O <em>Jeca</em> permanecia incapaz, porém encontrava-se vitimado pelas doenças. No futuro, a ciência o absolveria da sua incapacidade. A educação o capacitaria para a vida e trabalho. A parasitologia, a bacteriologia e a microbiologia libertariam seu corpo dos agentes patogênicos. A higiene o protegeria dos micro-organismos.</p>
<p>Lobato continuava a atacar a visão ufanista e romantizada do campo. Todavia, chamando a atenção para a realidade dos sertões e associando a verdadeira realidade com as fotos. Lobato usaria com frequência as representações metafóricas das imagens fotográficas.</p>
<p>Contemporâneo do processo de modernização que pretendia transformar a sociedade brasileira nas primeiras décadas do século passado, Lobato lançou um olhar crítico sobre sua época. Constantemente, demonstrava crença no progresso e na ciência como verdade única e totalizante. As fotografias veiculadas no relatório causariam um grande impacto, ao revelarem um Brasil doente e pobre que vivia à margem da civilização que as cidades do litoral, em particular a capital da República, supunham personificar. Embora quase todas as fotos sejam fortes documentos das condições e modos de vidas das populações camponesas, até hoje, as imagens de doentes causam grande impacto.</p>
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<div style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/9335" target="_blank"><img src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/9335/BP%28F-VPP%294-14.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="702" height="482" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/9335" target="_blank">José Teixeira. Doentes &#8211; Expedição Penna-Neiva, setembro de 1912. Asilo de São Francisco de Paula, Goiás / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
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<p><em>“Nós, se fôramos poetas, escreveríamos um poema trágico com a descrição das misérias, das desgraças dos nossos infelizes sertanejos abandonados. A poesia das paisagens e dos panoramas ficaria apagada pela tragédia, pela desolação e pela miséria dos infelizes habitantes sertanejos, nossos patrícios. Aos nossos filhos, que aprendem nas escolas que a vida simples de nossos sertões é cheia de poesia e de encantos, pela saúde de seus habitantes, pela fartura do solo e generosidade da natureza, ficariam sabendo que nessas regiões se desdobra mais um quadro infernal, que só poderia ser mais magistralmente descrito pelo DANTE imortal.”</em></p>
<p style="text-align: right;">Belisário Penna e Arthur Neiva.</p>
<p style="text-align: right;">Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, 1916.</p>
<p><em> </em></p>
<div style="width: 480px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/10267" target="_blank"><img class="" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/bitstream/handle/20.500.12156.1/10267/IOC_V_II_0736.jpg.jpg?sequence=3&amp;isAllowed=y" alt="Thumbnail" width="470" height="646" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/10267" target="_blank">José Teixeira. Doente com bócio &#8211; Expedição Penna-Neiva, 1912. Santa Rita do Rio Preto, Bahia / Acervo Casa de Oswaldo Cruz</a></p></div>
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<div id="attachment_26199" style="width: 389px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/jeca.jpg"><img class="size-full wp-image-26199" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/jeca.jpg" alt="Capa do Folheto" width="379" height="506" /></a><p class="wp-caption-text">Capa do folheto que acompanhava o Biotônico Fontoura</p></div>
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<p><strong> </strong></p>
<p>*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz</p>
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<p><span style="color: #800000;"><strong>Indicação Bibliográfica:</strong></span></p>
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<p>DOS SANTOS, Ricardo Augusto<em>. Lobato, os Jecas e a Questão Racial no Pensamento Social Brasileiro. Revista Achegas. </em>Número 7, maio de 2003. <a href="http://www.achegas.net/numero/sete/ricardo_santos.htm">http://www.achegas.net/numero/sete/ricardo_santos.htm</a></p>
<p>DOS SANTOS, Ricardo Augusto. <em>O Plano de Educação Higiênica de</em> <em>Belisário Penna</em>: 1900-1930. Dynamis. 2012, vol. 32, n. 1, pp. 45-68.<a href="https://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0211-95362012000100003&amp;lng=es&amp;nrm=iso">https://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0211-95362012000100003&amp;lng=es&amp;nrm=iso</a></p>
<p>THIELEN,Eduardo Vilela; ALVES, Fernando Antonio Pires; BENCHIMOL, Jaime Larry;ALBUQUERQUE, Marli Brito de; DOS SANTOS, Ricardo Augusto; WELTMAN, Wanda Latmann. <em>A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. </em> 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2018.</p>
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<p><span style="color: #800000;"><strong>Notas da editora:</strong></span></p>
<p><em><strong>(1)</strong> </em>- Artigo <em>O problema do saneamento &#8211; O início da ação</em>, publicado no <em>O Estado de São Paulo</em> de 12 de maio de 1918, quando Monteiro Lobato usa a exxpressão <em>instantâneos cruéis</em>.</p>
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<p><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento1.jpg"><img class=" size-full wp-image-26208 aligncenter" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento1.jpg" alt="saneamento1" width="292" height="499" /></a></p>
<p><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento2.jpg"><img class=" size-full wp-image-26209 aligncenter" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento2.jpg" alt="saneamento2" width="291" height="539" /></a></p>
<p><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento3.jpg"><img class=" size-full wp-image-26210 aligncenter" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/saneamento3.jpg" alt="saneamento3" width="298" height="513" /></a></p>
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<p><em><strong>(2)</strong></em> &#8211; Artigo <em>Problema Vital</em>, de Lima Barreto, sobre os livros <em>Urupês</em> e <em>Problema Vital</em>, publicado na <a href="http://memoria.bn.br/DocReader/351130/296"><em>Revista Contemporânea</em> de 22 de fevereiro de 1919</a>.</p>
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<div id="attachment_26202" style="width: 342px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/351130/296" target="_blank"><img class="wp-image-26202 size-full" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/problemavital.jpg" alt="problemavital" width="332" height="494" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/351130/296" target="_blank"><em>Revista Contemporânea</em>, 22 de fevereiro de 1919</a></p></div>
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<div style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.redalyc.org/journal/3373/337345746009/html/" target="_blank"><img src="https://www.redalyc.org/journal/3373/337345746009/337345746009_gf2.png" alt="Figura 1:" width="393" height="569" /></a><p class="wp-caption-text">Primeira edição do livro <em>Problema Vital</em>, lançado em fins de 1918</p></div>
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<p><em><strong>(3)</strong></em> O artigo <em>Velha Praga</em>, de autoria de Monteiro Lobato, foi publicado em 12 de novembro de 1914, no jornal <em>O Estado de São Paulo, </em>na página 3, quinta coluna. Pela primeira vez, <em>Jeca Tatu</em> foi citado.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #800000;"><strong><em>Velha Praga</em></strong></span></p>
<p><em>Andam todos em nossa terra por tal forma estonteados com as proezas infernais dos belacíssimos “vons” alemães, que não sobram olhos para enxergar males caseiros.</em></p>
<p><em>Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico.</em></p>
<p><em>Em agosto, por força do excessivo prolongamento do inverno, “von Fogo” lambeu montes e vales, sem um momento de tréguas, durante o mês inteiro.</em></p>
<p><em>Vieram em começos de setembro chuvinhas de apagar poeira e, breve, novo “verão de sol” se estirou por outubro adentro, dando azo a que se torrasse tudo quanto escapara à sanha de agosto.</em></p>
<p><em>A serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa, e é hoje um cinzeiro imenso, entremeado aqui e acolá, de manchas de verdura – as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas salvas a tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais é crepe negro.</em></p>
<p><em>À hora em que escrevemos, fins de outubro, chove. Mas que chuva caínha! Que miséria d’água! Enquanto caem do céu pingos homeopáticos, medidos a conta-gotas, o fogo, amortecido mas não dominado, amoita-se insidioso nas piúcas,a fumegar imperceptivelmente, pronto para rebentar em chamas mal se limpe  o céu e o sol lhe dê a mão.</em></p>
<p><em>Preocupa à nossa gente civilizada o conhecer em quanto fica na Europa por dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas. As velhas camadas de humus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralizado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para piora do clima com a agravação crescente das secas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado pela falta de pastos; as cento e uma particularidades que dizem respeito a esta ou aquela zona e, dentro delas, a esta ou aquela “situação” agrícola.</em></p>
<p><em>Isto, bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar ninguém soma&#8230;</em></p>
<p><em>É peculiar de agosto, e típica, esta desastrosa queima de matas; nunca, porém, assumiu tamanha violência, nem alcançou tal extensão, como neste tortíssimo 1914 que, benza-o Deus, parece aparentado de perto com o célebre ano 1000 de macabra memória. Tudo nele culmina, vai logo às do cabo, sem conta nem medida. As queimas não fugiram à regra.</em></p>
<p><em>Razão sobeja para, desta feita, encarnarmos a sério o problema. Do contrário a Mantiqueira será em pouco tempo toda um sapezeiro sem fim, erisipelado de samambaias – esses dois términos à uberdade das terras montanhosas.</em></p>
<p><em>Qual a causa da renitente calamidade?</em></p>
<p><em>E mister um rodeio para chegar lá.</em></p>
<p><em>A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro como o “Argas” o é aos galinheiros ou o “Sarcoptes mutans” à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do “Porrigo decalvans”, o parasita do couro cabeludo produtor da “pelada”, pois que onde ele assiste<a name="_ftnref2"></a> se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, núa e descalvada. Em quatro anos, a mais ubertosa região se despe dos jequitibás magníficos e das perobeiras milenárias – seu orgulho e grandeza, para, em achincalhe crescente, cair em capoeira, passar desta à humildade da vassourinha e, descendo sempre, encruar definitivamente na desdita do sapezeiro – sua tortura e vergonha.</em></p>
<p><em>Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a picapau<a name="_ftnref3"></a><a href="https://queimadas.dgi.inpe.br/~rqueimadas/material3os/mlobato.htm#_ftn3"><sup>]</sup></a> e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.</em></p>
<p><em>É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele armar a sua arapuca de “agregado; nômade por força de vago atavismos, não se liga à terra, como o campônio europeu “agrega-se”, tal qual o “sarcopte”, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para diante com a mesma bagagem com que ali chegou.</em></p>
<p><em>Vem de um sapezeiro para criar outro. Coexistem em íntima simbiose: sapé e caboclo são vidas associadas. Este inventou aquele e lhe dilata os domínios; em troca o sapé lhe cobre a choça e lhe fornece fachos para queimar a colméia das pobres abelhas.</em></p>
<p><em>Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito, outro de sete anos à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento – Brinquinho, a foice, a enxada, a picapau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pévas e um galo índio. Com estes simpes ingredientes, o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.</em></p>
<p><em>Acampam.</em></p>
<p><em>Em três dias uma choça, que por eufemismo chamam casa, brota da terra como um urupê. Tiram tudo do lugar, os esteios, os caibros, as ripas, os barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e a palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas palhoças com a terra local, que dariam idéia de coisa nascida do chão por obra espontânea da natureza – se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias.</em></p>
<p><em>Barreada a casa, pendurado o santo, está lavrada a sentença de morte daquela paragem.</em></p>
<p><em>Começam as requisições. Com a picapau o caboclo limpa a floresta das aves incautas. Pólvora e chumbo adquire-os vendendo palmitos no povoado vizinho. É este um traço curioso da vida do caboclo e explica o seu largo dispêndio de pólvora; quando o palmito escasseia, raream os tiros, só a caça grande merecendo sua carga de chumbo; se o palmital se extingue, exultam as pacas: está encerrada a estação venatória.</em></p>
<p><em>Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau. Árvores diante de cuja majestosa beleza Ruskin choraria de comoção, ele as derriba, impassível, para extrair um mel-de-pau escondido num ôco.</em></p>
<p><em>Pronto o roçado, e chegado o tempo da queima, entra em funções o isqueiro. Mas aqui o “sarcopte” se faz raposa. Como não ignora que a lei impõe aos roçados um aceiro de dimensões suficientes à circunscrição do fogo, urde traças para iludir a lei, cocando dest’arte a insigne preguiça e a velha malignidade.</em></p>
<p><em>Cisma o caboclo à porta da cabana.</em></p>
<p><em>Cisma, de fato, não devaneios líricos, mas jeitos de transgredir as posturas com a responsabilidade a salvo. E consegue-o. Arranja sempre um álibi demonstrativo de que não esteve lá no dia do fogo.</em></p>
<p><em>Onze horas.</em></p>
<p><em>O sol quase a pino queima como chama. Um “sarcopte” anda por ali, ressabiado. Minutos após crepita a labareda inicial, medrosa, numa touça mais seca; oscila incerta; ondeia ao vento; mas logo encorpa, cresce, avulta, tumultua infrene e, senhora do campo, estruge fragorosa com infernal violência, devorando as tranqueiras, estorricando as mais altas frondes, despejando para o céu golfões de fumo estrelejado de faíscas.</em></p>
<p><em>É o fogo-de-mato!</em></p>
<p><em>E como não o detém nenhum aceiro, esse fogo invade a floresta e caminha por ela a dentro, ora frouxo, nas capetingas  ralas, ora maciço, aos estouros, nas moitas de taquaruçú; caminha sem tréguas, moroso e tíbio quando a noite fecha, insolente se o sol o ajuda.</em></p>
<p><em>E vai galgando montes em arrancadas furiosas, ou descendo encostas a passo lento e traiçoeiro até que o detenha a barragem natural dum rio, estrada ou grota noruega.</em></p>
<p><em>Barrado, inflete para os flancos, ladeia o obstáculo, deixa-o para trás, esgueira-se para os lados – e lá continua o abrasamento implacável. Amordaçado por uma chuva repentina, alapa-se nas piúcas, quieto e invisível,  para no dia seguinte, ao esquentar do sol, prosseguir na faina carbonizante.</em></p>
<p><em>Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo?</em></p>
<p><em>Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva qualquer, de barba rala, amoitado num litro de terra litigiosa.</em></p>
<p><em>E agora? Que fazer? Processá-lo?</em></p>
<p><em>Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é “tocá-lo”.</em></p>
<p><em>Curioso este preceito: “ao caboclo, toca-se”.</em></p>
<p><em>Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala. E tão afeito anda ele a isso, que é comum ouví-lo dizer: “Se eu fizer tal coisa o senhor não me toca?”</em></p>
<p><em>Justiça sumária – que não pune, entretanto, dado o nomadismo do paciente.</em></p>
<p><em>Enquanto a mata arde, o caboclo regala-se.</em></p>
<p><em>-       Êta fogo bonito!</em></p>
<p><em>No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes são um jacú abatido, uma paca fisgada n’água ou o filho novimensal, a queimada é o grande espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos ouvidos.</em></p>
<p><em>Entrado setembro, começo das “águas”, o caboclo planta na terra em cinzas um bocado de milho, feijão e arroz; mas o valor da sua produção é nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de chão ele semeou.</em></p>
<p><em>O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cincoenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano. Calcula as sementeiras pelo máximo da sua resistência às privações. Nem mais, nem menos. “Dando para passar fome”, sem virem a morrer disso, ele, a mulher e o cachorro – está tudo muito bem; assim fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada que naquele momento brinca nua no terreiro.</em></p>
<p><em>Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica a tapera e o sapezeiro. Um ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do <strong>Jéca Tatú</strong> ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em><strong>(4)</strong></em> &#8211; O artigo <em>Urupês</em>, que deu nome ao livro de contos lançado em 1918, foi publicado no jornal <em>O Estado de São Paulo</em>, de 23 de dezembro de 1914, na página 6, quinta coluna.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #800000;"><strong><em>Urupês</em></strong></span></p>
<p><em>Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.</em></p>
<p><em>Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.</em></p>
<p><em>Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.</em></p>
<p><em>Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.</em></p>
<p><em>A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.</em></p>
<p><em>Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…</em></p>
<p><em>Não morreu, todavia.</em></p>
<p><em>Evoluiu.</em></p>
<p><em>O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.</em></p>
<p><em>Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.</em></p>
<p><em>Estes setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.</em></p>
<p><em>Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!</em></p>
<p><em>Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.</em></p>
<p><em>É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!</em></p>
<p><em>Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.</em></p>
<p><em>Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.</em></p>
<p><em>Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.</em></p>
<p><em>Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.</em></p>
<p><em>Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.</em></p>
<p><em>A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.</em></p>
<p><em>Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…</em></p>
<p><em>Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.</em></p>
<p><em>Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.</em></p>
<p><em>Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.</em></p>
<p><em>– “Não vê que…</em></p>
<p><em>De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.</em></p>
<p><em>De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.</em></p>
<p><em>Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.</em></p>
<p><em>Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.</em></p>
<p><em>Pobre J’[eca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!</em></p>
<p><em>Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…</em></p>
<p><em>Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.</em></p>
<p><em>Nada Mais.</em></p>
<p><em>Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.</em></p>
<p><em>Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.</em></p>
<p><em>Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?</em></p>
<p><em>Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?</em></p>
<p><em>No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.</em></p>
<p><em>Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.</em></p>
<p><em>Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.</em></p>
<p><em>Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.</em></p>
<p><em>Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.</em></p>
<p><em>Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.</em></p>
<p><em>Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.</em></p>
<p><em>Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…</em></p>
<p><em>Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.</em></p>
<p><em>Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.</em></p>
<p><em>– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?</em></p>
<p><em>– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?</em></p>
<p><em>Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.</em></p>
<p><em>Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.</em></p>
<p><em>Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.</em></p>
<p><em>Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…</em></p>
<p><em>– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”</em></p>
<p><em>Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.</em></p>
<p><em>– “Não paga a pena”.</em></p>
<p><em>Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.</em></p>
<p><em>Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.</em></p>
<p><em>Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.</em></p>
<p><em>Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.</em></p>
<p><em>Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.</em></p>
<p><em>Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.</em></p>
<p><em>Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.</em></p>
<p><em>Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.</em></p>
<p><em>O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.</em></p>
<p><em>Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.</em></p>
<p><em>Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.</em></p>
<p><em>Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.</em></p>
<p><em>Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.</em></p>
<p><em>O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.</em></p>
<p><em>O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.</em></p>
<p><em>Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.</em></p>
<p><em>– “O homem que manda em nós tudo?</em></p>
<p><em>– “Sim.</em></p>
<p><em>– “Pois de certo que há de ser o imperador.</em></p>
<p><em>Em matéria de civismo não sobe de ponto.</em></p>
<p><em>– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…</em></p>
<p><em>Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.</em></p>
<p><em>Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.</em></p>
<p><em>A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.</em></p>
<p><em>Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.</em></p>
<p><em>Doenças hajam que remédios não faltam.</em></p>
<p><em>Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…</em></p>
<p><em>Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.</em></p>
<p><em>O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.</em></p>
<p><em>Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.</em></p>
<p><em>Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.</em></p>
<p><em>O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.</em></p>
<p><em>Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.</em></p>
<p><em>Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém- nascido.</em></p>
<p><em>A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.</em></p>
<p><em>Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.</em></p>
<p><em>Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.</em></p>
<p><em>A idéia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.</em></p>
<p><em>Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.</em></p>
<p><em>E na arte?</em></p>
<p><em>Nada.</em></p>
<p><em>A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.</em></p>
<p><em>No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.</em></p>
<p><em>Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.</em></p>
<p><em>Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.</em></p>
<p><em>Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambú. É tudo.</em></p>
<p><em>Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.</em></p>
<p><em>Dirão: e a modinha?</em></p>
<p><em>A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.</em></p>
<p><em>O caboclo é soturno.</em></p>
<p><em>Não canta senão rezas lúgubres.</em></p>
<p><em>Não dança senão o cateretê aladainhado.</em></p>
<p><em>Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.</em></p>
<p><em>Não compõe sua canção, como o felá do Egito.</em></p>
<p><em>No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.</em></p>
<p><em>Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.</em></p>
<p><em>Só ele, no meio da tanta vida, não vive…</em></p>
<p><em><span style="color: #000000;"><strong>(5) </strong></span>O livro Urupês foi lançado em 1918 (<a href="http://memoria.bn.br/DocReader/189740/2337">Vida Moderna, 11 de julho de 1918</a>;<a href="http://memoria.bn.br/DocReader/178691_04/39898"> O Paiz, 14 de agosto de 1918, terceira coluna</a>). No mesmo ano foi lançada uma segunda edição (<a href="http://memoria.bn.br/DocReader/259063/31068">Fon-Fon, 21 de setembro de 1918</a>).</em></p>
<p><em> </em></p>
<div id="attachment_26198" style="width: 282px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Urup%C3%AAs_(livro)#/media/Ficheiro:Urup%C3%AAs_capa_(1918).jpeg" target="_blank"><img class="size-full wp-image-26198" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/urupes.jpg" alt="Capa da primeira edição do livro Urupês, de Monteiro Lobato, com ilustração de " width="272" height="417" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Urup%C3%AAs_(livro)#/media/Ficheiro:Urup%C3%AAs_capa_(1918).jpeg" target="_blank">Capa da primeira edição do livro Urupês, de Monteiro Lobato, com ilustração de José Wasth Rodrigues (1891 &#8211; 1957)</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_26203" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/urupesarua13718.jpg"><img class="wp-image-26203 size-full" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/urupesarua13718.jpg" alt="urupesarua13718" width="702" height="270" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/236403/6624" target="_blank"><em>A Rua</em>, 13 de julho de 1918</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/259063/30961" target="_blank"><img class="  wp-image-26205 aligncenter" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/lobato-1024x451.jpg" alt="lobato" width="768" height="338" /></a></p>
<div id="attachment_26206" style="width: 590px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/259063/30961" target="_blank"><img class="wp-image-26206 size-full" src="https://brasilianafotografica.bn.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/lobato1.jpg" alt="lobato1" width="580" height="193" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="http://memoria.bn.br/DocReader/259063/30961" target="_blank"><em>Fon-Fon</em>, 7 de setembro de 1918</a></p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Reunia os artigos <em>Velha Praga</em> e <em>Urupês</em>, ambos, como já mencionado, publicados no <em>O Estado de São Paulo</em>, em 1914, além de mais 12 contos, escritos entre 1915 e 1917: <em>O estigma</em>, <em>Bocatorta</em>, <em>O mata-pau</em>, <em>Bucólica</em>, <em>Meu conto de Maupassant</em>, <em>A colcha de retalhos</em>, <em>Pollice Verso</em>, <em>O engraçado arrependido, Um suplício moderno, O comprador de fazendas, Os faroleiros</em> e<em> A Vingança da Peroba. </em>A maior parte dos contos já havia sido publicado na <em>Revista do Brasil</em>, lançada em janeiro de 1916 e adquirida por Lobato em junho de 1918.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Andrea C. T. Wanderley</p>
<p>Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica</p>
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